ITTA – IFAT

Instituto Teológico São Tomás de Aquino

ITTA – IFAT - Instituto Teológico São Tomás de Aquino

Uma graça sempre ao nosso alcance


Quem tiver a infelicidade de cometer um pecado, e estiver impossibilitado de confessar-se logo, terá sempre um precioso recurso para reconciliar-se sem demora com Deus.

Lucas Garcia

Em sua infinita misericórdia, Deus põe à disposição de Seus filhos, para sua santificação, uma incomensurável quantidade de dons e graças. Alguns destes favores divinos, Ele os dispensa a todo e qualquer fiel. Outros, porém, em sua sabedoria, o Criador os reserva para algumas almas eleitas.

É o caso do dom da profecia, do de fazer milagres e de tantos outros, concedidos apenas em determinadas circunstâncias, de acordo com as necessidades da Santa Igreja.

Alguns pensam que a esta categoria especial de dons pertence a graça da contrição perfeita. Isto não é real. Muito ao contrário, esta graça está sempre ao alcance de todos os ­fiéis, sem qualquer exceção. Mais ainda, ela é de fundamental importância na vida espiritual de todo batizado.

Entre os livros que tratam do tema, destaca-se o do Padre Johann von den Driesch, intitulado A Contrição Perfeita – uma chave de ouro para o céu. Nele, esse fervoroso sacerdote da arquidiocese de Colônia expõe a doutrina católica a respeito, com a clareza do bom pedagogo e o ardor do apóstolo empenhado na salvação das almas.1

Elementos da contrição autêntica

A contrição — ou arrependimento — é a dor de alma que a pessoa sente por haver pecado; essa dor só é verdadeira quando o pecador detesta a má ação praticada e tem o propósito de não mais pecar. Por exemplo, se um ladrão se diz arrependido de um roubo cometido, mas não tem horror ao crime em si, nem faz o propósito de se corrigir, não se pode afirmar que esteja contrito.

Para ser autêntica, a contrição precisa ser interna, ou seja, provir de fato da alma, não pode reduzir-se a meras palavras pronunciadas sem reflexão. Deve também ser geral, isto é, abranger todos os pecados, ao menos todos os pecados mortais. É necessário, por fim, que ela seja sobrenatural, quer dizer, que tenha por base alguma verdade da Fé: o temor de Deus que tem o direito de ser obedecido, o amor de Deus que nos ama, o desejo do Céu, o medo do inferno, etc.

Se alguém assalta um banco e depois se arrepende porque está em risco de ser preso, isso não é autêntica contrição, pois se baseia em motivos meramente naturais.

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Sua essência: a vontade de afastar-se do pecado

Como acima dissemos, a graça do arrependimento está ao alcance de todos. Para obtê-la, basta manifestar a Deus com sinceridade de alma o seu pesar por tê-Lo ofendido e o firme propósito de não tornar a pecar.

“A essência da contrição está na alma, na vontade de afastar-se deveras do pecado e converter-se a Deus”, afirma o Padre Johann von den Driesch.

Contrição perfeita e imperfeita

A contrição de um pecador pode ser perfeita ou imperfeita, dependendo dos motivos que o levem a tê-la.

A contrição perfeita procede do amor: o pecador se arrepende pelo fato de ter ofendido a Deus, infinitamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas.

Imperfeita é a contrição que decorre do temor: a pessoa aborrece o pecado pelo medo de perder o Céu e ser lançada no inferno. Por que é chamada de imperfeita? Porque nela o pecador toma em consideração principalmente a si mesmo, e não a Deus.

Exemplos de verdadeira contrição

Vejamos um belíssimo exemplo de contrição perfeita, tirado do Evangelho.

No pátio da casa do sumo sacerdote Caifás, São Pedro negou três vezes a Jesus. Em seguida, saiu e “chorou amargamente” (Mt 26, 75).

Por que chorou São Pedro? Se fosse pelo fato de passar vergonha diante dos outros Apóstolos, seria uma dor meramente natural, não existiria verdadeira contrição. Se fosse por medo de ser excluído do Reino de Cristo, ele teria uma contrição autêntica, mas imperfeita.

Ele chorou, porém, por um motivo muito elevado, como diz o Padre von den Driesch: “Pedro arrepende-se e chora, antes de tudo, porque ofendeu a seu amado Mestre, tão bom, tão santo, tão digno de ser amado [...]. Tem, pois, verdadeira e perfeita contrição”.

Os Evangelhos nos narram mais um magnífico exemplo de contrição perfeita: o da pecadora que se prostra aos pés de Jesus, banha-os com suas lágrimas, enxuga-os com seus cabelos, beija-os e, por fim, os unge com perfumes. E o Divino Mestre declara que “seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela muito amou” (Lc 7, 47).

Contrição perfeita e confissão

Que pela contrição perfeita o pecador obtém o perdão dos seus pecados antes mesmo de confessar-se, é doutrina afirmada no Concílio de Trento (14ª sessão, cap. 4).

Entretanto, adverte o mesmo Concílio, ela não dispensa o pecador da necessidade de acusar-se de todos os seus pecados mortais no Sacramento da Confissão e de receber a absolvição do ministro de Deus. De modo que no próprio ato de contrição perfeita deve estar incluído o propósito de confessar-se.2

Quanto tempo depois? É pelo menos muitíssimo aconselhável confessar-se logo que possível.

“Mas é tão difícil ter contrição perfeita!” — poderá alguém pensar.

Puro engano! Para dar-nos essa graça, Deus exige de nós uma atitude bem ao nosso alcance: desejá-la realmente e pedi-la com insistência. O Padre Johann von den Driesch  sugere, entre outras, esta curta oração: “Senhor, dai-me a graça do perfeito arrependimento, da perfeita contrição dos meus pecados”. A quem assim pede, com boa vontade e de coração sincero, Deus não deixará de atender.

Efeitos da contrição perfeita

São maravilhosos os efeitos e benefícios que a contrição perfeita nos obtém.

A quem é pecador, ela perdoa imediatamente os pecados cometidos, devolvendo-lhe a graça santificante pela qual ele volta a ser filho de Deus, livrando-o das penas do inferno e restituindo-lhe os méritos perdidos.

Dir-se-á, então, que a contrição perfeita beneficia apenas a quem cometeu pecado mortal. Não é verdade, pois ela robustece o estado de graça naqueles que não o perderam. Cada ato de contrição perfeita aumenta o grau da graça santificante em nossa alma, tornando-a mais formosa aos olhos de Deus!

*     *     *

Eis aí, leitor, um imenso dom que Deus deixou ao nosso alcance. Saibamos bem aproveitar esta dádiva celeste, procurando fazer diariamente muitos atos de contrição perfeita. Pois, além dos benefícios enumerados acima, quem se habitua a fazê-los com freqüência os repetirá, por assim dizer, instintivamente na hora da morte. Portanto, uma prática benéfica também nos casos de pecados veniais, ou até mesmo quanto às imperfeições.

Saibamos aproveitar a imensa bondade do Criador que nos dá essa misericordiosa oportunidade de nos apresentarmos diante dEle inteiramente limpos de pecado! ²

1 Driesch, Johann von den. A Contrição Perfeita – uma chave de ouro para o céu, Tip. São Francisco, Bahia, 1913.

2 Cf. DENZINGER – HÜNERMANN, n. 1677.

ARAUTOS DO EVANGELHO, N. 84, DEZ 2008.

Qual é a vontade de Deus a respeito do cristão?

(3ª parte)

O catecismo ensina que a vontade de Deus para com o cristão possui dois prismas. Um na terra e outro no Céu. Nesta vida esta vontade se realiza no mandato de Cristo de “que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou”[1]. Desta caridade mútua procede todo o bem da sociedade. Queremos o bem natural e material do próximo, mas sobretudo, queremos a sua salvação eterna, pois o bem sobrenatural do irmão vale mais do que todo o Universo. Em relação a Deus, a vontade do Pai na terra é “elevar os homens à participação da vida divina” [2], porque Deus quer conviver com o homem.

Esta vontade de Deus em relação ao cristão se realiza através da Igreja que reúne todos homens em torno do seu Filho, Jesus Cristo. Por esta razão a Igreja é na terra “o germe e o princípio do Reino de Deus”[3]. O Catecismo ensina que a vontade do nosso Pai é “que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2, 3-4), e “não quer que ninguém se perca” (2Pe 3, 9)[4].

Deus quer comunicar sua própria bondade, fazendo-nos filhos adotivos por Jesus Cristo. Por esta razão, afirma Santo Irineu de Lyon: “Se a revelação de Deus pela criação já proporcionou a vida a todos os seres que vivem na terra, quanto mais a manifestação do Pai pelo Verbo proporciona a vida aos que veem a Deus!”[5]. Esta é a glória máxima da qual o homem é capaz na terra, conviver, amar e sentir-se amado por Deus.

Esta é a vontade de Deus que começa na terra e se consome no Paraíso: cumprir esta vontade de Deus é possuir a felicidade na terra, a qual se tornará plena no Céu. Desta forma o cristão faz a vontade de Deus, na terra assim como no Céu.


[1] Catecismo da Igreja Católica, n. 2822. Cf. Jo 13, 34; 1 Jo 3; 4; Lc 10, 25-37.

[2] II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 2: AAS 58 (1966) 818.

[3] II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 5: AAS 57 (1965) 8.

[4] Cf. Mt 18, 14.

[5] Santo Irineu de Lião, Adversus haereses 4, 20, 7: SC 100, 648 (PG 7, 1037).

Como é a vontade de Deus? (1ª parte)


Marcos Eduardo Melo dos Santos

O cristão sabe, pela inteligência e especialmente pela Revelação, que o universo, sendo ordenado, não pode ter sido criado pelo acaso ou por um destino cego (CEC 295), como se alguém lançasse letras do alto de um prédio e no solo se formassem frases ordenadas, constituindo um livro. A criação é muito mais que uma obra escrita. É ordenada com leis perfeitíssimas.

Deus ordenou a existência de todas as leis da natureza, bem como de todos os passos da História e todos os dramas da vida de cada homem. Por esta razão o livro da Sabedoria pergunta: “como poderia algo subsistir, se Ele não o tivesse querido?” (Sb 11,25), e o salmista responde: “Tudo que Deus quis, Ele o fez” (Sl 113, 11).

A vontade de Deus pode mudar?

Constam no antigo Testamento, algumas ações de Deus descritas de forma humana e que poderiam dar a entender que Deus mudou de vontade. Assim, no Dilúvio Deus haveria se “arrependido de criar o homem” (Gn 6, 7) ou ainda “se irado” contra Israel que a pouco libertara da escravidão (Dt 9, 20).

Neste sentido, inúmeras são as intervenções de Deus na História. Um Deus que permite o sofrimento de Jó, mas que depois o cumula de bens ainda maiores. Para libertar o Povo Eleito da escravidão faz portentos admiráveis no Mar Vermelho, mas não hesita em castigar o pecado de idolatria dos filhos de Israel. Esta e diversas outras passagens da Bíblia podem dar a parecer ao leitor que Deus mudou, mas é necessário fazer uma distinção, que procede e assemelha-se ao modo humano de querer.

A mudança de vontade no homem deriva do fato de perceber algum aspecto mais aproveitável em uma atitude ou objeto, de que antes não havia se dado conta. Neste sentido, a vontade de Deus é imutável, pois o Ser Onisciente conhece todas as coisas e não se engana em suas previsões, como nós humanos. Muito diferentemente de nós, Ele não quer algo contrário do que havia antes desejado. Desta forma, em razão de sua onisciência a vontade de Deus é absolutamente imutável, por isso ensina a Escritura: “Deus não é filho de homem para mudar” (Nm 23, 19).

Por outro lado, as circunstâncias podem fazer com que nós mudemos de vontade. De forma semelhante, Deus pode querer que algo mude. Assim como queremos o bem do próximo, ou a melhoria das condições de vida na sociedade, Deus quer que o pecador se converta e que os bons sejam ainda melhores. Neste sentido, a vontade de Deus não é contrária ao que era, portanto, não mudou, mas sim, quer a alteração de certas coisas, como por exemplo, que o mal seja tolhido e o bem aperfeiçoado.

Solene inauguração do ano letivo de 2011 no Seminário São Tomás de Aquino

ano letivo de 2011

Na tarde do dia 28 de janeiro, memória de São Tomás de Aquino, deu-se a solene inauguração do ano letivo de 2011, na Casa de Formação Sacerdotal São Tomás de Aquino. A fim de atrair as celestiais bênçãos para os trabalhos de mais um ano acadêmico, o programa se iniciou com a celebração de uma Eucaristia na igreja anexa ao Seminário, presidida por D. Benedito Beni dos Santos, Bispo Diocesano de Lorena e Supervisor Geral de Formação dos Arautos do Evangelho.

Concelebraram a Missa em memória “do mais santo dos sábios e mais sábio dos santos” – São Tomás de Aquino –, o Côn. Edson José Oriolo dos Santos, Cura da Catedral Metropolitana de Pouso Alegre e Vigário Geral da mesma Arquidiocese, o Pe. Rivelino Nogueira, Pároco da Catedral Nossa Senhora da Piedade (Lorena-SP) e o Pe. Antônio Guerra, EP.
Estiveram presentes na cerimônia o Diretor do ITTA, o Revmo. Pe. Caio Newton de Assis Fonseca, EP, e todo o corpo docente a tempo pleno, tanto do IFAT, quanto do ITTA. Somaram-se ao corpo discente de ambos os institutos, cerca de 900 Arautos do Evangelho, provenientes de diversas cidades do Brasil e do mundo, deixando repleta a igreja Nossa Senhora do Rosário.
A Liturgia foi animada pelo Coro e Orquestra Internacional dos Arautos do Evangelho, sob a regência do maestro Alejandro Javier de Saint’Amant, que executou obras de Georg Friedrich Händel (1685-1759) e Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594), assim como cânticos gregorianos.
Em brilhante homilia, Dom Beni correlacionou as leituras do dia com a memória de São Tomás. Também discorreu sobre os três principais sentidos do termo “Reino de Deus”, presente nos santos Evangelhos:
“O primeiro sentido consiste em que Cristo, enquanto manifestação encarnada do plano salvífico do Pai, é o próprio Reino de Deus entre os homens; o segundo sentido é místico, trata-se do Reino de Deus que não está circunscrito a um espaço geográfico, mas que reside no interior de cada homem em estado de graça, de cada santo. O pecado é o anti-reino de Cristo, e quem vive no pecado está fora deste Reino; por fim, em seu terceiro sentido, o Reino de Deus é a Igreja Católica, sacramento ou sinal de salvação, para todos os homens”.
Em seguida, aplicou estas verdades teológicas, relacionando-as com alguns desafios dos tempos atuais para a difusão deste Reino:
“Assim como o inimigo semeava o joio a fim de perder o trabalho do Divino semeador, de modo análogo, também no mundo atual, a cizânia do ódio; da perseguição religiosa em certos países do mundo; da exclusão do crucificado nos lugares públicos; e da influência dos meios de comunicação ao afirmarem o bem como o mal e o mal como o bem, são verdadeiros inimigos do Reino De Deus”.
Afirmava Dom Beni que “a Fé é a arma pela qual o cristão pode hoje combater o ódio dos inimigos do Reino. A mesma Fé amada e explicitada pelo grande Doutor da Igreja, São Tomás de Aquino”.
Ao final, após considerar com clareza alguns pontos da Suma Teológica sobre a essência divina, ressaltava que “um teólogo só pode transmitir verdadeira teologia, quando vive a santidade. Sem a prática da virtude, um professor de teologia não consegue comunicar o conhecimento de Deus. São Tomás foi esta estrela de primeira grandeza nos céus da teologia, precisamente porque foi santo. Seu brilho não provém apenas da sabedoria, mas da santidade, e por isso, foi honrado pela Igreja como ‘Doutor da Vida Cristã’”.

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Após a homilia, o Pe. Alex Brito, EP, introduziu o significado da cerimônia de Profissão de Fé e Juramento de Fidelidade que fariam ou renovariam os professores dos Institutos de Teologia e Filosofia (IFAT e ITTA). Explicava que sempre foi uma recomendação de diversos Papas da História da Igreja, reafirmada pelo Vaticano II, especialmente através do código de Direito Canônico de 1983, que cada encargo importante na Igreja fosse recebido após o solene juramento (c. 833 § 6). Como o ensino da Fé Cristã ocupa um lugar preeminente na vida eclesial, os professores do IFAT e do ITTA prestaram sobre as Sagradas Escrituras o solene juramento.
Recitado o Credo Niceno-Constantinopolitano, os professores proclamaram a crença “em tudo o que está contido na palavra de Deus, escrita ou transmitida pela tradição, e é proposto pela Igreja, de forma solene ou pelo Magistério ordinário e universal, para ser acreditado como divinamente revelado”. A fórmula termina com a aceitação do “religioso obséquio da vontade e da inteligência, aos ensinamentos que o Romano Pontífice ou o Colégio Episcopal propõem quando exercem o Magistério autêntico”.

Ajudando as vítimas das chuvas no Brasil

As chuvas que assolam o sudeste do Brasil, especialmente o Estado do Rio de Janeiro, já são consideradas a maior catástrofe natural da História do Brasil. Cerca de 800 mortos e milhares de pessoas ficaram desalojadas. Todavia, esta calamidade atingiu também o estado de São Paulo, e de modo especial, as cidades que se localizam na Serra da Cantareira, ao norte da Capital.Entrega de cesta básica_7
Casas destruídas, ruas obstruídas, falta de energia e inundações atingiriam a população da Serra, e de forma especial, algumas famílias do bairro do Apolinário.
Como o riacho transbordou, suas águas penetraram em diversas casas, fazendo com que seis famílias ficassem desabrigadas e as respectivas casas condenadas, devido à erosão provocada pelas águas junto aos fundamentos das residências.
Face à dor destes nossos irmãos, os membros do IFAT-ITTA, com a ajuda de alguns famílias generosas e compadecidas, distribuíram alimentos e apoio espiritual às cerca de 30 pessoas desalojadas que, com o apoio da comunidade local, conseguiram hospedar-se num salão de festas.

O método preventivo de Dom Bosco


Educar não é só uma arte. Passou a ser um desafio, pois é cada vez mais difícil orientar a juventude num sentido contrário à mentalidade dominante. São João Bosco encontrou a chave que abre a alma do jovem à influência do bem.

Thiago de Oliveira Geraldo

Manter a disciplina numa sala de aulas constituída de adolescentes é uma dificuldade que, com algumas variantes, mostra-se quase tão antiga como a civilização. Os mestres de Santo Agostinho poderiam dar um testemunho valioso a esse respeito. Em outros tempos, os métodos usados eram muito mais diretos que os atuais e davam resultados imediatos, proporcionais à energia e à força de personalidade do professor. Mas o problema de fundo não deixa de ser o mesmo, hoje como ontem.

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A educação não se restringe a conseguir manter, dentro do recinto de uma sala de aulas, todos os alunos em ordem e silêncio, para que o professor possa transmitir com eficácia seus ensinamentos. O bom educador deve saber moldar a personalidade de seus discípulos, corrigindo os defeitos, estimulando as qualidades, fazendo-os amar os princípios que orientarão a vida. Numa boa educação, a formação religiosa ocupa lugar principal, pois sem amor de Deus e auxílio da graça ninguém consegue vencer as más inclinações e praticar estavelmente a virtude.

Da teoria à prática…

Na teoria, tudo isso é muito fácil… Mas, como pô-la em prática no mundo de hoje, no qual são tão numerosas e atraentes as solicitações para o mal e os educadores sentem crescente dificuldade de exercer influência sobre os jovens?
O problema já era candente na época de São João Bosco. A sociedade de então passava por grandes transformações, sobretudo de mentalidade. E a juventude, sempre ávida de novidades, afastava-se da religião e perdia o rumo.
Dom Bosco fazia o “milagre” — muito maior do que todos os outros por ele realizados — de atrair e formar jovens que já não se deixavam moldar pelos antigos métodos educacionais e se subtraíam à ação da Igreja.
Tentativas de penetrar o segredo do método preventivo
Eram tão surpreendentes os resultados obtidos pelo fundador dos salesianos que muitos de seus coetâneos procuravam insistentemente arrancar dele o “segredo” de seu êxito.
Essa mesma intenção teve o reitor do seminário maior de Montpellier, quando enviou uma carta a Dom Bosco, perguntando qual o segredo da pedagogia utilizada por ele. Imagine-se sua surpresa ao receber a seguinte resposta: “Consigo de meus meninos tudo o que desejo, graças ao temor de Deus infundido em seus corações”.
Não satisfeito, o reitor enviou uma segunda carta, mas a esta o Santo não soube responder, pois nunca havia feito um estudo sobre a matéria. O livro do qual ele tirava seus ensinamentos era sua própria vida.

Confiança: o instrumento do bom educador

Discorrendo sobre o mesmo assunto com o cardeal Tosti, em Roma, numa manhã de 1858, disse-lhe São João Bosco: “Veja, Eminência, é impossível educar bem a juventude se não se lhe conquista a confiança”. Em seguida, para dar-lhe um exemplo concreto, ele o convidou a acompanhá-lo à Praça del Popolo, onde facilmente encontrariam grupos de jovens brincando, e poderia demonstrar a eficácia de seu método. Mas quando desceu da carruagem, a turma de meninos que brincava na praça fugiu correndo. Certamente julgaram que esse padre lhes ia fazer um pequeno sermão ou repreendê-los por alguma falta. O cardeal ficara dentro do veículo, assistindo à cena, e se divertia, julgando que aquele primeiro fracasso levaria Dom Bosco a desistir da experiência. Mas este não se deixou abater e, em poucos minutos, com sua vivacidade e irresistível bondade, tinha uma pequena multidão de jovenzinhos à sua volta se divertindo com seus jogos e entusiasmados com sua bondade. Chegado o momento de se retirar, eles formaram duas fileiras diante do coche, para aclamar o sorridente sacerdote enquanto este passava. O cardeal tinha dificuldade em acreditar no que estava vendo…

Evitar o pecado: a essência do método preventivo

Afinal, como fazia São João Bosco para cativar a juventude?
Como primeiro objetivo, pretendia ele evitar todo e qualquer tipo de pecado, usando de grande vigilância, acompanhada de amorosa solicitude. Não de um modo esmagador e glacial, mas paternal e afetuoso. A essa tática de conduzir os jovens o santo educador deu o nome de “método preventivo”, em confronto com o outro então em voga, denominado “repressivo”, o qual tinha por base os castigos.
Esse modelar formador da juventude não perdia ocasião de coarctar o avanço do mal. Mesmo nos recreios, seu olhar atento logo conseguia descobrir onde estava a rixa ou de onde provinham palavras reprováveis e, sem demora, desfazia a confusão com hábil jovialidade, pois ele era a alma dos divertimentos, como seus alunos testemunhavam. Não raras vezes, ele desafiava todos os meninos, de uma só vez, para uma corrida. Então erguia a batina, contava até três e deixava aquela turba de jovens para trás: Dom Bosco sempre chegava em primeiro lugar. Quando já tinha 53 anos, ele ainda deixava os espectadores estupefatos com sua agilidade, pois nunca perdia uma corrida com os alunos do Oratório.

Suavidade na repreensão

São João Bosco jamais dava castigos corporais, na convicção de que isso só incitaria os corações à revolta e fecharia a alma do jovem para os conselhos salutares. A maneira pela qual ele repreendia era através de uma palavra fria, um olhar triste, uma mão retraída, ou qualquer outro sinal discreto de desagrado com alguma falta. Mas os resultados demonstravam ser extremamente eficaz essa forma de correção.
Certa noite, logo após as orações, Dom Bosco queria dirigir aos meninos algumas palavras benfazejas, antes de irem dormir, mas tal era a algazarra que ele não conseguiu obter silêncio. Após alguns minutos de espera, comunicou-lhes: “Não estou contente com vocês! Vão dormir. Esta noite não lhes digo nada”. A partir desse dia nunca mais foi necessário usar uma sineta para que os rapazes fizessem silêncio.
Poderia, porém, surgir uma dúvida a respeito de tal método. Essa vigilância para evitar o pecado não acabaria por tirar a liberdade ao jovem?
A natureza humana é feita para o equilíbrio: não sufocar a liberdade nem, muito menos, permitir uma indisciplina desenfreada. Essa conjunção, São João Bosco soube fazê-la admiravelmente. Apesar de toda a vivacidade e afeto no trato com os jovens, estes sempre mantinham uma atitude de respeito e admiração para com seu mestre.
Alegria, tempero indispensável
O ambiente no refeitório do Oratório era uma comprovação desse relacionamento harmonioso, quando Dom Bosco demorava algum tempo mais para terminar sua refeição, à qual tinha chegado atrasado. Assim que os outros superiores saíam, uma multidão de jovens entrava correndo e ocupava todo o recinto, não deixando espaço vazio. Alguns se aproximavam tanto que quase encostavam suas cabeças nos ombros dele, outros se apoiavam no espaldar de sua cadeira e os mais pequeninos se enfiavam debaixo da mesa. Qual não era a surpresa comovida do Santo ao ver aquelas pequenas cabecinhas dali saírem, com o único fim de estarem mais perto de seu pai. A liberdade com que aqueles jovenzinhos dele se aproximavam e a veneração que lhe devotavam constituíam realmente um quadro comovedor.
Uma ocasião como essa era uma excelente oportunidade de fazer o bem. O zeloso sacerdote aproveitava então para contar uma história, dar um bom conselho, fazer perguntas, até que o sino indicasse a hora da oração da noite, ou seja, o fim desse convívio enternecido.
Como se vê, a alegria ocupava um grande papel no método educativo de Dom Bosco. Com ela, pretendia o Santo tornar a vida leve e criar disposições para os meninos abrirem a alma à influência dele e ao sobrenatural. Um dos meios que utilizava eram os jogos e diversões, dos quais o próprio educador participava.
Num desses divertimentos, ele alinhava todos os meninos em uma única fila e lhes recomendava: “Atenção! Façam tudo como eu fizer. Quem não fizer como eu faço, sai da brincadeira”. Isso dito, começava seu percurso, ora correndo com os braços para o ar, ora fazendo gestos espetaculares, batia palmas, pulava com uma só perna, ameaçava parar numa árvore, mas logo depois saía correndo de novo. Desse modo, entretinha e criava um ambiente de alegria para aqueles jovens.
Com tais recursos e, sobretudo, com a graça divina, São João Bosco conseguia levá-los a amar a Deus com alegria. Para esse efeito, a música era um instrumento valioso, a ponto de ele dizer que uma casa sem música é como um corpo sem alma.
Freqüência aos sacramentos e
devoção a Nossa Senhora

A perseverança só é possível pela freqüência aos sacramentos e uma ardente devoção a Nossa Senhora.

Na confissão, Dom Bosco pacificava as consciências, infundia confiança nas almas, conduzia seus juvenis penitentes a Deus. Bela descrição dessas confissões nos faz Huysmans, escritor católico do séc. XIX:
“Nosso Santo, trazendo no semblante a bonomia de um velho vigário do interior, puxava para perto de si o menino que tinha terminado o exame de consciência e, tomando-o pelo pescoço, envolvia-o com o braço esquerdo e fazia o pequeno penitente apoiar a cabeça no seu coração. Não era mais o juiz. Era o pai que ajudava os filhos, na confissão tantas vezes penosa das faltas mais pequeninas.”
Por meio da comunhão freqüente queria São João Bosco fortificar a alma dos jovens contra as investidas infernais. Para ele, a Primeira Comunhão deveria ser feita o mais cedo possível: “Quando um menino sabe distinguir entre o pão comum e o Pão Eucarístico, quando se acha suficientemente instruído, não é preciso olhar para a idade. Venha logo o Rei do Céu reinar nessa alma”.
Seguindo os sábios conselhos maternos, Dom Bosco fez da devoção a Maria Santíssima, sob a bela invocação de Maria Auxiliadora, uma coluna da espiritualidade dos salesianos. “Se chegares a ser padre — repetia-lhe afetuosamente ‘mamma Margherita’ — propaga sem cessar a devoção a Nossa Senhora”.

Método preventivo e graça divina

maria-auxiliadora-1Na realidade, o método preventivo de Dom Bosco é uma forma adaptada às novas gerações — e plenamente atual — de predispor os jovens para serem flexíveis à ação da graça divina. É ela a verdadeira causa do êxito surpreendente desse grande educador que marcou sua época, até nossos dias, com seu inovador método transmitido a seus seguidores, os sacerdotes salesianos e as filhas de Maria Auxiliadora.

O que é a Revelação?

Epifania significa “manifestação de Deus”. Esta solenidade do calendário litúrgico comemora a Revelação de Jesus aos Reis Magos.. A fim de aprofundarmo-nos no estudo da doutrina Católica apresentamos este artigo a fim de que o leitor conheça mais sobre a Revelação e assim compreenda melhor o que a Igreja comemora na Epifania do Senhor.

Lucas Alves Gramiscelli

Quantas e quantas vezes elevamos as vistas para o imenso firmamento erguido sobre nossas cabeças, e nossos olhos não alcançam as distâncias insondáveis dos inúmeros astros do Universo, e assim, nosso olhar se perde nas barreiras de nossa limitação? Qual o motivo pelo qual esse fenômeno se passa? Simplesmente porque nossos olhos são humanos e insuficientes, não abarcam todas as coisas. Por isso, seria plausível que alguém imaginasse, fizesse suposições, enfim, criasse teorias a respeito daquelas realidades que existem acima da atmosfera terrestre.
Imaginemos, por outro lado, um astrônomo que trabalhando com seu instrumento preferido, o telescópio, fosse mais além e sondasse as vastidões do sideral e conhecesse outra galáxia, um novo planeta, ou então, mais uma daquelas nebulosas feéricas; não seria natural que ele tivesse verdades para nos transmitir que para nós são desconhecidas? Verdades essas fundamentadas e fincadas na realidade, e, portanto com muito mais autoridade do que as simples hipóteses de uma pessoa qualquer que se pusesse a conjecturar sobre coisas que ignora.picture for post today
Pois bem, Deus não inventa teorias e nem forma opiniões sem fundamentos, pelo contrário Ele pode nos transmitir sem margem alguma de erro tudo o que quiser, porque não só vê e conhece, mas é Criador e Senhor de todas as coisas. Ele sim, nos revelou muitas verdades. E, as maravilhas – quase sempre inacessíveis à nossa débil razão -, que Ele nos fez conhecer, são muito maiores e transpõem diversas vezes tudo quanto há de natural, pois, o que Ele ensina são, sobretudo, verdades eternas e sobrenaturais . Assim sendo, é natural que Deus tenha verdades para nos ensinar. É a essa manifestação do Criador à criatura, esse, por assim dizer, levantar do “véu” que até então cobria e salvaguardava certas realidades, antes conhecidas e reservadas somente a Deus, e que em dado momento foram colocadas à disposição dos homens, que chamamos de Revelação.
Entretanto, Deus não é como um astrônomo que transmite a seus alunos sua bela ciência, mas como um Pai que ensina aos seus filhos com uma Bondade incomensurável. O instrumento pelo qual se faz conhecer não é somente um telescópio, porém, Sua própria Palavra Eterna, Imutável, e “mais penetrante do que uma espada de dois gumes” (Hb 4,12).
O que revelou? “Pela revelação divina quis Deus manifestar-se, comunicar-se a si mesmo e os decretos eternos da sua vontade a respeito da salvação dos homens, ‘para os fazer participar dos bens divinos, que superam absolutamente a capacidade da inteligência humana’”. O ápice desta revelação foi atingida quando o próprio Deus se fez homem para viver entre nós.
Era realmente importante que houvesse uma Revelação Divina? Sabemos que há dois caminhos – ambos bem iluminados – que nos faz subir até Deus: o primeiro é iluminado por uma lamparina chamada inteligência humana, que através de raciocínios, reflexões e meditações atinge certas verdades; o segundo é iluminado pelo fulgor de um raio, essa é a “via” da Revelação Divina. Entretanto, São Tomás de Aquino explica que era necessário existir para nossa salvação uma doutrina fundada na Revelação Divina, primeiro, porque estamos ordenados para Deus, como para um fim que ultrapassa a compreensão da razão, como diz Isaías: “O olho não viu, ó Deus, fora de ti, o que preparastes para aqueles que te amam” (Is. 64,3). Ora, é preciso que a pessoa, que dirige suas intenções e suas ações para um fim, antes conheça este fim. Era, pois, necessário para a salvação do homem que essas coisas que ultrapassam sua razão lhe fossem comunicadas por revelação divina.
Ademais, quando o ser humano conhece a Deus apenas com a luz da razão, encontra muitas dificuldades. Além do mais, não pode penetrar sozinho na intimidade do mistério divino. Por isso, Deus quis iluminá-lo com a sua Revelação, não somente sobre verdades que superam a compreensão humana, mas também sobre verdades religiosas e morais que, embora acessíveis por si à razão, podem ser assim conhecidas por todos sem dificuldade, com firme certeza e sem mistura de erro .
Os três Reis Magos, no mais longínquo Oriente, jamais teriam encontrado ao Menino Deus, se o mesmo Deus não tivesse lhes revelado através de uma estrela o caminho a seguir, da mesma maneira, a humanidade, que depois do pecado original vivia longe da pátria celeste, nunca teria chegado a um conhecimento de Deus, se Ele não tivesse revelado. Os olhos do corpo precisam de luz para ver as coisas da terra, e a razão, olho da alma, precisa da luz da revelação divina para ver as coisas de Deus.
Essa Revelação não é senão um corolário do imenso amor de Deus pelos homens, pois Seu amor não se limita quando, benevolamente, dá a existência para cada ser, mas ao contrário, se manifesta continuamente no decorrer dos séculos. “A história da salvação é a Revelação mais eloqüente e concreta do amor do Senhor; mais ainda, constitui o diálogo mais fascinante de amor entre Deus e o homem”.
Quando Deus se manifestou? “No intuito de abrir o caminho de uma salvação superior, manifestou-se a si mesmo desde os primórdios a nossos primeiros pais”.
O píncaro dessa revelação se encontra proclamado no Evangelho de São João, na frase que menciona o maior acontecimento de toda a história, que é a pedra angular sobre a qual todo o edifício da Revelação acha seu sustento e apoio: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 14). Durante o tempo em que essa Terra se dignou receber o próprio Criador feito homem, ela viu revelada a Sua face, Sua mentalidade, Sua majestade, Sua santidade, Sua Divindade . Pronto! Nada mais é preciso, tudo está revelado . Pois, como declarou São João da Cruz: “em dar-nos, como nos deu, seu Filho, que é sua Palavra única – e outra não há –, tudo nos falou de uma só vez nessa única Palavra, e nada mais tem a falar, (…) pois o que antes falava por partes aos profetas agora nos revelou inteiramente, dando-nos o Tudo que é seu Filho” . Foi essa a razão que levou São Bernardo a dizer que, a fé católica não é uma religião do livro, mas sim da Palavra de Deus, não de uma palavra escrita e muda, mas do Verbo Encarnado e vivo . Todavia, embora a Revelação esteja terminada, não está explicitada por completo, é dever da fé católica captar e desenvolver gradualmente sua doutrina ao longo dos séculos .
Entretanto, onde encontramos as verdades reveladas? Na Escritura, que é a Palavra de Deus Escrita; e na Tradição, que é a palavra de Deus não escrita, transmitida oralmente. A Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição constituem os dois modos distintos de comunicar essa revelação . Mas, para que se mantivesse protegido, conservado e unido os dados da Revelação, contidos na Bíblia e na Tradição, Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu o Sagrado Magistério, entregando à Igreja o múnus de ensinar (cf. Mt 28, 19.20).
Tudo isto veio da parte de Deus. E de nossa? O que Lhe retribuiremos? Devemos render-Lhe nossa eterna gratidão e amor por Ele nos ter colocado à disposição esse magnífico “telescópio” para assim podermos conhecer, admirar e contemplar os diversos aspectos desse Infinito Universo que é Ele, e também por nos ter oferecido a oportunidade de começarmos, já nessa terra, a participar de Sua glória até chegarmos à eternidade onde o fitaremos face a face. Pois, hoje O vemos como por um espelho e confusamente, mas um dia O veremos tal qual Ele é! (cf. 1Cor 13, 12; 1Jo 3,2).

Deus vem

Thiago de Oliveira Geraldo – Professor de Introdução à Sagrada Escritura (ITTA)
In: Gaudium Press

Quais são as características da verdadeira amizade? São várias, uma delas se comprova quando se tem a confiança de revelar ao amigo os próprios pensamentos. É o que há de mais íntimo no ser humano, lugar impenetrável aos outros, não para um verdadeiro amigo. Pode-se revelar um segredo ou mesmo um desejo. “O termo ‘revelação’ significa literalmente ‘tirar o véu que oculta alguma coisa’.” [1]

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Outra prova de uma amizade levada até as últimas consequências é dar a própria vida, se necessário, por quem se ama. Imaginemos, por exemplo, um inocente condenado à morte cuja execução se dará em breve, seria difícil oferecer-se para morrer em seu lugar, mesmo sabendo que nele não há crime algum. Mais difícil seria dar a vida por um criminoso manifesto. Talvez um grande amigo pudesse se apresentar a fim receber a sentença que coubesse ao outro, mas vejam que não é fácil.

Pois bem, Deus tanto amou aos homens que não só entregou Sua vida pelos réus de morte (pecadores) a fim de lhes abrir as portas do céu, mas também quis vir ao encontro do ser humano por meio da Revelação Divina.

De alguma forma o Criador está acessível a todos. Para alguns, é possível encontrá-Lo através da luz natural da razão pelas obras criadas, como ensina São Paulo: “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras” (Rm 1,20). Para outros, foi-lhes dada a Revelação Divina, inacessível à pura razão: “Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas” (Hb 1,1). Isto sempre se realizou dentro dos desígnios benevolentes de Deus.

O importante é saber que a revelação d’Ele nos chegou por meio de palavras e obras, desta forma entramos em contato com o mistério de Deus, que conduz a história da nossa salvação. Mas Deus quis nos dar absolutamente tudo, e isso se realizou quando enviou seu próprio Filho ao mundo: “Ultimamente nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro universal, pelo qual criou todas as coisas. Esplendor da glória (de Deus) e imagem do seu ser, sustenta o universo com o poder da sua palavra” (Hb 1,2-3).

Jesus Cristo é o ápice da Revelação Divina, Deus disse tudo através de seu Verbo Encarnado: “Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não se há-de esperar nenhuma outra revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (cfr. 1 Tim 6,14; Tit 2,13)”.[2] Não se espera outra revelação antes da manifestação gloriosa do Senhor, mas os cristãos revivem os acontecimentos de Sua vida.

Através da liturgia se celebra os acontecimentos que trouxeram a nossa salvação. Deus Pai enviou seu Filho que morreu por nós e é o Espírito Santo que atualiza esta memória na liturgia: “A liturgia cristã não somente recorda os acontecimentos que nos salvaram, como também os atualiza, torna-os presentes. O mistério pascal de Cristo é celebrado, não é repetido; o que se repete são as celebrações; em cada uma delas sobrevém a efusão do Espírito Santo que atualiza o único mistério”.[3]

Entre os acontecimentos que a liturgia comemora está o advento, próximo a iniciar-se.

O ano litúrgico dos cristãos está separado por períodos, aos quais cabe contemplar misticamente a vida do Divino Redentor. Entre eles está o período do Natal, onde se espera a chegada do Salvador em meio aos homens, comemorado no dia 25 de dezembro. Como preparação para esta chegada, a Igreja instituiu a celebração de quatro domingos, conhecidos como “advento” (do latim significa “chegada”, “vinda”). Espera-se a vinda de Jesus, seu nascimento. Também se refere à segunda vinda de Jesus Cristo.

Desde o século XI o advento abre o ano litúrgico (eclesial), que se encerrou com a solenidade de “Cristo Rei”.

São quatro semanas de preparação para o Natal, nas quais a liturgia vai progressivamente pedindo a vinda do Salvador. Nem sempre e em todos os lugares foram quatro semanas de advento, ocorriam variações entre três a seis semanas; no entanto, em Roma, as quatro semanas são celebradas desde o século V.

Como símbolos desse tempo, podem-se encontrar manifestações de penitência e alegria, ambas com moderação. A penitência se verifica, por exemplo, na ausência do cântico do Glória, bem como nos paramentos roxos, e etc. A alegria se manifesta com cântico do Aleluia e com o domingo Gaudete (“Alegrai-vos”), cujos paramentos são róseos; mas, sobretudo, entre os símbolos de alegria no advento se encontram duas festas votadas à Mãe de Deus. Em oito de dezembro se celebra a solenidade da Imaculada Conceição, em honra da Virgem Maria concebida sem pecado original; dogma proclamado por Pio IX, em 1854. E a festa de Nossa Senhora de Guadalupe, no México, Padroeira da América Latina, em 12 de dezembro.

Neste sentido, “o Advento é por excelência o tempo da esperança, no qual os crentes em Cristo são convidados a permanecer em expectativa vigilante e laboriosa, alimentada pela oração e pelo compromisso efetivo do amor”.[4] Na liturgia espera-se este Deus que vem, porque “Deus vem para nos salvar”.[5]

Deus é o nosso verdadeiro Amigo. Além de enviar seu Filho para morrer por nós na cruz e de se ter revelado definitivamente, ainda confia à Igreja a missão de transmitir estes acontecimentos todos os anos, sob os auspícios do Espírito Santo. É a nossa vez de provar que também somos fiéis a esta amizade, nos preparando para este tempo que se inicia.

Thiago de Oliveira Geraldo

[1] MONFORTE, Josemaría. Conhecer a Bíblia. Trad. de Luis Margarido Correia. Lisboa: DIEL-L, 1998, p. 18.
[2] Constituição Dogmática Dei Verbum, sobre a Revelação Divina, n. 4.
[3] Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Edições Loyola, 1999, n. 1104.
[4] BENTO XVI. Angelus, 3 de Dezembro de 2006.
[5] BENTO XVI. Homilia, 2 de Dezembro de 2006.

A semente da fé

Thiago de Oliveira Geraldo – Professor de Introdução à Sagrada Escritura (ITTA)
In: Gaudium Press

JesusNas escolas as crianças comumente fazem experiências científicas auxiliadas pelos professores. Desta forma, vão se introduzindo nas diversas áreas do conhecimento e complementando seu currículo. Essas experiências além de servirem como avaliação para a aprendizagem, também são momentos de expectativa para os jovens que ainda estão iniciando seu contato com o mundo.

Uma dessas experiências fascinantes é a de plantar uma semente para observá-la germinar. Este pequeno grão, aparentemente morto na mão de uma pessoa, quando é plantado e devidamente regado, produz o “milagre da vida”. A criança esperançosa de que sua sementinha brote, enche-se de contentamento quando vê aquele brotinho que desponta à superfície. E de alguma forma se sente partícipe do poder criador de Deus.
Para as pessoas conhecedoras da arte do plantio, basta ter em mãos um desses grãos para saber a que espécie pertence, qual árvore brotará de seu cultivo e quais frutos produzirão. No entanto, nem todos são especialistas na matéria, portanto, não conseguem diferenciá-los. Para estes últimos, somente o cultivo da semente é que mostrará sua espécie.
Quando se vê uma árvore frondosa, nos espantamos com o tamanho e a firmeza que transparecem de seu aspecto, mas podemos nos esquecer que tudo isso veio de uma sementinha que é propulsora desta obra. Porém, isto não é nenhuma novidade para quem tem uma cultura agrícola. Aqueles que lidam com a plantação, conhecem bem o lucro que se pode tirar de uma colheita e quanto pode produzir uma única semente.
E como não poderia ser diferente, a cultura de um povo está ligada com seus afazeres. Aqueles que vivem em meio à produção agrícola costumam comunicar-se com o linguajar próprio à sua função. Foi em um ambiente orgânico como este que há dois mil anos Jesus Cristo, o Filho de Deus, revelou-se aos homens. Para se fazer entender pelos seus ouvintes, utilizou-se de uma forma de expressão conhecida como parábola (do grego parabolé, literalmente “comparação”, “jogar ao lado de”). Essas narrações de Jesus continham, através de exemplos corriqueiros, ensinamentos admiráveis.
Esta maneira de ensinar era comum na época, mas Jesus se diferenciava dos rabinos, porque Ele queria transformar seus ouvintes, enquanto estes últimos utilizavam a parábola apenas para a interpretação da lei. Falava-se alegoricamente de uma situação semelhante à vida real para que os interlocutores interpretassem a mensagem. Muitas vezes podia se tornar um teste de sabedoria.
Entre os exemplos utilizados pelo Divino Mestre, encontra-se a comparação da pequena semente de mostarda com a fé que os discípulos deveriam possuir: “Os apóstolos disseram ao Senhor: Aumenta-nos a fé! Disse o Senhor: Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: Arranca-te e transplanta-te no mar, e ela vos obedecerá” (Lc 17,5-6).
Os apóstolos viam a necessidade de aumentar sua fé, pois à medida que Jesus ia lhes revelando o que deveriam fazer, percebiam sua incapacidade de realizá-lo. Por isso, o Mestre “faz menção da mostarda, porque sua semente, ainda quando é pequena, é a mais fecunda de todas. Dá a conhecer, portanto, que um pouco de sua fé pode muito”.1
Em outra ocasião, para mostrar a expansão do Reino que Ele veio trazer, Jesus utiliza-se novamente desta sementinha: “Em seguida, propôs-lhes outra parábola: O Reino dos céus é comparado a um grão de mostarda que um homem toma e semeia em seu campo. É esta a menor de todas as sementes, mas, quando cresce, torna-se um arbusto maior que todas as hortaliças, de sorte que os pássaros vêm aninhar-se em seus ramos” (Mt 13,31.32).
Nosso Senhor se refere aqui ao trabalho que os apóstolos iriam realizar a fim de anunciar o Reino de Cristo: “Quis o Senhor com isto dar uma prova de sua grandeza, pois assim exatamente – disse – sucederá com o anúncio do reino de Deus. Em verdade, os discípulos do Senhor eram os mais débeis, os menores entre os homens; mas como havia neles uma grande força, esta se soltou e se difundiu”.2 E em sua sombra – a Igreja – muitos pássaros virão abrigar-se. Nesta parábola, os pássaros representam os povos que aceitarão a pregação dos apóstolos e entrarão no Reino de Deus.
Mesmo empregando esta linguagem conhecida na época, muitas vezes, os discípulos Lhe pediam que explicasse a parábola pronunciada, e isto era feito, pois no futuro eles seriam os grandes propagadores deste Reino e fiéis depositários destes dons recebidos do próprio Deus.
Que pelo menos tenhamos a fé do tamanho de uma semente de mostarda, para que a Igreja, através de seus sacramentos, possa regá-la e protegê-la, fazendo-a crescer e frutificar na caridade tanto nesta vida quanto na eternidade.

1 – SAN JUAN CRISÓSTOMO. Apud SANTO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea.Vol. IV – San Lucas. Buenos Aires: Cultura Católica, 1946. p. 402.

2 – SAN JUAN CRISÓSTOMO. Homilías sobre el Ev. De Mateo, 46, 2. Apud SIMONETTI, Manlio. La Biblia Comentada por los Padres de la Iglesia: Evangelio según San Mateo (1-13). Madrid: Ciudad Nueva, 2004. p. 367.

A Fé e a razão no mistério da Santíssima Trindade

TrindadeLucas Alves Gramiscelli / 2° ano de Teologia.

A Revelação feita por Deus contém verdades que os homens, com sua razão limitada apenas, jamais alcançarão. Uma delas é o mistério da Santíssima Trindade.

Sabemos que “a Fé e a razão constituem como que as duas asas pelos quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade” [1]. Entretanto, qual é o papel da razão sobre os mistérios? Não é somente através da Fé que devemos acreditar neles, visto que são verdades que estão além de nossa inteligência? Apesar dos mistérios serem tão grandiosos às vistas humanas, estas verdades não são contrárias à nossa razão, visto que nada é mais razoável do que crer nos mistérios Revelados por meio daquele que é a Verdade. Por isso explicitou São Justino: “a fé e a razão não podem se contradizer, pois a verdade é uma, tendo sua fonte única em Deus e em seu Logos, seu Verbo, que ele comunica aos homens desde a origem”. [2]

Antes do bispo de Hipona começar a tecer suas considerações sobre a Trindade, ele nos dá uma advertência importantíssima acerca dos que não possuem um equilíbrio entre Fé e a razão; vejamos o que nos diz o santo:

Quem se entregar à leitura do que escrevemos sobre a Trindade, deve ter em conta, primeiramente, que nossa pena está atenta para repelir as falsas afirmações daqueles que, desprezando os princípios da fé, deixam-se enganar por um imaturo e desordenado amor pela razão. [3]

Depois de enunciar tais pensamentos, o santo prossegue de uma maneira categórica afirmando que há pessoas que pensam – pelo menos, aparentemente – apoiados na natureza da alma humana ou em seus sentimentos, e em consequência são levados a fixar regras falsas e falazes em suas doutrinas, ao discorrerem sobre Deus.[4]

Vestígios da Trindade, pequeno auxílio para a razão

Santo Agostinho utiliza uma passagem do Livro da Sabedoria para mostrar que através das coisas criadas podemos chegar até Deus:

São insensatos por natureza todos os que desconheceram a Deus, e, através dos bens visíveis, não souberam conhecer Aquele que é, nem reconhecer o Artista, considerando suas obras. [...] pois é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor (Sb 13, 1.5).

Portanto, podemos dizer que nas coisas criadas por Deus existe uma espécie de auxílios dados por Ele, que por assim dizer, facilitam a nossa Fé. Para exemplificar isto, ele indicará uma analogia que pode ser feita para chegarmos a certo conhecimento da Trindade, é o que ele chama de vestígios. Desde modo, o Bispo de Hipona afirma que existe certa trindade inclusive na visão:

São três as realidades a serem consideradas e distinguidas, e isso com muita facilidade, na visão de qualquer corpo que seja. Primeiramente, o objeto que vemos. [...] Em segundo lugar, deve ser considerada a visão, a qual não existia antes de o sentido ter percebido o objeto. Em terceiro lugar, a atenção da alma que mantém o sentido da vista alerta, enquanto a visão se ocupa daquele objeto. Ora, não se dá apenas clara diferença exterior entre as três realidades, mas também diversidade de natureza entre elas.[5]

Esta diferença, segundo ele, se dá primeiramente porque o objeto visível é de natureza bem diversa do sentido da vista, a qual, encontrando-se com ele, produz a visão. O objeto visto pode subsistir à parte, em sua natureza própria. Quanto ao sentido, porém, já existia no vidente mesmo antes de ele ver o que podia ver. O sentido, pois, ou a visão, isto é, o sentido informado pelo objeto exterior pertence à natureza do ser vivo dotado de alma, natureza essa totalmente diversa do objeto percebido pela visão. Pois informando o sentido, esse objeto produz não o sentido, mas a visão.[6] E continua: “a atenção também é diversa do próprio sentido e da visão. Pois a atenção é função apenas da alma”.[7]

Temos aí, pois, um exemplo de três termos ao mesmo tempo distintos e extremamente unidos. O objeto visível, a vista e a atenção, formam assim um vestígio da Santíssima Trindade.


[1] JOÃO PAULO II. Fides et ratio: Carta encíclica. Disponível em: <www.vatican.va>. Acesso em 18 abr. 2010. Introdução.

[2] Apud. LIÉBAERT, Jacques. Os Padres da Igreja. São Paulo: Loyola, 2000. p. 48.

[3] AGOSTINHO. A Trindade. Tradução de Agustino BELMONTE. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2005. p. 23-27.

[4] Cf Idem. p. 23.

[5] AGOSTINHO. A Trindade. Tradução de Agustino BELMONTE. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2005. p. 337.

[6] Cf. Idem.

[7] AGOSTINHO. A Trindade. Tradução de Agustino BELMONTE. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2005. p. 337-338.