Administrar o tempo para uma boa homilia


Côn. Edson José Oriolo dos Santos,

Cura da Catedral Metropolitana de Pouso Alegre,

Vigário Episcopal para administração da crisma

Professor no ITTA

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A forma de pensar do ser humano na cultura e mentalidade contemporâneas, de certa forma, tomou a Igreja de surpresa. Vários exemplos poderiam ser dados para ilustrar a inaptidão eclesial diante da urbanização. Uma preocupação particular é propiciar boa participação nas celebrações eucarísticas a fim de que cristãos e cristãs se alimentem do pão da palavra e do pão da eucaristia.

Para atender necessidades e desejos de quem quer vivenciar o mistério pascal no sacramento da eucaristia, vem à tona o problema das homilias, particularmente do  “tempo” dedicado a elas.

A recente exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, n. 59, lembra que “A homilia constitui uma atualização da mensagem da Sagrada Escritura, de tal modo que os fiéis sejam levados a descobrir a presença e a eficácia da Palavra de Deus no momento atual da sua vida”.  Para que a homilia seja eficaz adverte: “Devem-se evitar tanto homilias genéricas e abstratas, que ocultam a simplicidade da Palavra de Deus, como inúteis divagações que ameaçam atrair a atenção mais para o pregador do que para o coração da mensagem evangélica”. E continua recomendando que, ao preparar uma homilia, o celebrante responda algumas perguntas: “O que dizem as leituras proclamadas?”; “O que dizem a mim pessoalmente?” e “O que devo dizer à comunidade, tendo em conta a sua situação concreta?”. Fica o desafio: como colocar em prática tudo isso?

Porém, há um aspecto que não pode passar despercebido: saber administrar bem o tempo para que a liturgia da palavra e a liturgia eucarística tenham uma relação de reciprocidade. Quem celebra deve administrar e saber gerenciar o tempo à disposição para que todos os elementos da celebração estejam bem situados e se respeite a importância de cada um deles.

Percorrendo um pouco a história da Igreja, percebemos que muitos pregadores deixaram suas marcas em relação ao tempo da pregação. As pregações de Máximo de Turim (primeiro bispo de Turim, escritor de teologia) não superavam onze minutos. Cesário de Arles viveu num período de transição da Antiguidade para a Idade Média e, como bispo, usava uma linguagem simples, compreensiva e suas homilias duravam nove minutos e as longas, quinze minutos.  Crisólogo, pregador impar, com magnífico dom da palavra, recebeu este nome que significa palavra de ouro. Suas pregações eram em torno de vinte minutos (cf. Dicionário de Homilética, pp. 1630 a 1637). Santo Agostinho costumava improvisar e suas pregações as quais duravam de nove a vinte e cinco minutos. Poucas vezes, passou de uma hora e meia ou chegou até duas horas. São João Crisóstomo, teólogo e escritor que possuía uma inflamada retórica, mesmo não tendo boa saúde, costumava improvisar e pregava em torno de cinco a dez minutos. Santo Ambrósio falava em torno de trinta ou quarenta minutos.

Em épocas posteriores vê-se que as homilias tornaram-se mais longas. Santo Antônio de Pádua geralmente falava quarenta e cinco minutos, chegando a duas horas. São Carlos Borromeu era prolixo em seus discursos e, se lidos, duravam geralmente mais de uma hora. Santo Antônio Maria Claret costumava falar uma hora ou uma hora e meia. Quando ultrapassava este tempo, chegava até a mais de duas horas e, às vezes, três horas.

Podemos perceber que, em média, o tempo de uma homilia nos primeiros tempso do cristianismo se aproximava de um quarto de hora (cf. Dicionário de Homilética, pp. 1630 a 1637). Com o exemplo destes grandes pregadores, acredito que hoje não devemos passar de quinze minutos nas homilias.

O tempo da homilia é limitado e precisa ser muito bem moderado. Administrar o tempo da homilia não significa ficar focado no relógio. De nada adianta falar pouco tempo se não se consegue passar as informações que falem ao coração dos ouvintes.

Hoje, precisamos falar com objetividade, isto é, falar pouco e ter capacidade de síntese. Falar o que interessa, mas sem pressa.

Nos momentos iniciais da pregação devemos apresentar o tema, identificando e delimitando o assunto de forma clara (três minutos). Os outros sete minutos serão usados para aprofundar o assunto com início e conclusão, e os três ou quatro minutos restantes, concluir.

Ajuda muito sempre lembrar o que disse Shakespeare: “Os homens de poucas palavras são os melhores. A brevidade é a alma da sabedoria”.

As pedras preciosas do Céu…


Poucas coisas do mundo material nos convidam tanto a ascender à esfera superior dos princípios e das ideias, até mesmo a sonhar de olhos abertos, como as estrelas…

Filipe de Matos Oliveira Torres

Quantas vezes, afastados do corre-corre diário, numa noite com o céu límpido e longe das luzes da cidade, não nos encantamos contemplando o firmamento celeste repleto de estrelas que cintilam misteriosamente? E quantas vezes não tivemos vontade de apalpá-las, saber do que são feitas, por que reluzem de maneira tão atraente?

A ciência define as estrelas como corpos celestes produtores e emissores de energia, com luz própria. A física nos elucida que são compostas de plasma e que, por causa de sua pressão interna, produzem energia por fusão nuclear.

Aceitamos a explicação, mas ela não nos contenta. Será que aqueles pontinhos tão fascinantes, que parecem criados para os nossos olhos contemplá-los e nossos dedos tocá-los, se reduzem a uma confusa massa de gás incandescente?

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Desde tempos imemoriais, os astrônomos estudaram as estrelas, as agruparam em constelações e lhes deram nome; por elas se guiavam viageiros, navegantes e povos em ­suas locomoções. O homem sempre as contemplou, analisou e sonhou com elas… Mas nunca conseguiu transpor as distâncias incomensuráveis que delas nos separam.

*     *     *

Contudo, podemos dizer que Deus não criou estrelas apenas na abóbada celeste, mas também na Terra. Deu-lhes formas, tamanhos, cores e brilhos os mais variados, e não as pôs a distâncias incalculáveis, mas, pelo contrário, ao alcance da mão, onde podem ser  admiradas bem de perto. Falamos das pedras preciosas…

Ao longo da História, os povos utilizaram diamantes, safiras ou ametistas para prestar homenagem aos seus soberanos. Ao incrustá-las em um cetro, ou em uma coroa, visavam simbolizar a autoridade do governante e manifestar sua riqueza e poder.

E a Igreja Católica, procurando circundar o Rei dos reis com toda a glória que lhe é devida, “coroou-O” com aquilo que na Terra há de mais belo e digno. Por isso vemos as pedras preciosas bem próximas a Nosso Senhor Sacramentado nos cálices e ostensórios, ou incrustadas em crucifixos e relicários, postas em destaque nos altares e imagens e em outros lugares de honra.

Trata-se da criatura louvando o Criador, do efeito que retorna à Causa. Uma vez que recebemos de Deus tantos benefícios devemos usá-los para adornar Seu culto com aquilo que de melhor Ele nos deu.

*    *    *

As pedras preciosas têm, ainda, graças à sua beleza e distinção, a possibilidade de simbolizar a maior e mais bela joia de Deus, Maria Santíssima, chamada no Ave Mundi de gemma cæli luminarium — joia entre as estrelas que refulgem no Céu.

E, de fato, o luminoso azul da safira ou o aveludado nácar da pérola não nos ajudam a compreender quem foi a um tempo Mãe e Virgem, criatura e Mãe do Criador, capaz de conter em si Aquele que o universo foi incapaz de conter?

Pensando bem em todo este elevado simbolismo, quase seríamos levados a dizer que não são as pedras preciosas estrelas da Terra, mas, sim, são as estrelas as pedras preciosas do céu…

ARAUTOS DO EVANGELHO, maio 2009, n. 89.

Comunicado de Imprensa

“Na quarta-feira, 11 de Maio passado, em Quito, a Administração do Vicariato manteve uma reunião com Dom Ángel Polivio Sánchez, Bispo de Guaranda, secretário da Conferência Episcopal Equatoriana e Delegado Pontifício para o Vicariato Apostólico de São Miguel de Sucumbíos.

sucumbios.blog.arautos

Nessa reunião foi exposta a dolorosa situação econômica em que se encontra o Vicariato, e a situação crítica da “Rádio Sucumbíos”, que pertence legalmente à Igreja Católica em Sucumbíos.

A falta de meios econômicos para seguir mantendo os quase 20 funcionários da Rádio Sucumbíos – que custam pouco mais de 12 mil dólares mensais – e a falta de recursos da própria Rádio que permitam mantê-la, obrigou-a a tomar uma séria de medidas administrativas.

De fato, a Rádio terminou o ano de 2010 com um déficit de 27 mil dólares e um processo trabalhista de 28 mil dólares que se arrasta desde a administração anterior. E a perspectiva para o ano de 2011 é de que haverá 80 mil dólares de déficit.

A principal preocupação da administração do Vicariato era de que não houvesse interrupção nas atividades da Rádio, dado o importante papel favorável que sempre teve em prol da população. E a única maneira que se encontrou para manter funcionando a Rádio foi promover a redução do pessoal, e substituir os funcionários por voluntários.

Consequentemente, a administração do Vicariato de Sucumbíos decidiu hoje entregar pessoalmente uma carta de demissão aos funcionários da Rádio. Apesar dos membros da Administração terem se apresentado com toda tranquilidade e calma e depois de uma reunião mantida com funcionários em que se explicava esta situação, estes não só não aceitaram esta disposição, como juntaram alguns de seus seguidores e decidiram tomar de forma ilegal a Rádio, expulsando os representantes do Vicariato por meio de agressões físicas e insultos.

O procedimento que a Administração utilizou é o que estabelece a lei. Levaram as cartas de demissão para notificar os funcionários assinadas pelo representante legal, Mons. Ángel Polibio Sánchez.

Os salários do mês de abril estavam todos em dia, e foi oferecido um cheque que liquidava todos os direitos dos funcionários até a presente data, com demissão imediata, conforme o que dispõe a lei, de acordo com o estabelecido previamente na Inspetoria do Trabalho.

Entretanto, os funcionários não só se negaram a assinar a demissão, alegando uma suposta ilegalidade de procedimento, como desprezaram os cheques que foram oferecidos a eles.

A administração do Vicariato solicitará agora às autoridades o cumprimento da lei. O objetivo da nova administração é manter a Rádio com todo o apoio social que realiza, através de voluntários, religiosos e com menos funcionários, de maneira que se permita mantê-la economicamente.

As solenes pompas da natureza

A alma humana é aquilo que admira. Será pela contemplação enlevada dos diversos cerimoniais da natureza que algo da grandeza divina do Criador penetrará em nossos corações.

Lucas Garcia Pinto

Quem parar um pouco para observar os fenômenos climáticos ou geológicos, com facilidade notará que nada do que se passa na natureza apresenta traços de intemperança, agitação ou precipitação. Nada sugere ao espectador frenesi ou abalo de temperamento. Pelo contrário, Deus pôs na ordem da criação tal sobriedade, tal majestade, tal solenidade, que se poderia dizer haver nesses fenômenos um cerimonial do universo, renovado a cada dia.

sunset

Ainda em se tratando de algo violento, como um vulcão em erupção, ou uma tempestade em alto-mar, o cenário é de pompa e nobreza.

Aquela coluna de fumaça do vulcão, que parece subir ao Céu como o incenso oferecido a Deus pela natureza, é sucedida pelo magma ígneo que escorre, encosta abaixo, solene, avassalador e… terrível.

Na tempestade, nuvens escuras toldam o firmamento, enquanto relâmpagos coruscam pelo horizonte, e trovões ameaçadores compõem o fundo musical deste grandioso espetáculo de cólera. De uma cólera majestosa e imponente.

Em resposta ao céu, o mar lança ao alto suas ondas, como que desafiando o firmamento. O rugido das vagas responde ao estrondo dos trovões. E o mar descarrega sua fúria sobre as rochas e penhascos, que lhe fazem resistência, defrontando com altivez a força das águas revoltas.

Magníficos reflexos da justiça divina!

Já nos pores-do-sol, é a bondade indizível do Criador que se manifesta com particular brilho e riqueza. Bem se entende o motivo pelo qual certos povos com veio contemplativo mais acentuado — como o indiano, por exemplo — se extasiam cada dia diante dos magníficos entardeceres. Com tanta exuberância se apresenta este fenômeno nas praias da misteriosa e atraente Índia, que famílias inteiras cobrem as areias para, quiçá, ouvir intuitivamente a mensagem que Deus quer lhes transmitir através das multicolores vestimentas do céu.

post sunset hoje

Diz-se que o homem é aquilo que come. Com mais propriedade, pode-se dizer que a alma humana é aquilo que admira. Será pela contemplação enlevada desses diversos cerimoniais da natureza que algo da grandeza divina do Criador penetrará em nossos corações.

Uma graça sempre ao nosso alcance


Quem tiver a infelicidade de cometer um pecado, e estiver impossibilitado de confessar-se logo, terá sempre um precioso recurso para reconciliar-se sem demora com Deus.

Lucas Garcia

Em sua infinita misericórdia, Deus põe à disposição de Seus filhos, para sua santificação, uma incomensurável quantidade de dons e graças. Alguns destes favores divinos, Ele os dispensa a todo e qualquer fiel. Outros, porém, em sua sabedoria, o Criador os reserva para algumas almas eleitas.

É o caso do dom da profecia, do de fazer milagres e de tantos outros, concedidos apenas em determinadas circunstâncias, de acordo com as necessidades da Santa Igreja.

Alguns pensam que a esta categoria especial de dons pertence a graça da contrição perfeita. Isto não é real. Muito ao contrário, esta graça está sempre ao alcance de todos os ­fiéis, sem qualquer exceção. Mais ainda, ela é de fundamental importância na vida espiritual de todo batizado.

Entre os livros que tratam do tema, destaca-se o do Padre Johann von den Driesch, intitulado A Contrição Perfeita – uma chave de ouro para o céu. Nele, esse fervoroso sacerdote da arquidiocese de Colônia expõe a doutrina católica a respeito, com a clareza do bom pedagogo e o ardor do apóstolo empenhado na salvação das almas.1

Elementos da contrição autêntica

A contrição — ou arrependimento — é a dor de alma que a pessoa sente por haver pecado; essa dor só é verdadeira quando o pecador detesta a má ação praticada e tem o propósito de não mais pecar. Por exemplo, se um ladrão se diz arrependido de um roubo cometido, mas não tem horror ao crime em si, nem faz o propósito de se corrigir, não se pode afirmar que esteja contrito.

Para ser autêntica, a contrição precisa ser interna, ou seja, provir de fato da alma, não pode reduzir-se a meras palavras pronunciadas sem reflexão. Deve também ser geral, isto é, abranger todos os pecados, ao menos todos os pecados mortais. É necessário, por fim, que ela seja sobrenatural, quer dizer, que tenha por base alguma verdade da Fé: o temor de Deus que tem o direito de ser obedecido, o amor de Deus que nos ama, o desejo do Céu, o medo do inferno, etc.

Se alguém assalta um banco e depois se arrepende porque está em risco de ser preso, isso não é autêntica contrição, pois se baseia em motivos meramente naturais.

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Sua essência: a vontade de afastar-se do pecado

Como acima dissemos, a graça do arrependimento está ao alcance de todos. Para obtê-la, basta manifestar a Deus com sinceridade de alma o seu pesar por tê-Lo ofendido e o firme propósito de não tornar a pecar.

“A essência da contrição está na alma, na vontade de afastar-se deveras do pecado e converter-se a Deus”, afirma o Padre Johann von den Driesch.

Contrição perfeita e imperfeita

A contrição de um pecador pode ser perfeita ou imperfeita, dependendo dos motivos que o levem a tê-la.

A contrição perfeita procede do amor: o pecador se arrepende pelo fato de ter ofendido a Deus, infinitamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas.

Imperfeita é a contrição que decorre do temor: a pessoa aborrece o pecado pelo medo de perder o Céu e ser lançada no inferno. Por que é chamada de imperfeita? Porque nela o pecador toma em consideração principalmente a si mesmo, e não a Deus.

Exemplos de verdadeira contrição

Vejamos um belíssimo exemplo de contrição perfeita, tirado do Evangelho.

No pátio da casa do sumo sacerdote Caifás, São Pedro negou três vezes a Jesus. Em seguida, saiu e “chorou amargamente” (Mt 26, 75).

Por que chorou São Pedro? Se fosse pelo fato de passar vergonha diante dos outros Apóstolos, seria uma dor meramente natural, não existiria verdadeira contrição. Se fosse por medo de ser excluído do Reino de Cristo, ele teria uma contrição autêntica, mas imperfeita.

Ele chorou, porém, por um motivo muito elevado, como diz o Padre von den Driesch: “Pedro arrepende-se e chora, antes de tudo, porque ofendeu a seu amado Mestre, tão bom, tão santo, tão digno de ser amado […]. Tem, pois, verdadeira e perfeita contrição”.

Os Evangelhos nos narram mais um magnífico exemplo de contrição perfeita: o da pecadora que se prostra aos pés de Jesus, banha-os com suas lágrimas, enxuga-os com seus cabelos, beija-os e, por fim, os unge com perfumes. E o Divino Mestre declara que “seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela muito amou” (Lc 7, 47).

Contrição perfeita e confissão

Que pela contrição perfeita o pecador obtém o perdão dos seus pecados antes mesmo de confessar-se, é doutrina afirmada no Concílio de Trento (14ª sessão, cap. 4).

Entretanto, adverte o mesmo Concílio, ela não dispensa o pecador da necessidade de acusar-se de todos os seus pecados mortais no Sacramento da Confissão e de receber a absolvição do ministro de Deus. De modo que no próprio ato de contrição perfeita deve estar incluído o propósito de confessar-se.2

Quanto tempo depois? É pelo menos muitíssimo aconselhável confessar-se logo que possível.

“Mas é tão difícil ter contrição perfeita!” — poderá alguém pensar.

Puro engano! Para dar-nos essa graça, Deus exige de nós uma atitude bem ao nosso alcance: desejá-la realmente e pedi-la com insistência. O Padre Johann von den Driesch  sugere, entre outras, esta curta oração: “Senhor, dai-me a graça do perfeito arrependimento, da perfeita contrição dos meus pecados”. A quem assim pede, com boa vontade e de coração sincero, Deus não deixará de atender.

Efeitos da contrição perfeita

São maravilhosos os efeitos e benefícios que a contrição perfeita nos obtém.

A quem é pecador, ela perdoa imediatamente os pecados cometidos, devolvendo-lhe a graça santificante pela qual ele volta a ser filho de Deus, livrando-o das penas do inferno e restituindo-lhe os méritos perdidos.

Dir-se-á, então, que a contrição perfeita beneficia apenas a quem cometeu pecado mortal. Não é verdade, pois ela robustece o estado de graça naqueles que não o perderam. Cada ato de contrição perfeita aumenta o grau da graça santificante em nossa alma, tornando-a mais formosa aos olhos de Deus!

*     *     *

Eis aí, leitor, um imenso dom que Deus deixou ao nosso alcance. Saibamos bem aproveitar esta dádiva celeste, procurando fazer diariamente muitos atos de contrição perfeita. Pois, além dos benefícios enumerados acima, quem se habitua a fazê-los com freqüência os repetirá, por assim dizer, instintivamente na hora da morte. Portanto, uma prática benéfica também nos casos de pecados veniais, ou até mesmo quanto às imperfeições.

Saibamos aproveitar a imensa bondade do Criador que nos dá essa misericordiosa oportunidade de nos apresentarmos diante dEle inteiramente limpos de pecado! ²

1 Driesch, Johann von den. A Contrição Perfeita – uma chave de ouro para o céu, Tip. São Francisco, Bahia, 1913.

2 Cf. DENZINGER – HÜNERMANN, n. 1677.

ARAUTOS DO EVANGELHO, N. 84, DEZ 2008.

As vestes e as cores litúrgicas


Os paramentos utilizados pelo sacerdote durante a celebração da Santa Missa pretendem ilustrar o que significa “revestir-se de Cristo”, falar e agir “in persona Christi”.

Pe. Mauro Sérgio da Silva Isabel, EP

É natural que cada sociedade ou conjunto humano procure encontrar uma forma de vestir-se que de algum modo o defina e diferencie. Pensemos, por exemplo, nos trajes típicos das diversas regiões europeias, cuja variedade até hoje nos surpreende.

Lembremos também os vestuários de certas profissões, como a toga do magistrado, ou o gorro do cozinheiro, um “trambolho” pouco prático que, entretanto, caracteriza perfeitamente quem com ele se cobre.

As roupas têm, pois, uma dimensão simbólica que ultrapassa sua mera utilidade prática. Mais do que cobrir e proteger o corpo, elas revelam a situação, o estilo e a mentalidade de quem as veste.

Assim, o branco do vestido nupcial representa a virgindade da donzela, e a riqueza dos seus adereços visa realçar a importância do compromisso matrimonial, abençoado por Deus com um Sacramento. O saial e o tosco cordão do franciscano lembram seu casamento místico com a “Dama Pobreza”, enquanto o vermelho vivo da batina cardinalícia indica aalta dignidade do membro do Sacro Colégio e evoca seu propósito de, se for necessário, derramar seu próprio sangue pelo Sumo Pontífice.

Os paramentos sacerdotais: “Revestir-se de Cristo”

Este simbolismo que podemos apreciar na vida cotidiana, verifica- -se com muito maior intensidade nas vestes litúrgicas, especialmente nas da Celebração Eucarística.

Ao ser ordenado, o sacerdote reveste- se de Cristo, e esse fato é representado em cada Santa Missa. Conforme ressaltou Bento XVI na Missa Crismal de 5 de abril de 2007, vestir os paramentos litúrgicos é entrar sempre de novo “naquele ‘já não sou eu’ do Batismo que a Ordenação sacerdotal nos dá de modo novo e ao mesmo tempo nos pede. O fato de estarmos no altar, vestidos com os paramentos litúrgicos, deve tornar claramente visível aos presentes e a nós próprios que estamos ali ‘na pessoa do Outro’”.

Depois de afirmar que as vestes sacerdotais são uma profunda expressão simbólica do que significa o sacerdócio, o Papa acrescentou: “Portanto, queridos irmãos, gostaria de explicar nesta Quinta-Feira Santa a essência do ministério sacerdotal, interpretando os paramentos litúrgicos que, precisamente, pretendem ilustrar o que significa ‘revestir-se de Cristo’, falar e agir in persona Christi”.

Através das explicações do Papa, procuremos conhecer melhor cada um dos paramentos utilizados pelo sacerdote durante a Missa.

O olhar do coração deve dirigir-se ao Senhor

Após lavar as mãos, pedindo a Deus para “limpá-las de toda mancha”, o sacerdote coloca o amicto ao redor do pescoço e sobre os ombros, rezando: “Imponde, ó Senhor, sobre minha cabeça o elmo da salvação, para defender-me de todos os assaltos do demônio”.

O nome deste paramento provém do latim amictus (cobertura, véu) e sua origem remonta ao século VIII.

Sobre seu simbolismo, afirma Bento XVI na mencionada homilia: “No passado — e nas ordens monásticas ainda hoje — ele era colocado primeiro sobre a cabeça, como uma espécie de capuz, tornando-se assim um símbolo da disciplina dos sentidos e do pensamento, necessária para uma justa celebração da Santa Missa”.

Logo a seguir, o Papa dá exemplos concretos dessa “disciplina dos pensamentos e sentidos” que o sacerdote deve manter durante a celebração do Santo Sacrifício: “Os pensamentos não devem vaguear atrás das preocupações e das expectativas da vida cotidiana; os sentidos não devem ser atraídos pelo que ali, no interior da Igreja, casualmente os olhos e os ouvidos gostariam de captar. O meu coração deve abrir-se docilmente à palavra de Deus e estar recolhido na oração da Igreja, para que o meu pensamento receba a sua orientação das palavras do anúncio e da oração. E o olhar do meu coração deve estar dirigido para o Senhor que está no meio de nós”.

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A alva: lembrança da veste de luz recebida no Batismo

Durante os primeiros séculos do Cristianismo, o vestuário dos eclesiásticos era idêntico ao dos leigos.

Em plena perseguição religiosa, a prudência os aconselhava a evitar qualquer sinal que denunciasse aos agentes do governo seu “delito” de pertencer à Igreja e adorar o único Deus verdadeiro, infração punida com a morte naquela época.

No século VI, entretanto, deu-se no vestuário dos leigos uma transformação completa. Enquanto os romanos, influenciados pelos bárbaros que invadiram o Império, adotaram a veste curta dos germanos, a Igreja manteve o uso latino das longas vestimentas, as quais tornaram-se o traje distintivo dos clérigos e pouco a pouco ficaram reservadas para as ações sagradas.

Daí provém, entre outras, a alva, uma túnica talar branca. Ela é a veste litúrgica própria do sacerdote e do diácono, mas podem trajá-la também os ministros inferiores, quando devidamente autorizados pela autoridade eclesiástica. Ao revestir-se dela, o sacerdote reza: “Purificai-me, ó Senhor, e limpai meu coração para que, purificado pelo sangue do Cordeiro, possa eu gozar da felicidade eterna”.

Essa oração alude à passagem do Apocalipse: os 144 mil eleitos “lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro” (Ap 7, 14). Evoca também o vestido festivo que o pai deu ao filho pródigo, quando este voltou sujo e andrajoso à casa paterna, bem como a veste de luz recebida no Batismo e renovada na Ordenação sacerdotal.

Na mencionada homilia, o Papa explica a necessidade de pedir a Deus essa purificação: “Quando nos aproximamos da Liturgia para agir na pessoa de Cristo, todos nos apercebemos de quanto estamos longe dEle, de quanta sujeira existe em nossa vida”.

O cíngulo da pureza e a estola da autoridade espiritual

Revestido da alva, o sacerdote cinge- se com o cíngulo, um cordão branco ou da cor dos paramentos, símbolo da castidade e da luta contra as paixões desregradas. Enquanto o prende à cintura, o ministro de Deus eleva a Ele esta prece: “Cingi-me, Senhor, com o cíngulo da pureza e extingui meus desejos carnais, para que permaneçam em mim a continência e a castidade”.

Em seguida, reveste-se da estola, uma faixa do mesmo tecido e da mesma cor da casula, adornada de três cruzes: uma no meio e as outras duas nas extremidades. Ela simboliza a autoridade espiritual do sacerdote e, de outro lado, o jugo do Senhor, que ele deve levar com coragem, e pelo qual há de recuperar a imortalidade.

O padre a coloca em torno do pescoço, depois a cruza sobre o peito e passa por baixo do cíngulo, enquanto reza: “Restaurai em mim, Senhor, a estola da imortalidade, que perdi pela desobediência de meus primeiros pais, e, indigno como sou de aproximar-me de vossos sagrados mistérios, possa eu alcançar o gozo eterno”.

O jugo do Senhor, simbolizado pela casula

Por último, coloca a casula, que completa a indumentária própria à celebração da Santa Missa. A oração para vesti-la também faz referência ao jugo do Senhor, mas lembrando o quanto este é leve e suave para quem o carrega com dignidade: “Ó Senhor, Vós que dissestes: ‘Meu jugo é suave e Meu peso é leve’, fazei que eu seja capaz de levar esta vestimenta dignamente, para alcançar a Vossa graça”.

Ensina-nos, a este propósito, o Santo Padre: “Carregar o jugo do Senhor significa, antes de tudo, aprender dEle. Estar sempre dispostos a ir à Sua escola. DEle devemos aprender a mansidão e a humildade, a humildade de Deus que se mostra no Seu ser homem.

[…] O Seu jugo é o de amar com Ele.

Quanto mais amarmos, e com Ele nos tornarmos pessoas que amam, tanto mais leve se tornará para nós o Seu jugo aparentemente pesado”.

As cores litúrgicas

Tudo na Liturgia da Igreja é rico em simbolismos. Isto se nota também nas cores dos paramentos sagrados, as quais variam de acordo com o tempo litúrgico e as comemorações de Nosso Senhor, da Virgem Maria ou dos Santos. Basicamente, são quatro as cores litúrgicas: branco, vermelho, verde e roxo. Além destas, há quatro outras que são opcionais, isto é, podem ser usadas em circunstâncias especiais: dourado, rosa, azul e preto.

O branco simboliza a pureza e é usado nos tempos do Natal e da Páscoa, bem como nas comemorações de Nosso Senhor Jesus Cristo (exceto as da Paixão), da Virgem Maria, dos Anjos e dos Santos não-mártires.

O vermelho, símbolo do fogo da caridade, usa-se nas celebrações da Paixão do Senhor, no domingo de Pentecostes, nas festas dos Apóstolos e Evangelistas, e nas celebrações dos Santos Mártires.

O verde, sinal de esperança, é usado na maior parte do ano, no período denominado Tempo Comum.

Para os tempos do Advento e da Quaresma, a Igreja reservou o roxo, a cor da penitência. E estabeleceu duas exceções, que correspondem a dois interstícios de alegria em épocas de contrição: no 3º domingo do Advento e no 4º domingo da Quaresma, o celebrante pode trajar paramentos rosa.

Em circunstâncias solenes, podese optar pelo dourado em lugar do branco, do vermelho ou do verde.

Em alguns países é permitido utilizar o azul, nas celebrações em honra de Nossa Senhora. E nas Missas pelos fiéis defuntos o celebrante pode escolher entre o roxo e o preto.

* * * Revestido assim, de acordo com as sábias determinações da Santa Igreja, o sacerdote sobe ao altar para o Sagrado Banquete, tornando claro a todos, e a si mesmo, que está atuando na pessoa de Outro, ou seja, de Nosso Senhor Jesus Cristo.

(Revista Arautos do Evangelho, Abril/2009, n. 88, p. 48 à 51)

A Santíssima Virgem e a Nova Evangelização

Marcos Eduardo Melo dos Santos

Ao longo dos séculos, de acordo com o sopro do Espírito Santo e os embates contra as heresias, o conhecimento da Santíssima Virgem aprofundou-se em três aspectos primordiais: cristológico, espiritual e eclesiológico.

É verdade que desde a primavera da Igreja estas três formas de considerar a Mariologia subsistiram concomitantemente, mas, cada uma delas reluziu com maior ou menor intensidade.12599 copy

Durante as lutas para estabelecer as sublimes verdades sobre a divindade e a humanidade de Cristo, o aspecto cristológico da devoção a Nossa Senhora se consolidou sobretudo em Éfeso, no ano de 431, com a proclamação de Maria como Mãe de Deus. Deste dogma fundamental para a Mariologia, sucederam-se a declaração de sua tríplice virgindade, sua conceição imaculada e sua assunção aos céus. Em fim, todos os privilégios da Santíssima Virgem foram ressaltados em razão da cristologia, convenientes a Maria em razão de seu Divino Filho.

Por outro lado, a partir da época de ouro da Patrística, a devoção a Nossa Senhora foi consolidada com novo fermento dos santos medievais e modernos ocupando progressivamente um papel central na vida espiritual de todo católico. As grande aparições de Maria durante os século XIX e XX, assim como a canonização de santos marianos, lograram o aprofundamento da espiritualidade mariana, de seu papel junto a cada fiel, como medianeira amorosa e “infalível”, capaz de salvar o cristão de todos os apuros da existência.

Dir-se-ia que o conhecimento de Maria atingia assim seu ponto culminante, porém, a partir da época pré-conciliar, Ela passou a ser considerada por muitos teólogos em sua função social no Corpo Místico de Cristo; primeiro como corredentora e por fim como medianeira universal de todas as graças. Assim a mariologia clamava um aprofundamento no âmbito eclesiológico.

E de fato, os teólogos do Vaticano II, seguindo o impulso patrístico consideraram a mariologia como eclesiologia. A Igreja é virgem e mãe, é concebida sem pecado e carrega o peso da história, sofre como Mãe das Dores, e, no entanto, já foi assunta ao céu[1]. No desenvolvimento sucessivo da eclesiologia, a Igreja é antecipada em Maria, em Maria é personificada e que, reciprocamente, a Santíssima Virgem não é considera somente como Mãe do Redentor, mas como trazendo em si todo o mistério da Igreja[2]. Assim, a antiga visão patrística de Maria como imagem da Igreja foi recuperada pelo Vaticano II. A Lumen Gentium finaliza-se com a proclamação de Maria como Mãe da Igreja[3].

A Santíssima Virgem intervem na História. Sua ação é percebida especialmente a partir da Idade Média, quando um processo de descristianização irrompeu sobre o ocidente. Especialmente em nosso tempo, Maria ampara a Igreja com seu maternal olhar e assim beneficia a Nova Evangelização através de sua mediação universal e onipotente.


[1] Cf. RATZINGER, Joseph. Iglesia, ecumenismo y política. Madrid: BAC, 2005. p. 6

[2] Cf. RAHNER, Hugo. Our Lady and the Churrch. Bethesda:  Zaccheus Press, 2004.

[3] Cf. LG 66-69

Deus existe?


Pe. Mauro Sérgio da Silva Isabel, EP

Há cerca de dois séculos, a Igreja Católica foi vítima de uma das maiores perseguições de sua história. A assim chamada humanista, gloriosa e libertadora Revolução Francesa custou para a Esposa de Cristo mais de dois mil sacerdotes assassinados, religiosas profanadas e torturadas até a morte, igrejas saqueadas, povoados inteiros destruídos por fidelidade ao cristianismo[1].

A França passou assim a viver num ambiente todo feito de aversão à Religião e, portanto, a Deus. Meninos e meninas começaram a ser educados na total independência do Criador. E num pequeno povoado desse país, cujo nome a história esqueceu, deu-se um impressionante episódio.French Revolution

Um menino contempla o pôr do sol

Uma família inteiramente entregue aos novos costumes pagãos dispôs que seu único filho fosse cobaia para uma comprovação diabólica: as pessoas, diziam, se tornavam crentes devido à educação que recebiam; mas se um menino fosse criado na total ignorância de Deus e de tudo o que Lhe dissesse respeito, jamais possuiria a fé.

Assim, os três membros da família isolaram-se do mundo em uma ilha deserta, com a severa proibição de jamais falarem ao menino sobre Deus.

Os anos se passaram calmamente naquele lugar improvisado sem que jamais ninguém rompesse a regra imposta para a educação do menino. Este, por sua vez, vivia na “alegria” de sua infância, sem se dar conta da malévola intenção de tantos incrédulos.

Quando atingiu a idade de 12 anos acostumou aventurar-se pelas perigosas e selvagens montanhas daquela ilha. Em sua inocência contemplava das alturas as vastidões do mar que iluminava com seus generosos raios o oceano, a ilha e o menino.

Certo dia, ele causou preocupação especial a seus pais por haver desaparecido por longo tempo, sem deixar qualquer rastro de seu paradeiro. Ao cair da tarde, a aflita mãe, chorando de desespero, rogou ao esposo que fosse à procura do filho antes que a escuridão viesse a cobrir toda a ilha, e o menino não encontrasse mais o caminho de volta.

Repetidas vezes o pai retornava ao lar à busca de algum sinal, mas nenhuma notícia havia chegado. Resolveu, por fim, fazer a última tentativa do dia. Dirigiu-se então apressadamente ao pico mais alto da ilha, onde nunca havia ido por causa do afastamento do lugar.

Após laboriosa procura, o pai exausto depara-se com uma cena verdadeiramente comovedora: o menino estava sentado sobre uma alta pedra e contemplava o pôr do sol. Aproximando-se lentamente, nota que o filho estava chorando. E de seus lábios inocentes ouve brotar esta oração: “Ó sol, mande um beijo Àquele que criou a ti e a mim!”.

Comovido, o pai abraçou seu filho e o levou de volta, não mais ao obscuro esconderijo da ilha, mas à verdadeira casa paterna.  Deus de fato existe; e Ele se revelou ao menino!

Como se passou isso: que um jovem abandonado, sem nenhuma instrução religiosa, chegasse a conhecer a Deus?

O coração humano e o esplendor do universo

Certamente em momentos de solidão o menino indagara, como qualquer outro ser humano o faz, em determinado momento de sua existência, sobre o sentido da vida: Por que e para que fui criado? Onde se encontra a verdadeira felicidade? Por que há sofrimentos nesta Terra? O que acontece após a morte? Quem fez o sol, a lua e as estrelas?

Estas questões revelam como a alma aspira chegar à Causa primeira de tudo, a partir das causas segundas. O menino chagara ao conhecimento da existência de Deus através do livro da criação (Cf. Rm 1,19). Como aquele adolescente da ilha deserta, levamos dentro de nós um instinto que nos impele a algo de superior. O desejo de felicidade e de eternidade que carregamos não é senão o instinto que busca a Deus, da mesma maneira que um vegetal vive à procura do sol. Esse é um dom implantado no coração humano[2].

“O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar”.[3]

Entretanto, não é somente dentro do coração humano que podemos encontrar a Deus. Também no esplendor da criação Ele se revela: “Os céus narram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos”.[4]

Quem nunca parou para contemplar a magnificência de um pôr do sol, a grandeza dos mares, o esplendor das estrelas? Quem não reconhece nisto a mão de um ser infinitamente superior a nós?

É poética e muito conhecida a expressão bíblica, pela qual Deus compara a descendência de Abraão com as estrelas do céu e com as areias do mar. Sempre se acreditou que o número de grãos de areia superasse de longe o das estrelas; entretanto, com o avanço científico da astronomia, atualmente afirma-se o contrário.

A magnitude quase infinita do espaço sideral, com estrelas de um tamanho descomunal movendo-se em velocidades espantosas e com uma precisão matemática, tem levado os cientistas, mesmo ateus, a reconhecerem a mão de uma sabedoria que tudo governa. O fato de comprovarmos que, em meio a tanta grandeza, não se acha sinal de vida a não ser no planeta em que vivemos, é de deixar-nos ainda mais admirados na busca de uma causa suprema.

Nesse sentido nos ensina São Tomás de Aquino: “permanece no homem, ao conhecer o efeito, o desejo de saber que este efeito tem uma causa e de saber o que é a causa”.[5]

Todo efeito provém de uma causa anterior. De fato, se uma pessoa, caminhando por uma praia deserta, encontrasse um belo castelo de areia, jamais julgaria ter sido ele formado pelo vento aliado ao impulso das águas. E logo concluiria não estar aquela praia tão deserta como pensava e que algum ser humano, com dons artísticos, também passou por ali.

E como teríamos coragem de afirmar que o esplendor e a ordenação de todo esse universo que contemplamos, não foi criado e não é governado por uma inteligência superior?

Por isso São Paulo censura aos romanos não terem, através das coisas visíveis, conhecido o Criador que se deixa revelar em suas obras[6].

Deus dirige os passos do homem

Deus sempre se deixou revelar aos que buscaram com retidão qualquer forma de bem. A humanidade registra em sua história, até os dias de hoje, as expressões mais variadas de sua crença em algo divino que criou e governa todas as coisas. De fato, sempre houve em todos os povos de todas as épocas manifestações de um comportamento religioso (orações, sacrifícios, cultos, meditações etc.) que comprovam o quanto o homem pode ser chamado um ser religioso[7].

Entretanto, muitas coisas concorrem para que as pessoas percam a fé em Deus. A primeira delas é a revolta contra os males existentes no mundo[8]. Vemos em nossos dias uma proliferação cada vez mais intensa de crimes, violências, injustiças, corrupções etc., aliados muitas vezes ao mau exemplo dos crentes. Se Deus existe, por que permite isso? Já que é Ele o criador de todas as coisas, então é também o autor de todo mal que se estadeia aos nossos olhos.

A resposta é simples. Assim como a escuridão é a ausência de luz, e o frio, a falta de calor, o mal é a ausência do amor de Deus nos corações humanos. Ademais, Deus, sendo a própria Bondade, jamais permitiria algo de mal em suas obras, sem que pudesse deste mal tirar o bem[9].

É tão óbvia a existência de Deus que somente os “insensatos” a impugnam[10]. Entretanto, há outro tipo de ateísmo reinante em nossos dias, que afirma a existência de Deus, mas vive como se Ele não existisse. É o chamado ateísmo prático: Deus criou o mundo e o homem, mas depois abandonou o ser humano para que se governe a si mesmo, conforme seu livre arbítrio.

Ora, isso não pode ser verdade. Deus é Rei e Senhor da história e participa ativamente da luta de cada homem, está presente nos acontecimentos e orienta-nos constantemente: “O Senhor é quem dirige os passos do homem”.[11]

Até os cabelos de nossa cabeça estão todos contados. Se o homem se afasta de Deus é porque, devido às preocupações com as coisas do mundo e as riquezas[12], quer fugir do chamado divino e das obrigações inerentes à sua crença.

Se Deus não tiver parte em nossa vida, passaremos nossa existência sem saber o que procuramos, decepcionados com o que encontramos e frustrados com o que realizamos. Só Deus pode preencher o vazio que sentimos e dar-nos uma vida eterna e feliz: “Criaste-nos, Senhor, para Ti, e nosso coração está inquieto até que descanse em Ti”[13].


[1] Cf. TEULÓN, Jorge Lopez. El santo cura de Ars. Madrid: EBIDESA. 2009.

[2] Cf.  Rm 1,19

[3] CIC, 27

[4] Sl 18,2

[5] Suma Teológica, I-II, q.3, a.8.

[6] Rm 1,20

[7] Cf. CIC, 28

[8] Cf. Gaudium et spes, 19-21

[9] Cf. Suma Teológica, I-I, q.2, a.3.

[10] “Diz o insensato: Deus não existe! (Sl 14,1).

[11] Prov 20,24

[12] Cf. Mt 13,22

[13]AGOSTINHO, Santo. Confissões, livro I, cap. 1

Congresso “Giuseppe Siri, Chiesa, cultura, politica da Genova al mondo”.

home   Cardinal Giuseppe Siri

O Istituto Luigi Sturzo promoveu no Palazzo Baldassini (Roma), entre os dias 12 e 15 de abril, o congresso Giuseppe Siri, Chiesa, cultura, politica da Genova al mondo.

Grandes nomes do mundo acadêmico eclesiástico conferenciaram sobre a vida e obra do Cardeal Siri. Suas Eminências, Card. Tarcisio Bertone, Secretário de Estado, Card. Angelo Bagnasco, Arcebispo de Gênova e Presidente da Conferência Episcopal Italiana, Card. Velasio De Paolis, Presidente da Prefeitura dos Negócios Econômicos da Santa Sé, Card. Raymond Leo Burke, Prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica e Card. Raffaele Farina, Bibliotecário e Arquivista da S.R.C., presidiram os quatros dias de estudos sobre a vida e obra de uma das maiores personalidades eclesiásticas do século XX.
Mons. Antonio Guido Filipazzi , da Secretaria de Estado da Santa Sé, ministrou a primeira conferência com o tema “Gli anni della formazione romana: la Gregoriana e il Lombardo”. Seguiram-se cerca de 30 conferências pronunciadas por doutores de diversas Universidades italianas sobre Cardeal Siri. O congresso foi organizado por Francesco Malgeri, do Istituto Luigi Sturzo, Andrea Graziosi, Presidente della Società Italiana per lo Studio della Storia Contemporanea, Fulvio Cammarano, Dipartimento di Politica, Istituzioni, Storia dell’Università degli Studi di Bologna e Paolo Gheda, Associazione culturale Cardinal Siri.

A ressurreição: artigo de fé

Emílio Portugal Coutinho

Muito raras são as pessoas que não tenham passado pela dolorosa experiência de perder um ente querido. Os cerimoniais fúnebres, marcados pela cor roxa ou negra, embora voltados ao respeito e à memória daquele que se foi, inevitavelmente tornam ainda mais pungentes os momentos da suprema despedida.

O drama de um falecimento e a incerteza que ele traz, fazem surgir a inquietante pergunta: “O que há depois da morte?”

Com efeito, todos os povos, desde os primórdios da Humanidade, alimentaram a crença de que haveria algo no além-túmulo. As dolorosas separações seriam momentâneas, e num futuro misterioso, em certo lugar desconhecido, os homens haveriam de se reencontrar.

Soluções falsas ou equivocadas dos antigos e pagãos

Ao longo da História, as mais diversas civilizações e culturas buscaram solução para esse enigma. Os antigos egípcios acreditavam que a alma ficaria peregrinando por um tempo indefinido, após o qual retornaria ao corpo, e este, portanto, deveria ser conservado. Com esse fim, eles aperfeiçoaram a técnica do embalsamamento, e até hoje suas múmias, em perfeito estado de conservação, podem ser vistas em museus.

A rica imaginação grega criou o orfismo. Segundo este, como punição de um crime primordial, a alma era encerrada no corpo tal qual numa prisão, e a morte podia ser o começo de uma verdadeira vida. Após o falecimento, as almas se dirigiam ao Hades, onde bebiam das águas do rio Lete, a fim de esquecer suas existências terrenas. A alma que não estivesse quite com suas culpas regressava ao mundo para reencarnar-se. O orfismo chegou, ainda com muita vitalidade, até os primeiros séculos da Era Cristã. Em seguida, foi-se apagando lentamente.

Além dessas, surgiram muitas outras explicações, como o panteísmo e o espiritismo. Por fim, o materialismo, negando pura e simplesmente a vida sobrenatural, deixa um vácuo de resposta a uma das mais antigas questões humanas.

A resposta cristã nos é bem conhecida, com os destinos eternos da alma bem definidos, quer seja no Céu, contemplando o Criador, quer seja no inferno, sofrendo os castigos inerentes à condição de inimigo de Deus.

Mas com relação ao corpo, companheiro da alma em sua jornada terrestre, que será feito dele?

A ressurreição e a doutrina cristã

Santo Agostinho defende que “não há doutrina da fé cristã combatida com tanta veemência como a da ressurreição da carne”. Entretanto, poucas verdades da nossa fé são tão claramente afirmadas tanto nas Sagradas Escrituras quanto pelos autores dos primeiros séculos. O ensinamento sobre a ressurreição dos corpos tem a condição de dogma, ou seja, artigo de fé a respeito do qual não pode caber qualquer dúvida.EASTER SUNDAY Fra_Angelico_019

Contudo, não faltou quem se tenha atrevido a negá-la. Os gentios a rechaçavam como uma fábula nova e inacreditável. Contestaram-na também os saduceus e, entre os primeiros cristãos, Himeneo e Fileto, os quais São Paulo refuta em sua primeira Epístola a Timóteo (cap. II). A estes podem somar-se os gnósticos, maniquieus e priscilianistas, que tiveram por sequazes, na Idade Média, os albigenses e valdenses. Em nossos dias os protestantes liberais e os racionalistas se empenham em negar este dogma católico, por considerá-lo incompatível com certas razões filosóficas. Contra toda esta torrente de heresias, a Igreja apresenta o depósito precioso da Revelação e a segura voz de seus concílios.

Podemos nos apoiar em declarações históricas, como por exemplo, o Credo dos Apóstolos, também chamado de Nicéia; o Credo do XI Concílio de Toledo; o Credo de Leão IX, ainda usado nas consagrações dos bispos; a profissão de fé do II Concílio de Lyon; o Decreto do IV Concílio de Latrão, contra os albigenses. Ademais, este artigo de fé toma por base a crença já existente no Antigo Testamento e os ensinamentos do Novo Testamento, além da Tradição Cristã.

A ressurreição nas Escrituras

As Sagradas Escrituras trazem abundantes e claras referências à ressurreição final dos corpos. O profeta Daniel afirma: “Muitos daqueles que dormem no pó da terra despertarão, uns para uma vida eterna, outros para a ignomínia, a infâmia eterna” (Dn 12, 2). A palavra “muitos”, aqui, não significa que alguns não ressuscitarão. Ela deve ser entendida à luz do seu sentido em outras passagens (como em Is 53, 11-12; Mt 26, 28; Rm 5, 18-19).

A visão de Ezequiel sobre a planície coberta de ossos secos que foram reordena

“O ensinamento sobre a ressurreição dos corpos tem a condição de dogma, ou seja,

artigo de fé a respeito do qual não pode caber qualquer dúvida”

“Resurreição de Cristo”, detalhe do pórtico da Basílica de São Marcos, Veneza

dos e revivificados (Ez 37) refere-se diretamente à restauração de Israel, mas mostra como tal figura só poderia ser inteligível para ouvintes familiarizados com a crença na ressurreição. O profeta Isaías triunfante proclama: “Que os vossos mortos revivam! Que seus cadáveres ressuscitem! Que despertem e cantem aqueles que jazem sepultos, porque vosso orvalho é um orvalho de luz e a terra restituirá o dia às sombras” (Is 26, 19).

Finalmente, Jó, reduzido à extrema desolação, sente-se fortalecido pela sua fé na ressurreição: “Eu o sei: meu vingador está vivo, e aparecerá, finalmente, sobre a terra. Por detrás de minha pele, que envolverá isso, na minha própria carne, verei Deus. Eu mesmo O contemplarei, meus olhos O verão, e não os olhos de outro” (Jó 19, 25-27).

Já no Novo Testamento, após a morte de Lázaro, Marta manifesta sua crença: “Sei que [ele] há de ressurgir na ressurreição no último dia” (Jo 11, 24). Contundente, São Paulo não hesita em pôr a ressurreição final no mesmo nível de certeza da ressurreição de Cristo: “Ora, se se prega que Jesus ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns de vós que não há ressurreição de mortos? Se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1Cor 15, 12-14).

E por fim, supremo testemunho, o próprio Cristo Nosso Senhor não só supõe a ressurreição da carne como coisa bem sabida, mas também a defende contra os ataques dos saduceus: “Na ressurreição dos mortos, nem os homens tomarão mulheres, nem as mulheres, maridos, mas serão como os anjos de Deus no Céu. Mas, quanto à ressurreição dos mortos, não lestes no livro de Moisés como Deus lhe falou da sarça, dizendo: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó?’ Ele não é Deus de mortos, senão de vivos” (Mc 12, 25-27; Mt 22, 30-32). O Messias ainda iria declarar essa verdade em outras passagens (Jo 5, 28-29; 6,39-40; 11, 25; Lc 14,14).

A doutrina da ressurreição na Tradição cristã

Os Padres, Doutores e insignes teólogos seguiram com firmeza o reto caminho traçado pelo Divino Mestre. No século II, São Policarpo deu o apelido de primogênito de Satanás, ao que negue a ressurreição e o juízo1. Aristides afirma que os cristãos guardam os mandamentos porque esperam a ressurreição dos mortos2. Atenágoras escreveu um tratado inteiro sobre a ressurreição dos mortos, no qual demonstra primeiro a possibilidade da ressurreição, sua conveniência e necessidade; depois prova que o homem é imortal, já que é racional; e como, por outra parte, está composto de alma e corpo, ele não pode conseguir com perfeição seu fim e sua bem-aventurança se o corpo não voltar a se unir com a alma.

Santo Irineu ensina que nossos corpos, nutridos com o manjar eucarístico, recebem a semente da ressurreição3. No século III quem com mais brilho defendeu a ressurreição futura foi Tertuliano. Esta carne que Deus formou com suas mãos e segundo sua própria imagem, que animou com seu sopro à semelhança de sua vida (…) esta carne não ressuscitará? Esta carne que é de Deus a tantos títulos?4.

Um testemunho de Santo Agostinho: Ressuscitará esta carne, a mesma que é sepultada, a mesma que morre, esta mesma que vemos, que apalpamos, que tem necessidade de comer e de beber para conservar a vida; esta carne que sofre enfermidades e dores, esta mesma tem que ressuscitar, os maus para sempre penar, e os bons para que sejam transformados5.

* * *

Muito embora respaldada por tantos e tão sérios testemunhos, não deixa de ser uma maravilha imaginar que, num dia conhecido só pelo Altíssimo, ao toque das trombetas angélicas, milhões de corpos irão emergir das profundezas dos oceanos, surgir das entranhas da terra, e juntos, erguer os olhos ao Criador, que então irá separar os seus (cf. Mt 25, 31-33). ²

1) Ep. Ad Philip., VII, 1.

2) Migne, P. G., t. 96, col. 1121.

3) Id. ib., col. 1124.

4) Id., e. 2, col. 885.

5) Id., t. 38, col. 1231.

(ARAUTOS DO EVANGELHO, N. 75, Março 2008.)

A vigília pascal do Sábado de Aleluia ou Sábado Santo


Ítalo Santana Nascimento – 2º Ano de Teologia

No sábado santo honra-se a sepultura de Jesus Cristo e a sua descida à “mansão dos mortos”, e, depois do sinal do Glória, a sua gloriosa ressurreição.

A noite do sábado santo é especial e solene, é denominada também como Vigília Pascal. Antigamente era celebrada à meia-noite, no entanto, a Santa Sé autorizou que começasse após o anoitecer. Deve terminar antes da aurora do domingo.tLuk2334Dore_TheCrucifixion

É considerada “a mãe de todas as santas Vigílias”,[1] pois, a Igreja mantém-se de vigia à espera da Ressurreição do Senhor, e celebra-a com os sacramentos da iniciação cristã.

Esta noite é “uma vigília em honra do Senhor” (Ex 12, 42). Assim, ouvindo a advertência de Nosso Senhor no Evangelho (cf. Lc 12, 35), aguardamos o retorno, tendo nas mãos lâmpadas acesas, para que ao voltar nos encontre vigilantes e nos faça sentar à sua mesa.

O rito da vigília está dividido do seguinte modo:

1º – A celebração da luz;

2º – A meditação sobre as maravilhas que Deus realizou, desde o início, pelo seu povo;

3º – O nascimento espiritual de novos filhos de Deus através do sacramento do batismo;

4º – E por fim, a tão esperada comunhão pascal, na qual rendemos ação de graças a Nosso Senhor por sua gloriosa ressurreição, na esperança de que possamos, também nós, ressurgir para a vida eterna.


[1] Cf. S. Agostinho, Sermão 219: PL 38, 1088.

Onde está, ó morte, a tua vitória

Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?. Fazendo eco a essas palavras de São Paulo na primeira Epístola aos coríntios, a liturgia da Semana Santa se refere à Paixão do Senhor, proclamando que os tormentos por Ele sofridos transformaram-se em glória e esplendor. Ao triunfar sobre a morte e o pecado, Cristo Jesus comprou nossa salvação, abrindo-nos de par em par as portas do Céu. Foi esse, entretanto, o único objetivo do Salvador com seu supremo martírio? Não. Além de reparar as ofensas feitas ao Pai pelos pecados cometidos por suas criaturas humanas, e de redimi-las, quis Jesus nos ensinar um novo caminho de amor a Deus: o oferecimento irrestrito das próprias dores, chegando até ao sacrifício da própria vida.718px-Fra_Angelico_073

Após o pecado original, afirma São Tomás, estabeleceu-se na alma humana a necessidade do sofrimento para facilitar-lhe a aceitação de seu estado de contingência e, assim, ser levada a recorrer ao auxílio sobrenatural. Esta é a razão pela qual muitos autores católicos têm comparado a dor a uma espécie de oitavo sacramento. Sem esse poderoso meio, acentuar-se-ia no homem a tendência de fechar-se sobre si mesmo e constituir-se em centro do universo. A dor o obriga a juntar as mãos em atitude de oração e a implorar a proteção de Deus e dos santos. Jesus, ao submeter-se a dores atrozes, físicas e morais, deu-nos o exemplo e a lição de quanto a dor é eficaz para conquistarmos a vida eterna. Visto na perspectiva da Cruz de Cristo, o sofrimento é suportado com paz e serenidade e se torna insubstituível instrumento de conversão e progresso espiritual.

A Semana Santa nos traz excelente ocasião para reflectirmos a respeito dos benefícios da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aproveitemos para pedir a nosso Redentor, por intercessão de Nossa Senhora das Dores, que os méritos do seu preciosíssimo sangue derramado desçam sobre nós, de modo que, ao enfrentarmos nossas dores quotidianas, tenhamos as mesmas forças com que Ele enfrentou as dores da Paixão.

Memórias de um missionário na Serra da Cantareira

Marcos Eduardo Melo dos Santos

Acabada a missa dominical, uma senhora aproximou-se de mim. Ela tinha cerca de quarenta anos e não frequentava habitualmente a capela. Talvez a tivesse visto em alguma solenidade, ou mesmo na rua. No total, sua fisionomia parecia-me familiar. Parece-me que trabalhava como empregada doméstica em alguma casa da região, ou mesmo em algum estabelecimento comercial da cidade. Estava grávida e sua fisionomia revelava traços de sofrimento, mas uma serena alegria.800px-Santuario_nacional

Cumprimentei-a amavelmente, demonstrando contentamento por vê-la na missa dominical e convidei-a a voltar mais vezes. Ela reconheceu que, de fato, não costumava frequentar a capela, estando ali para agradecer uma graça alcançada.

Ao demonstrar interesse pelo ocorrido, ela, com um sorriso constante nos lábios, narrou-me um fato surpreendente, que tento reproduzir com suas palavras:

“Ao participar de uma peregrinação oficial da paróquia à Aparecida, um arauto ofereceu-me uma medalha milagrosa. Agradeci o presente e ele perguntou-me o que iria pedir à Padroeira do Brasil. Respondi que queria um bebê, pois após 14 anos de matrimônio, não tinha podido ainda gerar um filho. O arauto apenas me respondeu: ‘Confiança! Nossa Senhora vai dar-lhe um bebê, e será uma menina’”.

Ao observar novamente que a senhora dava sinais evidentes de gravidez, foi-me impossível conter uma exclamação de admiração. Perguntei se ela se recordava deste arauto, mas confesso que sua descrição não era suficiente para reconhecer este irmão de hábito.NS_Aparecida

Ela contou-me que já estava com cinco meses de gestação. Pelo ultra-som sabia-se que era uma menina. Com inegável contentamento disse-me que a bebê seria batizada com o nome de Vitória Aparecida.

Nos registros civis, mais uma menina terá em sua certidão a agradecida recordação de uma graça alcançada pela Padroeira do Brasil…

História de uma conversão pela beleza e sua importância na Nova Evangelização

Gaudium Press – 8/4/2011

Para George Harne, philosophy doctor em musicologia pela Universidade de Princeton, até há pouco decano acadêmico da Faculdade de Santa Maria Madalena, em Warner, Estados Unidos, e agora presidente desta instituição, sua conversão ao cristianismo está inteiramente impulsionada pela atração da beleza.

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“Se cremos na unidade fundamental da Verdade, do Bem e da Beleza, então devemos reconhecer como a Beleza pode nos levar mais profundamente à Verdade e à Bondade”, afirmou Harne, em declarações publicadas pelo National Catholic Register (NCR) nesta sexta. “A Beleza pode e deve ser uma parte integral da Nova Evangelização. Há quem se oponha a determinados ensinamentos teológicos e morais da Igreja, mas se aproxima muito mais da verdade através da beleza da liturgia ou de outras formas de beleza”, afirmou.

As palavras anteriores do presidente do campus americano não se referem somente a ele, mas também à sua esposa, e dizem respeito não só às suas reflexões, com também à sua vivência pessoal.

“Minha esposa e eu entramos em plena comunhão com a Igreja faz pouco mais de 5 anos e um dos pontos de inflexão chegou quando assistimos a uma tradicional procissão do Corpus Christi. Foi ali que comecei a crer na presença real [do Santíssimo Sacramento na hóstia]. A beleza da procissão – musical e visual – superou minhas reservas intelectuais. A partir de então minha compreensão da Igreja e do sacramento da Ordem começou a mudar. A beleza pode tornar mais fácil para uma pessoa aceitar as solicitudes da Igreja e seus ensinamentos morais. Esta é uma forma pela qual a beleza pode ser uma parte essencial da reevangelização do Ocidente”, expressou Harne.

Entretanto, para o novo presidente, não se trata somente daquela beleza diretamente ligada à liturgia, mas de todo tipo de beleza que leva à Bondade e à Verdade, e com isso à verdadeira humanidade.

“Os efeitos da beleza também podem ser mais simples, no entanto igualmente importantes. Eu estudei clarinete, minha esposa é cantora, e nossos filhos estudaram música também. Temos visto como a beleza musical dentro de nossa família nos pôde fazer mais plenamente humanos e abrir novas perspectivas que antes não estavam disponíveis”.

E este encontro com a beleza Harne quer compartilhado com toda a comunidade universitária, começando pela liturgia ali celebrada, para que renda frutos além das fronteiras do corpo docente.

“Nosso objetivo é celebrar a liturgia da forma mais bela e reverente possível. Nossa esperança é que nossos estudantes levarão suas experiências litúrgicas vividas na Faculdade às suas paróquias e ajudem ali a renovar a liturgia. Quando nosso diretor de coro ensina a nossos estudantes canto e polifonia, gosta de dizer que elas não somente capacitam aos membros do coral, mas também aos futuros diretores do mesmo”.

Este “descobrimento” da via da beleza deve vir acompanhado de uma sólida formação intelectual. Pelo menos, esta é a intenção manifesta de Harne para a Faculdade de Santa Maria Madalena, sobre o que disse expressamente que sua gestão será incansável nos esforços para renovar a faculdade e convertê-la em modelo de vida católica colegiada que seja fiel ao Magistério e profundamente arraigada na tradição intelectual católica.

“Começamos por assegurar que a fé de nossos alunos será reforçada ao invés de socavada enquanto estiverem na faculdade. Todos os nossos professores são católicos e fazem o Juramento de Fidelidade à Igreja Católica no início de cada ano. Todos os nossos estudantes cursam quatro anos de catequese, enquanto se aprofundam e fortalecem sua fé em uma comunidade que se esforça por pensar com a mente da Igreja e viver de acordo com o ritmo do ano litúrgico”, declarou Harne.

“Em nosso programa acadêmico, nos esforçamos para integrar plenamente as fortalezas da tradição dos Grandes Livros (…) com a riqueza e a disciplina intelectual da tradição católica, tanto a monástica, quanto das universidades medievais. Na base de nossa educação estão as tradicionais sete artes liberais ordenadas às mais altas considerações da verdade filosófica e teológica”, concluiu.

A música na Educação e o seu papel na formação intelectual no Seminário São Tomás de Aquino

just the noteFlávio Roberto Lorenzato Fugyama

Quase tão antiga como o mundo, a arte musical sempre coloriu com sua harmonia a vida cotidiana dos homens. Ciente do poder da música, também a liturgia católica sorveu e inspirou tocantes harmonias, as quais cumulam de consolação e fervor as almas dos fiéis como as elegantes notas musicais preenchem os pentagramas.

Já o Doutor da Graça, o grande Santo Agostinho, testemunhou o relevante papel que teve a música sacra em sua vida espiritual – sobretudo por ocasião das cerimônias litúrgicas presididas por Santo Ambrósio –, as quais o ajudaram a encontrar o caminho da Verdade: “Quanto chorei ouvindo vossos hinos, vossos cânticos, os acentos suaves que ecoavam em vossa Igreja! Que emoção me causavam! Fluíam em meu ouvido, destilando a verdade em meu coração. Um grande elã de piedade me elevava, as lágrimas corriam-me pela face, e me sentia plenamente feliz”.[1]

Esta poética recordação narrada nas Confissões tem seu fundamento teológico, pois, se as perfeições das criaturas captadas pelos nossos sentidos evocam em no espírito a absoluta perfeição de Deus, também a boa música, ao penetrar em nossos ouvidos, desperta as tendências naturais pelas quais  somos atraídos às sendas dAquele que é, em essência, “o Caminho, a Verdade e a vida” (cf. Jo 14, 6). Como afirmou Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, inspirador e mestre do Fundador dos Arautos, “a música é uma arte mais espiritual que material, melhor do que a simples matéria, para ilustrar a representação de Deus na Terra e no Céu Empíreo”.[2]Blog notes

Por esta razão, o Seminário São Tomás de Aquino procura “cultivar com sumo cuidado o tesouro da música” sacra na formação cultural de seus membros, tal como incentivara o Concílio Vaticano II, a respeito da Schola cantorum “nos Seminários, Noviciados e casas de estudo de religiosos de ambos os sexos, bem como noutros institutos e escolas católicas”.[3]

O canto gregoriano, modelo supremo de melodia.

Como recomenda o concílio, e como oportunamente recordava João Paulo II, “no tocante às composições musicais litúrgicas, faço minha a ‘regra geral’ formulada por São Pio X nestes termos: ‘Uma composição religiosa é tanto mais sagrada e litúrgica quanto mais se aproxima — no andamento, na inspiração e no sabor — da melodia gregoriana; e é tanto menos digna do templo quanto mais se distancia desse modelo supremo”[4].

Neste canto magnífico, o literato converso ao catolicismo Joris-Karl Huysmans via um símile de mil maravilhas na ordem do universo – como aquelas expressas na arquitetura, na escultura, na pintura e mesmo na literatura –, das quais deixou-nos um encantador e inesquecível elogio, em linhas que transluzem sua capacidade descritiva: “O canto gregoriano parece tomar emprestado do gótico suas nervuras floridas, suas flechas recortadas, suas rodas de gaze, seus triângulos de rendas leves e finas como vozes infantis. Ele passa, então, dum extremo ao outro, da amplidão das aflições ao infinito das alegrias.

“Outras vezes, ele, como a escultura, dobra-se para o júbilo do povo, associando-se às alegrias inocentes, aos risos esculpidos nos velhos frontispícios. Ele toma — tanto no cântico natalino Adeste Fideles quanto no hino pascoal O Filii et Filiae— o ritmo popular das multidões.

“Tal como os Evangelhos, ele se torna pequeno e familiar, submete-se aos humildes desejos dos pobres e lhes proporciona uma melodia de festa, fácil de reter na memória, que os eleva às puras regiões onde suas almas cândidas se prostram aos pés indulgentes de Cristo.

“Criado pela Igreja, aprimorado por ela nos corais da Idade Média, o canto gregoriano é a paráfrase flutuante e movente da imóvel estrutura das catedrais. Ele é a interpretação imaterial e fluida das telas dos pintores primitivos. Ele é a tradução alada das prosas latinas compostas outrora pelos monges elevados, em seus claustros, fora do tempo”.[5]

Polifonia e instrumentos ecoando a insondável grandeza dos mistérios divinos.

Os membros do Seminário servem-se também, e muito, da polifonia sacra. Ora com os vivos ritmos de Francisco Guerrero, ou com os piedosos acordes de Tomás Luis de Victoria, mas sobretudo pelas composições do mestre Giovanni Perluigi da Palestrina, buscam a harmonia apropriada ao “espírito da ação litúrgica”.[6]

Ademais, posto que a Constituição Conciliar Sacrossanctum Concilium permite a utilização no culto divino de instrumentos musicais, “contanto que esses instrumentos estejam adaptados ou sejam adaptáveis ao uso sacro, não desdigam da dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis” (n. 120), o coro e orquestra do Seminário não se abstêm de cultivar sua variegada participação, pois como notava a santa musicista Hildegarda de Bingen, “também os instrumentos musicais, pela emissão de múltiplos sons, podem instruir espiritualmente os homens”[7].

Deste modo, com a execução de composições de Johann Sebastian Bach, Wolfgang Amadeus Mozart, e de Georg Friedrich Händel – estas últimas com especial destaque –, querem eles, de alguma forma, ecoar a insondável grandeza dos mistérios celebrados na Sagrada Liturgia, elevando assim os corações e instruindo os espíritos.

A música pode aumentar a inteligência e acalmar os ânimos?

Apenas os argumentos da teologia bastariam para que o Seminário São Tomás de Aquino fosse tão musical. No entanto, há mais. Assim como a música pode ser um poderoso meio de instrução espiritual, pode colaborar frutuosamente no mero plano natural, para a própria formação e desenvolvimento das faculdades cognitivas e intelectuais dos seminaristas.

Para tomarmos o resultado de apenas algumas de inúmeras pesquisas realizadas neste sentido, a Universidade de Toronto, Canadá, concluiu que crianças que recebem aulas de música têm um coeficiente intelectual superior às demais. Os jovens aprendizes de instrumentos ou canto demonstraram possuir coeficientes mais desenvolvidos do que os das aulas de teatro. Estes últimos revelavam uma melhor capacidade de adaptação em sua conduta social, mas os que recebiam aulas de música alcançavam notas mais altas nos exames escolares[8].

De modo semelhante, estudiosos da Universidade de Hong Kong, após examinarem 90 crianças e adolescentes de 6 a 15 anos, das quais metade estava integrada numa orquestra escolar a cerca de cinco anos, concluíram que as aulas de música melhoram a memória das crianças e podem ser benéficas para seus estudos. A pesquisa demonstrou, inclusive, que o fato de os adolescentes executarem escalas no piano desenvolve a parte esquerda do cérebro, onde estão concentradas a memória verbal e as atitudes musicais. Ao cabo de um ano, as crianças que deixavam a atividade musical pioravam sua memória verbal em relação aos que nela se mantinham, mas continuavam ainda superiores aos que nunca tinham estudado música[9].

No tocante à formação temperamental, um grupo de pesquisadores da universidade de Derby, na Inglaterra, chegou a um resultado curioso numa de suas pesquisas. Segundo esses estudiosos, “a música de Mozart tem o curioso poder de apaziguar a agressividade das crianças e melhorar o seu rendimento escolar. Sobretudo nas aulas de matemática os efeitos foram considerados “surpreendentes”[10].

Neste sentido a respeito da música sacra, antes mesmo dos pesquisadores, o pensador católico brasileiro, Prof. Plinio Corrêa de Oliveira recomendava: “para quem sofre de problemas psicológicos, nervosos, parece propriamente, a meu ver, a cura. Uma pessoa que por muito tempo ouvisse este estilo de música, deixando-se influenciar por esta harmonia, seria introduzida no estado de equilíbrio perfeito. Além desta música ser orto-psíquica, com a propriedade de colocar habitualmente o temperamento interior neste estado de espírito, produz na alma um estado adequado ao caminho da santificação”[11]. É o que, em outras palavras, disse o Papa Bento XVI: “a música harmoniza o nosso interior[12].

Assim, através do canto gregoriano, da polifonia sacra e da harmonização instrumental, os estudantes do ITTA e do IFAT buscam aprimorar o quanto possível sua formação intelectual, e, sobretudo, aprofundar cada vez mais uma real e verdadeira forma de oração enquanto elevação da mente a Deus. Como, aliás, recordava Bento XVI, “quando o homem chega a estabelecer uma relação íntima com Deus, não basta a linguagem falada”[13]. O canto nos une, nos arrasta, nos envolve, nos transforma e nos eleva ao Criador através da virtude da caridade. Por isso, bem disse Santo Agostinho que “cantar é próprio de quem ama”[14].

Por intermédio de Maria Santíssima, que, por certo, cantou melodias inefáveis na Gruta de Belém e no lar de Nazaré, para o encanto sobrenatural de seu castíssimo esposo e seu Divino Filho, peçamos a graça de saber utilizar a arte musical para atingir a plenitude da santidade à qual fomos chamados, e, assim, sermos na Igreja, afinados, sonoros e perfeitos “‘instrumentos’ do grande ‘Compositor’, cuja obra é a harmonia do universo”.[15]


[1] Santo Agostinho. Confissões, IX, 6, 14.

[2] Plinio Corrêa de Oliveira. Conferência. 8 set. 1979. Arquivo do ITTA.

[3] Cf. Sacrosanctum Concilium, 114-115.

[4] In Revista Arautos do Evangelho, n. 25, p. 18

[5] HUYSMANS, Georges Charles in RIDDER, Guy, apud Revista Arautos do Evangelho, n. 28, p. 51.

[6] Sacrosanctum Concilium, 116.

[7] inFERREIRA, Carmela Werner. inRevista Arautos do Evangelho, n. 69, p. 36.

[8] Cf. Revista Arautos do Evangelho, n. 34, p. 47.

[9] Cf. El Mundo in Revista Arautos do Evangelho, n. 21, p. 44.

[10]in Revista Arautos do Evangelho, n. 59, p. 43.

[11] Plinio Correa de Oliveira. Conferência. 2 mar. 1984. Arquivo ITTA.

[12]Revista Arautos do Evangelho, n. 61, p. 40.

[13] Introducción al espíritu de la liturgia, Joseph Ratzinger, p. 113.

[14] Cf. Cantare amantibus est, Sermo 336, 1.

[15] Palavras de Bento XVI após o concerto do Philharmonia Quartett Berlin, na Sala Clementina, oferecido ao Santo Padre pelo Presidente da Alemanha, Horst Koehler, in Revista Arautos do Evangelho, n. 61, p. 40

A maior riqueza do Brasil

Marcos Inacio Melo

Brasil

O Brasil abriu o ano de 2011 como sétima maior economia do mundo em paridade de poder e compra. Sendo o quinto maior país do mundo, em território e população, possui uma das maiores reservas minerais do planeta e ocupa o posto de segundo maior exportador de alimentos. Consta que, em poucos anos, será o quinto país mais poderoso da Terra, atrás apenas de nações como os EUA, China, Índia e Japão.

O Brasil consolida certa hegemonia em diversos assuntos internacionais, especialmente na América Latina, e sua imagem tende a projetar-se no mundo inteiro, enquanto expressão de uma cultura capaz de influenciar os demais povos.

Entretanto, a riqueza do Brasil não é meramente econômica. Sua unidade linguística e estabilidade política – sem vãs divisões regionalistas – caracteriza uma população homogênea, inteligente e pacífica. Esta cordialidade e hospitalidade foram reconhecidas em diversas ocasiões. Cabe aqui recordar que tais predicados de nosso povo derivam de sua formação católica. O Brasil soma a maior população católica do mundo. A cada 11 católicos do orbe, um é brasileiro.

Porém, não é preciso muito esforço para constatar incríveis contrastes em nosso país. Apesar de rico, o Brasil ainda é o 73º país em desenvolvimento humano. E dos 75% católicos brasileiros, somente 2% frequentam as Missas dominicais. Isto comprova não só quanto nosso país tem ainda a progredir a nível social, mas sobretudo espiritual. Estes dados trazem ao nosso espírito algumas questões:

O Brasil será uma grande nação pela força das armas, pela ganância dos lucros, ou pela imagem cristã que legará ao mundo? Nosso país abandonará os princípios morais que foram o gérmen de seu progresso? Ele se esquecerá da Fé de seus pais? Ele abandonará a Igreja, mãe que o criou, alimentou e ajudou a dar os primeiros passos?

Rezemos para que o Brasil não esteja entre as nações que triunfaram ao longo dos séculos com vitórias edificadas sobre areia movediça, mas entre os povos que, contruindo seus fundamentos sobre a rocha imperecível, inscreverão na História do mundo douradas letras de Fé, caridade e esperança.Brazil

Que o Brasil testemunhe ao mundo e às futuras gerações que seu dinamismo empreendedor e seu patrimônio cultural não se baseiam na ganância, mas sim na Fé e no espírito cristão. Que o povo brasileiro continue a reconhecer o valor da prosperidade, mas não esqueça que a riqueza não é o maior valor na vida de um homem.

A História Universal é testemunha da gesta de povos que nascem, crescem, e triunfam, mas com o decorrer dos anos, desfazem-se sob os ventos da História, à semelhança de um castelo de cartas. Ao contrário quando, na epopeia dos povos, verificam-se ardentes atos de adesão à verdade de Cristo, as nações resplandecem por sua magnanimidade.

Cabe, portanto, a todos nós, católicos, sermos células sãs, partícipes deste grande organismo chamado Brasil. Se vivermos a Fé Católica na integridade de sua ortodoxia, coerência e esplendor, nosso país passará para a História como um país que soube dar valor ao principal condimento de sua personalidade: a fé em Jesus Cristo.

São Tomás de Aquino: a catedral do pensamento

Inácio de Araújo Almeida

saint-thomas-aquinas-10Corria o ano de 1248. A cidade de Colônia estava em festa. As autoridades religiosas e civis, bem como o piedoso povo, reuniram-se para pôr a pedra fundamental daquela que viria a ser a maior catedral gótica do mundo. E, no meio do numeroso clero, viam-se também dois frades de túnica branca e manto negro que há pouco haviam chegado da França. O mais velho se chamava Alberto, cognominado “Magno”. Era o mais sábio homem de seu tempo e a maior autoridade teológica do século. O simples fato de se enunciar nos meios acadêmicos a frase: “Albertus dixit[1], em muitos casos já era suficiente para encerrar uma discussão doutrinária.

Sobre o frade mais novo, pouco se sabia, a não ser que era discípulo de Alberto. Se não fosse sua elevada estatura e avantajado corpo que o destacavam dos demais, passaria quase despercebido no meio daquela multidão. Todavia, sob aquele hábito da mendicante ordem de São Domingos, ocultava-se um membro da mais alta nobreza italiana. Tinha ele por parentes próximos dois imperadores do Sacro Império Romano Alemão, Frederico II e Conrado VI. Contudo, o que lhe fez sair daquele aparente anonimato não foi o seu porte altaneiro e nem mesmo a sua elevada nobreza, mas sim a sua virtude e inteligência. Este jovem frade tornou-se um grande santo e um dos maiores gênios que o mundo viu nascer. Seu nome era Tomás de Aquino…

Com efeito, era do conhecimento de muitos o motivo que o trouxera a Colônia. Estava ali para auxiliar o seu mestre na fundação de um Studium Generale, que viria a ser o centro de estudos teológicos de sua ordem em terras alemãs. Porém, o que ninguém sabia, talvez nem ele mesmo, é que, nos vinte cinco anos seguintes, Tomás  construiria também um magnífico templo, tão sólido e duradouro como os alicerces da igreja de Colônia, que via nascer. Tomás edificaria um monumento de doutrina, fundamentado na fé e na razão. Tal monumento bem poderia ser chamado de “a catedral do pensamento cristão”…

O pequeno monge De Monte Cassino

O mundo o viu nascer no ano de 1225, no castelo de Roccasecca, próximo a Nápoles, na Itália. Dos sete filhos do conde Landolfo d’Aquino, Tomás era o mais novo. Aos cinco anos, foi enviado ao famoso Convento de Monte Cassino, para lá ser educado. Seu tio, Sunibaldo, era abade e encarregou-se de sua formação. Tudo indica que sua família também ansiava que ele viesse a ser o superior daquele prestigioso mosteiro.

Pouco se sabe deste período de sua vida, a não ser que o “pequeno monge”, ao percorrer o majestoso claustro daquela abadia, inquiria os religiosos sobre um tema que não saía da sua mente: “Que é Deus?”. Não passaram para a história as respostas proferidas. Contudo, parece certo dizer que ninguém lhe respondeu satisfatoriamente, pois, desde criança, ele fez dessa primeira indagação a força motriz que o impulsionaria a produzir a maior obra teológica de todos os tempos.

Ao ingressar na vida acadêmica, rapidamente destacou-se pela prodigiosa fecundidade de  pensamento. Esse doutor que mereceu ser chamado “Angélico”, foi um grande luzeiro posto por Deus no meio de sua Igreja, a fim de esclarecer, confortar e animar as almas pelos séculos futuros. Viveu apenas 49 anos, dedicando a metade de sua vida à nobre e árdua tarefa de ensinar nos mais importantes centros universitários da França, Itália e Alemanha.

Guilherme de Tocco, seu primeiro e principal biógrafo, afirmou que “nas aulas o seu gênio começou a brilhar de tal forma e a sua inteligência a revelar-se tão perspicaz, que repetia aos outros estudantes as lições dos mestres de maneira mais elevada, mais clara e mais profunda do que as tinha ouvido” [1].

São Tomás soube unir harmoniosamente a santidade com a genialidade, e a erudição com a virtude, a fim de produzir a maior obra teológica de todos os tempos. Durante os quase oito séculos que separam sua existência da nossa, foi ele sempre exaltado com eloquentes louvores pelos Papas, em termos não comuns em documentos pontifícios.

O Papa João XXII, em 1318, afirmou: “Ele sozinho iluminava a Igreja mais que os outros doutores. Lendo  seus livros um  homem aproveita mais em um ano do que durante toda a sua vida”[2]. São Pio V, em 1567, não foi menos categórico: “A Igreja fez dela a sua doutrina teológica, por ser a mais certa e a mais segura de todas”. E o Papa Leão XIII, em 1892, disse que “se se encontram doutores em desacordo com São Tomás, qualquer que seja o seu mérito, a hesitação não é permitida; sejam os primeiros sacrificados ao segundo”. Por sua vez, o Concílio Vaticano II aconselha que São Tomás seja seguido nos Seminários e nas Universidades católicas. O Papa Paulo VI, comentando esse fato, disse: “é a primeira vez que um Concílio Ecumênico recomenda um teólogo, e este é precisamente São Tomás de Aquino”.

As três catequeses de Bento XVI sobre São Tomás de Aquino

Seguindo os passos de seus predecessores, o Papa Bento XVI voltou a ressaltar a importância do pensamento de São Tomás de Aquino para o mundo contemporâneo. O Sumo Pontífice dedicou três de suas audiências semanais para abordar a vida, a obra e o pensamento do Doutor Angélico[3]. Em sua Catequese de 02 de junho de 2010, o Papa recordou as palavras de João Paulo II na Encíclica Fides et Ratio, onde ele afirma que o Angélico: “foi sempre proposto pela Igreja como mestre de pensamento e modelo quanto ao reto modo de fazer teologia”[4]. O atual Pontífice argumenta que não devemos nos surpreender que, depois de Santo Agostinho, entre os escritores eclesiásticos mencionados no Catecismo da Igreja Católica, São Tomás seja citado mais do que todos os outros. Em seguida, ele apresenta alguns traços da vida do Aquinate, ressaltando o providencial encontro do Angélico com o pensamento de Aristóteles.

Com efeito, no século XIII foram traduzidas para o latim diversas obras do Estagirita que até então eram completamente desconhecidas no ocidente cristão. Isto despertou nos meios acadêmicos não só admiração, mas também temor. A razão disto é que muitos dos ensinamentos de Aristóteles pareciam estar em desacordo com a doutrina revelada. São Tomás, então, se dedicou a comentar as principais obras de Aristóteles, procurando distinguir em seus escritos aquilo que era válido, daquilo que era duvidoso. Havia uma pergunta que intrigava muitos teólogos do seu tempo: poderia o pensamento cristão receber algum contributo da filosofia pagã? São Tomás respondeu: “Toda verdade, dita por quem quer que seja, vem do Espírito Santo” [5]·. Para São Tomás, o encontro com uma filosofia que era anterior ao próprio cristianismo não era propriamente um obstáculo à revelação, mas sim, abria uma nova perspectiva ao horizonte da fé. Vejamos as palavras do Pontífice: “A filosofia aristotélica era, obviamente, uma filosofia elaborada sem conhecimento do Antigo e do Novo Testamento, uma explicação do mundo sem revelação, unicamente pela razão. E esta racionalidade consequente era convincente (…). Existia uma ‘filosofia’ completa e convincente em si mesma, uma racionalidade precedente à fé, e depois a ‘teologia’, um pensar com a fé e na fé. A questão urgente era esta: o mundo da racionalidade, a filosofia pensada sem Cristo e o mundo da fé são compatíveis? Ou então se excluem? Não faltavam elementos que afirmavam a incompatibilidade entre os dois mundos, mas São Tomás estava firmemente convencido da sua compatibilidade; aliás, a filosofia elaborada sem o conhecimento de Cristo praticamente esperava a luz de Jesus para ser completada. Esta foi a grande ‘surpresa’ de São Tomás, que determinou o seu caminho de pensador. Mostrar esta independência de filosofia e teologia, e, ao mesmo tempo, a sua relacionalidade recíproca, foi a missão histórica do grande mestre”[6].

Em síntese, o Papa explica que naquele momento de desencontro entre duas culturas, parecia que “a fé devia render-se perante a razão”. Entretanto, São Tomás demonstrou que fé e razão caminham lado a lado, e que não existe contradição entre os dados da revelação com aqueles adquiridos pelo conhecimento racional. Desta forma, fé e razão: “constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade” [7]·. Foi assim que, segundo o Pontífice, o Aquinate acabou por criar “uma nova síntese, que veio a formar a cultura dos séculos seguintes”.[8]

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O poder de atração de São Tomás

Outro ponto ressaltado por Bento XVI foi a grande capacidade de atração que São Tomás exercia sobre aqueles que o conheciam: “Um dos seus ex-alunos declarou que uma enorme multidão de estudantes seguia os cursos de Tomás, a tal ponto que as salas tinham dificuldades em contê-los e, com um apontamento pessoal, acrescentava que ‘ouvi-lo era para ele uma profunda felicidade’”.

São Tomás “viveu a vida de um mestre e com toda a entrega de que era capaz”[9]. Na Suma Contra os Gentios se encontra uma discreta indicação do que ele considerava como a principal tarefa de sua vida, fazendo suas as palavras de Santo Hilário: “Sou consciente de que o principal dever de minha vida para com Deus é esforçar-me para que minhas palavras e todos os meus sentidos falem dele”[10]. Aquela perfeita união que havia no Angélico entre a vida de oração e a vida do estudo era o segredo de sua santidade.

Além de ter sido um grande professor e escritor, São Tomás também se dedicou à pregação pública. Algumas destas homilias passaram para a história e chegaram até nós. Em suas pregações, ele soube explicar os mais intricados problemas teológicos, numa linguagem acessível às pessoas de pouca erudição. O Papa considera verdadeiramente ser uma grande graça: “quando os teólogos sabem falar com simplicidade e fervor aos fiéis. Por outro lado, o ministério da pregação ajuda os próprios estudiosos de teologia a ter um sadio realismo pastoral, e enriquece a sua investigação com estímulos intensos”.[11]

A sua devoção eucarística

Porém, como foi possível em apenas 25 anos de ensino, numa época em que não havia imprensa, em que as bibliotecas eram pequenas e de difícil acesso, uma tão grandiosa produção bibliográfica? Quem nos dá a resposta é o próprio São Tomás. Ele mesmo confidenciou a Frei Reginaldo, seu confessor, que aprendeu mais em suas meditações na Igreja diante do Santíssimo Sacramento, ou na cela aos pés do Crucifixo, do que em todos os livros que havia lido. Guilherme de Tocco insiste em dizer que

‘todas as vezes que ele queria estudar, iniciar uma disputa, ensinar, escrever ou ditar, retirava-se primeiramente no segredo da oração e rezava vertendo lágrimas, a fim de obter a compreensão dos mistérios divinos’. São Tomás: ‘entregou-se totalmente às coisas do alto, e foi contemplativo de um modo inteiramente admirável’[12].

Durante a noite, Tomás, após um breve sono, ia prosternar-se diante do Santíssimo Sacramento, onde permanecia longo tempo em oração. Quando tocavam as Matinas, antes que os religiosos formassem fila para ir ao coro, ele retornava sigilosamente à sua cela para que ninguém o notasse. Desta forma, era na vida de piedade que São Tomás adquiria os mais altos conhecimentos, compreendia os textos sagrados e encontrava a solução para os mais complicados problemas teológicos. O Pontífice também argumenta que na vida de São Tomás encontramos aquela que é uma das principais características das almas eleitas, ou seja, a devoção a Nossa Senhora

Ele definiu-a com um apelativo maravilhoso: Triclinium totius Trinitatis, triclínio, ou seja, lugar onde a Trindade encontra o seu descanso porque, em virtude da Encarnação, em nenhuma criatura, como nela, as três Pessoas divinas habitam e sentem a delícia e a alegria por viver na sua alma cheia de Graça. Pela sua intercessão, nós podemos obter todo o auxílio[13].

A celebração da Santa Eucaristia era a devoção preferida de São Tomás. Celebrava todos os dias, à primeira hora da manhã e, antes mesmo de tirar os paramentos sacerdotais, assistia a uma ou duas missas. Quanto aos deveres religiosos, seguia escrupulosamente as orações da comunidade, sem usar das legítimas dispensas a que tinha direito por exercer a função de Mestre. Ao avançar em idade, aumentou ainda o número de suas orações e meditações. Desta forma é que se entende melhor toda a eficácia do ensino de São Tomás, pois, de acordo com Grabmann: “a figura científica de São Tomás não se pode separar da grandeza ético-religiosa de sua alma; em Tomás, não se pode compreender o investigador da verdade sem o santo” [14].

“Mestre Tomás, que lição nos pode dar?”.

Bento XVI também recorda que, certa manhã, enquanto São Tomás rezava na capela de São Nicolau, em Nápoles, um sacristão chamado Domingos de Caserta, ouviu um diálogo. O Angélico perguntava, preocupado, se aquilo que tinha escrito sobre os mistérios da fé era correto. É então que ouve uma voz que provém do crucifixo:

“-Falaste bem de mim, Tomás, qual será tua recompensa?

“- Nada mais do que Tu, Senhor”.

E quando se aproximava o término de sua peregrinação nesta terra, o Angélico pediu os Sacramentos e os recebeu com grande fervor. Neste momento, afirmou ainda a sua fé absoluta na presença de Deus na Eucaristia

Recebo-te, preço da redenção de minha alma, recebo-te, viático de minha peregrinação, por cujo amor estudei, realizei vigílias, sofri; preguei-te, ensinei; jamais disse algo contra ti, e se o fiz foi por ignorância, e não insisto em meu erro; se ensinei mal a respeito deste sacramento ou de outros, submeto-o ao julgamento da santa Igreja Romana, em obediência à qual deixo agora esta vida[15].

Três dias depois, a 07 de março de 1274, de madrugada, é ungido. Responde a cada uma das santas unções. Instantes depois expira: “A sua alma vai tão pura como veio. Tomás não parte, regressa. Espera-o Aquele de quem nunca, afinal, se separou…” [16].

Por ocasião do sétimo centenário da morte de Angélico, o Papa PauloVI dirige-se a Fossanova e ali afirma que, mesmo no atual tempo em que vivemos, temos ainda muito a aprender com São Tomás. Este Pontífice interrogava: “Mestre Tomás, que lição nos pode dar?”. Em seguida, respondia com estas palavras: “A confiança na verdade do pensamento religioso católico, como foi por ele defendido, exposto e aberto à capacidade cognoscitiva da mente humana”[17]. E neste mesmo dia,  na cidade de Aquino, referindo-se ainda a São Tomás, concluía dizendo: “Todos nós que somos filhos da Igreja, podemos e devemos, pelo menos em certa medida, ser seus discípulos!”[18].


[1]Guillelmus de Tocco: Storia Sancti Thome de Aquino, ed. C. Le Brun Gouanvic, Pontifical Institute of Medieval Studies, Toronto, 1996.

[2] As citações mencionadas neste parágrafo encontram-se na obra: Odilão, Moura. Prefácio a Exposição Sobre o Credo. In: Tomás De Aquino. Exposição Sobre o Credo. 4ª ed. São Paulo: Loyola, 1981. pp. 11-16.

[3] As três catequeses de Bento XVI sobre São Tomás foram proferidas na Praça de São Pedro nos dias 02, 16 e 23 de Junho de 2010.

[4]João Paulo II. Carta encíclica Fides et Ratio: sobre as relações entre fé e razão, Paulus, São Paulo, 1998, n. 43.

[5]Aquino, São Tomás de. Summa Theologica: I-II, q. 109, a. 1, ad 1.: “Omne verum, a quocumque dicatur, a Spiritu Santo est”.

[6] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 16 Jun. 2010.

[7] João Paulo II. Carta encíclica Fides et Ratio: sobre as relações entre fé e razão, Paulus, São Paulo, 1998.

[8] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 02 Jun. 2010.

[9] Pieper, Josef. Introducción a Tomás de Aquino. Doce Lecciones. Rialp, Madrid, 2005.

[10] Aquino, São Tomás de. Suma contra los Gentiles, BAC, Madrid, 2007. p. 40.

[11] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 02 Jun. 2010.

[12]G uillelmus de Tocco: Storia Sancti Thome de Aquino, ed. C. Le Brun Gouanvic, Pontifical Institute of Medieval Studies, Toronto, 1996.

[13] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 23 Jun. 2010.

[14]In Ameal, João. São Tomás de Aquino. Iniciação ao estudo da sua figura e da sua obra. 3a ed. Tavares Martins: Porto, 1947, p. 130.

[15] Idem, p. 154.

[16] Ibidem.

[17] Insegnamenti di Paolo VI, XII [1974], pp. 833-834.

[18] Ibidem, p. 836.

A prova da existência de Deus pelas cinco vias de São Tomás de Aquino

Luiz Carlos da Silva Júnior

Ao observarmos o curso da história veremos que não faltou quem negasse a real existência de Deus. Poderíamos lastimar o fato de tais pessoas não serem dotadas do dom da fé. Pois à primeira vista parece que o conhecimento de Deus é fruto deste dom.

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Ora, São Tomás de Aquino faz a demonstração de provas meramente naturais acerca da existência de Deus. A própria razão humana é capaz de chegar à ideia da existência do Criador. Por isso, não admitir a existência de Deus não é racional, mas sim apoiar-se num vago e convencional dogma de negação.

A doutrina da Igreja sobre a existência de Deus funda-se na Revelação, todavia a simples filosofia humana é capaz de vislumbrar a Deus, bem como alguns de seus atributos. São Tomás de Aquino, o maior teólogo da História da Igreja, teve o mérito de reunir e explicitar estes conceitos sobre a existência de Deus[1].

Este santo, conhecido como Doutor Angélico, distingue cinco caminhos pelos quais nossa inteligência pode admitir a existência de Deus. O plano das cinco vias é altamente claro, simples e didático.

Primeira via: a prova pelo movimento

A primeira via de raciocínio para chegar ao conhecimento da existência de Deus é a prova do movimento. Em linguagem corrente, movimento significa mudança de local. Ao andar de um lugar para outro, exerço um movimento. No entanto, há também um outro sentido da palavra movimento. O movimento significa qualquer modificação dos seres.

Em outras palavras, há dois tipos de movimento: o primeiro é o movimento de lugar dado na locomoção que um ser corpóreo faz, de um lugar ao outro; o segundo, é o movimento de sucessão que ocorre no crescimento de uma criança até o seu pleno grau de amadurecimento. Ambos movimentos são facilmente perceptíveis pelos sentidos.

Antes do movimento todos os seres estão em potência[2], isto é, possuem uma possibilidade de se tornarem diferentes do que são. Em filosofia este fenômeno denomina-se atualizar-se. Um corpo frio em ato pode vir a ser quente, ou seja, ele é quente em potência. Movimento é, portanto, qualquer passagem de potência para ato (Atualização). Em outras palavras, o ato é a realização enquanto a potência é a possibilidade de realização. Por exemplo, uma semente em ato é uma semente, mas em potência, é uma árvore.

O movimento não é a sucessão de dois estados, mas a passagem que um ser faz de um estado para o outro. Por exemplo, o fogo que é quente em ato, torna a madeira que está em potência para o calor, quente em ato. Deste modo, há uma realidade que permanece sob os dois estados, e a mudança consiste em receber a atualização do segundo estado (frio), pelo qual a coisa (a madeira) fica agora existindo de outro modo (quente), isto é, modificada. A mudança portanto inclui sempre uma aquisição de algo que antes o ser não possuía.

Dado ser evidente a todos, esta experiência dos sentidos, São Tomás a toma como ponto de partida da primeira via racional a provar a existência de Deus: “Nossos sentidos atestam, com toda certeza, que neste mundo algumas coisas se movem. Ora, tudo o que é movido é movido por outro. Nada se move que não esteja em potência em relação ao termo de seu movimento; ao contrário o que se move o faz enquanto se encontra em ato” (S. Th. I, q.2, a. 3).

Tudo se move, tudo muda, tudo passa de um estado para outro, não somente no sentido do movimento local, mas de mudança substancial, como na geração de novas substâncias (a madeira pode se tornar carvão). Também acidental, como o aumento ou diminuição quantitativa (o filhote cresce e torna-se adulto). E como variação quantitativa, quer na ordem material quer na ordem espiritual (maior peso, mais graça).

Assim, se o que move é também movido, o é necessariamente por outro, e este por outro ainda. Ora, não se pode continuar até o infinito, pois neste caso não haveria um primeiro motor, por conseguinte, tampouco outros motores, pois os motores segundos só se movem pela moção de outro motor. Logo, é então necessário chegar a um primeiro motor, não movido por nenhum outro, e este, todos entendem: é Deus” (S. Th. I, q.2, a. 3).

O Primeiro Motor – Deus – é puro ato, existência subsistente. Deve ser ato, pois sendo movente, deve ter em ato a perfeição que ele comunica; deve ser puro, sem mistura de potencialidade, pois é movente imóvel e imutável. Logo, o movente imóvel é puro ato enquanto existente: é a Existência mesma subsistente[3].

Só é independente na sua atividade quem é a própria atividade, e só é a atividade quem é a existência; só comunica a perfeição quem produz a existência desta, e só pode ter por efeito próprio “fazer existir” quem é a existência. Logo, o primeiro movente imóvel é a sua existência: DEUS.

Segunda via: prova pela causa eficiente

Conforme a primeira via, uma semente tem a possibilidade de tornar-se (atualizar-se) em árvore. Já na segunda nos deteremos em mostrar que a semente para ser árvore, necessita de causas entre si subordinadas, ou seja, que dependam umas das outras no agir e no existir. Sem a terra, o ar, a água, o sol, etc., a semente não encontraria condições para o seu desenvolvimento. Assim, o clima e as substâncias que alimentam a planta são causas de vida para o vegetal. Seria portanto uma loucura afirmar que a semente é causa de si mesma, pois para ser sua própria causa necessitaria existir antes de si mesma.

A segunda via segue substancialmente o mesmo caminho da primeira. Porém, não se baseia na mudança e passividade dos seres, e sim, na dependência e causalidade que há nas atividades deles. É muito clara a semelhança entre a primeira e a segunda via, pois ambas nos levam à necessidade de uma causa inicial. Entretanto, consideramos anteriormente a existência e a necessidade de uma causa motriz, e agora trataremos de considerar a obrigatoriedade de existir uma causa eficiente[4].

Ao observarmos a criação, notamos nas coisas sensíveis uma relação de causas. Desta forma, não se pode encontrar um ser que seja sua própria causa eficiente. Sendo a causa anterior ao efeito, seria absurdo, considerar um ser que fosse a sua própria causa eficiente, pois seria ele anterior a si mesmo. Entretanto não é possível levar ao infinito a série de causas eficientes. Isto posto, ficam evidentes duas possibilidades: que algo seja causa de si próprio e que a série de causas seja remontada ao infinito.

Há, pois, uma ordem de causas em que a primeira é a causa da segunda, esta, da terceira e assim sucessivamente até a última. Tanto numa causa intermediária que une a primeira à última como numa variedade de outras causas intermediárias, a causa primeira é a causa do último efeito, de tal forma que suprimindo a causa suprime-se o efeito, e se não há um primeiro termo nas causas, não haverá nem intermediário nem último. As causas intermediárias são, por conseguinte, efeitos da causa originária. Não se admite efeitos sem causa, segundo o princípio básico de causalidade[5].

Assim, as causas subordinadas dos seres levam-nos direta e imediatamente a uma causa eficiente primeira com certo atributos:

Esta causa é Infinitamente perfeita, porque sendo a existência mesma subsistente, é tudo o que pode existir, isto é, todos os modos de ser, todas as perfeições; Imaterial, porque a matéria é potência. Ora, a causa primeira não sofre mudanças por ser ela ato puro; Inteligente, porque a imunidade e exceção da matéria é a causa da faculdade intelectual, que se caracteriza por se fazer atualmente inteligíveis as formas materiais abstraindo-as da matéria e das condições da matéria; Não subordinada e incausada, pois não pode ser causada por outra, caso contrário não seria a primeira, nem poderia ser absolutamente independente no agir e no causar[6]. A esta causa eficiente primeira chamamos: DEUS.

Terceira via: prova pelo ser necessário

A terceira via também faz o caminho semelhante ao das anteriores. Entrando mais intimamente na essência dos seres do universo, procura o ponto de partida na entidade destes seres contingentes, ou seja, dependente de outro ser necessário para existir.

O contingente[7] é qualquer ser que existe, mas poderia não existir, por não ter em si mesmo, em sua essência, a razão de sua existência. Por exemplo, uma criança para se desenvolver e sobreviver necessita de minerais, vitaminas, nutrientes, etc., encontrados no leite materno. A criança é contingente ao colo da mãe.

Agora, a ideia de contingente está em oposição à de necessário. O necessário é, pois, o ser existente que de modo algum pode não existir, porque tem em si a razão absoluta de sua existência. Contendo na sua própria essência a sua existência, seria absurdo não existir. Expostos os conceitos de contingente e necessário chega-se a uma conclusão óbvia que a existência do contingente está justificada no ser necessário que a comunica.

Com efeito, tudo o que pode ser ou não ser, é mutável. Já que o ser necessário tem que ser imóvel, como São Tomás demonstrou na primeira via, não há nele possibilidade de ser ou não ser. Desta forma, todo ser que é, e que é impossível que não seja, é necessariamente. Porque a possibilidade de existência e de não existência significa a mesma coisa. Além disso, os seres que possuem a possibilidade de ser ou não ser necessitam de outro ser que seja distinto deles, que lhes comunique o ser, por ter aptidão na sua natureza para tal. Visto que o ser que comunica o existir é anterior ao que recebe, é necessário afirmar a existência de um ser anterior ao que possui a privação de ser por si. Em última análise, nada existe senão pelo ser que é a existência subsistente, nada possui a beleza senão pela beleza subsistente, nada possui o bem senão pela bondade subsistente, nada está em ato senão pelo ato puro[8].

Admitir um contingente existente incausada, é admitir um ser que tem e não tem em si a razão suficiente de sua existência: o que é contraditório. Logo, a existência do contingente implica forçosamente a existência da sua causa. Esta causa existe necessariamente por si ou o recebe de outrem a sua existência. Ora, sem um ser que exista por si mesmo, nada existe, pois alguma coisa não pode vir a ser do nada: deste modo nada existiria. Por conseguinte, não pode uma série ser contingente sem que haja fora dela um ser primeiro não causado, que possua na sua essência sua existência e possa ser a fonte da essência dos seres.

Portanto, os seres contingentes exigem a existência de um ser que não tenha começado a existir; um ser não causado, que exista por si mesmo, que tenha existido sempre e que seja necessário aos demais. Este ser necessário encontra na sua própria essência sua existência que é infinita, caso contrário estaria criando outro ser infinito e necessário, e este, outro e assim sucessivamente. Ora, a série de contingência segue ao infinito. Assim, os seres criados têm por um lado a essência e, por outro, tanta existência quanto sua essência possa permitir, ou seja, têm uma limitação própria à sua essência[9]. Desta forma, é necessário afirmar a existência de um ser necessário por si mesmo e que é a causa e a necessidade de todos os outros: DEUS.

Quarta via: prova pelos graus de perfeição dos seres

Esta via não evidenciará a mudança, a atividade, a geração ou corrupção, mas a limitação com que certas perfeições existem nos vários seres. Em outras palavras, os graus de bem que residem nas criaturas.

Vemos nos seres que uns são mais ou menos bons, verdadeiros e nobres que os outros. Assim, ninguém duvida que o homem é mais perfeito que o animal; o animal mais que o vegetal; e este mais que o mineral. O mesmo deve-se dizer da bondade, da verdade, da nobreza e das outras perfeições semelhantes, as quais encontra-se em todos os seres segundo uma diversidade de graus, em virtude da qual alguns  seres são mais perfeitos que outros.

São Tomás de Aquino observa que “encontra-se nas coisas algo mais ou menos bom, mais ou menos verdadeiro, mais ou menos nobre etc. Ora, mais e menos se dizem de coisas diversas conforme elas se aproximam diferentemente daquilo que é em si o máximo”.[10]

Em outras palavras, “mais ou menos” não diz respeito às coisas em si, mas sim, no tanto em que elas se aproximam em graus diversos do que é em grau máximo. Por exemplo, algo torna-se mais frio quando se aproxima do frio em grau máximo. Desta forma há algo que é em grau supremo o bem, a verdade, a nobreza e, por sua vez, o grau máximo do ser. Assim, o que é o grau máximo do gênero é causa e medida de todo esse gênero: O gelo que é grau máximo de frio, é causa e medida de todo frio.

Da existência destas perfeições limitadas e graduadas deduz-se a existência de um ser perfeitíssimo. Ser sublime no qual residem todas as perfeições em seu grau sumo. João Ameal conclui que, “Há, então, um ser soberanamente belo soberanamente bom, soberanamente perfeito. Mas aquilo que é soberano, supremo em algum gênero, é causa de todos os seres do mesmo gênero”.[11]

Já Santo Agostinho se refere aos antigos filósofos por terem visto que em todas as coisas mutáveis o modo pelo qual um ser é o que é só lhe virá do ser verdadeiro e imutável por essência:

“Compreenderam, além disso, que em todo ser que muda, toda forma que o faz ser o que é, qualquer que seja sua natureza e os seus modos, não pode ela mesma existir senão por Aquele que é verdadeiramente porque é imutavelmente. É daí que, quer seja o corpo do mundo inteiro, a sua estrutura, as suas propriedades, o seu movimento regular, os seus movimentos escalonados do céu à terra e todos os corpos que ele encerra; quer seja toda a vida: a que sustenta e mantém o ser, como nas árvores; a que, além disso, possui sensibilidade, como nos animais; a que acrescenta a tudo isto a inteligência, como nos homens; ou a que, sem necessidade de mantimentos, se mantém, goza de sentimentos e de inteligência como nos anjos, não pode manter o seu ser senão d’Aquele que simplesmente é”.[12]

Por esta razão, São Tomás ao explicar que “se alguém indo a uma casa e desde a porta fosse sentindo calor e cada vez que mais nela penetrasse mais calor sentisse, evidentemente perceberia que havia fogo no seu interior, mesmo que não estivesse vendo o fogo. Acontece o mesmo conosco ao considerar as coisas deste mundo. Todas as coisas estão ordenadas conforme diversos graus de beleza e de nobreza, e quanto mais estão próximas de Deus, tanto melhores e mais belas são. Ora, os astros são mais nobres e mais belos que os corpos inferiores; as coisas invisíveis, que as visíveis”.[13]

Deste modo a quarta via, para achar a razão suficiente das perfeições existentes no mundo, nos conduz necessariamente à existência real de um Ser perfeito, único e simples, o qual é evidentemente distinto dos seres do universo: DEUS.

Quinta via: prova pela ordem do universo

Se considerarmos a ordem existente no universo, desde os componentes microscópicos existentes numa planta até os gigantescos astros do firmamento; a harmonia, a atividade e relação entre eles, facilmente chegamos à seguinte conclusão: houve uma Inteligência que criou e ordenou tudo isto, caso contrário seria absurdo dizer que isto é fruto do acaso.

“De fato, apenas a inteligência pode ser razão da ordem, quer dizer, da organização dos meios em vista de um fim, ou dos elementos em vista do todo que eles compõem: os corpos ignoram os fins e, por conseguinte, se os corpos ou os elementos conspiram em conjunto, é necessário que sua organização tenha sido obra de uma inteligência”.[14]

Os seres que carecem de conhecimento não podem rumar aos seus respectivos fins sem que haja um ser que conheça tais fins. Assim, uma flecha não pode atingir o alvo sem o arqueiro que a dispare. Garrigou-Lagrange explica que:

“os seres privados de razão não tendem a um fim se não são guiados por uma inteligência, como a flecha pelo arqueiro. Com efeito, uma coisa não pode estar ordenada à outra senão por uma causa ordenadora, que necessariamente deve ser inteligente, ‘sapientis est ordinare’. Por que? Porque só a inteligência conhece a razão de ser das coisas”.[15]

Isto posto, que inteligência ordena o universo? Obviamente há de ser diferente dos seres da natureza, porque os minerais e vegetais são desprovidos da ciência das coisas e os animais não possuem intelecto. Deve ser também diferente da inteligência humana, que apesar de perceber e explicar a ordem que existe, não a cria. Tem que ser, pois, a suma inteligência, dado que a ordem do universo supõe um ser que possua a ciência de todos os seres e suas propriedades. Por isso conclui Garrigou-Lagrange:

“Os animais conhecem sensivelmente o objeto que constitui seu fim, mas neste objeto não percebem a razão formal do fim. Por conseguinte, se não houvesse uma inteligência ordenadora, que governasse o mundo, a ordem e a inteligibilidade, que há no universo e que as ciências descobrem, proviria da inteligibilidade, e ainda mais, nossas próprias inteligências proviriam de uma causa cega e ininteligível; uma vez mais, o mais sairia do menos, o que é absurdo”.[16]

É indispensável afirmar que a Inteligência Criadora e Ordenadora do universo é Infinita e Divina. Um ser natural, na sua criação não é precedido por nada e suas propriedades e capacidades provém de sua própria essência. Daí a ordem interna de cada ser e, por consequência, das relações destas essências entre si, resulta a ordem externa do universo.

Sendo a causa total de toda ordem, o Autor destas essências deve ser também Criador, por tirá-las do nada. Portanto a Inteligência ordenadora é também Criadora. Ademais, esta inteligência não pode ter sido criada, porque seria como qualquer outro ser existente e não ordenaria, mas seria ordenada por uma outra inteligência. Por fim, a Inteligência ordenadora deve ser também por si subsistente e infinita. A este ser Criador, Subsistente por si e Infinito, chamamos: DEUS.


[1] Mais especificamente, a que se encontra na Suma Teológica I (q. 2, a. 3).

[2]Com Deus não é assim, pois ele é ato puro, como veremos mais à frente.

[3] Cf. GILSON, Étienne. El Tomismo introducción a la filosofía de Santo Tomás de Aquino. 2002, p. 76.

[4]MONDIN, Battista. Quem é Deus?.Trad. José Maria de Almeida. São Paulo: Paulus, 1997, p. 233. Causa eficiente, é a causa da vinda do efeito a existência. Tudo que existe, é um efeito de uma causa primeira (NICOLAS, Marie-Joseph. Vocabulário da Suma Teológica. In Suma Teológica. 2ª edição. São Paulo: Loyola, 2001, p. 75).

[5] Cf. S. Th. I, q.2, a. 3.

[6] Cf. CERRUTI, Pedro. A caminho da Verdade Suprema. 2º Milheiro. Rio de Janeiro: Universidade Católica, 1955.p. 486.

[7] A noção de contingente recebe um significado mais restrito e é tomado como sinônimo de corruptível, que possui em sua essência uma matéria com potência para receber diferentes formas substanciais, da mesma forma que tem a possibilidade natural de existir.

[8] Cf.  S. Th. I, q.2, a. 3.

[9] SÃO TOMÁS, O ente e a essência, n. 65.

[10] S. Th., q. 2, a. 3.

[11]AMEAL, João. São Tomás de Aquino. Sem data, 269-270.

[12] Santo Agostinho. A cidade de Deus. Trad. J. Dias Pereira. 3ª edição. Coimbra: Fundação Colouste Gulbenkian, 2006. Civitas Dei, 8, 6.

[13] SANTO TOMÁS, Exposição sobre o credo, p.27.

[14]JOLIVET, Régis. Curso de filosofia. Trad. Eduardo Prado de Mendonça. 3ª edição. Rio de Janeiro: Agir, 1957, p.319.

[15]Dios la existência de Dios. Trad. José San Román Villasante. 2ª edição. Madrid: Palabra, 1980, p. 303-304

[16]Dios la existência de Dios. Trad. José San Román Villasante. 2ª edição. Madrid: Palabra, 1980, p. 304.

Novo decreto para reforma dos estudos eclesiásticos de filosofia


Nesta última terça-feira, dia 22 de março, foi apresentado o Decreto de reforma dos estudos eclesiásticos de filosofia. O ato se deu em Roma, na Sala João Paulo II, com a presença do Cardeal Zenon Grocholewski, Prefeito da Congregação para a Educação Católica, Mons. Jean-Louis Bruguès, O.P., Secretário da mesma Congregação, e Pe. Charles Morerod, O.P., Reitor Magnífico da Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino, Angelicum.

O preâmbulo do Decreto de Reforma recorda os princípios do Magistério da Igreja, especialmente da Encíclica Fides et Ratio, do Papa João Paulo II, e alguns documentos do atual Pontífice, Bento XVI, assim como o presente contexto da ação evangelizadora. O decreto se torna necessário devido às rápidas mudanças na cultura que geram uma “desconfiança a respeito da capacidade da inteligência humana para alcançar uma verdade objetiva e universal”.

Por esta razão, o decreto recorda passagens da Fides et Ratio, nas quais João Paulo II “quis reafirmar a necessidade da filosofia para progredir no conhecimento da verdade”. Neste aprofundamento, a filosofia não pode esquecer sua dimensão sapiencial e metafísica, pois esta, “ou a filosofia primeira, trata do ente e de seus atributos, e desse modo se eleva ao conhecimento das realidades espirituais, buscando a Causa primeira de tudo”. Em consequência, “o homem é capaz de adquirir uma visão unitária e orgânica do saber” (FR 85).

O documento recorda que a formação filosófica, na Igreja, tem como finalidade a formação dos habitus, os quais “permitem pensar, conhecer e raciocinar com precisão e ainda dialogar com todos de modo incisivo e sem medo”. Afirma ainda que “tanto para a aquisição de habitus intelectuais, como para a assimilação madura do patrimônio filosófico, ocupa um lugar relevante a filosofia de São Tomás de Aquino, o qual soube pôr a fé numa relação positiva com a forma de razão dominante em seu tempo. Por isso ele é chamado, até hoje, apóstolo da verdade”.

Como conteúdo fundamental do curso de filosofia, o decreto ressalta: a capacidade de alcançar uma verdade objetiva e universal, e um conhecimento metafísico válido; a unidade corpo-alma no homem; a dignidade da pessoa humana; as relações entre a natureza e a liberdade; a importância da lei natural e as fontes da moralidade, especialmente do objeto e do ato moral; a necessária conformidade da lei civil e da lei moral.

No tocante a pontos mais concretos da atualização da Constituição Apostólica Sapientia Christiana e das Ordinationes, que regulavam o ensino eclesiástico, destacam-se:

1. O número de anos para obter o Bacharelado em Filosofia, que se fixa em três;

2. Maiores exigências na capacitação do corpo docente estável e no conteúdo e ordenação do cursus studiorum de filosofia.

Quem foi o verdadeiro construtor da Sainte-Chapelle?


Raphaël Six – 4º Ano de Teologia

Seriam necessárias muitas linhas para contar todas as peripécias que levaram São Luís IX, rei da França, a concluir a edificação desse monumento. Desejoso de abrigar diversas relíquias da Paixão – entre as quais, a coroa de espinhos, um pedaço do Santo lenho, e até mesmo um dos cravos utilizados para a crucifixão – resolveu construir uma capela que se situaria ao lado do “Palais de la Citée” – primeira morada dos reis deste país.

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Assim, numerosos arquitetos informados desse real anseio, vieram das mais longínquas partes da França e da Europa, desejosos de apresentar um digno projeto que agradasse o Santo Monarca. No entanto, uma terrível desventura sucedeu a um deles.

Quando estava a caminho de Paris, encontrou na estrada um confrade caminhando apressadamente. Entabulou-se, então, um diálogo, no qual se apercebeu que ambos possuíam o mesmo objetivo: apresentar um esboço da possível capela.

Conversa vai, conversa vem, e o relacionamento entre ambos foi-se estreitando. Em determinado momento os dois resolveram partilhar os desenhos destinados ao rei. Um deles ficou estupefato com a bela construção representada no papel de seu colega. Os arcos góticos, os enormes e elegantes vitrais de belíssimas cores, os arcs-boutants e todos os demais detalhes o maravilharam. Mas, aos poucos essa admiração se transformou em comparação. As conversas, outrora interessantes, se tornaram pedantes e difíceis; o interesse daquele de um em relação ao outro diminuía a cada instante, e a simpatia primeva deu vazão à funesta antipatia; as opiniões de seu talentoso confrade, outrora compartilhadas pelo mesmo ideal, tornaram-se incompatíveis, pois sua alma foi pervadida pela ambição e pelo desejo de ser o arquiteto escolhido.

De comparação em comparação, a inveja rapidamente apoderou-se dele. E assim, num local deserto e lúgubre, onde somente os sinistros ruídos do vento que movia folhas e galhos secos se faziam ouvir, a exemplo de Caim, o invejoso perdeu o controle de si mesmo, e esfaqueou o peito de seu infeliz colega. Em seguida pegou todos os papeis, e queimou-os um por um, continuando seu caminho.

Mas, como fica a questão da capela? Voltemos à estrada, não mais tranquila, que leva a Paris, e vejamos de que modo os acontecimentos se desenrolaram.

Alguns dias depois, o homicida chegando à cidade luz dirigiu-se ao palácio real. Após identificar-se na portaria do mesmo, pôde seguir até as escadarias que davam acesso à entrada principal. Subiu-as, e no momento de passar pelo umbral do imponente portal, sentiu uma misteriosa força impedindo-o de continuar.

Assustado saiu do palácio para tomar fôlego e desfazer-se daquela sinistra impressão. No entanto sempre que repetia a tentativa, a mesma força lhe barrava o caminho. Caindo em si, deu-se conta de seu crime e viu nesse fato um castigo imposto pela justiça divina ao seu infame ato. Desesperado, ao invés de procurar uma reconciliação com o seu Divino Redentor, entregou-se amargurado à bebida e passou a viver jogado nas ruas mais tortuosas e barrentas da Paris de então.

Certa noite, um jovem dominicano, ao sair do “Palais de la Citée”, aproximou-se desse infeliz, e depois de uma curta conversa, mostrou-lhe o deplorável estado em que ele se encontrava. Mostrou-lhe as alegrias do céu e da bondade infinita do Salvador. As saudades de uma vida pura na prática dos mandamentos e no verdadeiro amor ao Bom Pastor reacenderam-se em seu espírito. A graça tinha-lhe tocado no mais íntimo de seu ser através daquele sacerdote. Pediu-lhe, então, a confissão e seguindo seu conselho, tornou-se monge.

Paris 2010 327

Tendo passado vários meses em profunda oração e penitência, deparou-se, certa feita, com um jovem rapaz – filho de um confeiteiro – cujo nome era Pierre e que costumava entregar deliciosos doces ao mosteiro. Há tempos que esse rapaz, cansado das guloseimas preparadas na confeitaria, almejava tornar-se um verdadeiro construtor de castelos e catedrais de pedra. Descobrindo as antigas habilidades desse monge, insistiu que lhe ensinasse os segredos de sua arte.

O arquiteto convertido, depois saber que o Rei ainda não havia escolhido nenhum projeto, procurou o confessor que lhe havia reconduzido à religião e contando-lhe a conversa que tivera com Pierre, pediu-lhe autorização para dar seus planos da capela ao jovem. Dizia ele: “se minha obra obtiver a benevolência real, Pierre terá assim a oportunidade de exercer uma profissão da qual ele é digno, e eu não, por causa de meu grave delito. Assim, poderei encontrar finalmente a paz, ao dar-lhe a oportunidade de realizar seu sonho de ser um arquiteto.” O monge dominicano concordou, e o filho do confeiteiro, após um longo período de treino, foi apresentar-se ao rei.

Os belos traços do desenho seduziram São Luis. Impressionado com tanta capacidade da parte de um arquiteto tão jovem, desconfiou de sua autoria, e perguntou-lhe se realmente tinha sido ele o idealizador dessa bela obra. Este, confessou-lhe que os planos pertenciam a outro, cujo desejo era permanecer no anonimato caso sua obra encontrasse graça perante sua majestade. Em contrapartida, apesar de sua idade prematura, ele era capaz de levar a cabo a construção. O monarca encantado com a atitude do verdadeiro artífice e com a sinceridade demonstrada por Pierre, aceitou. Assim, deu-se início às obras do belo relicário de pedras e vitrais.

Quanto ao verdadeiro idealizador, ninguém jamais soube seu nome, pois seu desejo foi inteiramente realizado. Só o monge que o tinha acolhido e recebido nos claustros do convento dominicano, passou para a história: era São Tomás de Aquino.

Esta bela história é conhecida como “a lenda do mestre de obras anônimo”. Quanto ao verdadeiro autor, não há informações sobre ele. Numerosos historiadores afirmam ser “Pierre de Montreuil” – arquiteto famoso daquele tempo – porém, não há documentos comprovando.