Para Auduc, que foi Diretor do Instituto Universitário de Formação de Professores da Universidade Paris Oriental Créteil, “o insucesso masculino precoce é hoje uma realidade que ninguém pode ignorar, mesmo se não é considerada de ‘bom tom’ ao ser evocada”.
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Congresso sobre o Sacramento do Matrimônio na Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino (Angelicum, Roma)
Promovido pela Società Internazionale Tommaso d’Aquino (SITA)
Ordenação presbiteral: 10 novos sacerdotes de Cristo
Ordenação presbiteral: 10 novos sacerdotes de Cristo
Afiliação do Instituto Teológico São Tomás de Aquino (ITTA) à Faculdade de Teologia da UPB de Medellín novos mestres em teologia
Filiação do Instituto Teológico São Tomás de Aquino (ITTA) à Faculdade de Teologia da UPB e novos mestres em teologia
Administrar o tempo para uma boa homilia
Côn. Edson José Oriolo dos Santos,
Cura da Catedral Metropolitana de Pouso Alegre,
Vigário Episcopal para administração da crisma
Professor no ITTA
A forma de pensar do ser humano na cultura e mentalidade contemporâneas, de certa forma, tomou a Igreja de surpresa. Vários exemplos poderiam ser dados para ilustrar a inaptidão eclesial diante da urbanização. Uma preocupação particular é propiciar boa participação nas celebrações eucarísticas a fim de que cristãos e cristãs se alimentem do pão da palavra e do pão da eucaristia.
Para atender necessidades e desejos de quem quer vivenciar o mistério pascal no sacramento da eucaristia, vem à tona o problema das homilias, particularmente do “tempo” dedicado a elas.
A recente exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, n. 59, lembra que “A homilia constitui uma atualização da mensagem da Sagrada Escritura, de tal modo que os fiéis sejam levados a descobrir a presença e a eficácia da Palavra de Deus no momento atual da sua vida”. Para que a homilia seja eficaz adverte: “Devem-se evitar tanto homilias genéricas e abstratas, que ocultam a simplicidade da Palavra de Deus, como inúteis divagações que ameaçam atrair a atenção mais para o pregador do que para o coração da mensagem evangélica”. E continua recomendando que, ao preparar uma homilia, o celebrante responda algumas perguntas: “O que dizem as leituras proclamadas?”; “O que dizem a mim pessoalmente?” e “O que devo dizer à comunidade, tendo em conta a sua situação concreta?”. Fica o desafio: como colocar em prática tudo isso?
Porém, há um aspecto que não pode passar despercebido: saber administrar bem o tempo para que a liturgia da palavra e a liturgia eucarística tenham uma relação de reciprocidade. Quem celebra deve administrar e saber gerenciar o tempo à disposição para que todos os elementos da celebração estejam bem situados e se respeite a importância de cada um deles.
Percorrendo um pouco a história da Igreja, percebemos que muitos pregadores deixaram suas marcas em relação ao tempo da pregação. As pregações de Máximo de Turim (primeiro bispo de Turim, escritor de teologia) não superavam onze minutos. Cesário de Arles viveu num período de transição da Antiguidade para a Idade Média e, como bispo, usava uma linguagem simples, compreensiva e suas homilias duravam nove minutos e as longas, quinze minutos. Crisólogo, pregador impar, com magnífico dom da palavra, recebeu este nome que significa palavra de ouro. Suas pregações eram em torno de vinte minutos (cf. Dicionário de Homilética, pp. 1630 a 1637). Santo Agostinho costumava improvisar e suas pregações as quais duravam de nove a vinte e cinco minutos. Poucas vezes, passou de uma hora e meia ou chegou até duas horas. São João Crisóstomo, teólogo e escritor que possuía uma inflamada retórica, mesmo não tendo boa saúde, costumava improvisar e pregava em torno de cinco a dez minutos. Santo Ambrósio falava em torno de trinta ou quarenta minutos.
Em épocas posteriores vê-se que as homilias tornaram-se mais longas. Santo Antônio de Pádua geralmente falava quarenta e cinco minutos, chegando a duas horas. São Carlos Borromeu era prolixo em seus discursos e, se lidos, duravam geralmente mais de uma hora. Santo Antônio Maria Claret costumava falar uma hora ou uma hora e meia. Quando ultrapassava este tempo, chegava até a mais de duas horas e, às vezes, três horas.
Podemos perceber que, em média, o tempo de uma homilia nos primeiros tempso do cristianismo se aproximava de um quarto de hora (cf. Dicionário de Homilética, pp. 1630 a 1637). Com o exemplo destes grandes pregadores, acredito que hoje não devemos passar de quinze minutos nas homilias.
O tempo da homilia é limitado e precisa ser muito bem moderado. Administrar o tempo da homilia não significa ficar focado no relógio. De nada adianta falar pouco tempo se não se consegue passar as informações que falem ao coração dos ouvintes.
Hoje, precisamos falar com objetividade, isto é, falar pouco e ter capacidade de síntese. Falar o que interessa, mas sem pressa.
Nos momentos iniciais da pregação devemos apresentar o tema, identificando e delimitando o assunto de forma clara (três minutos). Os outros sete minutos serão usados para aprofundar o assunto com início e conclusão, e os três ou quatro minutos restantes, concluir.
Ajuda muito sempre lembrar o que disse Shakespeare: “Os homens de poucas palavras são os melhores. A brevidade é a alma da sabedoria”.
As solenes pompas da natureza
A alma humana é aquilo que admira. Será pela contemplação enlevada dos diversos cerimoniais da natureza que algo da grandeza divina do Criador penetrará em nossos corações.
Lucas Garcia Pinto
Quem parar um pouco para observar os fenômenos climáticos ou geológicos, com facilidade notará que nada do que se passa na natureza apresenta traços de intemperança, agitação ou precipitação. Nada sugere ao espectador frenesi ou abalo de temperamento. Pelo contrário, Deus pôs na ordem da criação tal sobriedade, tal majestade, tal solenidade, que se poderia dizer haver nesses fenômenos um cerimonial do universo, renovado a cada dia.
Ainda em se tratando de algo violento, como um vulcão em erupção, ou uma tempestade em alto-mar, o cenário é de pompa e nobreza.
Aquela coluna de fumaça do vulcão, que parece subir ao Céu como o incenso oferecido a Deus pela natureza, é sucedida pelo magma ígneo que escorre, encosta abaixo, solene, avassalador e… terrível.
Na tempestade, nuvens escuras toldam o firmamento, enquanto relâmpagos coruscam pelo horizonte, e trovões ameaçadores compõem o fundo musical deste grandioso espetáculo de cólera. De uma cólera majestosa e imponente.
Em resposta ao céu, o mar lança ao alto suas ondas, como que desafiando o firmamento. O rugido das vagas responde ao estrondo dos trovões. E o mar descarrega sua fúria sobre as rochas e penhascos, que lhe fazem resistência, defrontando com altivez a força das águas revoltas.
Magníficos reflexos da justiça divina!
Já nos pores-do-sol, é a bondade indizível do Criador que se manifesta com particular brilho e riqueza. Bem se entende o motivo pelo qual certos povos com veio contemplativo mais acentuado — como o indiano, por exemplo — se extasiam cada dia diante dos magníficos entardeceres. Com tanta exuberância se apresenta este fenômeno nas praias da misteriosa e atraente Índia, que famílias inteiras cobrem as areias para, quiçá, ouvir intuitivamente a mensagem que Deus quer lhes transmitir através das multicolores vestimentas do céu.
Diz-se que o homem é aquilo que come. Com mais propriedade, pode-se dizer que a alma humana é aquilo que admira. Será pela contemplação enlevada desses diversos cerimoniais da natureza que algo da grandeza divina do Criador penetrará em nossos corações.
São Tomás de Aquino: a catedral do pensamento
Inácio de Araújo Almeida
Corria o ano de 1248. A cidade de Colônia estava em festa. As autoridades religiosas e civis, bem como o piedoso povo, reuniram-se para pôr a pedra fundamental daquela que viria a ser a maior catedral gótica do mundo. E, no meio do numeroso clero, viam-se também dois frades de túnica branca e manto negro que há pouco haviam chegado da França. O mais velho se chamava Alberto, cognominado “Magno”. Era o mais sábio homem de seu tempo e a maior autoridade teológica do século. O simples fato de se enunciar nos meios acadêmicos a frase: “Albertus dixit[1], em muitos casos já era suficiente para encerrar uma discussão doutrinária.
Sobre o frade mais novo, pouco se sabia, a não ser que era discípulo de Alberto. Se não fosse sua elevada estatura e avantajado corpo que o destacavam dos demais, passaria quase despercebido no meio daquela multidão. Todavia, sob aquele hábito da mendicante ordem de São Domingos, ocultava-se um membro da mais alta nobreza italiana. Tinha ele por parentes próximos dois imperadores do Sacro Império Romano Alemão, Frederico II e Conrado VI. Contudo, o que lhe fez sair daquele aparente anonimato não foi o seu porte altaneiro e nem mesmo a sua elevada nobreza, mas sim a sua virtude e inteligência. Este jovem frade tornou-se um grande santo e um dos maiores gênios que o mundo viu nascer. Seu nome era Tomás de Aquino…
Com efeito, era do conhecimento de muitos o motivo que o trouxera a Colônia. Estava ali para auxiliar o seu mestre na fundação de um Studium Generale, que viria a ser o centro de estudos teológicos de sua ordem em terras alemãs. Porém, o que ninguém sabia, talvez nem ele mesmo, é que, nos vinte cinco anos seguintes, Tomás construiria também um magnífico templo, tão sólido e duradouro como os alicerces da igreja de Colônia, que via nascer. Tomás edificaria um monumento de doutrina, fundamentado na fé e na razão. Tal monumento bem poderia ser chamado de “a catedral do pensamento cristão”…
O pequeno monge De Monte Cassino
O mundo o viu nascer no ano de 1225, no castelo de Roccasecca, próximo a Nápoles, na Itália. Dos sete filhos do conde Landolfo d’Aquino, Tomás era o mais novo. Aos cinco anos, foi enviado ao famoso Convento de Monte Cassino, para lá ser educado. Seu tio, Sunibaldo, era abade e encarregou-se de sua formação. Tudo indica que sua família também ansiava que ele viesse a ser o superior daquele prestigioso mosteiro.
Pouco se sabe deste período de sua vida, a não ser que o “pequeno monge”, ao percorrer o majestoso claustro daquela abadia, inquiria os religiosos sobre um tema que não saía da sua mente: “Que é Deus?”. Não passaram para a história as respostas proferidas. Contudo, parece certo dizer que ninguém lhe respondeu satisfatoriamente, pois, desde criança, ele fez dessa primeira indagação a força motriz que o impulsionaria a produzir a maior obra teológica de todos os tempos.
Ao ingressar na vida acadêmica, rapidamente destacou-se pela prodigiosa fecundidade de pensamento. Esse doutor que mereceu ser chamado “Angélico”, foi um grande luzeiro posto por Deus no meio de sua Igreja, a fim de esclarecer, confortar e animar as almas pelos séculos futuros. Viveu apenas 49 anos, dedicando a metade de sua vida à nobre e árdua tarefa de ensinar nos mais importantes centros universitários da França, Itália e Alemanha.
Guilherme de Tocco, seu primeiro e principal biógrafo, afirmou que “nas aulas o seu gênio começou a brilhar de tal forma e a sua inteligência a revelar-se tão perspicaz, que repetia aos outros estudantes as lições dos mestres de maneira mais elevada, mais clara e mais profunda do que as tinha ouvido” [1].
São Tomás soube unir harmoniosamente a santidade com a genialidade, e a erudição com a virtude, a fim de produzir a maior obra teológica de todos os tempos. Durante os quase oito séculos que separam sua existência da nossa, foi ele sempre exaltado com eloquentes louvores pelos Papas, em termos não comuns em documentos pontifícios.
O Papa João XXII, em 1318, afirmou: “Ele sozinho iluminava a Igreja mais que os outros doutores. Lendo seus livros um homem aproveita mais em um ano do que durante toda a sua vida”[2]. São Pio V, em 1567, não foi menos categórico: “A Igreja fez dela a sua doutrina teológica, por ser a mais certa e a mais segura de todas”. E o Papa Leão XIII, em 1892, disse que “se se encontram doutores em desacordo com São Tomás, qualquer que seja o seu mérito, a hesitação não é permitida; sejam os primeiros sacrificados ao segundo”. Por sua vez, o Concílio Vaticano II aconselha que São Tomás seja seguido nos Seminários e nas Universidades católicas. O Papa Paulo VI, comentando esse fato, disse: “é a primeira vez que um Concílio Ecumênico recomenda um teólogo, e este é precisamente São Tomás de Aquino”.
As três catequeses de Bento XVI sobre São Tomás de Aquino
Seguindo os passos de seus predecessores, o Papa Bento XVI voltou a ressaltar a importância do pensamento de São Tomás de Aquino para o mundo contemporâneo. O Sumo Pontífice dedicou três de suas audiências semanais para abordar a vida, a obra e o pensamento do Doutor Angélico[3]. Em sua Catequese de 02 de junho de 2010, o Papa recordou as palavras de João Paulo II na Encíclica Fides et Ratio, onde ele afirma que o Angélico: “foi sempre proposto pela Igreja como mestre de pensamento e modelo quanto ao reto modo de fazer teologia”[4]. O atual Pontífice argumenta que não devemos nos surpreender que, depois de Santo Agostinho, entre os escritores eclesiásticos mencionados no Catecismo da Igreja Católica, São Tomás seja citado mais do que todos os outros. Em seguida, ele apresenta alguns traços da vida do Aquinate, ressaltando o providencial encontro do Angélico com o pensamento de Aristóteles.
Com efeito, no século XIII foram traduzidas para o latim diversas obras do Estagirita que até então eram completamente desconhecidas no ocidente cristão. Isto despertou nos meios acadêmicos não só admiração, mas também temor. A razão disto é que muitos dos ensinamentos de Aristóteles pareciam estar em desacordo com a doutrina revelada. São Tomás, então, se dedicou a comentar as principais obras de Aristóteles, procurando distinguir em seus escritos aquilo que era válido, daquilo que era duvidoso. Havia uma pergunta que intrigava muitos teólogos do seu tempo: poderia o pensamento cristão receber algum contributo da filosofia pagã? São Tomás respondeu: “Toda verdade, dita por quem quer que seja, vem do Espírito Santo” [5]·. Para São Tomás, o encontro com uma filosofia que era anterior ao próprio cristianismo não era propriamente um obstáculo à revelação, mas sim, abria uma nova perspectiva ao horizonte da fé. Vejamos as palavras do Pontífice: “A filosofia aristotélica era, obviamente, uma filosofia elaborada sem conhecimento do Antigo e do Novo Testamento, uma explicação do mundo sem revelação, unicamente pela razão. E esta racionalidade consequente era convincente (…). Existia uma ‘filosofia’ completa e convincente em si mesma, uma racionalidade precedente à fé, e depois a ‘teologia’, um pensar com a fé e na fé. A questão urgente era esta: o mundo da racionalidade, a filosofia pensada sem Cristo e o mundo da fé são compatíveis? Ou então se excluem? Não faltavam elementos que afirmavam a incompatibilidade entre os dois mundos, mas São Tomás estava firmemente convencido da sua compatibilidade; aliás, a filosofia elaborada sem o conhecimento de Cristo praticamente esperava a luz de Jesus para ser completada. Esta foi a grande ‘surpresa’ de São Tomás, que determinou o seu caminho de pensador. Mostrar esta independência de filosofia e teologia, e, ao mesmo tempo, a sua relacionalidade recíproca, foi a missão histórica do grande mestre”[6].
Em síntese, o Papa explica que naquele momento de desencontro entre duas culturas, parecia que “a fé devia render-se perante a razão”. Entretanto, São Tomás demonstrou que fé e razão caminham lado a lado, e que não existe contradição entre os dados da revelação com aqueles adquiridos pelo conhecimento racional. Desta forma, fé e razão: “constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade” [7]·. Foi assim que, segundo o Pontífice, o Aquinate acabou por criar “uma nova síntese, que veio a formar a cultura dos séculos seguintes”.[8]
O poder de atração de São Tomás
Outro ponto ressaltado por Bento XVI foi a grande capacidade de atração que São Tomás exercia sobre aqueles que o conheciam: “Um dos seus ex-alunos declarou que uma enorme multidão de estudantes seguia os cursos de Tomás, a tal ponto que as salas tinham dificuldades em contê-los e, com um apontamento pessoal, acrescentava que ‘ouvi-lo era para ele uma profunda felicidade’”.
São Tomás “viveu a vida de um mestre e com toda a entrega de que era capaz”[9]. Na Suma Contra os Gentios se encontra uma discreta indicação do que ele considerava como a principal tarefa de sua vida, fazendo suas as palavras de Santo Hilário: “Sou consciente de que o principal dever de minha vida para com Deus é esforçar-me para que minhas palavras e todos os meus sentidos falem dele”[10]. Aquela perfeita união que havia no Angélico entre a vida de oração e a vida do estudo era o segredo de sua santidade.
Além de ter sido um grande professor e escritor, São Tomás também se dedicou à pregação pública. Algumas destas homilias passaram para a história e chegaram até nós. Em suas pregações, ele soube explicar os mais intricados problemas teológicos, numa linguagem acessível às pessoas de pouca erudição. O Papa considera verdadeiramente ser uma grande graça: “quando os teólogos sabem falar com simplicidade e fervor aos fiéis. Por outro lado, o ministério da pregação ajuda os próprios estudiosos de teologia a ter um sadio realismo pastoral, e enriquece a sua investigação com estímulos intensos”.[11]
A sua devoção eucarística
Porém, como foi possível em apenas 25 anos de ensino, numa época em que não havia imprensa, em que as bibliotecas eram pequenas e de difícil acesso, uma tão grandiosa produção bibliográfica? Quem nos dá a resposta é o próprio São Tomás. Ele mesmo confidenciou a Frei Reginaldo, seu confessor, que aprendeu mais em suas meditações na Igreja diante do Santíssimo Sacramento, ou na cela aos pés do Crucifixo, do que em todos os livros que havia lido. Guilherme de Tocco insiste em dizer que
‘todas as vezes que ele queria estudar, iniciar uma disputa, ensinar, escrever ou ditar, retirava-se primeiramente no segredo da oração e rezava vertendo lágrimas, a fim de obter a compreensão dos mistérios divinos’. São Tomás: ‘entregou-se totalmente às coisas do alto, e foi contemplativo de um modo inteiramente admirável’[12].
Durante a noite, Tomás, após um breve sono, ia prosternar-se diante do Santíssimo Sacramento, onde permanecia longo tempo em oração. Quando tocavam as Matinas, antes que os religiosos formassem fila para ir ao coro, ele retornava sigilosamente à sua cela para que ninguém o notasse. Desta forma, era na vida de piedade que São Tomás adquiria os mais altos conhecimentos, compreendia os textos sagrados e encontrava a solução para os mais complicados problemas teológicos. O Pontífice também argumenta que na vida de São Tomás encontramos aquela que é uma das principais características das almas eleitas, ou seja, a devoção a Nossa Senhora
Ele definiu-a com um apelativo maravilhoso: Triclinium totius Trinitatis, triclínio, ou seja, lugar onde a Trindade encontra o seu descanso porque, em virtude da Encarnação, em nenhuma criatura, como nela, as três Pessoas divinas habitam e sentem a delícia e a alegria por viver na sua alma cheia de Graça. Pela sua intercessão, nós podemos obter todo o auxílio[13].
A celebração da Santa Eucaristia era a devoção preferida de São Tomás. Celebrava todos os dias, à primeira hora da manhã e, antes mesmo de tirar os paramentos sacerdotais, assistia a uma ou duas missas. Quanto aos deveres religiosos, seguia escrupulosamente as orações da comunidade, sem usar das legítimas dispensas a que tinha direito por exercer a função de Mestre. Ao avançar em idade, aumentou ainda o número de suas orações e meditações. Desta forma é que se entende melhor toda a eficácia do ensino de São Tomás, pois, de acordo com Grabmann: “a figura científica de São Tomás não se pode separar da grandeza ético-religiosa de sua alma; em Tomás, não se pode compreender o investigador da verdade sem o santo” [14].
“Mestre Tomás, que lição nos pode dar?”.
Bento XVI também recorda que, certa manhã, enquanto São Tomás rezava na capela de São Nicolau, em Nápoles, um sacristão chamado Domingos de Caserta, ouviu um diálogo. O Angélico perguntava, preocupado, se aquilo que tinha escrito sobre os mistérios da fé era correto. É então que ouve uma voz que provém do crucifixo:
“-Falaste bem de mim, Tomás, qual será tua recompensa?
“- Nada mais do que Tu, Senhor”.
E quando se aproximava o término de sua peregrinação nesta terra, o Angélico pediu os Sacramentos e os recebeu com grande fervor. Neste momento, afirmou ainda a sua fé absoluta na presença de Deus na Eucaristia
Recebo-te, preço da redenção de minha alma, recebo-te, viático de minha peregrinação, por cujo amor estudei, realizei vigílias, sofri; preguei-te, ensinei; jamais disse algo contra ti, e se o fiz foi por ignorância, e não insisto em meu erro; se ensinei mal a respeito deste sacramento ou de outros, submeto-o ao julgamento da santa Igreja Romana, em obediência à qual deixo agora esta vida[15].
Três dias depois, a 07 de março de 1274, de madrugada, é ungido. Responde a cada uma das santas unções. Instantes depois expira: “A sua alma vai tão pura como veio. Tomás não parte, regressa. Espera-o Aquele de quem nunca, afinal, se separou…” [16].
Por ocasião do sétimo centenário da morte de Angélico, o Papa PauloVI dirige-se a Fossanova e ali afirma que, mesmo no atual tempo em que vivemos, temos ainda muito a aprender com São Tomás. Este Pontífice interrogava: “Mestre Tomás, que lição nos pode dar?”. Em seguida, respondia com estas palavras: “A confiança na verdade do pensamento religioso católico, como foi por ele defendido, exposto e aberto à capacidade cognoscitiva da mente humana”[17]. E neste mesmo dia, na cidade de Aquino, referindo-se ainda a São Tomás, concluía dizendo: “Todos nós que somos filhos da Igreja, podemos e devemos, pelo menos em certa medida, ser seus discípulos!”[18].
[1]Guillelmus de Tocco: Storia Sancti Thome de Aquino, ed. C. Le Brun Gouanvic, Pontifical Institute of Medieval Studies, Toronto, 1996.
[2] As citações mencionadas neste parágrafo encontram-se na obra: Odilão, Moura. Prefácio a Exposição Sobre o Credo. In: Tomás De Aquino. Exposição Sobre o Credo. 4ª ed. São Paulo: Loyola, 1981. pp. 11-16.
[3] As três catequeses de Bento XVI sobre São Tomás foram proferidas na Praça de São Pedro nos dias 02, 16 e 23 de Junho de 2010.
[4]João Paulo II. Carta encíclica Fides et Ratio: sobre as relações entre fé e razão, Paulus, São Paulo, 1998, n. 43.
[5]Aquino, São Tomás de. Summa Theologica: I-II, q. 109, a. 1, ad 1.: “Omne verum, a quocumque dicatur, a Spiritu Santo est”.
[6] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 16 Jun. 2010.
[7] João Paulo II. Carta encíclica Fides et Ratio: sobre as relações entre fé e razão, Paulus, São Paulo, 1998.
[8] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 02 Jun. 2010.
[9] Pieper, Josef. Introducción a Tomás de Aquino. Doce Lecciones. Rialp, Madrid, 2005.
[10] Aquino, São Tomás de. Suma contra los Gentiles, BAC, Madrid, 2007. p. 40.
[11] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 02 Jun. 2010.
[12]G uillelmus de Tocco: Storia Sancti Thome de Aquino, ed. C. Le Brun Gouanvic, Pontifical Institute of Medieval Studies, Toronto, 1996.
[13] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 23 Jun. 2010.
[14]In Ameal, João. São Tomás de Aquino. Iniciação ao estudo da sua figura e da sua obra. 3a ed. Tavares Martins: Porto, 1947, p. 130.
[15] Idem, p. 154.
[16] Ibidem.
[17] Insegnamenti di Paolo VI, XII [1974], pp. 833-834.
[18] Ibidem, p. 836.
Quem foi o verdadeiro construtor da Sainte-Chapelle?
Raphaël Six – 4º Ano de Teologia
Seriam necessárias muitas linhas para contar todas as peripécias que levaram São Luís IX, rei da França, a concluir a edificação desse monumento. Desejoso de abrigar diversas relíquias da Paixão – entre as quais, a coroa de espinhos, um pedaço do Santo lenho, e até mesmo um dos cravos utilizados para a crucifixão – resolveu construir uma capela que se situaria ao lado do “Palais de la Citée” – primeira morada dos reis deste país.
Assim, numerosos arquitetos informados desse real anseio, vieram das mais longínquas partes da França e da Europa, desejosos de apresentar um digno projeto que agradasse o Santo Monarca. No entanto, uma terrível desventura sucedeu a um deles.
Quando estava a caminho de Paris, encontrou na estrada um confrade caminhando apressadamente. Entabulou-se, então, um diálogo, no qual se apercebeu que ambos possuíam o mesmo objetivo: apresentar um esboço da possível capela.
Conversa vai, conversa vem, e o relacionamento entre ambos foi-se estreitando. Em determinado momento os dois resolveram partilhar os desenhos destinados ao rei. Um deles ficou estupefato com a bela construção representada no papel de seu colega. Os arcos góticos, os enormes e elegantes vitrais de belíssimas cores, os arcs-boutants e todos os demais detalhes o maravilharam. Mas, aos poucos essa admiração se transformou em comparação. As conversas, outrora interessantes, se tornaram pedantes e difíceis; o interesse daquele de um em relação ao outro diminuía a cada instante, e a simpatia primeva deu vazão à funesta antipatia; as opiniões de seu talentoso confrade, outrora compartilhadas pelo mesmo ideal, tornaram-se incompatíveis, pois sua alma foi pervadida pela ambição e pelo desejo de ser o arquiteto escolhido.
De comparação em comparação, a inveja rapidamente apoderou-se dele. E assim, num local deserto e lúgubre, onde somente os sinistros ruídos do vento que movia folhas e galhos secos se faziam ouvir, a exemplo de Caim, o invejoso perdeu o controle de si mesmo, e esfaqueou o peito de seu infeliz colega. Em seguida pegou todos os papeis, e queimou-os um por um, continuando seu caminho.
Mas, como fica a questão da capela? Voltemos à estrada, não mais tranquila, que leva a Paris, e vejamos de que modo os acontecimentos se desenrolaram.
Alguns dias depois, o homicida chegando à cidade luz dirigiu-se ao palácio real. Após identificar-se na portaria do mesmo, pôde seguir até as escadarias que davam acesso à entrada principal. Subiu-as, e no momento de passar pelo umbral do imponente portal, sentiu uma misteriosa força impedindo-o de continuar.
Assustado saiu do palácio para tomar fôlego e desfazer-se daquela sinistra impressão. No entanto sempre que repetia a tentativa, a mesma força lhe barrava o caminho. Caindo em si, deu-se conta de seu crime e viu nesse fato um castigo imposto pela justiça divina ao seu infame ato. Desesperado, ao invés de procurar uma reconciliação com o seu Divino Redentor, entregou-se amargurado à bebida e passou a viver jogado nas ruas mais tortuosas e barrentas da Paris de então.
Certa noite, um jovem dominicano, ao sair do “Palais de la Citée”, aproximou-se desse infeliz, e depois de uma curta conversa, mostrou-lhe o deplorável estado em que ele se encontrava. Mostrou-lhe as alegrias do céu e da bondade infinita do Salvador. As saudades de uma vida pura na prática dos mandamentos e no verdadeiro amor ao Bom Pastor reacenderam-se em seu espírito. A graça tinha-lhe tocado no mais íntimo de seu ser através daquele sacerdote. Pediu-lhe, então, a confissão e seguindo seu conselho, tornou-se monge.
Tendo passado vários meses em profunda oração e penitência, deparou-se, certa feita, com um jovem rapaz – filho de um confeiteiro – cujo nome era Pierre e que costumava entregar deliciosos doces ao mosteiro. Há tempos que esse rapaz, cansado das guloseimas preparadas na confeitaria, almejava tornar-se um verdadeiro construtor de castelos e catedrais de pedra. Descobrindo as antigas habilidades desse monge, insistiu que lhe ensinasse os segredos de sua arte.
O arquiteto convertido, depois saber que o Rei ainda não havia escolhido nenhum projeto, procurou o confessor que lhe havia reconduzido à religião e contando-lhe a conversa que tivera com Pierre, pediu-lhe autorização para dar seus planos da capela ao jovem. Dizia ele: “se minha obra obtiver a benevolência real, Pierre terá assim a oportunidade de exercer uma profissão da qual ele é digno, e eu não, por causa de meu grave delito. Assim, poderei encontrar finalmente a paz, ao dar-lhe a oportunidade de realizar seu sonho de ser um arquiteto.” O monge dominicano concordou, e o filho do confeiteiro, após um longo período de treino, foi apresentar-se ao rei.
Os belos traços do desenho seduziram São Luis. Impressionado com tanta capacidade da parte de um arquiteto tão jovem, desconfiou de sua autoria, e perguntou-lhe se realmente tinha sido ele o idealizador dessa bela obra. Este, confessou-lhe que os planos pertenciam a outro, cujo desejo era permanecer no anonimato caso sua obra encontrasse graça perante sua majestade. Em contrapartida, apesar de sua idade prematura, ele era capaz de levar a cabo a construção. O monarca encantado com a atitude do verdadeiro artífice e com a sinceridade demonstrada por Pierre, aceitou. Assim, deu-se início às obras do belo relicário de pedras e vitrais.
Quanto ao verdadeiro idealizador, ninguém jamais soube seu nome, pois seu desejo foi inteiramente realizado. Só o monge que o tinha acolhido e recebido nos claustros do convento dominicano, passou para a história: era São Tomás de Aquino.
Esta bela história é conhecida como “a lenda do mestre de obras anônimo”. Quanto ao verdadeiro autor, não há informações sobre ele. Numerosos historiadores afirmam ser “Pierre de Montreuil” – arquiteto famoso daquele tempo – porém, não há documentos comprovando.
Pe. Bruno Esposito, O.P. – 25 anos de sacerdócio
No dia 8 de março, com grande alegria para o corpo docente e discente da Casa de Formação Sacerdotal São Tomás de Aquino, foi comemorado o 25º aniversário de ordenação presbiteral do Revmo. Pe. Bruno Esposito, O.P., com uma solene celebração eucarística na igreja Nossa Senhora do Rosário.
Este religioso dominicano, consultor da Congregação para a Doutrina da Fé, encontra-se temporariamente no Brasil para ministrar, na qualidade de professor convidado do Instituto Teológico São Tomás de Aquino, a disciplina de Direito Canônico I. Suas aulas para os 22 estudantes do 3º e 4º ano de teologia têm coadunado clareza na exposição e profundidade nos conceitos, assim como grande atualidade na abordagem da ciência canônica.
No presente curso, está descortinando os fundamentos antropológicos e eclesiológicos do direito eclesiástico, para tratar com mais propriedade das fontes e das normas gerais do Código de 83.
Além de transmitir algo de seu carisma de dominicano e canonista, o sacerdote permanecerá no Brasil cerca de dois meses, ensinando e acompanhando a formação e os estudos do Seminário São Tomás de Aquino.
O espírito da Igreja e sua ação social
Marcos Eduardo Melo dos Santos
Quais pedras preciosas num precioso manto, as catedrais e abadias; castelos e pitorescos burgos ajaezados de belos jardins que se espalham por toda a Europa formam um conjunto variado e harmônico. Em sua solidez pétrea, secular e magnífica, estes monumentos dão a impressão de serem impassíveis à História.
A contemplação destas maravilhas da engenharia, crestadas tanto pelo rigor das intempéries quanto pelo irreparável dos séculos, gera em nosso espírito uma sensação de estabilidade, segurança e perenidade; pois, mais do que filhas do seu tempo, evocam em nosso espírito algo da ordem celestial e eterna.
Tal como os prédios, os homens que lhes conceberam eram estáveis, serenos e contemplativos. No entanto, a plenitude deste estado de espírito que penetrava em toda a sociedade se dava na vida operosa, serena e meditativa de uma coorte inumerável de monges que abandonavam a tudo a fim de cogitar senão em Deus, Motor Imóvel.
Ao considerarmos aqueles tempos, seríamos levados a pensar que a estabilidade dos homens de outrora, que ao longo gerações habitavam nas mesmas terras; cuja vida “monótona”, regulada pelo bimbalhar dos sinos que anunciavam os ofícios litúrgicos, não lhes capacitava às atividades das quais nossos contemporâneos tanto se ufanam.
Entretanto, como demonstra a História, os séculos da Europa Cristã coadunavam a vida rural e monástica com um intenso, abrangente e variado progresso humano.
A cultura da antiguidade pagã não apenas foi conservada das invasões bárbaras, mas se enriquecia com o aporte das universidades na verve ardente e penetrante de seus doutores.
O avanço não se restringia ao âmbito intelectual. A alta Idade Média e os séculos subseqüentes foram épocas de intenso progresso econômico. As selvas e pântanos da Europa se tornaram terras de cultivo; a fartura dos campos gerava a riqueza da indústria; estes, por sua vez, impulsionavam o crescimento das cidades; o comércio e as peregrinações impulsionavam a logística das estradas; enfim, a Europa Cristã sempre se caracterizou por uma intensa vitalidade.
Dir-se-ia que este imenso organismo social se formava sem planejamento e coordenação, mas com inegável e profunda harmonia. Esta unidade não se devia aos cacos da civilização clássica ou ao mosaico étnico dos povos invasores, mas sim, a uma espécie de princípio vital capaz de produzir extremos de estabilidade e contemplação, mas também de progresso e atividade.
A alma da civilização ocidental nascente era a Igreja de Cristo. O esplendor da antiga Europa – da qual a contemporânea ainda hoje colhe os frutos – nasceu em última análise da benéfica influência da Igreja na sociedade. A Esposa de Cristo, fonte de toda espécie de perfeição, foi a raiz de toda essa vida; impulsionou a ordem temporal à uma borbulhante vitalidade com tal serenidade, sabedoria e naturalidade que daria a impressão de irreflexão, mas o fez conservando a harmonia do corpo social através da contemplação.
Se a Igreja fosse falsa, incentivaria em demasia o eremismo ou o excesso de atividade, porque não possuiria em si o dom da santidade. Como a Igreja é verdadeira, estimula esses contrários harmônicos de maneira exímia, produzindo aquele equilíbrio de alma que é um dos frutos próprios à Igreja Católica.








