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Instituto Teológico São Tomás de Aquino

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A catedral de Chartres

ChartresRaphaël Six – 3º Ano de Teologia

As maravilhosas catedrais góticas são, sem dúvida, alguns dos mais belos frutos oferecidos pelo Cristianismo à civilização. Nascida num período turbulento, mas também extremamente fecundo, a arte dos godos difundiu-se da Europa para o mundo inteiro. Seus idealizadores tinham como objetivo levar os homens até o seu Criador, proporcionando-lhes, por meio do esplendor, da beleza e mesmo da magnificência, a possibilidade de experimentar uma forma de contato com Ele.

Temos de concordar que aqueles antigos artistas foram sumamente felizes em seu intento.

Podemos encontrar em quase toda a Europa bons exemplares dessas obras-primas de engenharia e arte. Na França, por exemplo, há algumas de rara beleza. Partindo de Paris rumo a sudoeste, antes de percorrer noventa quilômetros já contemplaremos à distância as duas torres altaneiras da catedral de Chartres, distintas e belas, elevando-se graciosamente em meio aos ondulantes campos de trigo.

Esse monumental edifício gótico, construído no século XIII, guarda uma inestimável relíquia, a qual atrai constantemente peregrinos do mundo inteiro: a chamada Sancta Camisia, uma túnica que pertenceu à Santíssima Virgem Maria e que, segundo a tradição, foi oferecida à cidade pelo imperador Carlos Magno.

Chartres2O seu imponente pórtico, como também os dois transeptos, são ornados por numerosas imagens de santos, esculpidas com extrema delicadeza, numa infinidade de detalhes impossíveis de serem absorvidos numa única visita. No interior do exuberante templo, causam profunda impressão as enormes colunas que se erguem do chão e terminam num delicado encontro, formando ogivas.

Porém, o que talvez mais tenha empolgado as sucessivas gerações de visitantes que através dos séculos buscaram Chartes são os seus incomparáveis vitrais.

A luz do astro-rei atravessa suavemente os vidros desse recinto sagrado, fazendo em seu seio brilharem as mais formosas figuras. Vivas cores e encantadoras formas refletem-se nas austeras paredes, numa magnífica multiplicidade de tonalidades que parecem continuamente pintar o ambiente.

Esses vitrais são um catecismo vivo: ora expõem uma passagem da vida dos santos, ora de algum personagem bíblico. Mostram assim uma continuidade entre os profetas que anunciavam a vinda do Messias e os santos que proclamaram sua glória com os exemplos de suas vidas.

E não apenas um catecismo. Os admiráveis vitrais de Chartres são também um afetuoso apelo espiritual: assim como essas cristalinas obras de arte se deixam transpor pelos raios do sol, recebendo cada qual um aspecto ímpar, também nós devemos permitir que a luz de Deus possa penetrar e refletir-se em nossas almas, fazendo nelas frutificar com abundância o preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

ARAUTOS DO EVANGELHO. Set. 2007. n. 69.

O pincel da sublimidade e da temperança

Iván Daniel Tefel Amador (3º Ano de Teologia)

Catedral FriburgoGótico, vitrais, escolástica… A sonoridade deste conjunto de palavras harmônicas ilustra-nos na mente uma era histórica, que sem ser a ideal, foi em muitas coisas exemplar. Entretanto, esta não surgiu por geração espontânea, pelo contrário, frutificou de um processo soprado pelo Espírito Santo.

De fato, estudando a História da Igreja, comprovamos a importância e providencialidade do Império Romano, pois estendendo-se e dominando uma grande parte do mundo civilizado, favoreceu grandemente a expansão do Cristianismo nascente. Com a decadência deste “Colosso” e a invasão dos bárbaros, as expectativas humanas a respeito da continuidade da civilização, da cultura e do próprio Corpo Místico de Cristo, foram abaladas. Porém, os planos insondáveis de Deus fizeram surgir dentro deste caos – como um lírio puríssimo que nasce do lodo, na noite e sob a tempestade – uma civilização, fruto do preciosíssimo sangue derramado no Calvário.

Desabrocha então, no seio da Igreja, uma noção muito ampla do amor a Deus, fonte de toda beleza e um modo de ver a santidade, donde se entende que a prática dos Mandamentos, sobretudo do primeiro, leva o homem a querer implantar o verum, bonum e pulchrum neste vale de lágrimas, para que tudo se torne semelhante ao Céu. Daí as ordens religiosas, constituídas para praticar a perfeição espiritual e o desapego dos bens materiais, estarem na origem de inúmeras maravilhas que ornaram aquele lírio imaculado de que falávamos.

Angelico

Na Ordem fundada por São Domingos – no decorrer de sua existência quase milenar – surgiram muitíssimos luminares como São Tomás de Aquino, São Pio V, Santa Catarina de Sena, etc. Dentro dessa constelação, sobressai pelo seu brilho intenso e atraente o bem-aventurado Fra Angélico, citado por Pio XII como “o santo religioso e sumo artista”, e que com toda justiça é considerado o pintor católico por excelência.

Tendo nascido no fim do século XIV, e vivido a maior parte da sua vida no período da Renascença, o Beato Angélico – cujo nome era Guido de Fiésole, e mais tarde, João de Fiésole ao entrar na ordem dominicana – foi um artista caracteristicamente medieval.

Iniciou seu caminho na ordem dos pregadores por volta de 1420 e, pouco tempo depois, recebeu a Ordenação sacerdotal. “Entre 1439 e 1445 fez parte da comunidade dominicana de S. Marcos, em Florença, sendo prior Santo Antonino”.[1] Aí, encheria de seus afrescos todos os ambientes que o circundavam: o claustro, a sala capitular, os corredores e até as celas do convento, pois ele era trocado periodicamente, e assim, todas elas ficaram “angélicas”.

Mais tarde foi chamado a Roma, pelo Papa Eugênio IV, a fim de pintar uma capela em S. Pedro e outra no Palácio Vaticano. Posteriormente, foi proposto como Arcebispo de Florença, mas ele recusou e sugeriu seu queridíssimo prior Antonino, o qual se tornou de fato prelado dessa importante cidade da Itália. Anos depois, o religioso-artista, tornou-se prior em Fiésole. Posteriormente, voltou à Cidade Eterna, para morar no convento de Santa Maria Sopra Minerva, onde, depois de uma vida de perfeição, completou seus dias.

Em 3 de Outubro de 1982, foi beatificado pelo Servo de Deus João Paulo II.

Passados dois anos de sua beatificação, numa reunião do Ano Santo para os artistas, o Santo Padre comentou a respeito dele: “Com toda a sua vida cantou a glória de Deus, que trazia como tesouro na profundidade do seu coração e exprimia nas obras de arte. Fra Angélico permaneceu na memória da Igreja e na história da cultura, como extraordinário religioso- artista”.[2]

Apesar de sua intensa vida de ação, Fra Angélico possuía uma alma contemplativa muito privilegiada. A tradição conta-nos que a Rainha dos Anjos lhe aparecia no momento em que era retratada, fato que explica o inefável sobrenatural de suas numerosas pinturas sobre a Virgem Maria.

Além destes fenômenos místicos extraordinários, o Beato pintor possuía uma vida interior riquíssima. Sobressaiam entre as suas virtudes, a temperança e a admiração pelo sobrenatural, o que se projeta nos celestiais personagens por ele pintados. Seria sensato imaginar nosso bem-aventurado monge meditando horas prolongadas e até dias dentro do mosteiro – estando na capela ou andando no jardim, ou ainda recolhido na sua cela austera – os mistérios da Nossa Fé e as cenas que iria retratar, esquadrinhando não só os detalhes minuciosos que se notam nas suas pinturas, mas, sobretudo o imponderável metafísico e mais alto do episódio.

“Olhar para o Beato Angélico é olhar para um modelo de vida em que a arte se revela como caminho que pode levar à perfeição cristã: ele foi religioso exemplar e grande artista” (Idem). Portanto, um homem muito virtuoso que sempre procurou – através da arte pictórica – píncaros, ideais, pulcritudes, inclusive nas menores coisas.

Rei da pintura, ele é também mestre do feérico, atribuindo esplendor insuperável aos mínimos detalhes de seus quadros, a ponto de deixar o espectador encantado e preste à contemplação de suas pinturas, que por sua vez o levam à contemplação das sublimidades celestes.

Cheio de dons sobrenaturais, as habilidades naturais não lhe eram alheias. Explicam-nos os estudiosos que ele mesmoCoroaçao Fra Angelico fabricava as tintas que usava. Triturando pedras semipreciosas e misturando-as com outras substâncias, obtinha as melhores cores de sua extraordinária palheta. No entanto, ciente de ser este mundo um vale de lágrimas, cheio de pormenores desinteressantes, banais, ou mesmo esteticamente desagradáveis, o Beato Angélico soube criar um modo de atenuá-los e de torná-los pitorescos. De onde seus personagens, de certo modo, transcendem às fraquezas de nossa natureza decaída e se nos figuram quase sem marca do pecado original.

As suas pinturas são um fiel reflexo das almas arquetípicas que fizeram da Idade Média uma época impar na Cristandade. São retratados homens para os quais esta vida é antecâmara da celestial; pessoas repletas de luz, de inocência e de leveza, que provavelmente se viam na sua época…

As representações da “Madonna” são reluzentes, dotadas de um fulgor vindo do interior e que ilumina todo o seu ser e dos que a rodeiam, assim como dos que a Ela se dirigem com fervor. Nos anjos estão presentes os contrastes da fortaleza com a suavidade de espírito, harmonizando-se dentro de uma temperança perfeita. Reflete-se neles um movimento de alma para o alto, prontos para elevar-se em suas “cogitações” a Deus. Enfim, os anjos, os santos, as virgens e tudo que Fra Angélico pintou, transbordam do aspecto sacral e místico, caracterizados – dentro da santidade – pela temperança, pela inocência e pela fortaleza.

Ora, só alguém que possuísse as mesmas virtudes, fruto da meditação e da contemplação, ou seja, da oração permanente, poderia representar de maneira tão perfeita tais seres. “Nele, a arte torna-se oração”.[3] Daí, podemos concluir que toda a arte que saía do impecável pincel do Beato Angélico, não era senão um espelho cristalino das maravilhas que possuía dentro da sua alma. E assim: “Cognominado Angélico pela bondade de sua alma e pela beleza de suas pinturas ‘Fra Giovanni da Fiésole’ foi sacerdote-artista, que soube traduzir em cores a eloquência da palavra de Deus”.[4]

 


[1] SANTOS DE CADA DIA. 2 ed. Braga. Vol. I, p. 205.

[2] in: www.vatican.va

[3] Idem, p.207.

[4] Idem.