Pe. Bruno Esposito, O.P. – 25 anos de sacerdócio

No dia 8 de março, com grande alegria para o corpo docente e discente da Casa de Formação Sacerdotal São Tomás de Aquino, foi comemorado o 25º aniversário de ordenação presbiteral do Revmo. Pe. Bruno Esposito, O.P., com uma solene celebração eucarística na igreja Nossa Senhora do Rosário.

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Este religioso dominicano, consultor da Congregação para a Doutrina da Fé, encontra-se temporariamente no Brasil para ministrar, na qualidade de professor convidado do Instituto Teológico São Tomás de Aquino, a disciplina de Direito Canônico I. Suas aulas para os 22 estudantes do 3º e 4º ano de teologia têm coadunado clareza na exposição e profundidade nos conceitos, assim como grande atualidade na abordagem da ciência canônica.

No presente curso, está descortinando os fundamentos antropológicos e eclesiológicos do direito eclesiástico, para tratar com mais propriedade das fontes e das normas gerais do Código de 83.

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Além de transmitir algo de seu carisma de dominicano e canonista, o sacerdote permanecerá no Brasil cerca de dois meses, ensinando e acompanhando a formação e os estudos do Seminário São Tomás de Aquino.

O espírito da Igreja e sua ação social

Marcos Eduardo Melo dos Santos

Quais pedras preciosas num precioso manto, as catedrais e abadias; castelos e pitorescos burgos ajaezados de belos jardins que se espalham por toda a Europa formam um conjunto variado e harmônico. Em sua solidez pétrea, secular e magnífica, estes monumentos dão a impressão de serem impassíveis à História.

A contemplação destas maravilhas da engenharia, crestadas tanto pelo rigor das intempéries quanto pelo irreparável dos séculos, gera em nosso espírito uma sensação de estabilidade, segurança e perenidade; pois, mais do que filhas do seu tempo, evocam em nosso espírito algo da ordem celestial e eterna.

Tal como os prédios, os homens que lhes conceberam eram estáveis, serenos e contemplativos. No entanto, a plenitude deste estado de espírito que penetrava em toda a sociedade se dava na vida operosa, serena e meditativa de uma coorte inumerável de monges que abandonavam a tudo a fim de cogitar senão em Deus, Motor Imóvel.

Ao considerarmos aqueles tempos, seríamos levados a pensar que a estabilidade dos homens de outrora, que ao longo gerações habitavam nas mesmas terras; cuja vida “monótona”, regulada pelo bimbalhar dos sinos que anunciavam os ofícios litúrgicos, não lhes capacitava às atividades das quais nossos contemporâneos tanto se ufanam.

Entretanto, como demonstra a História, os séculos da Europa Cristã coadunavam a vida rural e monástica com um intenso, abrangente e variado progresso humano.

A cultura da antiguidade pagã não apenas foi conservada das invasões bárbaras, mas se enriquecia com o aporte das universidades na verve ardente e penetrante de seus doutores.

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O avanço não se restringia ao âmbito intelectual. A alta Idade Média e os séculos subseqüentes foram épocas de intenso progresso econômico. As selvas e pântanos da Europa se tornaram terras de cultivo; a fartura dos campos gerava a riqueza da indústria; estes, por sua vez, impulsionavam o crescimento das cidades; o comércio e as peregrinações impulsionavam a logística das estradas; enfim, a Europa Cristã sempre se caracterizou por uma intensa vitalidade.

Dir-se-ia que este imenso organismo social se formava sem planejamento e coordenação, mas com inegável e profunda harmonia. Esta unidade não se devia aos cacos da civilização clássica ou ao mosaico étnico dos povos invasores, mas sim, a uma espécie de princípio vital capaz de produzir extremos de estabilidade e contemplação, mas também de progresso e atividade.

A alma da civilização ocidental nascente era a Igreja de Cristo. O esplendor da antiga Europa – da qual a contemporânea ainda hoje colhe os frutos – nasceu em última análise da benéfica influência da Igreja na sociedade. A Esposa de Cristo, fonte de toda espécie de perfeição, foi a raiz de toda essa vida; impulsionou a ordem temporal à uma borbulhante vitalidade com tal serenidade, sabedoria e naturalidade que daria a impressão de irreflexão, mas o fez conservando a harmonia do corpo social através da contemplação.

Se a Igreja fosse falsa, incentivaria em demasia o eremismo ou o excesso de atividade, porque não possuiria em si o dom da santidade. Como a Igreja é verdadeira, estimula esses contrários harmônicos de maneira exímia, produzindo aquele equilíbrio de alma que é um dos frutos próprios à Igreja Católica.

O encontro com a Verdade na vida de S. Agostinho

Lucas Antonio Pinatti – 2º Ano de Teologia

Uma das áreas mais atraentes da teologia é a patrística. Não só pelas lutas dos primeiros padres em prol da Fé e difusão da Santa Igreja, mas, sobretudo, com as obras doutrinárias surgidas em defesa da Fé frente às perseguições contra os cristãos. Os primeiros teólogos faziam com que as verdades contidas no Evangelho fossem ressaltadas para assim abater a ostensiva investida dos inimigos da Igreja.post for today

Comentaremos um pouco a fascinadora história de um dos mais famosos padres da Igreja, Santo Agostinho, que depois de passar boa parte da vida procurando a luz da verdade onde ela não estava, converteu-se ao vislumbrar os formosos raios contidos na sólida doutrina cristã.

O bispo de Hipona, S. Agostinho, foi um dos principais padres da Igreja do ocidente. Nasceu em Tagaste na África Setentrional no dia 13 de novembro de 354. Sua mãe, Santa Mônica, sendo muito virtuosa e piedosa, transmitiu-lhe uma educação cristã. Mas infelizmente, aos dezenove anos rejeitou a religião de sua mãe dizendo ser essa uma “fábula de velhas”.

Com o passar do tempo, cresceu em sua alma o desejo pela verdade, principalmente ao ler Cícero. Graças aos sacrifícios e orações de sua mãe, converteu-se aos 32 anos de idade, em 386. Anos depois, se lamentou por tardar encontrar o que todo homem procura, a verdade, e se entristece de ter procurado em tantos lugares menos no seu interior.

Um dos trechos mais belos da sua literatura mostra essa demora que teve em encontrar a verdade única: Deus.

Tarde eu te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde eu Te amei. Mas como? Tu estavas dentro de mim, e eu estava fora de mim mesmo… Tu estavas comigo, e eu não estava contigo. Retinham-me longe de Ti as criaturas, que não existiriam se não existissem em Ti…

Tu me chamaste, e teu clamor venceu a minha surdez. Tu exalaste o teu perfume, eu respirei, e eis que por Ti suspiro. Provei-Te, e tenho fome de Ti. Tu me tocaste e eu ardo de amor por causa da paz que Tu deste.1

A partir de então, Deus foi a sua única sabedoria. Dedicou o resto de sua existência a Ele, combatendo muitas heresias que faziam com que as verdadeiras doutrinas da Igreja fossem desviadas.

Imagens que a História não conseguiu destruir…


Ítalo Santana / 2º ano de Teologia

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Todo católico possui uma imagenzinha em casa, por singela que seja, e para ela acorre quando a vida aperta. Surgiu uma dificuldade, perdeu o emprego, ou apareceu mais uma doença, ele encosta a porta, acende a vela do criado mudo e começa a rezar. Este gesto é de tal modo corriqueiro que ninguém o questiona, e com razão, pois faz parte da lógica das coisas o não pensar muito em assuntos óbvios. Mas, sem dúvida nenhuma, qualquer pessoa por mais fria que fosse, ficaria profundamente escandalizada se, entrando numa igreja para refletir ou fugir um pouco do stress cotidiano, se deparasse com um grupo de homens quebrando com martelos a face de um crucificado, ou arrancando à força os delicados braços de uma imagem de Nossa Senhora. Pois bem, isto que hoje constitui uma verdadeira aberração, deu-se com certa frequência no seio da Igreja numa época histórica bastante convulsionada pelo surgimento de uma heresia assombrosa: o iconoclasmo.

Vândalos de uma perniciosa heresia

O termo “iconoclasmo” deriva da junção de duas palavras gregas: “eikón” (imagem) e “klao” (romper); por isto os hereges iconoclastas foram denominados os “quebradores de imagens”, ou aqueles que se opunham frontalmente ao seu culto. Porém, apesar de ter havido vários choques doutrinários antecedentes sobre a questão, esta palavra só viria a tomar toda a sua força com a perseguição do Imperador Leão III.

Desejoso de uma reforma na ordem civil e militar, decidiu aplicá-la ao campo espiritual, e julgando ser excessivo o culto prestado às imagens resolveu aboli-lo, sob o pretexto de que tal veneração era um empecilho para a conversão dos judeus e sarracenos ao catolicismo, um retrocesso à idolatria de falsos deuses, e o motivo principal da decadência do Império. Entretanto, parece que não foi só um mero anseio renovador que impeliu Leão a proibir os ícones, mas também certa vontade de agradar aos maniqueus e paulicianos, partido numeroso e potente da Ásia Menor, do qual era formado uma grande parcela das tropas imperiais.

São Germano, o Patriarca de Constantinopla, e até mesmo o Papa São Gregório II enviaram-lhe numerosas cartas de advertência, em vão, pois pouco tempo depois publicou um édito (726) que deu total liberdade à heresia.

Estoura a perseguição iconoclasta

Depois de estragos incontáveis como a apropriação dos bens da Igreja na Sicília e Calábria, Leão III morre em 741, deixando como herdeiro do trono e continuador seu filho Constantino V, chamado o Coprônimo. Apesar de manter certa tolerância nos primórdios de governo, o novo Imperador iniciou uma perseguição ainda mais cruel que a realizada por seu pai.

Ele abriu um conciliábulo em Constantinopla, intitulado como sétimo concílio ecumênico, com a presença de 338 Bispos, que se submeteram por covardia à vontade nefanda de Constantino. A heresia iconoclasta recebeu toda a liberdade. O pseudoconcílio proibiu, debaixo de castigos severos, a fabricação, exposição pública e veneração das imagens, e anatematizou São Germano, São João Damasceno e o cenobita Jorge de Chipre. Além disso, qualificou o Imperador e seu filho de luzeiros da ortodoxia, concedendo-lhes como prêmio o patriarcado constantinopolitano. Muitos católicos e religiosos sofreram o martírio por fogo ou mutilação. Os monges eram impedidos, sob pena de tormentos, de vestir o hábito monacal e de se manterem fiéis aos votos; e os leigos tinham que fazer juramento público de não prestar culto às imagens. No entanto, em 775 falece Constantino e sobe ao poder Leão IV. Este possuía certa amizade com os monges, abrandando um tanto a cruel persecução. Apesar de não ser iconoclasta continuou a favorecer a heresia, sendo capaz de exilar sua esposa Irene, quando soube que guardava consigo algumas imagens.  

Uma enérgica Imperatriz na defesa da verdade

Com a morte de Leão IV, as brumas desfazem-se no horizonte. O sucessor ao trono era, nada mais, nada menos, seu filho de seis anos de idade. Irene aproveita-se da oportunidade, assume o governo como tutora do pequeno Constantino VI e envia ao Papa Adriano I uma embaixada pedindo a convocação de um Concílio. O Pontífice aceita e o Concílio é aberto na Igreja dos Santos Apóstolos de Constantinopla. Porém, mal se havia dado início às sessões, um grupo de soldados iconoclastas, inspirados por eclesiásticos do mesmo partido, invadiu a igreja, obrigando os Bispos a se dissolverem e os legados a retomarem o caminho de Roma.

Diante de tal acontecimento, a enérgica Imperatriz não se deu por vencida: desarmou as tropas invasoras e enviou emissários a todos os Bispos e ao Papa para a convocação de um novo Concílio, desta vez em Nicéia. Deste modo, em 24 de setembro de 787, na igreja de Santa Sofia, abria-se definitivamente o VII Concílio Ecumênico, com a presença dos legados pontifícios e de 300 Bispos. Dentre as oito sessões, as mais importantes do ponto de vista dogmático são a quarta, a sexta e a sétima. A quarta sessão tratou de demonstrar, através da Sagrada Escritura e dos escritos dos Padres da Igreja, que a veneração das imagens não só é lícita, como salutar. Na sexta sessão, leram-se as atas do conciliábulo de 754, constatando-se sua invalidez. Não poderia ser considerado ecumênico, uma vez que não estavam presentes nele nem os Patriarcas do Oriente nem mesmo o Pontífice Romano. Na sétima, após se fazer referência ao Símbolo e aos seis Concílios Ecumênicos anteriores, em caráter oficial, declarou-se: “Definimos com todo rigor e cuidado que, à semelhança da figura da cruz preciosa e vivificante, assim os venerandos e santos ícones, quer pintados, quer em mosaico ou em qualquer outro material adequado, devem ser expostos nas santas igrejas de Deus, sobre os sagrados utensílios e paramentos, sobre as paredes e painéis, nas casas e nas ruas; tanto o ícone do Senhor Deus e Salvador nosso Jesus Cristo como da Senhora imaculada nossa, a santa Deípara, dos venerandos anjos e de todos os varões santos e justos.[i]

Bibliografia

ALBERICO, Giuseppe. História dos Concílios Ecumênicos. Tradução de José Maria de Almeida. São Paulo: Paulus, 1995. p. 147.

Enciclopédia Universal Ilustrada Europeo-Americana. Vol. XXVIII. Editores Espasa-Calpe. Madrid: 1925.


[i] Cf. Denzinguer, Heinrich. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral, tradução de José Marino Luz e Johan Konings São Paulo: Paulinas; Loyola, 2007.

O que é a vida de Deus?

Thiago de Oliveira Geraldo

Comenta São Tomás de Aquino, baseando-se em Aristóteles: “É chamado de vivo tudo o que se move ou age por si mesmo. Os que, por natureza, não se movem nem agem por si mesmos só serão chamados vivos por semelhança”.[1]

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Dentre os seres vivos, encontram-se diferenças importantes. As plantas, por exemplo, exercem as funções próprias à sua natureza, como: nascer, nutrir-se, desenvolver-se e reproduzir-se. Um quadrúpede possuirá estas mesmas capacidades, mas acrescido de sensação, apetite e locomoção. Capacidades que seriam aberrações no gênero dos vegetais. Por fim, o ser humano contém em si a totalidade da vida criada, pois, além dos graus de vida concernentes às plantas e aos animais, possui uma inteligência racional, sendo capaz de conhecer, deliberar e escolher.

Mas a vida não significa simplesmente uma operação de funções. A vida do homem não é o que ele é capaz de fazer, mas o que ele é. Segundo Aristóteles, “para os seres vivos, viver é ser”[2]. O ato de ser é o ato de estar vivo, com todas as capacidades próprias à sua natureza. Quando, porém, uma criatura morre, já não está apta para praticar o que lhe é próprio.

Tanto o ato de viver, como a forma de se viver bem, são pálidos reflexos de uma vida divina. A vida que está presente na natureza não é uma geração espontânea, como pensam alguns. Tudo isto decorre de uma vida superior: “Meu coração e minha carne exultam no Deus vivo” (Sl 83,3). Deus proporciona a capacidade para que as plantas exerçam as funções de sua natureza, elas não fazem esforço algum para decidir o que fazer. Seu grau de vida é o menor, portanto. Os animais agem por um instinto de acordo com sua natureza. Os seres humanos atuam com vista a um fim, seguindo o concurso da razão. Deus é o próprio fim do homem e é o que dá a possibilidade para que os seres operem de acordo com sua natureza.

No ser humano há órgãos que agem por si mesmos, sem que seja preciso o cérebro enviar-lhe nenhuma mensagem deliberada; por exemplo, o coração. Outros movimentos, como o das mãos, são comandados pelo cérebro e, inclusive, o próprio raciocínio abstrato tem sua fonte na parte intelectiva do homem. No entanto, todos estes movimentos têm uma única origem na unidade do ser humano, comandados pelo intelecto: “É sinal disso o fato de que em um único e mesmo homem, o intelecto move as faculdades sensitivas, que por sua vez movem e comandam os órgãos, que executam o movimento”.[3]

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De modo semelhante ao nosso corpo, Deus é o ser que move todas as coisas e não é movido por ninguém. Conhece-se a Si mesmo e por inteiro, e nisto consiste sua perfeição, em não permitir um algo a mais, pois completa-se a Si mesmo: “Portanto, aquilo que por sua natureza, é o seu próprio conhecer e que não é determinado por outro quanto ao que lhe é natural, isto é, o que detém o sumo grau de vida. E este é Deus. Em Deus, por conseguinte, encontra-se a vida em seu mais alto grau”.[4]

Todas as coisas foram criadas por Deus e são continuamente sustentadas por Ele. Neste sentido se pode dizer que tudo é vida em Deus. Vida porque já existiam em Seu intelecto, pois as conhecia desde toda a eternidade. Em Deus o seu viver é o seu conhecer.[5] Portanto, todos os seres criados são vida em Deus e alguns destes vivem por sua própria natureza: “tudo o que se encontra em Deus como conhecido é seu viver, sua vida. E como todas as coisas que Deus fez nele estão como conhecidas, segue-se que tudo, em Deus, é a própria vida divina”.[6]

Em suma, Deus é a suprema vida que criou todos os seres e os sustenta em seu ser. Para algumas de suas criaturas deu a capacidade de moverem-se por si mesmas, segundo a natureza que lhes cabe, isto é o que caracteriza a vida natural. A vida é um dom que Deus concedeu às criaturas, sobretudo, ao ser humano que tem a capacidade de perceber este sinal de amor que vem do Criador.


[1] S. Th. I, q. 18, a. 1.

[2] II de Anima. Apud S. Th. I, q. 18, a. 2.

[3] S. Th. I, q. 18, a. 3.

[4] Ibidem.

[5] S. Th. I, q. 18, a. 4.

[6] Ibidem.

Qual é a vontade de Deus a respeito do cristão?

(3ª parte)

O catecismo ensina que a vontade de Deus para com o cristão possui dois prismas. Um na terra e outro no Céu. Nesta vida esta vontade se realiza no mandato de Cristo de “que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou”[1]. Desta caridade mútua procede todo o bem da sociedade. Queremos o bem natural e material do próximo, mas sobretudo, queremos a sua salvação eterna, pois o bem sobrenatural do irmão vale mais do que todo o Universo. Em relação a Deus, a vontade do Pai na terra é “elevar os homens à participação da vida divina” [2], porque Deus quer conviver com o homem.

Esta vontade de Deus em relação ao cristão se realiza através da Igreja que reúne todos homens em torno do seu Filho, Jesus Cristo. Por esta razão a Igreja é na terra “o germe e o princípio do Reino de Deus”[3]. O Catecismo ensina que a vontade do nosso Pai é “que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2, 3-4), e “não quer que ninguém se perca” (2Pe 3, 9)[4].

Deus quer comunicar sua própria bondade, fazendo-nos filhos adotivos por Jesus Cristo. Por esta razão, afirma Santo Irineu de Lyon: “Se a revelação de Deus pela criação já proporcionou a vida a todos os seres que vivem na terra, quanto mais a manifestação do Pai pelo Verbo proporciona a vida aos que veem a Deus!”[5]. Esta é a glória máxima da qual o homem é capaz na terra, conviver, amar e sentir-se amado por Deus.

Esta é a vontade de Deus que começa na terra e se consome no Paraíso: cumprir esta vontade de Deus é possuir a felicidade na terra, a qual se tornará plena no Céu. Desta forma o cristão faz a vontade de Deus, na terra assim como no Céu.


[1] Catecismo da Igreja Católica, n. 2822. Cf. Jo 13, 34; 1 Jo 3; 4; Lc 10, 25-37.

[2] II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 2: AAS 58 (1966) 818.

[3] II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 5: AAS 57 (1965) 8.

[4] Cf. Mt 18, 14.

[5] Santo Irineu de Lião, Adversus haereses 4, 20, 7: SC 100, 648 (PG 7, 1037).

A vontade de Deus é sempre eficaz?

(2ª parte)

Marcos Eduardo Melo dos Santos

O homem pode ter uma vontade muito firme de obter algo, mas sem consegui-lo. Isso não acontece com Deus; sua vontade é sempre eficaz. Entretanto, algum espírito crítico poderia levantar uma objeção:

Afirma São Paulo: “Deus quer que todos se salvem e alcancem a vida eterna” (1 Tim 2, 4). Ora, muitas pessoas foram condenadas ao inferno, o qual também é eterno.  Se a vontade do Altíssimo é que todos se salvem, por que os réprobos estão naquele lugar de tormentos? A vontade salvífica de Deus neste ponto não é eficaz?

São Tomás responde essa objeção de modo brilhante. Assim como queremos que todos os homens vivam bem e livremente, mas que os criminosos, por justiça, paguem os delitos cometidos, para o benefício de suas almas e pela saúde da sociedade, do mesmo modo o deseja o Criador.

Deus possui vontades antecedentes, que se aplicam a generalidade dos homens. Uma delas provém da misericórdia de Deus que, ao criar a humanidade, deseja a salvação de todos os homens.  Entretanto, a justiça de Deus quer que o pecado cometido seja punido; é uma vontade consequente do mal praticado. A pena é uma consequência do pecado, pois Deus não quereria punir se não houvesse o mal moral.

O Altíssimo quer de fato que o pecador se salve, e por isso proporciona todos os meios para salvá-lo – ainda que seja um pagão que jamais teve contato com a verdade do Evangelho. Deus deseja de tal maneira a salvação de cada homem que para isso encarnou-Se, morreu na Cruz, fundou a Igreja e deu-nos Sua própria Mãe como amorosa medianeira.

No entanto, aplicando de forma errada sua liberdade, o homem, em vez de praticar o bem, às vezes prefere seguir as sendas do mal. E, se não se arrepender de seus pecados, será precipitado no inferno. Dessa forma, se a vontade antecedente de Deus de que essa alma se salvasse não foi cumprida, Sua vontade consequente, no sentido de que todo pecado seja punido, é realizada. Portanto, a vontade divina é sempre eficaz: ou a antecedente, da misericórdia, ou a consequente, da justiça que é cumprida[1].


[1] S. Th. I-I, q. 19, a. 6.

Como é a vontade de Deus? (1ª parte)


Marcos Eduardo Melo dos Santos

O cristão sabe, pela inteligência e especialmente pela Revelação, que o universo, sendo ordenado, não pode ter sido criado pelo acaso ou por um destino cego (CEC 295), como se alguém lançasse letras do alto de um prédio e no solo se formassem frases ordenadas, constituindo um livro. A criação é muito mais que uma obra escrita. É ordenada com leis perfeitíssimas.

Deus ordenou a existência de todas as leis da natureza, bem como de todos os passos da História e todos os dramas da vida de cada homem. Por esta razão o livro da Sabedoria pergunta: “como poderia algo subsistir, se Ele não o tivesse querido?” (Sb 11,25), e o salmista responde: “Tudo que Deus quis, Ele o fez” (Sl 113, 11).

A vontade de Deus pode mudar?

Constam no antigo Testamento, algumas ações de Deus descritas de forma humana e que poderiam dar a entender que Deus mudou de vontade. Assim, no Dilúvio Deus haveria se “arrependido de criar o homem” (Gn 6, 7) ou ainda “se irado” contra Israel que a pouco libertara da escravidão (Dt 9, 20).

Neste sentido, inúmeras são as intervenções de Deus na História. Um Deus que permite o sofrimento de Jó, mas que depois o cumula de bens ainda maiores. Para libertar o Povo Eleito da escravidão faz portentos admiráveis no Mar Vermelho, mas não hesita em castigar o pecado de idolatria dos filhos de Israel. Esta e diversas outras passagens da Bíblia podem dar a parecer ao leitor que Deus mudou, mas é necessário fazer uma distinção, que procede e assemelha-se ao modo humano de querer.

A mudança de vontade no homem deriva do fato de perceber algum aspecto mais aproveitável em uma atitude ou objeto, de que antes não havia se dado conta. Neste sentido, a vontade de Deus é imutável, pois o Ser Onisciente conhece todas as coisas e não se engana em suas previsões, como nós humanos. Muito diferentemente de nós, Ele não quer algo contrário do que havia antes desejado. Desta forma, em razão de sua onisciência a vontade de Deus é absolutamente imutável, por isso ensina a Escritura: “Deus não é filho de homem para mudar” (Nm 23, 19).

Por outro lado, as circunstâncias podem fazer com que nós mudemos de vontade. De forma semelhante, Deus pode querer que algo mude. Assim como queremos o bem do próximo, ou a melhoria das condições de vida na sociedade, Deus quer que o pecador se converta e que os bons sejam ainda melhores. Neste sentido, a vontade de Deus não é contrária ao que era, portanto, não mudou, mas sim, quer a alteração de certas coisas, como por exemplo, que o mal seja tolhido e o bem aperfeiçoado.

Diácono Arauto junto ao Papa

De passagem por Roma, o diácono Felipe Paschoal Rocha, do Seminário São Tomás de Aquino, diaconou no último sábado, 5 de fevereiro, às 10 horas da manhã, uma Missa com o Papa Bento XVI.

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Participou, deste modo, do Rito de Ordenação Episcopal, durante a qual foram ordenados bispos os excelentíssimos Mons. Savio Hon Tai-Fai, Mons. Marcello Bartolucci, Mons. Celso Morga Iruzubieta, Mons. Antonio Guido Filipazzi e Mons. Edgar Peña Parra.

Brasileiro, natural do estado de Pernambuco e membro dos Arautos do Evangelho há 8 anos, permaneceu junto ao Papa em diversos momentos da celebração.

As fotos e o vídeo da celebração estão disponíveis do site do vaticano, pelo link:

http://www.vatican.va/news_services/liturgy/photogallery/2011/20110205/index.html

D. Beni preside a aula inaugural no IFAT-ITTA

Após a solene celebração Eucarística por ocasião da memória de São Tomás de Aquino, e inauguração do ano letivo, Dom Benedito Beni dos Santos ministrou a aula inaugural de 2011, no auditório do Instituto Teológico São Tomás de Aquino. Cerca de 100, entre alunos e professores, deixaram repleto o auditório. O tema da exposição foi a Exortação Apostólica Pós-sinodal Verbum Domini, promulgada pelo Santo Padre para toda a Igreja a 30 de setembro de 2010, sobre “A Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja”.
Apresentando sua consideração como “simples guia de leitura”, Dom Beni expôs de modo magnífico o objetivo e o conteúdo deste documento, no qual Sua Santidade, o Papa Bento XVI, trabalhou com as próprias mãos.
Dom Beni concluiu a conferência com um alto pensamento teológico baseado no número 10 da Constituição Conciliar Sacrossanctum Concilium. Como da Eucaristia procede a força, e para a Ela se dirigem como fim todas as obras da Igreja, inclusive a pregação, a Liturgia é o modo mais profícuo e sublime para o anúncio da Palavra de Deus. Se o Evangelho deve ser acolhido no coração dos fiéis com espírito de oração, o que é a Liturgia senão o diálogo de Deus com o homem?

Deus é eterno


Anderson Fernandes Pereira

Há certos mistérios que envolvem os povos de todas as épocas da história da humanidade. Perguntas tais como: de onde vim? Para onde vou? Quem é Deus?, inquietam os homens de todos os tempos. Os povos da antiguidade, procurando atender em certa medida essas indagações, colocavam suas esperanças em deuses que nasciam e morriam conforme suas necessidades terrenas.

Entretanto, o povo eleito sempre confessou numa linguagem clara e direta a eternidade de seu Deus[1]: “Antes que se formassem as montanhas, a terra e o universo, desde toda a eternidade vós sois Deus” (Sl 89, 2).

Inspirados pelo Espírito Santo, os escritores sagrados não se preocupam em demonstrar a eternidade de Deus; afirmam com simplicidade que Ele existe antes da criação do mundo e jamais deixará de existir: “Tudo se acaba pelo uso como um traje (…). Mas Vós permaneceis o mesmo e vossos anos não têm fim” (Sl 101, 27-28).

O que vêm a ser a eternidade de Deus? Em que consiste ela? Para termos noções precisas sobre essa propriedade do Criador, convém compreendermos primeiramente o que é o tempo.

O tempo

Talvez não haja coisa mais comum no cotidiano dos homens do que a noção de tempo, porém, certamente nos sentiríamos um tanto embaraçados se tentássemos resolver alguns problemas relativos a ele. De onde vem o tempo? Ele sempre existiu? Existirá para sempre? Se em algum momento ele não existiu, o que então acontecia antes do tempo? E se em algum momento ele deixar de existir, o que haverá depois dele? Quantos problemas complicados acerca de uma coisa aparentemente tão simples…

Ensina-nos o livro do Eclesiastes que para tudo há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer, tempo para plantar, e tempo para colher, tempo para chorar e tempo para rir, tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se, tempo para calar e tempo para falar… (cf. Eclesiastes 3,1-8). Quanta instabilidade em tudo que o homem realiza nesta terra. Em um curto espaço de tempo, desejamos algo que há pouco desprezávamos; certas coisas que queríamos ontem, já não mais nos interessam hoje.

Afirma Santo Agostinho: “Aquilo que cada homem é hoje, mal o sabe ele próprio. No entanto, é alguma coisa hoje. O que será amanhã, nem ele o sabe”[2]. Aristóteles define o tempo como sendo o número de movimento segundo o antes e o depois[3].

Eis que com o auxílio destes pensadores descobrimos os pontos característicos e próprios ao tempo: o movimento, a mudança e a corrupção de todas as coisas; em tudo há um começo e fim.

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O Evo

Consta que as distâncias cósmicas seriam limitadas para que pudéssemos ter noção do abismo que separa o tempo da eternidade. Sendo assim, os teólogos denominam com o nome de evo a medida das substâncias espirituais, que são os anjos e as almas racionais. Desta forma, concluímos que a eternidade não tem princípio nem fim, que o tempo tem princípio e fim, mas o evo, como um “meio caminho” entre tempo e eternidade, tem princípio, mas não tem fim.

O evo não se limita como nosso tempo, pelo ritmado movimento do ponteiro do relógio, ou ainda pela horário solar. O evo se mede pelo tempo necessário em que um Anjo exerce um ato. Seja esta ação um pensamento ou uma obra, o Anjo demora o espaço de um evo para realizá-lo.

Quanto tempo o Anjo necessita para cumprir uma ação intelectual ou material? Esta pergunta é demasiado complicada para a inteligência humana. A ação angélica pode ser tão rápida como o relâmpago, mas também tão lenta e duradoura como os milênios. Portanto, o evo está tão acima de nosso tempo terreno, que mal pode ser comparado com ele.

A eternidade de Deus

Se a respeito do tempo em que vivemos já existe tanto mistério, o que dizer da eternidade? A palavra eternidade traz imediatamente consigo a ideia do Divino e a ausência de princípio e fim. Santo Agostinho escreve: “A eternidade é a mesma substância de Deus, na qual não há nada que seja mutável; ali não há nada passado, nada que já não exista; nada que seja futuro como se ainda não existisse. Ali não há nada que não seja presente.”[4]

Entretanto, o termo eternidade não se refere apenas a uma simples duração ilimitada, à ausência de começo e de fim, mas exprime principalmente a imutabilidade de Deus. No Altíssimo não existe as mudanças presentes no mundo: nascimento e morte; início e término; transformação de uma coisa em outra etc. Como vivemos no tempo, é-nos difícil compreender o que é a eternidade de Deus, e poderíamos ser levados a imaginar a Eternidade Divina apenas como uma “existência larguíssima que não tem começo nem fim, como algo interminável, mas a eternidade de Deus é muito mais do que isso. A ideia do que não acaba nunca, é precisamente uma consequência da plenitude de vida própria de Deus.”[5]

Os teólogos utilizam a definição clássica, cunhada por Boécio: “a eternidade é a possessão total, simultânea e completa de uma vida interminável.”[6] Portanto, como dissemos, da mesma maneira que o conceito de tempo deriva do movimento, o de eternidade procede da imutabilidade.[7]

Verdadeira e propriamente falando, somente em Deus há eternidade, pois apenas Ele é absolutamente Imutável. O Altíssimo não só é eterno, mas a sua própria eternidade.[8] Entretanto, em sua infinita misericórdia, Deus colocou na alma de cada homem uma “semente de eternidade”[9], que o leva a aspirar e desejar algo que ultrapassa aquilo que o mundo lhe pode oferecer. Desta forma, “o mundo e o homem atestam que não têm em si mesmo, nem seu princípio primeiro, nem seu fim último, mas que participam do Ser em si, que é sem origem e sem fim”.[10]

A eternidade participada

A fim de estimular no homem à consciência de sua grandeza, São Leão Magno nos deixou uma célebre recomendação: “Reconhece ó Cristão, a tua dignidade”.[11] Como isso se torna realidade quando consideramos que é desta Vida interminável e imutável de Deus, que todos os homens são chamados a participar, na medida em que Lhe sejam fiéis, pois, Deus prometera ser Ele mesmo sua recompensa demasiadamente grande (Cf. Gn 15, 1).

A consideração da eternidade divina, nos convida a não nos deixarmos iludir pelas coisas do mundo, pois “céus e terras passarão, porém minhas palavras não passarão” (cf. Lc 21,33). Ao contrário, com os olhos fixos na eternidade, somos chamados a “enquanto temos tempo, a fazer o bem” (Gal 6,10), pois é no tempo que se prepara a eternidade, nos sofrimentos bem aceitos desta vida passageira que receberemos a alegria de uma vida interminável, possuindo com todo o rigor da palavra, a vida eterna. Participaremos assim da própria eternidade de Deus.


[1] Cf. MENDEZ, Gonzalo Lobo. Dios Uno y Trino. 4ª edição. Edicione Rialp. Madrid. 2005. Tradução nossa. p.53.

[2] Santo Agostinho. Sermo 46, 24-25.27: CCL 41,551-553

[3] Cf. Aristóteles,Phys. 4, c. 11 n. 12 (BK 220a25).

[4] Santo Agostinho. Enarrationes in Psalmos 101 [102]. PL 37, 1311.

[5] MENDEZ, Gonzalo Lobo. Dios Uno y Trino. 4ª edição. Ediciones Rialp. Madrid. 2005. Tradução nossa. p. 54.

[6] Boécio. De consolatione. L. 5, prosa 6: ML 63,858; cf. 1.3, prosa 2: ML 63,724.

[7] Cf. AQUINO, Tomás de. S. T. q. 10, a. 1 e 2.

[8] AQUINO, Tomás de. S. T. q. 10, a. 2.

[9] Catecismo da Igreja Católica, n. 33.

[10] CIC 34.

[11] S. Leão Magno, Sermo XXI, 3: S. Ch. 22 bis, 72.

Solene inauguração do ano letivo de 2011 no Seminário São Tomás de Aquino

ano letivo de 2011

Na tarde do dia 28 de janeiro, memória de São Tomás de Aquino, deu-se a solene inauguração do ano letivo de 2011, na Casa de Formação Sacerdotal São Tomás de Aquino. A fim de atrair as celestiais bênçãos para os trabalhos de mais um ano acadêmico, o programa se iniciou com a celebração de uma Eucaristia na igreja anexa ao Seminário, presidida por D. Benedito Beni dos Santos, Bispo Diocesano de Lorena e Supervisor Geral de Formação dos Arautos do Evangelho.

Concelebraram a Missa em memória “do mais santo dos sábios e mais sábio dos santos” – São Tomás de Aquino –, o Côn. Edson José Oriolo dos Santos, Cura da Catedral Metropolitana de Pouso Alegre e Vigário Geral da mesma Arquidiocese, o Pe. Rivelino Nogueira, Pároco da Catedral Nossa Senhora da Piedade (Lorena-SP) e o Pe. Antônio Guerra, EP.
Estiveram presentes na cerimônia o Diretor do ITTA, o Revmo. Pe. Caio Newton de Assis Fonseca, EP, e todo o corpo docente a tempo pleno, tanto do IFAT, quanto do ITTA. Somaram-se ao corpo discente de ambos os institutos, cerca de 900 Arautos do Evangelho, provenientes de diversas cidades do Brasil e do mundo, deixando repleta a igreja Nossa Senhora do Rosário.
A Liturgia foi animada pelo Coro e Orquestra Internacional dos Arautos do Evangelho, sob a regência do maestro Alejandro Javier de Saint’Amant, que executou obras de Georg Friedrich Händel (1685-1759) e Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594), assim como cânticos gregorianos.
Em brilhante homilia, Dom Beni correlacionou as leituras do dia com a memória de São Tomás. Também discorreu sobre os três principais sentidos do termo “Reino de Deus”, presente nos santos Evangelhos:
“O primeiro sentido consiste em que Cristo, enquanto manifestação encarnada do plano salvífico do Pai, é o próprio Reino de Deus entre os homens; o segundo sentido é místico, trata-se do Reino de Deus que não está circunscrito a um espaço geográfico, mas que reside no interior de cada homem em estado de graça, de cada santo. O pecado é o anti-reino de Cristo, e quem vive no pecado está fora deste Reino; por fim, em seu terceiro sentido, o Reino de Deus é a Igreja Católica, sacramento ou sinal de salvação, para todos os homens”.
Em seguida, aplicou estas verdades teológicas, relacionando-as com alguns desafios dos tempos atuais para a difusão deste Reino:
“Assim como o inimigo semeava o joio a fim de perder o trabalho do Divino semeador, de modo análogo, também no mundo atual, a cizânia do ódio; da perseguição religiosa em certos países do mundo; da exclusão do crucificado nos lugares públicos; e da influência dos meios de comunicação ao afirmarem o bem como o mal e o mal como o bem, são verdadeiros inimigos do Reino De Deus”.
Afirmava Dom Beni que “a Fé é a arma pela qual o cristão pode hoje combater o ódio dos inimigos do Reino. A mesma Fé amada e explicitada pelo grande Doutor da Igreja, São Tomás de Aquino”.
Ao final, após considerar com clareza alguns pontos da Suma Teológica sobre a essência divina, ressaltava que “um teólogo só pode transmitir verdadeira teologia, quando vive a santidade. Sem a prática da virtude, um professor de teologia não consegue comunicar o conhecimento de Deus. São Tomás foi esta estrela de primeira grandeza nos céus da teologia, precisamente porque foi santo. Seu brilho não provém apenas da sabedoria, mas da santidade, e por isso, foi honrado pela Igreja como ‘Doutor da Vida Cristã’”.

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Após a homilia, o Pe. Alex Brito, EP, introduziu o significado da cerimônia de Profissão de Fé e Juramento de Fidelidade que fariam ou renovariam os professores dos Institutos de Teologia e Filosofia (IFAT e ITTA). Explicava que sempre foi uma recomendação de diversos Papas da História da Igreja, reafirmada pelo Vaticano II, especialmente através do código de Direito Canônico de 1983, que cada encargo importante na Igreja fosse recebido após o solene juramento (c. 833 § 6). Como o ensino da Fé Cristã ocupa um lugar preeminente na vida eclesial, os professores do IFAT e do ITTA prestaram sobre as Sagradas Escrituras o solene juramento.
Recitado o Credo Niceno-Constantinopolitano, os professores proclamaram a crença “em tudo o que está contido na palavra de Deus, escrita ou transmitida pela tradição, e é proposto pela Igreja, de forma solene ou pelo Magistério ordinário e universal, para ser acreditado como divinamente revelado”. A fórmula termina com a aceitação do “religioso obséquio da vontade e da inteligência, aos ensinamentos que o Romano Pontífice ou o Colégio Episcopal propõem quando exercem o Magistério autêntico”.

Magistério pontifício e universidades católicas


Entrevista com o secretário da congregação para a Educação católica


O que distingue uma universidade católica das demais instituições de ensino? Qual o papel do Magistério pontifício, na Igreja e na sociedade civil? A moral cristã está em crise? O Arcebispo Jean-Louis Bruguès esclarece para nossos leitores estas e outras questões da atualidade.

Pe. Louis Goyard, EP

O Cardeal Zenon Grocholewski recordou recentemente a necessidade das universidades católicas conservarem sua própria identidade. Poderia expor-nos as dificuldades que elas enfrentam para manter suas características num mundo secularizado?

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Com frequência, pergunto-me qual é atualmente o primeiro desafio, ou o desafio mais importante, lançado ao ensino católico, tanto superior, nas universidades, quanto nas demais escolas. E respondo: vivemos em sociedades pluralistas. Pluralistas do ponto de vista cultural e religioso, e quanto mais se manifesta esse pluralismo, mais cada um de nós se volta para sua identidade: “Quem sou eu no meio de todos os outros?”. A questão da identidade é pois, mais premente, mais relevante hoje do que há vinte ou mesmo quarenta anos.

Portanto, nossas instituições têm diante de si uma escolha. Antes de tudo é necessário dizer que a maior parte delas goza de boa reputação, por sua excelência em matéria de formação, do acompanhamento pessoal, do nível científico atingido. As escolas e universidades católicas são apreciadas, um pouco por toda parte, no mundo inteiro, e isso é um motivo de ufania para nossa Congregação. Se elas, entretanto não visam senão a excelência, surge logo a pergunta: “O que diferencia uma escola ou universidade católica de outras escolas?”.

Não se trata, portanto, de conservar a identidade, mas de reencontrá-la nesse novo contexto. No fundo, a identidade católica é essa mescla — magnífica, mas também difícil — entre a abertura para o universal e a confissão de uma Fé particular, que é a Fé Católica. FrLG w: Cardinal

Segundo a Constituição apostólica “Ex Corde Ecclesiæ”, as atitudes e os princípios católicos devem impregnar toda a vida das universidades católicas…

Isso varia muito de acordo com os países. Diria eu que há dois pontos nos quais a identidade católica se manifesta com predileção.

O primeiro é o do ensino. Desejamos que todas as universidades católicas — nas quais ninguém é obrigado a matricular-se — deem de forma obrigatória a todos os seus alunos uma formação em antropologia cristã, em ética cristã e uma pequena iniciação à teologia. Não para forçá-los a se tornarem católicos — eles não se deixariam forçar —, mas para dizer-lhes: “Temos uma tradição, uma visão do mundo, da sociedade, da História, e a comunicamos a vocês. São livres de a aproveitarem como lhes parecer melhor”. Respeitamos, portanto, a liberdade de consciência.

Há um segundo ponto, o qual eu denominaria de “pastoral”: uma universidade católica é um local onde se deve poder rezar, deve-se poder celebrar o mistério cristão. Portanto, é preciso haver nela uma capela de acesso fácil e constante ao público que assinale o centro vital e

simbólico ao mesmo tempo.

Eu acrescentaria que em toda universidade católica é necessário encontrar uma faculdade de teologia. A iniciação à cultura cristã e à visão cristã do mundo e da sociedade compete de modo privilegiado à faculdade de teologia, que deveria proporcionar ensinamentos a todas as outras faculdades da universidade.

A “Ex Corde Ecclesiæ” estimula uma íntima relação entre as atividades de uma universidade católica e a missão evangelizadora da Igreja. Não lhe parece haver ainda, sob este aspecto, um longo caminho a percorrer?

Mais uma vez, isso depende dos lugares. Não sei se devo mencionar nações, mas, afinal, há um ano e meio viajei ao Chile, visitei cinco universidades católicas e fiquei fascinado pela qualidade daquilo que eu via.  Ou seja, instituições que, do ponto de vista da competência profissional, figuravam entre as melhores do país, a tal ponto que, quando se preparava uma reforma educacional, de bom grado os ministros se dirigiam a elas para solicitar sua opinião.

Eram também instituições nas quais a identidade cristã estava marcada de modo imediato e simples. Chegando de improviso a uma delas, num dia de semana, quis presidir a celebração da Missa, sem que os alunos tivessem sido avisados. Havia 800 deles na capela… Portanto, há lugares onde nossas universidades católicas atingiram efetivamente uma qualidade que eu chamaria de exemplar.

Nem todas chegaram a esse grau, mas, nos meus quase três anos de trabalho na Congregação, constato que há um movimento geral — mais ou menos rápido, mais ou menos profundo, conforme o lugar — rumo à reafirmação da identidade cristã nas sociedades tais como hoje elas evoluem.

Quais são, em sua opinião, as principais qualidades que deveriam ornar o professor universitário em nossos dias?

Veja, os docentes de uma universidade católica não são todos católicos. Então, devemos pedir-lhes que, no mínimo, tenham boa vontade em face da tradição católica e, por exemplo, não a critiquem. Mas, com relação aos professores que se apresentam como católicos, somos sensíveis não somente ao que dizem, mas também ao que fazem. O professor católico precisa, pois, aliar a qualidade do ensinamento transmitido à qualidade de vida, ao testemunho de vida e à confissão de sua Fé pessoal.

O “Processo de Bolonha” tem exigido bastante atenção da Congregação para a Educação Católica nestes últimos anos. Em que consiste esse Processo?

O Processo de Bolonha começou há quase dez anos e chegamos ao fim da primeira etapa, da primeira década. Em sua origem se restringia aos países da Europa, em número de 27, mas ao longo dos anos outras nações se interessaram por ele, de modo que hoje são 47 os países envolvidos.

Seus objetivos são simples de enunciar (quanto a realizá-los, já é outro problema!): a padronização dos diplomas, de tal forma que em todos os países participantes do Processo de Bolonha — sobretudo os que assinaram a Convenção de Lisboa — os mesmos diplomas correspondam ao mesmo nível de estudo, e os estudantes possam, caso desejem, passar de um estabelecimento para outro, de uma universidade para outra ou de um país para outro. A primeira preocupação é portanto, a padronização dos diplomas, para chegar à segunda preocupação: a fluidez ou mobilidade, tanto dos estudantes quanto dos professores.

Pode-se dizer que, ao fim de dez anos, é notória a mobilidade dos estudantes, embora ela pudesse ser maior. A dos professores é mais problemática.

O que está em jogo aí para a Igreja? Quais as esperanças da Congregação a esse respeito?

A Igreja entrou nesse Processo não como Igreja, pois ele envolve apenas países, mas como Estado  Pois bem, o Estado da Santa Sé ingressou nele desde o início. Evidentemente, o proveito que esperamos tirar daí é, em primeiro lugar, que uma cultura da qualidade caracterize nossas universidades, como deve caracterizar as universidades dos países abrangidos. Só isso já representa uma vantagem e um estímulo para nós.

Esperamos também, evidentemente, que os estudantes formados em nossas universidades possam ter seus diplomas reconhecidos em outros países. Isto implica que o Processo de Bolonha seja concretizado por acordos de país a país. Por exemplo, a Santa Sé e a República Francesa assinaram em dezembro de 2008 um acordo de reconhecimento dos diplomas e dos títulos.

Há desafios especialmente notórios a destacar, para tornar efetivo esse plano?

Estamos criando uma consciência em nível europeu, antes de chegar a uma consciência universal. Os estudantes entram de bom grado nesse Processo, mas os Estados são mais reticentes. Por quê? Porque possuíam mais ou menos, até agora, um verdadeiro monopólio dos diplomas. Ora, entrar nesse Processo é alienar uma parte de sua soberania em matéria educativa, e isso, evidentemente, não é fácil em países que têm — digamos assim — tradições jacobinas.

E os dirigentes de universidades, como correspondem às oportunidades oferecidas pelo “Processo de Bolonha”? Como acolhem as novas perspectivas?

Nossas universidades caracterizam-se pela liberdade de pensamento e de expressão. Assim, perante o Processo de Bolonha encontramos nelas um leque extremamente amplo de reações, desde o entusiasmo até a reserva.

Julgo que hoje a situação está mudando. Com efeito, nossos estabelecimentos começam a perceber o interesse dessa padronização, dessa fluidez, pois, por exemplo, a teologia — que aparecia anteriormente, digamos, como uma ciência de sacristia — tornou-se hoje uma ciência de interesse geral, como a medicina ou a engenharia. Percebe-se, pois, o mérito desse Processo. Mas, podem-se medir também as dificuldades de aplicação. É preciso, por exemplo, que os créditos sejam os mesmos por toda parte, com o mesmo número de horas, e isso implica revisões talvez difíceis de fazer.

Considerando encíclicas como a “Humanae vitae”, de Paulo VI, e a “Veritatis splendor”, de João Paulo II, como V. Excia. descreveria o papel do Magistério na ética das últimas décadas?

Precisamos distinguir entre o papel do Magistério na Igreja e nas sociedades civis. O que se denomina doutrina social da Igreja é, na realidade, uma doutrina moral sobre a família, a vida econômica, política, social, e também a cultura. A Veritatis Splendor traz uma novidade considerável, pois é uma encíclica na qual, pela primeira vez na história da Igreja, são tratados os fundamentos da moral.

O papel do Magistério no interior da Igreja — apoiando-se evidentemente na palavra de Deus, mas também na lei natural — é de propor ao Povo de Deus, bem como a todos os homens de boa vontade, princípios gerais de conduta de vida, além de normas concretas e particulares. Este segundo aspecto é que havia dado matéria ao “dissentimento”, ao “dissensões dos teólogos”, nos anos 70–80, e a Encíclica procura precisamente dar resposta a esse dissensus. Nas sociedades civis — amplamente secularizadas e amiúde multiculturais, pluralistas, do ponto de vista religioso —, eu diria que o Magistério é quase sistematicamente criticado e questionado. Uma sociedade secularizada é aquela que não consegue admitir Magistério algum, sobretudo se ele é de natureza religiosa, pretendendo exprimir princípios e normas em nome de uma referência superior ao século, fazendo — digamos — apelo a uma transcendência, quer seja religiosa, quer seja metafísica. Portanto, ela não criticará o Magistério apenas por afirmar tal ou qual proposição que não lhe agrada, mas por se pronunciar como Magistério. Isto é o aspecto crítico e inevitável. Evidentemente, os órgãos da mídia, muitos dos quais se consideram o novo magistério das sociedades secularizadas, serão os mais críticos em face de qualquer magistério, em especial o religioso.

Ao mesmo tempo, porém, constato ser a Igreja hoje muito mais interrogada do que no passado, como se ela permanecesse uma referência nas gerações que se questionam sobre o sentido da vida; talvez mesmo a referência, que se pronuncia a respeito das questões fundamentais do sentido da vida.

Que relações podemos encontrar entre o “Catecismo da Igreja Católica” e a “Veritatis splendor”, na via teológica e pastoral da Igreja?

Cardinal 3rd picUma encíclica procura dar resposta a problemáticas limitadas. Limitadas no tempo e por vezes no espaço. É este o caso da Veritatis splendor, dirigida, sobretudo às opiniões correntes no meio católico anglo-saxônico. Portanto, uma encíclica — exceto se tiver uma importância de primeiro plano — não durará por vários séculos. Seu objetivo é de fato a atualidade.

O catecismo é totalmente diferente: ele visa pôr à disposição do povo de Deus, e de todos os homens interessados na cultura cristã, o patrimônio moral acumulado ao longo dos séculos, e mesmo dos milênios, e que engloba também o patrimônio de sabedoria da humanidade. No fundo, o catecismo é um compendium — é este o termo que tinha sido escolhido —, um compendium de sabedoria, não somente para os cristãos, mas também para os não cristãos. Um catecismo deve durar muito tempo, como foi o caso do catecismo anterior. Logo, se nele forem introduzidas noções muito atuais, em pouco tempo ele estará ultrapassado.

Como deveria ser abordado hoje o ensino da Teologia Moral, nos seminários e em nível pastoral?

Penso que estamos passando de um modelo para outro. Diz-se por vezes que a moral cristã está em crise. Não creio tratar-se de uma crise, pois a crise assinala um paroxismo após o qual as coisas se restabelecem. Ora, o que aqui se denomina “crise” é na realidade um fenômeno já muito longo, de vários decênios… Prefiro falar de ruptura.

No fim do século XVI e início do século XVII instalou-se — primeiro na Igreja, depois nas outras confissões cristãs, mas também mais tarde, com Kant, nas sociedades — um modelo, denominado o modelo das morais de obrigação: “Por que proceder de tal ou tal maneira?”. “Porque isso é necessário em nome do Bem”. Parece-me que esse modelo — o qual, repito, reinou tanto na Igreja quanto nas sociedades modernas — está desaparecendo, e andamos à procura de um novo. Se eu retomasse expressões de Michel Foucault, diria que estamos passando de uma ética do código para uma ética da construção de si. No fundo, a moral é aquilo que permite ao homem aceitar-se a si mesmo, construir-se, depois dar-se, numa sociedade mais justa e fraterna. E creio que vivemos um período difícil e apaixonante ao mesmo tempo, pois mudamos de modelo e, evidentemente, é preciso tempo e tato para apreender esse novo modelo.

Portanto, eu desejaria que nos seminários se apresentasse a moral não apenas sob o ângulo das obrigações, mas também sob o da arte de viver, de uma estética da existência, digamos, de uma sabedoria.

Publicado na Revista Arautos do Evangelho. Janeiro 2011. n. 109. p. 30-33.

Ajudando as vítimas das chuvas no Brasil

As chuvas que assolam o sudeste do Brasil, especialmente o Estado do Rio de Janeiro, já são consideradas a maior catástrofe natural da História do Brasil. Cerca de 800 mortos e milhares de pessoas ficaram desalojadas. Todavia, esta calamidade atingiu também o estado de São Paulo, e de modo especial, as cidades que se localizam na Serra da Cantareira, ao norte da Capital.Entrega de cesta básica_7
Casas destruídas, ruas obstruídas, falta de energia e inundações atingiriam a população da Serra, e de forma especial, algumas famílias do bairro do Apolinário.
Como o riacho transbordou, suas águas penetraram em diversas casas, fazendo com que seis famílias ficassem desabrigadas e as respectivas casas condenadas, devido à erosão provocada pelas águas junto aos fundamentos das residências.
Face à dor destes nossos irmãos, os membros do IFATITTA, com a ajuda de alguns famílias generosas e compadecidas, distribuíram alimentos e apoio espiritual às cerca de 30 pessoas desalojadas que, com o apoio da comunidade local, conseguiram hospedar-se num salão de festas.

O método preventivo de Dom Bosco


Educar não é só uma arte. Passou a ser um desafio, pois é cada vez mais difícil orientar a juventude num sentido contrário à mentalidade dominante. São João Bosco encontrou a chave que abre a alma do jovem à influência do bem.

Thiago de Oliveira Geraldo

Manter a disciplina numa sala de aulas constituída de adolescentes é uma dificuldade que, com algumas variantes, mostra-se quase tão antiga como a civilização. Os mestres de Santo Agostinho poderiam dar um testemunho valioso a esse respeito. Em outros tempos, os métodos usados eram muito mais diretos que os atuais e davam resultados imediatos, proporcionais à energia e à força de personalidade do professor. Mas o problema de fundo não deixa de ser o mesmo, hoje como ontem.

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A educação não se restringe a conseguir manter, dentro do recinto de uma sala de aulas, todos os alunos em ordem e silêncio, para que o professor possa transmitir com eficácia seus ensinamentos. O bom educador deve saber moldar a personalidade de seus discípulos, corrigindo os defeitos, estimulando as qualidades, fazendo-os amar os princípios que orientarão a vida. Numa boa educação, a formação religiosa ocupa lugar principal, pois sem amor de Deus e auxílio da graça ninguém consegue vencer as más inclinações e praticar estavelmente a virtude.

Da teoria à prática…

Na teoria, tudo isso é muito fácil… Mas, como pô-la em prática no mundo de hoje, no qual são tão numerosas e atraentes as solicitações para o mal e os educadores sentem crescente dificuldade de exercer influência sobre os jovens?
O problema já era candente na época de São João Bosco. A sociedade de então passava por grandes transformações, sobretudo de mentalidade. E a juventude, sempre ávida de novidades, afastava-se da religião e perdia o rumo.
Dom Bosco fazia o “milagre” — muito maior do que todos os outros por ele realizados — de atrair e formar jovens que já não se deixavam moldar pelos antigos métodos educacionais e se subtraíam à ação da Igreja.
Tentativas de penetrar o segredo do método preventivo
Eram tão surpreendentes os resultados obtidos pelo fundador dos salesianos que muitos de seus coetâneos procuravam insistentemente arrancar dele o “segredo” de seu êxito.
Essa mesma intenção teve o reitor do seminário maior de Montpellier, quando enviou uma carta a Dom Bosco, perguntando qual o segredo da pedagogia utilizada por ele. Imagine-se sua surpresa ao receber a seguinte resposta: “Consigo de meus meninos tudo o que desejo, graças ao temor de Deus infundido em seus corações”.
Não satisfeito, o reitor enviou uma segunda carta, mas a esta o Santo não soube responder, pois nunca havia feito um estudo sobre a matéria. O livro do qual ele tirava seus ensinamentos era sua própria vida.

Confiança: o instrumento do bom educador

Discorrendo sobre o mesmo assunto com o cardeal Tosti, em Roma, numa manhã de 1858, disse-lhe São João Bosco: “Veja, Eminência, é impossível educar bem a juventude se não se lhe conquista a confiança”. Em seguida, para dar-lhe um exemplo concreto, ele o convidou a acompanhá-lo à Praça del Popolo, onde facilmente encontrariam grupos de jovens brincando, e poderia demonstrar a eficácia de seu método. Mas quando desceu da carruagem, a turma de meninos que brincava na praça fugiu correndo. Certamente julgaram que esse padre lhes ia fazer um pequeno sermão ou repreendê-los por alguma falta. O cardeal ficara dentro do veículo, assistindo à cena, e se divertia, julgando que aquele primeiro fracasso levaria Dom Bosco a desistir da experiência. Mas este não se deixou abater e, em poucos minutos, com sua vivacidade e irresistível bondade, tinha uma pequena multidão de jovenzinhos à sua volta se divertindo com seus jogos e entusiasmados com sua bondade. Chegado o momento de se retirar, eles formaram duas fileiras diante do coche, para aclamar o sorridente sacerdote enquanto este passava. O cardeal tinha dificuldade em acreditar no que estava vendo…

Evitar o pecado: a essência do método preventivo

Afinal, como fazia São João Bosco para cativar a juventude?
Como primeiro objetivo, pretendia ele evitar todo e qualquer tipo de pecado, usando de grande vigilância, acompanhada de amorosa solicitude. Não de um modo esmagador e glacial, mas paternal e afetuoso. A essa tática de conduzir os jovens o santo educador deu o nome de “método preventivo”, em confronto com o outro então em voga, denominado “repressivo”, o qual tinha por base os castigos.
Esse modelar formador da juventude não perdia ocasião de coarctar o avanço do mal. Mesmo nos recreios, seu olhar atento logo conseguia descobrir onde estava a rixa ou de onde provinham palavras reprováveis e, sem demora, desfazia a confusão com hábil jovialidade, pois ele era a alma dos divertimentos, como seus alunos testemunhavam. Não raras vezes, ele desafiava todos os meninos, de uma só vez, para uma corrida. Então erguia a batina, contava até três e deixava aquela turba de jovens para trás: Dom Bosco sempre chegava em primeiro lugar. Quando já tinha 53 anos, ele ainda deixava os espectadores estupefatos com sua agilidade, pois nunca perdia uma corrida com os alunos do Oratório.

Suavidade na repreensão

São João Bosco jamais dava castigos corporais, na convicção de que isso só incitaria os corações à revolta e fecharia a alma do jovem para os conselhos salutares. A maneira pela qual ele repreendia era através de uma palavra fria, um olhar triste, uma mão retraída, ou qualquer outro sinal discreto de desagrado com alguma falta. Mas os resultados demonstravam ser extremamente eficaz essa forma de correção.
Certa noite, logo após as orações, Dom Bosco queria dirigir aos meninos algumas palavras benfazejas, antes de irem dormir, mas tal era a algazarra que ele não conseguiu obter silêncio. Após alguns minutos de espera, comunicou-lhes: “Não estou contente com vocês! Vão dormir. Esta noite não lhes digo nada”. A partir desse dia nunca mais foi necessário usar uma sineta para que os rapazes fizessem silêncio.
Poderia, porém, surgir uma dúvida a respeito de tal método. Essa vigilância para evitar o pecado não acabaria por tirar a liberdade ao jovem?
A natureza humana é feita para o equilíbrio: não sufocar a liberdade nem, muito menos, permitir uma indisciplina desenfreada. Essa conjunção, São João Bosco soube fazê-la admiravelmente. Apesar de toda a vivacidade e afeto no trato com os jovens, estes sempre mantinham uma atitude de respeito e admiração para com seu mestre.
Alegria, tempero indispensável
O ambiente no refeitório do Oratório era uma comprovação desse relacionamento harmonioso, quando Dom Bosco demorava algum tempo mais para terminar sua refeição, à qual tinha chegado atrasado. Assim que os outros superiores saíam, uma multidão de jovens entrava correndo e ocupava todo o recinto, não deixando espaço vazio. Alguns se aproximavam tanto que quase encostavam suas cabeças nos ombros dele, outros se apoiavam no espaldar de sua cadeira e os mais pequeninos se enfiavam debaixo da mesa. Qual não era a surpresa comovida do Santo ao ver aquelas pequenas cabecinhas dali saírem, com o único fim de estarem mais perto de seu pai. A liberdade com que aqueles jovenzinhos dele se aproximavam e a veneração que lhe devotavam constituíam realmente um quadro comovedor.
Uma ocasião como essa era uma excelente oportunidade de fazer o bem. O zeloso sacerdote aproveitava então para contar uma história, dar um bom conselho, fazer perguntas, até que o sino indicasse a hora da oração da noite, ou seja, o fim desse convívio enternecido.
Como se vê, a alegria ocupava um grande papel no método educativo de Dom Bosco. Com ela, pretendia o Santo tornar a vida leve e criar disposições para os meninos abrirem a alma à influência dele e ao sobrenatural. Um dos meios que utilizava eram os jogos e diversões, dos quais o próprio educador participava.
Num desses divertimentos, ele alinhava todos os meninos em uma única fila e lhes recomendava: “Atenção! Façam tudo como eu fizer. Quem não fizer como eu faço, sai da brincadeira”. Isso dito, começava seu percurso, ora correndo com os braços para o ar, ora fazendo gestos espetaculares, batia palmas, pulava com uma só perna, ameaçava parar numa árvore, mas logo depois saía correndo de novo. Desse modo, entretinha e criava um ambiente de alegria para aqueles jovens.
Com tais recursos e, sobretudo, com a graça divina, São João Bosco conseguia levá-los a amar a Deus com alegria. Para esse efeito, a música era um instrumento valioso, a ponto de ele dizer que uma casa sem música é como um corpo sem alma.
Freqüência aos sacramentos e
devoção a Nossa Senhora

A perseverança só é possível pela freqüência aos sacramentos e uma ardente devoção a Nossa Senhora.

Na confissão, Dom Bosco pacificava as consciências, infundia confiança nas almas, conduzia seus juvenis penitentes a Deus. Bela descrição dessas confissões nos faz Huysmans, escritor católico do séc. XIX:
“Nosso Santo, trazendo no semblante a bonomia de um velho vigário do interior, puxava para perto de si o menino que tinha terminado o exame de consciência e, tomando-o pelo pescoço, envolvia-o com o braço esquerdo e fazia o pequeno penitente apoiar a cabeça no seu coração. Não era mais o juiz. Era o pai que ajudava os filhos, na confissão tantas vezes penosa das faltas mais pequeninas.”
Por meio da comunhão freqüente queria São João Bosco fortificar a alma dos jovens contra as investidas infernais. Para ele, a Primeira Comunhão deveria ser feita o mais cedo possível: “Quando um menino sabe distinguir entre o pão comum e o Pão Eucarístico, quando se acha suficientemente instruído, não é preciso olhar para a idade. Venha logo o Rei do Céu reinar nessa alma”.
Seguindo os sábios conselhos maternos, Dom Bosco fez da devoção a Maria Santíssima, sob a bela invocação de Maria Auxiliadora, uma coluna da espiritualidade dos salesianos. “Se chegares a ser padre — repetia-lhe afetuosamente ‘mamma Margherita’ — propaga sem cessar a devoção a Nossa Senhora”.

Método preventivo e graça divina

maria-auxiliadora-1Na realidade, o método preventivo de Dom Bosco é uma forma adaptada às novas gerações — e plenamente atual — de predispor os jovens para serem flexíveis à ação da graça divina. É ela a verdadeira causa do êxito surpreendente desse grande educador que marcou sua época, até nossos dias, com seu inovador método transmitido a seus seguidores, os sacerdotes salesianos e as filhas de Maria Auxiliadora.

Por que ser tomista?

Numa época em que a humanidade dificilmente consegue harmonizar a fé e a razão, os Papas dão o rumo certo ao pensamento, recomendando a doutrina imperecível de São Tomás de Aquino.

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Pe. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

Eterna é a fidelidade do Senhor” (Sl 116, 2).

Um dos sintomas pelos quais podemos discernir o quanto Deus cria a alma humana com vistas à vida eterna é a inextinguível sede de eternidade que brota de seu mais profundo âmago. E isso acontece apesar do homem constatar até que ponto é efêmera sua existência terrena, tal qual diz o Eclesiástico: “A duração da vida humana é quando muito de cem anos. No dia da eternidade esses breves anos serão contados como uma gota de água do mar, como um grão de areia” (Eclo 18, 8).

O homem tem sede de perpetuar sua lembrança

Entretanto, arde no homem o desejo de prolongar estavelmente sua lembrança junto aos que com ele vivem, como também entre aqueles que no futuro haverão de existir. A angústia, muitas vezes, pervade o espírito de quem se coloca na perspectiva de vir a ser inteiramente esquecido pelos seus e pela posteridade. A simples consideração deste versículo do Eclesiastes: “Não há memória do que é antigo, e nossos descendentes não deixarão memória junto àqueles que virão depois deles” (Ecle 1, 11), quase sempre deita certa amargura no fundo da alma de quem experimenta a progressiva cercania da morte.

Esse é o pânico psíquico que esteve na raiz da febricitada busca de sucesso da parte de tantos infelizes. Eles mais encontraram frustração do que felicidade e, o que é pior, ad perpetuam rei memoriam. Mais ainda, essa memória pela qual ansiavam fixou-se nas esteiras da História, bem no extremo oposto à glória divina que desejavam. Os tempos que nos precederam estão coalhados de ilustrações dessa triste situação. Algumas, porém, se tornaram paradigmáticas como é, por exemplo, o caso de Alexandre Magno (356 – 323 a.C.).

Conta-nos a História, que ele chegou a exigir de seus súditos um culto de idolatria, considerando-se deus. Mas, de que lhe valeram a sucessão de magníficas vitórias, a fundação do Império Grego e o ter-se tornado o dominador absoluto do Oriente Próximo?1

De passagem lembremos outro nome, carregado de significado, para ilustrar os desastrosos resultados a que conduz esse malfadado delírio de autopromoção. Recordemos o quanto o imperador Calígula se tornou famoso pelos excessos de crueldade. Sua memória permaneceu — e assim se prolongará até o fim dos tempos — manchada pelos piores crimes e atrocidades, e jamais deixará de ser objeto de horror e abjeção.

Eterna será a memória do justo”

Quanto erraram esses e tantos outros homens! Pois o caminho para perpetuar a memória é bem outro, tal qual afirma o Salmista: “Eterna será a memória do justo” (Sl 111, 6), ou o próprio Livro da Sabedoria: “Mais vale uma vida sem filhos, mas rica de virtudes: sua memória será imortal, porque será conhecida de Deus e dos homens” (Sb 4, 1). Ainda mais nimbada de glória será a imortalidade de sua memória, se de seus lábios ou de sua pluma brotarem sábias e elevadas explicitações segundo os recursos da razão humana, sobre as últimas causas, o mundo, o homem e a própria existência de Deus, como também de seus atributos. E se esse esforço não se apoiar exclusivamente na inteligência mas, de maneira especial, nas luzes que nos proporciona a Revelação, o fulgor daí resultante será maior.

St Tomas

Perfeita união entre filosofia e teologia

Um indiscutível exemplo de quem, nessa linha, marcou os acontecimentos da Igreja e foi aureolado da melhor fama é São Tomás de Aquino. Por um rico sopro do Espírito Santo, soube ele conjugar as verdades filosóficas e teológicas enquanto procedentes da Verdade Criadora e Inteligência Suprema. E isso porque a Filosofia é a mais importante das ciências para servir à Teologia, sendo esta a primeira entre todas elas. Uma estuda a ordem da natureza e a outra, a ordem da graça. Ambas muito harmônicas, pois, delas, um só é o criador: Deus! Ele é o autor da verdade natural, como também da revelada, e daí haver um necessário e perfeito entrelaçamento entre razão e fé.

No coração do Doutor Angélico, a lógica adquire asas sem perder seu contato com a terra, e as ciências físicas, metafísicas e filosóficas, com toda humildade, inclinam-se diante da autoridade divina para servir à Teologia. Em sua mente encontramos um alcandorado resumo de toda a ciência da Idade Média, como até mesmo da do mundo antigo, purificada e santificada; ali estavam a Filosofia e a Teologia conduzidas a uma perfeita união, a razão submetida à fé com novo vigor e energia. Por isso não devemos considerar suas obras como simples ensaios de Teologia ou de Filosofia, mas sim um monumento-síntese de enorme envergadura e profundidade, esplendor de uma grande época. Daí tornar-se compreensível ainda hoje o motivo pelo qual se deve buscar em São Tomás uma das mais belas aplicações do método, ou melhor ainda dizendo, da lógica em toda a força de sua clareza e penetração, e nunca com os entraves com que a arrouparam nos séculos posteriores.

A Suma Teológica marcou sua época e a posteridade

Quer na alma dos santos, quer na voz do Magistério da Igreja, sempre houve um reconhecimento do gênio divino com o qual São Tomás elaborou sua Suma Teológica, discernindo e desenvolvendo todos os ramos do conhecimento humano, agrupando-os, entrelaçando-os e entregando-os ao serviço da fé. É nessa perspectiva que encontramos Santo Alberto Magno abismado diante da Suma Teológica produzida por seu ex-aluno, quando com muito esforço procurava ele fazer avançar a sua própria, que há certo tempo começara.

Quando Alberto leu a Suma de seu antigo aluno, exclamou maravilhado: ‘Isto é perfeito e definitivo!’ E se absteve de continuar a sua. O Concílio de Trento confirmou seu parecer: sobre a mesa da sala colocou, ao lado da Bíblia, a Suma de São Tomás, como testamento da Idade Média”. 2

Teólogo recomendado pelo Concílio Vaticano II

O brilho da fulgurante aura de São Tomás não ficou circunscrito à Idade Média; ainda hoje suas luzes nos assistem com seus raios. Na carta Lumen Ecclesiæ, do Servo de Deus Paulo VI, dirigida ao Superior Geral dos Dominicanos por ocasião do VII centenário da morte do grande doutor da Igreja, encontramos este importante elogio:

Também o Concílio Vaticano II recomendou, duas vezes, São Tomás às escolas católicas. Com efeito, ao tratar da formação sacerdotal, afirmou: ‘Para explicar da forma mais completa possível os mistérios da salvação, aprendam os alunos a aprofundar-se neles e a descobrir sua conexão, por meio da especulação, sob o magistério de São Tomás’. O mesmo Concílio Ecumênico, na Declaração sobre a Educação Cristã, exorta as escolas de nível superior a procurar que, ‘estudando com esmero as novas investigações do progresso contemporâneo, se perceba mais profundamente como a fé e a razão têm a mesma verdade’; e logo em seguida afirma que para esse fim é necessário seguir os passos dos doutores da Igreja, sobretudo de São Tomás. É a primeira vez que um Concílio Ecumênico recomenda um teólogo, e este é São Tomás”.3

João Paulo II ressalta a atualidade da doutrina tomista

É particularmente significativo o empenho de João Paulo II em ressaltar a atualidade da doutrina tomista.

Em 13 de setembro de 1980, ao receber os participantes do VIII Congresso Tomista Internacional, por ocasião do centenário da encíclica Æterni Patris, do seu predecessor Leão XIII, o Papa João Paulo II afirmava:

Os cem anos da encíclica Æterni Patris não passaram em vão, nem esse célebre documento do Magistério pontifício perdeu a sua atualidade. A encíclica baseia-se num princípio fundamental, que lhe confere profunda unidade orgânica interior. É o princípio da harmonia entre as verdades da razão e as da Fé.” […]

Com ‘Æterni Patris’— que tinha como subtítulo ‘De philosophia christiana… ad mentem sancti Thomæ… in scholis catholicis instauranda’ —, Leão XIII manifestava a consciência de que se tinha chegado a uma crise, uma ruptura e um conflito ou, pelo menos, a um ofuscamento acerca da relação entre a razão e a Fé. […] Era, portanto, o momento de imprimir novo rumo aos estudos no interior da Igreja. Leão XIII aplicou-se com clarividência a essa tarefa, reapresentando — este é o sentido de instaurare — o pensamento perene da Igreja, na límpida e profunda metodologia do Doutor Angélico” .4

Eixo central do pensamento cristão

Salientou também o Servo de Deus João Paulo II, nessa ocasião, o papel de grande destaque que ocupa São Tomás, tanto nos céus da Filosofia quanto nos da Teologia:

Como afirmava Paulo VI: […] ‘São Tomás, por disposição da Divina Providência, atingiu o cume de toda a Teologia e Filosofia ‘escolástica’, como se lhe costuma chamar, e fixou na Igreja o eixo central a cuja volta, então e em seguida, se pôde desenvolver o pensamento cristão em seguro progresso” (Lumen Ecclesiæ, 13. 3).

Está nisto a motivação da preferência dada pela Igreja ao método e à doutrina do Doutor Angélico. Longe de preferência exclusiva, trata-se de referência exemplar, que permitiu a Leão XIII declará-lo ‘Inter Scholasticos Doctores omnium princeps et magister’ (Æterni Patris, 13). E tal é verdadeiramente São Tomás de Aquino, não só pela sua plenitude, pelo equilíbrio, pela profundidade e pela limpidez do estilo, mas ainda mais pelo vivíssimo sentido de fidelidade à verdade, que podem também dizer-se realismo. Fidelidade à voz das coisas criadas, para construir o edifício da Filosofia; fidelidade à voz da Igreja, para construir o edifício da Teologia” .5

Justo equilíbrio entre fé e razão

É, porém, na encíclica Fides et Ratio, que o Papa torna mais candente a atualidade do tomismo, propondo-o como justo equilíbrio entre a fé e a razão, “as duas asas do espírito humano”:

Embora sublinhando o caráter sobrenatural da fé, o Doutor Angélico não esqueceu o valor da racionabilidade da mesma; antes, conseguiu penetrar profundamente e especificar o sentido de tal racionabilidade. Efetivamente, a fé é de algum modo ‘exercitação do pensamento’; a razão do homem não é anulada nem humilhada, quando presta assentimento aos conteúdos de fé; é que estes são alcançados por decisão livre e consciente.” […]

Precisamente por esse motivo é que São Tomás foi sempre proposto pela Igreja como mestre de pensamento e modelo quanto ao reto modo de fazer Teologia”.6

Bento XVI salienta novamente sua atualidade

Cabe-nos ainda recordar uma recente alocução de Sua Santidade Bento XVI, felizmente reinante, sobre o Doutor Angélico, salientando sua atualidade como solução para o inconsistente conflito entre fé e razão:

O calendário litúrgico recorda hoje São Tomás de Aquino, grande doutor da Igreja. Com seu carisma de filósofo e teólogo, ele oferece um válido modelo de harmonia entre razão e fé, dimensões do espírito humano, que se realizam plenamente no encontro e no diálogo recíproco. Segundo o pensamento de São Tomás, a razão humana, por assim dizer, ‘respira’: isto é, move-se num horizonte amplo, aberto, no qual pode expressar o melhor de si. Ao contrário, quando o homem se limita a pensar só em objetos materiais e experimentáveis e se fecha às grandes interrogações sobre a vida, sobre si mesmo e sobre Deus, empobrece-se. A relação entre fé e razão constitui um desafio sério para a cultura atualmente dominante no mundo ocidental e, precisamente por isso, o amado João Paulo II quis dedicar-lhe uma Encíclica, intitulada Fides et ratio, ‘Fé e razão’ ”.7

Pai da Filosofia moderna

Ainda sobre a consagração histórica e universal de São Tomás, enquanto filósofo e teólogo, valeria a pena lembrarmos o fato de o Papa João XXII haver afirmado que se aprende mais durante um ano de estudos dedicado às suas obras, em comparação a décadas consagradas ao aprofundamento nos escritos de outros autores.

É indispensável, ademais, reconhecer os méritos do Papa Leão XIII em ressaltar os valores científicos das explicitações de São Tomás. Foi por uma ação direta sua — no século XIX, portanto — que surgiram centros de estudos tomistas nas universidades católicas, propiciando, dessa forma, a influência do Doutor Angélico nas descobertas e investigações da ciência. A Biologia, a Química e a própria Psicologia experimental, em suas novas conquistas, enriqueceram-se, assim, com a seiva doutrinária antiga. Importantes universidades modernas do continente europeu, como também do americano, passaram a se abeberar nos grandes princípios tomistas; por exemplo, Harvard, Oxford, Sorbonne e Louvain. Não foi sem razão que Etiènne Gilson, conceituado catedrático da Sorbonne, conferiu a São Tomás o título de Pai da Filosofia Moderna. Levou em conta esse mestre o quanto a metafísica de São Tomás constitui a sustentação unificadora da cultura greco-romana, batizada e alimentada pelo Cristianismo.

Oferecer um contributo ao pensamento moderno por meio de uma clave antiga e nova

Dado o exíguo espaço de um artigo, não pretendemos aqui comentar as numerosas obras densas em substância doutrinária desse gênio hors série da Verdadeira Igreja. Nem sequer em nada nos pervade a pretensão de nos supormos possuidores dos conhecimentos que nos tornariam capazes de apontar todos os méritos da elaboração de nosso Santo Doutor. Queremos apenas abrir um pouco nossos corações e manifestar o porquê da Faculdade Arautos do Evangelho, assim como o Instituto Teológico São Tomás de Aquino e o Instituto Filosófico Aristotélico-Tomista terem tomado por bem promover o estudo da Filosofia e Teo­logia medievais, destacando de forma especial a doutrina tomista.

Desejamos oferecer um contributo ao pensamento moderno por meio de uma clave antiga e nova ao mesmo tempo: a união da luz da razão com a da fé sob o prisma da Revelação, dentro do sistema teológico do Aquinate.

Com efeito, os homens e as mulheres de nosso tempo, cansados de procurar a verdade em sistemas de pensamento extremamente contrapostos e diversos, estão sedentos de beber de uma fonte límpida e clara, de haurir a certeza numa escola de pensamento de inspiração cristã, a qual ofereça um sistema não-sujeito às limitações que o divórcio entre a realidade natural e a sobrenatural impõe à inteligência e à vontade humanas.

Pois bem, longe de qualquer anacronismo, o estudo e a pesquisa das fontes tomistas contribuem com uma resposta convincente e profunda àqueles que procuram o alcandor e o esplendor da verdade. ²

(Extrato do artigo publicado
em “Lumen Veritatis – Revista de
Inspiração Tomista”, Ano I, nº 1 –
Outubro a Dezembro 2007)

1 )Cf. Gran Enciclopedia Rialp, Vol. I, Madrid: Rialp SA, 1971.

2 )WEISS, J. B. Historia Universal, Barcelona, Tip. de la Educación, 1929, Vol. VII, p. 170. Tradução nossa.

3 )PAULO VI. Lumen Ecclesiae, n. 24. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/letters/1974/documents/hf_p-vi_let_19741120_lumen-ecclesiae_sp.html>. Acesso em: 15 jun. 2007. Tradução nossa.

4 )JOÃO PAULO II. VIII Congresso Tomista Internacional. Discurso aos participantes. 13 set. 1980. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1980/september/documents/hf_jp-ii_spe_19800913_congresso-tomistico_it.html>. Acesso em: 25 nov. 2007. Tradução nossa.

5 )Idem.

6 )JOÃO PAULO II. Fides et Ratio, n. 43. Disponível em: <http://www.vatican.va/edocs/POR0064/_INDEX.HTM>. Acesso em: 21 maio 2007.

7 )BENTO XVI. Ângelus. 28 jan. 2007. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/angelus/2007/documents/hf_ben-xvi_ang_20070128_po.html>. Acesso em: 27 jul. 2007.

A pomba e os cardeais

José Antonio Dominguez – Professor do IFAT

Fabiano era um devoto cristão daqueles primeiros séculos, nos quais testemunhar publicamente o nome de Jesus significava pôr em risco a própria vida. Não havia muito que o Papa fora martirizado. “O pontificado de Antero — afirma Eusébio de Cesaréia — tinha durado apenas um mês” 1. E Fabiano, como todos os fiéis, aguardava ansioso a eleição do novo pontífice.

Assim que as circunstâncias o permitiram, o clero e o povo cristão de Roma se reuniram em algum dos locais de culto, talvez uma dependência das catacumbas, e procederam à eleição. Procuravam empenhadamente chegar a um consenso em torno do candidato mais idôneo. As preferências se inclinavam para aqueles de origem nobre e influente. No entanto, não havia meio de chegarem a um acordo.

Do anonimato à notoriedade

Naquele dia, Fabiano voltava do campo, com alguns amigos. No caminho, sentiu um desejo intenso de saber quem seria o novo Papa. Mera curiosidade? Inspiração do Espírito Santo? E ele, movido por esse misterioso impulso, entrou no local onde transcorria a eleição.

Podemos imaginar que tenha ido logo procurar seus conhecidos para se informar das últimas novidades. Talvez algum dos candidatos fosse seu amigo ou parente…

Porém, Fabiano, ao transpor o umbral do lugar onde se desenrolava esse acontecimento histórico, estava bem convicto de que na escolha de um Papa há sempre um eleitor invisível, o qual tem a última palavra, independentemente das intenções humanas que possam interferir naquele ato: o Divino Espírito Santo.

Dessa vez, o Grande Eleitor havia decidido intervir de modo visível.

Enquanto Fabiano se esgueirava por entre a assistência para se aproximar do centro da cena onde se desenrolavam os debates, uma pomba entrou por uma janela do recinto, esvoaçou elegantemente sobre os circunstantes e pousou suavemente sobre a sua cabeça: o Espírito Santo o havia escolhido! A assembléia, presenciando o fato, logo irrompeu numa grande aclamação de júbilo diante de um sinal tão notório da Providência: “Ele é digno! Ele é digno! E apesar da resistência de Fabiano, cercaram-no e o fizeram sentar-se no trono pontifício”, relata Eusébio de Cesaréia 2.

O escolhido pela pomba na origem do Colégio Cardinalício

São Fabiano governou a Igreja durante 14 anos, tendo coroado seu pontificado com o martírio, sob o imperador Décio, a 20 de janeiro de 250.

Entre as medidas inovadoras tomadas por esse Papa, destaca-se a nomeação de um diácono para cada uma das sete regiões de Roma, a fim de dar assistência aos pobres, assim como sete subdiáconos para dirigir os notarii, encarregados de redigir as atas dos mártires. Esses diáconos regionais são os antepassados remotos de uma das ordens em que se divide o Colégio Cardinalício: os cardeais-diáconos. E não deixa de ser singular o fato de ter sido um Papa escolhido por uma “pomba” quem lançou os fundamentos da instituição que, séculos mais tarde, teria como principal função a eleição do sumo pontífice.

Origem do Sacro Colégio

O Colégio Cardinalício originou-se “no Presbyterium ou senado sacerdotal que rodeava o Bispo de Roma, assim como os demais bispos dos primeiros séculos. A partir do século VI, os presbíteros dos 25 títulos ou igrejas paroquiais de Roma recebem o nome de praesbyteri cardinales (de cardo, gonzo), porque eram como que os gonzos ou eixo dessas igrejas. Incardinatus ou cardinalis, era costume dizer-se do clérigo incorporado estavelmente a uma igreja, para estabelecer a diferença com o que estava vinculado temporariamente. Depois foram chamados diaconi cardinales os diáconos regionais, encarregados desde tempos remotos de socorrer os pobres das sete regiões de Roma (mais tarde foram quatorze), e ocupados também em assistir o Papa, tanto nos ofícios divinos, como na administração. A esses quatorze diáconos se somaram quatro diaconi palatini, que serviam o pontífice no seu palácio. Havia ainda sete bispos suburbicários que acompanhavam o Papa nas funções litúrgicas: de Óstia, Porto, Albano, Santa Rufina ou Silva Cândida, Sabina, Túsculo ou Frascati, e Preneste ou Palestrina. Esses sete bispos, desde Estevão II (769), oficiavam por turno (episcopi cardinales hebdomadarii) na Basílica de Latrão. No século XI, havia no total 53 cardeais” 3.

Com o decorrer dos séculos, a sua autoridade e prestígio foram crescendo notavelmente, pois, era também entre os cardeais que os Papas costumavam escolher os legados pontifícios.

Vicissitudes do Papado

A partir do século VI, as eleições dos Papas começaram a sofrer ingerências dos príncipes, que prejudicaram muito a Igreja. “Os reis arianos e ostrogodos da Itália arrogaram-se o direito de aprovação [do Papa eleito]. Os imperadores gregos de Constantinopla, tornados senhores da Itália, continuaram os abusos dos arianos e dos ostrogodos. No começo do século IX, os reis dos Francos tornaram-se, pela autoridade da Igreja, imperadores do Ocidente, recebendo o direito e o dever de zelar para que a eleição do Papa fosse livre. Após a segunda metade do século X, os reis da Germânia, tendo recebido dos Papas a dignidade imperial, receberam também o mesmo privilégio, com a mesma obrigação. O primeiro desses imperadores alemães, Oton I, abusou desse privilégio, contra o próprio Papa que lho havia conferido” 4.

No decorrer do século XI, a crescente influência dos monges de Cluny levou a empreender uma salutar reforma da Igreja, cujo principal expoente foi o Papa São Gregório VII. Já antes de ascender ao Sólio Pontifício, o humilde monge Hildebrando exercia uma notável influência na Cúria Romana, trabalhando incansavelmente para coibir os abusos de sua época. Entre eles estava a ingerência dos príncipes na escolha do Papa.

Papel decisivo do Colégio Cardinalício

Foi Estêvão IX que pela primeira vez confiou a eleição do sucessor de Pedro aos Cardeais. Tendo de ausentar-se de Roma, e talvez pressentindo sua próxima morte, “convocou os cardeais, bispos, padres, diáconos e falou-lhes nestes termos: ‘Eu sei, irmãos, que após minha morte surgirão entre vós homens orgulhosos e ambiciosos que forçarão a porta do redil, procurarão apoio nos poderes laicos e desprezarão as regras santas publicadas pelos Padres, invadindo a Sé Apostólica’. […] Todos sem exceção prometeram ao Papa obedecer às suas instruções. E cada um deles foi colocar as mãos entre as do pontífice, jurando não permitir que fosse eleito um Papa sem o consentimento unânime e uma livre escolha realizada por todos os membros do Colégio Cardinalício” 5.

Tranqüilizado pelas garantias dadas pelo clero de Roma, Estêvão IX partiu em viagem, mas em Florença foi acometido por uma súbita doença que o levou deste mundo. São Hugo, de Cluny, que acompanhava o pontífice na viagem, o assistiu nos últimos instantes.

Usurpação da Cátedra de Pedro

A notícia da morte de Estêvão IX detonou novas explosões de ambição dos príncipes temporais. Gregório, conde de Tusculum, aliado a outros senhores das proximidades de Roma, logo tentou impor o seu candidato. “Os conjurados penetraram de noite na cidade de Roma, que ficou presa do seu furor. No meio de um grande tumulto invadiram a Basílica de Latrão e proclamaram Papa o bispo João de Velletri, com o nome de Bento X. Pedro Damião, esse herói da fé e da disciplina eclesiástica, que acabava se ser promovido à sede de Óstia, acorreu com os cardeais a fim de protestarem contra essa horrível violência. Porém, os soldados precipitaram-se sobre eles, de espada em punho, para massacrá-los. Os cardeais, protegidos por alguns servidores fiéis, conseguiram sair da Basílica por uma porta secreta e abandonaram Roma” 6.

Primeira eleição realizada pelo Sacro Colégio

Por essa ocasião, o cardeal Hildebrando (futuro São Gregório VII) regressava de uma viagem à Alemanha. Ao saber da eleição, contra a proibição expressa do Papa Estêvão IX, deteve-se em Florença, a fim de organizar a eleição legítima, de acordo com o juramento feito anteriormente pelos cardeais.

Em Siena, Hildebrando propôs ao sólio pontifício o bispo de Florença, Gerardo, que foi eleito por unanimidade pelos cardeais, tomando o nome de Nicolau II. “No mês de janeiro de 1059 o Papa Nicolau foi recebido em Roma pelo clero e pelo povo com as devidas honras, sendo entronizado pelos cardeais e tomando posse da Santa Sé, segundo o costume” 7. Alguns dias depois, o antipapa Bento apresentou-se diante de Nicolau II, a fim de reconciliar-se com a Igreja, e assim normalizou-se a situação.

Embora o pontificado de Nicolau II tenha sido muito curto — apenas dois anos — marcou definitivamente a história da Igreja, ao instituir para todo o sempre, no Concílio de Latrão, em abril de 1059, que a eleição papal ficava reservada aos cardeais, isentando-a, assim, de ingerências e das ambições dos príncipes temporais:

“Decidimos — determina o decreto de Nicolau II — que, por morte do Soberano Pontífice da Igreja romana e universal, os cardeais-bispos regulem com o maior cuidado a questão do seu sucessor. Depois recorrerão aos cardeais-clérigos, ao restante do clero e ao povo, a fim de obterem o seu consentimento para a nova eleição. Que façam recair a sua escolha de preferência no seio da Igreja romana, se nela encontrarem um homem capaz; caso contrário, busquem-no em outra igreja” 8.

Com o decorrer dos séculos, os cardeais foram assumindo cada vez mais encargos na Cúria Romana, auxiliando, assim, o Papa no governo da Igreja. Um deles, por exemplo, é o do Tribunal da Penitenciaria Apostólica, que regula a concessão de indulgências e as matérias concernentes ao foro interno. “A origem deste tribunal deve ser procurada no século XII, quando a absolvição de certos delitos mais graves foi reservada ao Romano Pontífice. Sendo muitos os que acorriam em peregrinação a Roma para alcançar o perdão de seus pecados, ou enviavam seus pedidos por escrito, apresentando casos de consciência, decidiu o Papa delegar suas faculdades a um cardeal (paenitentiarius maior), o qual, desde o século XIII aparece estavelmente com o poder de absolver pecados e censuras, dispensar de irregularidades e impedimentos, comutar votos, etc. Tinha às suas ordens um regente da Penitenciaria, um consultor canonista, vários auditores para examinar as causas, além de outros oficiais inferiores (scriptores, distributores, correctores, sigillatores)” 9.

Modernização da Cúria Romana

No século XVI, Sisto V, em seu curto, mas profícuo pontificado, limitou a 70 o número de cardeais, mas promoveu ao mesmo tempo uma inovadora reforma da Cúria Romana, dividindo a administração da Igreja em quinze Congregações, dirigidas por cardeais. Essa estrutura, com as adaptações necessárias aos novos tempos, permanece essencialmente a mesma até hoje, demonstrando sua grande eficácia.

Atualmente, segundo a constituição apostólica Universi Dominici Gregis, de João Paulo II, os cardeais eleitores não devem ultrapassar o número de 120, e exercem o direito de voto até completarem oitenta anos de idade.

Das remotas eras em que uma pomba indicava aos fiéis o escolhido por Deus para governar a Igreja, até nossos dias, o Espírito Santo foi conduzindo com Seu sopro divino os acontecimentos, de forma a dar à Igreja sua bela fisionomia, como a descreve São Paulo, “toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5, 27).

“A carreira do Paraíso”

A criação de novos cardeais, como há pouco ocorreu, no Consistório de 24 de novembro, traz sempre à mente de todos a honrosa dignidade desse cargo eclesiástico, ficando por vezes num segundo plano outros aspectos não menos importantes de tão alta função.

Merecem, por isso, ser aqui mencionadas a título de conclusão as palavras de Dom Angelo Comastri, Cardeal Arcipreste da Basílica de São Pedro, à Radio Vaticano, nas quais o ilustre purpurado deixa transparecer o verdadeiro e sublime sentido do cardinalato:

“O cardinalato não modifica a vida, o cardinalato compromete a dar mais, compromete — se assim se pode dizer — a um heroísmo maior no viver a fidelidade à própria vocação. […] Não existem ‘carreiras’ na Igreja, mas existem chamados ao serviço. A única carreira na Igreja é a carreira ao Paraíso. Se não se chega lá, então se faliu, porque a finalidade da vida é alcançar o Paraíso. Tudo o mais é unicamente um chamado ao serviço: chamado a viver pelo Evangelho, porque é o bem único da vida; chamado a servir Jesus, porque é a nossa única esperança; chamado a anunciar ao mundo que há um só Salvador. Também o cardinalato serve para isso e somente para isso.”

1) CESARÉIA, Eusébio apud Darras, J.-E. Histoire Générale de L’Église. Paris: Louis Vives, 1876, t. 8, p. 116.

2) Idem, ibidem, p. 116.

3) LLORCA S.I, Bernardino. História de la Iglesia Católica. Madrid: BAC, 1953, t. II, p. 176.

4) ROHRBACHER. Histoire Universelle de L’Église Catholique. Lyon: Librairie Ecclesiastique de Briday, 1872, t. 6, p. 111.

5) Darras, J.-E. Histoire Générale de L’Église. Paris: Louis Vives, 1876, t. 21, p. 293.

6) Idem, ibidem, pp. 295-296.

7) Cf. ROHRBACHER. Histoire Universelle de L’Église Catholique. Lyon

O que é a Revelação?

Epifania significa “manifestação de Deus”. Esta solenidade do calendário litúrgico comemora a Revelação de Jesus aos Reis Magos.. A fim de aprofundarmo-nos no estudo da doutrina Católica apresentamos este artigo a fim de que o leitor conheça mais sobre a Revelação e assim compreenda melhor o que a Igreja comemora na Epifania do Senhor.

Lucas Alves Gramiscelli

Quantas e quantas vezes elevamos as vistas para o imenso firmamento erguido sobre nossas cabeças, e nossos olhos não alcançam as distâncias insondáveis dos inúmeros astros do Universo, e assim, nosso olhar se perde nas barreiras de nossa limitação? Qual o motivo pelo qual esse fenômeno se passa? Simplesmente porque nossos olhos são humanos e insuficientes, não abarcam todas as coisas. Por isso, seria plausível que alguém imaginasse, fizesse suposições, enfim, criasse teorias a respeito daquelas realidades que existem acima da atmosfera terrestre.
Imaginemos, por outro lado, um astrônomo que trabalhando com seu instrumento preferido, o telescópio, fosse mais além e sondasse as vastidões do sideral e conhecesse outra galáxia, um novo planeta, ou então, mais uma daquelas nebulosas feéricas; não seria natural que ele tivesse verdades para nos transmitir que para nós são desconhecidas? Verdades essas fundamentadas e fincadas na realidade, e, portanto com muito mais autoridade do que as simples hipóteses de uma pessoa qualquer que se pusesse a conjecturar sobre coisas que ignora.picture for post today
Pois bem, Deus não inventa teorias e nem forma opiniões sem fundamentos, pelo contrário Ele pode nos transmitir sem margem alguma de erro tudo o que quiser, porque não só vê e conhece, mas é Criador e Senhor de todas as coisas. Ele sim, nos revelou muitas verdades. E, as maravilhas – quase sempre inacessíveis à nossa débil razão -, que Ele nos fez conhecer, são muito maiores e transpõem diversas vezes tudo quanto há de natural, pois, o que Ele ensina são, sobretudo, verdades eternas e sobrenaturais . Assim sendo, é natural que Deus tenha verdades para nos ensinar. É a essa manifestação do Criador à criatura, esse, por assim dizer, levantar do “véu” que até então cobria e salvaguardava certas realidades, antes conhecidas e reservadas somente a Deus, e que em dado momento foram colocadas à disposição dos homens, que chamamos de Revelação.
Entretanto, Deus não é como um astrônomo que transmite a seus alunos sua bela ciência, mas como um Pai que ensina aos seus filhos com uma Bondade incomensurável. O instrumento pelo qual se faz conhecer não é somente um telescópio, porém, Sua própria Palavra Eterna, Imutável, e “mais penetrante do que uma espada de dois gumes” (Hb 4,12).
O que revelou? “Pela revelação divina quis Deus manifestar-se, comunicar-se a si mesmo e os decretos eternos da sua vontade a respeito da salvação dos homens, ‘para os fazer participar dos bens divinos, que superam absolutamente a capacidade da inteligência humana’”. O ápice desta revelação foi atingida quando o próprio Deus se fez homem para viver entre nós.
Era realmente importante que houvesse uma Revelação Divina? Sabemos que há dois caminhos – ambos bem iluminados – que nos faz subir até Deus: o primeiro é iluminado por uma lamparina chamada inteligência humana, que através de raciocínios, reflexões e meditações atinge certas verdades; o segundo é iluminado pelo fulgor de um raio, essa é a “via” da Revelação Divina. Entretanto, São Tomás de Aquino explica que era necessário existir para nossa salvação uma doutrina fundada na Revelação Divina, primeiro, porque estamos ordenados para Deus, como para um fim que ultrapassa a compreensão da razão, como diz Isaías: “O olho não viu, ó Deus, fora de ti, o que preparastes para aqueles que te amam” (Is. 64,3). Ora, é preciso que a pessoa, que dirige suas intenções e suas ações para um fim, antes conheça este fim. Era, pois, necessário para a salvação do homem que essas coisas que ultrapassam sua razão lhe fossem comunicadas por revelação divina.
Ademais, quando o ser humano conhece a Deus apenas com a luz da razão, encontra muitas dificuldades. Além do mais, não pode penetrar sozinho na intimidade do mistério divino. Por isso, Deus quis iluminá-lo com a sua Revelação, não somente sobre verdades que superam a compreensão humana, mas também sobre verdades religiosas e morais que, embora acessíveis por si à razão, podem ser assim conhecidas por todos sem dificuldade, com firme certeza e sem mistura de erro .
Os três Reis Magos, no mais longínquo Oriente, jamais teriam encontrado ao Menino Deus, se o mesmo Deus não tivesse lhes revelado através de uma estrela o caminho a seguir, da mesma maneira, a humanidade, que depois do pecado original vivia longe da pátria celeste, nunca teria chegado a um conhecimento de Deus, se Ele não tivesse revelado. Os olhos do corpo precisam de luz para ver as coisas da terra, e a razão, olho da alma, precisa da luz da revelação divina para ver as coisas de Deus.
Essa Revelação não é senão um corolário do imenso amor de Deus pelos homens, pois Seu amor não se limita quando, benevolamente, dá a existência para cada ser, mas ao contrário, se manifesta continuamente no decorrer dos séculos. “A história da salvação é a Revelação mais eloqüente e concreta do amor do Senhor; mais ainda, constitui o diálogo mais fascinante de amor entre Deus e o homem”.
Quando Deus se manifestou? “No intuito de abrir o caminho de uma salvação superior, manifestou-se a si mesmo desde os primórdios a nossos primeiros pais”.
O píncaro dessa revelação se encontra proclamado no Evangelho de São João, na frase que menciona o maior acontecimento de toda a história, que é a pedra angular sobre a qual todo o edifício da Revelação acha seu sustento e apoio: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 14). Durante o tempo em que essa Terra se dignou receber o próprio Criador feito homem, ela viu revelada a Sua face, Sua mentalidade, Sua majestade, Sua santidade, Sua Divindade . Pronto! Nada mais é preciso, tudo está revelado . Pois, como declarou São João da Cruz: “em dar-nos, como nos deu, seu Filho, que é sua Palavra única – e outra não há –, tudo nos falou de uma só vez nessa única Palavra, e nada mais tem a falar, (…) pois o que antes falava por partes aos profetas agora nos revelou inteiramente, dando-nos o Tudo que é seu Filho” . Foi essa a razão que levou São Bernardo a dizer que, a fé católica não é uma religião do livro, mas sim da Palavra de Deus, não de uma palavra escrita e muda, mas do Verbo Encarnado e vivo . Todavia, embora a Revelação esteja terminada, não está explicitada por completo, é dever da fé católica captar e desenvolver gradualmente sua doutrina ao longo dos séculos .
Entretanto, onde encontramos as verdades reveladas? Na Escritura, que é a Palavra de Deus Escrita; e na Tradição, que é a palavra de Deus não escrita, transmitida oralmente. A Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição constituem os dois modos distintos de comunicar essa revelação . Mas, para que se mantivesse protegido, conservado e unido os dados da Revelação, contidos na Bíblia e na Tradição, Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu o Sagrado Magistério, entregando à Igreja o múnus de ensinar (cf. Mt 28, 19.20).
Tudo isto veio da parte de Deus. E de nossa? O que Lhe retribuiremos? Devemos render-Lhe nossa eterna gratidão e amor por Ele nos ter colocado à disposição esse magnífico “telescópio” para assim podermos conhecer, admirar e contemplar os diversos aspectos desse Infinito Universo que é Ele, e também por nos ter oferecido a oportunidade de começarmos, já nessa terra, a participar de Sua glória até chegarmos à eternidade onde o fitaremos face a face. Pois, hoje O vemos como por um espelho e confusamente, mas um dia O veremos tal qual Ele é! (cf. 1Cor 13, 12; 1Jo 3,2).

Maria, virgem e mãe ao mesmo tempo

Iñigo Abbad – 1º Ano Teologia

“Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho” (Is 7, 14). Com estas palavras, Deus, pela boca do Isaias, oferecia um sinal para a casa de Davi. Certamente, Acaz, rei de Judá, ao ouvir aquilo que o profeta lhe dizia, não compreendeu que este oráculo se referia ao nascimento do Salvador. Entretanto, é provável que a causa maior de seu assombro se deva mais ao fato de escutar a aparente contradição que se encontra nestas palavras. Pois, com efeito, como pode uma mulher ser virgem e mãe ao mesmo tempo?
O que para os homens é impossível, para Deus é possível. Assim, quis Ele operar n’Aquela que havia de ser a Mãe do Verbo Encarnado um dos maiores milagres que houve e haverá em toda a história: unir em Maria, sua Filha Prediletíssima, a virgindade e a maternidade.
Denominada nos Evangelhos “a Mãe de Jesus” (Jo 2,1; 19, 25), Maria é aclamada, sob o impulso do Espírito, desde antes do nascimento de seu Filho, como a “Mãe de meu Senhor” (Lc 1, 43). Ora, Aquele que Ela concebeu do Espírito Santo como homem e que se tornou verdadeiramente seu Filho segundo a carne não é outro que o Filho eterno do Pai, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade. A Igreja confessa que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus (Theotókos).
No entanto, para perplexidade da inteligência humana, embora sendo Mãe de Deus, se manteve virgem antes, durante e depois do parto. De fato, como nos ensina a doutrina católica, desde as primeiras formulações da fé, a Igreja confessou que Jesus foi concebido exclusivamente pelo poder do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, afirmando também o aspecto corporal deste evento: Jesus foi concebido “do Espírito Santo, sem concurso de varão”. Os Padres da Igreja veem na conceição virginal o sinal de que foi verdadeiramente o Filho de Deus que veio numa humanidade como a nossa.
Assim, Santo Inácio de Antioquia, já no início do século II, afirmava: “Estais firmemente convencidos acerca de Nosso Senhor, que é verdadeiramente da raça de Davi segundo a carne, Filho de Deus segundo a vontade e o poder de Deus, verdadeiramente nascido de uma virgem”.
Os relatos evangélicos entendem a conceição virginal como uma obra divina que ultrapassa toda compreensão e toda possibilidade humanas. “O que foi gerado nela vem do Espírito Santo”, diz o Anjo a José sobre Maria (Mt 1, 20). A Igreja reconhece neste trecho do Evangelho o cumprimento da promessa divina dada pelo profeta Isaias: “a virgem conceberá…”
O aprofundamento de sua fé na maternidade virginal levou a Igreja a confessar a virgindade real e perpétua de Maria, mesmo no parto do Filho de Deus feito homem. Com efeito, o nascimento de Cristo “não lhe diminuiu, mas sagrou a integridade virginal” de Maria . A Liturgia da Igreja celebra Maria como a “Aeiparthenos”, ou seja, “sempre virgem”.
O olhar da fé pode descobrir, tendo em mente o conjunto da Revelação, as razões misteriosas pelas quais Deus, em seu desígnio salvífico, quis que seu Filho nascesse de uma virgem. Essas razões tocam tanto a pessoa e a missão redentora de Cristo quanto o acolhimento desta missão por Maria em favor de todos os homens.
A virgindade de Maria manifesta a iniciativa absoluta de Deus na Encarnação. Jesus tem um só Pai: Deus. “A natureza humana que Ele assumiu nunca o afastou do Pai […]. Por natureza, Filho de seu Pai, segundo a divindade; por natureza, Filho de sua Mãe, segundo a humanidade; mas propriamente Filho de Deus em suas duas naturezas”.
Jesus é concebido pelo poder do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, pois Ele é o novo Adão que inaugura a nova criação: “O primeiro homem, tirado da terra, é terrestre; o segundo homem vem do Céu (1Cor 15, 47)”. A humanidade de Cristo é, desde a sua concepção, repleta do Espírito Santo.
Deste modo, Jesus, o Novo Adão, inaugura por sua concepção virginal o novo nascimento dos filhos de adoção no Espírito Santo pela fé. A participação na vida divina não vem “do sangue, nem de uma vontade da carne, nem de uma vontade de homem, mas de Deus” (Jo 1, 13). O acolhimento desta vida é virginal, pois esta é totalmente dada pelo Espírito ao homem. O sentido esponsal da vocação humana em relação a Deus é realizado perfeitamente na maternidade virginal de Maria.
Maria é virgem porque sua virgindade é o sinal de sua fé e de sua doação sem reservas à vontade de Deus. É sua fé que lhe concedeu tornar-se a Mãe do Salvador: “Maria é mais bem-aventurada recebendo a fé de Cristo do que concebendo a carne de Cristo”.
Maria é ao mesmo tempo Virgem e Mãe por ser a figura e a mais perfeita realização da Igreja. “A Igreja […] torna-se também ela Mãe por meio da palavra de Deus, que ela recebe na fé, pois pela pregação e pelo Batismo ela gera para a vida nova e imortal os filhos concebidos do Espírito Santo e nascidos de Deus. Ela é também a virgem que guarda, íntegra e puramente, a fé dada a seu Esposo”.
A respeito da Virgem Mãe, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira diz que não há título maior que o de Mãe de Deus. Contudo, “Nosso Senhor Jesus Cristo preza tanto a virgindade que desejou fosse sua Mãe também virgem, operando em favor d’Ela um estupendo milagre que excede à nossa imaginação: Maria permaneceu virgem antes, durante e depois do parto.
“Segundo a bela comparação que fazem os teólogos, assim como Nosso Senhor saiu do sepulcro sem esforço e sem nada quebrantar, assim deixou Ele o claustro materno, sem detrimento da virgindade de Maria Santíssima”.

Mater Boni Consilii O Doutor Melífluo, São Bernardo, viu nesta extraordinária ação da Providência, isto é, ser Maria Virgem e Mãe ao mesmo tempo, um dos privilégios que mais distingue a virgem Santíssima de todas as outras criaturas:
“Não há coisa, na verdade, que mais me deleite, porém tampouco há que mais me atemorize, que o falar da glória da Virgem Mãe. Confesso minha imperícia, não oculto minha grande pusilanimidade. Porque […] se me ponho a louvar sua virgindade, descubro que muitas outras foram, depois d’Ela, virgens. Se me ponho a exaltar sua humildade, encontrar-se-ão talvez muito poucos, mas se acharão, que, a exemplo de seu Divino Filho, se fizeram mansos e humildes de coração. Se engrandeço a multidão de suas misericórdias, vêm-me à lembrança alguns homens e também mulheres que foram misericordiosos. Mas uma coisa há na qual Ela não teve antes par nem semelhante, nem o terá jamais, e foi em unir as alegrias da maternidade com a honra da virgindade. Ninguém duvida, com efeito, que se é boa a fecundidade conjugal, todavia é melhor a castidade virginal; pois bem, supera imensamente às duas a fecundidade virginal ou a virgindade fecunda. Privilégio é este próprio de Maria e que não se concederá jamais a nenhuma outra mulher. […] É prerrogativa singular d’Ela e por isto mesmo inefável: ninguém poderá compreendê-la, nem explicá-la.
“Que, dizer, então, se nos lembrarmos de quem Maria se tornou Mãe? Que língua, fosse mesmo angélica, seria jamais capaz de louvar bastante a Virgem Mãe? Mãe, não de um qualquer, mas de Deus. Duplo milagre, duplo privilégio, que de modo maravilhoso se harmonizam. Porque nem era digno da Virgem outro Filho, nem de Deus, outra Mãe”.
Semelhante é o pensamento de São Tomás de Aquino, ao comentar este versículo do Magníficat: “Porque em Mim fez grandes coisas o que é poderoso, e cujo nome é santo” (Lc 1, 49). “Que grandes coisas Vos fez?” — pergunta São Tomás — “Creio que [estas]: sendo criatura, daríeis à luz o Criador, e que sendo escrava, engendraríeis o Senhor, para que Deus redimisse o mundo por Vós, e por Vós também lhe devolvesse a vida. E sois grande, porque concebestes permanecendo virgem, superando por disposição divina, à natureza. Fostes reputada digna de ser mãe sem obra de varão; e não uma mãe qualquer, mas a do Unigênito Salvador.
“Diz, pois: ‘O que é poderoso’, para que se alguém duvide da verdade da Encarnação, permanecendo virgem depois de haver concebido, refere este milagre ao grande poder d’Aquele que o fez”.
Por outro lado, considerando o extraordinário fato de Maria conciliar em si a perpétua virgindade e a maternidade divina, exclama um piedoso autor do século passado:
“Ó Maria, Virgem Mãe, sois doravante um ideal que arrebatará todos os amantes da verdadeira beleza: Virgem Mãe, os doutores e os artistas tomar-vos-ão à porfia por tema de suas mais sublimes composições, e todos, após cansarem o próprio gênio, deporão a pena ou o pincel, sem ter podido exprimir tudo o que solicitava os ardores de seu anelo e os entusiasmos de seus sentimentos!”.
Difícil será abarcar num artigo todos os belos comentários que, no decorrer da História, estes e aqueles santos, místicos e teólogos fizeram a respeito deste maravilhoso milagre que Deus operou na Virgem Mãe. De fato, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira comentava que este mistério na vida de Maria santíssima só era possível numa,“alma de uma imensidade inefável, alma na qual todas as formas de virtude e de beleza existem com uma perfeição supereminente, da qual nenhum de nós pode ter uma ideia exata. […] [Ela reúne] numa perfeita harmonia contrastes aparentemente irreconciliáveis: é a Virgem Mãe, chamada a Virgem das Virgens, que poderia, muito lícita e validamente, também ser chamada a Mãe das Mães. Ninguém mais plenamente Mãe, Mãe por excelência, do que Ela. Ninguém mais plenamente Virgem, Virgem por excelência, do que Ela também”.


Quem foi o Batista e por que quis Jesus ser batizado?

Mons. João Scognamilio Clá Dias, EP

Uma voz clama no deserto

Cortando a antiga terra de Israel de norte a sul, o rio Jordão devia sua importância aos acontecimentos históricos que transcorreram ao longo de seu curso, mais do que ao fato de ser elemento indispensável para a manutenção da vida naquele árido território.

Fora ele palco de muitos milagres e assistira a cenas grandiosas, nas quais brilhara a justiça de Deus. Contudo, por volta do ano 28 de nossa era, o que ocorreu ali superava de longe todo o passado. João, filho do sacerdote Zacarias, deixou seu isolamento no deserto e passou a percorrer a região do rio, “pregando o batismo de arrependimento para a remissão dos pecados” (Lc 3, 3).

A corroborar sua autoridade moral, tinha o Batista sua vida de penitente do deserto, extraordinariamente santa e mortificada: “Andava vestido de pêlo de camelo e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.” Acrescia-lhe a reputação seu nascimento milagroso, de muitos conhecido.

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Mais ainda: sabido era entre o povo eleito que fora profetizada a vinda de um precursor do Messias: “Como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías: ‘Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’” (Lc 3, 4).

Suas exortações partiam, assim, de alguém com todas as credenciais de autenticidade para conduzir à conversão.

Grande comoção em Israel

Havia cerca de 400 anos que nenhum profeta fazia ouvir sua voz em Israel.

Nada mais explicável, pois, do que o alvoroço causado por São João Batista. De todos os lados afluíam multidões para ouvi-lo. Vendo-as diante de si, ele as admoestava, e suas palavras calavam fundo nas almas, levando muitas ao arrependimento: “Dizia ele: Fazei penitência porque está próximo o Reino dos céus” (Mt 3, 2).

Símbolo da purificação da consciência, necessária para receber esse “reino dos céus” que estava “próximo”, o batismo conferido por São João confirmava as boas disposições de seus ouvintes. “Confessavam seus pecados e eram batizados por ele nas águas do Jordão”, conta São Mateus (3, 6).

Israelitas de todas as classes acorriam ao profeta da penitência, dispostos a purificar o coração. Entretanto, havia também os opositores. Saduceus, fariseus e doutores da lei, que o viram inicialmente com bons olhos, não demoraram a votar-lhe profunda antipatia. Incomodados com sua extraordinária influência, irritados com as pregações, nas quais condenava os vícios em que eles incorriam, passaram a agir contra João. Questionaram seu direito de batizar e lhe prepararam armadilhas. Demonstrando grande sagacidade, São João não se deixou enlear.

Inexorável para com os hipócritas e os soberbos, o profeta mostrava-se doce com os sinceros e os humildes. “Preparai-vos!”, repetia incansavelmente, “abri a via do Senhor!”

Apareceram-lhe discípulos, que o assistiam em seu ministério, e que passaram a constituir um modelo de piedade mais fervorosa.

Enfim, sua pregação produzia um grande movimento popular rumo à virtude, como nunca se vira na história de Israel.

Encontro com o Messias

A missão do Precursor era preparar os caminhos do Messias. Vivia, portanto, na expectativa do encontro com Ele.

Não esperou muito tempo. Certo dia, notou a presença de Jesus no meio dos peregrinos. Tomado de sobrenatural emoção, inclinou-se para o recém-chegado, esquivando-se de Lhe dar o batismo: “Eu devo ser batizado por ti e tu vens a mim!”

Respondeu-lhe, porém, Jesus: “Deixa por agora, pois convém cumpramos a justiça completa”. Obediente, São João O imergiu no Jordão.

Logo que saiu da água, Jesus se pôs a orar. Então o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre Ele na forma de uma pomba. “E ouviu-se dos céus uma voz: Tu és o meu Filho muito amado; em ti ponho minha afeição”.

Missão encerrada

Algum tempo depois de batizar o Messias, São João caminha para o martírio, deixando a cena histórica, como ele mesmo havia predito: “Importa que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3,30). Entrara em cena o Salvador, estava cumprida a missão do Precursor. Restava-lhe apenas o derradeiro ato de sua grandiosa vida: o martírio.

Conforme afirma São Tomás de Aquino, “todo o ensinamento e a obra de João eram preparatórias da obra de Cristo, como a do aprendiz e do operário inferior é preparar a matéria para receber a forma que há de introduzir o principal artífice”.

Os grandes artistas tiveram aprendizes que pintaram as partes menos importantes de seus quadros, ocupando-se eles apenas dos aspectos essenciais. Também os grandes entalhadores tiveram auxiliares que afiavam as ferramentas, limpavam o ateliê, faziam as compras das madeiras apropriadas, etc.

Assim foi o trabalho de São João, preparando a vinda de Nosso Senhor.

Diante da altíssima vocação do Ba tista, os Doutores da Igreja exprimiram sempre grande admiração. São Tomás de Aquino, por exemplo, colocava João entre os profetas do Novo Testamento. Se o considerássemos do Antigo — dizia o Aquinate — seria maior que Moisés.

Já São Francisco de Sales vê João como profeta do Antigo Testamento, a última luz da Lei mosaica e — diz sem titubear — a maior.

De qualquer modo, a grandeza de João era tal que o próprio Jesus declarou ser ele mais que um profeta, acrescentando este elogio supremo: “Entre os nascidos das mulheres, não veio outro ao mundo maior que João Batista” (Mt 11, 11).

Por que Jesus quis ser batizado?

O batismo conferido por São João não era da mesma natureza que o Ba tismo sacramental, instituído posteriormente por Nosso Senhor Jesus Cristo. Provinha verdadeiramente de Deus, mas não tinha o poder de conferir a graça santificante. O próprio Batista pôs em realce a diferença: “Eu vos batizo na água, mas eis que vem outro mais poderoso do que eu, a quem não sou digno de lhe desatar a correia das sandálias; ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3, 16).

O efeito do batismo de João consistia num incentivo ao arrependimento dos pecados, explica São Tomás de Aquino.

Ora, em Jesus não havia sequer sombra de pecado, nem poderia haver, uma vez que Ele era o Homem-Deus. Não tinha, portanto, matéria para arrependimento e penitência. O que explica, então, que Ele tenha querido ser batizado?

Sujeitar-se à condição humana

Várias são as razões dadas pelos Padres e Doutores da Igreja

Eis uma delas: quando o Verbo se fez Homem, Ele quis se sujeitar às leis que regem a vida humana. Por exemplo, obedeceu às leis que estavam em vigor entre os judeus, sendo apresentado no Templo após seu nascimento, sofrendo a circuncisão, e cumprindo os ritos da Páscoa judaica. Assim, quis também receber o batismo penitencial de João. Perdido no meio da multidão, Jesus — inocente — submeteu-se a um rito destinado ao pecador: “Convém cumpramos a justiça completa”, justificou-se Ele perante o profeta.

Comentando essas palavras, Santo Agostinho diz que Nosso Senhor “quis fazer o que ordenou que todos fizessem”. E Santo Ambrósio acrescenta: “A justiça exige que comecemos por fazer o que queremos que os outros façam, e exortemos os outros a nos imitarem pelo nosso exemplo”.

Purificar as águas

Entre as dez razões enumeradas na Suma Teológica para o batismo de Jesus, São Tomás de Aquino coloca em destaque o objetivo da purificação das águas.

Citando Santo Ambrósio, diz o Doutor Angélico que “o Senhor foi ba tizado, não por querer purificar-se, mas para purificar as águas”. Desse modo, continua ele, as águas “purificadas pelo contato com o corpo de Jesus Cristo, que não conheceu o pecado, tivessem a virtude de batizar”. E conclui citando o mesmo argumento, de São João Crisóstomo, de que Jesus “deixou as águas santificadas para os que, depois, deveriam ser batizados”.

Temos aqui um interessante problema teológico-metafísico: por que razão Deus escolheu a água como matéria para o Batismo?

A água é um elemento rico em simbolismo. Por exemplo, é uma imagem da exuberância de Deus. Basta considerar que três quartas partes da superfície da Terra são constituídas por água.

Também é símbolo de vida. É elemento essencial para a manutenção de todos os seres vivos. Quanto mais abunda a água numa região, maior é a quantidade de plantas e animais que ali se desenvolvem. Além disso, ela é o elemento preponderante da matéria viva, de modo tal que o próprio corpo humano é composto, na sua maior parte, de água.

Podemos considerá-la também um símbolo da bondade, do carinho e da magnanimidade de Deus para com a humanidade. Agrada ao ser humano vê-la cair, em forma de chuva, cristalina, refrescante, tornando fértil o solo, favorecendo as plantações, limpando o ar.

Vista por outro prisma, tem ela uma potência descomunal de destruição. Apesar de toda a técnica moderna, e de um presunçoso progresso que se julgou capaz de um dia conseguir dominar os elementos da natureza, os homens se espantam e se aterrorizam com a força destruidora das águas. E ainda nisso ela é para nós um símbolo, o do poder onipotente de Deus.

Por sua capacidade de lavar, ela lembra a limpeza espiritual. Por diversas vezes a Sagrada Escritura assim a ela se refere, como no seguinte trecho: “Derramarei sobre vós águas puras, que vos purificarão de todas as vossas imun dícies e de todas as vossas abominações” (Ez 36, 25). Nessa passagem, o profeta Ezequiel prediz o batismo de São João e, mais especialmente, o Batismo sacramental, instituído por Jesus. Do mesmo modo, ele é referido por Zacarias, quando este diz: “Naquele dia jorrará uma fonte para a casa de Deus e para os habitantes de Jerusalém, que apagará os seus pecados e suas impurezas” (13, 1).

Nada mais conveniente, portanto, do que a água ser a matéria do Batismo. E nada mais adequado que Deus encarnado ter querido purificá-la pelo contato de seu sacratíssimo corpo.

Incentivo ao Batismo

Outro motivo, dos mais importantes, para o Senhor decidir sujeitar-se ao ritual do Jordão era estimular nos homens o desejo do Batismo sacramental.

A recepção do Batismo é necessária para a salvação, como demonstram as palavras de Jesus a Nicodemos: “Quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus” (Jo 3, 5). Pelo tom categórico da afirmação, avalia-se a importância desse Sacramento.

O batismo de João levava ao arrependimento dos pecados, mas não tinha o poder de perdoá-los. O Batismo sacramental, instituído por Jesus Cristo, tem efeitos infinitamente maiores.

Adão transmitiu a todos os seus descendentes a culpa original. O Sacramento do Batismo limpa a alma da mancha desse pecado, confere a graça santificante, eleva o homem à condição de filho de Deus e abre-lhe as portas do Céu. Ele é a chave de todos os outros Sacramentos, indispensáveis para o homem cumprir com fidelidade a Lei de Deus.

Tal é a grandeza e a eficácia do Sacramento do Batismo.

Exortação que permanece até o fim do mundo

“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29), declarou São João Batista a dois de seus discípulos, indicando Nosso Senhor Jesus Cristo que passava.

São João Evangelista e seu irmão, São Tiago, que até então haviam seguido fielmente o Batista, compreenderam que Jesus era Aquele ao qual deviam entregar suas vidas. E deixando seu antigo mestre, procuraram logo o Senhor, pedindo-Lhe permissão para O acompanharem e viver com Ele.

Pelos séculos dos séculos, essas pa lavras do grande “profeta da penitência” ressoarão no mundo, convidando todos os homens a também colocarem seus olhos no Divino Salvador, a se encantarem com a figura d’Ele e — como católicos fiéis — a seguirem seus mandamentos, até o momento em que forem chamados para estar definitivamente com Ele, na vida Eterna.