Prof. Guzmán Carriquiry Lecour no Seminário São Tomás de Aquino

Felipe Paschoal Rocha – 3º ano teologiaCariquire_2

O subsecretário do Pontifício Conselho para os Leigos, Prof. Guzmán Carriquiry Lecour, acompanhado de sua distinta esposa, visitou as dependências do Seminário São Tomás de Aquino e participou da Missa celebrada pelo sacerdote francês Pe. Louis Marie Goyard, EP, esta segunda-feira, 2 de agosto.

O Reverendo Diác. Carlos Javier Werner Benjumea, EP, saudou o ilustre visitante agradecendo o contributo na aprovação Pontifícia dos Arautos do Evangelho, em 2001. De fato, após o reconhecimento jurídico da Santa Sé, os Arautos obtiveram um desenvolvimento “milagroso”. “Tudo que vedes aqui”, explicou o diácono, “é fruto da benção e do poder das chaves de São Pedro”,

Na homilia, o Revmo. Pe. Louis Goyard comentou o trecho do Evangelho que narra a multiplicação dos pães. Aplicou ao desejo incondicional de seguir o Divino Mestre manifestado pelo povo, o qual nem mesmo se preocupou em levar comida e bebida para longa jornada no deserto. Quando as necessidades apareceram, Jesus multiplicou os pães e os peixes, para demonstrar que o afeto auxilia os fiéis, sobretudo nos momentos de maior aflição. “Tal como em vida, Nosso Senhor ajudou a Igreja em todas as fases de sua História”, naqueles dramas em que parecia que a Igreja tinha o “último pedaço de pão e o último peixe”. E concluiu o sermão discorrendo sobre a alegria que deve possuir o cristão afligido pelas agruras da vida: “que saibamos cantar no auge das dificuldades o mais alto dos magnificats”.

Prof. Carriquiry, eminente personalidade uruguaia, tem diversas responsabilidades na Santa Sé. Participou como “auditor” em quatro Assembléias do Sínodo mundial dos Bispos e nas delegações oficiais da Santa Sé em conferências das Nações Unidas.

Recebeu títulos honoríficos como “Comendatore” da República Italiana (1992), “Cavaliere di Gran Croce dell´Ordine di San Gregorio Magno (Vaticano, 1994). Além de exercer várias atividades acadêmicas é autor de numerosos livros e publicações.

O que é a comunhão dos Santos?

Marcos Eduardo Melo dos Santos – 2º Ano de Teologia

 

Coroaçao Fra AngelicoÉ possível ser um grande missionário sem jamais sair do convento?

Santa Teresinha do Menino Jesus foi honrada pelos Papas como padroeira das Missões, entretanto, nunca saíra Carmelo, o que parece uma contradição… Porém, se conhecermos o que é a comunhão dos santos, veremos que este título foi, na verdade, um autêntico ato de justiça.

Dizia esta santa em sua autobiografia que desejava ser ao mesmo tempo apóstolo, mártir, cruzado, sacerdote, catequista, religiosa de clausura, ajudar os doentes… queria ser tudo pelo benefício das almas. Esta vontade de fazer bem a todos, não poderia ser aplicada de forma natural, mas realizada pelos meios sobrenaturais. Em determinado momento de sua vida, instruída acerca da doutrina da comunhão dos santos, compreendeu que seu papel na Igreja seria como que o “coração”, que influencia todos os membros pelo influxo sanguíneo do amor a Deus.

“Creio na comunhão dos santos” é o que rezamos todos os domingos na Missa ou ao começarmos a recitação do terço. A comunhão dos santos é um dogma de Fé explicitado desde o primeiro século do cristianismo. Permite, por exemplo, que ofereçamos auxílios espirituais aos cristãos que estão em outros países, a milhares de quilômetros de distância. A doutrina explica que os membros da Igreja, por toda a terra, embora pouco ou nada se conhecendo, sobretudo à distância, estão unidos por um vínculo espiritual que transpõe as distâncias e mesmo os tempos.  Pela comunhão dos santos, estamos unidos de tal maneira que nossos atos e intenções podem influenciar na fidelidade ou na infidelidade de nossos irmãos na Fé no presente, no passado e no futuro.

Pela comunhão dos santos, um ato de virtude, de abnegação ou de generosidade, pode tornar-se auxílio para um jovem que se precipita nas trilhas do pecado, assim como um ato pecaminoso pode ter consequências nos membros e, de certa forma, no corpo místico.

Todavia, a comunhão dos santos não se aplica somente aos cristãos desta terra, membros da Igreja Militante, pois também fazem parte da Igreja todos aqueles que já estão salvos no paraíso, aqueles que constituem a Igreja Triunfante. Pela comunhão dos santos, está explícito a ajuda que podemos receber daqueles que já morreram e foram salvos, e gozam da glória divina. Eles podem interceder por nós, pois da mesma forma que uma pessoa que ama a Jesus e Maria quer prestar os benefícios materiais e espirituais a seus irmãos na Fé, também aquelas almas que estão no Céu querem ajudar as pessoas na terra. Como que estão ávidas de que peçamos sua intercessão, para assim, continuar no Céu a ajudar aqueles que peregrinam na terra[1]. Por esta razão, a Igreja crê e confessa esta relação com os céus na devoção e intercessão do santos. Assim, temos também nós a esperança de, quando salvos, podermos auxiliar nossos parentes e amigos nas sendas do bem e da verdade. A raiz da comunhão dos santos está em que a virtude da caridade “é bondosa e não interesseira” (Cf. 1Cor 13, 4-5). Já os primeiros cristãos dispunham de todos os bens espirituais e materiais, de “tudo em comum” (At 4,32). A comunhão dos santos também tem um aspecto material, por onde os cristãos devem estar dispostos a ajudar o próximo através dos próprios bens materiais colocando-os ao serviço dos mais necessitados.

Além disso, a comunhão dos santos se aplica àqueles que sofrem os calores das benditas chamas do purgatório, pois estas almas esperam ser purificadas de suas faltas e entrar no convívio eterno com Deus e Maria Santíssima. Pela comunhão dos santos podemos ajudá-las a se purificar com mais presteza, e assim unirem-se aos santos do Céu.

 

Qual o melhor meio de beneficiar as almas pela comunhão dos santos?

A comunhão dos santos é o meio mais poderoso de apostolado. Por mais que sintamos não ter dons para fazer bem às almas de nosso próximo, se vivermos uma vida santa e de amor fervoroso a Deus podemos prestar um valioso auxílio aos cristãos do mundo inteiro, pois pela prática da virtude conserva-se o estado de graça e o cumprimento dos mandamentos divinos. A prática da virtude nos afasta do pecado fazendo com que não sejamos motivo de retração da graça divina para a Igreja Universal, ou para determinado conjunto de fiéis, um país, uma cidade, um bairro, etc. Ao contrário, a prática da virtude faz com que sejamos verdadeiros “pára-raios” da graça de Deus, beneficiando assim toda a Igreja Universal.

Entretanto, existe também um modo ativo de auxiliar nossos irmãos na Fé: a recepção dos sacramentos, especialmente da Eucaristia. De fato, a comunhão dos santos não é somente a união entre os santos, mas também, a comunhão das coisas santas. Em latim, communio sanctorum tem esse duplo sentido, “comunhão dos santos” ou “das coisas santas”. Por isso, a Liturgia, usando deste jogo de palavras latinas, ensina: Sancta Sanctis, ou seja, “as coisas santas aos santos”.

Desta forma podemos oferecer uma oração a Deus, pelas almas mais tentadas no mundo, pelos cristãos que são perseguidos por causa de sua Fé, para que sejam mais santos e fiéis à vocação que Deus lhes chamou, oferecendo assim nossas súplicas pelo Clero e pelo Papa.

Agrada também a Deus oferecer um sacrifício, um sofrimento corporal ou moral que estejamos na contingência de suportar, ou ainda uma privação voluntária de algum prazer legítimo, como comer algo delicioso ou descansar por um tempo maior. Todavia, ainda existe um ato mais agradável, e mais sublime: receber a sagrada hóstia. Oferecer explicita e fervorosamente as intenções da comunhão eucarística pelos cristãos no mundo, e pelas almas do purgatório, faz com que usemos ativamente deste meio de caridade fraterna[2]. A oração e os méritos adquiridos por nós na Eucaristia podem beneficiar o mundo inteiro, por causa, do “fundo comum”, de todos os méritos dos santos, da Santíssima Virgem e da Paixão de Cristo na Cruz. Este fundo comum que atrai as graças de Deus, beneficia todas as almas da terra e do purgatório[3].

 

Qual é o fundamento Bíblico para a crença na comunhão dos santos?

Este dogma de Fé que o católico reza no credo funda-se em um dos mais belos trechos de São Paulo (1Cor 12), onde o Apóstolo compara a Igreja ao corpo humano: “Assim como o corpo é um todo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo. […]  O corpo não consiste em um só membro, mas em muitos. Se o pé dissesse: Eu não sou a mão; por isso, não sou do corpo, acaso deixaria  ele de ser do corpo? […] Há, pois, muitos membros, mas um só corpo. O olho não pode dizer à mão: Eu não preciso de ti; nem a cabeça aos pés: Não necessito de vós. Antes, pelo contrário, os membros do corpo que parecem os mais fracos, são os mais necessários. […] Se um membro sofre, todos os membros padecem com ele; e se um membro é glorificado, todos os outros se congratulam por ele.  Ora, vós sois o corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros” (1Cor12, 12-27).

Desde os primórdios da Igreja que os cristãos interpretam esta passagem de São Paulo no sentido da comunhão dos santos[4]. Por isso ensinam os Padres que a “Igreja é a comunhão de todos os santos”[5], do Céu, da terra e do purgatório de todos os recantos do planeta, de todas a línguas e povos.

A comunhão dos santos torna Igreja Universal, por isso, Católica. Quem vive compenetrado deste artigo de Fé, pode fazer maravilhas na ordem da graça, converter povos, auxiliar os santos e os cristãos perseguidos… A Fé na comunhão dos santos põe nas mãos do católico o verdadeiro “timão da história”.

 


[1] Por isso exclamava Santa Teresinha: “Quero passar o meu céu a fazer o bem sobre a terra”. TERESINHA DO MENINO JESUS. História de uma alma. 24. ed. São Paulo: Paulus, 2005.

[2] Os sacramentos operam a comunhão dos santos. A Eucaristia consuma esta união. S. Th. III, q. 73, a.2c.

[3] Catecismo Romano. Publicado no século XVI.

[4] A caminho do martírio, um discípulo de Santo Inácio de Antioquia, São Policarpo de Esmirna (70-160) disse aos seus irmãos: “Não choreis, que eu vos serei mais útil depois da morte e vos ajudarei mais eficazmente que durante a vida”. In Martyrium sancti Polycarpi 17, 3: SC 10bis. 232 (Funk 1, 336).

[5] São Nicetas de Remesiana (335-414) Instructio ad competentes 5, 3, 23 [Explanatio Symboli, 10]: TPL 1, 119 (PL 52, 871). Koinônia

Recente, mas profunda amizade…

Millon Barros de Almeida – 3º ano teologiaMissa arcebispo_4

Nesta Sexta-feira, dia 30 de julho, D. Francesco Coccopalmerio, Presidente do Pontifício Conselho para os textos legislativos, concelebrou uma solene Eucaristia na Igreja do Seminário, com Mons. José Aparecido Gonçalves de Almeida, brasileiro promovido recentemente ao cargo de subsecretário desse mesmo dicastério.

Os dois ilustres prelados da Cúria Romana estiveram no Brasil por ocasião do tradicional Congresso Internacional de Direito Canônico no Rio de Janeiro.

Passando por São Paulo, honraram o Seminário São Tomás de Aquino com sua presença e a celebração da Santa Missa.

arcebispo missa_10Na homilia, Dom Francesco ressaltou a inesperada alegria de encontrar a Igreja do Seminário repleta de Arautos. Aplicou a liturgia do dia que tratava do encontro com Jesus, e da guarda do tesouro ao abandono de tudo por amor a Ele: “Quem encontra a Jesus, encontra um tesouro e não hesita em deixar tudo”.

Estimulou os Arautos e seminaristas ali presentes a anunciar este tesouro por todo o mundo. Transmitir a boa nova do Evangelho “com beleza, delicadeza, amabilidade e sorriso”.

Ao final da cerimônia, o Pe. Alex de Brito, EP agradeceu a amável visita e ressaltou as qualidades dos dois ilustres prelados. “Recente, mas profunda amizade” – foi assim que o sentimento entre o celebrante e os Arautos. Dom Coccopalmerio, pediu então a oração de todos os presentes: “Para que o Senhor me ajude a fazer bem o Seu trabalho”.

Dom Francesco Coccopalmerio, Arcebispo italiano, é presidente do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos no Vaticano. Nasceu em San Giuliano Milanese (1938), tendo sido ordenado sacerdote em 1962.

Em 8 de abril de 1993 foi eleito bispo-auxiliar de Milão. Nomeado em 2007 pelo Papa Bento XVI, passou a exercer o cargo de Presidente do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos.

Mons. José Aparecido Gonçalves de Almeida, da diocese de Santo Amaro, São Paulo, foi nomeado em junho de 2010, por Bento XVI, como sub-secretário do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos.

O Pontifício Conselho para os Textos Legislativos é responsável por interpretar as leis da Igreja e examinar os decretos gerais dos organismos episcopais, conferências e concílios particulares, além de prestar auxílio técnico-jurídico para outros dicastérios.

Sabe qual é o vinho mais precioso do mundo?

in: Wikipedia
in: Wikipedia

Michel Six – 3º ano Teologia

 

Quem diria que a doce França do charme, da etiqueta e dos vinhos como que emergiria do fundo dos mares, dois séculos depois da Revolução Francesa? Se não é a França dos reis e rainhas, dos palácios e festas brilhantes, das marquesas vestidas de porcelana e dos nobres senhores com belos trajes que ressurgiram à tona, desta vez, foi a França dos vinhos.

Trata-se da descoberta do champagne mais antigo do mundo que alguns mergulhadores encontraram a 55 metros de profundidade, nas proximidades do arquipélago de Aaaland, situado a meio caminho entre a Suécia e a Finlândia.

Nos porões de um barco naufragado, mergulhadores encontraram cerca de 30 garrafas avaliadas cada uma em 68 mil dólares, ou talvez até milhões de dólares, caso se comprove serem vinhos enviados por Luís XVI à corte imperial russa em 1780. Para isso os exploradores devem averiguar o nome do navio, embora a parca visibilidade de apenas um metro dificulte a busca.

Terrível para os mergulhadores, ótimo para os vinhos. Os champagnes passaram mais de dois séculos em condições de conservação excelentes: ausência de luz e frio constante. A descoberta do espumante bicentenário foi feita neste 6 de julho.

Felizardos enólogos já comprovaram a qualidade estupenda do precioso líquido. Pelo fato de que a rolha contenha a inscrição Veuve Clicquot, os especialistas deduzem que estes champagnes são da época de Luis XVI e Maria Antonieta. A vinícola iniciou sua produção em 1772, e as primeiras colheitas fermentadas saíram em 1782; não pode ser posterior a 1789, pois a Revolução Francesa impediu sua produção.

Este deleitoso fato me impele a querer compartilhar com o leitor um pensamento. A alegria que esta descoberta produz no espírito de muitos homens, não se reduz ao mero sabor do champagne submergido há 200 anos, mas ao que este líquido precioso evoca no espírito de nossos inteligentes contemporâneos que sabem apreciar as luzes, belezas, charmes, artes e talentos do Antigo Regime Francês. Época na qual, de fato, o requinte e a cultura francesa atingiram seu apogeu.

O espumante que submergiu dos mares do norte, avivou em muitos espíritos as doçuras do Ancien Régime, ainda que submergido na fria escuridão da ignorância, ou da visão caolha e estereotipada da História. Em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade, não somente a produção de saborosos vinhos cessou, mas também a França de Maria Antonieta, do charme, do bom trato e da Fé.

Ideal de um mundo irreal e imaginário? Vinho submergido definitivamente pelas vagas da História? Não para aqueles que unidos ao Vigário de Cristo na terra crêem com toda alma no Seu Evangelho e no triunfo do Imaculado Coração de Maria. Este é o champagne ao mesmo tempo mais novo e mais antigo do mundo. Criado antes dos tempos, comprado pelo preciosíssimo sangue de Cristo e à disposição de todos para beneficio do mundo inteiro. Contudo, o vinho do Evangelho que a Igreja lhe oferece caro leitor, tem muito mais valor que o champagne de Luis XVI. Este vinho de valor infinito é o próprio sangue de Cristo, oferecido sob as espécies eucarísticas na Sagrada Comunhão. Este é o vinho mais precioso dado ao mundo.

 

Comentário de notícia da agência France-Presse usada pelo Site da revista Veja: “Champagne de Luis XVI no fundo do mar”.

Disponível em: <http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/mergulhadores-encontram-no-baltico-champanhe-mais-antigo-do-mundo>.

O corpo humano e o Corpo Místico: Uma aula de catequese tomista

Tomas AquinoMarcos Eduardo Melo dos Santos – 2º ano Teologia

 

Singelo, belo e profundo, o relato dos gênesis sobre os sete dias da criação constitui em suas poucas linhas uma verdadeira síntese teológica sobre a natureza humana. O homem, obra que coroou a obra de Deus, modelado pelos próprios “dedos divinos” não foi apenas a mais bela obra-prima escultural da História, mas, sobretudo, o símbolo mais excelente da Igreja Católica.

Ainda que em sua parte inferior, ou seja, o corpo, com sua complexidade e suas funções, desde a constituição das células, do sistema imunológico e nervoso, a perspicácia dos sentidos externos e internos, o verdadeiro universo que é o cérebro humano, tudo isto constitui um conjunto amplo, quase inabarcável. Ainda hoje, apesar do imenso avanço da medicina e da ciência, permanece um sublime mistério. Se esta é a excelência do corpo, que dizer da alma humana?

Com efeito, como ensina o Gênesis, o homem foi criado à “imagem e semelhança de Deus” (Gn 1, 27), enquanto as demais criaturas visíveis somente à Sua semelhança. A natureza humana é similar a Deus como as demais criaturas por refletir a “bondade” e a “verdade” inerente a todos os seres criados, é o vestigium trinitatis da concepção tomista;[1] mas também, pela alma infusa por Deus, o homem é imagem de Deus pelo fato de conhecer e amar.[2] Com efeito, deste modo de operar – que caracteriza a natureza humana racional e sensível – provém toda a sua excelência e sublimidade, pois lhe faz capaz da vida divina e da relação afetiva e intelectual com Deus. É o que nos faz capazes de ser chamados “filhos de Deus”: somos partícipes da graça divina (Cf. Rm 8, 15-17).[3] Sob outro aspecto, segundo a concepção aristotélico-tomista, tendo o homem corpo e alma, constitui assim um microcosmos, resumo e síntese da criação.[4]

Contudo, o corpo humano, por incrível que pareça, possui uma excelência ainda superior. Deus o criou para refletir o mais alto ser da ordem do universo. Ser esse que, de certo modo, abrange todos os planos da criação, especialmente no tocante aos seres espirituais: Anjos e homens. Esta maravilha feita por Deus é a Igreja Católica Apostólica Romana. O Verbo criou o corpo humano como reflexo desta sociedade espiritual e universal. De fato, que seria do mundo sem a Igreja? Observa Plinio Corrêa de Oliveira que “a religião conseguiu trazer ao mundo, com seus sacramentos, com a graça de que é veículo, e com o admirável apostolado hierárquico da Igreja, uma continuidade de ação santificadora que tem sido a coluna da civilização”.[5] A Igreja é, deste modo, fonte de todas as maravilhas do mundo cristão.

Ora, a Igreja Católica é denominada por São Paulo: “Corpo Místico de Cristo”, Corpus Mysticum Christi, enquanto Cristo é a Caput Ecclesiae (Ef. 1, 22-23).[6] São Tomás de Aquino ensina de modo admirável como a analogia paulina possui pleno valor.

De fato, a cabeça é a mais nobre e elevada parte do corpo humano. Nela está a própria identidade da pessoa, onde se reflete a dignidade, a nobreza e a beleza. A face é a parte mais bela e nobre do corpo, reflete os sentimentos e os anseios da alma, na cabeça estão os olhos, as “janelas da alma”, onde se manifesta de modo especial a parte espiritual do homem”.[7] Assim também, Cristo é a cabeça, parte mais excelente da Igreja. Em consequência da graça de união, ou seja, pela união pessoal com o Verbo divino, Cristo foi em sua natureza humana elevado pela mais excelente graça habitual, para ser em pleno sentido “cheio de toda graça e verdade” (Jo 1, 14). Cristo foi o recipiente mais adequado a todos os favores do Céu. Foi tal a plenitude de graças que Cristo recebeu, que pela sua natureza humana é verdadeiramente a cabeça do Corpo Místico, que é a Igreja. Por esta razão, Cristo homem foi a cabeça da Igreja, tanto pela união pessoal com a natureza divina, sendo caput ecclesiae por sua união hipostática, como também, pela sua natureza humana, aperfeiçoada maximamente em seu operar pela graça habitual. Esta graça habitual era excelentíssima, por ser Cristo mediador de todas as graças dado a sua missão salvífica, pois “de sua plenitude recebemos graça sobre graça” (Jo 1, 16).

A perfeição da cabeça humana também confere valor à analogia tomista. Com efeito, na cabeça do homem estão todos os sentidos externos, a saber: visão, audição, olfato, paladar e tato – enquanto que nos demais membros do corpo, apenas o tato. Além do mais, na cabeça, mais especificamente no cérebro, se encontram todos os sentidos internos, ou seja, a memória, o senso comum e a imaginação, assim como a inteligência, que é o mais alto operar humano. Em Cristo cabeça, esta união pessoal com o Verbo influi toda a excelência de sua natureza humana. Nele havia toda a perfeição de quem possuí a visão beatífica, a qual redunda na máxima fruição de Deus desde sua concepção no seio virginal de Maria. Contudo, também pela graça habitual, Jesus conhecia e amava a Deus de modo perfeitíssimo.

Assim como a cabeça possui pleno poder sobre o corpo e todos os membros do corpo, órgão e glândulas são regidos pela cabeça, ou mais especificamente, pelo cérebro e demais órgãos do sistema nervoso central. Esta ordem emanada pela cabeça humana é, em fração de segundos, transmitida pelos nervos e executadas pelos membros, ainda que inconscientemente, pois vários órgãos do corpo não estão regulados pelo império consciente do homem, mas, mesmo assim, são regidos sem dúvida pela cabeça. Do modo semelhante, porém ainda mais perfeito, também Cristo governa pelo influxo intrínseco seu corpo místico. Através da graça, da qual é mediador, estimula, ordena e age em todos os membros da Igreja segundo a função e o chamado particular de cada fiel, por meio desta graça que “derramou profusamente sobre nós, em torrentes de sabedoria e de prudência” (Ef 1,8).

 


[1] “Ergo dicendum quod in hoc ipso quod creatura aliqua habet esse, repraesentat divinum esse et bonitatem eius” (S. Th. I q. 65, a. 2, ad. 1).

[2] Secundum intellectum et rationem, quae sunt incorporea, homo est ad imaginem Dei (S. Th. I q. 3, a. 1, ad. 2).

[3] Porquanto não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Aba! Pai! O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. E, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, contanto que soframos com ele, para que também com ele sejamos glorificados (Rm 8, 15-17).

[4] Em São Tomás, minor mundus (S. Th. 1, q. 91, a. 1, resp.).Traduzido do grego Microcosmo, μικροκοσμος, em Aristóteles, (Phys. 8 c.2 n.2). Doutor Plinio Corrêa de Oliveira diz que, o homem é, pois, um microcosmos que compendia “em si, de algum modo, toda a criação, desde o Anjo até a pedra, por ter espírito como os Anjos e ter também em si a natureza animal, vegetal e mineral” (Teologia da História, Iª Série, aula 2).

[5] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plínio. José Dominguez et al (org.). Opera Omnia. São Paulo: Retornarei, 2008. p. 432.

[6] “Ipsum dedit caput supra omnia ecclesiae, quae est corpus ipsius, plenitudo eius, qui omnia in omnibus adimpletur” (Ef 1, 22-23).

As palavras convencem, os exemplos arrastam

Anderson Carlos de Oliveira – 3°ano de Teologia

São Francisco XavierHá quem diga que quanto maior for a penitência aplicada ao pecador arrependido, maiores será sua contrição e seu desejo de emenda. E essas mesmas pessoas, costumam fundamentar suas opiniões dizendo que em certas épocas a severidade da disciplina eclesiástica era tal, que os confessores impunham penitências rigorosíssimas as quais, às vezes, exigiam anos para serem cumpridas, conforme a maior ou menor gravidade do delito. Mas seriam os santos partidários desse modo de agir? Vejamos…

Durante a viagem de São Francisco Xavier às Índias (1542), encontrava-se um soldado português que havia dezoito anos não se confessava, nem procurava remédio para sua alma, pois tinha perdido todas as esperanças de salvação. Procurou o santo embarcar com ele na mesma nau, e, pouco a pouco, sem revelar seu intento, travou amizade com ele. Ganhando-lhe a simpatia, veio um dia a perguntar, em tom de intimidade, quanto tempo havia que se confessara. Respondeu ele, sem se assustar, que dezoito anos já haviam passado desde que ele se ajoelhara pela última vez aos pés do confessor.

– Causa devíeis ter, pois os outros fiéis não costumam demorar tanto – disse o Santo.

– A causa – disse o soldado – foi porque o meu padre vigário não me quis absolver, e eu, como vi que não podia emendar-me, tive por inútil buscar a confissão.

Continuou então o Santo, com grande serenidade de ânimo e de semblante:

– Deixe comigo. O vigário fez ao modo dele, mas, se vós quiserdes, façamos isso ao meu modo. Fazei um exame de consciência e eu vos ajudarei a lembrar dos pecados esquecidos. Em seguida, absolver-vos-ei.

Assim fez o soldado, com muitas lágrimas e suspiros, que mostravam a verdade de seu arrependimento. E São Francisco lhe impôs, de penitência, apenas um Pai-nosso e uma Ave-Maria. O penitente ficou estupefato. Mas o Santo lhe disse que o ajudaria a expiar seus pecados. E logo, entrando no espesso bosque vizinho – pois já estava em terra firme, quando ouviu a confissão – entregou-se à oração e à penitência.

Com tal cena ficou o soldado tão impressionado e compungido, que dali por diante voluntariamente se entregou a uma vida penitente e reformada.

Festa Julina nas Paróquias da Cantareira

Festa Julina Calvário0Anderson Fernandes Pereira – 2º Ano de Teologia

 

Canjica, quentão, fogueira, bingo e teatro aqueceram os corpos e corações neste último sábado dia 17 de julho, em uma das Capelas de Paróquia Nossa Senhora das Graças.

Estes eram uma das atrações da festa julina organizada por professores e seminaristas do ITTA em benefício da comunidade da Capela Nossa Senhora do Monte Calvário, no interior de Mairiporã.

Festa Julina Calvário2A confraternização começou, como habitualmente, com a Santa Missa, celebrada pelo Pe. Daniel Mirasierras EP, sacerdote espanhol e Supeiror da Casa de Formação dos Arautos do Evangelho em Colômbia. No sermão, estimulou os fiéis à confiança na Providência, seguindo as inspirações da graça e de tudo aquilo “que eleva e faz bem às almas”, e que evitassem tudo que conduz “para baixo, para o pecado”. Demonstrou que a felicidade não está no pecado, mas sim, na virtude e no convívio alegre e ameno com Deus e com os irmãos.

O tema da homilia não poderia ser mais propício para o ato seguinte à Missa: uma festa popular com todas as manifestações caseiras da cultura e gastronomia popular brasileira.

Após o bingo de prendas oferecidas pelos próprios membros da comunidade em benefício das reformas e manutenção da Capela, foram servidos quentão, pastel, pipoca, canjica e saborosos espetinhos, junto à bela e ardente fogueira.

Festa Julina Calvário1Não foram somente os corpos aquecidos nesta fria noite de Sábado, mas sobretudo, as almas. Uma surpresa especial: Ao final da confraternização, os professores e alunos do Seminário encenaram a Peça “o Rei e o Terço”, que estimulou os fiéis da comunidade à oração do Rosário.

 Com um ambiente familiar e aconchegante, a festa na Capela Nossa Senhora do Monte Calvário reuniu cerca de 400 pessoas.

As festas juninas ou “julinas” no Brasil têm sua origem na tradição católica. Além da Fé e do amor a Jesus Cristo e da entranhada devoção à Nossa Senhora, os brasileiros herdaram dos colonizadores lusos uma forte devoção a três santos comemorados no mês de junho: Santo António, São Pedro e São João. Tal como no Brasil, até hoje em Portugal celebram-se as festas litúrgicas dos três santos mais populares com missas, procissões, danças e manjares típicos do país.

Em nosso Brasil, há séculos que existe o costume, difundido de norte a sul, de comemorar o dia festivo do santo padroeiro com quermeces e festas populares com jogos, fogueiras e bastante comida, beneficiando as necessitadas reformas da igreja paroquial assim como as atividades sociais.

Contudo, o mês de junho não parece não ser suficiente para comemorar os três santos mais populares do Brasil… Foi assim que nasceram as festas julinas.

Um convite especial

Profeta1Lucas Alves Gramisceli – 2º Ano de Teologia 

Gostaria de convidá-lo, caro leitor, a um pequeno período de recolhimento e contemplação. Sei que pela internet, não é fácil, mas é possível. Tenho certeza de que nestes instantes, todas as circunstâncias – grandes, pequenas, agradáveis ou até mesmo dolorosas – da vida quotidiana desaparecerão.

 Como achará árduo aceder a este convite, visto que o único tempo livre para ler é um interstício entre o trabalho, e sua casa, ou percurso de todos os dias, entre sua casa e o trabalho, de tal forma que quando começa tentando se concentrar, tudo parece dificultar, ouve uma motocicleta que passa, enchendo com seu som roufenho o espaço que o acolhe e perturbando seu recolhimento, ou uma TV que despeja, ao ritmo dos canais que mudam, profusões de telelixo.

Neste ponto eu concordo inteiramente com o leitor que, aliás, acho que já pode ser chamado de interlocutor, visto que já há alguns instantes estamos conversando. O mundo hodierno vive uma febricitação e agitação constantes, as pessoas andam absortas em intrincados problemas.  E por esse motivo, não conseguem mais refletir e pensar…

A existência humana deve ser, entre outras coisas, objeto de uma análise que abarque todo o seu conjunto. Essa análise é que nos faz compreender os supremos valores da vida, nos faz “dar um rumo” à nossa existência, e nos aproxima de Deus. Nesse sentido há pessoas que passam pelo “jogo da vida” e nada compreendem, vivem sem rumo e direção, facilmente levadas pelos vagalhões ideológicos que muitas vezes entram em confronto com a sua própria consciência.

Profetas Uma magnífica expressão desse modo de analisar a vida, e desse estado de espírito contemplativo, são as esculturas dos profetas do Aleijadinho. Em todas aquelas fisionomias transparece essa visão de conjunto dos acontecimentos humanos, que com seus grandes olhos, perecem estar abertos a uma visão superior da vida. Quando estamos diante deles temos a impressão que – apesar de estarem envolvidos por um grande silêncio – as pedras falam. Com seu porte hierático, grave e sublime, falam às nossas almas. Isto pode parecer à primeira vista um paradoxo, mas bem podemos dizer que se trata de um silêncio eloquente.

Ao contemplá-los sentimo-nos descansados, animados, afagados e protegidos, como que “transportados” a um mundo mais elevado.

Enfim caro leitor, posso dizer que os profetas repetem o mesmo convite, por mim feito no inicio do artigo. Não é verdade que após esses breves instantes que estivemos juntos esquecemos os problemas, as amarguras e decepções da vida? Ao indagar-me a razão disso, respondo de uma maneira muito simples: “non in commotione Dominus” (3 Rs 19, 11).[1]

 


[1] Deus não está na agitação.

Feriae miseriae – mudou o ditado latino?

AuroraFelipe Rodrigues de Souza – 3º Ano de Teologia

Quem diria que algum dia este ditado receberia uma significativa alteração?

 Pois bem, foi Sua Santidade, o Papa Bento XVI, quando no seu discurso de 11 p.p. ressaltou a preeminência do espírito sobre a matéria, o que se deve verificar também – sobretudo – nas férias.

Apresentou assim a necessidade de aproveitar este período para “consolidar a vida espiritual”.

“Irmãos e irmãs, é tempo de descanso e férias. Desfrutai deste período para o repouso e para retemperar as forças do corpo e do espírito”, acrescentou, desejando ainda “boas férias a todos”.

O Pontífice está também em período de “descanso”, muito merecido, em Castel Gandolfo, mas aproveita sempre este período para fazer apostolado e cuidar do rebanho de Cristo, dando-nos assim o exemplo de como aproveitar da melhor forma possível as férias. As palavras comovem, os exemplos arrastam.

É verdade que as férias poderão ser ocasião de grandes perigos, pois o ócio é pai de todos os crimes.

Tenhamos nestas férias a astúcia da serpente, e a inocência da pomba, para não cairmos nas garras da ociosidade. Saibamos, a exemplo do Santo Padre, utilizar as férias para a salvação de nossas almas e daqueles que nos são próximos, não sendo ocasião de pecado a ninguém. Pelo contrário, apontando a estrela que anuncia o Salvador.

Esta é Maria, a Estrela da Nova Evangelização. E não cessa nunca de brilhar… permita Ela que brilhemos sempre, com a luz da graça, em todos os momentos de nossa vida.

Feriae stellae

Eucaristia: sacramento que nos eleva acima dos anjos e do homem inocente do paraíso

EucaristiaAlessandro Shurig – 3º Ano Teologia

“Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça. E disse em seguida ao homem: ‘Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa[1].

Assim começava o imenso, secular, e sobremaneira grandioso drama da história da humanidade. Nossos primeiros pais pecaram, e nos deixaram uma amarga herança que, até o fim dos tempos, pesará em nossas tendências, em nossa psicologia, em nosso inesgotável combate contra a concupiscência que está em nós, atraindo-nos constantemente para o que é pecaminoso.

Estaria terminada – poderíamos pensar – qualquer esperança do homem de poder restituir o que havia perdido?  Nunca mais relacionar-se-ia a alma com Deus como antes do pecado original? Seu Criador, que tanto amou suas criaturas, lhes havia fechado as portas do céu por todos os séculos?

A resposta só pode ser negativa. Após quatro mil anos de fervorosa espera de patriarcas, profetas e almas justas, “surgiu para nós um Salvador”[2], para restituir esta ordem perdida. Aquele que podia dizer ao demônio, que introduziu a morte e o pecado no mundo: “Morte, eu serei a tua morte! Inferno, serei a tua ruína!”[3]. Muito além do que qualquer mente humana poderia conceber, este Salvador seria o próprio Deus feito carne, e que elevaria a natureza corrompida pela queda de nossos primeiros pais a um patamar de santidade e perfeição muito mais alto do que se não houvesse caído.     

            Parecerá ousada esta afirmação. Como se poderá fazer isso? Perguntariam certas almas que não têm fé na onipotência Divina.

Eis a resposta: pela paixão e morte na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, atos infinitamente meritórios, e por um instrumento – se assim a podemos chamar – que não tem uma mera força  ou poder humano, mas ilimitado e divino: a Santíssima Eucaristia. São Pedro Julião Eymard, ardoroso devoto do Admirável Sacramento, ensina:

 

“A encarnação do Verbo no seio de Maria foi o prenúncio da eucaristia. O sol radiante das almas, que as há de vivificar e regenerar atingirá seu esplendor máximo no Augusto Sacramento. Se tudo no mistério da encarnação foi glorioso para Maria, tudo no mistério da Eucaristia é glorioso para nós.”[4]

 

Só este sacramento poderia dar aos homens a força necessária para vencer o pecado e o mundo, pois diz São Tomás, que da mesma forma que podemos preservar nosso corpo da morte futura, com o alimento e a medicina, ou defendendo-o dos inimigos exteriores, blindamos nossa alma da morte e do pecado por meio da Eucaristia, “que é sinal da paixão de Cristo, pela qual foram vencidos os demônios. Por onde nos diz São João Crisóstomo: Voltamos desta mesa como leões lançando chamas, convertidos em seres terríveis para o próprio diabo” (S. Th. III q. 79 a. 6)

            Este sacramento “confirma o coração do homem no bem. Pelo que também o preserva do pecado” (Idem). Nossa luta contra nossas paixões, desde que estejamos unidos à Eucaristia, estão ganhas. Nosso adversário, vencido. Porque o efeito deste sacramento é incomensurável, “se deduz do que este sacramento representa, que é a Paixão de Cristo. Por isso, o efeito que a paixão de Cristo produziu no mundo, o produz este sacramento no homem.”( Idem, a. 1)

            Quantas lutas enfrentam os homens a cada dia, a cada instante, para se manterem na trilha do bem. Onde haurirão forças para esta pugna entre o bem e o mal? Unidos à Eucaristia, poderá o demônio enganar-nos, como fez com nossos primeiros pais? Haverá uma tentação mais forte do que a força da Sagrada Eucaristia?

            Diz São Pedro Julião Eymard: “Que proteção contra o demônio! É o sangue de Jesus que, enrubescendo os lábios, torna-nos terríveis aos olhos de Satanás; tintos no sangue do verdadeiro cordeiro, o anjo exterminador não poderá penetrar em nós!” (1938, p. 145). Assim, a dura lida que nos foi imposta pelo pecado original torna-se, pelos efeitos do convívio eucarístico, ocasião de triunfo e glória, maior do que se não tivesse havido pecado. Dessa maneira, se cumprem as palavras de Deus à serpente: “Ipsa conteret caput tuum[5]. A Virgem Santíssima, que pelo seu Sim nos trouxe a Jesus Cristo, e assim, a Eucaristia, esmagará a cabeça do inimigo infernal.

Não resistimos em acrescentar aqui mais algumas palavras de São Pedro Julião, que nos enchem de surpresa e admiração:

 

“Jesus estabeleceu a Eucaristia para reabilitar o homem que se degradara pelo pecado original… que, senhor dos animais, a eles se assemelhou. (Assim), os idólatras tão vizinhos se sentiam dos animais, pelo pecado, que os tomaram por deuses. É então que surge a invenção divina, invenção admirável. (O homem) que recebe a comunhão, une-se a Jesus Cristo e torna-se infinitamente respeitável. Não receio afirmar que, pela comunhão, somos elevados acima dos anjos, senão em natureza, ao menos em dignidade; os anjos não passam de ministros de Jesus Cristo, enquanto nós, ao comungarmos, tornamo-nos membros da família de Jesus Cristo, outros Cristo. Sem o  pecado original, jamais nos teríamos elevado desse modo pela comunhão.”(Idem, p. 92. Grifo nosso)

 

Também o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira tece uma bela consideração sobre este assunto:

 

Nem os mais altos Anjos do Céu têm com Nosso Senhor a forma de união que nós homens temos recebendo a Eucaristia. Um Anjo não pode comungar: ele não tem corpo. Ele goza até da visão beatífica, vê Deus face a face, está inundado de todas as graças do Céu, mas a Sagrada Eucaristia ele não tem (Conferência 5.1.74).

 

“Onde abundou o pecado, superabundou a graça”.[6] Todo o estrago em nós produzido pela insídia da serpente foi pedestal para que Nosso Senhor Jesus Cristo pudesse triunfar sobre o mal, e em nossas almas.


[1] Gn 3, 14-15

[2] Lc 2, 11

[3] Ofício de vésperas do Sábado Santo

[4] EYMARD, São Pedro Julião. A divina Eucaristia, Tomos I-II. Petrópolis: Vozes, 1942. p. 56.

[5] Ela te esmagará a cabeça. Gn 1, 14

[6] Rm 5, 20

Amazonas, o rio da grandeza

Nossa SraMarcos Eduardo Melo dos Santos – 2º Ano de Teologia

A paisagem é serena, quase monótona, porém, estuante de vida. Nas florestas tropicais tudo é generosidade. Abundância de vida, luz e calor. Sob a selva escondem-se maravilhas do reino mineral, da fauna e da flora. O verde reveste o panorama como um manto de esmeraldas, apenas entrecortado por um imenso caldal: é o Amazonas. O maior rio do mundo. Suas águas avançam em um suave murmúrio. Discretas, mas impetuosas, se diria invencíveis. Tão volumosas que fazem o próprio oceano recuar.

De fato, o Amazonas é o maior rio do mundo tanto em volume quanto em extensão. Possui mais de mil afluentes e forma uma bácia hidrográfica de 7 milhões de Km², o equivalente a Europa Ocidendal. Em alguns trechos atinge 100m de profundidade e 190 Km de largura. Um quinto das águas fluviais do mundo desembocam do Rio Amazonas e seu caudal equivale a soma do volume de água dos 10 maiores rios do mundo.  Nasce no Peru, a 160 Km do Lago Titicaca, aos pés do Nevado Mismi, a aproximadamente 5.000 metros de altitude, e após quase 7.200 km, dos Andes ao Atlântico,[1] desemboca em um Estuário de 330 Km, o qual possui a maior ilha marítimo-fluvial do mundo, a ilha de Marajó. Por esses predicados é chamado The River Sea, O Rio Oceano. É o Rio da Grandeza! Não somente por suas proporções. Até mesmo sua história nasce adornada pelos  louros da aventura e pelas glórias reais do maior império marítimo da História.

O império onde o sol não se punha

O Império de Carlos V foi verdadeiramente um dos maiores da Humanidade. Dizia o monarca espanhol que em seu Império o sol não se punha; e era real. No Continente Europeu, era soberano da Península Ibérica e Itálica, assim como de numerosas províncias flamengas e austríacas. Possuía domínios na África, Índia e em vários arquipélagos do Extremo Oriente. O imperador reinava também sobre a maior parte da América.

Um território tão amplo se devia em grande parte a um hábil corpo de exploradores que perscrutavam as riquezas destas longínquas terras. Um desses aventureiros foi Vicente Pizón. Segundo alguns historiadores, foi o primeiro cristão a contemplar o Amazonas ainda no ano de 1500. O imenso rio foi batizado pelo explorador de Río Santa María del Mar Dulce, em homenagem Àquela que lhe tinha protegido contra tantos perigos encontrados ao longo de sua expedição, graças a esta proteção ele, por fim, pôde conhecer o oceano de águas doces.

Todavia, não foi o primeiro europeu a navegar por toda extensão dessas águas, cujo tamanho, perigo e riqueza, eram ainda desconhecidos. Em 1541, Francisco Orellana (1490-1550) em demanda do lendário El Dorado, começou a exploração do rio sagrado que os Incas chamavam de Rio Orinoco , na Venezuela, riquíssimo em ouro. O descobridor penetrou na Amazônia deparando-se com um rio ainda maior que o Orinoco, podendo descrever uma incrível viagem pelo extraordinário emaranhado de afluentes.

Em certo ponto da viagem, Orellana travou um acirrado combate com mulheres guerreiras  que lhes disparavam flechas e dardos de zarabatana. Voltando a Europa, narrou o fato a Carlos V, que, inspirado nas guerreiras hititas da mitologia clássica as quais portavam arcos e montavam cavalos de guerra, passou a chamar o rio de Amazonas.

O explorador Orellana descreveu as amazonas do Rio sul-americano como: “Mulheres altas e adestradas ao combate. Habitavam casas de pedra e acumulavam metais precisosos”. Na verdade, era a tribo dos yaguas, indígenas que usam uma longa cabeleira e ainda hoje habitam a região da confluência dos rios Napo e Negro.[2] Diz-se também que o nome Amazonas é de origem indígena, da palavra amassunu, que quer dizer “ruído de águas, água que retumba”.

Vida em abundância

Sob essas volumosas e serenas águas encontram-se raras e extraordinárias riquezas. Mais de 3.000 espécies de peixes foram encontradas neste rio,  superando em variedade o Oceano Atlântico. Dentre elas, algumas se destacam pela beleza, como os peixes ornamentais, ou então, os botos: animais semelhantes aos golfinhos que atingem 2,6m de comprimento dotados de cores prestigiosas como o azul e o rosa. Menos simpático que os botos são as piranhas, terríveis peixes carnívoros. Ou ainda o Poraquê, um animal aquático que emana ondas elétricas de até 500 volts. Em suas águas também vive o maior peixe de água doce do mundo, o pirarucu, que possui cerca de três metros de comprimento e 200 Kg, enriquecendo com seu sabor o cardápio popular.

Outra curiosidade do Amazonas é o fenômeno da Pororoca, conhecido nos rios europeus como mascaret ou bore. Trata-se de uma elevação repentina de grandes massas de água junto a foz, provocadas pelo movimento das marés. Após o oceano ter suas águas empurradas cerca de 160Km pelo Amazonas onde a salinidade do mar é muito baixa, ao subir da maré, o mar invade o rio formando ondas que podem atingir seis metros de altura e cinqüenta quilômetros por hora. Esta poderosa vaga pode durar até trinta minutos. As águas do oceano adentram no rio arrastando árvores e embarcações. O rio recua ante a impetuosa vingança do mar, mas, em seguida, sereno e vitorioso, o Amazonas volta a seu curso normal depois do duelo com o Atlântico.

Uma realidade superior

As grandezas deste rio faz lembrar realidades superiores. De fato, toda criação é uma imagem dos seres espirituais e do mundo sobrenatural. O Amazonas poderia ser denominado como o rio da grandeza. Não só pelos seus títulos e predicados, mas sobretudo, pelo que representa da vocação dos povos que irriga. Quantos missionários verteram o seu sangue pela Fé junto àquelas águas? Inúmeros. E o resultadofoi  surpreendente. Hoje, as jovens nações da América Latina, com apenas 500 anos de história e 200 de independência, somam cerca da metade dos católicos no mundo. [3] Estas nações de etnia negra, índia e européia, além de unidas pela origem de seus idiomas, pela nova raça oriunda da miscigenação, também o são pela irmandade espiritual do batismo. Formam pela fé católica apostólica romana um só conjunto.

O Amazonas com suas riquezas  parece refletir como um enorme espelho as maravilhas postas pela graça de Deus na alma sul-americana.

Ele também simboliza algo ainda mais sublime. Uma realidade espiritual, ao mesmo tempo visível: A Santa Igreja Católica. Esta é como um vasto rio, de quase dois mil anos, feito com uma água puríssima e com sua nascente muito mais alta que a do Amazonas, pois nasceu do lado aberto de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 A Igreja avança invencível na História, fecunda com suas ricas e férteis águas, todas as personalidades , nações e instituições. Quantos solos outrora áridos, graças a Ela, se tornaram férteis e têm dado à humanidade flores das mais belas e perfumadas, e produzido frutos robustos.  

Tudo de grandioso que se contempla na História e na civilização ocidental vêm deste canal de graças, desta fonte de bençãos da Igreja, que bem poderia ser considerada o grande Amazonas da humanidade. Pode-se sem dúvida aplicar a Ela esta frase da Escitura: “A sua bênção recobre tudo como um rio” (Eclo 39,27).

 

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BIBLIOGRAFIA

AMÉRICA DO SUL. Guia Ilustrado do Mundo. Rio de Janeiro: Reader’s Digest, 2003.

BARSA. Encilopédia Britânica. T. 3, São Paulo: Brithanica do Brasil, 1971. 

BBC. National Geographic. Documentário. Fresh Water.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=908&id_pagina=1 Acesso em: 7 jan. 2010.

TERRA ESPETACULAR. Ohio: Reader’s Digest, 1997.

 


[1] O equivalente a viagem de Roma a Nova York.

 

 

[2] AMÉRICA DO SUL. Guia Ilustrado do Mundo. Rio de Janeiro: Reader’s Digest, 2003. p. 21.

[3] Na América Latina vivem mais de 500 milhões de católicos segundo os dados do site do www.clerus.org da Congregação para o Clero. (Na Espano-américa cerca de 380 milhões e no Brasil 125 milhões, sem contar os católicos da América do Norte). No mundo existem cerca de 1,1 bilhões de católicos. Quase 70% dos católicos no mundo falam espanhol ou português.

Encenação da peça: “O rei e o terço”

Rafael Juneo Pereira Fonseca – 2º Ano de Teologia

TeatroOs seminaristas da Casa de formação São Pedro e os estudantes do ITTA promoveram um dia de atividades para a comunidade local da zona rural de Mairiporã. O evento se deu no próprio território onde está localizada a Paróquia Nossa Senhora das Graças.

Cerca de 50 membros da comunidade São Vicente participaram da atividade que começou com a Eucaristia, celebrada pelo Pe. Mauro Sérgio, EP, encarregado da casa de formação São Pedro, da Capela São Vicente Ferrer e professor de Patrística no ITTA.

DSC02355Após a Missa, houve a apresentação da peça teatral: “O rei e o terço”, baseado em uma história narrada por São Luís Grignon de Montfort. O enredo da peça trata de soberano a quem Nossa Senhora protegeu particularmente, pelo simples fato de portar o Rosário. Desejando que os seus súditos honrassem a Santíssima Virgem, e a fim de animá-los com seu exemplo, ocorreu a esse monarca portar ostensivamente um grande Rosário, ainda que não o rezasse. Isto bastou para incentivar os seus cortesãos a rezá-lo devotamente.

Após o teatro encenado por estudantes do ITTA houve um abençoado convívio com os membros da comunidade paroquial, onde puderam saborear pizzas feitas pelos próprios seminaristas.

A simpatia que se tornou amizade

Víctor Baltazar Castillo López – 2º Ano de Teologia

FotoPe. Néstor David Restrepo Bonnett celebrou Eucaristia em ação de graças pelo encerramento dos cursos ministrados pela Universidade Pontifícia Bolivariana (UPB) no ITTA, São Paulo.

Concelebraram o Revmo. Pe. Edward Andrés Posada Gómez, que ministrou o curso de Espiritualidade como ponte entre a Filosofia e a Teologia, o Padre Hamilton José Naville, Diretor do IFAT, e Pe. Daniel Mirasierras, encarregado da formação juvenil na Casa dos Arautos do Evangelho em Medellín.

Na Homilia, o Pe. Edward – que ensinou Fundamentos Filosóficos da Doutrina Social da Igreja – observou que sua estadia no Seminário São Tomás de Aquino, poderia resumir-se na idéia da “superioridade do espírito sobre a matéria”. Fez uma conexão com a liturgia centrando-se na frase de Cristo: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus” (Lc 4,4). Aplicou-a quanto à realidade do Seminário, onde há uma “síntese de todos os povos”, prova patente de que “nem só de pão vive o homem, mas também de estética, beleza e canto. Vive daquele desejo de infinito inerente à natureza humana”.

A cerimônia decorreu na Igreja do Seminário, dia 2 de julho, e foi animada pelo coro e orquestra do ITTA com cânticos polifônicos de Palestrina e Händel.

Padres ColombiaNo final da celebração, o Pe. Santiago Morazzani, Reitor do Seminário Menor, agradeceu o curso ministrado pelos sacerdotes colombianos, dizendo que “a primeira impressão de simpatia concretizou-se em uma verdadeira e eterna amizade”.

Após a eucaristia foi realizado um jantar comemorativo, onde além de comemorar o aniversário de Joaquim, um seminarista de nacionalidade argentina, e foi entregue um lembrança aos Pe. Edward e Néstor.

O segundo Concílio de Constantinopla

Hernán Luis Cosp Bareiro – 3º Ano Teologiapôr do sol

Há vários pressupostos que precisamos ter em vista para poder compreender bem todo o alcance que envolve o estudo deste concílio. Nele foram condenados os “três capítulos”, que mais adiante  explicaremos.  A temática do concílio girou em torno da heresia monofisita – surgida no Ooriente, mais propriamente em Alexandria – e é justamente por isto que se fazem necessárias explicações prévias, à guisa de pressupostos, posto que esta heresia teve uma duração de nada menos de dois séculos, desde o ano de 433 até 681, isto se considerarmos que o monotelismo [heresia que propunha a existência de apenas uma vontade (a divina) em Nosso Senhor Jesus Cristo] “não é outra coisa que uma nova forma de monofisismo”(LLORCA, 2001, p. 736-7)[1].

            Um destes pressupostos, talvez o principal, é a existência de duas escolas de pensamento altamente influentes na teologia do mundo Oriental, a de Alexandria e a de Antioquia. Esta influência deve-se sobretudo ao fato de que cada uma das escolas pertencia a um Patriarcado Oriental homônimo  nos quais costumava surgirem grandes Santos ou homens de cultura que,  com sua erudição, explicitavam e desenvolviam amplamente a doutrina católica,[2] – por ocasião das grandes heresias – que ainda estava um pouco insípida nas suas definições, não que ela o fosse de fato na sua substância. Foi somente com o passar do tempo que ela foi se tornando explicita. Tais eram os casos de, quanto à  escola de Alexandria, São Alexandre, Santo Atanásio, São Cirilo, Pseudo-Dionisio Areopagita, Leôncio de Bizâncio; e no tocante a  Antioqueno, São Luciano de Antioquia, Diodoro de Tarso, Teodoro de Mopsuéstia, São João Crisóstomo, Teodoreto de Ciro e Ibas de Edessa

            Estas escolas não comungavam das mesmas ideologias e formas de pensar, a respeito de questões dogmáticas e foi isto o que desencadeou a heresia monofisita. ROPS nos ilustra bem isto dizendo:

há duas maneiras de abordar este mistério da fé: ou da forma que nos sugere o célebre prólogo do quarto Evangelho, isto é, partindo do Verbo divino que reside desde toda a eternidade no seio do Pai e que se torna homem em determinado momento do tempo para salvar o mundo – e isto era o que se repetia na escola de Alexandria; ou então partindo da amável figura que vemos no Evangelho e considerando todos os traços tão comoventes que a aproximam de nós, para descobrir através do seu comportamento e sobretudo dos seus milagres a prova da sua divindade – e esse era o tema preferido pela escola de Antioquia. A verdade completa é que Cristo é ao mesmo tempo tudo isso: o Verbo e o Homem perfeito (…) Mas, se insistirmos apenas num desses dois aspectos da doutrina, deixando de lado o outro, cairemos numa ou noutra das grandes correntes heréticas que vão desenvolver-se no Oriente.

            Os demais autores não discordam desta perspectiva de rivalidade existentes entre as duas escolas e a este respeito LLORCA também tem um comentário:

tendo presente o antagonismo das duas rivais, Antioquia e Alexandria, nas questões cristológicas, necessariamente tinha que produzir-se uma reação a favor do monofisismo, como réplica ao nestorianismo patrocinado em Antioquia (2001, p. 535)[3].

            Nosso intuito não é fazer deste trabalho um tratado a respeito das heresias cristológicas.Por isso omitimos aqui toda a temática do nestorianismo, salvo alguns dados importantes que precisamos guardar, e que serão expostos ao seu devido tempo, a fim de entender certos aspectos do segundo Concílio de Constantinopla tal como a questão dos “tres capítulos”. Aliás, não podemos deixar de lembrar estes pontos, posto que as heresias do oriente formam todas elas “um conjunto (…) de ações e reações” no dizer de ROPS (1991, p. 152) e, portanto, necessariamente há ligações entre uma e outra.

            A heresia monofisita consistia na negação da existência da natureza humana de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta heresia tinha surgido em Alexandria e seus principais adeptos eram Eutiques (criador da heresia) e o Patriarca que sucedeu a São Cirilo na sede de Alexandria, Dióscoro (o porta-voz dela). Estes afirmavam terem-se inspirado na doutrina que São Cirilo de Alexandria tinha desenvolvido – sobretudo na sua obra dos doze anatematismos –, para sustentar as teses monofisitas. De fato “algumas expressões empregadas por ele (São Cirilo) dão margem a esta interpretação errônea (monofisita), e, de fato, os monofisitas (…) o apresentaram sempre (a São Cirilo) como partidário seu”[4](LLORCA, 2001, p. 532). Mas estes ignoravam, ou pelo menos dissimulavam fazê-lo, que São Cirilo tinha feito um edito de união em 433 com João (Patriarca de Antioquia, receoso de suas doutrinas) no qual ele renunciava a todas as expressões contidas nas suas obras que poderiam dar margem a que ele cresse de que a união pessoal de Nosso Senhor Jesus Cristo convertia as duas naturezas numa só.

            Como era costume acontecer, a heresia logo que começou foi ganhando força e autoridade e os monofisitas conseguiram colocar nas principais sedes episcopais adeptos da heresia, conseguindo inclusive ganhar as boas graças do Imperador bizantino. Resumindo , o Papa São Leão Magno foi um dos homens providências que intervieram energicamente a favor da ortodoxia na questão monofisita. Vale a pena ressaltar aqui que um homem ocupando a sede de São Pedro, intransigente e radical como ele, foi o que faltou posteriormente na Celebração do segundo Concílio de Constantinopla. São Leão aprovou a sugestão do Imperador Marciano – que tinha subido ao trono recentemente e era a favor da ortodoxia – de convocar um concílio para sepultar de uma vez a heresia. O mesmo foi prontamente celebrado na cidade de Calcedônia, tornando-se assim, após a aprovação do Papa, o quarto concílio ecumênico.

            Como último pressuposto – somos da tese que as grandes introduções preparam as rápidas e fáceis conclusões – temos de falar a respeito de outras duas pessoas, que embora tinham sido providenciais com os seus escritos a favor da sã doutrina, são figuras controvertidas e polêmicas, pois, no tempo da heresia nestoriana jogaram um papel, de alguma forma, oposto ao da ortodoxia pois, como dissemos mais acima, pertenciam à escola antioquena… Contudo, após o Concílio de Éfeso eles tinham-se apartado da doutrina e dos partidários de Nestório, mas mantiveram-se igualmente afastados de São Cirilo pelo receio de cair no extremo oposto, ou seja o monofisismo. Estas duas figuras são Teodoreto de Ciro e Ibas de Edessa, sendo que este último, junto com outros poucos, “mais bem tendiam ao extremo oposto, ou não manifestavam tão firme consistência em suas convicções”(LLORCA, 2001, p. 537) no que diz respeito à heresia monofisita. Mas o que importa ressaltar a respeito deles dois é que prestaram – um mais, outro menos – uma ajuda inegável à Igreja no Concílio de Calcedônia ajudando a condenar o monofisismo. Prova disto é que chegou-se ao ponto de celebrar uma sessão especialmente para resolver os problemas doutrinários que envolviam os dois autores mencionados e na qual eles foram declarados inteiramente inocentes, após teremse retratados dos seus escritos de cunho nestoriano.

            Com a condenação expressa do monofisismo e o desterro de seus principais adversários,Eutiques e Dióscoro, parecia tudo acabado, mas… o mal sempre aprende de suas derrotas passadas sabendo tirar proveito delas para fazer novas investidas contra o bem. “Com as decisões do concílio de Calcedônia e as medidas rigorosas tomadas pelos imperadores não ficou tudo terminado. Ao contrário, as contendas que surgiram depois adquiriram grande extensão e intensidade, dando origem a novas complicações” (LLORCA, 2001, p. 546)[5]. E com isto chegamos ao ponto central deste capítulo, ou seja, o segundo Concílio de Constantinopla, o quinto ecumênico.

            A nosso ver, se bem que não achemos citações para apoiar este ponto de vista, o principal erro para que a heresia cobrasse novo vigor foi o fato de que no Concílio de Calcedônia os partidários do monofisismo, com exceção de Eutiques e Dióscoro, foram tratados com benevolência pelos Padres conciliares, “quase todos foram acolhidos de novo no seio da Igreja católica, sempre previa aceptação da Epístola dogmática (do Papa São Leão) e a condenação de Eutiques”(LLORCA, 2001, p. 545)[6].

            Os monofisitas conseguiram instalar-se em três sedes orientais: Jerusalém, Alexandria e Antioquia. Vale a pena ressaltar que a de Jerusalém e a de Antioquia foram tomadas mediante  verdadeiras batalhas campais entre monges monofisitas e tropas imperiais. Outro fator que contribuiu para a expansão e duração da heresia foi que os imperadores sucessores de Marciano foram todos eles partidários da heresia monofisita. Com a subida de Justiniano I ao trono, o panorama mudou, pois ele quis “apoiar com todo o seu poder a religião católica e a sua legítima hierarquia” (LLORCA, 2001, p. 552). Ademais “não desaprovou nunca a superioridade da autoridade pontifícia” (Idem). Preocupado pela divisão que esta heresia estava causando no seu Império, quis ele colocar um fim em tudo, mediante a promoção de uma união religiosa.

            Como costuma acontecer entre os imperadores bizantinos, Justiniano deixou-se levar pelas manhas e persuasões do Bispo monofisita de Cesaréia, Teodoro Askidas. Este disse-lhe que a fórmula de união consistia  em condenar os “cabeças” da escola antioquena que, como vimos, eram especialmente odiados pelos monofisitas:

ora, os cabecilhas (…) eram três: Teodoro de Mopsuéstia, com todos seus escritos, verdadeiro fundamento do nestorianismo; Teodoreto de Ciro, por seus escritos contra São Cirilo de Alexandria; Ibas de Edessa, por uma carta dirigida a Maris de Selêucia em defesa de Teodoro de Mopsuéstia e contra os anatematismos de São Cirilo (ibidem, p. 558)[7].

            O problema é que, na realidade, estes escritos não precisavam de serem condenados, pois todos já o tinham sido a seu devido tempo, e o levantamento de uma questão como esta só iria produzir consequências desastrosas – como de fato as houve –; mas os monofisitas, e em especial Teodoro Askidas,  viram nisso uma oportunidade única para ficar subentendida, aos olhos de todos, a condescendência do imperador com relação à heresia e assim ganhar a aprovação da mesma. Justiniano, não percebendo o que havia por detrás deste jogo, finalmente fez um edito condenando os três capítulos. No oriente a reação foi boa por estar majoritariamente dominado por heresiarcas, mas no ocidente foi como um balde de água fria e a indignação foi geral. Eles bem entenderam que com este edito os heresiarcas estavam atacando diretamente ao Concílio de Calcedônia, pois durante este  Teodoreto de Ciro e Ibas de Edessa tinham-se manifestado como excelentes defensores da ortodoxia.

            Justiniano não ficou só na elaboração do edito; ele foi mais longe, querendo impor a todos os principais cabeças da hierarquia eclesiástica a suscrição do documento, inclusive ao próprio Papa e aos ocidentais, onde encontrava mais resistência.

            O Papa da época, Vigílio, foi convidado, mais bem obrigado, pelo imperador a comparecer a Constantinopla. Bem a contra gosto seu, o Papa dirigiu-se para lá, e uma vez ali, importunado e assediado, tanto pelo imperador como pelo Patriarca da Cidade, Mennas, publicou um manifesto chamado Iudicatum, no qual ele condenava os três capítulos fazendo a devida resalva de que o Concílio de Calcedônia ficava, mesmo assim, resguardado. De nenhuma maneira pode-se afirmar que esta atitude tomada pelo Papa tenha sido doutrinariamente incorreta; fazê-lo implicaria na negação de um dogma de fé: a infalibilidade Pontifícia. Mas podemos dizer, sim, com base em alguns autores[8], que foi uma atitude débil e muito transigente para com o imperador,  comparando-se  com a atitude  tomada por outros que o precederam no trono, como São Leão Magno, cujo exemplo mencionamos mais acima, que em nenhum momento deixou-se levar ou iludir nem pelo imperador, nem por nenhuma outra hierarquia eclesiástica, por mais influente que esta fosse.

            A consequência que, no Ocidente trouxe este manifesto, foi o de abrir ainda mais a ferida feita pelo edito do imperador. Todos os ocidentais viram na atitude do Papa um triunfo do monofisismo; as coisas chegaram a tal ponto que alguns acusaram o Papa de hereje, e um Sinodo em Cartago excomungou-o. À raiz destes e outros acontecimentos o Papa suspendeu seu Iudicatum.

            Pouco tempo depois o imperador voltou novamente à carga, instigado pelos monofisitas, publicando um novo documento intitulado confissão da fé, o qual consistia numa renovação da condenação dos três capítulos. O Papa, que ainda achava-se em Constantinopla, indignou-se com esta atitude e deu  várias manifestações públicas de seu desgosto, o que levou Justiniano a tentar aprisioná-lo. Tendo achado refúgio numa cidade perto de Calcedônia, o Papa lançou uma excomunhão contra Askidas e Mennas bem como a todos os seus partidários. Vendo Justiniano que sua intransigência tinha-o levado muito longe retratou-se e com isso deu liberdade ao Papa para que voltasse ao seu trono pontifício em Roma.

            É impossível não ver em tudo isto um “cesaropapismo bizantino”(ROPS, 1991, p. 187) o mais soberbo e exacerbado da parte de Justiniano. Embora este tenha se destacado muito pela sua política de governo e expansão do império, muito deixou a desejar pela sua política religiosa. Foi este mesmo o motivo que o levou a, mais uma vez, tentar fazer uma derradeira união entre católicos ortodoxos e monofisitas herejes e, como era de se esperar, favorecendo estes últimos.

            Justiniano reuniu um Sínodo em Constantinopla, ao qual compareceram 151 bispos, sendo que somente 6 deles eram ocidentais, procedentes da África. Com a devida “proteção” (no dizer de Rops[9]) das tropas imperiais tudo correu da melhor forma possível, sem percalços . Evidentemente  foram condenados os três capítulos. Mas tudo esteve a ponto de ruir quando o Papa interveio, para a surpresa e consternação geral de todos – especialmente do imperador –, publicando um Constitutum. Nele o Papa optava por um “meio termo: condenava 60 proposições de Teodoro de Mopsuéstia, mas proibia a condenação de Teodoreto e de Ibas”(LLORCA, 2001, p. 562).

            Obviamente esta decisão do Papa não agradou nada ao imperador, quem desencadeou uma nova perseguição contra o Papa, desterrando-o. A propósito desta nova atitude violenta de Justiniano, ROPS nos conta algo que, a não ser pelas testemunhas oculares, simplesmente não seria passível de crédito:

(Justiniano) preparava-se para homologar as doutrinas imperiais, ainda com a esperança – ilusória – de reconduzir os monofisitas à unidade, quando Vigílio, mais uma vez,  atravessou o caminho. Assistiu-se então ao espetáculo de um Papa arrancado pelos soldados da igreja onde buscara refúgio, puxado pelos pés, pelos cabelos e pela barba – tão violentamente que o altar a que se abraçara desmoronou!–, obrigado a fugir e a refugiar-se em Calcedônia, torturado pelos emissários do Imperador, que pretendia obter a sua submissão.

            Depois disto evidentemente o Papa voltou atrás como o fez com seu Iudicatum e escreveu um segundo Constitutum, no qual ele aceitou sem limitações as decisões do Sínodo, tornando-o assim o Segundo Concílio de Constantinopla, e o quinto ecumênico. Foi difícil para o Ocidente aceitar o concílio, mas com o esforço do sucessor do Papa Vigílio, Pelágio I – quem demonstrou  a todos a importância da condenação dos três capítulos – conseguiu-se induzir aos participantes  que  fizessem o mesmo.

            Com isto terminamos de relatar a história do Segundo Concílio de Constantinopla, que foi verdadeiramente emaranhado nas suas “idas e voltas”, mas que não deixa de ser importante para o estudo da “venerável” [por que aspas?] história da Santa Igreja, pois, nela aprendemos varias lições importantes para guardar, como  a forma de agir do mal e como, quando não destruído até as raízes, ele volta a surgir com um requinte de maldade inimaginável.

BIBLIOGRAFIA

Diccionario de las herejías, errores y cismas. Sociedad de literatos. Madrid: Imprenta de D. José Felix Palacios, 1850.

LLORCA, Bernardino, S.I, Pe. Historia de la Iglesia Católica: edad antigua. Tomo I. Madrid: BAC, 2001.

ORLANDIS, José. El pontificado romano en la historia. Madrid: Palabra, 1996.

ROPS, Daniel. A Igreja dos tempos bárbaros. Tomo II. São Paulo: Quadrante, 1991.

WOHL, Louis de. Fundada sobre rocha: história breve da Igreja. Lisboa: Rei dos livros, 1993.


[1] Tradução nossa .

[2] Cf. LLORCA, 2001 pp.350-353, 580-1, 583.

[3]Tradução nossa .

[4]Textos entre parênteses meus.

[5] Tradução nossa .

[6] Tradução nossa  e texto entre parênteses meu texto em itálico do original

[7] Tradução nossa .

[8]Cf. Llorca, 2001, p. 560 e também Rops, 1991, p. 186.

[9]Op. cit. p. 187.

São Paulo e a luta pelo Deus que realmente era desconhecido

Lucas Alves Gramiscelli – 2º ano de TeologiaSão Paulo

São Paulo foi o eco fiel d’Aquela voz, que com uma só palavra era suficiente para fazer o Universo inteiro estremecer. Em Atenas, cidade-estado localizada no sudeste da Grécia, esse eco se fez ouvir. O objeto de sua pregação nesse lugar? O de sempre, “Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (1 Cor 1, 23), mas, desta vez sob o pretexto do Deus desconhecido.

O ressoar, ou melhor, o ribombar das palavras do Apóstolo vibram ainda hoje, quando nos deparamos com as entusiasmantes linhas do livro dos Atos dos Apóstolos.  Nesse livro, vemos que o portador da Verdade de Cristo, veio pregar em Atenas a doutrina ortodoxa que respondia inúmeras dúvidas, e batia de frente contra incontáveis pensamentos filosóficos carregados pelos gregos desde o surgimento da filosofia. De certa maneira ele foi o primeiro a dar início ao “batismo” da filosofia pagã.

O que se passou ali? Ao ver a cidade de Atenas entregue à idolatria, o seu coração encheu-se de amargura, e enquanto esperava Silas e Timóteo, aproveitou para disputar nas sinagogas contra os judeus e prosélitos, e nas praças contra todos os que ali se encontravam.  (cf. At. 17,16-17). Até que alguns filósofos epicuristas e estóicos, “tomaram-no consigo e levaram-no ao Areópago[1], e lhe perguntaram: Podemos saber que nova doutrina é essa que pregas? Pois o que nos trazes aos ouvidos nos parece muito estranho.” (At 17, 19-20).

Quem eram esses epicuristas e estóicos? A escola de Epicuro foi a primeira das grandes escolas helenísticas.[2] Assim como os epicúrios, os estóicos nasceram em Atenas no fim do séc. IV a.C. A escola de Estoá (palavra que significa pórtico, que acabou dando o nome à escola), tornou-se posteriormente a mais famosa da época helenística. Seu fundador foi um jovem de raça semítica, Zenão, nascido em Cício, na ilha de Chipre, por volta de 333/332 a.C.[3] Eram duas escolas filosóficas rivais, até então muito em voga, os estóicos, que professavam um panteísmo materialista, penetrados de una elevada idéia do dever e aspirando a viver de acordo com a razão, indiferentes ante a dor, e os epicúrios, também materialistas, entretanto menos especulativos, que colocavam o fim da vida na busca do prazer.[4]

Ao tomarmos nota da pregação de São Paulo no Areópago, ficamos com a impressão de que ele – seja por ação do Espírito Santo ou não – já conhecia quais eram as teorias de ambas as escolas, pois ele argumentou contra as principais idéias e “preencheu” diversos “vãos” – que, aliás, se encontra em todas as filosofias heterodoxas – quase impreenchíveis apenas com a luz da razão, dos filósofos seguidores de Epicuro e Zenão.

Assim começou sua pregação: “Homens de Atenas, em tudo vos vejo muitíssimo religiosos. Percorrendo a cidade e considerando os monumentos do vosso culto, encontrei também um altar com esta inscrição: A um Deus desconhecido. O que adorais sem o conhecer, eu vo-lo anuncio!” (At 17, 22-23). E continua: “o Deus, que fez o mundo e tudo o que nele há, é o Senhor do céu e da terra, e não habita em templos feitos por mãos humanas” (At 17, 24). Ao anunciar isso, ele evidencia a existência de um só Deus Verdadeiro, Criador e Princípio de todas as coisas. Já quando declara que Ele não habita em templos feitos por homens, de forma tácita indica: esse mesmo Deus é Puríssimo Espírito. Assim fica lançada por terra o materialismo dos epicuristas e estóicos, pois segundo Epicuro: “além dos corpos e do vazio tertium non datur, porque não seria pensável nada que exista por si mesmo e não seja afecção dos corpos”.[5] Já para os Estóicos, o ser “é só aquilo que tem capacidade de agir e sofrer” [6], isto é, apenas o corpo. No que diz respeito ao princípio de todas as coisas, essa última escola garantia: “o fogo é o princípio que tudo transforma e tudo penetra; o calor é o princípio sine qua non (imprescindível) de todo nascimento, crescimento e, em geral, de toda forma de vida.” [7] E por fim, para pôr os “pontos finais” nessa questão, São Paulo pronuncia: “é ele quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas.” (At 17, 25).

Epicuro afirmava que os deuses não se ocupam com os homens, apesar de dizer que o nosso conhecimento vem por “simulacros” ou “eflúvios”[8] provenientes deles.[9] Qual a resposta do Apóstolo a esse pensamento? “Procurem a Deus e se esforcem por encontrá-lo como que às apalpadelas, pois na verdade ele não está longe de cada um de nós. […] Nós somos também de sua raça…” (At 17, 27-28).

Seu timbre eloquente prossegue: “Porquanto fixou o dia em que há de julgar o mundo com justiça, pelo ministério de um homem que para isso destinou.” Como Deus estabeleceu o dia em que vai julgar o mundo se ele é, de certa maneira, eterno?  Provavelmente essa era a pergunta estava na mente de alguns estóicos. Esses sustentavam a teoria da “apocatástase”, ou seja, diziam que “no dia fatídico final dos tempos haverá a ‘conflagração universal’, uma combustão geral do cosmo”,[10] mas, à destruição do mundo se seguirá que tudo nascerá novamente exatamente como antes.

Depois de admoestá-los a respeito do juízo, se refere à ressurreição. Mas, quando o ouviram falar sobre isso, alguns começaram a zombar… Para os discípulos de Epicuro, que considerava a morte apenas como a dissolução da alma e do corpo,[11] falar sobre uma ressurreição dos corpos seria absurdo. E disseram: “A respeito disso te ouviremos outra vez” (At 17, 32). Assim saiu Paulo do meio deles (At 17, 33).

Ele teve que se retirar, no entanto, saiu vitorioso, pois: “todavia, alguns homens aderiram a ele e creram: entre eles, Dionísio, o areopagita, e uma mulher chamada Dâmaris; e com eles ainda outros” (At 17, 34). O Apóstolo dos gentios colocou, assim, em prática a seguinte máxima de Epicuro: “É vão o discurso do filósofo que não cure algum mal do espírito humano”.[12]


[1] Areópago: lugar onde, segundo a lenda, haviam-se reunido os deuses para julgar a Marte, e onde, em tempos antigos, eram realizadas as sessões do tribunal supremo de Atenas. Cf. TURRADO, Lorenzo. Biblia Comentada: Hechos de los Apóstoles y epístola a los Romanos. 2 ed. BAC: Madrid. 1975. p. 179.

[2] Cf. REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Filosofia pagã antiga. Tradução: STORNIOLO, Ivo. 3 ed. São Paulo: Paulus. 2007. p. 259.

[3] No entanto, essa escola formou-se também pela ação ulterior de dois outros filósofos além de Zenão, são eles: Cleanto de Assos e Crisipo de Sôli, ao qual devemos a sistematização da doutrina.  Cf. REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. Opus. Cit. p. 279.

[4] Cf. TURRADO, Lorenzo. Opus cit. p. 178.

[5] REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. Opus cit. p. 264.

[6] Idem. p. 284.

[7] Idem. p. 285.

[8] Simulacros e eflúvios são palavras usadas por Epicuro para tentar designar, em sua teoria do conhecimento, os objetos que causam impacto de fluxos de átomos em nossos sentidos, causando assim a sensação.

[9] Ibidem. p. 266.

[10] Ibidem. p. 287.

[11] Ibidem. p. 270.

[12] Idem. p. 247.

Não sabeis que sois espetáculo para os anjos e para os homens? (Cf. 1 Cor 4, 9)

Lucas Antonio Pinatti – 2º Ano de Teologia

Alardo1O som do sino ecoa pelos vales da serra anunciando o começo do desfile. No Seminário São Tomás de Aquino, da sociedade clerical Virgo Flos Carmeli, os jovens do ITTA e do IFAT, junto com os alunos do ensino médio que frequentam as aulas Colégio Arautos do Evangelho – Thabor, entoam o Credo renovando sua plena adesão à Igreja e pedindo a Deus sabedoria neste novo dia de estudos que se inicia.

Após a bênção do Superior Geral, quando presente, os trompetes tocam anunciando o início do cortejo para as aulas. O estandarte de Maria Santíssima vai à frente abrindo o caminho para seus filhos que desfilam ao som e cadência da banda. Com o olhar no horizonte e passo enérgico, avançam todos unidos pelo mesmo ideal, refletindo com vontade firme os desafios do aprendizado e da vida.

Todavia, uma pergunta poderia surgir no espírito dito ‘moderno’:

“Mas, para quê tanto cerimonial? Afinal, o homem não deve viver em meio à pompa… A organização é benéfica por ter uma finalidade prática. Os únicos meios que devem ser utilizados na educação é a própria inteligência. O amor e o esforço ajudarão se for preciso, mas o livro técnico resolve todos os problemas da aprendizagem. Afinal, não se deve perder tempo com cerimoniais”.

Infelizmente, no mundo de hoje, diversas pessoas raciocinam desta maneira, pensando que viver é considerar apenas o aspecto natural da vida, esquecendo-se que o homem, além de corpo, possui algo superior à sua natureza animal que é a alma. Além de que, sem propriamente negar a existência da vida sobrenatural, muitos vivem como se ela não existisse, tendo o dia de amanhã, ou mesmo o momento presente, como único cerne de suas apreensões. Preocupadas apenas com os afazeres, voltam-se para esta terra. Seguem os “prazeres” lícitos do mundo, mas muitas vezes deixam-se conduzir pelos gozos ilícitos os quais, como se sabe e muitas vezes se esquece, só resultam em frustrações, desastres, discussões, e tantas outras coisas que enchem as páginas de nossos jornais, todos os dias…

Isso será viver? A vida resumir-se-á ao prazer e ao terreno? A resposta, obviamente, tende pela negativa. Quando apreciamos apenas as criaturas, esquecendo-nos que são vestígios do Criador, anda-se por um rumo que, à primeira vista, parecer ser inundado de delícias e alegrias, entretanto, saturado de tristezas e dissabores. Caminho fácil à primeira vista, mas muitas vezes oposto àquele recomendado por Nosso Senhor Jesus Cristo. Estando sob a guarda do redentor, nós poderemos dizer como o salmista: “mesmo que eu caminhe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei” (Sl 22,4).

O caos do mundo moderno só ocorre na vida dos homens porque se esquecem que, nesta vida, aquilo que o homem não vê, vale mais do que aquilo que ele vê. Muito mais valioso que o corpo que possuímos, é a nossa alma. Quem mantém seu espírito inocente, puro e virtuoso como recomenda os mandamentos de Deus, terá seu corpo luzidio, sagaz e robusto, pronto para superar as dificuldades da vida, pois o corpo é o reflexo da alma, pois, a alma confere a forma do corpo (S.th. I, a.3, q.2).

As disposições internas do homem se refletem no corpo. A alegria da face é um espelho do coração. Suas açõesAlardo3 refletem as disposições do espírito. Desta forma, existem sentimentos no coração humano que só chegam à sua plenitude quando exteriorizados. Assim é, por exemplo, a amizade que se demonstra num abraço. Também o gesto de presentear um amigo por ocasião de seu aniversário, com o intuito de agradá-lo, reflete esta procura de exteriorização, atitudes típicas aos sentimentos humanos. Da mesma forma devemos manifestar por atos externos nossa amizade para com o Criador, através de atitudes que sejam agradáveis a Deus, “pois o homem não é puro espírito, mas possui um corpo, que faz parte essencial de sua natureza e que deve, portanto, associá-lo ao culto da divindade. Faltaria algo para oferecer a Deus se Ele fosse homenageado somente em espírito”.[1] Assim como um amigo se satisfaz com uma demonstração concreta de afeto, Deus também se agrada com “presentes”, a bem dizer, estas atitudes exteriores para com Ele, pois, aliás, como ensina São Tiago “a Fé sem obras é morta” (Tg 2, 26). Mostramos nossa Fé por nossas ações. E a cerimônia é um excelente meio de demonstrar nosso afeto a Deus.

Comenta o escritor alemão Fabian Fischer, que “as cerimônias não são somente exterioridades, não são apenas símbolos, elas formam o homem, semelhante à etiqueta, do exterior ao interior, constituindo tradições”.[2] A cerimônia forma o interior do homem, eleva seu espírito, aperfeiçoando-o em seus hábitos de fora para dentro, em sua totalidade. Quando a cerimônia é religiosa, além do progresso natural a ele inerente, a pessoa exerce o ato da virtude da religião. O culto é um verdadeiro ato de amor ao Criador, onde se rende homenagem a Deus ao reconhecer Sua grandeza.

Alardo2Churchil dizia que um dos fatores que contribuíram para a formação de seu caráter foi o cântico do Credo e do Hino Nacional em sua escola. Aliás, pesquisas norte-americanas chegaram à conclusão que jovens e adolescentes, participando comunitariamente de cerimônias estudantis, adquirem um espírito mais elevado, e preparação intelectual mais adequada para o desempenho de sua missão estudantil, melhorando consideravelmente suas vidas e incidindo menos em sérios problemas que pululam estas gerações um pouco por todo o orbe.

Tal é a excelência das cerimônias que, quanto mais a vida cotidiana é penetrada por ela, mais se parece com o Céu. Na terra o culto exterior não é apenas um reflexo, mas sim, uma continuidade cerimoniosa do céu. Transformar a terra no Céu é a intenção destes seminaristas, que unidos em espírito e devoção a Maria Santíssima, aos Anjos e Santos fazem deste desfile na terra, um preâmbulo das cerimônias que aguardam os justos na eternidade Viver em cerimônia é viver um pouquinho do Céu.


[1] Parce que l’homme n’est pas un pur esprit, mais, comme il à un corps qui fait partie essentielle de sa nature, aussi doit-il le faire collaborer au culte de la divinité. Ce ne serait pas tout rendre a Dieu, que de ne lui rien rendre qu’en esprit. (A.VV. Eucharistia – Encyclopédie populaire sur l’Eucharistie. Paris: Librairie Bloud et Gay, 1947, p. 153-158).

[2] Zeremonien sind nichts Äusserliches, sind nicht nur blosse Form, sie wirken, genauso wie die Etikette, von aussen nach innen, sie schaffen Traditionem”.. (S. FISCHER-FABIAN. Die Deutschen Cäsaren. Triumph um Tragödie der Kaiser des Mittelalters. Wien: Droemer, 1977. p. 30-31)

Sabedoria e discernimento no Santo Cura de Ars

Michel Six – 3º Ano TeologiaCura d'Ars

Dentre seus diversos dons, São João Maria Vianney era também diretor espiritual. Dotado de um profundo discernimento dos espíritos sabia ele como “dar a volta” nas consciências mais endurecidas. Deste aspecto de direção espiritual, diz-nos o Catecismo da Igreja Católica (n. 2690): “O Espírito Santo dá a certos fiéis dons de sabedoria, de fé e de discernimento em vista do bem comum que é a oração (direção espiritual). Aqueles e aquelas que têm esses dons são verdadeiros servidores da tradição viva da oração”. Bem nos ilustra este caso de um pobre penitente impregnado pelo espírito de sua época:

Certo dia, o Cura de Ars vê entrar em sua sacristia um personagem elegante que, aproximando-se dele, se apressa em dizer:

“Senhor padre, não venho de modo algum me confessar. Vim para argumentar convosco.

– Ah! meu caro amigo, vós vos expressais bem mal, responde o Senhor Vianney, eu não sei argumentar… Mas se vós precisais de alguma consolação, coloque-se ali…”

E o Cura de Ars designa o lugar onde habitualmente se ajoelham seus penitentes, acrescentando: “Credes que muitos outros se ajoelharam antes de vós e não se arrependeram…

-Mas, senhor padre, já tive a honra de vos dizer que não vim para me confessar, e isto por uma razão que me parece simples e decisiva. E é que eu não tenho fé. Assim como não acredito na confissão, não acredito em tudo o resto.

– Meu amigo, vós não tendes fé? Ah! como eu vos lastimo! Uma criancinha de oito anos sabe, com seu catecismo, mais do que vós. Eu me julgava bem ignorante, mas vós sois ainda mais do que eu, pois que vós ignorais as primeiras coisas que é preciso saber…”

O padre Vianney continua a falar – e volta à sua ordem inflexível e doce:

“Coloque-se ali, e eu vou ouvir a vossa confissão.

– Senhor padre, responde o outro que começa a perder sua convicção, é uma comédia que vós me aconselhais a representar convosco! Peço-vos que considere que eu não vejo nenhuma graça. Não sou comediante…

– Coloque-se ali, estou dizendo!”

E o interlocutor se encontra de joelhos “sem desconfiar e quase apesar de si – mesmo”. Ele se levantará alguns instantes mais tarde, não somente consolado, mas “perfeitamente crente” – tendo tomado, para ir à fé, um caminho curto e fulminante.[1]

Como o definiu o próprio santo de Ars: “Os que são conduzidos pelo Espírito Santo têm idéias certas. Eis porque há tantos ignorantes que sabem mais do que os sábios”.

Enfim, eis alguns traços de uma inteligência brilhante, pois posta em Deus, de um que se deixou levar pelo Espírito Santo, sem opor resistência. Mesmo se sua natureza não lhe ajudou, soube este santo, sendo fiel às graças, abeberar-se no manancial da Sabedoria Eterna. Muito nos ensina, sobre a sabedoria, o grande Cornélio a Lápide, retomando São Paulo:

Escutai são Paulo escrevendo aos Coríntios: “Para mim, meus irmãos, quando vim vos anunciar o testemunho do Cristo, não vim na sublimidade dos discursos da sabedoria; pois não quis saber de outra coisa entre vós do que de Jesus Cristo, e de Jesus Cristo crucificado” […]. Aquele que o mundo cristão chama de grande Apóstolo merece certamente ser ouvido quando nos ensina em que consiste a verdadeira sabedoria; ora, ele a emprega toda inteira em conhecer a Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado… A ciência de Jesus Cristo e de sua cruz, eis a verdadeira sabedoria, e toda a sabedoria […].

Aprender a sabedoria, é aprender a conhecer, a amar, a servir a Deus, a tender ao fim para o qual o homem foi criado e resgatado…

A verdadeira sabedoria consiste em conhecer a Jesus Cristo, e o que ele faz por nós… Ela consiste em conhecer a lei de Deus, a religião, a praticá-la; a praticar a virtude, a fugir do vício. Aí está toda a sabedoria…; fora disto está a loucura… (tradução minha) [2].

Enfim, podemos concluir, com o catecismo que, belamente, nos ensina:

A Sabedoria é um eflúvio do poder de Deus, emanação puríssima da glória do Todo-Poderoso; por isso nada de impuro pode nela insinuar-se. É reflexo da luz eterna, espelho nítido da atividade de Deus e imagem de sua bondade (Sb 7,25-26). A sabedoria é mais bela que o sol, supera todas as constelações. Comparada à luz do dia, sai ganhando, pois a luz cede lugar à noite, ao passo que, sobre a Sabedoria o mal não prevalece (Sb 7,29-30). Enamorei-me de sua formosura (Sb 8,2). (2500).


[1]Cf. SAINT PIERRE, 1963, p. 254-256.

[2] Écoutez saint Paul écrivant aux Corinthiens : “Pour moi, mes frères, lorsque je suis venu vous annoncer le témoignage du Christ, je ne suis point venu dans la sublimité des discours de la sagesse ; car je n’ai voulu savoir parmi vous autre chose que J.C., et J.C. crucifié” […]. Celui que le monde chrétien appelle le grand Apôtre mérite assurément d’être écouté lorsqu’il nous enseigne en quoi consiste la vraie sagesse ; or, il la place tout entière à connaître J.C., et J.C. crucifié… La science de J.C. et de sa croix, voilà donc la vraie sagesse et toute la sagesse […]. Apprendre la sagesse, c’est apprendre à connaître, à aimer, à servir Dieu, à tendre à la fin pour laquelle l’homme est créé et racheté… La vraie sagesse consiste à connaître J.C., et ce qu’il fait pour nous… Elle consiste à connaître la loi de Dieu, la religion, à la pratiquer ; à pratiquer la vertu, à fuir le vice. Là est toute la sagesse…; hors de là est folie… BARBIER, 1885, p.329 e 331.

BIBLIOGRAFIA

– CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 11ª ed. São Paulo: Loyola, 2001.

– BARBIER. Les Trésors de Cornelius a Lapide. 5ª ed. Paris : Librairie Poussielgue Frères, 1885.

-SAINT PIERRE, Michel de. La vie prodigieuse du Curé d’Ars. Paris : Éditions Bonne Presse, 1963.

Professores da Universidade Pontifícia Bolivariana no Instituto Teológico São Tomás de Aquino.

Víctor Baltazar Castillo López – 2º Ano de TeologiaPadres UPB1

Recebemos recentemente a visita do Revmo. Pe. Edward Andrés Posada Gómez, que ministrou o curso de Espiritualidade como ponte entre a Filosofia e a Teologia, e do Pe. Néstor David Restrepo Bonnett que tratou acerca dos Fundamentos Filosóficos da Doutrina Social da Igreja.

Padres UPB2Ambos os sacerdotes são da Arquidiocese de Medellín e lecionam na Universidade Pontifícia Bolivariana (UPB). As aulas foram eximiamente ministradas na sala “Quis ut Virgo”, no Instituto Teológico São Tomás de Aquino (ITTA), e destinavam-se a alguns do curso em Teologia.

SANTO IRENEU, o Leão de Lyon

Lucas Antonio Pinatti – 2º Ano de Teologia

IrineuA Santa Igreja, já no seu nascedouro, passou por numerosas provações. Dentre elas podemos enumerar as perseguições do Império Romano, que derramou uma quantidade enorme de sangue inocente, fazendo com que numerosos cristãos pagassem com a própria vida o fato de abraçarem a Fé Católica. Mas havia um outro inimigo muito mais sutil e ladino que já não visava tirar a vida do corpo, como o fizeram os ímpios imperadores romanos, mas sim arrancar e destruir nas almas a Fé. A este propósito bem afirmou o Divino Salvador: Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena (Mt 10, 18).

 Este pérfido inimigo chama-se heresia, e se vestiu de diversas roupagens ao longo dos séculos, ora negando diretamente as verdades da Fé, outras vezes procurando reinterpretá-la de acordo com falsos critérios.

            Mas apesar disso, podemos afirmar com São Paulo: É necessário que entre vós haja partidos para que possam manifestar-se os que são realmente virtuosos (ICor, 11,19); pois assim como um músculo que passa muito tempo na ociosidade corre o risco de atrofiar-se, algo análogo se passaria caso a Santa Igreja não tivesse heresias e inimigos  a combater. As heresias contribuem em larga medida para o desenvolvimento da Doutrina Católica, pois uma vez sendo necessário refutar aos falsos ensinamentos, acaba Ela desenvolvendo a doutrina e fortalecendo suas sagradas “muralhas” contra os ataques de seus adversários internos e externos.

            Um dos grandes baluartes dessa “muralha” foi, e continua sendo, Santo Ireneu de Lião. Este trabalho visa dar um breve apanhado de sua vida, e de sua obra mestra o Adversus Haereses .

 

1.      Vida de Santo Ireneu 

Do período subapostólico, (do final do primeiro século à metade do segundo), até o século sexto, a Santa Igreja teve a seu serviço uma plêiade de homens insignes em santidade, sabedoria e ardor apostólico; entre eles está Ireneu.

Paira um mistério sobre sua vida; o pouco que se sabe a seu respeito é que nasceu por volta do ano de 150, que sua cidade natal é provavelmente Esmirna, situada na Ásia menor. Tudo indica que sua família era cristã, pois como ele mesmo descreve em uma de suas cartas, ainda quando criança frequentou as pregações do bispo São Policarpo de Esmirna, que por sua vez fora discípulo do apóstolo São João Evangelista, por isso foi-lhe conferido o título de vir apostólicus. Eis o trecho da carta que Santo Ireneu (1995, p.15) escreveu a Florino, ex condiscípulo de São Policarpo, que apostatara e tornara-se valentiniano, lembrando a ocasião em que ambos se encontraram na casa deste santo:

com efeito, te conheci (a Florino), sendo eu criança ainda, na Ásia menor, na casa de Policarpo. Tu eras então personagem de categoria na corte imperial, e procuravas estar em boas relações com ele. Dos acontecimentos daqueles dias me recordo com maior clareza que os recentes, porque o que aprendemos em crianças cresce com a alma e se faz uma mesma coisa com ela, de maneira que até posso dizer o lugar onde o bem aventurado Policarpo costumava sentar-se, como entrava e como saia, o caráter de sua vida, o aspecto do seu corpo, os discursos que fazia ao povo, como contava suas relações com João e com os outros que haviam visto ao Senhor…

            Os historiadores, com base neste texto, afirmam que Santo Ireneu foi um dos últimos homens apostólicos de sua era.  Ele próprio ao comentar os padres apostólicos dizia que eles ainda tinham a voz dos Apóstolos nos ouvidos e os seus exemplos diante dos olhos (apud GLAVAM, 2002).

            Por razões desconhecidas, deixou a Ásia menor e se dirigiu à Galia, por volta do ano de 177. Estabeleceu-se na cidade de Lyon, onde foi ordenado presbítero.

 A cristandade enfrentava nesse período um grande inimigo: a heresia do montanismo. A cidade de Lion, situada na antiga Gália,  atual França, passava por numerosas dificuldades e perseguições por parte desses herejes. Santo Ireneu foi enviado a Roma para encontrar-se com o Papa Santo Eleutério, com o fito de servir de mediador na questão da heresia e para pedir ao Santo Padre uma condenação categórica do montanismo. A carta, que nessa ocasião entregou ao Papa, trazia muitos elogios à sua pessoa e dava dele uma excelente recomendação. Eusébio de Cesaréia (apud QUASTEN, 2008) cita este trecho em sua história eclesiástica: “esperamos que pedindo a nosso irmão e companheiro que te leve esta carta, tenhas para com ele o apreço devido a seu zelo pelo testamento de Cristo”.

            Regressando de Roma, foi eleito, por aclamação popular, bispo de Lyon, sucedendo na cátedra episcopal a São Potino, que morreu devido aos maus tratos recebidos na prisão por parte dos montanistas, com noventa anos de idade.

 

1.1.   Querela da Páscoa

            Com base nos poucos traços biográficos relegados à posteridade e fundamentados em suas obras percebemos o caráter combativo de Santo Ireneu e o seu gosto pela polêmica. Um exemplo palpável foi a controvérsia com relação à data da Páscoa, na qual o santo entrou e acabou apaziguando a questão. Helcion Ribeiro (1995, p.15) na introdução de uma das obras de Santo Ireneu transmite os dados históricos dessa celeuma:

diziam os bispos da Ásia – sob a liderança de Policrates de Éfeso – conservar a data hebraica da festa da Páscoa, adotada por João; para as Igrejas ocidentais e algumas do Oriente era outra a data celebrada. Em determinado momento o Papa avocou a si a decisão, ameaçando com a excomunhão os que não o seguissem: prenunciava-se assim calorosa cisão na Igreja. […] Ireneu convidava-o a não romper a unidade cristã por esta questão disciplinar e secundária, afinal eram ambas tradições vindas dos apóstolos em contextos diversos.

            Pacificados os ânimos, Santo Ireneu − segundo o dizer de Eusébio de Cesaréia – fez jus ao significado etimológico de seu nome, cujo radical Irene significa paz.

 

1.2.   Sabedoria e ciência unidas à santidade

Constitui um fato inegável, a erudição de Santo Ireneu. Ao longo de suas obras denota um profundo conhecimento bíblico; nelas encontramos a citação de quase todos os livros bíblicos. Além disso, nutriu contatos com grandes sábios e santos de sua época, como São Clemente Romano, Teófilo de Antioquia, Clemente de Alexandria e o já acima citado, São Policarpo de Esmirna. O conhecimento que possuía dos autores clássicos demonstra rica cultura e uma arte de “filtrar” os dados necessários para o enriquecimento literário de seus escritos. Neles encontramos citações de Homero, Hesíodo, as doutrinas de Platão e Aristóteles, entre outros.

            Um dos traços preponderantes de sua vida, foi o fato dele ter unido essa erudição e sabedoria a um profundo amor a Deus, pois suas obras, além de terem como base um profundo alicerce cultural e filosófico, exalam o suave perfume da santidade e levam aqueles que as lêem a crescer no amor a Deus.

            Muito pouco se sabe a respeito de sua morte. Uma tradição antiga, que remonta a São Jerônimo a ao Pseudo-Justino, afirma que foi martirizado por heréticos, por volta do ano de 202, juntamente com outros cristãos, em um massacre que houve na cidade de Lião, sob o reinado do imperador Sétimo Severo.(IRENEU DE LIÃO, 1995). A Santa Igreja o venera como mártir, celebrando-o a 28 de junho.

            Apenas pelos dados acima enunciados chegaríamos à conclusão de que toda a obra empreendida por Santo Ireneu foi magnífica, entretanto, seu maior mérito foi o de ter identificado, reconhecido e refutado radicalmente o gnosticismo. De seu trabalho estabeleceram-se bases e princípios gerais para combater todas as heresias que ameaçavam a Esposa Mística de Nosso Senhor Jesus Cristo.