ITTA – IFAT

Instituto Teológico São Tomás de Aquino

ITTA – IFAT - Instituto Teológico São Tomás de Aquino

As pedras preciosas do Céu…


Poucas coisas do mundo material nos convidam tanto a ascender à esfera superior dos princípios e das ideias, até mesmo a sonhar de olhos abertos, como as estrelas…

Filipe de Matos Oliveira Torres

Quantas vezes, afastados do corre-corre diário, numa noite com o céu límpido e longe das luzes da cidade, não nos encantamos contemplando o firmamento celeste repleto de estrelas que cintilam misteriosamente? E quantas vezes não tivemos vontade de apalpá-las, saber do que são feitas, por que reluzem de maneira tão atraente?

A ciência define as estrelas como corpos celestes produtores e emissores de energia, com luz própria. A física nos elucida que são compostas de plasma e que, por causa de sua pressão interna, produzem energia por fusão nuclear.

Aceitamos a explicação, mas ela não nos contenta. Será que aqueles pontinhos tão fascinantes, que parecem criados para os nossos olhos contemplá-los e nossos dedos tocá-los, se reduzem a uma confusa massa de gás incandescente?

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Desde tempos imemoriais, os astrônomos estudaram as estrelas, as agruparam em constelações e lhes deram nome; por elas se guiavam viageiros, navegantes e povos em ­suas locomoções. O homem sempre as contemplou, analisou e sonhou com elas… Mas nunca conseguiu transpor as distâncias incomensuráveis que delas nos separam.

*     *     *

Contudo, podemos dizer que Deus não criou estrelas apenas na abóbada celeste, mas também na Terra. Deu-lhes formas, tamanhos, cores e brilhos os mais variados, e não as pôs a distâncias incalculáveis, mas, pelo contrário, ao alcance da mão, onde podem ser  admiradas bem de perto. Falamos das pedras preciosas…

Ao longo da História, os povos utilizaram diamantes, safiras ou ametistas para prestar homenagem aos seus soberanos. Ao incrustá-las em um cetro, ou em uma coroa, visavam simbolizar a autoridade do governante e manifestar sua riqueza e poder.

E a Igreja Católica, procurando circundar o Rei dos reis com toda a glória que lhe é devida, “coroou-O” com aquilo que na Terra há de mais belo e digno. Por isso vemos as pedras preciosas bem próximas a Nosso Senhor Sacramentado nos cálices e ostensórios, ou incrustadas em crucifixos e relicários, postas em destaque nos altares e imagens e em outros lugares de honra.

Trata-se da criatura louvando o Criador, do efeito que retorna à Causa. Uma vez que recebemos de Deus tantos benefícios devemos usá-los para adornar Seu culto com aquilo que de melhor Ele nos deu.

*    *    *

As pedras preciosas têm, ainda, graças à sua beleza e distinção, a possibilidade de simbolizar a maior e mais bela joia de Deus, Maria Santíssima, chamada no Ave Mundi de gemma cæli luminarium — joia entre as estrelas que refulgem no Céu.

E, de fato, o luminoso azul da safira ou o aveludado nácar da pérola não nos ajudam a compreender quem foi a um tempo Mãe e Virgem, criatura e Mãe do Criador, capaz de conter em si Aquele que o universo foi incapaz de conter?

Pensando bem em todo este elevado simbolismo, quase seríamos levados a dizer que não são as pedras preciosas estrelas da Terra, mas, sim, são as estrelas as pedras preciosas do céu…

ARAUTOS DO EVANGELHO, maio 2009, n. 89.

As solenes pompas da natureza

A alma humana é aquilo que admira. Será pela contemplação enlevada dos diversos cerimoniais da natureza que algo da grandeza divina do Criador penetrará em nossos corações.

Lucas Garcia Pinto

Quem parar um pouco para observar os fenômenos climáticos ou geológicos, com facilidade notará que nada do que se passa na natureza apresenta traços de intemperança, agitação ou precipitação. Nada sugere ao espectador frenesi ou abalo de temperamento. Pelo contrário, Deus pôs na ordem da criação tal sobriedade, tal majestade, tal solenidade, que se poderia dizer haver nesses fenômenos um cerimonial do universo, renovado a cada dia.

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Ainda em se tratando de algo violento, como um vulcão em erupção, ou uma tempestade em alto-mar, o cenário é de pompa e nobreza.

Aquela coluna de fumaça do vulcão, que parece subir ao Céu como o incenso oferecido a Deus pela natureza, é sucedida pelo magma ígneo que escorre, encosta abaixo, solene, avassalador e… terrível.

Na tempestade, nuvens escuras toldam o firmamento, enquanto relâmpagos coruscam pelo horizonte, e trovões ameaçadores compõem o fundo musical deste grandioso espetáculo de cólera. De uma cólera majestosa e imponente.

Em resposta ao céu, o mar lança ao alto suas ondas, como que desafiando o firmamento. O rugido das vagas responde ao estrondo dos trovões. E o mar descarrega sua fúria sobre as rochas e penhascos, que lhe fazem resistência, defrontando com altivez a força das águas revoltas.

Magníficos reflexos da justiça divina!

Já nos pores-do-sol, é a bondade indizível do Criador que se manifesta com particular brilho e riqueza. Bem se entende o motivo pelo qual certos povos com veio contemplativo mais acentuado — como o indiano, por exemplo — se extasiam cada dia diante dos magníficos entardeceres. Com tanta exuberância se apresenta este fenômeno nas praias da misteriosa e atraente Índia, que famílias inteiras cobrem as areias para, quiçá, ouvir intuitivamente a mensagem que Deus quer lhes transmitir através das multicolores vestimentas do céu.

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Diz-se que o homem é aquilo que come. Com mais propriedade, pode-se dizer que a alma humana é aquilo que admira. Será pela contemplação enlevada desses diversos cerimoniais da natureza que algo da grandeza divina do Criador penetrará em nossos corações.

A Santíssima Virgem e a Nova Evangelização

Marcos Eduardo Melo dos Santos

Ao longo dos séculos, de acordo com o sopro do Espírito Santo e os embates contra as heresias, o conhecimento da Santíssima Virgem aprofundou-se em três aspectos primordiais: cristológico, espiritual e eclesiológico.

É verdade que desde a primavera da Igreja estas três formas de considerar a Mariologia subsistiram concomitantemente, mas, cada uma delas reluziu com maior ou menor intensidade.12599 copy

Durante as lutas para estabelecer as sublimes verdades sobre a divindade e a humanidade de Cristo, o aspecto cristológico da devoção a Nossa Senhora se consolidou sobretudo em Éfeso, no ano de 431, com a proclamação de Maria como Mãe de Deus. Deste dogma fundamental para a Mariologia, sucederam-se a declaração de sua tríplice virgindade, sua conceição imaculada e sua assunção aos céus. Em fim, todos os privilégios da Santíssima Virgem foram ressaltados em razão da cristologia, convenientes a Maria em razão de seu Divino Filho.

Por outro lado, a partir da época de ouro da Patrística, a devoção a Nossa Senhora foi consolidada com novo fermento dos santos medievais e modernos ocupando progressivamente um papel central na vida espiritual de todo católico. As grande aparições de Maria durante os século XIX e XX, assim como a canonização de santos marianos, lograram o aprofundamento da espiritualidade mariana, de seu papel junto a cada fiel, como medianeira amorosa e “infalível”, capaz de salvar o cristão de todos os apuros da existência.

Dir-se-ia que o conhecimento de Maria atingia assim seu ponto culminante, porém, a partir da época pré-conciliar, Ela passou a ser considerada por muitos teólogos em sua função social no Corpo Místico de Cristo; primeiro como corredentora e por fim como medianeira universal de todas as graças. Assim a mariologia clamava um aprofundamento no âmbito eclesiológico.

E de fato, os teólogos do Vaticano II, seguindo o impulso patrístico consideraram a mariologia como eclesiologia. A Igreja é virgem e mãe, é concebida sem pecado e carrega o peso da história, sofre como Mãe das Dores, e, no entanto, já foi assunta ao céu[1]. No desenvolvimento sucessivo da eclesiologia, a Igreja é antecipada em Maria, em Maria é personificada e que, reciprocamente, a Santíssima Virgem não é considera somente como Mãe do Redentor, mas como trazendo em si todo o mistério da Igreja[2]. Assim, a antiga visão patrística de Maria como imagem da Igreja foi recuperada pelo Vaticano II. A Lumen Gentium finaliza-se com a proclamação de Maria como Mãe da Igreja[3].

A Santíssima Virgem intervem na História. Sua ação é percebida especialmente a partir da Idade Média, quando um processo de descristianização irrompeu sobre o ocidente. Especialmente em nosso tempo, Maria ampara a Igreja com seu maternal olhar e assim beneficia a Nova Evangelização através de sua mediação universal e onipotente.


[1] Cf. RATZINGER, Joseph. Iglesia, ecumenismo y política. Madrid: BAC, 2005. p. 6

[2] Cf. RAHNER, Hugo. Our Lady and the Churrch. Bethesda:  Zaccheus Press, 2004.

[3] Cf. LG 66-69

A ressurreição: artigo de fé

Emílio Portugal Coutinho

Muito raras são as pessoas que não tenham passado pela dolorosa experiência de perder um ente querido. Os cerimoniais fúnebres, marcados pela cor roxa ou negra, embora voltados ao respeito e à memória daquele que se foi, inevitavelmente tornam ainda mais pungentes os momentos da suprema despedida.

O drama de um falecimento e a incerteza que ele traz, fazem surgir a inquietante pergunta: “O que há depois da morte?”

Com efeito, todos os povos, desde os primórdios da Humanidade, alimentaram a crença de que haveria algo no além-túmulo. As dolorosas separações seriam momentâneas, e num futuro misterioso, em certo lugar desconhecido, os homens haveriam de se reencontrar.

Soluções falsas ou equivocadas dos antigos e pagãos

Ao longo da História, as mais diversas civilizações e culturas buscaram solução para esse enigma. Os antigos egípcios acreditavam que a alma ficaria peregrinando por um tempo indefinido, após o qual retornaria ao corpo, e este, portanto, deveria ser conservado. Com esse fim, eles aperfeiçoaram a técnica do embalsamamento, e até hoje suas múmias, em perfeito estado de conservação, podem ser vistas em museus.

A rica imaginação grega criou o orfismo. Segundo este, como punição de um crime primordial, a alma era encerrada no corpo tal qual numa prisão, e a morte podia ser o começo de uma verdadeira vida. Após o falecimento, as almas se dirigiam ao Hades, onde bebiam das águas do rio Lete, a fim de esquecer suas existências terrenas. A alma que não estivesse quite com suas culpas regressava ao mundo para reencarnar-se. O orfismo chegou, ainda com muita vitalidade, até os primeiros séculos da Era Cristã. Em seguida, foi-se apagando lentamente.

Além dessas, surgiram muitas outras explicações, como o panteísmo e o espiritismo. Por fim, o materialismo, negando pura e simplesmente a vida sobrenatural, deixa um vácuo de resposta a uma das mais antigas questões humanas.

A resposta cristã nos é bem conhecida, com os destinos eternos da alma bem definidos, quer seja no Céu, contemplando o Criador, quer seja no inferno, sofrendo os castigos inerentes à condição de inimigo de Deus.

Mas com relação ao corpo, companheiro da alma em sua jornada terrestre, que será feito dele?

A ressurreição e a doutrina cristã

Santo Agostinho defende que “não há doutrina da fé cristã combatida com tanta veemência como a da ressurreição da carne”. Entretanto, poucas verdades da nossa fé são tão claramente afirmadas tanto nas Sagradas Escrituras quanto pelos autores dos primeiros séculos. O ensinamento sobre a ressurreição dos corpos tem a condição de dogma, ou seja, artigo de fé a respeito do qual não pode caber qualquer dúvida.EASTER SUNDAY Fra_Angelico_019

Contudo, não faltou quem se tenha atrevido a negá-la. Os gentios a rechaçavam como uma fábula nova e inacreditável. Contestaram-na também os saduceus e, entre os primeiros cristãos, Himeneo e Fileto, os quais São Paulo refuta em sua primeira Epístola a Timóteo (cap. II). A estes podem somar-se os gnósticos, maniquieus e priscilianistas, que tiveram por sequazes, na Idade Média, os albigenses e valdenses. Em nossos dias os protestantes liberais e os racionalistas se empenham em negar este dogma católico, por considerá-lo incompatível com certas razões filosóficas. Contra toda esta torrente de heresias, a Igreja apresenta o depósito precioso da Revelação e a segura voz de seus concílios.

Podemos nos apoiar em declarações históricas, como por exemplo, o Credo dos Apóstolos, também chamado de Nicéia; o Credo do XI Concílio de Toledo; o Credo de Leão IX, ainda usado nas consagrações dos bispos; a profissão de fé do II Concílio de Lyon; o Decreto do IV Concílio de Latrão, contra os albigenses. Ademais, este artigo de fé toma por base a crença já existente no Antigo Testamento e os ensinamentos do Novo Testamento, além da Tradição Cristã.

A ressurreição nas Escrituras

As Sagradas Escrituras trazem abundantes e claras referências à ressurreição final dos corpos. O profeta Daniel afirma: “Muitos daqueles que dormem no pó da terra despertarão, uns para uma vida eterna, outros para a ignomínia, a infâmia eterna” (Dn 12, 2). A palavra “muitos”, aqui, não significa que alguns não ressuscitarão. Ela deve ser entendida à luz do seu sentido em outras passagens (como em Is 53, 11-12; Mt 26, 28; Rm 5, 18-19).

A visão de Ezequiel sobre a planície coberta de ossos secos que foram reordena

“O ensinamento sobre a ressurreição dos corpos tem a condição de dogma, ou seja,

artigo de fé a respeito do qual não pode caber qualquer dúvida”

“Resurreição de Cristo”, detalhe do pórtico da Basílica de São Marcos, Veneza

dos e revivificados (Ez 37) refere-se diretamente à restauração de Israel, mas mostra como tal figura só poderia ser inteligível para ouvintes familiarizados com a crença na ressurreição. O profeta Isaías triunfante proclama: “Que os vossos mortos revivam! Que seus cadáveres ressuscitem! Que despertem e cantem aqueles que jazem sepultos, porque vosso orvalho é um orvalho de luz e a terra restituirá o dia às sombras” (Is 26, 19).

Finalmente, Jó, reduzido à extrema desolação, sente-se fortalecido pela sua fé na ressurreição: “Eu o sei: meu vingador está vivo, e aparecerá, finalmente, sobre a terra. Por detrás de minha pele, que envolverá isso, na minha própria carne, verei Deus. Eu mesmo O contemplarei, meus olhos O verão, e não os olhos de outro” (Jó 19, 25-27).

Já no Novo Testamento, após a morte de Lázaro, Marta manifesta sua crença: “Sei que [ele] há de ressurgir na ressurreição no último dia” (Jo 11, 24). Contundente, São Paulo não hesita em pôr a ressurreição final no mesmo nível de certeza da ressurreição de Cristo: “Ora, se se prega que Jesus ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns de vós que não há ressurreição de mortos? Se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1Cor 15, 12-14).

E por fim, supremo testemunho, o próprio Cristo Nosso Senhor não só supõe a ressurreição da carne como coisa bem sabida, mas também a defende contra os ataques dos saduceus: “Na ressurreição dos mortos, nem os homens tomarão mulheres, nem as mulheres, maridos, mas serão como os anjos de Deus no Céu. Mas, quanto à ressurreição dos mortos, não lestes no livro de Moisés como Deus lhe falou da sarça, dizendo: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó?’ Ele não é Deus de mortos, senão de vivos” (Mc 12, 25-27; Mt 22, 30-32). O Messias ainda iria declarar essa verdade em outras passagens (Jo 5, 28-29; 6,39-40; 11, 25; Lc 14,14).

A doutrina da ressurreição na Tradição cristã

Os Padres, Doutores e insignes teólogos seguiram com firmeza o reto caminho traçado pelo Divino Mestre. No século II, São Policarpo deu o apelido de primogênito de Satanás, ao que negue a ressurreição e o juízo1. Aristides afirma que os cristãos guardam os mandamentos porque esperam a ressurreição dos mortos2. Atenágoras escreveu um tratado inteiro sobre a ressurreição dos mortos, no qual demonstra primeiro a possibilidade da ressurreição, sua conveniência e necessidade; depois prova que o homem é imortal, já que é racional; e como, por outra parte, está composto de alma e corpo, ele não pode conseguir com perfeição seu fim e sua bem-aventurança se o corpo não voltar a se unir com a alma.

Santo Irineu ensina que nossos corpos, nutridos com o manjar eucarístico, recebem a semente da ressurreição3. No século III quem com mais brilho defendeu a ressurreição futura foi Tertuliano. Esta carne que Deus formou com suas mãos e segundo sua própria imagem, que animou com seu sopro à semelhança de sua vida (…) esta carne não ressuscitará? Esta carne que é de Deus a tantos títulos?4.

Um testemunho de Santo Agostinho: Ressuscitará esta carne, a mesma que é sepultada, a mesma que morre, esta mesma que vemos, que apalpamos, que tem necessidade de comer e de beber para conservar a vida; esta carne que sofre enfermidades e dores, esta mesma tem que ressuscitar, os maus para sempre penar, e os bons para que sejam transformados5.

* * *

Muito embora respaldada por tantos e tão sérios testemunhos, não deixa de ser uma maravilha imaginar que, num dia conhecido só pelo Altíssimo, ao toque das trombetas angélicas, milhões de corpos irão emergir das profundezas dos oceanos, surgir das entranhas da terra, e juntos, erguer os olhos ao Criador, que então irá separar os seus (cf. Mt 25, 31-33). ²

1) Ep. Ad Philip., VII, 1.

2) Migne, P. G., t. 96, col. 1121.

3) Id. ib., col. 1124.

4) Id., e. 2, col. 885.

5) Id., t. 38, col. 1231.

(ARAUTOS DO EVANGELHO, N. 75, Março 2008.)

A vigília pascal do Sábado de Aleluia ou Sábado Santo


Ítalo Santana Nascimento – 2º Ano de Teologia

No sábado santo honra-se a sepultura de Jesus Cristo e a sua descida à “mansão dos mortos”, e, depois do sinal do Glória, a sua gloriosa ressurreição.

A noite do sábado santo é especial e solene, é denominada também como Vigília Pascal. Antigamente era celebrada à meia-noite, no entanto, a Santa Sé autorizou que começasse após o anoitecer. Deve terminar antes da aurora do domingo.tLuk2334Dore_TheCrucifixion

É considerada “a mãe de todas as santas Vigílias”,[1] pois, a Igreja mantém-se de vigia à espera da Ressurreição do Senhor, e celebra-a com os sacramentos da iniciação cristã.

Esta noite é “uma vigília em honra do Senhor” (Ex 12, 42). Assim, ouvindo a advertência de Nosso Senhor no Evangelho (cf. Lc 12, 35), aguardamos o retorno, tendo nas mãos lâmpadas acesas, para que ao voltar nos encontre vigilantes e nos faça sentar à sua mesa.

O rito da vigília está dividido do seguinte modo:

1º – A celebração da luz;

2º – A meditação sobre as maravilhas que Deus realizou, desde o início, pelo seu povo;

3º – O nascimento espiritual de novos filhos de Deus através do sacramento do batismo;

4º – E por fim, a tão esperada comunhão pascal, na qual rendemos ação de graças a Nosso Senhor por sua gloriosa ressurreição, na esperança de que possamos, também nós, ressurgir para a vida eterna.


[1] Cf. S. Agostinho, Sermão 219: PL 38, 1088.

São Tomás de Aquino: a catedral do pensamento

Inácio de Araújo Almeida

saint-thomas-aquinas-10Corria o ano de 1248. A cidade de Colônia estava em festa. As autoridades religiosas e civis, bem como o piedoso povo, reuniram-se para pôr a pedra fundamental daquela que viria a ser a maior catedral gótica do mundo. E, no meio do numeroso clero, viam-se também dois frades de túnica branca e manto negro que há pouco haviam chegado da França. O mais velho se chamava Alberto, cognominado “Magno”. Era o mais sábio homem de seu tempo e a maior autoridade teológica do século. O simples fato de se enunciar nos meios acadêmicos a frase: “Albertus dixit[1], em muitos casos já era suficiente para encerrar uma discussão doutrinária.

Sobre o frade mais novo, pouco se sabia, a não ser que era discípulo de Alberto. Se não fosse sua elevada estatura e avantajado corpo que o destacavam dos demais, passaria quase despercebido no meio daquela multidão. Todavia, sob aquele hábito da mendicante ordem de São Domingos, ocultava-se um membro da mais alta nobreza italiana. Tinha ele por parentes próximos dois imperadores do Sacro Império Romano Alemão, Frederico II e Conrado VI. Contudo, o que lhe fez sair daquele aparente anonimato não foi o seu porte altaneiro e nem mesmo a sua elevada nobreza, mas sim a sua virtude e inteligência. Este jovem frade tornou-se um grande santo e um dos maiores gênios que o mundo viu nascer. Seu nome era Tomás de Aquino…

Com efeito, era do conhecimento de muitos o motivo que o trouxera a Colônia. Estava ali para auxiliar o seu mestre na fundação de um Studium Generale, que viria a ser o centro de estudos teológicos de sua ordem em terras alemãs. Porém, o que ninguém sabia, talvez nem ele mesmo, é que, nos vinte cinco anos seguintes, Tomás  construiria também um magnífico templo, tão sólido e duradouro como os alicerces da igreja de Colônia, que via nascer. Tomás edificaria um monumento de doutrina, fundamentado na fé e na razão. Tal monumento bem poderia ser chamado de “a catedral do pensamento cristão”…

O pequeno monge De Monte Cassino

O mundo o viu nascer no ano de 1225, no castelo de Roccasecca, próximo a Nápoles, na Itália. Dos sete filhos do conde Landolfo d’Aquino, Tomás era o mais novo. Aos cinco anos, foi enviado ao famoso Convento de Monte Cassino, para lá ser educado. Seu tio, Sunibaldo, era abade e encarregou-se de sua formação. Tudo indica que sua família também ansiava que ele viesse a ser o superior daquele prestigioso mosteiro.

Pouco se sabe deste período de sua vida, a não ser que o “pequeno monge”, ao percorrer o majestoso claustro daquela abadia, inquiria os religiosos sobre um tema que não saía da sua mente: “Que é Deus?”. Não passaram para a história as respostas proferidas. Contudo, parece certo dizer que ninguém lhe respondeu satisfatoriamente, pois, desde criança, ele fez dessa primeira indagação a força motriz que o impulsionaria a produzir a maior obra teológica de todos os tempos.

Ao ingressar na vida acadêmica, rapidamente destacou-se pela prodigiosa fecundidade de  pensamento. Esse doutor que mereceu ser chamado “Angélico”, foi um grande luzeiro posto por Deus no meio de sua Igreja, a fim de esclarecer, confortar e animar as almas pelos séculos futuros. Viveu apenas 49 anos, dedicando a metade de sua vida à nobre e árdua tarefa de ensinar nos mais importantes centros universitários da França, Itália e Alemanha.

Guilherme de Tocco, seu primeiro e principal biógrafo, afirmou que “nas aulas o seu gênio começou a brilhar de tal forma e a sua inteligência a revelar-se tão perspicaz, que repetia aos outros estudantes as lições dos mestres de maneira mais elevada, mais clara e mais profunda do que as tinha ouvido” [1].

São Tomás soube unir harmoniosamente a santidade com a genialidade, e a erudição com a virtude, a fim de produzir a maior obra teológica de todos os tempos. Durante os quase oito séculos que separam sua existência da nossa, foi ele sempre exaltado com eloquentes louvores pelos Papas, em termos não comuns em documentos pontifícios.

O Papa João XXII, em 1318, afirmou: “Ele sozinho iluminava a Igreja mais que os outros doutores. Lendo  seus livros um  homem aproveita mais em um ano do que durante toda a sua vida”[2]. São Pio V, em 1567, não foi menos categórico: “A Igreja fez dela a sua doutrina teológica, por ser a mais certa e a mais segura de todas”. E o Papa Leão XIII, em 1892, disse que “se se encontram doutores em desacordo com São Tomás, qualquer que seja o seu mérito, a hesitação não é permitida; sejam os primeiros sacrificados ao segundo”. Por sua vez, o Concílio Vaticano II aconselha que São Tomás seja seguido nos Seminários e nas Universidades católicas. O Papa Paulo VI, comentando esse fato, disse: “é a primeira vez que um Concílio Ecumênico recomenda um teólogo, e este é precisamente São Tomás de Aquino”.

As três catequeses de Bento XVI sobre São Tomás de Aquino

Seguindo os passos de seus predecessores, o Papa Bento XVI voltou a ressaltar a importância do pensamento de São Tomás de Aquino para o mundo contemporâneo. O Sumo Pontífice dedicou três de suas audiências semanais para abordar a vida, a obra e o pensamento do Doutor Angélico[3]. Em sua Catequese de 02 de junho de 2010, o Papa recordou as palavras de João Paulo II na Encíclica Fides et Ratio, onde ele afirma que o Angélico: “foi sempre proposto pela Igreja como mestre de pensamento e modelo quanto ao reto modo de fazer teologia”[4]. O atual Pontífice argumenta que não devemos nos surpreender que, depois de Santo Agostinho, entre os escritores eclesiásticos mencionados no Catecismo da Igreja Católica, São Tomás seja citado mais do que todos os outros. Em seguida, ele apresenta alguns traços da vida do Aquinate, ressaltando o providencial encontro do Angélico com o pensamento de Aristóteles.

Com efeito, no século XIII foram traduzidas para o latim diversas obras do Estagirita que até então eram completamente desconhecidas no ocidente cristão. Isto despertou nos meios acadêmicos não só admiração, mas também temor. A razão disto é que muitos dos ensinamentos de Aristóteles pareciam estar em desacordo com a doutrina revelada. São Tomás, então, se dedicou a comentar as principais obras de Aristóteles, procurando distinguir em seus escritos aquilo que era válido, daquilo que era duvidoso. Havia uma pergunta que intrigava muitos teólogos do seu tempo: poderia o pensamento cristão receber algum contributo da filosofia pagã? São Tomás respondeu: “Toda verdade, dita por quem quer que seja, vem do Espírito Santo” [5]·. Para São Tomás, o encontro com uma filosofia que era anterior ao próprio cristianismo não era propriamente um obstáculo à revelação, mas sim, abria uma nova perspectiva ao horizonte da fé. Vejamos as palavras do Pontífice: “A filosofia aristotélica era, obviamente, uma filosofia elaborada sem conhecimento do Antigo e do Novo Testamento, uma explicação do mundo sem revelação, unicamente pela razão. E esta racionalidade consequente era convincente (…). Existia uma ‘filosofia’ completa e convincente em si mesma, uma racionalidade precedente à fé, e depois a ‘teologia’, um pensar com a fé e na fé. A questão urgente era esta: o mundo da racionalidade, a filosofia pensada sem Cristo e o mundo da fé são compatíveis? Ou então se excluem? Não faltavam elementos que afirmavam a incompatibilidade entre os dois mundos, mas São Tomás estava firmemente convencido da sua compatibilidade; aliás, a filosofia elaborada sem o conhecimento de Cristo praticamente esperava a luz de Jesus para ser completada. Esta foi a grande ‘surpresa’ de São Tomás, que determinou o seu caminho de pensador. Mostrar esta independência de filosofia e teologia, e, ao mesmo tempo, a sua relacionalidade recíproca, foi a missão histórica do grande mestre”[6].

Em síntese, o Papa explica que naquele momento de desencontro entre duas culturas, parecia que “a fé devia render-se perante a razão”. Entretanto, São Tomás demonstrou que fé e razão caminham lado a lado, e que não existe contradição entre os dados da revelação com aqueles adquiridos pelo conhecimento racional. Desta forma, fé e razão: “constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade” [7]·. Foi assim que, segundo o Pontífice, o Aquinate acabou por criar “uma nova síntese, que veio a formar a cultura dos séculos seguintes”.[8]

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O poder de atração de São Tomás

Outro ponto ressaltado por Bento XVI foi a grande capacidade de atração que São Tomás exercia sobre aqueles que o conheciam: “Um dos seus ex-alunos declarou que uma enorme multidão de estudantes seguia os cursos de Tomás, a tal ponto que as salas tinham dificuldades em contê-los e, com um apontamento pessoal, acrescentava que ‘ouvi-lo era para ele uma profunda felicidade’”.

São Tomás “viveu a vida de um mestre e com toda a entrega de que era capaz”[9]. Na Suma Contra os Gentios se encontra uma discreta indicação do que ele considerava como a principal tarefa de sua vida, fazendo suas as palavras de Santo Hilário: “Sou consciente de que o principal dever de minha vida para com Deus é esforçar-me para que minhas palavras e todos os meus sentidos falem dele”[10]. Aquela perfeita união que havia no Angélico entre a vida de oração e a vida do estudo era o segredo de sua santidade.

Além de ter sido um grande professor e escritor, São Tomás também se dedicou à pregação pública. Algumas destas homilias passaram para a história e chegaram até nós. Em suas pregações, ele soube explicar os mais intricados problemas teológicos, numa linguagem acessível às pessoas de pouca erudição. O Papa considera verdadeiramente ser uma grande graça: “quando os teólogos sabem falar com simplicidade e fervor aos fiéis. Por outro lado, o ministério da pregação ajuda os próprios estudiosos de teologia a ter um sadio realismo pastoral, e enriquece a sua investigação com estímulos intensos”.[11]

A sua devoção eucarística

Porém, como foi possível em apenas 25 anos de ensino, numa época em que não havia imprensa, em que as bibliotecas eram pequenas e de difícil acesso, uma tão grandiosa produção bibliográfica? Quem nos dá a resposta é o próprio São Tomás. Ele mesmo confidenciou a Frei Reginaldo, seu confessor, que aprendeu mais em suas meditações na Igreja diante do Santíssimo Sacramento, ou na cela aos pés do Crucifixo, do que em todos os livros que havia lido. Guilherme de Tocco insiste em dizer que

‘todas as vezes que ele queria estudar, iniciar uma disputa, ensinar, escrever ou ditar, retirava-se primeiramente no segredo da oração e rezava vertendo lágrimas, a fim de obter a compreensão dos mistérios divinos’. São Tomás: ‘entregou-se totalmente às coisas do alto, e foi contemplativo de um modo inteiramente admirável’[12].

Durante a noite, Tomás, após um breve sono, ia prosternar-se diante do Santíssimo Sacramento, onde permanecia longo tempo em oração. Quando tocavam as Matinas, antes que os religiosos formassem fila para ir ao coro, ele retornava sigilosamente à sua cela para que ninguém o notasse. Desta forma, era na vida de piedade que São Tomás adquiria os mais altos conhecimentos, compreendia os textos sagrados e encontrava a solução para os mais complicados problemas teológicos. O Pontífice também argumenta que na vida de São Tomás encontramos aquela que é uma das principais características das almas eleitas, ou seja, a devoção a Nossa Senhora

Ele definiu-a com um apelativo maravilhoso: Triclinium totius Trinitatis, triclínio, ou seja, lugar onde a Trindade encontra o seu descanso porque, em virtude da Encarnação, em nenhuma criatura, como nela, as três Pessoas divinas habitam e sentem a delícia e a alegria por viver na sua alma cheia de Graça. Pela sua intercessão, nós podemos obter todo o auxílio[13].

A celebração da Santa Eucaristia era a devoção preferida de São Tomás. Celebrava todos os dias, à primeira hora da manhã e, antes mesmo de tirar os paramentos sacerdotais, assistia a uma ou duas missas. Quanto aos deveres religiosos, seguia escrupulosamente as orações da comunidade, sem usar das legítimas dispensas a que tinha direito por exercer a função de Mestre. Ao avançar em idade, aumentou ainda o número de suas orações e meditações. Desta forma é que se entende melhor toda a eficácia do ensino de São Tomás, pois, de acordo com Grabmann: “a figura científica de São Tomás não se pode separar da grandeza ético-religiosa de sua alma; em Tomás, não se pode compreender o investigador da verdade sem o santo” [14].

“Mestre Tomás, que lição nos pode dar?”.

Bento XVI também recorda que, certa manhã, enquanto São Tomás rezava na capela de São Nicolau, em Nápoles, um sacristão chamado Domingos de Caserta, ouviu um diálogo. O Angélico perguntava, preocupado, se aquilo que tinha escrito sobre os mistérios da fé era correto. É então que ouve uma voz que provém do crucifixo:

“-Falaste bem de mim, Tomás, qual será tua recompensa?

“- Nada mais do que Tu, Senhor”.

E quando se aproximava o término de sua peregrinação nesta terra, o Angélico pediu os Sacramentos e os recebeu com grande fervor. Neste momento, afirmou ainda a sua fé absoluta na presença de Deus na Eucaristia

Recebo-te, preço da redenção de minha alma, recebo-te, viático de minha peregrinação, por cujo amor estudei, realizei vigílias, sofri; preguei-te, ensinei; jamais disse algo contra ti, e se o fiz foi por ignorância, e não insisto em meu erro; se ensinei mal a respeito deste sacramento ou de outros, submeto-o ao julgamento da santa Igreja Romana, em obediência à qual deixo agora esta vida[15].

Três dias depois, a 07 de março de 1274, de madrugada, é ungido. Responde a cada uma das santas unções. Instantes depois expira: “A sua alma vai tão pura como veio. Tomás não parte, regressa. Espera-o Aquele de quem nunca, afinal, se separou…” [16].

Por ocasião do sétimo centenário da morte de Angélico, o Papa PauloVI dirige-se a Fossanova e ali afirma que, mesmo no atual tempo em que vivemos, temos ainda muito a aprender com São Tomás. Este Pontífice interrogava: “Mestre Tomás, que lição nos pode dar?”. Em seguida, respondia com estas palavras: “A confiança na verdade do pensamento religioso católico, como foi por ele defendido, exposto e aberto à capacidade cognoscitiva da mente humana”[17]. E neste mesmo dia,  na cidade de Aquino, referindo-se ainda a São Tomás, concluía dizendo: “Todos nós que somos filhos da Igreja, podemos e devemos, pelo menos em certa medida, ser seus discípulos!”[18].


[1]Guillelmus de Tocco: Storia Sancti Thome de Aquino, ed. C. Le Brun Gouanvic, Pontifical Institute of Medieval Studies, Toronto, 1996.

[2] As citações mencionadas neste parágrafo encontram-se na obra: Odilão, Moura. Prefácio a Exposição Sobre o Credo. In: Tomás De Aquino. Exposição Sobre o Credo. 4ª ed. São Paulo: Loyola, 1981. pp. 11-16.

[3] As três catequeses de Bento XVI sobre São Tomás foram proferidas na Praça de São Pedro nos dias 02, 16 e 23 de Junho de 2010.

[4]João Paulo II. Carta encíclica Fides et Ratio: sobre as relações entre fé e razão, Paulus, São Paulo, 1998, n. 43.

[5]Aquino, São Tomás de. Summa Theologica: I-II, q. 109, a. 1, ad 1.: “Omne verum, a quocumque dicatur, a Spiritu Santo est”.

[6] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 16 Jun. 2010.

[7] João Paulo II. Carta encíclica Fides et Ratio: sobre as relações entre fé e razão, Paulus, São Paulo, 1998.

[8] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 02 Jun. 2010.

[9] Pieper, Josef. Introducción a Tomás de Aquino. Doce Lecciones. Rialp, Madrid, 2005.

[10] Aquino, São Tomás de. Suma contra los Gentiles, BAC, Madrid, 2007. p. 40.

[11] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 02 Jun. 2010.

[12]G uillelmus de Tocco: Storia Sancti Thome de Aquino, ed. C. Le Brun Gouanvic, Pontifical Institute of Medieval Studies, Toronto, 1996.

[13] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 23 Jun. 2010.

[14]In Ameal, João. São Tomás de Aquino. Iniciação ao estudo da sua figura e da sua obra. 3a ed. Tavares Martins: Porto, 1947, p. 130.

[15] Idem, p. 154.

[16] Ibidem.

[17] Insegnamenti di Paolo VI, XII [1974], pp. 833-834.

[18] Ibidem, p. 836.

A prova da existência de Deus pelas cinco vias de São Tomás de Aquino

Luiz Carlos da Silva Júnior

Ao observarmos o curso da história veremos que não faltou quem negasse a real existência de Deus. Poderíamos lastimar o fato de tais pessoas não serem dotadas do dom da fé. Pois à primeira vista parece que o conhecimento de Deus é fruto deste dom.

STA

Ora, São Tomás de Aquino faz a demonstração de provas meramente naturais acerca da existência de Deus. A própria razão humana é capaz de chegar à ideia da existência do Criador. Por isso, não admitir a existência de Deus não é racional, mas sim apoiar-se num vago e convencional dogma de negação.

A doutrina da Igreja sobre a existência de Deus funda-se na Revelação, todavia a simples filosofia humana é capaz de vislumbrar a Deus, bem como alguns de seus atributos. São Tomás de Aquino, o maior teólogo da História da Igreja, teve o mérito de reunir e explicitar estes conceitos sobre a existência de Deus[1].

Este santo, conhecido como Doutor Angélico, distingue cinco caminhos pelos quais nossa inteligência pode admitir a existência de Deus. O plano das cinco vias é altamente claro, simples e didático.

Primeira via: a prova pelo movimento

A primeira via de raciocínio para chegar ao conhecimento da existência de Deus é a prova do movimento. Em linguagem corrente, movimento significa mudança de local. Ao andar de um lugar para outro, exerço um movimento. No entanto, há também um outro sentido da palavra movimento. O movimento significa qualquer modificação dos seres.

Em outras palavras, há dois tipos de movimento: o primeiro é o movimento de lugar dado na locomoção que um ser corpóreo faz, de um lugar ao outro; o segundo, é o movimento de sucessão que ocorre no crescimento de uma criança até o seu pleno grau de amadurecimento. Ambos movimentos são facilmente perceptíveis pelos sentidos.

Antes do movimento todos os seres estão em potência[2], isto é, possuem uma possibilidade de se tornarem diferentes do que são. Em filosofia este fenômeno denomina-se atualizar-se. Um corpo frio em ato pode vir a ser quente, ou seja, ele é quente em potência. Movimento é, portanto, qualquer passagem de potência para ato (Atualização). Em outras palavras, o ato é a realização enquanto a potência é a possibilidade de realização. Por exemplo, uma semente em ato é uma semente, mas em potência, é uma árvore.

O movimento não é a sucessão de dois estados, mas a passagem que um ser faz de um estado para o outro. Por exemplo, o fogo que é quente em ato, torna a madeira que está em potência para o calor, quente em ato. Deste modo, há uma realidade que permanece sob os dois estados, e a mudança consiste em receber a atualização do segundo estado (frio), pelo qual a coisa (a madeira) fica agora existindo de outro modo (quente), isto é, modificada. A mudança portanto inclui sempre uma aquisição de algo que antes o ser não possuía.

Dado ser evidente a todos, esta experiência dos sentidos, São Tomás a toma como ponto de partida da primeira via racional a provar a existência de Deus: “Nossos sentidos atestam, com toda certeza, que neste mundo algumas coisas se movem. Ora, tudo o que é movido é movido por outro. Nada se move que não esteja em potência em relação ao termo de seu movimento; ao contrário o que se move o faz enquanto se encontra em ato” (S. Th. I, q.2, a. 3).

Tudo se move, tudo muda, tudo passa de um estado para outro, não somente no sentido do movimento local, mas de mudança substancial, como na geração de novas substâncias (a madeira pode se tornar carvão). Também acidental, como o aumento ou diminuição quantitativa (o filhote cresce e torna-se adulto). E como variação quantitativa, quer na ordem material quer na ordem espiritual (maior peso, mais graça).

Assim, se o que move é também movido, o é necessariamente por outro, e este por outro ainda. Ora, não se pode continuar até o infinito, pois neste caso não haveria um primeiro motor, por conseguinte, tampouco outros motores, pois os motores segundos só se movem pela moção de outro motor. Logo, é então necessário chegar a um primeiro motor, não movido por nenhum outro, e este, todos entendem: é Deus” (S. Th. I, q.2, a. 3).

O Primeiro Motor – Deus – é puro ato, existência subsistente. Deve ser ato, pois sendo movente, deve ter em ato a perfeição que ele comunica; deve ser puro, sem mistura de potencialidade, pois é movente imóvel e imutável. Logo, o movente imóvel é puro ato enquanto existente: é a Existência mesma subsistente[3].

Só é independente na sua atividade quem é a própria atividade, e só é a atividade quem é a existência; só comunica a perfeição quem produz a existência desta, e só pode ter por efeito próprio “fazer existir” quem é a existência. Logo, o primeiro movente imóvel é a sua existência: DEUS.

Segunda via: prova pela causa eficiente

Conforme a primeira via, uma semente tem a possibilidade de tornar-se (atualizar-se) em árvore. Já na segunda nos deteremos em mostrar que a semente para ser árvore, necessita de causas entre si subordinadas, ou seja, que dependam umas das outras no agir e no existir. Sem a terra, o ar, a água, o sol, etc., a semente não encontraria condições para o seu desenvolvimento. Assim, o clima e as substâncias que alimentam a planta são causas de vida para o vegetal. Seria portanto uma loucura afirmar que a semente é causa de si mesma, pois para ser sua própria causa necessitaria existir antes de si mesma.

A segunda via segue substancialmente o mesmo caminho da primeira. Porém, não se baseia na mudança e passividade dos seres, e sim, na dependência e causalidade que há nas atividades deles. É muito clara a semelhança entre a primeira e a segunda via, pois ambas nos levam à necessidade de uma causa inicial. Entretanto, consideramos anteriormente a existência e a necessidade de uma causa motriz, e agora trataremos de considerar a obrigatoriedade de existir uma causa eficiente[4].

Ao observarmos a criação, notamos nas coisas sensíveis uma relação de causas. Desta forma, não se pode encontrar um ser que seja sua própria causa eficiente. Sendo a causa anterior ao efeito, seria absurdo, considerar um ser que fosse a sua própria causa eficiente, pois seria ele anterior a si mesmo. Entretanto não é possível levar ao infinito a série de causas eficientes. Isto posto, ficam evidentes duas possibilidades: que algo seja causa de si próprio e que a série de causas seja remontada ao infinito.

Há, pois, uma ordem de causas em que a primeira é a causa da segunda, esta, da terceira e assim sucessivamente até a última. Tanto numa causa intermediária que une a primeira à última como numa variedade de outras causas intermediárias, a causa primeira é a causa do último efeito, de tal forma que suprimindo a causa suprime-se o efeito, e se não há um primeiro termo nas causas, não haverá nem intermediário nem último. As causas intermediárias são, por conseguinte, efeitos da causa originária. Não se admite efeitos sem causa, segundo o princípio básico de causalidade[5].

Assim, as causas subordinadas dos seres levam-nos direta e imediatamente a uma causa eficiente primeira com certo atributos:

Esta causa é Infinitamente perfeita, porque sendo a existência mesma subsistente, é tudo o que pode existir, isto é, todos os modos de ser, todas as perfeições; Imaterial, porque a matéria é potência. Ora, a causa primeira não sofre mudanças por ser ela ato puro; Inteligente, porque a imunidade e exceção da matéria é a causa da faculdade intelectual, que se caracteriza por se fazer atualmente inteligíveis as formas materiais abstraindo-as da matéria e das condições da matéria; Não subordinada e incausada, pois não pode ser causada por outra, caso contrário não seria a primeira, nem poderia ser absolutamente independente no agir e no causar[6]. A esta causa eficiente primeira chamamos: DEUS.

Terceira via: prova pelo ser necessário

A terceira via também faz o caminho semelhante ao das anteriores. Entrando mais intimamente na essência dos seres do universo, procura o ponto de partida na entidade destes seres contingentes, ou seja, dependente de outro ser necessário para existir.

O contingente[7] é qualquer ser que existe, mas poderia não existir, por não ter em si mesmo, em sua essência, a razão de sua existência. Por exemplo, uma criança para se desenvolver e sobreviver necessita de minerais, vitaminas, nutrientes, etc., encontrados no leite materno. A criança é contingente ao colo da mãe.

Agora, a ideia de contingente está em oposição à de necessário. O necessário é, pois, o ser existente que de modo algum pode não existir, porque tem em si a razão absoluta de sua existência. Contendo na sua própria essência a sua existência, seria absurdo não existir. Expostos os conceitos de contingente e necessário chega-se a uma conclusão óbvia que a existência do contingente está justificada no ser necessário que a comunica.

Com efeito, tudo o que pode ser ou não ser, é mutável. Já que o ser necessário tem que ser imóvel, como São Tomás demonstrou na primeira via, não há nele possibilidade de ser ou não ser. Desta forma, todo ser que é, e que é impossível que não seja, é necessariamente. Porque a possibilidade de existência e de não existência significa a mesma coisa. Além disso, os seres que possuem a possibilidade de ser ou não ser necessitam de outro ser que seja distinto deles, que lhes comunique o ser, por ter aptidão na sua natureza para tal. Visto que o ser que comunica o existir é anterior ao que recebe, é necessário afirmar a existência de um ser anterior ao que possui a privação de ser por si. Em última análise, nada existe senão pelo ser que é a existência subsistente, nada possui a beleza senão pela beleza subsistente, nada possui o bem senão pela bondade subsistente, nada está em ato senão pelo ato puro[8].

Admitir um contingente existente incausada, é admitir um ser que tem e não tem em si a razão suficiente de sua existência: o que é contraditório. Logo, a existência do contingente implica forçosamente a existência da sua causa. Esta causa existe necessariamente por si ou o recebe de outrem a sua existência. Ora, sem um ser que exista por si mesmo, nada existe, pois alguma coisa não pode vir a ser do nada: deste modo nada existiria. Por conseguinte, não pode uma série ser contingente sem que haja fora dela um ser primeiro não causado, que possua na sua essência sua existência e possa ser a fonte da essência dos seres.

Portanto, os seres contingentes exigem a existência de um ser que não tenha começado a existir; um ser não causado, que exista por si mesmo, que tenha existido sempre e que seja necessário aos demais. Este ser necessário encontra na sua própria essência sua existência que é infinita, caso contrário estaria criando outro ser infinito e necessário, e este, outro e assim sucessivamente. Ora, a série de contingência segue ao infinito. Assim, os seres criados têm por um lado a essência e, por outro, tanta existência quanto sua essência possa permitir, ou seja, têm uma limitação própria à sua essência[9]. Desta forma, é necessário afirmar a existência de um ser necessário por si mesmo e que é a causa e a necessidade de todos os outros: DEUS.

Quarta via: prova pelos graus de perfeição dos seres

Esta via não evidenciará a mudança, a atividade, a geração ou corrupção, mas a limitação com que certas perfeições existem nos vários seres. Em outras palavras, os graus de bem que residem nas criaturas.

Vemos nos seres que uns são mais ou menos bons, verdadeiros e nobres que os outros. Assim, ninguém duvida que o homem é mais perfeito que o animal; o animal mais que o vegetal; e este mais que o mineral. O mesmo deve-se dizer da bondade, da verdade, da nobreza e das outras perfeições semelhantes, as quais encontra-se em todos os seres segundo uma diversidade de graus, em virtude da qual alguns  seres são mais perfeitos que outros.

São Tomás de Aquino observa que “encontra-se nas coisas algo mais ou menos bom, mais ou menos verdadeiro, mais ou menos nobre etc. Ora, mais e menos se dizem de coisas diversas conforme elas se aproximam diferentemente daquilo que é em si o máximo”.[10]

Em outras palavras, “mais ou menos” não diz respeito às coisas em si, mas sim, no tanto em que elas se aproximam em graus diversos do que é em grau máximo. Por exemplo, algo torna-se mais frio quando se aproxima do frio em grau máximo. Desta forma há algo que é em grau supremo o bem, a verdade, a nobreza e, por sua vez, o grau máximo do ser. Assim, o que é o grau máximo do gênero é causa e medida de todo esse gênero: O gelo que é grau máximo de frio, é causa e medida de todo frio.

Da existência destas perfeições limitadas e graduadas deduz-se a existência de um ser perfeitíssimo. Ser sublime no qual residem todas as perfeições em seu grau sumo. João Ameal conclui que, “Há, então, um ser soberanamente belo soberanamente bom, soberanamente perfeito. Mas aquilo que é soberano, supremo em algum gênero, é causa de todos os seres do mesmo gênero”.[11]

Já Santo Agostinho se refere aos antigos filósofos por terem visto que em todas as coisas mutáveis o modo pelo qual um ser é o que é só lhe virá do ser verdadeiro e imutável por essência:

“Compreenderam, além disso, que em todo ser que muda, toda forma que o faz ser o que é, qualquer que seja sua natureza e os seus modos, não pode ela mesma existir senão por Aquele que é verdadeiramente porque é imutavelmente. É daí que, quer seja o corpo do mundo inteiro, a sua estrutura, as suas propriedades, o seu movimento regular, os seus movimentos escalonados do céu à terra e todos os corpos que ele encerra; quer seja toda a vida: a que sustenta e mantém o ser, como nas árvores; a que, além disso, possui sensibilidade, como nos animais; a que acrescenta a tudo isto a inteligência, como nos homens; ou a que, sem necessidade de mantimentos, se mantém, goza de sentimentos e de inteligência como nos anjos, não pode manter o seu ser senão d’Aquele que simplesmente é”.[12]

Por esta razão, São Tomás ao explicar que “se alguém indo a uma casa e desde a porta fosse sentindo calor e cada vez que mais nela penetrasse mais calor sentisse, evidentemente perceberia que havia fogo no seu interior, mesmo que não estivesse vendo o fogo. Acontece o mesmo conosco ao considerar as coisas deste mundo. Todas as coisas estão ordenadas conforme diversos graus de beleza e de nobreza, e quanto mais estão próximas de Deus, tanto melhores e mais belas são. Ora, os astros são mais nobres e mais belos que os corpos inferiores; as coisas invisíveis, que as visíveis”.[13]

Deste modo a quarta via, para achar a razão suficiente das perfeições existentes no mundo, nos conduz necessariamente à existência real de um Ser perfeito, único e simples, o qual é evidentemente distinto dos seres do universo: DEUS.

Quinta via: prova pela ordem do universo

Se considerarmos a ordem existente no universo, desde os componentes microscópicos existentes numa planta até os gigantescos astros do firmamento; a harmonia, a atividade e relação entre eles, facilmente chegamos à seguinte conclusão: houve uma Inteligência que criou e ordenou tudo isto, caso contrário seria absurdo dizer que isto é fruto do acaso.

“De fato, apenas a inteligência pode ser razão da ordem, quer dizer, da organização dos meios em vista de um fim, ou dos elementos em vista do todo que eles compõem: os corpos ignoram os fins e, por conseguinte, se os corpos ou os elementos conspiram em conjunto, é necessário que sua organização tenha sido obra de uma inteligência”.[14]

Os seres que carecem de conhecimento não podem rumar aos seus respectivos fins sem que haja um ser que conheça tais fins. Assim, uma flecha não pode atingir o alvo sem o arqueiro que a dispare. Garrigou-Lagrange explica que:

“os seres privados de razão não tendem a um fim se não são guiados por uma inteligência, como a flecha pelo arqueiro. Com efeito, uma coisa não pode estar ordenada à outra senão por uma causa ordenadora, que necessariamente deve ser inteligente, ‘sapientis est ordinare’. Por que? Porque só a inteligência conhece a razão de ser das coisas”.[15]

Isto posto, que inteligência ordena o universo? Obviamente há de ser diferente dos seres da natureza, porque os minerais e vegetais são desprovidos da ciência das coisas e os animais não possuem intelecto. Deve ser também diferente da inteligência humana, que apesar de perceber e explicar a ordem que existe, não a cria. Tem que ser, pois, a suma inteligência, dado que a ordem do universo supõe um ser que possua a ciência de todos os seres e suas propriedades. Por isso conclui Garrigou-Lagrange:

“Os animais conhecem sensivelmente o objeto que constitui seu fim, mas neste objeto não percebem a razão formal do fim. Por conseguinte, se não houvesse uma inteligência ordenadora, que governasse o mundo, a ordem e a inteligibilidade, que há no universo e que as ciências descobrem, proviria da inteligibilidade, e ainda mais, nossas próprias inteligências proviriam de uma causa cega e ininteligível; uma vez mais, o mais sairia do menos, o que é absurdo”.[16]

É indispensável afirmar que a Inteligência Criadora e Ordenadora do universo é Infinita e Divina. Um ser natural, na sua criação não é precedido por nada e suas propriedades e capacidades provém de sua própria essência. Daí a ordem interna de cada ser e, por consequência, das relações destas essências entre si, resulta a ordem externa do universo.

Sendo a causa total de toda ordem, o Autor destas essências deve ser também Criador, por tirá-las do nada. Portanto a Inteligência ordenadora é também Criadora. Ademais, esta inteligência não pode ter sido criada, porque seria como qualquer outro ser existente e não ordenaria, mas seria ordenada por uma outra inteligência. Por fim, a Inteligência ordenadora deve ser também por si subsistente e infinita. A este ser Criador, Subsistente por si e Infinito, chamamos: DEUS.


[1] Mais especificamente, a que se encontra na Suma Teológica I (q. 2, a. 3).

[2]Com Deus não é assim, pois ele é ato puro, como veremos mais à frente.

[3] Cf. GILSON, Étienne. El Tomismo introducción a la filosofía de Santo Tomás de Aquino. 2002, p. 76.

[4]MONDIN, Battista. Quem é Deus?.Trad. José Maria de Almeida. São Paulo: Paulus, 1997, p. 233. Causa eficiente, é a causa da vinda do efeito a existência. Tudo que existe, é um efeito de uma causa primeira (NICOLAS, Marie-Joseph. Vocabulário da Suma Teológica. In Suma Teológica. 2ª edição. São Paulo: Loyola, 2001, p. 75).

[5] Cf. S. Th. I, q.2, a. 3.

[6] Cf. CERRUTI, Pedro. A caminho da Verdade Suprema. 2º Milheiro. Rio de Janeiro: Universidade Católica, 1955.p. 486.

[7] A noção de contingente recebe um significado mais restrito e é tomado como sinônimo de corruptível, que possui em sua essência uma matéria com potência para receber diferentes formas substanciais, da mesma forma que tem a possibilidade natural de existir.

[8] Cf.  S. Th. I, q.2, a. 3.

[9] SÃO TOMÁS, O ente e a essência, n. 65.

[10] S. Th., q. 2, a. 3.

[11]AMEAL, João. São Tomás de Aquino. Sem data, 269-270.

[12] Santo Agostinho. A cidade de Deus. Trad. J. Dias Pereira. 3ª edição. Coimbra: Fundação Colouste Gulbenkian, 2006. Civitas Dei, 8, 6.

[13] SANTO TOMÁS, Exposição sobre o credo, p.27.

[14]JOLIVET, Régis. Curso de filosofia. Trad. Eduardo Prado de Mendonça. 3ª edição. Rio de Janeiro: Agir, 1957, p.319.

[15]Dios la existência de Dios. Trad. José San Román Villasante. 2ª edição. Madrid: Palabra, 1980, p. 303-304

[16]Dios la existência de Dios. Trad. José San Román Villasante. 2ª edição. Madrid: Palabra, 1980, p. 304.