O Pe. César Augusto Ramírez Giraldo, Coordenador Administrativo da Pós-graduação da Escola de Teologia Filosofia e Humanidades da Universidade Pontifícia Bolivariana (UPB), de Medellín (Colômbia), esteve em São Paulo visitando o Seminário São Tomás de Aquino.
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Ordenação presbiteral: 10 novos sacerdotes de Cristo
Ordenação presbiteral: 10 novos sacerdotes de Cristo
Visitação de Maria
“Tudo quanto a Virgem Santíssima pede em favor dos seus servos, obtém, com certeza, de Deus”. Esta sentença é de Santo Afonso de Ligório”
Uma graça sempre ao nosso alcance
Quem tiver a infelicidade de cometer um pecado, e estiver impossibilitado de confessar-se logo, terá sempre um precioso recurso para reconciliar-se sem demora com Deus.
Lucas Garcia
Em sua infinita misericórdia, Deus põe à disposição de Seus filhos, para sua santificação, uma incomensurável quantidade de dons e graças. Alguns destes favores divinos, Ele os dispensa a todo e qualquer fiel. Outros, porém, em sua sabedoria, o Criador os reserva para algumas almas eleitas.
É o caso do dom da profecia, do de fazer milagres e de tantos outros, concedidos apenas em determinadas circunstâncias, de acordo com as necessidades da Santa Igreja.
Alguns pensam que a esta categoria especial de dons pertence a graça da contrição perfeita. Isto não é real. Muito ao contrário, esta graça está sempre ao alcance de todos os fiéis, sem qualquer exceção. Mais ainda, ela é de fundamental importância na vida espiritual de todo batizado.
Entre os livros que tratam do tema, destaca-se o do Padre Johann von den Driesch, intitulado A Contrição Perfeita – uma chave de ouro para o céu. Nele, esse fervoroso sacerdote da arquidiocese de Colônia expõe a doutrina católica a respeito, com a clareza do bom pedagogo e o ardor do apóstolo empenhado na salvação das almas.1
Elementos da contrição autêntica
A contrição — ou arrependimento — é a dor de alma que a pessoa sente por haver pecado; essa dor só é verdadeira quando o pecador detesta a má ação praticada e tem o propósito de não mais pecar. Por exemplo, se um ladrão se diz arrependido de um roubo cometido, mas não tem horror ao crime em si, nem faz o propósito de se corrigir, não se pode afirmar que esteja contrito.
Para ser autêntica, a contrição precisa ser interna, ou seja, provir de fato da alma, não pode reduzir-se a meras palavras pronunciadas sem reflexão. Deve também ser geral, isto é, abranger todos os pecados, ao menos todos os pecados mortais. É necessário, por fim, que ela seja sobrenatural, quer dizer, que tenha por base alguma verdade da Fé: o temor de Deus que tem o direito de ser obedecido, o amor de Deus que nos ama, o desejo do Céu, o medo do inferno, etc.
Se alguém assalta um banco e depois se arrepende porque está em risco de ser preso, isso não é autêntica contrição, pois se baseia em motivos meramente naturais.
Sua essência: a vontade de afastar-se do pecado
Como acima dissemos, a graça do arrependimento está ao alcance de todos. Para obtê-la, basta manifestar a Deus com sinceridade de alma o seu pesar por tê-Lo ofendido e o firme propósito de não tornar a pecar.
“A essência da contrição está na alma, na vontade de afastar-se deveras do pecado e converter-se a Deus”, afirma o Padre Johann von den Driesch.
Contrição perfeita e imperfeita
A contrição de um pecador pode ser perfeita ou imperfeita, dependendo dos motivos que o levem a tê-la.
A contrição perfeita procede do amor: o pecador se arrepende pelo fato de ter ofendido a Deus, infinitamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas.
Imperfeita é a contrição que decorre do temor: a pessoa aborrece o pecado pelo medo de perder o Céu e ser lançada no inferno. Por que é chamada de imperfeita? Porque nela o pecador toma em consideração principalmente a si mesmo, e não a Deus.
Exemplos de verdadeira contrição
Vejamos um belíssimo exemplo de contrição perfeita, tirado do Evangelho.
No pátio da casa do sumo sacerdote Caifás, São Pedro negou três vezes a Jesus. Em seguida, saiu e “chorou amargamente” (Mt 26, 75).
Por que chorou São Pedro? Se fosse pelo fato de passar vergonha diante dos outros Apóstolos, seria uma dor meramente natural, não existiria verdadeira contrição. Se fosse por medo de ser excluído do Reino de Cristo, ele teria uma contrição autêntica, mas imperfeita.
Ele chorou, porém, por um motivo muito elevado, como diz o Padre von den Driesch: “Pedro arrepende-se e chora, antes de tudo, porque ofendeu a seu amado Mestre, tão bom, tão santo, tão digno de ser amado [...]. Tem, pois, verdadeira e perfeita contrição”.
Os Evangelhos nos narram mais um magnífico exemplo de contrição perfeita: o da pecadora que se prostra aos pés de Jesus, banha-os com suas lágrimas, enxuga-os com seus cabelos, beija-os e, por fim, os unge com perfumes. E o Divino Mestre declara que “seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela muito amou” (Lc 7, 47).
Contrição perfeita e confissão
Que pela contrição perfeita o pecador obtém o perdão dos seus pecados antes mesmo de confessar-se, é doutrina afirmada no Concílio de Trento (14ª sessão, cap. 4).
Entretanto, adverte o mesmo Concílio, ela não dispensa o pecador da necessidade de acusar-se de todos os seus pecados mortais no Sacramento da Confissão e de receber a absolvição do ministro de Deus. De modo que no próprio ato de contrição perfeita deve estar incluído o propósito de confessar-se.2
Quanto tempo depois? É pelo menos muitíssimo aconselhável confessar-se logo que possível.
“Mas é tão difícil ter contrição perfeita!” — poderá alguém pensar.
Puro engano! Para dar-nos essa graça, Deus exige de nós uma atitude bem ao nosso alcance: desejá-la realmente e pedi-la com insistência. O Padre Johann von den Driesch sugere, entre outras, esta curta oração: “Senhor, dai-me a graça do perfeito arrependimento, da perfeita contrição dos meus pecados”. A quem assim pede, com boa vontade e de coração sincero, Deus não deixará de atender.
Efeitos da contrição perfeita
São maravilhosos os efeitos e benefícios que a contrição perfeita nos obtém.
A quem é pecador, ela perdoa imediatamente os pecados cometidos, devolvendo-lhe a graça santificante pela qual ele volta a ser filho de Deus, livrando-o das penas do inferno e restituindo-lhe os méritos perdidos.
Dir-se-á, então, que a contrição perfeita beneficia apenas a quem cometeu pecado mortal. Não é verdade, pois ela robustece o estado de graça naqueles que não o perderam. Cada ato de contrição perfeita aumenta o grau da graça santificante em nossa alma, tornando-a mais formosa aos olhos de Deus!
* * *
Eis aí, leitor, um imenso dom que Deus deixou ao nosso alcance. Saibamos bem aproveitar esta dádiva celeste, procurando fazer diariamente muitos atos de contrição perfeita. Pois, além dos benefícios enumerados acima, quem se habitua a fazê-los com freqüência os repetirá, por assim dizer, instintivamente na hora da morte. Portanto, uma prática benéfica também nos casos de pecados veniais, ou até mesmo quanto às imperfeições.
Saibamos aproveitar a imensa bondade do Criador que nos dá essa misericordiosa oportunidade de nos apresentarmos diante dEle inteiramente limpos de pecado! ²
1 Driesch, Johann von den. A Contrição Perfeita – uma chave de ouro para o céu, Tip. São Francisco, Bahia, 1913.
2 Cf. DENZINGER – HÜNERMANN, n. 1677.
ARAUTOS DO EVANGELHO, N. 84, DEZ 2008.
As vestes e as cores litúrgicas
Os paramentos utilizados pelo sacerdote durante a celebração da Santa Missa pretendem ilustrar o que significa “revestir-se de Cristo”, falar e agir “in persona Christi”.
Pe. Mauro Sérgio da Silva Isabel, EP
É natural que cada sociedade ou conjunto humano procure encontrar uma forma de vestir-se que de algum modo o defina e diferencie. Pensemos, por exemplo, nos trajes típicos das diversas regiões europeias, cuja variedade até hoje nos surpreende.
Lembremos também os vestuários de certas profissões, como a toga do magistrado, ou o gorro do cozinheiro, um “trambolho” pouco prático que, entretanto, caracteriza perfeitamente quem com ele se cobre.
As roupas têm, pois, uma dimensão simbólica que ultrapassa sua mera utilidade prática. Mais do que cobrir e proteger o corpo, elas revelam a situação, o estilo e a mentalidade de quem as veste.
Assim, o branco do vestido nupcial representa a virgindade da donzela, e a riqueza dos seus adereços visa realçar a importância do compromisso matrimonial, abençoado por Deus com um Sacramento. O saial e o tosco cordão do franciscano lembram seu casamento místico com a “Dama Pobreza”, enquanto o vermelho vivo da batina cardinalícia indica aalta dignidade do membro do Sacro Colégio e evoca seu propósito de, se for necessário, derramar seu próprio sangue pelo Sumo Pontífice.
Os paramentos sacerdotais: “Revestir-se de Cristo”
Este simbolismo que podemos apreciar na vida cotidiana, verifica- -se com muito maior intensidade nas vestes litúrgicas, especialmente nas da Celebração Eucarística.
Ao ser ordenado, o sacerdote reveste- se de Cristo, e esse fato é representado em cada Santa Missa. Conforme ressaltou Bento XVI na Missa Crismal de 5 de abril de 2007, vestir os paramentos litúrgicos é entrar sempre de novo “naquele ‘já não sou eu’ do Batismo que a Ordenação sacerdotal nos dá de modo novo e ao mesmo tempo nos pede. O fato de estarmos no altar, vestidos com os paramentos litúrgicos, deve tornar claramente visível aos presentes e a nós próprios que estamos ali ‘na pessoa do Outro’”.
Depois de afirmar que as vestes sacerdotais são uma profunda expressão simbólica do que significa o sacerdócio, o Papa acrescentou: “Portanto, queridos irmãos, gostaria de explicar nesta Quinta-Feira Santa a essência do ministério sacerdotal, interpretando os paramentos litúrgicos que, precisamente, pretendem ilustrar o que significa ‘revestir-se de Cristo’, falar e agir in persona Christi”.
Através das explicações do Papa, procuremos conhecer melhor cada um dos paramentos utilizados pelo sacerdote durante a Missa.
O olhar do coração deve dirigir-se ao Senhor
Após lavar as mãos, pedindo a Deus para “limpá-las de toda mancha”, o sacerdote coloca o amicto ao redor do pescoço e sobre os ombros, rezando: “Imponde, ó Senhor, sobre minha cabeça o elmo da salvação, para defender-me de todos os assaltos do demônio”.
O nome deste paramento provém do latim amictus (cobertura, véu) e sua origem remonta ao século VIII.
Sobre seu simbolismo, afirma Bento XVI na mencionada homilia: “No passado — e nas ordens monásticas ainda hoje — ele era colocado primeiro sobre a cabeça, como uma espécie de capuz, tornando-se assim um símbolo da disciplina dos sentidos e do pensamento, necessária para uma justa celebração da Santa Missa”.
Logo a seguir, o Papa dá exemplos concretos dessa “disciplina dos pensamentos e sentidos” que o sacerdote deve manter durante a celebração do Santo Sacrifício: “Os pensamentos não devem vaguear atrás das preocupações e das expectativas da vida cotidiana; os sentidos não devem ser atraídos pelo que ali, no interior da Igreja, casualmente os olhos e os ouvidos gostariam de captar. O meu coração deve abrir-se docilmente à palavra de Deus e estar recolhido na oração da Igreja, para que o meu pensamento receba a sua orientação das palavras do anúncio e da oração. E o olhar do meu coração deve estar dirigido para o Senhor que está no meio de nós”.
A alva: lembrança da veste de luz recebida no Batismo
Durante os primeiros séculos do Cristianismo, o vestuário dos eclesiásticos era idêntico ao dos leigos.
Em plena perseguição religiosa, a prudência os aconselhava a evitar qualquer sinal que denunciasse aos agentes do governo seu “delito” de pertencer à Igreja e adorar o único Deus verdadeiro, infração punida com a morte naquela época.
No século VI, entretanto, deu-se no vestuário dos leigos uma transformação completa. Enquanto os romanos, influenciados pelos bárbaros que invadiram o Império, adotaram a veste curta dos germanos, a Igreja manteve o uso latino das longas vestimentas, as quais tornaram-se o traje distintivo dos clérigos e pouco a pouco ficaram reservadas para as ações sagradas.
Daí provém, entre outras, a alva, uma túnica talar branca. Ela é a veste litúrgica própria do sacerdote e do diácono, mas podem trajá-la também os ministros inferiores, quando devidamente autorizados pela autoridade eclesiástica. Ao revestir-se dela, o sacerdote reza: “Purificai-me, ó Senhor, e limpai meu coração para que, purificado pelo sangue do Cordeiro, possa eu gozar da felicidade eterna”.
Essa oração alude à passagem do Apocalipse: os 144 mil eleitos “lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro” (Ap 7, 14). Evoca também o vestido festivo que o pai deu ao filho pródigo, quando este voltou sujo e andrajoso à casa paterna, bem como a veste de luz recebida no Batismo e renovada na Ordenação sacerdotal.
Na mencionada homilia, o Papa explica a necessidade de pedir a Deus essa purificação: “Quando nos aproximamos da Liturgia para agir na pessoa de Cristo, todos nos apercebemos de quanto estamos longe dEle, de quanta sujeira existe em nossa vida”.
O cíngulo da pureza e a estola da autoridade espiritual
Revestido da alva, o sacerdote cinge- se com o cíngulo, um cordão branco ou da cor dos paramentos, símbolo da castidade e da luta contra as paixões desregradas. Enquanto o prende à cintura, o ministro de Deus eleva a Ele esta prece: “Cingi-me, Senhor, com o cíngulo da pureza e extingui meus desejos carnais, para que permaneçam em mim a continência e a castidade”.
Em seguida, reveste-se da estola, uma faixa do mesmo tecido e da mesma cor da casula, adornada de três cruzes: uma no meio e as outras duas nas extremidades. Ela simboliza a autoridade espiritual do sacerdote e, de outro lado, o jugo do Senhor, que ele deve levar com coragem, e pelo qual há de recuperar a imortalidade.
O padre a coloca em torno do pescoço, depois a cruza sobre o peito e passa por baixo do cíngulo, enquanto reza: “Restaurai em mim, Senhor, a estola da imortalidade, que perdi pela desobediência de meus primeiros pais, e, indigno como sou de aproximar-me de vossos sagrados mistérios, possa eu alcançar o gozo eterno”.
O jugo do Senhor, simbolizado pela casula
Por último, coloca a casula, que completa a indumentária própria à celebração da Santa Missa. A oração para vesti-la também faz referência ao jugo do Senhor, mas lembrando o quanto este é leve e suave para quem o carrega com dignidade: “Ó Senhor, Vós que dissestes: ‘Meu jugo é suave e Meu peso é leve’, fazei que eu seja capaz de levar esta vestimenta dignamente, para alcançar a Vossa graça”.
Ensina-nos, a este propósito, o Santo Padre: “Carregar o jugo do Senhor significa, antes de tudo, aprender dEle. Estar sempre dispostos a ir à Sua escola. DEle devemos aprender a mansidão e a humildade, a humildade de Deus que se mostra no Seu ser homem.
[...] O Seu jugo é o de amar com Ele.
Quanto mais amarmos, e com Ele nos tornarmos pessoas que amam, tanto mais leve se tornará para nós o Seu jugo aparentemente pesado”.
As cores litúrgicas
Tudo na Liturgia da Igreja é rico em simbolismos. Isto se nota também nas cores dos paramentos sagrados, as quais variam de acordo com o tempo litúrgico e as comemorações de Nosso Senhor, da Virgem Maria ou dos Santos. Basicamente, são quatro as cores litúrgicas: branco, vermelho, verde e roxo. Além destas, há quatro outras que são opcionais, isto é, podem ser usadas em circunstâncias especiais: dourado, rosa, azul e preto.
O branco simboliza a pureza e é usado nos tempos do Natal e da Páscoa, bem como nas comemorações de Nosso Senhor Jesus Cristo (exceto as da Paixão), da Virgem Maria, dos Anjos e dos Santos não-mártires.
O vermelho, símbolo do fogo da caridade, usa-se nas celebrações da Paixão do Senhor, no domingo de Pentecostes, nas festas dos Apóstolos e Evangelistas, e nas celebrações dos Santos Mártires.
O verde, sinal de esperança, é usado na maior parte do ano, no período denominado Tempo Comum.
Para os tempos do Advento e da Quaresma, a Igreja reservou o roxo, a cor da penitência. E estabeleceu duas exceções, que correspondem a dois interstícios de alegria em épocas de contrição: no 3º domingo do Advento e no 4º domingo da Quaresma, o celebrante pode trajar paramentos rosa.
Em circunstâncias solenes, podese optar pelo dourado em lugar do branco, do vermelho ou do verde.
Em alguns países é permitido utilizar o azul, nas celebrações em honra de Nossa Senhora. E nas Missas pelos fiéis defuntos o celebrante pode escolher entre o roxo e o preto.
* * * Revestido assim, de acordo com as sábias determinações da Santa Igreja, o sacerdote sobe ao altar para o Sagrado Banquete, tornando claro a todos, e a si mesmo, que está atuando na pessoa de Outro, ou seja, de Nosso Senhor Jesus Cristo.
(Revista Arautos do Evangelho, Abril/2009, n. 88, p. 48 à 51)
A ressurreição: artigo de fé
Emílio Portugal Coutinho
Muito raras são as pessoas que não tenham passado pela dolorosa experiência de perder um ente querido. Os cerimoniais fúnebres, marcados pela cor roxa ou negra, embora voltados ao respeito e à memória daquele que se foi, inevitavelmente tornam ainda mais pungentes os momentos da suprema despedida.
O drama de um falecimento e a incerteza que ele traz, fazem surgir a inquietante pergunta: “O que há depois da morte?”
Com efeito, todos os povos, desde os primórdios da Humanidade, alimentaram a crença de que haveria algo no além-túmulo. As dolorosas separações seriam momentâneas, e num futuro misterioso, em certo lugar desconhecido, os homens haveriam de se reencontrar.
Soluções falsas ou equivocadas dos antigos e pagãos
Ao longo da História, as mais diversas civilizações e culturas buscaram solução para esse enigma. Os antigos egípcios acreditavam que a alma ficaria peregrinando por um tempo indefinido, após o qual retornaria ao corpo, e este, portanto, deveria ser conservado. Com esse fim, eles aperfeiçoaram a técnica do embalsamamento, e até hoje suas múmias, em perfeito estado de conservação, podem ser vistas em museus.
A rica imaginação grega criou o orfismo. Segundo este, como punição de um crime primordial, a alma era encerrada no corpo tal qual numa prisão, e a morte podia ser o começo de uma verdadeira vida. Após o falecimento, as almas se dirigiam ao Hades, onde bebiam das águas do rio Lete, a fim de esquecer suas existências terrenas. A alma que não estivesse quite com suas culpas regressava ao mundo para reencarnar-se. O orfismo chegou, ainda com muita vitalidade, até os primeiros séculos da Era Cristã. Em seguida, foi-se apagando lentamente.
Além dessas, surgiram muitas outras explicações, como o panteísmo e o espiritismo. Por fim, o materialismo, negando pura e simplesmente a vida sobrenatural, deixa um vácuo de resposta a uma das mais antigas questões humanas.
A resposta cristã nos é bem conhecida, com os destinos eternos da alma bem definidos, quer seja no Céu, contemplando o Criador, quer seja no inferno, sofrendo os castigos inerentes à condição de inimigo de Deus.
Mas com relação ao corpo, companheiro da alma em sua jornada terrestre, que será feito dele?
A ressurreição e a doutrina cristã
Santo Agostinho defende que “não há doutrina da fé cristã combatida com tanta veemência como a da ressurreição da carne”. Entretanto, poucas verdades da nossa fé são tão claramente afirmadas tanto nas Sagradas Escrituras quanto pelos autores dos primeiros séculos. O ensinamento sobre a ressurreição dos corpos tem a condição de dogma, ou seja, artigo de fé a respeito do qual não pode caber qualquer dúvida.
Contudo, não faltou quem se tenha atrevido a negá-la. Os gentios a rechaçavam como uma fábula nova e inacreditável. Contestaram-na também os saduceus e, entre os primeiros cristãos, Himeneo e Fileto, os quais São Paulo refuta em sua primeira Epístola a Timóteo (cap. II). A estes podem somar-se os gnósticos, maniquieus e priscilianistas, que tiveram por sequazes, na Idade Média, os albigenses e valdenses. Em nossos dias os protestantes liberais e os racionalistas se empenham em negar este dogma católico, por considerá-lo incompatível com certas razões filosóficas. Contra toda esta torrente de heresias, a Igreja apresenta o depósito precioso da Revelação e a segura voz de seus concílios.
Podemos nos apoiar em declarações históricas, como por exemplo, o Credo dos Apóstolos, também chamado de Nicéia; o Credo do XI Concílio de Toledo; o Credo de Leão IX, ainda usado nas consagrações dos bispos; a profissão de fé do II Concílio de Lyon; o Decreto do IV Concílio de Latrão, contra os albigenses. Ademais, este artigo de fé toma por base a crença já existente no Antigo Testamento e os ensinamentos do Novo Testamento, além da Tradição Cristã.
A ressurreição nas Escrituras
As Sagradas Escrituras trazem abundantes e claras referências à ressurreição final dos corpos. O profeta Daniel afirma: “Muitos daqueles que dormem no pó da terra despertarão, uns para uma vida eterna, outros para a ignomínia, a infâmia eterna” (Dn 12, 2). A palavra “muitos”, aqui, não significa que alguns não ressuscitarão. Ela deve ser entendida à luz do seu sentido em outras passagens (como em Is 53, 11-12; Mt 26, 28; Rm 5, 18-19).
A visão de Ezequiel sobre a planície coberta de ossos secos que foram reordena
“O ensinamento sobre a ressurreição dos corpos tem a condição de dogma, ou seja,
artigo de fé a respeito do qual não pode caber qualquer dúvida”
“Resurreição de Cristo”, detalhe do pórtico da Basílica de São Marcos, Veneza
dos e revivificados (Ez 37) refere-se diretamente à restauração de Israel, mas mostra como tal figura só poderia ser inteligível para ouvintes familiarizados com a crença na ressurreição. O profeta Isaías triunfante proclama: “Que os vossos mortos revivam! Que seus cadáveres ressuscitem! Que despertem e cantem aqueles que jazem sepultos, porque vosso orvalho é um orvalho de luz e a terra restituirá o dia às sombras” (Is 26, 19).
Finalmente, Jó, reduzido à extrema desolação, sente-se fortalecido pela sua fé na ressurreição: “Eu o sei: meu vingador está vivo, e aparecerá, finalmente, sobre a terra. Por detrás de minha pele, que envolverá isso, na minha própria carne, verei Deus. Eu mesmo O contemplarei, meus olhos O verão, e não os olhos de outro” (Jó 19, 25-27).
Já no Novo Testamento, após a morte de Lázaro, Marta manifesta sua crença: “Sei que [ele] há de ressurgir na ressurreição no último dia” (Jo 11, 24). Contundente, São Paulo não hesita em pôr a ressurreição final no mesmo nível de certeza da ressurreição de Cristo: “Ora, se se prega que Jesus ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns de vós que não há ressurreição de mortos? Se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1Cor 15, 12-14).
E por fim, supremo testemunho, o próprio Cristo Nosso Senhor não só supõe a ressurreição da carne como coisa bem sabida, mas também a defende contra os ataques dos saduceus: “Na ressurreição dos mortos, nem os homens tomarão mulheres, nem as mulheres, maridos, mas serão como os anjos de Deus no Céu. Mas, quanto à ressurreição dos mortos, não lestes no livro de Moisés como Deus lhe falou da sarça, dizendo: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó?’ Ele não é Deus de mortos, senão de vivos” (Mc 12, 25-27; Mt 22, 30-32). O Messias ainda iria declarar essa verdade em outras passagens (Jo 5, 28-29; 6,39-40; 11, 25; Lc 14,14).
A doutrina da ressurreição na Tradição cristã
Os Padres, Doutores e insignes teólogos seguiram com firmeza o reto caminho traçado pelo Divino Mestre. No século II, São Policarpo deu o apelido de primogênito de Satanás, ao que negue a ressurreição e o juízo1. Aristides afirma que os cristãos guardam os mandamentos porque esperam a ressurreição dos mortos2. Atenágoras escreveu um tratado inteiro sobre a ressurreição dos mortos, no qual demonstra primeiro a possibilidade da ressurreição, sua conveniência e necessidade; depois prova que o homem é imortal, já que é racional; e como, por outra parte, está composto de alma e corpo, ele não pode conseguir com perfeição seu fim e sua bem-aventurança se o corpo não voltar a se unir com a alma.
Santo Irineu ensina que nossos corpos, nutridos com o manjar eucarístico, recebem a semente da ressurreição3. No século III quem com mais brilho defendeu a ressurreição futura foi Tertuliano. Esta carne que Deus formou com suas mãos e segundo sua própria imagem, que animou com seu sopro à semelhança de sua vida (…) esta carne não ressuscitará? Esta carne que é de Deus a tantos títulos?4.
Um testemunho de Santo Agostinho: Ressuscitará esta carne, a mesma que é sepultada, a mesma que morre, esta mesma que vemos, que apalpamos, que tem necessidade de comer e de beber para conservar a vida; esta carne que sofre enfermidades e dores, esta mesma tem que ressuscitar, os maus para sempre penar, e os bons para que sejam transformados5.
* * *
Muito embora respaldada por tantos e tão sérios testemunhos, não deixa de ser uma maravilha imaginar que, num dia conhecido só pelo Altíssimo, ao toque das trombetas angélicas, milhões de corpos irão emergir das profundezas dos oceanos, surgir das entranhas da terra, e juntos, erguer os olhos ao Criador, que então irá separar os seus (cf. Mt 25, 31-33). ²
1) Ep. Ad Philip., VII, 1.
2) Migne, P. G., t. 96, col. 1121.
3) Id. ib., col. 1124.
4) Id., e. 2, col. 885.
5) Id., t. 38, col. 1231.
(ARAUTOS DO EVANGELHO, N. 75, Março 2008.)
A vigília pascal do Sábado de Aleluia ou Sábado Santo
Ítalo Santana Nascimento – 2º Ano de Teologia
No sábado santo honra-se a sepultura de Jesus Cristo e a sua descida à “mansão dos mortos”, e, depois do sinal do Glória, a sua gloriosa ressurreição.
A noite do sábado santo é especial e solene, é denominada também como Vigília Pascal. Antigamente era celebrada à meia-noite, no entanto, a Santa Sé autorizou que começasse após o anoitecer. Deve terminar antes da aurora do domingo.
É considerada “a mãe de todas as santas Vigílias”,[1] pois, a Igreja mantém-se de vigia à espera da Ressurreição do Senhor, e celebra-a com os sacramentos da iniciação cristã.
Esta noite é “uma vigília em honra do Senhor” (Ex 12, 42). Assim, ouvindo a advertência de Nosso Senhor no Evangelho (cf. Lc 12, 35), aguardamos o retorno, tendo nas mãos lâmpadas acesas, para que ao voltar nos encontre vigilantes e nos faça sentar à sua mesa.
O rito da vigília está dividido do seguinte modo:
1º – A celebração da luz;
2º – A meditação sobre as maravilhas que Deus realizou, desde o início, pelo seu povo;
3º – O nascimento espiritual de novos filhos de Deus através do sacramento do batismo;
4º – E por fim, a tão esperada comunhão pascal, na qual rendemos ação de graças a Nosso Senhor por sua gloriosa ressurreição, na esperança de que possamos, também nós, ressurgir para a vida eterna.
[1] Cf. S. Agostinho, Sermão 219: PL 38, 1088.
Onde está, ó morte, a tua vitória
Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?. Fazendo eco a essas palavras de São Paulo na primeira Epístola aos coríntios, a liturgia da Semana Santa se refere à Paixão do Senhor, proclamando que os tormentos por Ele sofridos transformaram-se em glória e esplendor. Ao triunfar sobre a morte e o pecado, Cristo Jesus comprou nossa salvação, abrindo-nos de par em par as portas do Céu. Foi esse, entretanto, o único objetivo do Salvador com seu supremo martírio? Não. Além de reparar as ofensas feitas ao Pai pelos pecados cometidos por suas criaturas humanas, e de redimi-las, quis Jesus nos ensinar um novo caminho de amor a Deus: o oferecimento irrestrito das próprias dores, chegando até ao sacrifício da própria vida.
Após o pecado original, afirma São Tomás, estabeleceu-se na alma humana a necessidade do sofrimento para facilitar-lhe a aceitação de seu estado de contingência e, assim, ser levada a recorrer ao auxílio sobrenatural. Esta é a razão pela qual muitos autores católicos têm comparado a dor a uma espécie de oitavo sacramento. Sem esse poderoso meio, acentuar-se-ia no homem a tendência de fechar-se sobre si mesmo e constituir-se em centro do universo. A dor o obriga a juntar as mãos em atitude de oração e a implorar a proteção de Deus e dos santos. Jesus, ao submeter-se a dores atrozes, físicas e morais, deu-nos o exemplo e a lição de quanto a dor é eficaz para conquistarmos a vida eterna. Visto na perspectiva da Cruz de Cristo, o sofrimento é suportado com paz e serenidade e se torna insubstituível instrumento de conversão e progresso espiritual.
A Semana Santa nos traz excelente ocasião para reflectirmos a respeito dos benefícios da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aproveitemos para pedir a nosso Redentor, por intercessão de Nossa Senhora das Dores, que os méritos do seu preciosíssimo sangue derramado desçam sobre nós, de modo que, ao enfrentarmos nossas dores quotidianas, tenhamos as mesmas forças com que Ele enfrentou as dores da Paixão.
São Tomás de Aquino: a catedral do pensamento
Inácio de Araújo Almeida
Corria o ano de 1248. A cidade de Colônia estava em festa. As autoridades religiosas e civis, bem como o piedoso povo, reuniram-se para pôr a pedra fundamental daquela que viria a ser a maior catedral gótica do mundo. E, no meio do numeroso clero, viam-se também dois frades de túnica branca e manto negro que há pouco haviam chegado da França. O mais velho se chamava Alberto, cognominado “Magno”. Era o mais sábio homem de seu tempo e a maior autoridade teológica do século. O simples fato de se enunciar nos meios acadêmicos a frase: “Albertus dixit[1], em muitos casos já era suficiente para encerrar uma discussão doutrinária.
Sobre o frade mais novo, pouco se sabia, a não ser que era discípulo de Alberto. Se não fosse sua elevada estatura e avantajado corpo que o destacavam dos demais, passaria quase despercebido no meio daquela multidão. Todavia, sob aquele hábito da mendicante ordem de São Domingos, ocultava-se um membro da mais alta nobreza italiana. Tinha ele por parentes próximos dois imperadores do Sacro Império Romano Alemão, Frederico II e Conrado VI. Contudo, o que lhe fez sair daquele aparente anonimato não foi o seu porte altaneiro e nem mesmo a sua elevada nobreza, mas sim a sua virtude e inteligência. Este jovem frade tornou-se um grande santo e um dos maiores gênios que o mundo viu nascer. Seu nome era Tomás de Aquino…
Com efeito, era do conhecimento de muitos o motivo que o trouxera a Colônia. Estava ali para auxiliar o seu mestre na fundação de um Studium Generale, que viria a ser o centro de estudos teológicos de sua ordem em terras alemãs. Porém, o que ninguém sabia, talvez nem ele mesmo, é que, nos vinte cinco anos seguintes, Tomás construiria também um magnífico templo, tão sólido e duradouro como os alicerces da igreja de Colônia, que via nascer. Tomás edificaria um monumento de doutrina, fundamentado na fé e na razão. Tal monumento bem poderia ser chamado de “a catedral do pensamento cristão”…
O pequeno monge De Monte Cassino
O mundo o viu nascer no ano de 1225, no castelo de Roccasecca, próximo a Nápoles, na Itália. Dos sete filhos do conde Landolfo d’Aquino, Tomás era o mais novo. Aos cinco anos, foi enviado ao famoso Convento de Monte Cassino, para lá ser educado. Seu tio, Sunibaldo, era abade e encarregou-se de sua formação. Tudo indica que sua família também ansiava que ele viesse a ser o superior daquele prestigioso mosteiro.
Pouco se sabe deste período de sua vida, a não ser que o “pequeno monge”, ao percorrer o majestoso claustro daquela abadia, inquiria os religiosos sobre um tema que não saía da sua mente: “Que é Deus?”. Não passaram para a história as respostas proferidas. Contudo, parece certo dizer que ninguém lhe respondeu satisfatoriamente, pois, desde criança, ele fez dessa primeira indagação a força motriz que o impulsionaria a produzir a maior obra teológica de todos os tempos.
Ao ingressar na vida acadêmica, rapidamente destacou-se pela prodigiosa fecundidade de pensamento. Esse doutor que mereceu ser chamado “Angélico”, foi um grande luzeiro posto por Deus no meio de sua Igreja, a fim de esclarecer, confortar e animar as almas pelos séculos futuros. Viveu apenas 49 anos, dedicando a metade de sua vida à nobre e árdua tarefa de ensinar nos mais importantes centros universitários da França, Itália e Alemanha.
Guilherme de Tocco, seu primeiro e principal biógrafo, afirmou que “nas aulas o seu gênio começou a brilhar de tal forma e a sua inteligência a revelar-se tão perspicaz, que repetia aos outros estudantes as lições dos mestres de maneira mais elevada, mais clara e mais profunda do que as tinha ouvido” [1].
São Tomás soube unir harmoniosamente a santidade com a genialidade, e a erudição com a virtude, a fim de produzir a maior obra teológica de todos os tempos. Durante os quase oito séculos que separam sua existência da nossa, foi ele sempre exaltado com eloquentes louvores pelos Papas, em termos não comuns em documentos pontifícios.
O Papa João XXII, em 1318, afirmou: “Ele sozinho iluminava a Igreja mais que os outros doutores. Lendo seus livros um homem aproveita mais em um ano do que durante toda a sua vida”[2]. São Pio V, em 1567, não foi menos categórico: “A Igreja fez dela a sua doutrina teológica, por ser a mais certa e a mais segura de todas”. E o Papa Leão XIII, em 1892, disse que “se se encontram doutores em desacordo com São Tomás, qualquer que seja o seu mérito, a hesitação não é permitida; sejam os primeiros sacrificados ao segundo”. Por sua vez, o Concílio Vaticano II aconselha que São Tomás seja seguido nos Seminários e nas Universidades católicas. O Papa Paulo VI, comentando esse fato, disse: “é a primeira vez que um Concílio Ecumênico recomenda um teólogo, e este é precisamente São Tomás de Aquino”.
As três catequeses de Bento XVI sobre São Tomás de Aquino
Seguindo os passos de seus predecessores, o Papa Bento XVI voltou a ressaltar a importância do pensamento de São Tomás de Aquino para o mundo contemporâneo. O Sumo Pontífice dedicou três de suas audiências semanais para abordar a vida, a obra e o pensamento do Doutor Angélico[3]. Em sua Catequese de 02 de junho de 2010, o Papa recordou as palavras de João Paulo II na Encíclica Fides et Ratio, onde ele afirma que o Angélico: “foi sempre proposto pela Igreja como mestre de pensamento e modelo quanto ao reto modo de fazer teologia”[4]. O atual Pontífice argumenta que não devemos nos surpreender que, depois de Santo Agostinho, entre os escritores eclesiásticos mencionados no Catecismo da Igreja Católica, São Tomás seja citado mais do que todos os outros. Em seguida, ele apresenta alguns traços da vida do Aquinate, ressaltando o providencial encontro do Angélico com o pensamento de Aristóteles.
Com efeito, no século XIII foram traduzidas para o latim diversas obras do Estagirita que até então eram completamente desconhecidas no ocidente cristão. Isto despertou nos meios acadêmicos não só admiração, mas também temor. A razão disto é que muitos dos ensinamentos de Aristóteles pareciam estar em desacordo com a doutrina revelada. São Tomás, então, se dedicou a comentar as principais obras de Aristóteles, procurando distinguir em seus escritos aquilo que era válido, daquilo que era duvidoso. Havia uma pergunta que intrigava muitos teólogos do seu tempo: poderia o pensamento cristão receber algum contributo da filosofia pagã? São Tomás respondeu: “Toda verdade, dita por quem quer que seja, vem do Espírito Santo” [5]·. Para São Tomás, o encontro com uma filosofia que era anterior ao próprio cristianismo não era propriamente um obstáculo à revelação, mas sim, abria uma nova perspectiva ao horizonte da fé. Vejamos as palavras do Pontífice: “A filosofia aristotélica era, obviamente, uma filosofia elaborada sem conhecimento do Antigo e do Novo Testamento, uma explicação do mundo sem revelação, unicamente pela razão. E esta racionalidade consequente era convincente (…). Existia uma ‘filosofia’ completa e convincente em si mesma, uma racionalidade precedente à fé, e depois a ‘teologia’, um pensar com a fé e na fé. A questão urgente era esta: o mundo da racionalidade, a filosofia pensada sem Cristo e o mundo da fé são compatíveis? Ou então se excluem? Não faltavam elementos que afirmavam a incompatibilidade entre os dois mundos, mas São Tomás estava firmemente convencido da sua compatibilidade; aliás, a filosofia elaborada sem o conhecimento de Cristo praticamente esperava a luz de Jesus para ser completada. Esta foi a grande ‘surpresa’ de São Tomás, que determinou o seu caminho de pensador. Mostrar esta independência de filosofia e teologia, e, ao mesmo tempo, a sua relacionalidade recíproca, foi a missão histórica do grande mestre”[6].
Em síntese, o Papa explica que naquele momento de desencontro entre duas culturas, parecia que “a fé devia render-se perante a razão”. Entretanto, São Tomás demonstrou que fé e razão caminham lado a lado, e que não existe contradição entre os dados da revelação com aqueles adquiridos pelo conhecimento racional. Desta forma, fé e razão: “constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade” [7]·. Foi assim que, segundo o Pontífice, o Aquinate acabou por criar “uma nova síntese, que veio a formar a cultura dos séculos seguintes”.[8]
O poder de atração de São Tomás
Outro ponto ressaltado por Bento XVI foi a grande capacidade de atração que São Tomás exercia sobre aqueles que o conheciam: “Um dos seus ex-alunos declarou que uma enorme multidão de estudantes seguia os cursos de Tomás, a tal ponto que as salas tinham dificuldades em contê-los e, com um apontamento pessoal, acrescentava que ‘ouvi-lo era para ele uma profunda felicidade’”.
São Tomás “viveu a vida de um mestre e com toda a entrega de que era capaz”[9]. Na Suma Contra os Gentios se encontra uma discreta indicação do que ele considerava como a principal tarefa de sua vida, fazendo suas as palavras de Santo Hilário: “Sou consciente de que o principal dever de minha vida para com Deus é esforçar-me para que minhas palavras e todos os meus sentidos falem dele”[10]. Aquela perfeita união que havia no Angélico entre a vida de oração e a vida do estudo era o segredo de sua santidade.
Além de ter sido um grande professor e escritor, São Tomás também se dedicou à pregação pública. Algumas destas homilias passaram para a história e chegaram até nós. Em suas pregações, ele soube explicar os mais intricados problemas teológicos, numa linguagem acessível às pessoas de pouca erudição. O Papa considera verdadeiramente ser uma grande graça: “quando os teólogos sabem falar com simplicidade e fervor aos fiéis. Por outro lado, o ministério da pregação ajuda os próprios estudiosos de teologia a ter um sadio realismo pastoral, e enriquece a sua investigação com estímulos intensos”.[11]
A sua devoção eucarística
Porém, como foi possível em apenas 25 anos de ensino, numa época em que não havia imprensa, em que as bibliotecas eram pequenas e de difícil acesso, uma tão grandiosa produção bibliográfica? Quem nos dá a resposta é o próprio São Tomás. Ele mesmo confidenciou a Frei Reginaldo, seu confessor, que aprendeu mais em suas meditações na Igreja diante do Santíssimo Sacramento, ou na cela aos pés do Crucifixo, do que em todos os livros que havia lido. Guilherme de Tocco insiste em dizer que
‘todas as vezes que ele queria estudar, iniciar uma disputa, ensinar, escrever ou ditar, retirava-se primeiramente no segredo da oração e rezava vertendo lágrimas, a fim de obter a compreensão dos mistérios divinos’. São Tomás: ‘entregou-se totalmente às coisas do alto, e foi contemplativo de um modo inteiramente admirável’[12].
Durante a noite, Tomás, após um breve sono, ia prosternar-se diante do Santíssimo Sacramento, onde permanecia longo tempo em oração. Quando tocavam as Matinas, antes que os religiosos formassem fila para ir ao coro, ele retornava sigilosamente à sua cela para que ninguém o notasse. Desta forma, era na vida de piedade que São Tomás adquiria os mais altos conhecimentos, compreendia os textos sagrados e encontrava a solução para os mais complicados problemas teológicos. O Pontífice também argumenta que na vida de São Tomás encontramos aquela que é uma das principais características das almas eleitas, ou seja, a devoção a Nossa Senhora
Ele definiu-a com um apelativo maravilhoso: Triclinium totius Trinitatis, triclínio, ou seja, lugar onde a Trindade encontra o seu descanso porque, em virtude da Encarnação, em nenhuma criatura, como nela, as três Pessoas divinas habitam e sentem a delícia e a alegria por viver na sua alma cheia de Graça. Pela sua intercessão, nós podemos obter todo o auxílio[13].
A celebração da Santa Eucaristia era a devoção preferida de São Tomás. Celebrava todos os dias, à primeira hora da manhã e, antes mesmo de tirar os paramentos sacerdotais, assistia a uma ou duas missas. Quanto aos deveres religiosos, seguia escrupulosamente as orações da comunidade, sem usar das legítimas dispensas a que tinha direito por exercer a função de Mestre. Ao avançar em idade, aumentou ainda o número de suas orações e meditações. Desta forma é que se entende melhor toda a eficácia do ensino de São Tomás, pois, de acordo com Grabmann: “a figura científica de São Tomás não se pode separar da grandeza ético-religiosa de sua alma; em Tomás, não se pode compreender o investigador da verdade sem o santo” [14].
“Mestre Tomás, que lição nos pode dar?”.
Bento XVI também recorda que, certa manhã, enquanto São Tomás rezava na capela de São Nicolau, em Nápoles, um sacristão chamado Domingos de Caserta, ouviu um diálogo. O Angélico perguntava, preocupado, se aquilo que tinha escrito sobre os mistérios da fé era correto. É então que ouve uma voz que provém do crucifixo:
“-Falaste bem de mim, Tomás, qual será tua recompensa?
“- Nada mais do que Tu, Senhor”.
E quando se aproximava o término de sua peregrinação nesta terra, o Angélico pediu os Sacramentos e os recebeu com grande fervor. Neste momento, afirmou ainda a sua fé absoluta na presença de Deus na Eucaristia
Recebo-te, preço da redenção de minha alma, recebo-te, viático de minha peregrinação, por cujo amor estudei, realizei vigílias, sofri; preguei-te, ensinei; jamais disse algo contra ti, e se o fiz foi por ignorância, e não insisto em meu erro; se ensinei mal a respeito deste sacramento ou de outros, submeto-o ao julgamento da santa Igreja Romana, em obediência à qual deixo agora esta vida[15].
Três dias depois, a 07 de março de 1274, de madrugada, é ungido. Responde a cada uma das santas unções. Instantes depois expira: “A sua alma vai tão pura como veio. Tomás não parte, regressa. Espera-o Aquele de quem nunca, afinal, se separou…” [16].
Por ocasião do sétimo centenário da morte de Angélico, o Papa PauloVI dirige-se a Fossanova e ali afirma que, mesmo no atual tempo em que vivemos, temos ainda muito a aprender com São Tomás. Este Pontífice interrogava: “Mestre Tomás, que lição nos pode dar?”. Em seguida, respondia com estas palavras: “A confiança na verdade do pensamento religioso católico, como foi por ele defendido, exposto e aberto à capacidade cognoscitiva da mente humana”[17]. E neste mesmo dia, na cidade de Aquino, referindo-se ainda a São Tomás, concluía dizendo: “Todos nós que somos filhos da Igreja, podemos e devemos, pelo menos em certa medida, ser seus discípulos!”[18].
[1]Guillelmus de Tocco: Storia Sancti Thome de Aquino, ed. C. Le Brun Gouanvic, Pontifical Institute of Medieval Studies, Toronto, 1996.
[2] As citações mencionadas neste parágrafo encontram-se na obra: Odilão, Moura. Prefácio a Exposição Sobre o Credo. In: Tomás De Aquino. Exposição Sobre o Credo. 4ª ed. São Paulo: Loyola, 1981. pp. 11-16.
[3] As três catequeses de Bento XVI sobre São Tomás foram proferidas na Praça de São Pedro nos dias 02, 16 e 23 de Junho de 2010.
[4]João Paulo II. Carta encíclica Fides et Ratio: sobre as relações entre fé e razão, Paulus, São Paulo, 1998, n. 43.
[5]Aquino, São Tomás de. Summa Theologica: I-II, q. 109, a. 1, ad 1.: “Omne verum, a quocumque dicatur, a Spiritu Santo est”.
[6] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 16 Jun. 2010.
[7] João Paulo II. Carta encíclica Fides et Ratio: sobre as relações entre fé e razão, Paulus, São Paulo, 1998.
[8] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 02 Jun. 2010.
[9] Pieper, Josef. Introducción a Tomás de Aquino. Doce Lecciones. Rialp, Madrid, 2005.
[10] Aquino, São Tomás de. Suma contra los Gentiles, BAC, Madrid, 2007. p. 40.
[11] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 02 Jun. 2010.
[12]G uillelmus de Tocco: Storia Sancti Thome de Aquino, ed. C. Le Brun Gouanvic, Pontifical Institute of Medieval Studies, Toronto, 1996.
[13] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 23 Jun. 2010.
[14]In Ameal, João. São Tomás de Aquino. Iniciação ao estudo da sua figura e da sua obra. 3a ed. Tavares Martins: Porto, 1947, p. 130.
[15] Idem, p. 154.
[16] Ibidem.
[17] Insegnamenti di Paolo VI, XII [1974], pp. 833-834.
[18] Ibidem, p. 836.
A prova da existência de Deus pelas cinco vias de São Tomás de Aquino
Luiz Carlos da Silva Júnior
Ao observarmos o curso da história veremos que não faltou quem negasse a real existência de Deus. Poderíamos lastimar o fato de tais pessoas não serem dotadas do dom da fé. Pois à primeira vista parece que o conhecimento de Deus é fruto deste dom.
Ora, São Tomás de Aquino faz a demonstração de provas meramente naturais acerca da existência de Deus. A própria razão humana é capaz de chegar à ideia da existência do Criador. Por isso, não admitir a existência de Deus não é racional, mas sim apoiar-se num vago e convencional dogma de negação.
A doutrina da Igreja sobre a existência de Deus funda-se na Revelação, todavia a simples filosofia humana é capaz de vislumbrar a Deus, bem como alguns de seus atributos. São Tomás de Aquino, o maior teólogo da História da Igreja, teve o mérito de reunir e explicitar estes conceitos sobre a existência de Deus[1].
Este santo, conhecido como Doutor Angélico, distingue cinco caminhos pelos quais nossa inteligência pode admitir a existência de Deus. O plano das cinco vias é altamente claro, simples e didático.
Primeira via: a prova pelo movimento
A primeira via de raciocínio para chegar ao conhecimento da existência de Deus é a prova do movimento. Em linguagem corrente, movimento significa mudança de local. Ao andar de um lugar para outro, exerço um movimento. No entanto, há também um outro sentido da palavra movimento. O movimento significa qualquer modificação dos seres.
Em outras palavras, há dois tipos de movimento: o primeiro é o movimento de lugar dado na locomoção que um ser corpóreo faz, de um lugar ao outro; o segundo, é o movimento de sucessão que ocorre no crescimento de uma criança até o seu pleno grau de amadurecimento. Ambos movimentos são facilmente perceptíveis pelos sentidos.
Antes do movimento todos os seres estão em potência[2], isto é, possuem uma possibilidade de se tornarem diferentes do que são. Em filosofia este fenômeno denomina-se atualizar-se. Um corpo frio em ato pode vir a ser quente, ou seja, ele é quente em potência. Movimento é, portanto, qualquer passagem de potência para ato (Atualização). Em outras palavras, o ato é a realização enquanto a potência é a possibilidade de realização. Por exemplo, uma semente em ato é uma semente, mas em potência, é uma árvore.
O movimento não é a sucessão de dois estados, mas a passagem que um ser faz de um estado para o outro. Por exemplo, o fogo que é quente em ato, torna a madeira que está em potência para o calor, quente em ato. Deste modo, há uma realidade que permanece sob os dois estados, e a mudança consiste em receber a atualização do segundo estado (frio), pelo qual a coisa (a madeira) fica agora existindo de outro modo (quente), isto é, modificada. A mudança portanto inclui sempre uma aquisição de algo que antes o ser não possuía.
Dado ser evidente a todos, esta experiência dos sentidos, São Tomás a toma como ponto de partida da primeira via racional a provar a existência de Deus: “Nossos sentidos atestam, com toda certeza, que neste mundo algumas coisas se movem. Ora, tudo o que é movido é movido por outro. Nada se move que não esteja em potência em relação ao termo de seu movimento; ao contrário o que se move o faz enquanto se encontra em ato” (S. Th. I, q.2, a. 3).
Tudo se move, tudo muda, tudo passa de um estado para outro, não somente no sentido do movimento local, mas de mudança substancial, como na geração de novas substâncias (a madeira pode se tornar carvão). Também acidental, como o aumento ou diminuição quantitativa (o filhote cresce e torna-se adulto). E como variação quantitativa, quer na ordem material quer na ordem espiritual (maior peso, mais graça).
Assim, se o que move é também movido, o é necessariamente por outro, e este por outro ainda. Ora, não se pode continuar até o infinito, pois neste caso não haveria um primeiro motor, por conseguinte, tampouco outros motores, pois os motores segundos só se movem pela moção de outro motor. Logo, é então necessário chegar a um primeiro motor, não movido por nenhum outro, e este, todos entendem: é Deus” (S. Th. I, q.2, a. 3).
O Primeiro Motor – Deus – é puro ato, existência subsistente. Deve ser ato, pois sendo movente, deve ter em ato a perfeição que ele comunica; deve ser puro, sem mistura de potencialidade, pois é movente imóvel e imutável. Logo, o movente imóvel é puro ato enquanto existente: é a Existência mesma subsistente[3].
Só é independente na sua atividade quem é a própria atividade, e só é a atividade quem é a existência; só comunica a perfeição quem produz a existência desta, e só pode ter por efeito próprio “fazer existir” quem é a existência. Logo, o primeiro movente imóvel é a sua existência: DEUS.
Segunda via: prova pela causa eficiente
Conforme a primeira via, uma semente tem a possibilidade de tornar-se (atualizar-se) em árvore. Já na segunda nos deteremos em mostrar que a semente para ser árvore, necessita de causas entre si subordinadas, ou seja, que dependam umas das outras no agir e no existir. Sem a terra, o ar, a água, o sol, etc., a semente não encontraria condições para o seu desenvolvimento. Assim, o clima e as substâncias que alimentam a planta são causas de vida para o vegetal. Seria portanto uma loucura afirmar que a semente é causa de si mesma, pois para ser sua própria causa necessitaria existir antes de si mesma.
A segunda via segue substancialmente o mesmo caminho da primeira. Porém, não se baseia na mudança e passividade dos seres, e sim, na dependência e causalidade que há nas atividades deles. É muito clara a semelhança entre a primeira e a segunda via, pois ambas nos levam à necessidade de uma causa inicial. Entretanto, consideramos anteriormente a existência e a necessidade de uma causa motriz, e agora trataremos de considerar a obrigatoriedade de existir uma causa eficiente[4].
Ao observarmos a criação, notamos nas coisas sensíveis uma relação de causas. Desta forma, não se pode encontrar um ser que seja sua própria causa eficiente. Sendo a causa anterior ao efeito, seria absurdo, considerar um ser que fosse a sua própria causa eficiente, pois seria ele anterior a si mesmo. Entretanto não é possível levar ao infinito a série de causas eficientes. Isto posto, ficam evidentes duas possibilidades: que algo seja causa de si próprio e que a série de causas seja remontada ao infinito.
Há, pois, uma ordem de causas em que a primeira é a causa da segunda, esta, da terceira e assim sucessivamente até a última. Tanto numa causa intermediária que une a primeira à última como numa variedade de outras causas intermediárias, a causa primeira é a causa do último efeito, de tal forma que suprimindo a causa suprime-se o efeito, e se não há um primeiro termo nas causas, não haverá nem intermediário nem último. As causas intermediárias são, por conseguinte, efeitos da causa originária. Não se admite efeitos sem causa, segundo o princípio básico de causalidade[5].
Assim, as causas subordinadas dos seres levam-nos direta e imediatamente a uma causa eficiente primeira com certo atributos:
Esta causa é Infinitamente perfeita, porque sendo a existência mesma subsistente, é tudo o que pode existir, isto é, todos os modos de ser, todas as perfeições; Imaterial, porque a matéria é potência. Ora, a causa primeira não sofre mudanças por ser ela ato puro; Inteligente, porque a imunidade e exceção da matéria é a causa da faculdade intelectual, que se caracteriza por se fazer atualmente inteligíveis as formas materiais abstraindo-as da matéria e das condições da matéria; Não subordinada e incausada, pois não pode ser causada por outra, caso contrário não seria a primeira, nem poderia ser absolutamente independente no agir e no causar[6]. A esta causa eficiente primeira chamamos: DEUS.
Terceira via: prova pelo ser necessário
A terceira via também faz o caminho semelhante ao das anteriores. Entrando mais intimamente na essência dos seres do universo, procura o ponto de partida na entidade destes seres contingentes, ou seja, dependente de outro ser necessário para existir.
O contingente[7] é qualquer ser que existe, mas poderia não existir, por não ter em si mesmo, em sua essência, a razão de sua existência. Por exemplo, uma criança para se desenvolver e sobreviver necessita de minerais, vitaminas, nutrientes, etc., encontrados no leite materno. A criança é contingente ao colo da mãe.
Agora, a ideia de contingente está em oposição à de necessário. O necessário é, pois, o ser existente que de modo algum pode não existir, porque tem em si a razão absoluta de sua existência. Contendo na sua própria essência a sua existência, seria absurdo não existir. Expostos os conceitos de contingente e necessário chega-se a uma conclusão óbvia que a existência do contingente está justificada no ser necessário que a comunica.
Com efeito, tudo o que pode ser ou não ser, é mutável. Já que o ser necessário tem que ser imóvel, como São Tomás demonstrou na primeira via, não há nele possibilidade de ser ou não ser. Desta forma, todo ser que é, e que é impossível que não seja, é necessariamente. Porque a possibilidade de existência e de não existência significa a mesma coisa. Além disso, os seres que possuem a possibilidade de ser ou não ser necessitam de outro ser que seja distinto deles, que lhes comunique o ser, por ter aptidão na sua natureza para tal. Visto que o ser que comunica o existir é anterior ao que recebe, é necessário afirmar a existência de um ser anterior ao que possui a privação de ser por si. Em última análise, nada existe senão pelo ser que é a existência subsistente, nada possui a beleza senão pela beleza subsistente, nada possui o bem senão pela bondade subsistente, nada está em ato senão pelo ato puro[8].
Admitir um contingente existente incausada, é admitir um ser que tem e não tem em si a razão suficiente de sua existência: o que é contraditório. Logo, a existência do contingente implica forçosamente a existência da sua causa. Esta causa existe necessariamente por si ou o recebe de outrem a sua existência. Ora, sem um ser que exista por si mesmo, nada existe, pois alguma coisa não pode vir a ser do nada: deste modo nada existiria. Por conseguinte, não pode uma série ser contingente sem que haja fora dela um ser primeiro não causado, que possua na sua essência sua existência e possa ser a fonte da essência dos seres.
Portanto, os seres contingentes exigem a existência de um ser que não tenha começado a existir; um ser não causado, que exista por si mesmo, que tenha existido sempre e que seja necessário aos demais. Este ser necessário encontra na sua própria essência sua existência que é infinita, caso contrário estaria criando outro ser infinito e necessário, e este, outro e assim sucessivamente. Ora, a série de contingência segue ao infinito. Assim, os seres criados têm por um lado a essência e, por outro, tanta existência quanto sua essência possa permitir, ou seja, têm uma limitação própria à sua essência[9]. Desta forma, é necessário afirmar a existência de um ser necessário por si mesmo e que é a causa e a necessidade de todos os outros: DEUS.
Quarta via: prova pelos graus de perfeição dos seres
Esta via não evidenciará a mudança, a atividade, a geração ou corrupção, mas a limitação com que certas perfeições existem nos vários seres. Em outras palavras, os graus de bem que residem nas criaturas.
Vemos nos seres que uns são mais ou menos bons, verdadeiros e nobres que os outros. Assim, ninguém duvida que o homem é mais perfeito que o animal; o animal mais que o vegetal; e este mais que o mineral. O mesmo deve-se dizer da bondade, da verdade, da nobreza e das outras perfeições semelhantes, as quais encontra-se em todos os seres segundo uma diversidade de graus, em virtude da qual alguns seres são mais perfeitos que outros.
São Tomás de Aquino observa que “encontra-se nas coisas algo mais ou menos bom, mais ou menos verdadeiro, mais ou menos nobre etc. Ora, mais e menos se dizem de coisas diversas conforme elas se aproximam diferentemente daquilo que é em si o máximo”.[10]
Em outras palavras, “mais ou menos” não diz respeito às coisas em si, mas sim, no tanto em que elas se aproximam em graus diversos do que é em grau máximo. Por exemplo, algo torna-se mais frio quando se aproxima do frio em grau máximo. Desta forma há algo que é em grau supremo o bem, a verdade, a nobreza e, por sua vez, o grau máximo do ser. Assim, o que é o grau máximo do gênero é causa e medida de todo esse gênero: O gelo que é grau máximo de frio, é causa e medida de todo frio.
Da existência destas perfeições limitadas e graduadas deduz-se a existência de um ser perfeitíssimo. Ser sublime no qual residem todas as perfeições em seu grau sumo. João Ameal conclui que, “Há, então, um ser soberanamente belo soberanamente bom, soberanamente perfeito. Mas aquilo que é soberano, supremo em algum gênero, é causa de todos os seres do mesmo gênero”.[11]
Já Santo Agostinho se refere aos antigos filósofos por terem visto que em todas as coisas mutáveis o modo pelo qual um ser é o que é só lhe virá do ser verdadeiro e imutável por essência:
“Compreenderam, além disso, que em todo ser que muda, toda forma que o faz ser o que é, qualquer que seja sua natureza e os seus modos, não pode ela mesma existir senão por Aquele que é verdadeiramente porque é imutavelmente. É daí que, quer seja o corpo do mundo inteiro, a sua estrutura, as suas propriedades, o seu movimento regular, os seus movimentos escalonados do céu à terra e todos os corpos que ele encerra; quer seja toda a vida: a que sustenta e mantém o ser, como nas árvores; a que, além disso, possui sensibilidade, como nos animais; a que acrescenta a tudo isto a inteligência, como nos homens; ou a que, sem necessidade de mantimentos, se mantém, goza de sentimentos e de inteligência como nos anjos, não pode manter o seu ser senão d’Aquele que simplesmente é”.[12]
Por esta razão, São Tomás ao explicar que “se alguém indo a uma casa e desde a porta fosse sentindo calor e cada vez que mais nela penetrasse mais calor sentisse, evidentemente perceberia que havia fogo no seu interior, mesmo que não estivesse vendo o fogo. Acontece o mesmo conosco ao considerar as coisas deste mundo. Todas as coisas estão ordenadas conforme diversos graus de beleza e de nobreza, e quanto mais estão próximas de Deus, tanto melhores e mais belas são. Ora, os astros são mais nobres e mais belos que os corpos inferiores; as coisas invisíveis, que as visíveis”.[13]
Deste modo a quarta via, para achar a razão suficiente das perfeições existentes no mundo, nos conduz necessariamente à existência real de um Ser perfeito, único e simples, o qual é evidentemente distinto dos seres do universo: DEUS.
Quinta via: prova pela ordem do universo
Se considerarmos a ordem existente no universo, desde os componentes microscópicos existentes numa planta até os gigantescos astros do firmamento; a harmonia, a atividade e relação entre eles, facilmente chegamos à seguinte conclusão: houve uma Inteligência que criou e ordenou tudo isto, caso contrário seria absurdo dizer que isto é fruto do acaso.
“De fato, apenas a inteligência pode ser razão da ordem, quer dizer, da organização dos meios em vista de um fim, ou dos elementos em vista do todo que eles compõem: os corpos ignoram os fins e, por conseguinte, se os corpos ou os elementos conspiram em conjunto, é necessário que sua organização tenha sido obra de uma inteligência”.[14]
Os seres que carecem de conhecimento não podem rumar aos seus respectivos fins sem que haja um ser que conheça tais fins. Assim, uma flecha não pode atingir o alvo sem o arqueiro que a dispare. Garrigou-Lagrange explica que:
“os seres privados de razão não tendem a um fim se não são guiados por uma inteligência, como a flecha pelo arqueiro. Com efeito, uma coisa não pode estar ordenada à outra senão por uma causa ordenadora, que necessariamente deve ser inteligente, ‘sapientis est ordinare’. Por que? Porque só a inteligência conhece a razão de ser das coisas”.[15]
Isto posto, que inteligência ordena o universo? Obviamente há de ser diferente dos seres da natureza, porque os minerais e vegetais são desprovidos da ciência das coisas e os animais não possuem intelecto. Deve ser também diferente da inteligência humana, que apesar de perceber e explicar a ordem que existe, não a cria. Tem que ser, pois, a suma inteligência, dado que a ordem do universo supõe um ser que possua a ciência de todos os seres e suas propriedades. Por isso conclui Garrigou-Lagrange:
“Os animais conhecem sensivelmente o objeto que constitui seu fim, mas neste objeto não percebem a razão formal do fim. Por conseguinte, se não houvesse uma inteligência ordenadora, que governasse o mundo, a ordem e a inteligibilidade, que há no universo e que as ciências descobrem, proviria da inteligibilidade, e ainda mais, nossas próprias inteligências proviriam de uma causa cega e ininteligível; uma vez mais, o mais sairia do menos, o que é absurdo”.[16]
É indispensável afirmar que a Inteligência Criadora e Ordenadora do universo é Infinita e Divina. Um ser natural, na sua criação não é precedido por nada e suas propriedades e capacidades provém de sua própria essência. Daí a ordem interna de cada ser e, por consequência, das relações destas essências entre si, resulta a ordem externa do universo.
Sendo a causa total de toda ordem, o Autor destas essências deve ser também Criador, por tirá-las do nada. Portanto a Inteligência ordenadora é também Criadora. Ademais, esta inteligência não pode ter sido criada, porque seria como qualquer outro ser existente e não ordenaria, mas seria ordenada por uma outra inteligência. Por fim, a Inteligência ordenadora deve ser também por si subsistente e infinita. A este ser Criador, Subsistente por si e Infinito, chamamos: DEUS.
[1] Mais especificamente, a que se encontra na Suma Teológica I (q. 2, a. 3).
[2]Com Deus não é assim, pois ele é ato puro, como veremos mais à frente.
[3] Cf. GILSON, Étienne. El Tomismo introducción a la filosofía de Santo Tomás de Aquino. 2002, p. 76.
[4]MONDIN, Battista. Quem é Deus?.Trad. José Maria de Almeida. São Paulo: Paulus, 1997, p. 233. Causa eficiente, é a causa da vinda do efeito a existência. Tudo que existe, é um efeito de uma causa primeira (NICOLAS, Marie-Joseph. Vocabulário da Suma Teológica. In Suma Teológica. 2ª edição. São Paulo: Loyola, 2001, p. 75).
[5] Cf. S. Th. I, q.2, a. 3.
[6] Cf. CERRUTI, Pedro. A caminho da Verdade Suprema. 2º Milheiro. Rio de Janeiro: Universidade Católica, 1955.p. 486.
[7] A noção de contingente recebe um significado mais restrito e é tomado como sinônimo de corruptível, que possui em sua essência uma matéria com potência para receber diferentes formas substanciais, da mesma forma que tem a possibilidade natural de existir.
[8] Cf. S. Th. I, q.2, a. 3.
[9] SÃO TOMÁS, O ente e a essência, n. 65.
[10] S. Th., q. 2, a. 3.
[11]AMEAL, João. São Tomás de Aquino. Sem data, 269-270.
[12] Santo Agostinho. A cidade de Deus. Trad. J. Dias Pereira. 3ª edição. Coimbra: Fundação Colouste Gulbenkian, 2006. Civitas Dei, 8, 6.
[13] SANTO TOMÁS, Exposição sobre o credo, p.27.
[14]JOLIVET, Régis. Curso de filosofia. Trad. Eduardo Prado de Mendonça. 3ª edição. Rio de Janeiro: Agir, 1957, p.319.
[15]Dios la existência de Dios. Trad. José San Román Villasante. 2ª edição. Madrid: Palabra, 1980, p. 303-304
[16]Dios la existência de Dios. Trad. José San Román Villasante. 2ª edição. Madrid: Palabra, 1980, p. 304.



