ITTA – IFAT

Instituto Teológico São Tomás de Aquino

ITTA – IFAT - Instituto Teológico São Tomás de Aquino

Entrevista com o Novo embaixador do Brasil junto à Santa Sé

Cidade do Vaticano (Sexta-feira, 11-11-2011, Gaudium Press) O novo embaixador do Brasil junto à Santa Sé, Almir Franco de Sá Barbuda, concedeu uma entrevista exclusiva à Gaudium Press sobre as perspectivas para a sua gestão e a importância das relações o país com a Santa Sé.

Gaudium Press – No último dia 31 de novembro, Sua Excelência se reuniu com o Papa Bento XVI para apresentar suas credenciais. Quais são suas impressões sobre esse encontro?

Embaixador Almir Franco de Sá Barbuda – Foi muito bonito. O Papa está muito atento e muito bem informado sobre o Brasil. Ele conhece muitos aspectos da cultura brasileira, economia e meio ambiente. Ele é um homem muito experiente. Foi um momento muito emocionante para mim e acho que para o país.

GP – Quais partes do discurso do Papa em sua opinião são mais importantes para a futura cooperação entre o governo brasileiro e a Igreja Católica?

barbuda

Embaixador – Claro, eu enfatizei muitos dos pontos de acordo entre o Brasil e a Igreja Católica, que foi assinado em 2007. O Papa está muito agradecido por este Acordo. Este foi o primeiro ponto. Depois falamos sobre o meio ambiente. O governo faz tudo o que pode para proteger a região. E ele estava muito preocupado com a família. E o outro ponto importante foi a preocupação do Santo Padre com a saúde do ex-presidente Lula. O Santo Padre disse que iria rezar para ele se recuperar logo.

GP – Em seu discurso, o senhor mencionou que é uma “grande honra” e uma “enorme responsabilidade” representar o Brasil na Santa Sé. Quais são seus principais objetivos neste novo desafio?

Embaixador – No contrato não há realmente nada de novo, porque o Acordo contém todos os direitos especiais que a Igreja Católica já tem no Brasil. Reunimos tudo em um só documento. Este é o ponto principal. Há outros aspectos positivos, tais como as relacionadas com a preservação de monumentos católicos no Brasil, tais como igrejas antigas, a imagem do Cristo Redentor no Rio de Janeiro e muitos outros.

Eu disse ao Papa que temos tantos monumentos católicos no Brasil que a história do país pode ser contada através deles, citando apenas as igrejas católicas a partir da data da descoberta da nossa terra em 1500 pelos portugueses e como, até agora, a Igreja continua a construir no Brasil. A Igreja Católica é muito importante no país. O número de brasileiros batizados chega a quase 160 milhões, ou seja, 70% da população. Portanto, somos o país com o maior número de católicos no mundo. Isso mostra porque temos uma relação especial com a Santa Sé.

GP – Quais as áreas que gostaria de desenvolver relações com a Santa Sé?

Embaixador – Há uma grande parceria entre o Brasil e a Santa Sé. A Igreja Católica no Brasil é muito ativa na vida social e educacional. Há também muitos hospitais católicos. A Igreja trabalha muito com o governo ajudando a tirar as pessoas da pobreza extrema para trazê-lo para a classe média. Nos últimos dez anos, mais de 4 milhões de pessoas deixaram a pobreza extrema, com a ajuda da Igreja. Agora estamos trabalhando juntos para a realização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) que acontecerá no Rio de Janeiro em 2013.

GP – Como o governo brasileiro contribuirá para a realização deste envento?

Embaixador – Já foi formada uma comissão especial do governo brasileiro, do estado do Rio de Janeiro e a cidade do Rio de Janeiro, além é claro, da Conferência Episcopal dos Bispos do Brasil (CNBB) e, em primeiro lugar, o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta. Aqui, nós como Embaixada também estamos tentando ajudar da melhor maneira possível.

GP – Qual é a importância do evento para o país?

Embaixador – Este é um momento especial porque será a segunda vez que o Papa Bento XVI irá para o Brasil. A primeira vez foi em 2007 para atender a todos os bispos das Conferências Episcopais da América Latina em Aparecida (SP). Ele ter escolhido o Brasil para ser a sede da Jornada para que possa voltar ao país pela segunda vez é uma grande honra e estamos orgulhosos disso.

GP – Na opinião do senhor, qual o papel que da Igreja Católica no mundo moderno e, especialmente no Brasil? E qual é a importância de sua presença no debate público?

Embaixador – Como eu disse: a colaboração no trabalho de retirar as pessoas da pobreza. Ela nos ajuda na educação, social e do funcionamento dos hospitais. Tem um importante papel desempenhado pela Conferência Episcopal, que está presente em todo o país. Bispos e sacerdotes são muito ativos em todos os cantos do Brasil. Eles também ajudam os índios.

Anna Artymiak

Como explicar que Jesus fosse Deus e homem?

Pe. Carlos Werner Benjumea, EP

É difícil imaginar, caro leitor, o gáudio e a felicidade interior experimentada por Maria Santíssima, ao aceitar a proposta do Arcanjo São Gabriel, feita na Anunciação. Com efeito, a Virgem puríssima de Nazaré tornara-se a Mãe do Redentor, do “Salvador”, como o nome Jesus significa. Realizava-se em seu casto seio o sonho de toda mulher hebréia: ser a escolhida por Deus para dar à luz o Messias de Israel. Com um acréscimo: a sua tão amada virgindade permaneceria intacta. Seria Ela a primeira e única Virgem e Mãe na história da humanidade.BlOG TODAY Por fim, o longo e penoso período de espera chegara ao seu termo: o povo eleito recebia, no silêncio da humilde casa de Maria, Aquele por quem os patriarcas suspiraram, e a quem os profetas anunciaram, prevendo inclusive, com luxo de detalhes, tantos aspectos e minúcias de sua vida, seus sofrimentos e sua glória. Ocorreria assim o acontecimento central da história da humanidade: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14), pela ação do Espírito Santo (cf. Lc 1, 35) e pela plena aceitação amorosa e cheia de Fé de Maria. Entretanto, como explicar tão alto mistério? É possível que Deus se torne homem sem deixar de ser Deus?

Pode alguém ser Deus e homem ao mesmo tempo?

A primeira em receber a “boa notícia” do grandioso mistério da Encarnação do Verbo, foi Nossa Senhora. As palavras do Anjo foram explícitas e Ela, a “cheia de graça”, deve tê-las entendido com preclara inteligência. Por um lado, o mensageiro celeste lhe diz: “conceberás e darás à luz um filho” (Lc 1, 31), e, de outro lado, lhe anuncia: “será chamado Filho do Altíssimo” (Lc 1, 32). O que significa claramente, segundo nos explica São Beda , que o fruto das entranhas de Maria seria verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Mesmo antes de receber a visita do Arcanjo, Nossa Senhora, agraciada com a plenitude dos dons do Espírito Santo, devia perscrutar as Escrituras com finíssima atenção, compreendendo amplamente seu significado. Antes de tudo, é conjecturável que procurasse Ela compor a fisionomia moral do Messias esperado. É essa a opinião de São Leão Magno: “Deus elege uma Virgem da descendência de Davi, e esta Virgem, destinada a levar no seio o fruto de uma sagrada fecundação, antes de conceber corporalmente a sua prole, divina e humana ao mesmo tempo, a concebeu em seu espírito” .

Lendo com Maria as profecias sobre a Encarnação

Certamente, da leitura dos pergaminhos contendo os trechos das Escrituras, terá Ela se impressionado vivamente diante dos anúncios gloriosos dos profetas a respeito do Messias esperado, como por exemplo, ao ler estas palavras de Miquéias: “Mas tu, Belém de Éfrata, pequenina entre as aldeias de Judá, de ti é que sairá para mim aquele que há de ser o governante de Israel. Sua origem é antiga, de épocas remotas. [...] Ele se levantará para apascentar com a força do Senhor, com o esplendor do nome do Senhor seu Deus” (Mq 5, 1-3). Também em Isaías encontraria Nossa Senhora trechos empolgantes e grandiosos: “Nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado. O poder de governar está nos seus ombros. Seu nome será Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai para sempre, Príncipe da paz” (Is 9, 5). Porém, leitora atenta da Palavra de Deus, Maria Santíssima não deve ter deixado de considerar outros aspectos do anúncio profético do Messias. Aspectos esses quiçá não tão compreendidos no seu tempo, pois muitos esperavam sobretudo um Messias triunfador, um libertador político. Todavia, a Revelação era clara: “[O meu servo] era o mais abandonado e desprezado de todos, homem do sofrimento, experimentado na dor, indivíduo de quem a gente desvia o olhar, repelente, dele nem tomamos conhecimento. Eram na verdade os nossos sofrimentos que ele carregava, eram as nossas dores, que levava às costas. E a gente achava que ele era um castigado, alguém por Deus ferido e massacrado. Mas estava sendo traspassado por causa de nossas rebeldias, estava sendo esmagado por nossos pecados. O castigo que teríamos de pagar caiu sobre ele; com os seus ferimentos veio a cura para nós. Como ovelhas estávamos todos perdidos, cada qual ia em frente por seu caminho. Foi então que o Senhor fez cair sobre ele o peso dos pecados de todos nós” (Is 53, 1-6). Diante desse panorama tão complexo, como seria então o Messias, o esperado das nações? Por um lado, grande e potente, chamado de “Deus Forte”, com mando e governo, mas, de outro lado, homem de dores, vítima de expiação dos pecados dos homens. Como se realizariam esses extremos, aparentemente contraditórios, na mesma pessoa?

No convívio com o Homem Jesus

Para Nossa Senhora esse enigma deve ter-se tornado paulatinamente mais claro depois de conceber o Deus humanado e conviver com Jesus. O Menino que “crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria” (Lc 2, 40), dava provas irrefutáveis de ser homem verdadeiro, e, ao mesmo tempo, Deus verdadeiro. Assim, a mesma criança que se alimentava e dormia como todas as outras, ao ser interrogada por seus pais, no episódio da perda e do encontro no Templo de Jerusalém, por que havia se separado deles, responde de forma surpreendente: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo estar naquilo que é de meu Pai?” (Lc 1, 49). Nossa Senhora guardou essas palavras no seu coração (cf. Lc 1, 51). E, durante os trinta anos de vida oculta, que conversas não terá havido, ao cair da tarde, entre São José, Nossa Senhora e Jesus, a respeito da Pessoa e da missão do Filho de Deus feito Homem? Todavia, as silenciosas paredes da Santa Casa de Narazé – agora venerada na Itália, na cidade de Loreto – são as únicas testemunhas mudas desse convívio íntimo da Sagrada Família! Na vida pública de Jesus – acompanhada com discrição por Nossa Senhora – Nosso Senhor revelou-se claramente diante dos apóstolos, dos discípulos e do povo enquanto Filho de Deus e Filho do Homem. Com efeito, os Evangelhos nos narram que Jesus teve fome (cf. Mt 4, 2) e dormira (cf. MT 8, 24), que, no meio do caminho, sentiu cansaço (cf. Jo 4, 6), e diante do túmulo de Lázaro chorou de pena pela perda do amigo muito amado (cf. Jo 11, 35). E, no auge destas provas de sua humanidade, conta-nos São Mateus, como diante da sombria perspectiva da paixão, sua alma sentiu uma tristeza de morte (cf. Mt 26, 37-38). Atitudes e sentimentos esses que caracterizam a sua verdadeira e completa natureza humana.

E sua Divindade?

São prolixos também os testemunhos das Escrituras. No evangelho de São João, Cristo declara diante do povo reunido que Ele e o Pai são um (cf. Jo 10, 30). Em São Mateus encontramos a feliz declaração de Fé de Pedro, ratificada por Jesus: “E vós, retomou Jesus, quem dizeis que sou eu? Simão Pedro respondeu: tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Jesus então declarou: Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne e o sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”. (Mt 16, 16-17). A essas afirmações claras deve-se juntar a consideração dos fatos de sua vida. Jesus demonstrou ser o Filho de Deus pelo poder e a autoridade própria com que realizou inúmeros milagres. Pôs em evidência ter um domínio absoluto sobre doenças, na época totalmente incuráveis, como a Lepra (cf. Lc 17, 11-19) e a paralisia (cf. Jo 5, 1-9), inclusive, sobre a mesma morte ressuscitando, por exemplo, o filho da viúva de Naim (cf. Lc 7, 11-17). Obedeciam-lhe as forças da natureza. Baste lembrar nesse sentido a multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Mt 14, 13-21) e a furiosa tempestade acalmada a uma ordem sua (cf. Mt 8, 23-27). Mas o evento no qual Ele mostra de forma mais patente sua divindade, foi na sua Ressurreição. Primeiro, profetizando-a (cf. Mt 20,19), e depois cumprindo à risca sua própria previsão: “Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por própria vontade. Eu tenho poder de dá-la, como tenho poder de recebê-la de novo. Tal é o encargo que recebi do meu Pai” (Jo 10, 18) Depois da consideração atenta do testemunho infalível das Escrituras, ainda resta-nos a pergunta: Sim, cremos que Jesus é Deus e homem verdadeiro mas, como explicar essa realidade?

Como explicar o mistério da encarnação

Sabemos, segundo nos ensina São Leão Magno, que “o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, sobrepuja toda inteligência e transcende todos os exemplos que poder-se-iam utilizar” . Porém, graças à Divina Revelação e sob a direção do Espírito Santo, a Igreja, se não chega a compreender ou abarcar todo o mistério, tem-no formulado com precisão, longe de todo erro. No início do cristianismo, quando a doutrina dos apóstolos foi recebida no mundo grego, iniciou-se a tentativa de traduzir para as categorias próprias da filosofia o conteúdo da Revelação. Neste processo, alguns desviaram-se da verdade, defendendo doutrinas errôneas, mediante as quais procuravam fazer encaixar dentro dos estreitos limites da razão humana o mistério de Deus humanado. As dificuldades encontradas pelos estudiosos das Escrituras, a respeito da compreensão do mistério se cifravam, principalmente, em duas tendências opostas, descritas a seguir em grandes traços. Alguns, tendo dificuldade em compreender como em uma mesma pessoa pudessem coexistir duas realidades, tal como, Deus e o homem, quiseram propor, como resultado da Encarnação, uma única pessoa, na qual estariam misturadas qualidades divinas e humanas. Outros, distinguindo perfeitamente a humanidade de Cristo e sua Divindade, e não logrando explicar como essas duas naturezas poderiam coincidir na mesma pessoa, propuseram que Cristo era unido a Deus como todos os santos o são, mediante a graça e a inabitação. Concluindo erroneamente tratar-se de duas pessoas distintas, uma divina e outra humana, a qual seria adotada por Deus de forma especial.

A voz da Igreja através dos Papas e dos concílios

A Santa Igreja de Deus, situando-se no centro de ambas posições, através do V Concílio ecumênico, confessa a união de Deus Verbo com a carne, segundo a união de composição, ou seja, segundo a hipóstasis . Hipóstasis é um termo grego que deriva do verbo sustentar, pois toda natureza racional não existe por si mesma senão sustentada por uma pessoa. Ora, a natureza humana de Cristo era sustentada pela segunda pessoa da Santíssima Trindade. A Igreja convocou os concílios ecumênicos, nos quais foi declarada e explicitada, em termos cada vez mais precisos, a verdade sobre a encarnação do Filho de Deus. O primeiro destes grandes Concílios realizou-se em Nicéia (ano 325). Lá os padres compuseram o Credo que, com alguns detalhes acrescidos no Concílio de Constantinopla (ano 381), recita-se nas nossas missas dominicais. Eis um trecho significativo do credo niceno: “… [Cremos] em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai, isto é, da substância do Pai, [...] gerado não criado, consubstancial ao Pai, por Quem foram feitas todas as coisas [...], que por nós homens e por nossa salvação, desceu dos céus e Se encarnou e Se fez homem, padeceu e ressuscitou …” . Anos mais adiante, no Concílio de Éfeso (ano de 431), ficará ainda mais clara a questão da Encarnação. Os padres conciliares esclarecem que em Cristo há duas naturezas – a divina e a humana – unidas, sem confusão, na Pessoa única e divina do Verbo. Na carta escrita por São Cirilo de Alexandria ao herege Nestório, lida e aprovada pelos padres conciliares, assim explicita o grande patriarca a doutrina cristã: “E embora sejam distintas as naturezas, unidas porém por uma verdadeira união, dessa unidade resulta um só Cristo e Filho; não que se suprima, pela união, a diferença de naturezas, mas porque a divindade e a humanidade, nesta misteriosa e inefável união, constituem para nós, um só Senhor, e Cristo, e Filho” . E o patriarca João de Antioquia, então pastor dessa cidade, assim formulou a mesma Fé em termos aceitos plenamente por São Cirilo e pela Igreja. Confessa ele que Cristo é, ao mesmo tempo, “perfeito Deus e perfeito homem”, gerado pelo Pai desde todos os séculos, isto é, desde a eternidade, antes do tempo, e “nos últimos tempos, por nós e por nossa salvação”, nascido da Virgem Maria segundo a humanidade. Desta confissão de Fé destaca-se uma afirmação belíssima: Jesus é “consubstancial ao Pai segundo a divindade e consubstancial a nós segundo a humanidade” . Para o patriarca João, a união da divindade e da humanidade dá-se sem confusão, de forma que a divindade em nada fica diminuída pela humanidade, nem esta última absorvida pela divindade. Mas foi no Concílio de Calcedônia (451), com a assistência de 600 bispos, onde, graças ao gênio do Papa São Leão Magno, a doutrina da Igreja atinge um auge de explicitação a respeito desse mistério, distinguindo claramente na Pessoa do Verbo encarnado duas naturezas intimamente unidas, mas sem confusão: “Deve-se se reconhecer um só mesmo Cristo Senhor, Filho Unigênito, em duas naturezas, sem confusão, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis, de nenhum modo suprimida a diferença das naturezas por causa de sua união, mas salvaguardada a propriedade de cada natureza e confluindo numa só Pessoa, não separado ou dividido em duas pessoas, mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus-Verbo …” Portanto, Cristo é Deus, com o Pai e o Espírito Santo, desde toda a eternidade, e, homem verdadeiro, pois uniu à sua pessoa a natureza humana completa, capaz de conhecer e amar como homem, capaz de sentir e sofrer até a morte .

Encarnação, o amor pede o amor

Diante de tão grande mistério, os cristãos devem dar infinitas graças a Deus pela sua bondade. O Filho de Deus, desceu à terra, no seio puríssimo da sempre Virgem Maria, para salvar e resgatar o homem, abrindo-lhe as portas do paraíso fechado e fazendo-nos partícipes da família de Deus. É uma verdade altamente comovente! Como diria São Tomás: “Cristo assumiu um corpo animado, e dignou-se nascer da Virgem, para nos entregar sua divindade; fez-se homem, para fazer o homem Deus” . Por isso, diante do mistério da Encarnação, devemos ter presente o grandíssimo amor de Deus para o gênero humano. Nesse sentido, nos exorta São Tomás: “… nenhum indício é mais evidente da caridade divina que o de Deus, criador de todas as coisas, fazer-se criatura; o do Senhor nosso, fazer-se nosso irmão; o do Filho de Deus, fazer-se filho de homem. Lê-se em São João (Jo 3, 16): tanto Deus amou o mundo, que lhe deu o Seu Filho. Pela consideração dessa verdade, deve ser reacendido, e de novo em nós afervorado o nosso amor para com Deus”.

O mistério da Estrela de Belém

O que teria sido a misteriosa estrela que surgiu nos céus, guiando os Reis Magos até Belém?

Emílio Portugal Coutinho – 3º Ano de Teologia, ITTA

Nas Sagradas Escrituras vemos Deus muitas vezes comunicar-se aos homens por meio de sinais na natureza: a brisa da tarde no Paraíso, o arco-íris após o dilúvio, a sarça ardente, a diáfana nuvem de Santo Elias etc. E em seu próprio nascimento, Ele quis usar de um sinal no céu: a Estrela de Belém. Esse fato nos é narrado apenas por um dos evangelistas: São Mateus. blog
Na verdade, naquela época acreditava-se que o nascimento de pessoas importantes estava relacionado com certos movimentos dos astros celestes. Assim, dizia-se que Alexandre o Grande, Júlio César, Augusto e até filósofos como Platão tiveram a sua estrela, aparecida no céu quando eles vieram ao mundo.
Muito se tem comentado a respeito da estrela surgida aos três Reis Magos , guiando-os até o local bendito em que o Salvador haveria de nascer. E não faltaram homens de ciência tentando encontrar uma explicação natural para esse evento sobrenatural, centro da história humana. Não temos a pretensão de fazer um compêndio científico a respeito, mas não deixa de ter certo interesse conhecer, ainda que de modo sumário, as principais tentativas de solucionar esse enigma.
Uma das primeiras teorias levantadas era que esse astro teria sido o planeta Vênus. Pois a cada 19 meses, pouco antes do nascer do Sol, ele aparece dez vezes mais claro que a mais brilhante das estrelas: a Sírius. Mas esse já era, então, um fenômeno assaz conhecido pelos povos do oriente e, portanto, para os Reis Magos nada teria de extraordinário.
Outra hipótese foi levantada por um astrônomo reconhecido nos meios científicos do século XVI: Johannes Kepler. Tentou ele demonstrar com seus longos estudos, que esse astro não era apenas um, mas a conjunção de dois planetas: Júpiter e Saturno. Quando eles se sobrepõem, somam-se os respectivos brilhos. Um fenômeno desses foi por ele observado em 1604 e podia produzir um efeito semelhante ao que nos conta a Bíblia. A partir daí, Kepler defendeu sua teoria.
Mas existem três problemas ao fazer essa afirmação: primeiro, essa conjunção dura apenas algumas horas, e a estrela que apareceu para os Reis Magos foi visível por eles durante semanas; segundo, Júpiter e Saturno nunca se fundem completamente numa única estrela. Mesmo a olho nu, seriam sempre visíveis dois corpos; terceiro, ao menos que a data do nascimento do Menino Jesus esteja muito mal calculada, tal conjunção só poderia ter lugar três anos depois.
Há quem diga que a estrela foi, na verdade, um meteoro especialmente brilhante. Mas um meteoro só pode durar alguns segundos e seria muito forçado crermos que esses poucos segundos de visibilidade bastariam para guiar os reis magos numa viagem através de quilômetros em um deserto inabitável, e que ao chegarem em Belém, apareceu um outro meteoro semelhante, indicando o local exato onde estava o Menino-Deus.
Orígenes, Padre da Igreja nascido em Alexandria, Egito, chegou a acreditar ser a Estrela de Belém um cometa. Pois alguns cometas chegam a ser centenas de vezes maiores que a Terra, e sua luz pode dominar o firmamento durante semanas.
Além disso, alguns sustentam que São Mateus teria ficado tão impressionado com o cometa Halley, visto nos céus em 66 d.C. ou pelo testemunho dos mais antigos cristãos que o tinham visto em 12 a.C., que o incluiu na história. Outros afirmam ter sido o próprio Halley, a Estrela de Belém. Mas devemos reconhecer que as duas datas citadas estão muito afastadas do nascimento de Jesus, para serem unidas a ele. E segundo os dados catalogados, não há menção de nenhum outro cometa que tenha sido visto a olho nu entre os anos 7 a.C e 1 d.C., período no qual se aceita ter nascido o Messias. Além disso, é corrente serem os cometas na Antigüidade anunciadores de desgraças e não de bênçãos.
Uma última hipótese dita científica é a que tenha sido uma “Nova”. Existem certas estrelas que explodem de tal forma que sua luz aumenta centenas de vezes em poucas horas. São as chamadas “Novas”, ou “Supernovas”, dependendo da intensidade da explosão. Calcula-se que a cada mil anos, aproximadamente, uma estrela se transforme em “Supernova”, sendo este fenômeno visível durante vários meses, até mesmo durante o dia.
Mas já não se crê nessa hipótese, pois tais explosões, devido à sua magnitude, mesmo depois de séculos deixam traços inconfundíveis no espaço, como manchas estelares etc. Entretanto, até hoje não se descobriu nenhum indício de tal fenômeno ocorrido nesse período histórico.
Embora várias tentativas de explicação científica não tenham dado respostas plenamente satisfatórias ao mistério da Estrela de Belém, isso em nada diminui o mérito dos esforçados estudiosos que com reta intenção buscam desvendar os enigmas da natureza.
Mas deixando essas hipóteses de lado por um momento, voltemos nossos olhos à outro aspecto da questão: o campo teológico, onde se considera que essa estrela era a realização da profecia do Antigo Testamento: “Uma estrela avança de Jacó, um cetro se levanta de Israel” (Num 24,17).
Alguns teólogos defendem que São Mateus fez uma interpretação das tradições da época, referindo-se ao astro não como uma estrela no sentido literal, mas como símbolo do nascimento de um personagem importante.
Mas São Tomás, o Doutor Angélico, já havia pensado nisso em sua época e resolveu a questão na Suma Teológica (III, q. 36, a.7), usando cinco argumentos tirados de São João Crisóstomo:
1º. Esta estrela seguiu um caminho de norte ao sul, o que não é comum ao geral das estrelas.
2º. Ela aparecia não só de noite, mas também durante o dia.
3º. Algumas vezes ela aparecia e outras vezes se ocultava.
4º. Não tinha um movimento contínuo: andava quando era preciso que os magos caminhassem, e se detinha quando eles deviam se deter, como a coluna de nuvens no deserto.
5º. A estrela mostrou o parto da Virgem não só permanecendo no alto, mas também descendo, pois não podia indicar claramente a casa se não estivesse próxima da terra.
Mas se esse astro não foi propriamente uma estrela do céu, o que era ela?
Segundo o próprio São Tomás, ainda citando o Crisóstomo, poderia ser:
1º. O Espírito Santo, assim como ele apareceu em forma de pomba sobre Nosso Senhor em Seu batismo, também apareceu aos magos em forma de estrela.
2º. Um anjo, o mesmo que apareceu aos pastores, apareceu aos reis magos em forma de estrela.
3º. Uma espécie de estrela criada à parte das outras, não no céu mas na atmosfera próxima à terra, e que se movia segundo a vontade de Deus.
Como solução ao mistério da Estrela de Belém, São Tomás acreditava ser mais provável e correta esta última alternativa.
De qualquer forma, temos a certeza de que essa estrela continua a brilhar não só no alto das árvores de Natal, mas principalmente na alma de cada cristão ao comemorar a Luz nascida em Belém para iluminar os caminhos da humanidade.

ARAUTOS DO EVANGELHO, n.72, dez. 2007.

Entre a vida e a morte

RetabuloThiago de Oliveira Geraldo – Professor de Introdução à Sagrada Escritura (ITTA)

In: Gaudium Press

Quem não se enternece ao ver um bebezinho cheio de vida que acaba de nascer? Quantas promessas! Ainda é apenas uma semente que deverá germinar e dar seus frutos. Que tipo de semente será? Ninguém o sabe, somente o tempo testemunhará.

Essas dúvidas no início da vida não se passam na hora morte. Quando se completa o final da trajetória de uma pessoa tudo já está visto e analisado, as decisões que ela tomou, o modo como se portou diante das dificuldades, o caráter que formou entorno de si. Não há mais máscaras, a pessoa é contemplada por inteira.

A morte que tanto assusta o ser humano, que muitas vezes a prorroga até o último extremo, torna-se inevitável. Segundo o curso normal dos acontecimentos todos passaremos por ela. Talvez o que mais espante o homem não seja a própria morte, mas o que está por detrás dela. Haverá uma vida eterna? Terei que justificar minhas atitudes? Serei premiado ou castigado?

Mesmo aqueles que se dizem incrédulos passarão pela morte e é diante de sua grandeza que muitos homens adquirem forças para agir bem, pois “todas as tentativas da técnica, por muito úteis que sejam, não conseguem acalmar a ansiedade do homem: o prolongamento da longevidade biológica não pode satisfazer aquele desejo de uma vida ulterior, invencivelmente radicado no seu coração”.¹

Há algo admirável neste trânsito da vida para a morte que fez com que diversos povos da antiguidade respeitassem e até cultuassem os membros de sua família já falecidos. Enterrados ou cremados, os mortos eram postos em lugares próximos à sua gente a fim de receber um culto.

A cultura cristã também adotou o costume de enterrar os corpos dos falecidos. De acordo com a época eles eram sepultados na própria igreja ou no lugar específico para isto, o cemitério. De origem grega (koimetérion) este lugar significa “dormitório”, e realmente é onde os mortos descansam. Ali permanecerão até o dia do Juízo Final, quando a alma se unirá novamente ao corpo.

Esse sentimento trágico acerca da morte – como pensam alguns – se dá pela falta de esperança de que o ser humano existe não somente para esta vida, mas principalmente para Deus: “A morte não é a última palavra acerca do destino humano, porque ao homem foi reservada uma vida sem limites, que tem o seu cumprimento em Deus”.²

Para essas pessoas que entregaram sua alma a Deus, os cristãos desde os primeiros tempos ofereceram orações. A Igreja instituiu no século XI um dia reservado para se rezar aos fiéis defuntos, que no século XIII ficou consignado como 2 de novembro, um dia depois da solenidade de Todos os Santos, pois “com o ânimo ainda dirigido para estas realidades últimas, comemoramos todos os fiéis defuntos, que ‘nos precederam com o sinal da fé e dormem o sono da paz’ (Oração eucarística, 1)”.³

Eles nos precederam com o sinal da fé, a mesma fé professada pelos católicos em todos os tempos. O cristão não espera apenas uma salvação individual, mas quer que todos alcancem a bem-aventurança. Os atos praticados em vida se fazem sentir – de alguma maneira – depois da morte. Portanto, há uma relação entre vivos e mortos, e é por isso que se deve rezar aos que já partiram e necessitam de purificação.

Eles estão na esperança de atingir o quanto antes o fim para o qual foram chamados, a união com Deus: “Deus chamou e chama o homem a unir-se a ele, com todo o seu ser, na perpétua comunhão da incorruptível vida divina. Esta vitória, alcançou-a o Cristo ressuscitado, libertando com a própria morte o homem da morte”.4

A fé cristã responde ao anseio do ser humano em encontrar uma razão para a morte e a continuação da existência depois dela. A verdadeira vida se alcança no encontro com Deus, que se fez homem e nos amou ao ponto de morrer por nós, para que nós tivéssemos vida. Nesta esperança deve-se rezar pelos fiéis defuntos, sobretudo, no dia que a Igreja reserva de forma especial a eles.

[1] Gaudium et Spes, n. 18.

[2] JOÃO PAULO II. Angelus, 2 de Novembro de 1997.

[3] BENTO XVI. Angelus, 2 de Novembro de 2008.

[4] Gaudium et Spes, n. 18.

A vida religiosa e a secularização

Brugues (7)Dom Jean-Louis Bruguès

Secretário da Congregação para a Educação Católica

A vida religiosa se encontra hoje submetida a notáveis influências. Destas, em particular, duas me parecem merecedoras de especial atenção.

O primeiro é a secularização. Um fenômeno histórico nascido na França em meados do século XVIII, que investiu sobre todas as sociedades que almejavam entrar na modernidade. A segunda trata-se da abertura ao mundo, justamente proclamada pelo concílio Vaticano II, a qual foi interpretada, sob a pressão das ideologias do momento, como uma passagem necessária para a secularização.

De fato, nos últimos cinqüenta anos, assistimos a uma formidável iniciativa de auto-secularização interna da Igreja. Exemplos não faltam: os cristãos estão prontos a empenhar-se em serviço da paz, da justiça e das causas humanitárias, mas crêem ainda na vida eterna? As nossas Igrejas colocaram em ato um imenso esforço para renovar a catequese, mas esta mesma catequese fala ainda da escatologia, da vida após a morte? As nossas Igrejas se empenharam na maior parte dos debates éticos do momento, mas discutem sobre o pecado, sobre a graça e sobre as virtudes teologais? As nossas Igrejas recorreram ao melhor do próprio engenho para melhorar a participação dos fiéis na liturgia, mas esta última não perdeu, em grande parte, o senso do sacral, a bem dizer aquele sabor de eternidade? A nossa geração, talvez sem dar-se conta, não sonhou com uma “Igreja dos puros”, colocando suspeitas contra qualquer manifestação de devoção popular?

Que fim teve, em tal contexto, aquela vida religiosa que era apresentada na forma tradicional, como um sinal escatológico e uma antecipação do Reino futuro? De fato, religiosos e religiosas sem demora abandonaram o hábito da própria família espiritual para vestir-se como todos os outros. Rapidamente abandonaram os próprios conventos, julgando-os demasiado vistosos ou ricos, em troca de pequenas comunidades esparsas em cidades ou nos grandes conglomerados urbanos. Escolheram trabalhos profanos, empenharam-se na atividade social e caritativa, ou ingressaram no serviço de causas humanitárias. Fizeram-se semelhantes aos outros e se fundiram na massa, às vezes para ser o fermento, mas também, em muitos casos, porque tal procedimento correspondia ao clima dos tempos.

Não devemos subestimar os méritos de tais impostações nem os benefícios que deles recolhe a Igreja ainda hoje. Aqueles religiosos e religiosas, de fato, fizeram-se mais próximos às pessoas e, em particular, aos mais desprivilegiados, mostrando uma face da Igreja mais humilde e fraterna. Não obstante, esta forma de vida religiosa não parece haver mais futuro, pois quase não atrai mais vocações.

A quase totalidade das congregações ativas nascidas no século XIX ou no início do XX se encontram como que feridas de morte, e seu desaparecimento é somente uma questão de tempo. As casas generalícias e os grandes conventos são transformados em casas de repouso para anciãos. Entre 1973 e 1985, 268 congregações francesas das 369 existentes fecharam o próprio noviciado. A situação atual não fez que piorar. A auto-secularização minou os fundamentos da vida religiosa. A crise atingiu sobretudo as formas de vida ativa, e menos aquelas contemplativas, porque a secularização orientou tudo aquilo que é religioso em direção à militância ou ao empenho social.

É de notar-se que o militante ou a pessoa empenhada na atividade social permanece leigo. Eis a segunda tipologia de pressão exercida sobre a vida religiosa. Para afrontar o convite da secularização, o Concílio teve a genial intuição de confiar esta missão aos leigos. Se eles que possuem a sorte de serem os protagonistas da sociedade secular, não serão porventura os mais apropriados para realizar tal dever? O Vaticano II valorizou a vocação dos leigos – não digo que a revalorizou, pois uma similar empresa não houve lugar no passado. Todavia, realmente a valorização do laicato provocou um tipo de quebramento da vida religiosa “ativa”.

Se esta última, de fato, reconheceu a tempos a própria identificação com um serviço específico oferecido à Igreja e à sociedade – como o ensino nas escolas ou o cuidado dos doentes nos hospitais – com o chamado dos leigos a executarem tais serviços e a se dedicarem, a vida religiosa ativa perdia sua razão de ser. Hoje, não é mais necessário passar por uma consagração para executar os mesmos serviços. Quando nos encontramos em presença de uma mestra que ensina com paixão ou de uma enfermeira serviçal realmente decidida em ter uma vida autenticamente cristã, podemos perguntar-se se a mesma senhora, a cem ou cento e cinqüenta anos atrás, não se haveria apresentado diante da porta de uma daquelas recém nascidas congregações que evocamos a pouco?

Isto nos conduz a seguinte conclusão: hoje mais do que nunca, a vida religiosa não pode ser definida partindo de uma “função”, mas sim de um modo de ser e de um estilo de vida. Os dois riscos que acabamos de descrever em forma sintética e – não tenho dificuldade em acrescentar – sem demasiadas nuances, a auto-secularização e da valorização do laicato constituem um perigo para a vida religiosa. Sua combinação provoca nesta última um tipo de implosão. Em consequência, a situação atual da vida religiosa, sobretudo nas Igrejas ocidentais, se apresenta em modo paradoxal. De um lado, após o Concílio, gozamos das vantagens de uma importante renovação da teologia da vida religiosa. De outra, assistimos ao colapso de numerosas congregações, assim como a um florescimento de novas formas de vida religiosa na primeira metade dos anos setenta.

Este caráter paradoxal nos convida então a retornar ao essencial. A começar do fato que a vida religiosa é única na sua essência, porém variada em suas formas. Em outros termos, estas múltiples facetas nasceram todas de um tronco comum: da vida e da tradição monástica. Em conseqüência, a primeira dimensão é mística: a vida religiosa nos imerge no mistério da morte e da ressurreição de Cristo. Portanto, é um erro definir um instituto a partir da sua atividade tal como foram concebidas as congregações nascidas nos dois últimos séculos.

Este chamado a estar com o Senhor é transmitido a cada pessoa, pois toda vocação é muito personalizada e não existem dois percursos que são verdadeiramente similares. Todavia, este chamado convida a unir-se a uma comunidade específica. Alguns experimentam um choque nos confrontos de uma comunitária, mas não lhes vem à mente a idéia de bater em outra porta. Outros, ao contrário, se concedem um longo tempo de reflexão, durante o qual fazem o giro de muitas casas e se dedicam aos estudos comparativos muito acurados. Em cada época há matrimônios de amor e matrimônios de razão. Aquele que é certo, porém, é que a atração é sempre ligada à vida comunitária. Em efeito, o código de direito canônico define a vida religiosa como uma vida essencialmente comunitária. E esta vida comunitária é eminentemente espiritual na medida da qual é o Espírito Santo que a anima e conduz. Podemos então deduzir que a fé dada pelo Espírito representa a chave de leitura de todos os elementos que constituem a vida religiosa, a começar pelos votos e pela oração.

Neste sentido, a pobreza religiosa não é um conceito sociológico. Não é constituída para dar o exemplo da pobreza. A palavra mesma não se identifica senão em época mais tardia; primeiramente, se falava de sine proprio, ou ainda de communio, termos muito mais sugestivos. Logo, o voto religioso corresponde a um ato de fé por meio do qual o religioso aceita aquele dom do Espírito que o estimula a não ter nada para si, a fim de viver de modo mais intenso possível a sua comunhão com a vida fraterna.

Do mesmo modo, a obediência religiosa não é in primis de natureza ascética ou pedagógica. Indubitavelmente, pressupõe uma ascese na medida da qual implica uma certa renuncia à própria vontade. Apresenta, ademais, uma dimensão pedagógica, na medida da qual visa educar em nós a liberdade dos filhos de Deus. A sua natureza, porém, é essencialmente mística: faz-nos entrar em um sistema no qual que ordena é o Espírito. A fé nos leva a afirmar que a ordem dada não vem antes de tudo pela vontade do superior – ainda que possua a marca da sua psicologia, e talvez da sua patologia – mas sim, dada pelo Espírito, do qual o superior é, em certo sentido, o representante visível. Neste ponto, deixamos de comportar-nos como simples entidade para tornar-nos um corpo fraterno.

Também entre o amor humano e a castidade religiosa – que apesar de possuírem diversos pontos em comum – possuem uma diferença essencial. O amor humano comporta uma escolha, uma conquista, e se apresenta como um amor de exclusão: escolher uma esposa específica comporta renunciar a todas as outras. Ora, contrariamente às aparências de que a escolha de tornarmo-nos carmelitas ou dominicanos origina-se em uma iniciativa pessoal, a vida religiosa não é uma opção, pois nos encontramos envolvidos nesta vida sob o impulso do Espírito. Para cada um de nós, seria impossível permanecer fiéis às promessas de nosso batismo fora da vida religiosa. Nesta última, não existe alguma conquista nem alguma exclusão: o Espírito nos faz partícipes de uma comunidade de acolhida, na qual todos devem descobrir a viver como irmãos.

Finalmente, é na fé dada pelo Espírito que vivemos a oração, não como uma atividade como as outras, ou apenas uma atividade a mais, nem como uma ameaça para as diversas atividades implicadas pelos estilos de vida – todos nós conhecemos bem aquela tensão entre o nosso trabalho e o tempo dedicado à oração, que equivale muitas vezes a um tempo restrito. No simbolismo monástico, o claustro ou a abertura ao Espírito, representa o ligame entre a Igreja, lugar de oração (Opus Dei), e os diversos lugares de trabalho (opus hominis), mas sim como uma  escola  na qual aprendemos a descobrir um “mendicante do Senhor”.

(Tradução nossa ao Português do artigo publicado no L’Osservatore Romano – 20 outubro de 2010)

Beethoven é um cachorro? Michelangelo não é senão um vírus de computador?

Felipe Rodrigues – 3º Ano Teologia

Para grande número de jovens estJovensudantes americanos prestes a ingressar nas universidades, Beethoven (1770 – 1827) não é o famoso compositor alemão, mas sim o nome de um cão; e Michelangelo (1475 – 1564) não é sobretudo o grande escultor, poeta e arquiteto italiano, mas apenas um vírus que infecta os computadores.

A informação é da Mindset List (Lista dos “modos de pensar”), divulgada em 17 de agosto pelo Beloit College, de Wisconsin (EUA). A Mindset List é elaborada anualmente, desde 1998, com base num questionário composto de 75 perguntas de cultura geral, distribuído aos jovens pré universitários.

Eis algumas das outras opiniões manifestadas pelos estudantes neste ano de 2010: nunca existiu um país chamado Checoslováquia; as empresas norte-americanas sempre fizeram negócios no Vietnam; Estados Unidos, Canadá y México sempre estiveram unidos por um Tratado de Livre Comércio.

Para esses jovens, que sempre tiveram à disposição computador em casa, o e-mail é “muito lento”, por isso preferem teclar mensagens no aparelho celular. Ademais, poucos sabem escrever em letra cursiva.

Causa espanto que nos Estados Unidos — país mais rico do mundo, pioneiro da tecnologia e do progresso científico — os jovens prestes a começar um curso superior sejam tão mal dotados em matéria de cultura…

Esta realidade suscita várias perguntas. O avanço tecnológico significa sempre progresso intelectual e moral? Passar horas a fio vendo televisão ou navegando na internet proporciona à juventude verdadeira cultura? Para onde caminha nossa humanidade hipertecnologizada?

Não é sem razão que muitos sociólogos se preocupam com a “gigantesca crise cultural”[1] da sociedade hodierna.


[1] CARRIQUIRY LECOUR, Guzmán M. Uma aposta pela América Latina. São Paulo: Paulus, 2002. p. 230. Cf. ARBOLEDA MORA, Carlos Ángel. Profundidad y Cultura. Del concepto de Dios a la experiencia de Dios. Medellín: Universidad Pontificia Bolivariana, 2007. p. 44; TILLICH, Paul. Systematic theology I. Chicago The University of Chicago Press, 1951. p. 83.

Velocidade e Temperança

ProfetaRafael Juneo Pereira Fonseca – 2º ano de Teologia

Nada mais atual para se abordar em um artigo que aquilo que pode estar acontecendo com você, caro leitor. É possível que em meio à voragem de suas ocupações, você esteja percorrendo os olhos por esta página à procura de alguma informação rápida para seu trabalho acadêmico, sua redação ou mesmo para aumentar seu conhecimento enquanto visita este blog. Eu convido-o, então, caso esteja com muita pressa, a deter-se um pouco mais nestas linhas para considerarmos o que pode estar acontecendo com você. Talvez, mesmo sem saber, esteja sendo vítima, agora mesmo, de um grande bandido que tem feito incontáveis vítimas em nosso século, influenciando mentalidades, comportamentos e estados de espírito: o “corre-corre”.

Entretanto, de onde surgiu este estado de espirito? Não será que o Homem foi sempre assim? Não teve que estar sempre correndo para viver?” Não, não foi sempre assim. E por quê? Porque, evidentemente, o progresso tecnológico é um dos grandes responsáveis pelo “corre-corre”, e é um fenômeno recente. Sobretudo, de nossos dias! Nunca houve tanto esforço para apressar as coisas como hoje. Tudo está ficando cada vez mais rápido. Bancos, cartões de crédito, computadores, internet, foguetes, aviões, motocicletas, carros, eletrodomésticos e… celulares, antes ninguém precisava deles, hoje ninguém vive sem eles… Assim, tudo hoje colabora para que o homem corra, corra, corra, corra… Para quê? Para onde?

Ao observamos o que existe em torno de nós vemos que para tudo existe um equilíbrio, uma proporção e uma harmonia. Por exemplo: Imaginemos que também a duração do dia e da noite começasse a correr, e em três horas o dia se fizesse noite, e esta, por sua vez, durasse apenas alguns poucos minutos. A desordem mundial estaria instalada. Pensemos, entretanto, numa conversa em que cada palavra demorasse dois minutos para ser ouvida. A vida seria impossível! Ou, se ao olharmos para algo, a imagem levasse dez segundos para ser vista… ou ainda, se o homem caminhasse à velocidade de um bicho preguiça… daí concluímos que tudo o que Deus criou tem proporções. Entretanto, o crescimento desenfreado da velocidade tem operado uma enorme transformação no homem quanto à sua capacidade de reflexão. Quando saímos de um determinado local para outro, em um automóvel a 100 Km por hora, quase não temos tempo de observar, de refletir, e assim emitirmos um juízo daquilo que vemos, pois quando percebemos algo e começamos a analisá-lo já aparece outra coisa e assim por diante. Até mesmo nas regras de produção cinematográfica, está a de não apresentar uma cena com mais de 6 segundos de duração… daí o aparecimento da “geração da imagem”, que pensa menos, reflete menos, tem menos capacidade de opinar e sustentar uma posição firme diante de uma determinada situação.

Assim, a degringolada cultural em que vivemos, a aversão a leitura, à meditação, à oração, às coisas espirituais e metafísicas e a tudo o que não corra e não produza sensações. A esse propósito, comenta o professor Plinio Corrêa de Oliveira: “A aversão ao esforço intelectual, notadamente à abstração, à teorização, ao pensamento doutrinário, só pode induzir, em última análise, a uma hipertrofia dos sentidos e da imaginação, a essa ‘civilização da imagem’ para a qual Paulo VI julgou dever advertir a humanidade 1”.

Outro aspecto que o excesso de velocidade produz é o desaparecimento das fórmulas de educação, cortesia e, por conseguinte, o trato amável e respeitoso, substituido pelo convívio pragmático, egoísta e até bruto, pois se “time is Money”, para quê nos determos em palavras e ações que não produzam lucro material? Assim, não é incomum que a sociedade do “corre-corre” acabe por gerar um tipo humano intemperante, febricitado e ávido de prazeres, pois, ao se correr para tudo, corre-se também para os prazeres. Alguém poderá se perguntar: “o que fazer para não se deixar levar pelas agitações da atualidade?” A chave da questão está na temperança.

Em nossos dias, a virtude da temperança é, de modo especial, uma virtude necessária ao homem cristão. Por quê? Porque é a temperança a virtude pela qual todos os atos e instintos do homem são moderados segundo a razão e a Fé. Com efeito, se o indivíduo é temperante, é capaz de degustar a situação legítima em que se acha e de nela encontrar felicidade. Se é, ou se deixa tornar intemperante, ele corre atrás dos prazeres e das sensações. É próprio do espírito “corre-corre” ter transformado em uma fonte de prazer intemperante até mesmo as coisas que, de si, não são deleitosas. Ou seja, a mania de estar imerso continuamente em sensações fortes, e de não querer viver na placidez de uma vida ordenada e comum. Essa mania é a extensão lógica da sede do prazer para a apetência de outras sensações em outros terrenos da vida, que criam o estilo do existir contemporâneo. É uma corrida atrás das sensações a propósito de tudo e de nada. Enquanto o homem temperante se defende delas, o intemperante vive apenas perseguindo-as e tentando sugá-las a todo custo.

Daí nascem, em larga medida, o desequilíbrio da sociedade hodierna, e a pseudo-alegria que uma pessoa do interior encontra quando chega na cidade grande, deslumbrando-se com as sensações fortes que esta lhe promete. Ainda que seja a emoção de quase se ver atropelado num acidente de automóvel. Ela volta para a sua cidadezinha e começa a contar para todo mundo como esteve num lugar onde os automóveis correm tão depressa que só faltou ela morrer debaixo de um.

Assim, é evidente que todo homem lucraria muito em inalar a felicidade da temperança, essa felicidade e tranquilidade de quem leva uma existência normal, calma, sem sensações, agitações e febricitações de uma atividade fecunda, enriquecida pela vida de oração. Por conseguinte, é infeliz o indivíduo intoxicado pela posição de espírito oposta e que se tenha tornado escravo da intemperança contrária à verdadeira felicidade.

O remédio para viver um pouco mais…

Lucas Alves Gramiscelli – 2º Ano de TeologiaCauserie

Comidas e bebidas lights, outras diets, ginásticas e coopers, remédios e vitaminas, antioxidantes… Diante de todas essas cuidadosas diligências, muitos se perguntam como fazer para achar uma maneira de robustecer a saúde, viver algum tempo a mais, ou pelo menos com maior qualidade de vida. Há até algumas pessoas que, não sem algum mérito, chegam a abandonar vícios que por muito tempo estavam enraizados, ao perceberem que o tempo vitalício que teriam diminuía a cada instante…
Certamente há problemas, os quais podem de alguma forma encurtar a vida, e em vista disso a ciência vem desenvolvendo inúmeros métodos a fim de que isso não aconteça.
Segundo uma pesquisa da Universidade Brigham Young, em Provo, Utah, publicada na revista científica PLoS Medicine, fraca interação social reduz 50% a taxa de sobrevivência. Resultado o equivalente a fumar 15 cigarros por dia. Viver isolado é ainda duas vezes mais prejudicial que ser obeso, alcoólatra ou não fazer exercício.
Essa notícia nos faz lembrar “como é bom para os irmãos viverem juntos bem unidos”(Sl 133 (132), 1). Pois assim como o homem tem necessidade de alimentar-se, de cuidar da própria saúde quando se encontra em estado de enfermidade, assim é necessário que os homens estejam convivendo entre si. O que é viver senão estar juntos, olhar-se, e querer-se bem?
Mons. João S. Clá Dias, em uma de suas conferências sobre o instinto de sociabilidade, dizia que Deus fez o homem sem inúmeras qualidades que foram dadas a animais, como por exemplo, a força de um leão, a agilidade do tigre, o voo de uma águia. E por que Deus não as deu ao homem? Porque o homem seria autossuficiente e não necessitaria entrar em contato com os outros.
Portanto, agrada a Deus que os homens estejam em convívio, conhecendo-se, necessitando tantas vezes um do outro, e procurando encontrar nele os demais aspectos do Criador, pois em sua infinita Sabedoria, Deus não fez um ser igual ao outro, e por esta razão, devemos encontrar em cada um, o reflexo Dele.
Isto faz do homem um ser alegre, pois ao viver dignamente em sociedade está cumprindo com a vontade de Deus, e é para esta finalidade que foi chamado. Cumprindo com esses desígnio da Providência o homem vai se preparando para o mais agradável e excelente convívio, que os Bem-Aventurados terão no céu, onde cada um passará a eternidade inteira deliciando-se com as maravilhas da criação e os diversos aspectos que Deus pôs em cada um dos homens.
Aí se encontra a verdadeira doçura de viver, e o lado por onde as pessoas possam gozar dos gáudios do Céu, já aqui na terra, pois entram em contato uns com os outros na mesma intenção de conhecer, amar e servir a Deus. Sem este objetivo, a vida não se fundamenta em verdadeira alegria, mas em isolamento e frustração, onde se perde a vontade e a alegria de viver.

Condenarão novamente o crucificado?

Marcos Eduardo Melo dos Santos – 2º ano de Teologia

CruzSilencioso, doce e amável, o crucificado ainda hoje é réu de julgamento. Nos tribunais da União Europeia tramita uma lei que procurar banir o crucifixo das instituições públicas de ensino, em nome da secularização e do respeito à liberdade de culto.

A acusação foi feita por uma senhora incrédula finlandesa, que sentia sua filha impelida à religião devido à presença do crucificado na sala de aula. Em dezembro de 2009, o Parlamento Europeu para os direitos humanos determinou a retirada de todos os crucifixos de estabelecimentos públicos do continente. Parece que os crucifixos andam a incomodar muita gente. Por enquanto ainda os há nos topos das igrejas, e até há quem tenha a ousadia de traçar semelhante sinal na via pública… incomodados mesmo ficam aqueles que não acreditam. Curiosamente, as outras religiões até agora não se manifestaram quanto à visibilidade da cruz, talvez por terem evoluído em tolerância.

Entretanto, a norma da retirada da cruz suscitou a mais ampla reação registrada na História do Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH): 20 países se declararam oficialmente em defesa da Cruz. É digno de nota que entre os grandes países católicos da Europa Ocidental, somente a Itália dignou-se tomar a defesa da presença do crucifixo nas salas de aula. Todavia, para alegria dos cristãos de todo mundo, países católicos e ortodoxos uniram-se na defesa da cruz, símbolo do patrimônio cultural, histórico e religioso da civilização cristã. Alguns países de maioria católica como Polônia, Áustria, Croácia, Lituânia, Malta e Mônaco, prestaram apoio à Itália em defesa da presença da Cruz. O caso está indo para instâncias superiores do Tribunal Europeu.

Algumas perguntas se impõem em nossos corações católicos: Irão novamente condenar o crucificado? Quem lavará as mãos desta vez? Excluir o crucificado das salas de aula é realmente respeitar a memória histórica de uma nação e as crenças religiosas dos alunos, visto que na sua imensa maioria são cristãos? Onde está a representação de alguns países cristãos, outrora tão fervorosos e propagadores da Fé, como Portugal, Espanha, França e Bélgica?

Afinal, a caça às bruxas que tanto se condenou no passado, parece que voltou na sociedade livre, mas contra os cristãos.. Quem a promove? Curiosamente, os que não acreditam em bruxas. Afinal, perseguir o inexistente, parece contrário ao bom senso geral. Quem diria, a escola pública, que a todos acolhe, um dia ainda viria a negar um lugar no cantinho da parede ao crucificado… Parece que só ele não pode lá entrar…

Por um compreensível contexto sócio-cultural as nações da América Latina tendem a imitar as atitudes boas – às vezes más – dos países banhados pelo Atlântico Norte. De fato, lá estão as nações ditas “desenvolvidas”. Espero que o Brasil não queira vergonhosamente imitar esta atitude ofensiva à religião, à cultura e à identidade nacional. Ninguém como Jesus passou fazendo bem na terra e mereceu a injusta condenação de Pilatos. Ora, nosso século XXI cometerá o mesmo erro do governante romano? Novamente condenarão a Jesus? Isto é liberdade de culto no estado que se diz laico, mas na verdade parece anticristão?

Ninguém neste mundo que se pretende moderno e tolerante critica o que não pertença ao mundo real, mas que ao imaginário. Desejo sorte ao Estado Laico. Quem sabe se entre eles surgirá uma personagem tão carismática como aquele Jesus de Nazaré, que os faça durar, pelo menos, mil anos. Mas sabemos que os governos ou mesmo os partidos não costumam durar tanto… E conquistar a adesão daqueles milhões que, genuflexos, ainda pensam adorar o que eles dizem não existir.

Rezemos para que as nações pretensamente desenvolvidas não cheguem a cometer a mesma barbaridade de há dois mil anos atrás.

Os homens não são movidos a álcool

Marcos Eduardo Melo dos Santos

É comum vermos cambaleando pelas ruas, sem rumo seguro, homens – e às vezes mulheres – que certamente não seriam aprovados pelo bafômetro. O odor de álcool de uma voz pastosa pode ora agredir, ora elogiar, mas nem sempre é entendida ou mesmo bem-vinda. Máxime quando se está em horário comercial…
Para solucionar este problema, o Senado aprovou em decisão terminativa um Projeto de Lei, que cria novos critérios para a demissão de trabalhadores dependentes da bebida alcoólica: este, doravante, terá direito à proteção do Estado, pois o alcoolismo é considerado como uma doença incapacitante pela medicina. Não será tão difícil saber qual é causa desta patologia…
Espera-se que os dispositivos legais estejam muito bem amarrados, pois, facilmente esta lei poderia ser prejudicial aos contribuintes, mas certamente bem acolhida pelos ditos cambaleantes…
As bebidas alcoólicas têm sido o principal motivo de internação psiquiátrica envolvendo o uso de substâncias no Brasil (39.186 internações de um total de 51.787 ocorridas em 367 hospitais psiquiátricos em 2004)1.
Com este projeto do Senado, será incluído nas normas da CLT que o trabalhador diagnosticado como alcoólatra só poderá ser demitido por justa causa, em caso de recusa a se submeter ao tratamento financiado pelo governo, ou melhor, pelos outros que verdadeiramente trabalham, e descontam…
A cura do alcoolismo requer acompanhamento médico e psicológico. O álcool é uma das poucas substancias psicotrópicas que tem seu consumo admitido e incentivado pela sociedade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o alcoolismo produz a maior taxa de mortalidade e limitação da condição funcional no emprego e na família. Calcula-se que, mundialmente, o álcool esteja relacionado a 3,2% de todas as mortes e 4,0% das Disabilities Adjusted Life Year (DALY), e que nos países em desenvolvimento e com baixa mortalidade, dos quais o Brasil faz parte, o álcool é o fator de risco que mais contribui para as doenças, sendo responsável por 6,2% das patologias1.
Qual o melhor meio de evitar o alcoolismo no Brasil? A questão é complexa, mas como a seção se intitula opinião, permita-me o leitor, manifestar a minha que, na verdade, nada mais é que o ensinamento da Santa Igreja.
O homem possui em si um desejo extremo de felicidade. Tem o desejo infinito do que é belo e agradável, pois foi criado por Deus para o bem infinito e eterno, no convívio com Deus no Céu. Apagada da mente dos homens o sentido católico da vida, é natural que o homem procure a felicidade nas criaturas (Rm 1,18ss). Todavia, por causa desta sede infinita de gozo e prazer, o homem se afasta da razão e da inteligência, cometendo atos contra a sua própria natureza. Deste fator procede a gula, o alcoolismo, e tudo aquilo que denominam “falha moral”, ou seja, que a Igreja como mãe amorosa adverte ser pecado contra si mesmo e contra Deus. O incrível é que nenhum animal do Brasil foi internado em tratamento veterinário por gula, alcoolismo ou outra desordem. Entretanto, os humanos, animais supostamente racionais…
Esta contradição se deve a que nada nesta terra pode satisfazer a fome infinita de prazer no homem, senão o sobrenatural. Assim, sem Deus e a Igreja que o regrem e imponham salutares limites, que redundam em verdadeira liberdade, o homem cai de falta em falta, pela repetição de pecados pelos vícios, até o ponto onde a luz da razão se extingue, e se salienta ainda mais o lado animal do homem. Apesar do alcoolismo não ser mais visto pela sociedade, nem pela medicina, como falha moral, é um ato de procura irracional do prazer. Para São Tomás de Aquino, o pecado nada mais é que “o afastar-se da reta razão”, portanto, se consumir bebidas alcoólicas para lá da conta, além de irracional, comete um pecado.
Ora, a verdadeira solução para o alcoolismo e para os desvios morais na sociedade, não está na coerção ou em normas legislativas do estado. Isto pode ajudar, concordo, mas convenhamos, não resolve. Isto não quita a sede de feilicidade do homem, que sem o rumo verdadeiro procurará outras formas de saciar seu estinto de bem. Que o estado, os homens e a Igreja ensinem que a felicidade está em Deus, isto sim resolve o problema do alcoolismo e demais chagas da sociedade, como aliás os especialistas comprovam o papel da religião na recuperação do alcoolismo e casos semelhantes1. Era o que o Divino Mestre ensinava: “Procurai o Reino de Deus e sua justiça e tudo mais vos será dado por acréscimo” (Mt 12,31). O que em outras palavras poderíamos dizer: procurai a Deus e a santidade (sua justiça), e todos os problemas da sociedade se resolverão.

Comentário a Notícia publicado no Correio Braziliense em 05 de agosto de 2010. Disponível em: http://cfm.empauta.com/e/mostra_noticia.php?autolog=eJwzMDAwtTA1MDQxMTI3MjA0MLAwMAUAKYMD9Q–3D–3D&cod_noticia=971703359&d=1&x=1&nojump=true

___________________
1 CARLINI, Elisaldo A. Epidemiologia do Uso de Álcool no Brasil. Universidade Federal de São Paulo. Arq Méd ABC. 2006; Supl.2: 4-7
2 WORLD HEALTH ORGANIZATION. About global alcohol database. Geneva: WHO, 2002.Disponível em: <http://www3.who.int/whosis/alcohol/alcohol_about_us.cfm?path=whosis,alcohol,alcohol_about&language=english>. Acesso em: 16 maio 2004.
3 Cf. ABDALA, Gina Andrade; GIL RODRIGUES, Wellington; TORRES, Amilton; CORREIA RIOS, Mino; SOUZA BRASIL, Magela de. A Religiosidade / Espiritualidade como Influência Positiva na Abstinência, Redução e/ou Abandono do Uso de Alcool. Rever Revista de Estudos da Religião. Mar. 2010, p. 77.