ITTA – IFAT

Instituto Teológico São Tomás de Aquino

ITTA – IFAT - Instituto Teológico São Tomás de Aquino

Qual é a vontade de Deus a respeito do cristão?

(3ª parte)

O catecismo ensina que a vontade de Deus para com o cristão possui dois prismas. Um na terra e outro no Céu. Nesta vida esta vontade se realiza no mandato de Cristo de “que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou”[1]. Desta caridade mútua procede todo o bem da sociedade. Queremos o bem natural e material do próximo, mas sobretudo, queremos a sua salvação eterna, pois o bem sobrenatural do irmão vale mais do que todo o Universo. Em relação a Deus, a vontade do Pai na terra é “elevar os homens à participação da vida divina” [2], porque Deus quer conviver com o homem.

Esta vontade de Deus em relação ao cristão se realiza através da Igreja que reúne todos homens em torno do seu Filho, Jesus Cristo. Por esta razão a Igreja é na terra “o germe e o princípio do Reino de Deus”[3]. O Catecismo ensina que a vontade do nosso Pai é “que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2, 3-4), e “não quer que ninguém se perca” (2Pe 3, 9)[4].

Deus quer comunicar sua própria bondade, fazendo-nos filhos adotivos por Jesus Cristo. Por esta razão, afirma Santo Irineu de Lyon: “Se a revelação de Deus pela criação já proporcionou a vida a todos os seres que vivem na terra, quanto mais a manifestação do Pai pelo Verbo proporciona a vida aos que veem a Deus!”[5]. Esta é a glória máxima da qual o homem é capaz na terra, conviver, amar e sentir-se amado por Deus.

Esta é a vontade de Deus que começa na terra e se consome no Paraíso: cumprir esta vontade de Deus é possuir a felicidade na terra, a qual se tornará plena no Céu. Desta forma o cristão faz a vontade de Deus, na terra assim como no Céu.


[1] Catecismo da Igreja Católica, n. 2822. Cf. Jo 13, 34; 1 Jo 3; 4; Lc 10, 25-37.

[2] II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 2: AAS 58 (1966) 818.

[3] II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 5: AAS 57 (1965) 8.

[4] Cf. Mt 18, 14.

[5] Santo Irineu de Lião, Adversus haereses 4, 20, 7: SC 100, 648 (PG 7, 1037).

Solene inauguração do ano letivo de 2011 no Seminário São Tomás de Aquino

ano letivo de 2011

Na tarde do dia 28 de janeiro, memória de São Tomás de Aquino, deu-se a solene inauguração do ano letivo de 2011, na Casa de Formação Sacerdotal São Tomás de Aquino. A fim de atrair as celestiais bênçãos para os trabalhos de mais um ano acadêmico, o programa se iniciou com a celebração de uma Eucaristia na igreja anexa ao Seminário, presidida por D. Benedito Beni dos Santos, Bispo Diocesano de Lorena e Supervisor Geral de Formação dos Arautos do Evangelho.

Concelebraram a Missa em memória “do mais santo dos sábios e mais sábio dos santos” – São Tomás de Aquino –, o Côn. Edson José Oriolo dos Santos, Cura da Catedral Metropolitana de Pouso Alegre e Vigário Geral da mesma Arquidiocese, o Pe. Rivelino Nogueira, Pároco da Catedral Nossa Senhora da Piedade (Lorena-SP) e o Pe. Antônio Guerra, EP.
Estiveram presentes na cerimônia o Diretor do ITTA, o Revmo. Pe. Caio Newton de Assis Fonseca, EP, e todo o corpo docente a tempo pleno, tanto do IFAT, quanto do ITTA. Somaram-se ao corpo discente de ambos os institutos, cerca de 900 Arautos do Evangelho, provenientes de diversas cidades do Brasil e do mundo, deixando repleta a igreja Nossa Senhora do Rosário.
A Liturgia foi animada pelo Coro e Orquestra Internacional dos Arautos do Evangelho, sob a regência do maestro Alejandro Javier de Saint’Amant, que executou obras de Georg Friedrich Händel (1685-1759) e Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594), assim como cânticos gregorianos.
Em brilhante homilia, Dom Beni correlacionou as leituras do dia com a memória de São Tomás. Também discorreu sobre os três principais sentidos do termo “Reino de Deus”, presente nos santos Evangelhos:
“O primeiro sentido consiste em que Cristo, enquanto manifestação encarnada do plano salvífico do Pai, é o próprio Reino de Deus entre os homens; o segundo sentido é místico, trata-se do Reino de Deus que não está circunscrito a um espaço geográfico, mas que reside no interior de cada homem em estado de graça, de cada santo. O pecado é o anti-reino de Cristo, e quem vive no pecado está fora deste Reino; por fim, em seu terceiro sentido, o Reino de Deus é a Igreja Católica, sacramento ou sinal de salvação, para todos os homens”.
Em seguida, aplicou estas verdades teológicas, relacionando-as com alguns desafios dos tempos atuais para a difusão deste Reino:
“Assim como o inimigo semeava o joio a fim de perder o trabalho do Divino semeador, de modo análogo, também no mundo atual, a cizânia do ódio; da perseguição religiosa em certos países do mundo; da exclusão do crucificado nos lugares públicos; e da influência dos meios de comunicação ao afirmarem o bem como o mal e o mal como o bem, são verdadeiros inimigos do Reino De Deus”.
Afirmava Dom Beni que “a Fé é a arma pela qual o cristão pode hoje combater o ódio dos inimigos do Reino. A mesma Fé amada e explicitada pelo grande Doutor da Igreja, São Tomás de Aquino”.
Ao final, após considerar com clareza alguns pontos da Suma Teológica sobre a essência divina, ressaltava que “um teólogo só pode transmitir verdadeira teologia, quando vive a santidade. Sem a prática da virtude, um professor de teologia não consegue comunicar o conhecimento de Deus. São Tomás foi esta estrela de primeira grandeza nos céus da teologia, precisamente porque foi santo. Seu brilho não provém apenas da sabedoria, mas da santidade, e por isso, foi honrado pela Igreja como ‘Doutor da Vida Cristã’”.

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Após a homilia, o Pe. Alex Brito, EP, introduziu o significado da cerimônia de Profissão de Fé e Juramento de Fidelidade que fariam ou renovariam os professores dos Institutos de Teologia e Filosofia (IFAT e ITTA). Explicava que sempre foi uma recomendação de diversos Papas da História da Igreja, reafirmada pelo Vaticano II, especialmente através do código de Direito Canônico de 1983, que cada encargo importante na Igreja fosse recebido após o solene juramento (c. 833 § 6). Como o ensino da Fé Cristã ocupa um lugar preeminente na vida eclesial, os professores do IFAT e do ITTA prestaram sobre as Sagradas Escrituras o solene juramento.
Recitado o Credo Niceno-Constantinopolitano, os professores proclamaram a crença “em tudo o que está contido na palavra de Deus, escrita ou transmitida pela tradição, e é proposto pela Igreja, de forma solene ou pelo Magistério ordinário e universal, para ser acreditado como divinamente revelado”. A fórmula termina com a aceitação do “religioso obséquio da vontade e da inteligência, aos ensinamentos que o Romano Pontífice ou o Colégio Episcopal propõem quando exercem o Magistério autêntico”.

Ajudando as vítimas das chuvas no Brasil

As chuvas que assolam o sudeste do Brasil, especialmente o Estado do Rio de Janeiro, já são consideradas a maior catástrofe natural da História do Brasil. Cerca de 800 mortos e milhares de pessoas ficaram desalojadas. Todavia, esta calamidade atingiu também o estado de São Paulo, e de modo especial, as cidades que se localizam na Serra da Cantareira, ao norte da Capital.Entrega de cesta básica_7
Casas destruídas, ruas obstruídas, falta de energia e inundações atingiriam a população da Serra, e de forma especial, algumas famílias do bairro do Apolinário.
Como o riacho transbordou, suas águas penetraram em diversas casas, fazendo com que seis famílias ficassem desabrigadas e as respectivas casas condenadas, devido à erosão provocada pelas águas junto aos fundamentos das residências.
Face à dor destes nossos irmãos, os membros do IFAT-ITTA, com a ajuda de alguns famílias generosas e compadecidas, distribuíram alimentos e apoio espiritual às cerca de 30 pessoas desalojadas que, com o apoio da comunidade local, conseguiram hospedar-se num salão de festas.

O método preventivo de Dom Bosco


Educar não é só uma arte. Passou a ser um desafio, pois é cada vez mais difícil orientar a juventude num sentido contrário à mentalidade dominante. São João Bosco encontrou a chave que abre a alma do jovem à influência do bem.

Thiago de Oliveira Geraldo

Manter a disciplina numa sala de aulas constituída de adolescentes é uma dificuldade que, com algumas variantes, mostra-se quase tão antiga como a civilização. Os mestres de Santo Agostinho poderiam dar um testemunho valioso a esse respeito. Em outros tempos, os métodos usados eram muito mais diretos que os atuais e davam resultados imediatos, proporcionais à energia e à força de personalidade do professor. Mas o problema de fundo não deixa de ser o mesmo, hoje como ontem.

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A educação não se restringe a conseguir manter, dentro do recinto de uma sala de aulas, todos os alunos em ordem e silêncio, para que o professor possa transmitir com eficácia seus ensinamentos. O bom educador deve saber moldar a personalidade de seus discípulos, corrigindo os defeitos, estimulando as qualidades, fazendo-os amar os princípios que orientarão a vida. Numa boa educação, a formação religiosa ocupa lugar principal, pois sem amor de Deus e auxílio da graça ninguém consegue vencer as más inclinações e praticar estavelmente a virtude.

Da teoria à prática…

Na teoria, tudo isso é muito fácil… Mas, como pô-la em prática no mundo de hoje, no qual são tão numerosas e atraentes as solicitações para o mal e os educadores sentem crescente dificuldade de exercer influência sobre os jovens?
O problema já era candente na época de São João Bosco. A sociedade de então passava por grandes transformações, sobretudo de mentalidade. E a juventude, sempre ávida de novidades, afastava-se da religião e perdia o rumo.
Dom Bosco fazia o “milagre” — muito maior do que todos os outros por ele realizados — de atrair e formar jovens que já não se deixavam moldar pelos antigos métodos educacionais e se subtraíam à ação da Igreja.
Tentativas de penetrar o segredo do método preventivo
Eram tão surpreendentes os resultados obtidos pelo fundador dos salesianos que muitos de seus coetâneos procuravam insistentemente arrancar dele o “segredo” de seu êxito.
Essa mesma intenção teve o reitor do seminário maior de Montpellier, quando enviou uma carta a Dom Bosco, perguntando qual o segredo da pedagogia utilizada por ele. Imagine-se sua surpresa ao receber a seguinte resposta: “Consigo de meus meninos tudo o que desejo, graças ao temor de Deus infundido em seus corações”.
Não satisfeito, o reitor enviou uma segunda carta, mas a esta o Santo não soube responder, pois nunca havia feito um estudo sobre a matéria. O livro do qual ele tirava seus ensinamentos era sua própria vida.

Confiança: o instrumento do bom educador

Discorrendo sobre o mesmo assunto com o cardeal Tosti, em Roma, numa manhã de 1858, disse-lhe São João Bosco: “Veja, Eminência, é impossível educar bem a juventude se não se lhe conquista a confiança”. Em seguida, para dar-lhe um exemplo concreto, ele o convidou a acompanhá-lo à Praça del Popolo, onde facilmente encontrariam grupos de jovens brincando, e poderia demonstrar a eficácia de seu método. Mas quando desceu da carruagem, a turma de meninos que brincava na praça fugiu correndo. Certamente julgaram que esse padre lhes ia fazer um pequeno sermão ou repreendê-los por alguma falta. O cardeal ficara dentro do veículo, assistindo à cena, e se divertia, julgando que aquele primeiro fracasso levaria Dom Bosco a desistir da experiência. Mas este não se deixou abater e, em poucos minutos, com sua vivacidade e irresistível bondade, tinha uma pequena multidão de jovenzinhos à sua volta se divertindo com seus jogos e entusiasmados com sua bondade. Chegado o momento de se retirar, eles formaram duas fileiras diante do coche, para aclamar o sorridente sacerdote enquanto este passava. O cardeal tinha dificuldade em acreditar no que estava vendo…

Evitar o pecado: a essência do método preventivo

Afinal, como fazia São João Bosco para cativar a juventude?
Como primeiro objetivo, pretendia ele evitar todo e qualquer tipo de pecado, usando de grande vigilância, acompanhada de amorosa solicitude. Não de um modo esmagador e glacial, mas paternal e afetuoso. A essa tática de conduzir os jovens o santo educador deu o nome de “método preventivo”, em confronto com o outro então em voga, denominado “repressivo”, o qual tinha por base os castigos.
Esse modelar formador da juventude não perdia ocasião de coarctar o avanço do mal. Mesmo nos recreios, seu olhar atento logo conseguia descobrir onde estava a rixa ou de onde provinham palavras reprováveis e, sem demora, desfazia a confusão com hábil jovialidade, pois ele era a alma dos divertimentos, como seus alunos testemunhavam. Não raras vezes, ele desafiava todos os meninos, de uma só vez, para uma corrida. Então erguia a batina, contava até três e deixava aquela turba de jovens para trás: Dom Bosco sempre chegava em primeiro lugar. Quando já tinha 53 anos, ele ainda deixava os espectadores estupefatos com sua agilidade, pois nunca perdia uma corrida com os alunos do Oratório.

Suavidade na repreensão

São João Bosco jamais dava castigos corporais, na convicção de que isso só incitaria os corações à revolta e fecharia a alma do jovem para os conselhos salutares. A maneira pela qual ele repreendia era através de uma palavra fria, um olhar triste, uma mão retraída, ou qualquer outro sinal discreto de desagrado com alguma falta. Mas os resultados demonstravam ser extremamente eficaz essa forma de correção.
Certa noite, logo após as orações, Dom Bosco queria dirigir aos meninos algumas palavras benfazejas, antes de irem dormir, mas tal era a algazarra que ele não conseguiu obter silêncio. Após alguns minutos de espera, comunicou-lhes: “Não estou contente com vocês! Vão dormir. Esta noite não lhes digo nada”. A partir desse dia nunca mais foi necessário usar uma sineta para que os rapazes fizessem silêncio.
Poderia, porém, surgir uma dúvida a respeito de tal método. Essa vigilância para evitar o pecado não acabaria por tirar a liberdade ao jovem?
A natureza humana é feita para o equilíbrio: não sufocar a liberdade nem, muito menos, permitir uma indisciplina desenfreada. Essa conjunção, São João Bosco soube fazê-la admiravelmente. Apesar de toda a vivacidade e afeto no trato com os jovens, estes sempre mantinham uma atitude de respeito e admiração para com seu mestre.
Alegria, tempero indispensável
O ambiente no refeitório do Oratório era uma comprovação desse relacionamento harmonioso, quando Dom Bosco demorava algum tempo mais para terminar sua refeição, à qual tinha chegado atrasado. Assim que os outros superiores saíam, uma multidão de jovens entrava correndo e ocupava todo o recinto, não deixando espaço vazio. Alguns se aproximavam tanto que quase encostavam suas cabeças nos ombros dele, outros se apoiavam no espaldar de sua cadeira e os mais pequeninos se enfiavam debaixo da mesa. Qual não era a surpresa comovida do Santo ao ver aquelas pequenas cabecinhas dali saírem, com o único fim de estarem mais perto de seu pai. A liberdade com que aqueles jovenzinhos dele se aproximavam e a veneração que lhe devotavam constituíam realmente um quadro comovedor.
Uma ocasião como essa era uma excelente oportunidade de fazer o bem. O zeloso sacerdote aproveitava então para contar uma história, dar um bom conselho, fazer perguntas, até que o sino indicasse a hora da oração da noite, ou seja, o fim desse convívio enternecido.
Como se vê, a alegria ocupava um grande papel no método educativo de Dom Bosco. Com ela, pretendia o Santo tornar a vida leve e criar disposições para os meninos abrirem a alma à influência dele e ao sobrenatural. Um dos meios que utilizava eram os jogos e diversões, dos quais o próprio educador participava.
Num desses divertimentos, ele alinhava todos os meninos em uma única fila e lhes recomendava: “Atenção! Façam tudo como eu fizer. Quem não fizer como eu faço, sai da brincadeira”. Isso dito, começava seu percurso, ora correndo com os braços para o ar, ora fazendo gestos espetaculares, batia palmas, pulava com uma só perna, ameaçava parar numa árvore, mas logo depois saía correndo de novo. Desse modo, entretinha e criava um ambiente de alegria para aqueles jovens.
Com tais recursos e, sobretudo, com a graça divina, São João Bosco conseguia levá-los a amar a Deus com alegria. Para esse efeito, a música era um instrumento valioso, a ponto de ele dizer que uma casa sem música é como um corpo sem alma.
Freqüência aos sacramentos e
devoção a Nossa Senhora

A perseverança só é possível pela freqüência aos sacramentos e uma ardente devoção a Nossa Senhora.

Na confissão, Dom Bosco pacificava as consciências, infundia confiança nas almas, conduzia seus juvenis penitentes a Deus. Bela descrição dessas confissões nos faz Huysmans, escritor católico do séc. XIX:
“Nosso Santo, trazendo no semblante a bonomia de um velho vigário do interior, puxava para perto de si o menino que tinha terminado o exame de consciência e, tomando-o pelo pescoço, envolvia-o com o braço esquerdo e fazia o pequeno penitente apoiar a cabeça no seu coração. Não era mais o juiz. Era o pai que ajudava os filhos, na confissão tantas vezes penosa das faltas mais pequeninas.”
Por meio da comunhão freqüente queria São João Bosco fortificar a alma dos jovens contra as investidas infernais. Para ele, a Primeira Comunhão deveria ser feita o mais cedo possível: “Quando um menino sabe distinguir entre o pão comum e o Pão Eucarístico, quando se acha suficientemente instruído, não é preciso olhar para a idade. Venha logo o Rei do Céu reinar nessa alma”.
Seguindo os sábios conselhos maternos, Dom Bosco fez da devoção a Maria Santíssima, sob a bela invocação de Maria Auxiliadora, uma coluna da espiritualidade dos salesianos. “Se chegares a ser padre — repetia-lhe afetuosamente ‘mamma Margherita’ — propaga sem cessar a devoção a Nossa Senhora”.

Método preventivo e graça divina

maria-auxiliadora-1Na realidade, o método preventivo de Dom Bosco é uma forma adaptada às novas gerações — e plenamente atual — de predispor os jovens para serem flexíveis à ação da graça divina. É ela a verdadeira causa do êxito surpreendente desse grande educador que marcou sua época, até nossos dias, com seu inovador método transmitido a seus seguidores, os sacerdotes salesianos e as filhas de Maria Auxiliadora.

Deus vem

Thiago de Oliveira Geraldo – Professor de Introdução à Sagrada Escritura (ITTA)
In: Gaudium Press

Quais são as características da verdadeira amizade? São várias, uma delas se comprova quando se tem a confiança de revelar ao amigo os próprios pensamentos. É o que há de mais íntimo no ser humano, lugar impenetrável aos outros, não para um verdadeiro amigo. Pode-se revelar um segredo ou mesmo um desejo. “O termo ‘revelação’ significa literalmente ‘tirar o véu que oculta alguma coisa’.” [1]

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Outra prova de uma amizade levada até as últimas consequências é dar a própria vida, se necessário, por quem se ama. Imaginemos, por exemplo, um inocente condenado à morte cuja execução se dará em breve, seria difícil oferecer-se para morrer em seu lugar, mesmo sabendo que nele não há crime algum. Mais difícil seria dar a vida por um criminoso manifesto. Talvez um grande amigo pudesse se apresentar a fim receber a sentença que coubesse ao outro, mas vejam que não é fácil.

Pois bem, Deus tanto amou aos homens que não só entregou Sua vida pelos réus de morte (pecadores) a fim de lhes abrir as portas do céu, mas também quis vir ao encontro do ser humano por meio da Revelação Divina.

De alguma forma o Criador está acessível a todos. Para alguns, é possível encontrá-Lo através da luz natural da razão pelas obras criadas, como ensina São Paulo: “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras” (Rm 1,20). Para outros, foi-lhes dada a Revelação Divina, inacessível à pura razão: “Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas” (Hb 1,1). Isto sempre se realizou dentro dos desígnios benevolentes de Deus.

O importante é saber que a revelação d’Ele nos chegou por meio de palavras e obras, desta forma entramos em contato com o mistério de Deus, que conduz a história da nossa salvação. Mas Deus quis nos dar absolutamente tudo, e isso se realizou quando enviou seu próprio Filho ao mundo: “Ultimamente nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro universal, pelo qual criou todas as coisas. Esplendor da glória (de Deus) e imagem do seu ser, sustenta o universo com o poder da sua palavra” (Hb 1,2-3).

Jesus Cristo é o ápice da Revelação Divina, Deus disse tudo através de seu Verbo Encarnado: “Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não se há-de esperar nenhuma outra revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (cfr. 1 Tim 6,14; Tit 2,13)”.[2] Não se espera outra revelação antes da manifestação gloriosa do Senhor, mas os cristãos revivem os acontecimentos de Sua vida.

Através da liturgia se celebra os acontecimentos que trouxeram a nossa salvação. Deus Pai enviou seu Filho que morreu por nós e é o Espírito Santo que atualiza esta memória na liturgia: “A liturgia cristã não somente recorda os acontecimentos que nos salvaram, como também os atualiza, torna-os presentes. O mistério pascal de Cristo é celebrado, não é repetido; o que se repete são as celebrações; em cada uma delas sobrevém a efusão do Espírito Santo que atualiza o único mistério”.[3]

Entre os acontecimentos que a liturgia comemora está o advento, próximo a iniciar-se.

O ano litúrgico dos cristãos está separado por períodos, aos quais cabe contemplar misticamente a vida do Divino Redentor. Entre eles está o período do Natal, onde se espera a chegada do Salvador em meio aos homens, comemorado no dia 25 de dezembro. Como preparação para esta chegada, a Igreja instituiu a celebração de quatro domingos, conhecidos como “advento” (do latim significa “chegada”, “vinda”). Espera-se a vinda de Jesus, seu nascimento. Também se refere à segunda vinda de Jesus Cristo.

Desde o século XI o advento abre o ano litúrgico (eclesial), que se encerrou com a solenidade de “Cristo Rei”.

São quatro semanas de preparação para o Natal, nas quais a liturgia vai progressivamente pedindo a vinda do Salvador. Nem sempre e em todos os lugares foram quatro semanas de advento, ocorriam variações entre três a seis semanas; no entanto, em Roma, as quatro semanas são celebradas desde o século V.

Como símbolos desse tempo, podem-se encontrar manifestações de penitência e alegria, ambas com moderação. A penitência se verifica, por exemplo, na ausência do cântico do Glória, bem como nos paramentos roxos, e etc. A alegria se manifesta com cântico do Aleluia e com o domingo Gaudete (“Alegrai-vos”), cujos paramentos são róseos; mas, sobretudo, entre os símbolos de alegria no advento se encontram duas festas votadas à Mãe de Deus. Em oito de dezembro se celebra a solenidade da Imaculada Conceição, em honra da Virgem Maria concebida sem pecado original; dogma proclamado por Pio IX, em 1854. E a festa de Nossa Senhora de Guadalupe, no México, Padroeira da América Latina, em 12 de dezembro.

Neste sentido, “o Advento é por excelência o tempo da esperança, no qual os crentes em Cristo são convidados a permanecer em expectativa vigilante e laboriosa, alimentada pela oração e pelo compromisso efetivo do amor”.[4] Na liturgia espera-se este Deus que vem, porque “Deus vem para nos salvar”.[5]

Deus é o nosso verdadeiro Amigo. Além de enviar seu Filho para morrer por nós na cruz e de se ter revelado definitivamente, ainda confia à Igreja a missão de transmitir estes acontecimentos todos os anos, sob os auspícios do Espírito Santo. É a nossa vez de provar que também somos fiéis a esta amizade, nos preparando para este tempo que se inicia.

Thiago de Oliveira Geraldo

[1] MONFORTE, Josemaría. Conhecer a Bíblia. Trad. de Luis Margarido Correia. Lisboa: DIEL-L, 1998, p. 18.
[2] Constituição Dogmática Dei Verbum, sobre a Revelação Divina, n. 4.
[3] Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Edições Loyola, 1999, n. 1104.
[4] BENTO XVI. Angelus, 3 de Dezembro de 2006.
[5] BENTO XVI. Homilia, 2 de Dezembro de 2006.

A universidade católica tem de ser católica

GrocholewskiEntrevista com Cardeal Zenon Grocholewski: Prefeito da Congregação para a Educação Católica

Cf.  www.acidigital.com/noticia.php?id=19805

Por ocasião do 20º aniversário da Exortação Apostólica Ex Corde Ecclesiae sobre as Universidades Católicas, o Prefeito da Congregação para a Educação Católica, cardeal Zenon Grocholewski, observou que apenas “a universidade Católica que manter a sua identidade terá um futuro e contribuirá para o bem da sociedade”. Ao perder sua união com a Igreja, se tornará uma casa de estudo como outra qualquer. Aplica-se também esta norma aos colégios religiosos.

Em entrevista, o cardeal recordou que um mestre que ensina em uma casa católica de estudos deve “acreditar na Escritura e na Tradição, assim como deve estar unido ao Magistério da Igreja. É arriscado para uma pessoa querer ser mais importante que o Magistério da Igreja”.
Comentando o fato de ter recebido várias reclamações de pessoas que frequentam as universidades católicas e recebem ensinamentos que não estão em conformidade com o Magistério da Igreja, denominou este tipo de centro de estudos como “hipócritas e mentirosos”.
O Cardeal acrescentou que “o que é necessário no contexto moderno de permissividade e de relativismo é que a universidade mantenha a verdade católica, a verdade objetiva”. De fato, o ensino da ciência não exclui a doutrina da Igreja. Todo o conhecimento humano foi criado por Deus e distribuído no universo. Deus é a verdade, e esta mesma verdade é o objeto de toda ciência. O cardeal advertiu que “se uma universidade católica perde a sua identidade, torna-se similar a outras universidades, então é na prática menos significativa”, por perder sua finalidade.
Questionado sobre a opinião de Bento XVI sobre a atualidade da Educação Católica, o Cardeal Grocholewski afirmou que o Papa é “um grande admirador da Universidade Católica. Realmente se alegra quando a Universidade Católica avança e mantém a sua identidade”.
Desde 1990 – ano em que João Paulo II promulgou a Ex Corde Ecclesiae – foram constituídas 250 universidades católicas no mundo. São 1358 Universidades ou institutos católicos de educação superior. No Brasil, quinze instituições de norte a sul do Brasil são reconhecidas pelo Vaticano como católicas, dentre as quais sete são de direito pontifício.

Quando o celebrante precisa de pilhas

Lucas Alves Gramiscelli – 2º Ano de Teologia

Casamento Um Robô-“padre”, chamado I-Fairy pelo seu fabricante Kokoro, “celebra” casamento no Japão. Essa notícia publicada no site Terra, narra os detalhes da cerimônia, que contava com 50 convidados, sendo que quase ninguém prestava atenção aos noivos, pois estavam todos com os olhos fixos no… robô.

Já há alguns anos que notamos certas vantagens no rápido avanço tecnológico mundial. Entretanto, os efeitos produzidos nas pessoas são diversos; em geral têm sido dois: alegria e tristeza. Porém, o mais comum, é encontrar esses dois sentimentos numa mesma pessoa. Não é preciso falar muito sobre o motivo da alegria, pois esse progresso pode trazer benefícios para o bem particular ou comum, seja saúde, facilidade de comunicação, de transporte, etc. E a tristeza? Ouvem-se tantos lamentos pronunciativos de uma forte contrariedade em relação a vários aspectos desse crescimento, como máquinas que tomam o lugar dos homens em suas profissões, ou até mesmo catástrofes que podem ocorrer devido à criação de sofisticado armamento, etc.

Entretanto, existe outro fator a considerar: é o teológico. Naqueles em que a profunda religiosidade se faz notar – incluo também, é claro, os teólogos – observamos a mesma reação que é produzida no comum das pessoas. Porém, sob um prisma diferente. Qual?

No século passado, o Magistério da Igreja alarmou acontecimentos negativos que podiam vir acompanhados desse desenvolvimento. Assim declarou a Constituição Pastoral Gaudium et Spes: “Como acontece em qualquer crise de crescimento, esta transformação traz consigo não pequenas dificuldades” (GS 4). A primeira dessas dificuldades não será, talvez, o esquecimento de Deus? O minguamento da Fé? E, por conseguinte, a perda do senso, e, por assim dizer, do gosto por tudo aquilo que é sobrenatural? Mais adiante a mesma Constituição continua: “ao contrário do que sucedia em tempos passados, negar Deus ou a religião, ou prescindir deles já não é um fato individual e insólito: hoje, com efeito, isso é muitas vezes apresentado como exigência do progresso científico” (GS 7). É nesta perspectiva que o Teólogo deve avaliar os prós e os contras do tema em questão.

Mas, para não desviar do assunto inicialmente tratado; o que dizer do I-Fairy? Poderá esse andróide ou seus “descendentes” tomar o lugar dos sacerdotes? É claro que não. Ainda que tenham os olhos piscantes ou uma capacidade maior do que I-Fairy, por exemplo, a de executar 18 tipos de movimento com os braços e repetir sons pré-programados, nunca terão aptidão suficiente para exercer ministério tão sagrado.

É bem provável que a intenção dos empreendedores dessa cerimônia realizada no Japão, não fosse senão a de fazer um teatro ou uma propaganda do novo produto. Porém, ela nos dá um bom pretexto para analisar brevemente o papel do sacerdote, ministério esse que participa do Sacerdócio de Cristo que é único e tem por missão principal a mediação entre Deus e os homens, oferecendo-Lhe as orações do povo (Cf. III, q. 22, a. 1 resp.). Além disso, a Igreja ensina que: “no serviço eclesial do ministro ordenado, é o próprio Cristo que está presente à sua Igreja enquanto Cabeça de seu Corpo, Pastor de seu rebanho, Sumo Sacerdote do sacrifício redentor e Mestre da Verdade. A Igreja o expressa dizendo que o sacerdote, em virtude do sacramento da Ordem, age “in persona Christi Capitis” (CIC 1548). Assim, para que se faça algo na pessoa de Cristo Cabeça, é necessário ser membro desse Corpo.

Portanto, se alguém tiver a oportunidade de encontrar-se com nosso caro I-Fairy, ainda que não entenda, dê-lhe o seguinte conselho, carinhoso e de coração, na medida em que se pode sê-lo para uma máquina: respeite seus limites, suas pilhas não duram para sempre…

E este matrimônio, durará?

Notícia e foto em: http://tecnologia.terra.com.br/noticias/0,,OI4434220-EI12886,00-Robopadre+celebra+casamento+no+Japao.html

Como um bebê venceu Freud

Millon Barros de Almeida (3º ano de Teologia)Bebe

Muitas vezes ouvimos dizer que alguma verdade sustentada pela Igreja não pode ter credito, por não ser “científica”… “dogma” largamente difundido, sobretudo com o avanço positivista a partir do século XIX. Porém, a Igreja nunca deixou de afirmar sua doutrina “dotada de potência”. Entretanto, nesta última segunda-feira, o jornal ABC de Madri publicou uma notícia que vai de encontro a um “dogma científico”.

O investigador Paul Bloom e sua equipe de psicólogos do Infant Cognition Center da Universidade de Yale (Connecticut – E.U.A.) descobriram – por meio de experiências que verificam a capacidade de diferenciar entre o comportamento útil e o inútil como indicador do juízo moral – que as crianças de apenas seis meses são capazes de fazer juízos morais, afirmando assim que nós nascemos com um código ético “formatado” no cérebro. Mudando a linguagem científica e usando termos teológicos, é o mesmo que afirmar com a Igreja que o homem possui o decálogo impresso na alma por Deus, ou seja, aquilo que se apelida por Lei Natural.

O primeiro teste feito com bebês de seis a dez meses é bem simples. É-lhes representada uma cena com formas geográficas. Uma bola vermelha tenta subir uma colina, e é auxiliada de vez em quando por um triângulo amarelo que a empurra. Outras vezes um quadrado azul obstrui o caminho, atrapalhando assim a ascensão da bola vermelha. Depois de mostrada a encenação, pedia-se que os bebês escolhessem uma das figuras. E o resultado foi espantoso: 80% das crianças escolheram a figura útil.

No segundo teste foi apresentada para as crianças a seguinte cena: um cachorro tenta abrir uma caixa, e um urso de pelúcia procura ajudá-lo, porém outro urso senta-se em cima da caixa para atrapalhar a operação do cachorro. Depois de mostrar a cena, várias vezes, para os bebês, faz-se com que eles escolham um dos ursos: a maioria das crianças preferiu o urso colaborador.

A última experiência é ainda mais impressionante. É apresentada às crianças uma cena com marionetes: um gato brinca com uma bola na companhia de dois coelhos. Quando o gato perde a bola, um dos coelhos recupera-a e devolve para o gato. Em outro momento o gato perde novamente a bola e outro coelho a pega, porém, foge com ela, roubando-a do gato.

Após verem a cena, é pedido que os bebês escolham um dos dois coelhos. Neste caso as crianças de apenas cinco meses escolheram o coelho honesto, e as de vinte e um meses foram mais intransigentes… chegaram a bater com a mão na cabeça do coelho ladrão.

Vemos, portanto, como cientificamente é provada a existência da Lei Natural e dos primeiros princípios impressos na alma humana, diferente do que apregoou o psicólogo Sigmund Freud e seu discípulo Jean Piaget, que afirmavam ser o homem um “animal moral” que vem à vida como se fosse um tecido ou papel em branco, e que tem sua consciência formada apenas pelo ambiente que o rodeia. Segundo eles, a criança não sabe o que é certo ou errado, e seu julgamento estará condicionado à sua educação.

O que diria Freud se houvesse tido conhecimento das experiências de Paul Bloom? Será que os dados adquiridos não são positivos, ou científicos?…

A Sabedoria dos simples

Michel Six – 3º Ano TeologiaCura d'Ars

“Porque pregas de modo tão simplório? Fazes papel de ignorante. Por que não pregas a lo grande como nas cidades? Ah! Como me deleito com estes grandes sermões que não incomodam a ninguém, que deixam as pessoas viverem à seu modo, fazendo o que querem!”[1]. Este foi o elogio que recebeu São João Maria Vianney de uma possessa. Com efeito, sem se incomodar por isto, este santo era tido, por muitos, como sendo falho de inteligência; entretanto, mal sabiam os doutos de sua época que em realidade este varão foi um grande sábio, uma vez que entendia tudo pelas causas altíssimas, ou seja, pela visão de Deus.

De fato, nestes tempos, a etiqueta consistia em fazer sermões baseados em Chateaubriand ou em Lacordaire, tentar imitar a Bossuet, enfim, primar mais por floreios retóricos e por um estilo academista, do que tentar atingir o fundo da alma dos fiéis tendo em vista sua conversão.

Deus, porém, jamais abandona seu povo. Assim, neste período de progresso científico, que foi o século XIX, em plena Revolução Industrial, quando a humanidade esperava tudo das máquinas e do desenvolvimento científico, a Sabedoria Divina suscita um varão que em sua simplicidade arrebata as almas, voltando seus olhos para a verdadeira realidade: o mundo sobrenatural, a ciência da Cruz.

Ao lermos um texto, ou ouvirmos um discurso, esperamos de nosso autor, que tenha mais do que simplesmente “dom”. O que realmente nos atrai é quando percebemos não só o dom, mas sua genialidade. Contudo, há algo ainda mais sublime do que a conjugação de dom e genialidade: é quando constatamos que nosso autor é inspirado. Com efeito, o que nos é mais leve e agradável do que ler as Sagradas Escrituras? Entretanto, não será simples seu estilo?

O mesmo se dava com o Cura de Ars que, obtuso aos olhos do mundo, tornava-se sutil e penetrante com seus exemplos, e maravilhava seu auditório, convidando-o assim à sincera conversão: “Meus filhos, se vós vísseis um homem erigir uma grande fogueira, amontoar galhos uns sobre os outros, e, perguntado-lhe o que está fazendo, ele vos responde: “Estou preparando o fogo que me deve queimar”, o que pensaríeis? E se vísseis este mesmo homem aproximar uma chama dos galhos, e, quando acesa a fogueira, se jogar dentro… o que diríeis? Cometendo o pecado é assim que nós procedemos. Não é Deus que nos precipita nos inferno, somos nós que nos jogamos…”

Não é de se reconhecer nisto uma profunda sabedoria? Não são palavras penetrantes e inspiradas? Não demonstra este santo um grande conhecimento de Deus? Com efeito, o grande Santo Tomás de Aquino – que por certo prisma estaria no oposto de nosso Cura de Ars – nos define: “Sábio se chama, em cada gênero, quem conhece a causa altíssima desse gênero pela qual pode julgar tudo o mais. Sábio, absolutamente falando, é aquele que conhece a causa altíssima absoluta, isto é, Deus. Por isso, o conhecimento das coisas divinas chama-se sabedoria. O conhecimento, porém, das coisas humanas chama-se ciência.[2]”. Tal definição é a própria imagem deste humilde pároco de Ars.

Desta forma, entendemos melhor as palavras de Jesus: “Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado”. (Lc 10, 21)


[1] Cf. SAINT PIERRE, 1963, p 192.

[2] II-II Q. 9, a. 2.

A tormenta solar e os Anjos de Deus

pôr do solMarcos Inácio Melo – 2º ano Teologia

Imagine caro leitor, que sentado em seu escritório de trabalho, manuseando seu computador, você termina um trabalho importante. De repente, todas as luzes da firma se apagam, inclusive a do monitor que você usa. Situação corriqueira em dias de chuva. Porém, não chove lá fora, e um raio de luz ilumina precariamente o ambiente. Para continuar o serviço, você tenta ligar o computador, mas não obtém sucesso. O computador não responde nem com as baterias. Terá queimado o disco rígido? Fato, estranho, pois não se ouviu nenhum trovão.          

            Você se levanta da mesa, e averigua que, realmente, todo o prédio, ou melhor, o bairro inteiro está em blackout. Tudo, comum até então. Quando você sai da sala, seus companheiros de serviço conversam contentes, devido ao intervalo forçado pelo apagão. O tempo corre e averiguam que nenhum carro funciona. A cidade inteira está parada. Alguém, logo percebe que todos os circuitos eletrônicos não funcionam, nem mesmo os celulares. O gerente dispensa do serviço, mas, os elevadores do prédio também não funcionam. Você desce os dez andares do edifício pelas escadas até ao estacionamento, na esperança de que pelo menos o seu carro funcione. Nada. Nem mesmo você consegue entrar nele, pois, as travas elétricas, estão impassíveis ao insistente e repetido apertar nos botões do controle remoto.

            Você sai até a rua e percebe o desalento de todos, pois a cidade está em um verdadeiro caos. Uns já se dirigem às suas residências, a pé, pois, como alguém disse, o metrô está parado. O único motor que funciona é de um carro velho, um fusquinha de 85, que não possui nada de eletrônico, porém, o motorista do está desalentado, pois seu carro está preso no congestionamento e nada pode fazer.

            Ao seu lado alguém olha para o céu, e quando você contempla a abóbada celeste, vê luzes como das auroras boreais. Lilases, verdes e azuis lindíssimos.

- O que está acontecendo? Será o fim do mundo?

- Não! – responde um conhecido seu que acrescenta – É uma tormenta solar…

- “Mas, o que é uma tormenta solar?”

Seu amigo logo lhe explica: – Antigamente, os cientistas julgavam que as tormentas solares eram uma espécie de tempestade de calor na coroa solar, que forma um vento com ondas magnéticas que chegam à terra desorganizando o seu campo magnético. Entretanto, a última tempestade solar de 2006 deixou os cientistas atônitos, pois provinha de uma explosão interna do sol, quebrando todos os paradigmas de estudo neste campo. A história relata tempestades solares em nosso planeta, das quais as de 1859, 1989, 2005 e 2006 têm uma especial relevância.

Em 1859, registraram auroras boreais em diversos pontos do planeta, especialmente na Europa, Austrália, Japão, EUA e México. O sistema de telégrafo entrou em pane. Fato curioso é que dois operadores constataram que podiam manter a conversação telegráfica, apesar de os aparelhos estarem desligados da bateria. A linha estava eletrificada. Não se sabia a causa do acontecimento, mas os astrônomos logo responderam que era uma tormenta solar, a mais forte registrada na História.

Em 1989, uma tormenta solar chegou à terra incidindo mais fortemente no Canadá, onde os computadores da Bolsa de Valores de Toronto pararam, interrompendo o pregão. Houve um blackout de 9 horas na província do Quebec, por uma sobrecarga na rede elétrica e mais de 6 mil satélites saíram de suas órbitas, pois a tormenta solar aqueceu a atmosfera, dilatando-a e absorvendo alguns satélites de baixa altitude.

Este vento que viaja a milhares de km por segundo chega à terra em cerca de 2 horas, porém, a tempestade de 2005 chegou ao nosso planeta em 15 minutos. Ora, esta nuvem, carregada de prótons e elétrons, altera o campo magnético da terra

A próxima tempestade foi prevista para 2012-2013, segundo Mausumi Dikpati, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica (NCAR) e coincide com o auge do ciclo solar (que dura 11 anos), sendo, portanto, uma tormenta solar mais forte que a última de 1989 e 2006 (que estava no vórtice do ciclo solar), embora não tão abrangente quanto a de 1859. Entretanto, apesar de menos forte que a de 1859, a tempestade solar de 2012-2013, terá efeitos maiores em nossa sociedade, extremamente dependente da informática.

A tormenta solar afetará os chips de computadores, a internet, o sistema GPS, a navegação e funcionamento de aviões e navios, sistemas eletrônicos de carros, elevadores e alarmes. A rede elétrica poderá ser cortada por causa da sobrecarga, pois estas ondas induzem corrente elétrica nas linhas de abastecimento de energia. O problema é que os cientistas não podem prever quanto tempo permanecerá os efeitos desta explosão solar. Se durar uma dezena de horas causará poucos danos, porém se durar dias, o mundo atual, hiper-informatizado pode entrar em um verdadeiro caos…

O indício inegável da tempestade é que as manchas solares desapareceram. Foi o que aconteceu em 2006 e o que está acontecendo em 2010.

Em janeiro de 2005, uma surpreendente tempestade solar alcançou a Terra com sua máxima radiação 15 minutos após as explosões. Normalmente elas demorariam 2 horas para chegar. Segundo Richard Mewaldt, do Califórnia Institute of Technology, foi a mais violenta e mais misteriosa tempestade dos últimos 50 anos. Os astrônomos ficaram perplexos. O professor Lin – principal pesquisador do satélite Reuven Ramaty High Energy Solar Spectroscopic Imager (RHESSI) – assim resumiu as conclusões dos estudos que fez nesta ocasião: “Isso significa que realmente não sabemos como o Sol funciona”. Quebraram-se todos os paradigmas de estudo no campo, porém, este enorme vento não atingiu a terra de forma tão direta como em 1989 e 1959. Acontecerá o mesmo em 2012-2013? É uma pergunta que os cientistas ainda não podem responder.

Uma vez que a ciência hesita, recorramos por ora à Teologia.  Ensina a Doutrina Sagrada que todos os astros do universo, inclusive o sol, são governados por um Anjo. Portanto, o astro-rei, que governa todo o sistema solar, e tem efeitos tão benéficos sobre nosso planeta, é regido por um Anjo de Deus.[1] Os anjos exercem poder sobre as coisas materiais. Um único Anjo pode agir sucessivamente em um rio da África ou em iceberg da Antártida. Essas ações ou essas influências são sucessivas e não simultâneas.

Baseado em Santo Agostinho e Orígenes, São Tomás de Aquino ensina que os Anjos não somente governam (como rectores) sobre os astros celestes, mas também sobre as feras, fontes, rios, mares, montanhas, etc. Os Anjos são governadores por essência, e dominam toda a ordem do universo. Toda a fascinante natureza que nos cerca é regida pelos espíritos Angélicos. Doutor Plinio Corrêa de Oliveira observa que esta é uma das razões pelas quais os pagãos acreditavam que havia deuses nas rochas, árvores e fontes, pois, herdaram esta tradição de seus pais, sendo uma crença que se remonta aos primórdios da humanidade.

AnjoOs espíritos podem fazer prodígios, servindo‑se das forças da natureza, mas não podem fazer milagres, pois, como ensina São Tomás e outros autores, o milagre supera a ordem natural.[2] Pois, de fato, os cientistas estão encontrando verdadeiras maravilhas no estudo das tormentas solares no astro-rei. Não poderão ser causadas pelos Anjos?

Este fenômeno, do qual os cientistas registram com belíssimas fotografias, revelam maravilhas do Sol até então desconhecidas para o homem. Não somente demonstram a beleza do universo, e a grandeza da natureza criada por Deus, mas também a contingência do homem. O ser humano apesar de “dominar”e “reinar” sobre a natureza, seguindo o mandato do Gênesis (Cf. Gn 1, 26), está sujeito às Leis do Universo, que é regido pelos Anjos de Deus.

Sabemos que os Anjos são ordenados, e velam pela glória de Deus e pelo bem do Homem. Se o Sol vem demonstrando esses fenômenos, a hora é oportuna para reconhecer essa grande superioridade e rezar aos Anjos que protejam nosso planeta. Ainda mais, nesta sociedade atual erigida em um sistema tão passível às mudanças do campo magnético.

Por mim, opto por colocar mais esperanças nos anjos, do que no estupendo maquinário eletrônico que nos rodeia. Os primeiros, simplesmente, não estão sujeitos a blackout…

 


[1] S. Th. 1, q. 110, resp. “Et ideo sicut inferiores angeli, qui habent formas minus universales, reguntur per superiores; ita omnia corporalia reguntur per angelos et hoc non solum a sanctis doctoribus ponitur, sed etiam ab omnibus philosophis qui incorporeas substantias posuerunt”.

S. Th. 1, q. 110, ad. 3: “Dicit enim Augustinus, in libro octoginta trium quaest., unaquaeque res visibilis in hoc mundo habet angelicam potestatem sibi praepositam. Et Damascenus dicit, diabolus erat ex iis angelicis virtutibus quae praeerant terrestri ordini. Et Origenes dicit, super illud Num. XXII, cum vidisset asina angelum, quod opus est mundo angelis, qui praesunt super bestias, et praesunt animalium nativitati, et virgultorum et plantationum et ceterarum rerum incrementis. Sed hoc non est ponendum propter hoc, quod secundum suam naturam unus angelus magis se habeat ad praesidendum animalibus quam plantis, quia quilibet angelus, etiam minimus, habet altiorem virtutem et universaliorem quam aliquod genus corporalium. Sed est ex ordine divinae Sapientiae, quae diversis rebus diversos rectores praeposuit. Nec tamen propter hoc sequitur quod sint plures ordines angelorum quam novem, quia, sicut supra dictum est, ordines distinguuntur secundum generalia officia. Unde sicut, secundum Gregorium, ad ordinem potestatum pertinent omnes angeli qui habent proprie praesidentiam super daemones; ita ad ordinem virtutum pertinere videntur omnes angeli qui habent praesidentiam super res pure corporeas; horum enim ministerio interdum etiam miracula fiunt”.

[2] VONIER, Anscar. Les Anges. Paris: Spes, 1950