Proclamação do dogma da Assunção de Nossa Senhora

    

   Oportunidade da definição

   41. Considerando que a Igreja universal – que é assistida pelo Espírito de verdade, que a dirige infalivelmente para o conhecimento das verdades reveladas – no decurso dos séculos manifestou de tantas formas a sua fé; considerando que os bispos de todo o mundo quase unanimemente pedem que seja definida como dogma de fé divina e católica a verdade da assunção corpórea da santíssima Virgem ao céu; considerando que esta verdade se funda na Sagrada Escritura, está profundamente gravada na alma dos fiéis, e desde tempos antiquíssimos é comprovada pelo culto litúrgico, e concorda, inteiramente, com as outras verdades reveladas, e tem sido esplendidamente explicada e declarada pelos estudos, sabedoria e prudência dos teólogos – julgamos chegado o momento estabelecido pela providência de Deus, para proclamarmos solenemente este privilégio insigne da virgem Maria. (42). Nós, que colocamos o nosso pontificado sob o especial patrocínio da santíssima Virgem, à qual recorremos em tantas circunstâncias tristes, nós, que consagramos publicamente todo o gênero humano ao seu imaculado Coração, e que experimentamos muitas vezes o seu poderoso patrocínio, confiamos firmemente que esta solene proclamação e definição será de grande proveito para a humanidade inteira, porque reverte em glória da Santíssima Trindade, a qual a virgem Mãe de Deus está ligada com laços muito especiais. É de esperar também que todos os fiéis cresçam em amor para com a Mãe celeste, e que os corações de todos os que se gloriam do nome de cristãos se movam a desejar a união com o corpo místico de Jesus Cristo, e que aumentem no amor para com aquela que tem amor de Mãe para com os membros do mesmo augusto corpo. E também é lícito esperar que, ao meditarem nos exemplos gloriosos de Maria, mais e mais se persuadam todos do valor da vida humana, se for consagrada ao cumprimento integral da vontade do Pai celeste e a procurar o bem do próximo. Enquanto o materialismo e a corrupção de costumes que dele se origina ameaçam subverter a luz da virtude, e destruir vidas humanas, suscitando guerras, é de esperar ainda que este luminoso e incomparável exemplo, posto diante dos olhos de todos, mostre com plena luz qual o fim a que se destinam a nossa alma e o nosso corpo. E, finalmente, esperamos que a fé na assunção corpórea de Maria ao céu torne mais firme e operativa a fé na nossa própria ressurreição.

   43. E é para nós motivo de imenso regozijo que este fato, por providência de Deus, se realize neste Ano santo que está a decorrer, e que assim possamos, enquanto se celebra este jubileu maior, adornar com esta pedra preciosa a fronte da Virgem santíssima, e deixar um monumento, mais perene que o bronze, da nossa ardente devoção para com a Mãe de Deus.

   Definição solene do dogma

   44. “Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus onipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da sua augusta mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”.

   45. Pelo que, se alguém, o que Deus não permita, ousar, voluntariamente, negar ou pôr em dúvida esta nossa definição, saiba que naufraga na fé divina e católica.

   46. Para que chegue ao conhecimento de toda a Igreja esta nossa definição da assunção corpórea da virgem Maria ao céu, queremos que se conservem esta carta para perpétua memória; mandamos também que, aos seus transuntos ou cópias, mesmo impressas, desde que sejam subscritas pela mão de algum notário público, e munidas com o selo de alguma pessoa constituída em dignidade eclesiástica, se lhes dê o mesmo crédito que à presente, se fosse apresentada e mostrada.

   47. A ninguém, pois, seja lícito infringir esta nossa declaração, proclamação e definição, ou temerariamente opor-se-lhe e contrariá-la. Se alguém presumir intentá-lo, saiba que incorre na indignação de Deus onipotente e dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo.

   Dado em Roma, junto de São Pedro, no ano do jubileu maior, de 1950, no dia 1º  de novembro, festa de todos os santos, no ano XII do nosso pontificado.

   Eu PIO, Bispo da Igreja Católica assim definindo, subscrevi.

Foto retirada do site: http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/index_po.htm

Se desejar conhecer o documento completo basta acessar o link: http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/apost_constitutions/documents/hf_p-xii_apc_19501101_munificentissimus-deus_po.html

Imagens que a História não conseguiu destruir…


Ítalo Santana / 2º ano de Teologia

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Todo católico possui uma imagenzinha em casa, por singela que seja, e para ela acorre quando a vida aperta. Surgiu uma dificuldade, perdeu o emprego, ou apareceu mais uma doença, ele encosta a porta, acende a vela do criado mudo e começa a rezar. Este gesto é de tal modo corriqueiro que ninguém o questiona, e com razão, pois faz parte da lógica das coisas o não pensar muito em assuntos óbvios. Mas, sem dúvida nenhuma, qualquer pessoa por mais fria que fosse, ficaria profundamente escandalizada se, entrando numa igreja para refletir ou fugir um pouco do stress cotidiano, se deparasse com um grupo de homens quebrando com martelos a face de um crucificado, ou arrancando à força os delicados braços de uma imagem de Nossa Senhora. Pois bem, isto que hoje constitui uma verdadeira aberração, deu-se com certa frequência no seio da Igreja numa época histórica bastante convulsionada pelo surgimento de uma heresia assombrosa: o iconoclasmo.

Vândalos de uma perniciosa heresia

O termo “iconoclasmo” deriva da junção de duas palavras gregas: “eikón” (imagem) e “klao” (romper); por isto os hereges iconoclastas foram denominados os “quebradores de imagens”, ou aqueles que se opunham frontalmente ao seu culto. Porém, apesar de ter havido vários choques doutrinários antecedentes sobre a questão, esta palavra só viria a tomar toda a sua força com a perseguição do Imperador Leão III.

Desejoso de uma reforma na ordem civil e militar, decidiu aplicá-la ao campo espiritual, e julgando ser excessivo o culto prestado às imagens resolveu aboli-lo, sob o pretexto de que tal veneração era um empecilho para a conversão dos judeus e sarracenos ao catolicismo, um retrocesso à idolatria de falsos deuses, e o motivo principal da decadência do Império. Entretanto, parece que não foi só um mero anseio renovador que impeliu Leão a proibir os ícones, mas também certa vontade de agradar aos maniqueus e paulicianos, partido numeroso e potente da Ásia Menor, do qual era formado uma grande parcela das tropas imperiais.

São Germano, o Patriarca de Constantinopla, e até mesmo o Papa São Gregório II enviaram-lhe numerosas cartas de advertência, em vão, pois pouco tempo depois publicou um édito (726) que deu total liberdade à heresia.

Estoura a perseguição iconoclasta

Depois de estragos incontáveis como a apropriação dos bens da Igreja na Sicília e Calábria, Leão III morre em 741, deixando como herdeiro do trono e continuador seu filho Constantino V, chamado o Coprônimo. Apesar de manter certa tolerância nos primórdios de governo, o novo Imperador iniciou uma perseguição ainda mais cruel que a realizada por seu pai.

Ele abriu um conciliábulo em Constantinopla, intitulado como sétimo concílio ecumênico, com a presença de 338 Bispos, que se submeteram por covardia à vontade nefanda de Constantino. A heresia iconoclasta recebeu toda a liberdade. O pseudoconcílio proibiu, debaixo de castigos severos, a fabricação, exposição pública e veneração das imagens, e anatematizou São Germano, São João Damasceno e o cenobita Jorge de Chipre. Além disso, qualificou o Imperador e seu filho de luzeiros da ortodoxia, concedendo-lhes como prêmio o patriarcado constantinopolitano. Muitos católicos e religiosos sofreram o martírio por fogo ou mutilação. Os monges eram impedidos, sob pena de tormentos, de vestir o hábito monacal e de se manterem fiéis aos votos; e os leigos tinham que fazer juramento público de não prestar culto às imagens. No entanto, em 775 falece Constantino e sobe ao poder Leão IV. Este possuía certa amizade com os monges, abrandando um tanto a cruel persecução. Apesar de não ser iconoclasta continuou a favorecer a heresia, sendo capaz de exilar sua esposa Irene, quando soube que guardava consigo algumas imagens.  

Uma enérgica Imperatriz na defesa da verdade

Com a morte de Leão IV, as brumas desfazem-se no horizonte. O sucessor ao trono era, nada mais, nada menos, seu filho de seis anos de idade. Irene aproveita-se da oportunidade, assume o governo como tutora do pequeno Constantino VI e envia ao Papa Adriano I uma embaixada pedindo a convocação de um Concílio. O Pontífice aceita e o Concílio é aberto na Igreja dos Santos Apóstolos de Constantinopla. Porém, mal se havia dado início às sessões, um grupo de soldados iconoclastas, inspirados por eclesiásticos do mesmo partido, invadiu a igreja, obrigando os Bispos a se dissolverem e os legados a retomarem o caminho de Roma.

Diante de tal acontecimento, a enérgica Imperatriz não se deu por vencida: desarmou as tropas invasoras e enviou emissários a todos os Bispos e ao Papa para a convocação de um novo Concílio, desta vez em Nicéia. Deste modo, em 24 de setembro de 787, na igreja de Santa Sofia, abria-se definitivamente o VII Concílio Ecumênico, com a presença dos legados pontifícios e de 300 Bispos. Dentre as oito sessões, as mais importantes do ponto de vista dogmático são a quarta, a sexta e a sétima. A quarta sessão tratou de demonstrar, através da Sagrada Escritura e dos escritos dos Padres da Igreja, que a veneração das imagens não só é lícita, como salutar. Na sexta sessão, leram-se as atas do conciliábulo de 754, constatando-se sua invalidez. Não poderia ser considerado ecumênico, uma vez que não estavam presentes nele nem os Patriarcas do Oriente nem mesmo o Pontífice Romano. Na sétima, após se fazer referência ao Símbolo e aos seis Concílios Ecumênicos anteriores, em caráter oficial, declarou-se: “Definimos com todo rigor e cuidado que, à semelhança da figura da cruz preciosa e vivificante, assim os venerandos e santos ícones, quer pintados, quer em mosaico ou em qualquer outro material adequado, devem ser expostos nas santas igrejas de Deus, sobre os sagrados utensílios e paramentos, sobre as paredes e painéis, nas casas e nas ruas; tanto o ícone do Senhor Deus e Salvador nosso Jesus Cristo como da Senhora imaculada nossa, a santa Deípara, dos venerandos anjos e de todos os varões santos e justos.[i]

Bibliografia

ALBERICO, Giuseppe. História dos Concílios Ecumênicos. Tradução de José Maria de Almeida. São Paulo: Paulus, 1995. p. 147.

Enciclopédia Universal Ilustrada Europeo-Americana. Vol. XXVIII. Editores Espasa-Calpe. Madrid: 1925.


[i] Cf. Denzinguer, Heinrich. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral, tradução de José Marino Luz e Johan Konings São Paulo: Paulinas; Loyola, 2007.

A devoção a Nossa Senhora do Bom Conselho

Mater Boni ConsiliiLucas Antonio Pinatti – 2º Ano de Teologia

O Pe. José de Anchieta (1534-1597), Jesuíta, foi um dos fundadores da cidade de São Paulo e grande apóstolo dos índios. Devendo sua vocação a uma Graça recebida da Mãe do Bom Conselho, foi o primeiro propagador desta devoção no Brasil. Começaram, então, a surgir imagens e quadros dedicados a esta invocação, que se espalhou de tal forma, que Bom Conselho se tornou o nome de uma cidade do Nordeste.

Em 1918, na cidade de São Paulo, os Jesuítas fundavam o Colégio São Luís e colocavam na sua capela um bonito e miraculoso quadro dedicado a Nossa Senhora do Bom Conselho. De fato, narra a História que após um naufrágio, no século XVII, quando alguns missionários jesuítas vinham para evangelizar o Brasil, um padre foi o único que se salvou, pois boiou agarrado a um quadro da Mãe do Bom Conselho. Em gratidão por este benefício, colocaram-no na Capela do Colégio São Luís, onde está até hoje.

Profundamente marcado por esta invocação, o fundador dos Arautos do Evangelho, Mons. João Scognamiglio Clá Dias, escrevia o livro “Mater Boni Consilii” (Edições Brasil de Amanhã, 1992). Esta devoção haveria de marcar em vários momentos a vida da Associação, com especiais graças e consolações. Atualmente, os Arautos do Evangelho contam com um oratório dedicado a Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano na sua casa mãe, em São Paulo, no Brasil, e com uma capela lateral na igreja de Nossa Senhora do Rosário, em seu Seminário, também neste Estado. Em ambos se pode venerar um grande quadro, cópia do original.

Gregório, o Magno

SaogregorioNo fim do século VI, Roma desabava no caos e com ela agonizava toda uma civilização. Os rumos da história mudavam drasticamente quando um monge beneditino foi escolhido Papa. Era Gregório I, a quem a História qualificou de “o Magno”.

***

Pe. Pedro Rafael Morazzani Arráiz, EP

Vigário Geral de Virgo Flos Carmeli

Reitor do Seminário São Tomás de Aquino

Como as furiosas e ritmadas ondas de um mar borrascoso irrompem com violência sobre as areias da praia, sucessivas hordas de invasores assolaram, durante mais de 150 anos, a península italiana.

Em 410, os visigodos do rei Alarico I, após devastar vilas e campos, chegaram até Roma, cujas muralhas tinham 800 anos sem avistar um exército estrangeiro. E a esplendorosa e já decadente cidade das sete colinas foi saqueada durante três dias.

Em vão o Papa Leão Magno tentou deter os vândalos que sulcavam impunemente, em rápidas naves, o Mar Mediterrâneo. O santo Pontífice obteve de seu rei, Genserico, apenas que a população fosse poupada. Mas durante duas trágicas semanas do ano 455, Roma foi minuciosamente pilhada por esses terríveis bárbaros.

Em 472, o suevo Ricimero, apoiado pelos burgúndios, sitiou a capital do império, onde tentou resistir um dos últimos soberanos latinos: Antémio, mera sombra de autoridade num mundo cada vez mais convulsionado. No dia 11 de julho, a velha ­urbe foi, pelas tropas do caudilho suevo, saqueada mais uma vez.

Como conseqüência de intrigas políticas, Rômulo Augústulo, um jovem de 13 anos, foi proclamado soberano de um império que já não mais existia. Menos de um ano durou essa triste comédia: em 476, Odoacro, à cabeça de várias tribos de germanos, ocupou aquelas terras onde tremia e chorava de medo o último dos imperadores de Roma…

Uma nova horda de invasores submergiu a península no ano de 489: os ostrogodos. Quiçá 200 mil homens, calculam os historiadores. Em ­poucos anos, eliminaram os ocupantes da véspera, tornaram-se os donos da Itália e seu rei Teodorico entrou triunfalmente na cidade dos antigos césares.

Após a morte deste grande chefe, em 526, a península italiana transformou-se durante mais de duas décadas num imenso campo de batalha onde godos e bizantinos entrechocavam-se ferozmente, disputando palmo a palmo aquela terra ensangüentada. Várias vezes a Cidade Eterna foi sitiada e conquistada. Seus grandiosos monumentos e palácios desmoronavam-se e a população, outrora mais de um milhão de habitantes, somava agora menos de 100 mil seres desafortunados, na maioria oriunda de outras regiões desoladas pela guerra.

Finalmente, Belisário e Narses, geniais comandantes do exército ­bizantino, cujo imperador Justiniano reinava na distante e despreocupada Constantinopla, exterminaram o povo dos ostrogodos.

Um capítulo trágico parecia concluído e o futuro despontava sereno no horizonte dos romanos sobreviventes.

A catástrofe

Mas o pior estava ainda por acontecer. O sonho da restauração de um passado grandioso evaporou-se no incêndio de uma nova convulsão social.

Como uma avalanche incontenível, em 568, desembocaram no norte da Itália 100 mil guerreiros seguidos por mais de 500 mil anciãos, mulheres e crianças: os lombardos. Esse povo bárbaro, de religião ariana, logo revelou ser um dos mais cruéis e sanguinários invasores que até então haviam penetrado na Europa ocidental. “À sua chegada, a Itália conservava ainda a forma romana nas suas cidades. Mas quando passavam os lombardos com os seus exércitos, desapareciam até os últimos vestígios da organização romana do município”.1 Testemunhas desses acontecimentos narram que “as igrejas eram saqueadas, os sacerdotes assassinados, as cidades destruídas e mortos os seus habitantes”.2 Seu método de conquista consistia na violência e no terror, e para firmarem-se de modo definitivo naquelas terras, eliminavam metodicamente as elites latinas e o resto de aristocracia ainda subsistentes.

Todo o norte da Itália foi conquistado e para Roma acorriam os sobreviventes, fugindo dos ­horrores que acompanhavam a ocupação lombarda.

A luz da esperança

Outono de 589. Chuvas torrenciais abateram-se sobre a Itália. Os campos ficaram alagados, perderam-se as colheitas e quase todos os rios transbordaram, destruindo pontes e inundando muitas vilas e cidades.

Em Roma, o manso Tibre tornou-se uma torrente impetuosa. Saindo de seu leito e atingindo um nível ­jamais visto, as águas devastaram a cidade e submergiram no lodo seus bairros menos elevados. O inverno e o novo ano chegaram, e a ­chuva não cessava de cair. A catástrofe atingiu então proporções apocalípticas: à destruição e à fome acrescentou-se uma epidemia de peste bubônica que se alastrou rapidamente, dizimando a população. Roma agonizava, e muitos se perguntavam se não haveria chegado já o fim do mundo. No auge do ­drama, atingido pela peste em seu palácio de Latrão, faleceu o ­Papa Pelágio II.

Sentindo-se desamparados no meio da borrasca, os olhos de ­todos voltaram-se para a única Luz do mundo: às igrejas acorriam dia e noite os sobreviventes, implorando um raio da luz divina para dissipar as angústias e incertezas que obscureciam o horizonte.

Com efeito, ensina-nos o Papa Bento XVI: “A vida é como uma viagem no mar da História, com freqüência enevoado e tempestuoso, uma viagem na qual perscrutamos os astros que nos indicam a rota […]. Certamente, Jesus Cristo é a luz por ­antonomásia, o sol erguido sobre todas as trevas da História. Mas para chegar até Ele precisamos também de luzes vizinhas, de pessoas que dão luz, recebida da luz dEle”. 3

Assim, os romanos do final do século VI perceberam, admirados, que a luz divina já brilhava para eles num límpido espelho. Então o clero, o senado e todo o povo aclamaram a uma só voz: “Gregório Papa!”

Era Gregório a “luz da esperança”4 que refulgia naquele ocaso de uma civilização.

Primeiros anos

Vox populi, vox Dei. Gregório foi, sem dúvida, o varão providencial ­escolhido por Deus para governar a Igreja naqueles tempos difíceis e decisivos.

Viera à luz no ano de 540, numa nobre e antiga família romana, profundamente católica e com longa história de fidelidade à Cátedra de São Pedro.

Eram seus pais o senador Gordiano, que no fim da vida entraria no estado eclesiástico, e Sílvia, dama conhecida por sua piedade e generosidade, que terminaria seus dias retirada do mundo e consagrada ao Senhor. Ambos, e duas tias de Gregório, Tarsila e Emiliana, são venerados como santos.

A mansão familiar erguia-se num dos lados do monte Célio, lugar privilegiado no centro da Roma antiga. Do alto de suas janelas, que dominavam a Via Triumphalis, podia Gregório avistar à direita o majestoso Arco de Constantino, que se erguia diante do Anfiteatro Flávio (o Coliseu) e, à esquerda, o já muito deteriorado Circo Máximo. À frente, do outro lado da avenida, elevava-se, abandonada, a imensa ­mole do conjunto dos palácios do Palatino, semi-destruídos pelos tremores de terra, os incêndios e os saqueios dos bárbaros. A visão desse triste e monumental cenário não pôde ter deixado de despertar na alma romana de Gregório a esperança de uma futura restauração da grandeza perdida.

Entretanto, ao longo de sua infância e juventude, assistiu a acontecimentos que marcariam profundamente sua vida em sentido contrário.

Presenciou, certamente, na noite de 17 de dezembro de 546, a terrível entrada dos ostrogodos em Roma, seguida da deportação de seus habitantes durante 40 dias, período em que a cidade deserta ficou à mercê dos invasores. E quiçá contemplou, desolado, as muralhas da urbe arrasadas por ordem de Totila, o rei dos bárbaros.

Nesse contraste entre a piedade do ambiente doméstico, solidamente arraigado nas tradições romanas, e a instabilidade de um mundo novo que surgia na violência, transcorreram os primeiros anos da existência de Gregório.

Longa preparação

Após o aniquilamento dos ostrogodos pelo exército do imperador Justiniano, durante vários anos reinou na Itália uma relativa paz que permitiu a Gregório, seguindo a tradição familiar, cursar a carreira jurídica.

Sua aguda inteligência e incomum capacidade organizativa destacaram-no rapidamente nos meios cultos da época, e sua reputação aumentava com o passar dos anos. Entretanto, como dois robustos galhos de uma mesma árvore, cresciam no seu espírito o desejo de empreender grandes obras para ordenar aquela civilização cambaleante e o anelo de abandonar o mundo para consagrar-se unicamente à contemplação das realidades sobrenaturais.

Quando contava pouco mais de 30 anos, foi nomeado prefeito de ­Roma, um dos mais altos cargos do governo da cidade. Desempenhou essa função com superior habilidade, enfrentando dificuldades de toda ordem, criadas pelo drama da invasão dos lombardos. Contudo, em meio das mais absorventes ocupações, ressoava sempre na sua alma o chamado a uma vida contemplativa: “Por longo tempo diferi a graça da conversão, ou seja, da profissão religiosa, e, ainda após ter sentido a inspiração de um desejo celeste, eu acreditava ser melhor conservar o hábito secular. Neste período manifestava-se em mim no amor à eternidade, aquilo que eu devia procurar, mas as ocupações assumidas acorrentavam-me”5  — confessava ele, anos depois, numa carta dirigida a São Leandro de Sevilha.

Em 575, concluiu-se o tempo prescrito e Gregório, aliviado, deixou o mais prestigioso cargo da cidade. Três anos transcorridos procurando solucionar casos e situações irremediáveis, convenceram-no da inutilidade de qualquer esforço humano para salvar aquela civilização: sim, a grandeza temporal da urbe dos césares havia naufragado. Esperar, só em Deus…

A graça operou então a definitiva conversão daquela alma feita para voar nos horizontes infinitos da Fé.

Gregório, monge

Junto com as esperanças terrenas, Gregório deixou para sempre a púrpura do patriciado e revestiu-se das insígnias de uma nobreza mais ­alta: o hábito monacal. Mas, ao invés de abandonar a conturbada Roma e partir para algum claustro distante, transformou o palácio senatorial do Monte Célio em mosteiro beneditino, sob a invocação de Santo André.

Entregando o governo da casa a um experimentado abade chamado Valêncio, começou como humilde ­súdito sua vida religiosa. Foram os anos mais felizes de sua existência.

Nesse período, pôde Gregório saciar os seus anelos de isolamento, e abundantes graças místicas de contemplação lhe foram concedidas. Com indizíveis saudades, escreveu décadas depois: “Quando vivia no mosteiro, podia ter, de modo quase contínuo, a mente fixa na oração”.6

A luz sobre o candeeiro

Entretanto, “não se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para ser posta sobre o candeeiro” (Mt 5, 15). A Sabedoria divina ia lentamente preparando esse varão incomum, por vias não imaginadas por ele, para ser uma verdadeira luz do mundo a brilhar no firmamento da Igreja e da Civilização Cristã.

Após quatro anos de paz monacal foi, por ordem do Papa Bento I, ordenado diácono regional, ou seja, encarregado da administração de uma das regiões eclesiásticas que nessa época dividiam a cidade de Roma. E pouco depois o novo Papa, Pelágio II, que reconhecia em Gregório uma longa experiência em assuntos seculares e uma provada virtude, o enviou como apocrisiário (núncio) à capital do Império do Oriente, Constantinopla. “Como sucede às vezes a uma nave, atada ao cais de modo descuidado, ser arrastada pelas ondas para fora do porto quando sobrevém uma tormenta, assim encontrei-me subitamente no oceano dos assuntos do século” 7, escrevia ele, narrando sua nova situação.

Seis anos de intenso labor na ­corte imperial proporcionaram a Gregório um útil contato com a cultura e a grandeza bizantinas, mas também com a sinuosa e ambígua política de seus soberanos. As tendências heterodoxas de monofisismo e nestorianismo, que ainda crepitavam ali, foram combatidas com destemor pelo apocrisiário, o qual sabia aliar aos argumentos teológicos uma fina habilidade diplomática.

Sempre acompanhado por alguns monges de Santo André do Monte Célio, Gregório manteve no belo palácio à beira do Bósforo, onde residiam os apocrisiários do Papa, a vida sacral de um religioso, filho de São Bento. Apesar das múltiplas ocupações, todos ali rezavam, cantavam e estudavam as Escrituras, na inteira observância da disciplina monástica.

Por volta do ano 585, pôde Gregório retornar a Roma. Seu maior desejo era retirar-se definitivamente do mundo e enclausurar-se em seu amado mosteiro de Santo André. Porém, os deveres do apostolado e a voz da obediência o chamaram mais uma vez para outros caminhos.

Uma antiga tradição refere que certo dia, caminhando pelas ruas da cidade, ele deparou-se com um grupo de jovens escravos anglos, provindos da longínqua Britânia. Contristado, ao ver gente tão cheia de qualidades submersa nas trevas do paganismo, exclamou: “Não são anglos, mas anjos!” Providencial encontro que o moveria a fazer todo o possível para levar a luz do Evangelho a esse povo e, mais tarde, a promover a conversão de todos os novos e temidos habitantes de Europa: os bárbaros.

Pediu licença ao Papa para dirigir-se ao país dos anglos, com o ­objetivo de trazê-los ao seio da Igreja. Mas, atendendo às súplicas do povo romano, que não queria ver-se privado de um varão cuja santidade já era notória, Pelágio II o reteve na Cidade Eterna e, ademais, o chamou a si, para servir-se dele como experimentado conselheiro.

A mais alta das cruzes

Após o falecimento de Pelágio II, foi Gregório o escolhido, por unânime aclamação, para ocupar o trono de São Pedro. Considerando-se, porém, indigno, e espantado diante da incomensurável responsabilidade, fugiu de Roma e ocultou-se nas montanhas e florestas vizinhas. Lá foi achado pelo povo e, então, submeteu-se humildemente diante dos inequívocos sinais da vontade divina. A seu amigo João, Bispo de Ravena, que o censurou por não aceitar imediatamente a eleição, escreveria depois, assumindo a repreensão: “Com benigno e humilde afeto, desaprovas, irmão caríssimo, o fato de haver eu fugido, escondendo-me, do peso do governo pastoral!”.8

Foi solenemente sagrado na Basílica de São Pedro, no dia 3 de setembro de 590. Contudo, tendo sempre diante de si a própria insuficiência e indignidade, manifestava sinceramente sua consternação: “Sinto-me de tal modo esmagado pela dor, que apenas posso falar. Tudo o que contemplo causa-me tristeza, e aquilo que para os outros é motivo de consolação, a mim parece-me aflitivo”. 9

Mas se a humildade o fazia tremer, a Fé na invencibilidade da Cátedra de Pedro incutia-lhe uma sobrenatural fortaleza: “Estou disposto a morrer antes de ser causa de ruína para a Igreja de Pedro. Acostumei-me a sofrer com paciência, mas, uma vez decidido, lanço-me com ânimo resoluto em direção a todos os perigos”.10

O ponto de vista profético

Gregório I subia ao supremo pontificado, numa cidade ­desmantelada, símbolo de uma civilização em agonia, e numa Igreja convulsionada pelas invasões, por cismas e relaxamentos. Entretanto, a inspirada clarividência que o caracterizaria até o fim, manifestou-se desde o primeiro momento de seu governo. Diante de uma sociedade devastada por crises aparentemente insolúveis, ele apresentou o ideal da vida cristã em toda a sua radical integridade. O imenso vazio deixado pelo desaparecimento do ius civitatis romano só poderia ser preenchido pelo donum caritatis cristão.11 O objetivo principal do Papa-monge seria, pois, elevar continuamente os espíritos à consideração das realidades sobrenaturais, para então viver os acontecimentos temporais sob uma perspectiva eterna. ­Esse programa, ele o deixou bem delineado na sua primeira homilia ao povo romano, no segundo domingo do ­Advento de 590.12

Assim procedendo, São Gregório fechava para sempre a última porta que unia a Europa com o mundo antigo, nascido do paganismo, e plantava a semente de uma nova civilização que cresceria sob a luz do Evangelho, regada pelo preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Pastor das almas

Durante os primeiros anos de seu pontificado, a península italiana atravessava uma das piores fases do conflito lombardo. Assim descreveu São Gregório aqueles dias calamitosos: “Por todos os lados vemos luto e escutamos gemidos. As vilas foram destruídas, os castelos demolidos, os campos tornaram-se desertos, a terra está desolada e já não há quem a cultive; poucos habitantes ainda ocupam as cidades. Estamos contemplando a que extremo foi reduzida Roma, a mesma que outrora parecia ser a senhora do mundo! Muitas vezes quebrantada por dores imensas, pela desolação de seus cidadãos, pelos ataques de seus inimigos e as ruínas freqüentes… Nela desapareceu todo o esplendor das glórias terrenas. Desprezemos com toda a ­alma este mundo quase extinto, e imitemos a conduta dos santos”.13

Abandonada quase totalmente pelos bizantinos, a antiga urbe foi ­duas vezes sitiada pelos ferozes lombardos. Mas em ambas, graças à fortaleza e habilidade do novo Papa, o cerco foi levantado e eles se retiraram.

Empenhado não na destruição, mas na conversão dos invasores, São Gregório assinou uma trégua com eles e procurou por todos os meios atraí-los à verdadeira Fé. Depois de não poucas tentativas, foi possível — graças ao fervor e à influência da princesa Teodolinda, filha do rei católico da Baviera e esposa do caudilho dos lombardos — batizar o filho do casal e preparar assim a futura conversão de todo o povo.

A sede de almas do Sumo Pontífice fez reflorescer para a Igreja todo o ocidente da Europa.

Na Espanha, apoiou eficazmente São Leandro na difícil evangelização dos visigodos arianos. Quando, por fim, o monarca dessa nação abraçou a religião verdadeira, escreveu São Gregório, cheio de júbilo: “Não posso exprimir com palavras a alegria que sinto porque o glorioso rei Recaredo, nosso filho, aderiu à Fé católica com sincera devoção”.14

A Gália mereceu especial atenção do santo Papa. Travou ele boas relações com os soberanos francos, renovou o clero decadente e simoníaco, ordenou a convocação de sínodos e procurou com energia pôr fim às cruéis práticas pagãs que ainda perduravam.

Onde pôde São Gregório manifestar todo seu ardor missionário, foi na conversão da Grã Bretanha. Outrora província do Império, esta ilha tinha sido evangelizada já nos primórdios do Cristianismo. Porém, invadida e dominada pelas tribos dos bárbaros anglos e saxões, a luz da Fé quase se havia apagado. O Pontífice não poupou esforços na conversão desse povo: estabeleceu uma casa de formação em Roma para os jovens anglo-saxões, conseguiu que um dos seus reis ­contraísse núpcias com uma princesa católica da França e, sobretudo, para lá enviou um grande número de missionários. Destacou-se entre eles Agostinho, que mais tarde seria Arcebispo de Cantuária e que, segundo narram as crônicas, batizou mais de 10 mil neófitos no dia de Pentecostes de 597. Sem dúvida, a conversão deste povo constitui o episódio culminante da obra evangelizadora de São Gregório.

Uma luz inextinguível

No ano de 604, Gregório, na paz dos justos, entregava a alma ao Pastor dos pastores.

Apesar de várias moléstias que lhe causavam sofrimentos terríveis, permaneceu firme e vigilante até o fim. A sentinela de Israel partia, mas a luz por ele acendida, “brilhará diante dos homens” (Mt 5, 16) até a consumação dos séculos.

Tudo nesse varão providencial fora grande, graças à sua humilde docilidade diante dos desígnios do Espírito Divino que governa a Esposa de Cristo. Quando todo um mundo parecia desabar no caos, soube São Gregório confiar cegamente no triunfo da Santa Igreja e, pelo dom de sabedoria que o Espírito Santo lhe concedera, discernir novos rumos e metas para o povo de Deus. Pode-se afirmar, sem a menor dúvida, que pelo vastíssimo horizonte descortinado por seu olhar contemplativo passaram todos os problemas do tempo, e não houve obra que ele deixasse de empreender para alargar o Reino de Cristo.

A vida desse Papa admirável constitui um marco fundamental na História da Igreja. Publicou a “Regra Pastoral”, um verdadeiro manual de santidade para os pastores do rebanho do Senhor; reformou a Liturgia, criando o estilo de canto que hoje leva seu nome; e fez do conjunto do seu Pontificado o ponto de partida de uma nova civilização, inteiramente cristã.

No entanto, seu único e ardente desejo era servir incondicionalmente, como simples escravo, a Jesus Cristo, o Rei Eterno. Por isso, enquanto do alto da Cátedra de Pedro regia os destinos do mundo, não quis receber outro título senão o de servus servorum Dei — servo dos servos de Deus. E a Santa Igreja, com maternal gratidão, uniu a grandeza ao nome do escravo: para todo sempre será ele chamado São Gregório, o Magno.

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1 Obras de San Gregorio Magno, BAC: Madrid, 1958.  p. 6.

2 J. B. Weiss, Historia Universal, v. IV. Barcelona, 1928.  p. 478.

3 Spes salvi, 49.

4 Idem, ibidem.

5 Obras de San Gregorio Magno, BAC: Madrid, 1958. p. 7.

6 Idem. p. 365.

7 Idem. p. 11.

8 Idem. p 107.

9 J. Chantrel, Histoire des Papes. v. V.  Dillet libraire: Paris, 1863.  p. 127.

10 Historia de la Iglesia. v. I. BAC: Madrid, 2001. p. 635.

11 Obras de San Gregorio Magno. BAC: Madrid, 1958. p. 16.

12Cf. Op. Cit. pp. 537-541.

13 Op. Cit. pp. 468-470.

14 Op. Cit. p. 24.

São Paulo e a Conquista da Acaia

Marcos Eduardo Melo dos Santos – 2º ano de Teologia

São PauloConquista! Esta evocativa palavra faz emergir em nosso espírito a saga de grandes personagens. Autênticos homens de ação, conquistadores de terras e povos que bem merecem um honroso lugar na galeria da História. Contudo, existe uma epopeia mais sublime, a conquista das almas. Somente no Juízo final poder-se-á medir inteiramente os méritos de um missionário. Pois, atrair as almas para o Rei dos Reis e sua esposa Mística, a Santa Igreja Católica é conquistar almas para o Céu. O conquistador Dentre essa inumerável coorte de missionários na História da Igreja, o maior deles, sob vários aspectos, foi São Paulo Apóstolo. Sua gesta apostólica é incrível. Como santo e ministro de Deus, de uma santidade sem mancha, comprovada por milagres. Como escritor, nunca alguém foi tão lido, discutido, elogiado e criticado por causa de apenas 14 cartas. Como teólogo, terá alguém sido mais profundo? Como homem de ação, uma biografia riquíssima. Quantos trabalhos, fadigas, vigílias, prisões, açoites, viagens, e naufrágios? Quantas vezes viu a morte de perto? Exposto a perigos nos rios, mares, cidades e desertos. Ameaçado por assaltantes, pagãos e falsos irmãos. Ele mesmo narra que através de uma janela, por uma cesta, foi descido pelo muro a fim de escapar da prisão. (Cf. 2Cor 11,22-33). Nascido em Tarso por volta do ano 8 d.C., Saulo, o perseguidor dos cristãos, judeu de sangue, romano de cidadania, fariseu de religião, se converte na estrada de Damasco. Diz o escritor apócrifo dos Atos de Paulo (Apud ROPS, 1952, p. 21), que esse jovem de quase 30 anos era “de estatura média, baixo e rechonchudo, com pernas tortas, a cabeça calva, as sobrancelhas espessas e muito juntas, o nariz arqueado”. Mais alma do que corpo, sua fisionomia nunca foi elogiada pela beleza dos traços, mas isso em nada empobrece sua personalidade. O antigo aluno de Gamaliel era de uma inteligência e força de vontade excepcionais. O olhar o revelava. Memória excelente, a serviço de uma cultura judaica e greco-romana incomum. Falava excelentemente o grego, o latim e o hebraico. Perfeita dicção, caráter sólido, determinado nas decisões, quase obstinado; sério, era homem capaz de servir um alto ideal até as ultimas consequências. Este Ministro de Cristo foi preparado no melhor dos seminários. Conviveu durante dois anos com o Salvador em corpo glorioso. Durante suas viagens era constantemente movido por visões e inspirações do Espírito Santo, assim como, por um admirável senso prático. Lógico, audacioso e empreendedor, mereceu o título de “O Apóstolo”, pois fez mais que todos os outros juntos.

Em Atenas Durante a segunda viagem apostólica (50-53 d. C.), impelido pelo Espírito Santo, adentrou-se no continente europeu (At 16,9). Na Macedônia, as cidades de Filipos, Beréia e Tessalônica, não sem dificuldades acolheram-no com fervor. A perseguição o fez dirigir-se para a Acaia e a primeira cidade que desbravou foi Atenas, a capital da filosofia. Cidade de apenas 30.000 almas, mas que gozava de incontestável prestígio na antiguidade. O Apóstolo “estava interiormente indignado por ver a cidade repleta de ídolos”. (At. 17,16). Seguindo o costume, dirigiu-se à Sinagoga. Todos os dias discutia com os judeus e pagãos “que adoravam a Deus”. Certa vez conversou com alguns filósofos epicúreos e estóicos. Alguns, despeitosos ante o singular judeu, julgavam-no “charlatão” (v. 18), mas, outros, vendo seu valor e convicção, levaram-no ao Aerópago e perguntaram-lhe: “Podemos saber que nova doutrina é essa que ensinas? É muito estranho o que nos trazes aos ouvidos. Queremos saber o que pretendes dizer com tais coisas”. (v. 19-20). Paulo pronunciou o discurso que São Lucas relegou à História. Podemos imaginá-lo de pé, no centro do Areópago, com voz forte e clara proclamando: Atenienses, vejo que sois extraordinariamente religiosos em tudo. Ao passar pela cidade e contemplar os objetos de vosso culto, achei até um altar em que está escrito: “Para o deus desconhecido”. Pois bem, aquele que venerais sem conhecer, é esse que vos anuncio. O Deus que fez o mundo e todas as coisas que nele existem. Sendo o Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos de homens, nem por mãos humanas é servido, como se necessitasse de alguma coisa, ele que dá a todos a vida, o alento e todas as coisas. De um só fez nascer todo o gênero humano, para povoar toda a face da terra. Estabeleceu para os povos os tempos e os limites de sua habitação, tudo para que procurem a Deus e se esforcem por encontrá-lo mesmo às apalpadelas. Pois não está longe de nenhum de nós. É nele que vivemos, nos movemos e existimos, como alguns de vossos poetas disseram: ‘Porque somos também de sua raça’. Sendo, pois, da raça de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro ou à prata ou à pedra, obra da arte e do engenho humanos. Não levando em conta os tempos da ignorância, ele convida agora a todos em toda parte a se converterem, porque fixou um dia em que julgará o mundo com justiça, por meio de um homem que ele constituiu, dando a todos por garantia o fato de tê-lo ressuscitado dos mortos”. (Cf. At 17, 21-34). Quando ouviram o Apóstolo tratar da ressurreição dos mortos, alguns zombaram e outros disseram: “A este respeito te ouviremos noutra ocasião”. Todavia, como narra a Legenda, após curar um cego a pedido de um ilustre areopagita como prova da veracidade de sua doutrina, vários se converteram, conquistando algumas almas “do mundo acadêmico ateniense”, as quais dariam frutos extraordinários, como aquele que será São Dionísio, o Areopagita, primeiro bispo de Atenas.

Em Corinto A corrupção epicúrea e o orgulho cético dos estoicos tornavam Atenas terra árida à semente do Evangelho. Por isso, logo partiu São Paulo para a capital econômica e política da Acaia: Corinto, uma das mais importantes cidades do Império Romano. A indústria, o comércio e os dois portos – Lenqueas ao ocidente e Cencreas ao oriente – eram os trunfos econômicos da suntuosa cidade. O que fazia jus ao provérbio da antiguidade, relativo às pessoas com alto poder aquisitivo, “nem todos podem ir a Corinto”. Fundada no século IX a. C., era a cidade mais rica e artística do Helesponto; por sua posição geográfica era a chave e a porta do Acaia. Nas guerras do Peloponeso, Corinto era o pêndulo que marcava a hora da vitória para as cidades-estado. A culta Atenas e a belicosa Esparta dominaram a Grécia quando conquistaram Corinto. (ESPASA CALPE, 1936). Sua laboriosa população de 500.000 almas era constituída, sobretudo, de libertos e patrícios, assim como, de uma relevante colônia judaica. Como narra o Atos dos Apóstolos, em Corinto, São Paulo encontrou um judeu chamado Áquila, originário do Ponto, que acabara de chegar da Itália com Priscila, sua mulher. Paulo uniu-se a eles; e, como era do mesmo ofício, fabricante de tendas, permaneceu em sua casa onde trabalhavam juntos. Aos sábados discutia na sinagoga persuadindo judeus e gregos. Entre trabalhos, pregações e a celebração da Ceia, São Paulo ainda pôde escrever duas cartas aos tessalonicenses. (±51 d.C.). Quando seus auxiliares, Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo se dedicou inteiramente à pregação da palavra, defendendo diante dos judeus que Jesus era o Cristo. Entretanto, a oposição dos judeus fez o Apóstolo sacudir as vestes e dizer-lhes : “Sobre vós pesa a responsabilidade do que acontecer. Eu sou inocente. A partir de agora dirijo-me aos pagãos”. Daí em diante nunca mais voltou às sinagogas. Mudou-se para a casa de um pagão de nome Tício Justo. Entretanto, alguns judeus seguiram o Apóstolo, como Crispo, chefe da sinagoga, o qual acreditou no Senhor com todos os de sua casa. Muitos coríntios que ouviam Paulo também acreditaram e foram batizados (At 18, 2- 8). Assim formou-se a comunidade cristã de Corinto, constituída de ricos convertidos e alguns judeus, contudo a imensa maioria era de origem modesta e pagã. Anos depois, o Apóstolo recorrerá aos ricos coríntios na coleta pela carente comunidade de Jerusalém. Apesar da conquista destas almas, o apostolado em Corinto não era fácil devido à imoralidade típica do clima mediterrâneo corroborada pela riqueza material. São Paulo muito lutou contra a corrupção de costumes como se deduz através das cartas que enviará anos depois aos coríntios. Nem sempre as admoestações do Apóstolo foram acolhidas com fervor, por todos, em Corinto. São Paulo pretendia inclusive sair da cidade, pois pressentia que a borrasca da perseguição se armava no horizonte. Como a bonança que precede a tempestade, certa noite, São Paulo teve uma visão. O Senhor lhe disse: “‘Não tenhas medo, segue falando e não cales, pois eu estou contigo. E ninguém te fará mal, pois tenho um povo numeroso nesta cidade’. O Apóstolo dos Gentios demorou-se lá mais um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus”. (At 18, 8). Finalmente, a tormenta da perseguição desabou sobre o Apóstolo. Alguns judeus acusaram-no a Galião, procônsul da Acaia, dizendo: “Este homem persuade os ouvintes a prestar culto a Deus de modo contrário à Lei”. Mas, Galião, não atendeu as acusações, pois sendo “questões de doutrina”, não quis julgar o caso. Então, os judeus espancaram Sóstenes, chefe da sinagoga sem que o procônsul fizesse caso. Assim, O Apóstolo ficou ileso conforme a promessa do Senhor, permaneceu na Acaia por ainda algum tempo, mas finalmente despediu-se dos irmãos e navegou para a Síria com os santos Priscila e Áquila. Antes, porém, raspou a cabeça em Cencréia, por causa de um voto que tinha feito. (At 18,9-18). Quanto à razão do voto, é mais um mistério da História…

A duradoura e grandiosa conquista São Paulo evangelizou as regiões mais importantes do Império dos Césares: a populosa Ásia, a ardente Ibéria, a culta Grécia e a Itália, centro administrativo e militar. Contudo, sob certo aspecto, a Grécia, pátria dos filósofos, possuía primazia, porque era o polo do requinte e da cultura no Império Romano. Lá se ditava a moda, do pensar ao vestir-se. Até a Roma vencedora adaptava-se à língua e à cultura dos vencidos. Tão grande era a influência grega sobre todo o Império Romano, que quando uma ideia tomava a Acaia, conquistava o mundo. (MEILLET, 1947). Estava São Paulo consciente do papel da Acaia no mundo de então? Pelo seu feitio de espírito, invejável cultura e amplitude de horizontes, certamente, sim. Se hoje o politeísmo está quase extinto não o devemos ao Apóstolo dos Gentios e à inumerável coorte de santos que seguiram seu exemplo e sua doutrina? Sob as ruínas do paganismo, São Paulo edificou o cristianismo grego, que durante quase mil anos legou à Igreja profundas explicitações teológicas, tratados espirituais e uma grandiosa arte. Sobretudo gerou santos, que brilham como estrelas no firmamento da Igreja. A conquista da Acaia era o lance decisivo para a conquista do Império Romano. Sendo uma região admirada pelos latinos, São Paulo revestia o cristianismo do prestígio grego e preparava a entrada do Evangelho na capital do Império. Sem preparar um plano de conquista com mapas, cálculos e logística impecável a la general militar, a conquista paulina foi maior e mais duradoura que muitos conquistadores da antiguidade. Hoje, quase dois mil anos depois, os descendentes dos latinos somam 85% dos fiéis cristãos no mundo. Se uma enorme multidão goza do Reino Celestial e mais de dois bilhões de almas se ufanam de professar o cristianismo, devemo-lo ao Apóstolo dos gentios. Um dos principais propugnadores de uma das maiores e mais duradouras conquistas da História da Igreja: a conversão do Império Romano. Grandiosa epopeia a qual se iniciou com a conquista da Acaia.

BIBLIOGRAFIA BÍBLÍA de Navarra. Pamplona: Ediciones Universidad de Navarra – EUNSA, 2008. CESÁREA, Eusébio de; AZNAR, Luiz. Historia Eclesiástica. Bueno Aires: Editorial Nova, 1950. ESPASA CALPE. Enciclopedia Universal ilustrada: Europeo-Americana – Suplemento Anual, 1935. Madrid; Barcelona: Espasa-Calpe, S.A., 1936. LLORCA, Historia de la Iglesia, Edad Antigua. Madrid: BAC, 2005. MEILLET, A. Esquisse d´une Histoire de la Langue Latine. 5ª [cinquème édition]. Paris: Hachette, 1948. ROPS, Daniel. São Paulo, o conquistador de Cristo. Porto: Tavares Martins, 1952. ______. La Igresia de los Apóstoles y de los Mártires. Trad. Luis Horno Liria. Madrid: Palabra, 1992. VORAGINE, Jacques. La Légende Dorée. Trad. Jean Baptiste Rose. T. I e II, Paris : Garnier-Flammarion, 1967.

O terceiro concílio ecumênico em Éfeso e o título: Mãe de Deus

3021_M_fb93b9855[2]Marcos Eduardo Melo dos Santos – 2º Ano de Teologia

 

Como as pedras que formam uma bela Catedral, assim são as verdades da Doutrina Católica. De fato, os mistérios da Fé Cristã se coadunam harmonicamente, como um sistema completo, um edifício sublime. Essa harmonia é tão íntima, que quando se subestima algum ensinamento de Fé, todo o castelo doutrinal da Igreja é impugnado de forma implícita. Dir-se-ia que é impossível subtrair uma pedra deste esplêndido edifício. Entretanto, sempre que o vento do erro tentou minar os fundamentos da Fé, a Igreja soube manter-se firme, ereta e sobranceira. Foi precisamente o que aconteceu  num dos maiores lances da História da Igreja: o Concílio de Éfeso, convocado em face do erro do nestorianismo.

O homem que deu nome a esta heresia chama-se Nestório. Em sua mocidade fora monge nos arredores de Antioquia, sua terra natal. Eleito patriarca desta cidade aplicara a reforma do clero; era tão eloquente e erudito que foi cognominado pelos seus contemporâneos de “o segundo Crisóstomo”. Sua fama valeu-lhe ser chamado pelo Imperador ao Patriarcado de Constantinopla, a capital do Império. Apesar de muito inteligente, o prelado possuía um caráter rude, orgulhoso e autoritário.

Certo dia, Nestório foi interrogado pelos fiéis que ouviram Anastácio, um de seus presbíteros de confiança, dizer que Maria Santíssima não era Mãe de Deus, mas somente Mãe do homem Jesus Cristo. Escandalizado, o povo cristão exigia uma explicação do Patriarca de Constantinopla. Todavia, também o infeliz bispo negou a Maternidade Divina de Maria, atribuindo-lhe somente o título de Mãe de Cristo, pois segundo Nestório, “uma criatura não pode dar à luz o Criador, mas deu à luz um homem, instrumento da Divindade”.(ROPS, 1992).

Tais palavras feriram a devoção pervadida de ternura dos cristãos daquele ano de 428. Desde os primeiríssimos tempos do Cristianismo o título de Mãe de Deus, em grego, Theotókos, fora usado por diversos Padres da Igreja e escritores eclesiásticos, como Santo Hipólito de Roma, Santo Atanásio, Santo Alexandre, São Cirilo de Jerusalém, Eusébio de Cesaréia, Dídimo e Orígenes. Diversos documentos daquela áurea época comprovam o uso corrente da expressão Theotokos como, por exemplo, um pergaminho do segundo século contendo uma oração à Mãe de Deus  atualmente  exposto no Museu Britânico.

Aparentemente, a tese nestoriana parecia ferir somente a devoção  à Mãe de Jesus, porém, os vocábulos theotókos e christotókos, Mãe de Cristo, por mais semelhantes que pareçam entre si, encobriam duas posições cristológicas completamente diversas.

É importante salientar que a doutrina católica sobre a união das naturezas de Cristo ainda não estava inteiramente explícita. Contra a doutrina ariana, a Igreja somente havia declarado que Jesus Cristo era verdadeiro Deus, consubstancial ao Pai, eterno como Ele e sem princípio no tempo. Contra os apolinaristas, havia definido que a natureza humana de Cristo era completa, como a dos demais homens. (AQUINO, 2008, 3 q. 2, a. 9) (LLORCA, 2005).

Nestório acreditava que em Cristo havia duas pessoas: uma divina e outra humana, unidas por uma habitação da divindade na natureza humana, como em um templo, ou de uma túnica que estivesse unida ao corpo. Desta maneira, como o Verbo Eterno passou a habitar na carne humana formada no claustro materno, Maria só poderia ser chamada “Mãe dessa carne humana ou da pessoa humana na qual o Verbo habitava”(BETTENCOURT, 2003). Portanto, não lhe competiria o título de Mãe de Deus, mas sim, Mãe de Cristo homem, distinguindo assim em sua doutrina a pessoa humana da divina. Daí, o termo grego imposto por Nestório, anthropotókos, Mãe do homem.  

Em conseqüência deste erro, na Cruz foi apenas o homem Jesus que morreu; já não se poderia dizer que Deus sofreu e morreu por amor dos homens. O sacrifício cruento do Salvador em resgate do mundo perde todo seu sentido, pois uma pessoa humana jamais possuirá méritos infinitos a fim de redimir o gênero humano do pecado original. O mistério da Redenção, da Santíssima Trindade e da Encarnação são simultaneamente impugnados. (BETTENCOURT, 2003).

Na verdade, esses matizes teológicos não eram perceptíveis ao povo fiel. Mais que a questão cristológica, o ataque de Nestório ao título de Mãe de Deus atingiu a amorosa devoção  a Nossa Senhora daqueles autênticos cristãos. O tema transformou-se em fonte de discussões e protestos mesmo durante atos de culto.

O Patriarca de Constantinopla, Nestório, viu-se na contingência de escrever ao Papa São Celestino I (422-432), enviando-lhe uma coleção de suas homilias. O Sumo Pontífice sabiamente apresentou estes escritos a São João Cassiano, abade do mosteiro de São Vítor de Marselha e ilustre teólogo, pedindo-lhe sua opinião. Enquanto isso, no Egito, São Cirilo (+444), Patriarca de Alexandria, versava tranquilamente em suas homilias sobre temas bíblicos. Informado da nova doutrina de Constantinopla logo interveio procurando esclarecer Nestório do crasso erro que cometia. Os dois patriarcas mantiveram um amável intercâmbio de cartas sobre as maravilhas da Santíssima Virgem. Entretanto, o afeto e a bondade em nada resultaram.

No ano seguinte (430), o Patriarca alexandrino escreve o primeiro tratado antinestoriano denunciando a heresia e por fim apelando ao Papa São Celestino. O Santo Padre convocou um Sínodo em Roma no mesmo ano, a fim de julgar as proposições de Nestório e de São Cirilo. Com o placet de São Cassiano, a tese de Nestório foi condenada pelo Papa que o convidou a uma retratação. Através de uma carta onde confirmava a doutrina de São Cirilo, concedeu o Sumo Pontífice plenos poderes ao Patriarca de Alexandria para resolver a questão.

São Cirilo exerceu suas funções de maneira enérgica e impetuosa – o que lhe valeu o louvor do Papado e da Igreja Universal. Em nome da Tradição apostólica, da Fé popular e agora da Cátedra de Pedro São Cirilo defendia a ortodoxia movido pelo amor que possuía a Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Mãe Santíssima. Dotado de uma inteligência aguda, caráter enérgico e extraordinária diligência, São Cirilo convocou imediatamente um Sínodo em Alexandria onde compôs os doze anatematismos. Todas as vezes que uma heresia ameaçou a frondosa árvore da Igreja, da mesma raiz brotava um ramo capaz de defender a verdade. São Cirilo era assim o novo paladino da verdade frente ao nestorianismo.

Nestório não aceitou as doze proposições de São Cirilo, ainda que pré-determinadas pela autoridade pontifícia, sugerindo a convocação de um Concílio. A proposta foi acatada imediatamente pelo Papa que indicara como doutrina a ser aprovada a própria carta de São Cirilo. Assim, a reunião dos bispos foi marcada por ocasião do Pentecostes de 431 na Igreja de Maria na simbólica Éfeso.

De fato, a próspera capital da Ásia menor, situada ao sudoeste da atual Turquia era um evocativo lugar. Já na época de São Paulo Apóstolo, Éfeso destacou-se entre outras cidades por uma excelente receptividade aos apóstolos e uma fervorosa adesão ao Evangelho. Naquela suntuosa cidade, São Paulo exercera o apostolado durante quase três anos com os santos Áquila e Priscila. Lá deixou primeiro São Timóteo e depois o escravo Santo Onésimo como sucessores no bispado efésio. Ali São Paulo escreveu sua primeira epístola aos Coríntios e São João escreveu seu Evangelho e sua primeira carta. Por lá Santo Inácio de Antioquia foi aclamado a caminho das feras que o levariam à glória do Martírio. Em Éfeso, São Justino lecionou a Doutrina Cristã e escreveu as glórias do Redentor em harmonia com o Antigo Testamento no Diálogo com Trifão. Fato ainda mais sublime, ainda hoje, venera-se ali a Casa de Nossa Senhora, onde viveu com São João cerca de quinze anos até sua Assunção aos Céus. Assim, a cidade escolhida não poderia ser mais esplêndida, admirável e simbólica.

A gloriosa História de Éfeso não havia terminado. Além deste passado glorioso, seu nome ainda marcaria a História da Igreja com um acontecimento pervadido de piedade, esplendor e grandeza. Lá se daria o terceiro Concílio Ecumênico: O Concílio de Éfeso. Chegada a festa de Pentecostes, os 66 bispos favoráveis a Nestório tardavam em chegar ao Concílio, talvez por pressentirem a derrota. Passados quinze dias de espera, por aclamação do povo impaciente e ainda com plenos poderes do Papa sobre a questão, São Cirilo de Alexandria, entrou em combinação com o legado Papal, o Bispo Arcádio. Assim, iniciava-se em um faustoso cerimonial com 200 bispos de todo orbe católico a primeira sessão do Terceiro Concílio Ecumênico na Igreja de Santa Maria.

Os cronistas da Época descrevem com entusiasmo o esplendoroso cortejo que emoldurou as decisões do concílio. O povo acorreu com tochas para iluminar a magnífica procissão. O discurso da primeira sessão revela a devoção entranhada e fervorosa do Santo Bispo Cirilo Àquela que os Padres da Igreja proclamaram Mãe de Deus.

Logo na primeira sessão, o concílio condenou a doutrina de Nestório, depondo-o da Sé de Constantinopla, além de excomungar e exilá-lo,  porque, infelizmente, permanecia obstinado. Proclamado o titulo de Mãe de Deus a assembléia irrompeu em um aplauso de seis horas [?]. Os Padres conciliares de Éfeso lançaram os fundamentos da Doutrina Católica definindo que a natureza humana concebida por Maria Virgem não subsistia por obra de uma pessoa humana, mas sim, por obra da segunda Pessoa da Santíssima Trindade. A união da segunda Pessoa Divina com a natureza humana se deu no seio virginal de Maria, desde o primeiro instante da encarnação do Verbo. Ora, como toda mãe é mãe de uma pessoa e a pessoa que Maria gerou é a segunda pessoa da Trindade unida à natureza humana, Maria pode e deve ser chamada Theotókos, Mãe de Deus. Não porque tenha gerado a Deus na eternidade, mas porque no tempo gerou o Homem-Deus. As naturezas divina e humana ficaram incólumes, unidas hipostaticamente em uma só pessoa divina. Jesus era inteiramente Deus e Homem.

Desta maneira, um só sujeito, a Pessoa divina do Verbo, era o agente de tudo o que Jesus fazia; Ele ressuscitava os mortos, curava os enfermos, governava a natureza mediante a sua natureza divina e sofria fome, sede, fadiga, os efeitos das intempéries, assim como a ignominiosa morte, mediante a sua natureza humana. Ao mesmo sujeito se podia e devia atribuir tudo o que de humano e divino fazia Jesus, pois a pessoa que tudo sustentava, era uma só: a do Verbo de Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Para celebrar a vitória da ortodoxia em honra da Santíssima Virgem proclamada Mãe de Deus no Concílio de Éfeso, o Papa Sisto III dedicou em 431, a Basílica Liberiana de Santa Maria Maior construída sobre o monte Esquilino pelo Papa Libério, após eminentes milagres. A Doutrina do Concílio foi ratificada pelos sucessores de Pedro e por diversos concílios ecumênicos posteriores. Em 433, João de Antioquia e os bispos da Síria assinaram uma profissão de fé onde reconheciam a maternidade divina de Maria.

Depois do Concílio de Éfeso, invocar Nossa Senhora como Mãe de Deus era mais que um louvor. Neste título da Santíssima Virgem está concernido o autêntico significado da Encarnação do Verbo. São Cirilo afirma que para confessar plenamente a Fé católica é preciso reconhecer Maria como Mãe de Deus. A pedra chamada theotokos rejeitada por Nestório tornava-se em Éfeso a pedra angular da Doutrina Católica. Rezar a Santa Maria, Mãe de Deus, implica em reconhecer em três palavras toda a Fé Cristã.

Do título de Mãe de Deus procedem todas as glórias da Santíssima Virgem; é o fundamento da Mariologia. A maternidade de Maria concedida ao discípulo amado aos pés da Cruz e vivida ocultamente [Sugiro: discretamente] na Casa Maria em Éfeso é o esteio da Doutrina Católica, a glória da Igreja e o conforto do cristão que nas agruras da vida, certo do socorro infalível clama àquela que é Mãe de Deus e Nossa. 

 

BIBLIOGRAFIA

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2008.

ARAUTOS DO EVANGELHO. A “Casa de Maria”, em Éfeso, poupada pelas chamas. maio 2009. São Paulo: Assoc. Arautos do Evangelho do Brasil, p. 45.

BETTENCOURT, Estevão. Curso de Patrologia. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2003.

DENZINGER, H. Compêndio dos Símbolos definições e declarações de Fé e Moral. São Paulo: Loyola; Paulinas, 2007.

LLORCA, Bernardino. História de la Iglesia Católica. t. 1. Madrid: BAC, 2005.

ROPS, Daniel. Igreja dos Tempos Bárbaros. São Paulo: Quadrante. 1991.

O segundo Concílio de Constantinopla

Hernán Luis Cosp Bareiro – 3º Ano Teologiapôr do sol

Há vários pressupostos que precisamos ter em vista para poder compreender bem todo o alcance que envolve o estudo deste concílio. Nele foram condenados os “três capítulos”, que mais adiante  explicaremos.  A temática do concílio girou em torno da heresia monofisita – surgida no Ooriente, mais propriamente em Alexandria – e é justamente por isto que se fazem necessárias explicações prévias, à guisa de pressupostos, posto que esta heresia teve uma duração de nada menos de dois séculos, desde o ano de 433 até 681, isto se considerarmos que o monotelismo [heresia que propunha a existência de apenas uma vontade (a divina) em Nosso Senhor Jesus Cristo] “não é outra coisa que uma nova forma de monofisismo”(LLORCA, 2001, p. 736-7)[1].

            Um destes pressupostos, talvez o principal, é a existência de duas escolas de pensamento altamente influentes na teologia do mundo Oriental, a de Alexandria e a de Antioquia. Esta influência deve-se sobretudo ao fato de que cada uma das escolas pertencia a um Patriarcado Oriental homônimo  nos quais costumava surgirem grandes Santos ou homens de cultura que,  com sua erudição, explicitavam e desenvolviam amplamente a doutrina católica,[2] – por ocasião das grandes heresias – que ainda estava um pouco insípida nas suas definições, não que ela o fosse de fato na sua substância. Foi somente com o passar do tempo que ela foi se tornando explicita. Tais eram os casos de, quanto à  escola de Alexandria, São Alexandre, Santo Atanásio, São Cirilo, Pseudo-Dionisio Areopagita, Leôncio de Bizâncio; e no tocante a  Antioqueno, São Luciano de Antioquia, Diodoro de Tarso, Teodoro de Mopsuéstia, São João Crisóstomo, Teodoreto de Ciro e Ibas de Edessa

            Estas escolas não comungavam das mesmas ideologias e formas de pensar, a respeito de questões dogmáticas e foi isto o que desencadeou a heresia monofisita. ROPS nos ilustra bem isto dizendo:

há duas maneiras de abordar este mistério da fé: ou da forma que nos sugere o célebre prólogo do quarto Evangelho, isto é, partindo do Verbo divino que reside desde toda a eternidade no seio do Pai e que se torna homem em determinado momento do tempo para salvar o mundo – e isto era o que se repetia na escola de Alexandria; ou então partindo da amável figura que vemos no Evangelho e considerando todos os traços tão comoventes que a aproximam de nós, para descobrir através do seu comportamento e sobretudo dos seus milagres a prova da sua divindade – e esse era o tema preferido pela escola de Antioquia. A verdade completa é que Cristo é ao mesmo tempo tudo isso: o Verbo e o Homem perfeito (…) Mas, se insistirmos apenas num desses dois aspectos da doutrina, deixando de lado o outro, cairemos numa ou noutra das grandes correntes heréticas que vão desenvolver-se no Oriente.

            Os demais autores não discordam desta perspectiva de rivalidade existentes entre as duas escolas e a este respeito LLORCA também tem um comentário:

tendo presente o antagonismo das duas rivais, Antioquia e Alexandria, nas questões cristológicas, necessariamente tinha que produzir-se uma reação a favor do monofisismo, como réplica ao nestorianismo patrocinado em Antioquia (2001, p. 535)[3].

            Nosso intuito não é fazer deste trabalho um tratado a respeito das heresias cristológicas.Por isso omitimos aqui toda a temática do nestorianismo, salvo alguns dados importantes que precisamos guardar, e que serão expostos ao seu devido tempo, a fim de entender certos aspectos do segundo Concílio de Constantinopla tal como a questão dos “tres capítulos”. Aliás, não podemos deixar de lembrar estes pontos, posto que as heresias do oriente formam todas elas “um conjunto (…) de ações e reações” no dizer de ROPS (1991, p. 152) e, portanto, necessariamente há ligações entre uma e outra.

            A heresia monofisita consistia na negação da existência da natureza humana de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta heresia tinha surgido em Alexandria e seus principais adeptos eram Eutiques (criador da heresia) e o Patriarca que sucedeu a São Cirilo na sede de Alexandria, Dióscoro (o porta-voz dela). Estes afirmavam terem-se inspirado na doutrina que São Cirilo de Alexandria tinha desenvolvido – sobretudo na sua obra dos doze anatematismos –, para sustentar as teses monofisitas. De fato “algumas expressões empregadas por ele (São Cirilo) dão margem a esta interpretação errônea (monofisita), e, de fato, os monofisitas (…) o apresentaram sempre (a São Cirilo) como partidário seu”[4](LLORCA, 2001, p. 532). Mas estes ignoravam, ou pelo menos dissimulavam fazê-lo, que São Cirilo tinha feito um edito de união em 433 com João (Patriarca de Antioquia, receoso de suas doutrinas) no qual ele renunciava a todas as expressões contidas nas suas obras que poderiam dar margem a que ele cresse de que a união pessoal de Nosso Senhor Jesus Cristo convertia as duas naturezas numa só.

            Como era costume acontecer, a heresia logo que começou foi ganhando força e autoridade e os monofisitas conseguiram colocar nas principais sedes episcopais adeptos da heresia, conseguindo inclusive ganhar as boas graças do Imperador bizantino. Resumindo , o Papa São Leão Magno foi um dos homens providências que intervieram energicamente a favor da ortodoxia na questão monofisita. Vale a pena ressaltar aqui que um homem ocupando a sede de São Pedro, intransigente e radical como ele, foi o que faltou posteriormente na Celebração do segundo Concílio de Constantinopla. São Leão aprovou a sugestão do Imperador Marciano – que tinha subido ao trono recentemente e era a favor da ortodoxia – de convocar um concílio para sepultar de uma vez a heresia. O mesmo foi prontamente celebrado na cidade de Calcedônia, tornando-se assim, após a aprovação do Papa, o quarto concílio ecumênico.

            Como último pressuposto – somos da tese que as grandes introduções preparam as rápidas e fáceis conclusões – temos de falar a respeito de outras duas pessoas, que embora tinham sido providenciais com os seus escritos a favor da sã doutrina, são figuras controvertidas e polêmicas, pois, no tempo da heresia nestoriana jogaram um papel, de alguma forma, oposto ao da ortodoxia pois, como dissemos mais acima, pertenciam à escola antioquena… Contudo, após o Concílio de Éfeso eles tinham-se apartado da doutrina e dos partidários de Nestório, mas mantiveram-se igualmente afastados de São Cirilo pelo receio de cair no extremo oposto, ou seja o monofisismo. Estas duas figuras são Teodoreto de Ciro e Ibas de Edessa, sendo que este último, junto com outros poucos, “mais bem tendiam ao extremo oposto, ou não manifestavam tão firme consistência em suas convicções”(LLORCA, 2001, p. 537) no que diz respeito à heresia monofisita. Mas o que importa ressaltar a respeito deles dois é que prestaram – um mais, outro menos – uma ajuda inegável à Igreja no Concílio de Calcedônia ajudando a condenar o monofisismo. Prova disto é que chegou-se ao ponto de celebrar uma sessão especialmente para resolver os problemas doutrinários que envolviam os dois autores mencionados e na qual eles foram declarados inteiramente inocentes, após teremse retratados dos seus escritos de cunho nestoriano.

            Com a condenação expressa do monofisismo e o desterro de seus principais adversários,Eutiques e Dióscoro, parecia tudo acabado, mas… o mal sempre aprende de suas derrotas passadas sabendo tirar proveito delas para fazer novas investidas contra o bem. “Com as decisões do concílio de Calcedônia e as medidas rigorosas tomadas pelos imperadores não ficou tudo terminado. Ao contrário, as contendas que surgiram depois adquiriram grande extensão e intensidade, dando origem a novas complicações” (LLORCA, 2001, p. 546)[5]. E com isto chegamos ao ponto central deste capítulo, ou seja, o segundo Concílio de Constantinopla, o quinto ecumênico.

            A nosso ver, se bem que não achemos citações para apoiar este ponto de vista, o principal erro para que a heresia cobrasse novo vigor foi o fato de que no Concílio de Calcedônia os partidários do monofisismo, com exceção de Eutiques e Dióscoro, foram tratados com benevolência pelos Padres conciliares, “quase todos foram acolhidos de novo no seio da Igreja católica, sempre previa aceptação da Epístola dogmática (do Papa São Leão) e a condenação de Eutiques”(LLORCA, 2001, p. 545)[6].

            Os monofisitas conseguiram instalar-se em três sedes orientais: Jerusalém, Alexandria e Antioquia. Vale a pena ressaltar que a de Jerusalém e a de Antioquia foram tomadas mediante  verdadeiras batalhas campais entre monges monofisitas e tropas imperiais. Outro fator que contribuiu para a expansão e duração da heresia foi que os imperadores sucessores de Marciano foram todos eles partidários da heresia monofisita. Com a subida de Justiniano I ao trono, o panorama mudou, pois ele quis “apoiar com todo o seu poder a religião católica e a sua legítima hierarquia” (LLORCA, 2001, p. 552). Ademais “não desaprovou nunca a superioridade da autoridade pontifícia” (Idem). Preocupado pela divisão que esta heresia estava causando no seu Império, quis ele colocar um fim em tudo, mediante a promoção de uma união religiosa.

            Como costuma acontecer entre os imperadores bizantinos, Justiniano deixou-se levar pelas manhas e persuasões do Bispo monofisita de Cesaréia, Teodoro Askidas. Este disse-lhe que a fórmula de união consistia  em condenar os “cabeças” da escola antioquena que, como vimos, eram especialmente odiados pelos monofisitas:

ora, os cabecilhas (…) eram três: Teodoro de Mopsuéstia, com todos seus escritos, verdadeiro fundamento do nestorianismo; Teodoreto de Ciro, por seus escritos contra São Cirilo de Alexandria; Ibas de Edessa, por uma carta dirigida a Maris de Selêucia em defesa de Teodoro de Mopsuéstia e contra os anatematismos de São Cirilo (ibidem, p. 558)[7].

            O problema é que, na realidade, estes escritos não precisavam de serem condenados, pois todos já o tinham sido a seu devido tempo, e o levantamento de uma questão como esta só iria produzir consequências desastrosas – como de fato as houve –; mas os monofisitas, e em especial Teodoro Askidas,  viram nisso uma oportunidade única para ficar subentendida, aos olhos de todos, a condescendência do imperador com relação à heresia e assim ganhar a aprovação da mesma. Justiniano, não percebendo o que havia por detrás deste jogo, finalmente fez um edito condenando os três capítulos. No oriente a reação foi boa por estar majoritariamente dominado por heresiarcas, mas no ocidente foi como um balde de água fria e a indignação foi geral. Eles bem entenderam que com este edito os heresiarcas estavam atacando diretamente ao Concílio de Calcedônia, pois durante este  Teodoreto de Ciro e Ibas de Edessa tinham-se manifestado como excelentes defensores da ortodoxia.

            Justiniano não ficou só na elaboração do edito; ele foi mais longe, querendo impor a todos os principais cabeças da hierarquia eclesiástica a suscrição do documento, inclusive ao próprio Papa e aos ocidentais, onde encontrava mais resistência.

            O Papa da época, Vigílio, foi convidado, mais bem obrigado, pelo imperador a comparecer a Constantinopla. Bem a contra gosto seu, o Papa dirigiu-se para lá, e uma vez ali, importunado e assediado, tanto pelo imperador como pelo Patriarca da Cidade, Mennas, publicou um manifesto chamado Iudicatum, no qual ele condenava os três capítulos fazendo a devida resalva de que o Concílio de Calcedônia ficava, mesmo assim, resguardado. De nenhuma maneira pode-se afirmar que esta atitude tomada pelo Papa tenha sido doutrinariamente incorreta; fazê-lo implicaria na negação de um dogma de fé: a infalibilidade Pontifícia. Mas podemos dizer, sim, com base em alguns autores[8], que foi uma atitude débil e muito transigente para com o imperador,  comparando-se  com a atitude  tomada por outros que o precederam no trono, como São Leão Magno, cujo exemplo mencionamos mais acima, que em nenhum momento deixou-se levar ou iludir nem pelo imperador, nem por nenhuma outra hierarquia eclesiástica, por mais influente que esta fosse.

            A consequência que, no Ocidente trouxe este manifesto, foi o de abrir ainda mais a ferida feita pelo edito do imperador. Todos os ocidentais viram na atitude do Papa um triunfo do monofisismo; as coisas chegaram a tal ponto que alguns acusaram o Papa de hereje, e um Sinodo em Cartago excomungou-o. À raiz destes e outros acontecimentos o Papa suspendeu seu Iudicatum.

            Pouco tempo depois o imperador voltou novamente à carga, instigado pelos monofisitas, publicando um novo documento intitulado confissão da fé, o qual consistia numa renovação da condenação dos três capítulos. O Papa, que ainda achava-se em Constantinopla, indignou-se com esta atitude e deu  várias manifestações públicas de seu desgosto, o que levou Justiniano a tentar aprisioná-lo. Tendo achado refúgio numa cidade perto de Calcedônia, o Papa lançou uma excomunhão contra Askidas e Mennas bem como a todos os seus partidários. Vendo Justiniano que sua intransigência tinha-o levado muito longe retratou-se e com isso deu liberdade ao Papa para que voltasse ao seu trono pontifício em Roma.

            É impossível não ver em tudo isto um “cesaropapismo bizantino”(ROPS, 1991, p. 187) o mais soberbo e exacerbado da parte de Justiniano. Embora este tenha se destacado muito pela sua política de governo e expansão do império, muito deixou a desejar pela sua política religiosa. Foi este mesmo o motivo que o levou a, mais uma vez, tentar fazer uma derradeira união entre católicos ortodoxos e monofisitas herejes e, como era de se esperar, favorecendo estes últimos.

            Justiniano reuniu um Sínodo em Constantinopla, ao qual compareceram 151 bispos, sendo que somente 6 deles eram ocidentais, procedentes da África. Com a devida “proteção” (no dizer de Rops[9]) das tropas imperiais tudo correu da melhor forma possível, sem percalços . Evidentemente  foram condenados os três capítulos. Mas tudo esteve a ponto de ruir quando o Papa interveio, para a surpresa e consternação geral de todos – especialmente do imperador –, publicando um Constitutum. Nele o Papa optava por um “meio termo: condenava 60 proposições de Teodoro de Mopsuéstia, mas proibia a condenação de Teodoreto e de Ibas”(LLORCA, 2001, p. 562).

            Obviamente esta decisão do Papa não agradou nada ao imperador, quem desencadeou uma nova perseguição contra o Papa, desterrando-o. A propósito desta nova atitude violenta de Justiniano, ROPS nos conta algo que, a não ser pelas testemunhas oculares, simplesmente não seria passível de crédito:

(Justiniano) preparava-se para homologar as doutrinas imperiais, ainda com a esperança – ilusória – de reconduzir os monofisitas à unidade, quando Vigílio, mais uma vez,  atravessou o caminho. Assistiu-se então ao espetáculo de um Papa arrancado pelos soldados da igreja onde buscara refúgio, puxado pelos pés, pelos cabelos e pela barba – tão violentamente que o altar a que se abraçara desmoronou!–, obrigado a fugir e a refugiar-se em Calcedônia, torturado pelos emissários do Imperador, que pretendia obter a sua submissão.

            Depois disto evidentemente o Papa voltou atrás como o fez com seu Iudicatum e escreveu um segundo Constitutum, no qual ele aceitou sem limitações as decisões do Sínodo, tornando-o assim o Segundo Concílio de Constantinopla, e o quinto ecumênico. Foi difícil para o Ocidente aceitar o concílio, mas com o esforço do sucessor do Papa Vigílio, Pelágio I – quem demonstrou  a todos a importância da condenação dos três capítulos – conseguiu-se induzir aos participantes  que  fizessem o mesmo.

            Com isto terminamos de relatar a história do Segundo Concílio de Constantinopla, que foi verdadeiramente emaranhado nas suas “idas e voltas”, mas que não deixa de ser importante para o estudo da “venerável” [por que aspas?] história da Santa Igreja, pois, nela aprendemos varias lições importantes para guardar, como  a forma de agir do mal e como, quando não destruído até as raízes, ele volta a surgir com um requinte de maldade inimaginável.

BIBLIOGRAFIA

Diccionario de las herejías, errores y cismas. Sociedad de literatos. Madrid: Imprenta de D. José Felix Palacios, 1850.

LLORCA, Bernardino, S.I, Pe. Historia de la Iglesia Católica: edad antigua. Tomo I. Madrid: BAC, 2001.

ORLANDIS, José. El pontificado romano en la historia. Madrid: Palabra, 1996.

ROPS, Daniel. A Igreja dos tempos bárbaros. Tomo II. São Paulo: Quadrante, 1991.

WOHL, Louis de. Fundada sobre rocha: história breve da Igreja. Lisboa: Rei dos livros, 1993.


[1] Tradução nossa .

[2] Cf. LLORCA, 2001 pp.350-353, 580-1, 583.

[3]Tradução nossa .

[4]Textos entre parênteses meus.

[5] Tradução nossa .

[6] Tradução nossa  e texto entre parênteses meu texto em itálico do original

[7] Tradução nossa .

[8]Cf. Llorca, 2001, p. 560 e também Rops, 1991, p. 186.

[9]Op. cit. p. 187.

São Paulo e a luta pelo Deus que realmente era desconhecido

Lucas Alves Gramiscelli – 2º ano de TeologiaSão Paulo

São Paulo foi o eco fiel d’Aquela voz, que com uma só palavra era suficiente para fazer o Universo inteiro estremecer. Em Atenas, cidade-estado localizada no sudeste da Grécia, esse eco se fez ouvir. O objeto de sua pregação nesse lugar? O de sempre, “Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (1 Cor 1, 23), mas, desta vez sob o pretexto do Deus desconhecido.

O ressoar, ou melhor, o ribombar das palavras do Apóstolo vibram ainda hoje, quando nos deparamos com as entusiasmantes linhas do livro dos Atos dos Apóstolos.  Nesse livro, vemos que o portador da Verdade de Cristo, veio pregar em Atenas a doutrina ortodoxa que respondia inúmeras dúvidas, e batia de frente contra incontáveis pensamentos filosóficos carregados pelos gregos desde o surgimento da filosofia. De certa maneira ele foi o primeiro a dar início ao “batismo” da filosofia pagã.

O que se passou ali? Ao ver a cidade de Atenas entregue à idolatria, o seu coração encheu-se de amargura, e enquanto esperava Silas e Timóteo, aproveitou para disputar nas sinagogas contra os judeus e prosélitos, e nas praças contra todos os que ali se encontravam.  (cf. At. 17,16-17). Até que alguns filósofos epicuristas e estóicos, “tomaram-no consigo e levaram-no ao Areópago[1], e lhe perguntaram: Podemos saber que nova doutrina é essa que pregas? Pois o que nos trazes aos ouvidos nos parece muito estranho.” (At 17, 19-20).

Quem eram esses epicuristas e estóicos? A escola de Epicuro foi a primeira das grandes escolas helenísticas.[2] Assim como os epicúrios, os estóicos nasceram em Atenas no fim do séc. IV a.C. A escola de Estoá (palavra que significa pórtico, que acabou dando o nome à escola), tornou-se posteriormente a mais famosa da época helenística. Seu fundador foi um jovem de raça semítica, Zenão, nascido em Cício, na ilha de Chipre, por volta de 333/332 a.C.[3] Eram duas escolas filosóficas rivais, até então muito em voga, os estóicos, que professavam um panteísmo materialista, penetrados de una elevada idéia do dever e aspirando a viver de acordo com a razão, indiferentes ante a dor, e os epicúrios, também materialistas, entretanto menos especulativos, que colocavam o fim da vida na busca do prazer.[4]

Ao tomarmos nota da pregação de São Paulo no Areópago, ficamos com a impressão de que ele – seja por ação do Espírito Santo ou não – já conhecia quais eram as teorias de ambas as escolas, pois ele argumentou contra as principais idéias e “preencheu” diversos “vãos” – que, aliás, se encontra em todas as filosofias heterodoxas – quase impreenchíveis apenas com a luz da razão, dos filósofos seguidores de Epicuro e Zenão.

Assim começou sua pregação: “Homens de Atenas, em tudo vos vejo muitíssimo religiosos. Percorrendo a cidade e considerando os monumentos do vosso culto, encontrei também um altar com esta inscrição: A um Deus desconhecido. O que adorais sem o conhecer, eu vo-lo anuncio!” (At 17, 22-23). E continua: “o Deus, que fez o mundo e tudo o que nele há, é o Senhor do céu e da terra, e não habita em templos feitos por mãos humanas” (At 17, 24). Ao anunciar isso, ele evidencia a existência de um só Deus Verdadeiro, Criador e Princípio de todas as coisas. Já quando declara que Ele não habita em templos feitos por homens, de forma tácita indica: esse mesmo Deus é Puríssimo Espírito. Assim fica lançada por terra o materialismo dos epicuristas e estóicos, pois segundo Epicuro: “além dos corpos e do vazio tertium non datur, porque não seria pensável nada que exista por si mesmo e não seja afecção dos corpos”.[5] Já para os Estóicos, o ser “é só aquilo que tem capacidade de agir e sofrer” [6], isto é, apenas o corpo. No que diz respeito ao princípio de todas as coisas, essa última escola garantia: “o fogo é o princípio que tudo transforma e tudo penetra; o calor é o princípio sine qua non (imprescindível) de todo nascimento, crescimento e, em geral, de toda forma de vida.” [7] E por fim, para pôr os “pontos finais” nessa questão, São Paulo pronuncia: “é ele quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas.” (At 17, 25).

Epicuro afirmava que os deuses não se ocupam com os homens, apesar de dizer que o nosso conhecimento vem por “simulacros” ou “eflúvios”[8] provenientes deles.[9] Qual a resposta do Apóstolo a esse pensamento? “Procurem a Deus e se esforcem por encontrá-lo como que às apalpadelas, pois na verdade ele não está longe de cada um de nós. […] Nós somos também de sua raça…” (At 17, 27-28).

Seu timbre eloquente prossegue: “Porquanto fixou o dia em que há de julgar o mundo com justiça, pelo ministério de um homem que para isso destinou.” Como Deus estabeleceu o dia em que vai julgar o mundo se ele é, de certa maneira, eterno?  Provavelmente essa era a pergunta estava na mente de alguns estóicos. Esses sustentavam a teoria da “apocatástase”, ou seja, diziam que “no dia fatídico final dos tempos haverá a ‘conflagração universal’, uma combustão geral do cosmo”,[10] mas, à destruição do mundo se seguirá que tudo nascerá novamente exatamente como antes.

Depois de admoestá-los a respeito do juízo, se refere à ressurreição. Mas, quando o ouviram falar sobre isso, alguns começaram a zombar… Para os discípulos de Epicuro, que considerava a morte apenas como a dissolução da alma e do corpo,[11] falar sobre uma ressurreição dos corpos seria absurdo. E disseram: “A respeito disso te ouviremos outra vez” (At 17, 32). Assim saiu Paulo do meio deles (At 17, 33).

Ele teve que se retirar, no entanto, saiu vitorioso, pois: “todavia, alguns homens aderiram a ele e creram: entre eles, Dionísio, o areopagita, e uma mulher chamada Dâmaris; e com eles ainda outros” (At 17, 34). O Apóstolo dos gentios colocou, assim, em prática a seguinte máxima de Epicuro: “É vão o discurso do filósofo que não cure algum mal do espírito humano”.[12]


[1] Areópago: lugar onde, segundo a lenda, haviam-se reunido os deuses para julgar a Marte, e onde, em tempos antigos, eram realizadas as sessões do tribunal supremo de Atenas. Cf. TURRADO, Lorenzo. Biblia Comentada: Hechos de los Apóstoles y epístola a los Romanos. 2 ed. BAC: Madrid. 1975. p. 179.

[2] Cf. REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Filosofia pagã antiga. Tradução: STORNIOLO, Ivo. 3 ed. São Paulo: Paulus. 2007. p. 259.

[3] No entanto, essa escola formou-se também pela ação ulterior de dois outros filósofos além de Zenão, são eles: Cleanto de Assos e Crisipo de Sôli, ao qual devemos a sistematização da doutrina.  Cf. REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. Opus. Cit. p. 279.

[4] Cf. TURRADO, Lorenzo. Opus cit. p. 178.

[5] REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. Opus cit. p. 264.

[6] Idem. p. 284.

[7] Idem. p. 285.

[8] Simulacros e eflúvios são palavras usadas por Epicuro para tentar designar, em sua teoria do conhecimento, os objetos que causam impacto de fluxos de átomos em nossos sentidos, causando assim a sensação.

[9] Ibidem. p. 266.

[10] Ibidem. p. 287.

[11] Ibidem. p. 270.

[12] Idem. p. 247.

SANTO IRENEU, o Leão de Lyon

Lucas Antonio Pinatti – 2º Ano de Teologia

IrineuA Santa Igreja, já no seu nascedouro, passou por numerosas provações. Dentre elas podemos enumerar as perseguições do Império Romano, que derramou uma quantidade enorme de sangue inocente, fazendo com que numerosos cristãos pagassem com a própria vida o fato de abraçarem a Fé Católica. Mas havia um outro inimigo muito mais sutil e ladino que já não visava tirar a vida do corpo, como o fizeram os ímpios imperadores romanos, mas sim arrancar e destruir nas almas a Fé. A este propósito bem afirmou o Divino Salvador: Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena (Mt 10, 18).

 Este pérfido inimigo chama-se heresia, e se vestiu de diversas roupagens ao longo dos séculos, ora negando diretamente as verdades da Fé, outras vezes procurando reinterpretá-la de acordo com falsos critérios.

            Mas apesar disso, podemos afirmar com São Paulo: É necessário que entre vós haja partidos para que possam manifestar-se os que são realmente virtuosos (ICor, 11,19); pois assim como um músculo que passa muito tempo na ociosidade corre o risco de atrofiar-se, algo análogo se passaria caso a Santa Igreja não tivesse heresias e inimigos  a combater. As heresias contribuem em larga medida para o desenvolvimento da Doutrina Católica, pois uma vez sendo necessário refutar aos falsos ensinamentos, acaba Ela desenvolvendo a doutrina e fortalecendo suas sagradas “muralhas” contra os ataques de seus adversários internos e externos.

            Um dos grandes baluartes dessa “muralha” foi, e continua sendo, Santo Ireneu de Lião. Este trabalho visa dar um breve apanhado de sua vida, e de sua obra mestra o Adversus Haereses .

 

1.      Vida de Santo Ireneu 

Do período subapostólico, (do final do primeiro século à metade do segundo), até o século sexto, a Santa Igreja teve a seu serviço uma plêiade de homens insignes em santidade, sabedoria e ardor apostólico; entre eles está Ireneu.

Paira um mistério sobre sua vida; o pouco que se sabe a seu respeito é que nasceu por volta do ano de 150, que sua cidade natal é provavelmente Esmirna, situada na Ásia menor. Tudo indica que sua família era cristã, pois como ele mesmo descreve em uma de suas cartas, ainda quando criança frequentou as pregações do bispo São Policarpo de Esmirna, que por sua vez fora discípulo do apóstolo São João Evangelista, por isso foi-lhe conferido o título de vir apostólicus. Eis o trecho da carta que Santo Ireneu (1995, p.15) escreveu a Florino, ex condiscípulo de São Policarpo, que apostatara e tornara-se valentiniano, lembrando a ocasião em que ambos se encontraram na casa deste santo:

com efeito, te conheci (a Florino), sendo eu criança ainda, na Ásia menor, na casa de Policarpo. Tu eras então personagem de categoria na corte imperial, e procuravas estar em boas relações com ele. Dos acontecimentos daqueles dias me recordo com maior clareza que os recentes, porque o que aprendemos em crianças cresce com a alma e se faz uma mesma coisa com ela, de maneira que até posso dizer o lugar onde o bem aventurado Policarpo costumava sentar-se, como entrava e como saia, o caráter de sua vida, o aspecto do seu corpo, os discursos que fazia ao povo, como contava suas relações com João e com os outros que haviam visto ao Senhor…

            Os historiadores, com base neste texto, afirmam que Santo Ireneu foi um dos últimos homens apostólicos de sua era.  Ele próprio ao comentar os padres apostólicos dizia que eles ainda tinham a voz dos Apóstolos nos ouvidos e os seus exemplos diante dos olhos (apud GLAVAM, 2002).

            Por razões desconhecidas, deixou a Ásia menor e se dirigiu à Galia, por volta do ano de 177. Estabeleceu-se na cidade de Lyon, onde foi ordenado presbítero.

 A cristandade enfrentava nesse período um grande inimigo: a heresia do montanismo. A cidade de Lion, situada na antiga Gália,  atual França, passava por numerosas dificuldades e perseguições por parte desses herejes. Santo Ireneu foi enviado a Roma para encontrar-se com o Papa Santo Eleutério, com o fito de servir de mediador na questão da heresia e para pedir ao Santo Padre uma condenação categórica do montanismo. A carta, que nessa ocasião entregou ao Papa, trazia muitos elogios à sua pessoa e dava dele uma excelente recomendação. Eusébio de Cesaréia (apud QUASTEN, 2008) cita este trecho em sua história eclesiástica: “esperamos que pedindo a nosso irmão e companheiro que te leve esta carta, tenhas para com ele o apreço devido a seu zelo pelo testamento de Cristo”.

            Regressando de Roma, foi eleito, por aclamação popular, bispo de Lyon, sucedendo na cátedra episcopal a São Potino, que morreu devido aos maus tratos recebidos na prisão por parte dos montanistas, com noventa anos de idade.

 

1.1.   Querela da Páscoa

            Com base nos poucos traços biográficos relegados à posteridade e fundamentados em suas obras percebemos o caráter combativo de Santo Ireneu e o seu gosto pela polêmica. Um exemplo palpável foi a controvérsia com relação à data da Páscoa, na qual o santo entrou e acabou apaziguando a questão. Helcion Ribeiro (1995, p.15) na introdução de uma das obras de Santo Ireneu transmite os dados históricos dessa celeuma:

diziam os bispos da Ásia – sob a liderança de Policrates de Éfeso – conservar a data hebraica da festa da Páscoa, adotada por João; para as Igrejas ocidentais e algumas do Oriente era outra a data celebrada. Em determinado momento o Papa avocou a si a decisão, ameaçando com a excomunhão os que não o seguissem: prenunciava-se assim calorosa cisão na Igreja. […] Ireneu convidava-o a não romper a unidade cristã por esta questão disciplinar e secundária, afinal eram ambas tradições vindas dos apóstolos em contextos diversos.

            Pacificados os ânimos, Santo Ireneu − segundo o dizer de Eusébio de Cesaréia – fez jus ao significado etimológico de seu nome, cujo radical Irene significa paz.

 

1.2.   Sabedoria e ciência unidas à santidade

Constitui um fato inegável, a erudição de Santo Ireneu. Ao longo de suas obras denota um profundo conhecimento bíblico; nelas encontramos a citação de quase todos os livros bíblicos. Além disso, nutriu contatos com grandes sábios e santos de sua época, como São Clemente Romano, Teófilo de Antioquia, Clemente de Alexandria e o já acima citado, São Policarpo de Esmirna. O conhecimento que possuía dos autores clássicos demonstra rica cultura e uma arte de “filtrar” os dados necessários para o enriquecimento literário de seus escritos. Neles encontramos citações de Homero, Hesíodo, as doutrinas de Platão e Aristóteles, entre outros.

            Um dos traços preponderantes de sua vida, foi o fato dele ter unido essa erudição e sabedoria a um profundo amor a Deus, pois suas obras, além de terem como base um profundo alicerce cultural e filosófico, exalam o suave perfume da santidade e levam aqueles que as lêem a crescer no amor a Deus.

            Muito pouco se sabe a respeito de sua morte. Uma tradição antiga, que remonta a São Jerônimo a ao Pseudo-Justino, afirma que foi martirizado por heréticos, por volta do ano de 202, juntamente com outros cristãos, em um massacre que houve na cidade de Lião, sob o reinado do imperador Sétimo Severo.(IRENEU DE LIÃO, 1995). A Santa Igreja o venera como mártir, celebrando-o a 28 de junho.

            Apenas pelos dados acima enunciados chegaríamos à conclusão de que toda a obra empreendida por Santo Ireneu foi magnífica, entretanto, seu maior mérito foi o de ter identificado, reconhecido e refutado radicalmente o gnosticismo. De seu trabalho estabeleceram-se bases e princípios gerais para combater todas as heresias que ameaçavam a Esposa Mística de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Paganismo e Cristianismo: Duas mentalidades opostas

Anderson Fernandes Pereira – 2º Ano de Teologia

Domitila            A Roma Imperial, com os seus 800 anos de existência, vinha se arrastando em meio a práticas supersticiosas, imorais e sanguinolentas. O Império Romano se encontrava como a um doente agonizante a quem não se pode dizer que seus dias estão contados. Daí , então, festejarem com “pão e circo”, sem querer verem de frente a realidade que tinham diante de si: a podridão de todo o império. Num mundo cruel e violento, cheio de egoísmo, eram inacreditáveis as práticas adotadas pela nova Religião que surgia. O querer bem ao próximo, a honestidade em seus trabalhos, a pureza de seus costumes, faziam dos cristãos um alvo da curiosidade de todos quantos os cercavam. Entretanto, “o último requinte das sociedades pervertidas é não ter forças para o remorso; por isso não toleram no próximo atos que a condenem.” [1] Assim, em pouco tempo de existência, a Igreja tornou-se  alvo da maior perseguição jamais vista por toda a história, desencadeada primeiramente por Nero, mas que ainda haveria de durar quase três séculos.

Vejamos um pouco um dos principais motivos desta perseguição, que consistia na profunda diferença de mentalidades entre o paganismo, com seus costumes depravados, e o cristianismo que nascia cheio da seiva brotada pelo lado transpassado de Cristo.

PAGANISMO

Não são poucos os livros de história que elogiam certas qualidades dos povos da antiguidade, e que de fato as possuíam. Assim, temos os egípcios que figuram como uma das mais gloriosas nações da antiguidade, de onde os gregos tiraram boa parte de sua cultura e os romanos por sua vez buscaram na Grécia muito de sua civilização.[2] Entretanto, ao observarmos a história, vemos páginas negras de barbarismos praticados pelos povos da Antiguidade, inclusive o povo romano. O célebre dito de Lucano – “homo homini lúpus” – reflete bem a terrível realidade das leis e costumes vigentes na Antiguidade pagã, antes de a Igreja Católica difundir por toda parte o mandamento de seu Divino Fundador: Amai-vos uns aos outros como Eu vos tenho amado.

BABILÔNICOS, ASSÍRIOS E PERSAS

            Tanto o povo babilônico quanto o assírio, tiveram dias de grande glória, entretanto, a história nos conta que após terminarem suas guerras, eles realizavam aparatosos desfiles, em que os reis e generais carregavam com grande ostentação os objetos saqueados aos inimigos. Não contentando-se com uma simples vitória, furavam os olhos dos prisioneiros, cortavam-lhes as orelhas, arrancavam o nariz, e os faziam entrar na cidade acorrentados, como se fossem animais, sob as imprecações e a zombaria do povo vencedor. Os próprios Persas, povo que ficou conhecido por sua grande benignidade, cometeram graves erros, por exemplo, quando o Imperador Persa de nome Cambises, mandou matar duas mil pessoas no Egito, em vingança a um desacato sofrido por parte de um egípcio.[3]

 SOCIEDADE GRECO-ROMANA

O Direito Romano compendia leis baseadas no direito natural, tão bem redigidas que foi herdado em boa medida pelos códigos civis modernos. Contudo, mesmo esse direito, antes de ser suavizado pelo cristianismo, continha determinações desumanas. Basta lembrar que dava ao pai direito de vida e morte sobre o filho. Figuravam como uma das principais atrações do império os gladiadores que com uma vil despedida, se entregavam à morte com o orgulho de estarem servindo à divindade do Imperador: “Ave, Cesar, morituri te salutant!”.

Se tal era a situação dos gladiadores, pior era a dos escravos. Em geral, estes eram prisioneiros de guerra, ou descendiam de prisioneiros de guerra. Para eles não havia direitos. O escravo era considerado como um objeto de propriedade do seu senhor, que este podia destruir a qualquer momento, por um simples ato de vontade. Houve época em Roma que eram tão numerosos os escravos que estes custavam menos que um rouxinol.[4]

     Como acontece naturalmente hoje em dia, procura-se ocultar o pior dessas coisas, para apresentar o mundo antigo quase exclusivamente por seu aspecto favorável, contudo, por mais que se escrevesse, poucas seriam as palavras para relatar os terríveis costumes pagãos antes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

O CRISTIANISMO EM CONFRONTO COM O PAGANISMO

            Analisando a história de cada povo que precedeu a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo à Terra, vemos com clareza um ponto em comum a todos eles: o egoísmo. E é em uma sociedade penetrada de alto a baixo por este vício, que aparece uma nova Religião que tem como uma de suas principais bases o amor ao próximo; e de tal maneira isto era diferente de tudo quanto se conhecia até então,  que passou para história a exclamação dos gentios diante dos cristãos  relatada por São Lucas: “Vede como eles se amam!”

            Não houve na história tamanho contraste de mentalidades como o que ocorreu entre o paganismo e o cristianismo. O paganismo com sua desenfreada busca de prazeres, a corrupção dos costumes, a vingança e a ambição da glória, era impugnado pela moral dos cristãos que proibia até um olhar desonesto e que possuía por norma o amor aos próprios inimigos. Enquanto ali se entregavam a festas cheias de pompa, aqui se tinha por supremo bem, uma consciência pura e o desprezo do mundo. Eis, em poucas linhas, o paralelo estabelecido entre o mundo antigo e a doutrina da Igreja:

O mundo antigo parecia vacilar entre excessos igualmente reprováveis. De um lado, o despotismo excessivo, de outro a anarquia demolidora. De um lado, a exagerada concentração de riquezas, e de outro a sua consequência indireta, uma plebe paupérrima e revoltada. Finalmente, de um lado, impérios poderosíssimos que viviam na opulência a mais completa, e de outro lado povos que gemiam na miséria, sob o jugo de sua opressão. A todos estes excessos, a pregação da Igreja Católica veio trazer uma solução que representou o equilíbrio. No terreno político, o Cristianismo afirmou a autoridade, mas condenou o despotismo. No terreno econômico, afirmou a propriedade, mas condenou a excessiva concentração de haveres nas mãos de poucos proprietários. No terreno familiar, afirmou a monogamia contra a poligamia e, sujeitando embora a mulher e os filhos ao marido, proclamou a sua dignidade eminente, proibindo o chefe da família que os tratasse como escravos ou criados.[5]

            A boca fala aquilo de que o coração está cheio, e por isso, cada cristão se transformava rapidamente em zeloso missionário. O espírito de caridade  impelia-os a comunicar aos outros a verdade, que reconheciam ser o bem supremo e por isso exclama São João Crisóstomo: “A maior prova do poder de Jesus se mostra em que sua doutrina, em 20 ou 30 anos, penetrou todo o mundo.” [6]

            Vendo assim a rápida expansão do cristianismo, não faltaram aqueles que quisessem destruir aquela religião que tanto contrastava com a vida laxa que levavam, e para fazer desaparecer aqueles que lhes causavam peso na consciência, não tiveram escrúpulos em acusar os cristãos dos piores horrores.

 “Homens que praticavam a virtude em grau além do humano eram acusados de vícios que horrorizam a natureza. Eram acusados de incesto, aqueles que encontravam suas delícias na castidade. Eram acusados de devorar seus próprios filhos, os benfeitores de seus perseguidores.” [7]

            Não tendo outro meio, senão a mentira e a calúnia, homens, mulheres e crianças são entregues à morte por cometerem o único “crime” de serem cristãos.

CONCLUSÃO

            É por algumas simples calúnias infundadas, que começava na história da humanidade, a maior e mais cruel perseguição de todos os tempos, que haveria de perdurar durante 300 anos. Qual o motivo legal desta perseguição? Um motivo religioso? Um motivo político? Não poderia ser nenhum dos dois, pois no campo religioso, o império Romano com sua superstição por vezes infantil, aceitava e dava liberdade completa a todas as formas de crenças. No campo político, nunca se encontrou um só cristão em algum levante contra o imperador. A verdade é que o cristianismo já nasceu odiado e assim o será até o fim do mundo. Essa perseguição e esta luta cessarão somente no momento em que o mundo assistir o glorioso cortejo dos anjos e dos santos precedendo a triunfal vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo que julgará a todos os viventes e dará a cada um a definitiva sentença que fixará os justos na glória do Reino dos céus e os réprobos na sua justa e eterna condenação.


[1] Martins, Oliveira. Dom Nuno Álvares Pereira.

[2] Revista Dr. Plinio nº 38 p. 15 a 19.

[3] Idem.

[4] Apostila do aspirantado.  p. 326

[5] Revista Dr. Plinio. Nº 41, p.17.

[6] Apud WEISS, J.B. História Universal.  p. 781.

[7]  OLIVEIRA, Plinio Corrêa de.  Apostila de Teologia da História. Iª série, aula 6.

Revelando a História

Enquanto as pinturas realçam o que a realidade mostra,
e manifestam seu simbolismo,
as fotografias registram um momento da vida,  
fixando-a tal qual ela é.
 
Thiago de Oliveira Geraldo
Professor de Introdução à Sagrada Escritura (ITTA)
   
In: wikipedia
In: wikipedia

É interessante observar como as crianças, no início de sua educação escolar, procuram representar a realidade que vêem. Nas aulas artísticas, por exemplo, elas desenham e pintam cenas corriqueiras: como de sua família, de fatos que viram, ou até de histórias que ouviram, e que para elas ganham vida.

Isto ocorre porque o espírito humano parece ter a necessidade de registrar certos momentos ou situações da vida, quase com a intenção de “eternizá-los”. A arte vem a ser um excelente meio para isso, sobretudo, a da imagem. Uma obra de pintura se caracteriza pela mensagem que quer transmitir através de seu tema, a técnica que utiliza, o domínio sobre o espaço e a luz, o estilo próprio de cada época, e as qualidades pessoais.

A técnica é o primeiro passo que se espera de um artista, a tal ponto, que a obra interpretada por ele, aparenta ser simples quando terminada, mas exigiu muita maestria na composição. A arte não pode ser vista apenas sob o aspecto técnico; ela também contém um grande valor simbólico. A visão artística transcende a própria técnica e, muitas vezes, inova a forma de ver a realidade. A excelência da obra de arte é, portanto, aquela que oferece um significado que atravessa os séculos: “mas só aqueles [artistas] dotados de uma visão profunda e que usam a arte não como um fim em si mas como um meio para dizer verdades maiores são os que conseguem criar as obras-primas que resistem ao julgamento do crítico mais severo de todos: o tempo”[1].

Antes do século XIX, o artista tinha necessidade de patrocinadores a fim de manter sua subsistência. Estes eram, em grande parte, a Igreja e as cortes européias. Somente com o advento do Romantismo o artista passou a ser mais autônomo. Pelo fato de ser mantido por outros, nem sempre podia dar largas à sua inspiração, trabalhando por encomenda. Quando, porém, podia se unir o pedido de uma obra, com a aspiração do artista, tinha-se como resultado uma obra-prima.

Juntamente com uma maior liberdade artística surgida no século XIX, nasce na França, a invenção que iria representar, da forma mais real possível, a “eternidade” dos fatos: a fotografia. Inventada no verão de 1826, pelo francês Joseph Nicéphore Niépce, mais tarde aprimorada por seu sócio Louis Daguerre, popularizou-se com a descoberta do negativo, pelo inglês William Henry Fox Talbot, apresentada à Royal Society em 1838.Sudario2

A fotografia passou a ser uma forma de arte. Enquanto os pintores procuravam representar a realidade através de suas obras, a fotografia era a própria realidade fixada. Apesar disso, a supremacia da pintura está em transcender a realidade material, elevando-se a considerações mais espirituais.

Por outro lado, a técnica fotográfica trouxe um elemento novo para a fé cristã. Quando o advogado Secondo Pia conseguiu autorização para fotografar o Santo Sudário de Turim em 1898, não esperava o resultado que obteve. No momento de revelar a fotografia em sua câmara escura, percebeu afigurar-se a Sagrada Face do Redentor no negativo, cuja fisionomia era mais nítida do que no próprio linho.

Quem diria que uma invenção do século XIX mostraria ao mundo a adorável Face de nosso Senhor? Quando até então, não se tinha – sequer – uma pintura fidedigna do Salvador confeccionada em Sua época.

Se pararmos para pensar, a fotografia do Sudário apresenta apenas uma fisionomia d’Aquele que é o Homem-Deus, e ainda fixada sobre um linho. Se pudéssemos atravessar a barreira do tempo e levar Secondo Pia com sua máquina fotográfica à época de Jesus, quantas fisionomias não seriam possíveis fotografar?

SudarioPoder revelar ao mundo a fisionomia do Menino-Deus, logo após o seu nascimento[2]; ou contemplar Seus divinos olhos – ainda jovens –, discutindo com os doutores da Lei, no Templo[3]; talvez registrar cenas do convívio da Sagrada Família, durante aqueles anos de silêncio e oração; ou ainda ter em mãos uma fotografia de nosso Senhor pregando as bem-aventuranças[4]; uma das mais emocionantes fotografias, bem poderia ser a de Jesus Crucificado…

Difícil seria escolher somente uma!  No entanto, Deus não quis nos deixar todas estas fisionomias, mas apenas a do Sudário, a qual nos ajuda a ter fé em Sua Ressurreição.

 Foi Deus que primeiro fez o papel de artista: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”[5]. Deus “pintou” Sua fisionomia no ser humano, mas ela é vista mais em sua alma do que no corpo, assim como a figura do Sudário é mais bem observada no negativo fotográfico do que no positivo. Portanto, é possível ver Deus em cada cristão e em cada sacerdote que vive como Jesus viveu. Toda pessoa pode vir a ser outro Cristo, imagem de Deus e exemplo de vida cristã.


[1] CUMMING, Robert. Para entender a arte. Trad. Isa Mara Lando. São Paulo: Editora Ática, 1996. p. 9.

[2] Lc 2,1-20.

[3] Lc 2,41-52.

[4] Mt 5,1-11.

[5] Gn 1,26.

Deus Governador da História

CruzeiroAnderson Fernandes Ferreira – 2º Ano de Teologia

Em meio a tantos afazeres que transformam a vida dos homens de hoje numa corrida exaustiva, passa-se um fato que vem interromper a rotina, apesar de ser  tão comum em toda a história humana o nascimento ou a morte de um homem.

No primeiro caso, quando alguém nasce, todos se encantam, querem pegá-lo  nos braços, dar sua sugestão para a escolha do nome, oferecer  presentes, e reina em toda família uma grande alegria. No caso da morte , a dor da separação se instala, e a memória daquele que partiu desta terra, perdurará durante longo tempo no coração daqueles que lhe eram próximos.

Alguém que parasse para observar estas duas cenas tão diferentes e ao mesmo tempo tão comuns, poderia se colocar o seguinte problema: Este que agora deixa a vida, para que veio a esta Terra? E este que acaba de nela entrar, o que faz aqui? Ao ser expulso do paraíso, o homem levou consigo o castigo de a partir de então , ter que comer o pão com o suor de seu rosto, até que voltasse à terra de onde houvera sido tirado (Gn 3, 19).

Será somente isso a vida na Terra? Será a História apenas uma luta pela sobrevivência e uma sucessão de nascimentos e mortes, onde alguns fatos mais relevantes acontecem na medida em que os interesses políticos de uns são atrapalhados por outros, e que todos os fatos se avolumem  caoticamente sem um sentido nem unidade?

O governo do plano divino

 Em meio  a tantos problemas que afligem a sociedade atual, o homem é levado muitas vezes, sem negar formalmente a existência de Deus, a achar que está abandonado à sua própria sorte e que os tempos vão se desenrolando naturalmente, esquecendo-se que ele foi criado por Deus, que por  Ele deve orientar sua vida, olvidando-se de que tudo que existe é sustentado e dirigido pelo Criador.

A filosofia e a própria experiência demonstram que os seres racionais não podem realizar algo sem buscar um determinado fim.  Assim, é evidente que “Deus, que é a Inteligência infinita e o Agente intelectual por excelência, teve que determinar  um fim ao trazer à existência suas criaturas(…)”.[1]

Visto então que Deus tem um fim ao tirar do nada as criaturas, decorre necessariamente que tenha um plano de governo pois como explica o Pe. Ramière, “o plano é na verdade, a determinação da ordem no espírito do ordenador, e ordem, é a execução do plano nas coisas ordenadas. (…) Assim , se ao criar o mundo, Deus não tivesse um plano, a obra Divina em vez de ser uma obra admirável (por exemplo, no cosmos), seria um horrível caos, cuja desordem deveria ser atribuída ao próprio Deus. Esta hipótese é inadmissível por ir contra a razão e a experiência”.[2] Entretanto, como demonstrar pela história este governo Divino?  

O problema do mal

A conhecida frase tão utilizada no final dos romances de que  “viveram felizes para sempre”, nem sempre está muito de acordo com os fatos da vida real. O homem nesta terra vê-se continuamente afligido por dramas, dores e dificuldades e por isso, “a existência do mal no mundo é frequentemente invocada para negar a existência de Deus ou a realidade da Providência Divina”.[3]

Muitos são os erros de inúmeras correntes que ao longo da história tentaram dar a volta no problema do mal. É através da tradição judaica, no Antigo Testamento, e posteriormente com a tradição cristã, que se encontra o Bem sempre identificado com Deus, e o mal sendo uma privação de sua presença: “as trevas não são o contrário da luz, mas a sua privação”.[4] E como ensina Santo Agostinho: “o mal não é propriamente uma natureza, mas a corrupção dela. Uma natureza má seria uma natureza corrompida, mas não seria má enquanto natureza, e sim naquilo em que se degenerou”.[5]

Visto que o mal não existe enquanto uma natureza, mas enquanto ausência de bem, caberia ainda uma pergunta: Por que terá Deus permitido o mal em sua criação? Não sabia Ele, já antecipadamente da queda dos anjos e de nossos primeiros pais? “A quem pergunta – diz Journet – por que o poder de Deus não impediu, por algum milagre, o pecado do primeiro homem, o catolicismo responde que Ele preparava para compensá-lo sobejamente  um milagre mais estupendo. Enfim, Deus jamais teria permitido a queda do homem – diz D. Estevão Bettencourt – se, no mesmo instante divino e eterno, não tivesse previsto a Redenção”.[6]

A maior prova do governo divino

A ousada e conhecida proposição de que Deus tira o bem do mal, encontra todo seu apoio no fato mais admirável de todos os tempos: a encarnação do Verbo no seio puríssimo da Virgem Maria. Se grande foi o desastre decorrente do pecado, sublime foi a solução encontrada pela Misericórdia infinita do Criador, pois Ele enviou ao mundo o seu Filho Unigênito, a fim de redimir todo o gênero humano, e é por isso que a Igreja não hesita em cantar “O Felix Culpa, que há merecido a graça de um tão grande Redentor”.

 Com a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, “a revelação de Deus entrou no tempo e na história,  tornando-se assim esta, o lugar onde podemos constatar a ação de Deus em favor da humanidade”[7].

A vida e os ensinamentos de Cristo deitam uma luz sobre a existência do homem, apontando-lhe uma meta que pareceria inatingível se não fosse proposta pelo próprio Filho de Deus: “sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”(Mt 5, 48). E é na medida em que a humanidade corresponda a este chamado, que a história terá o brilho e o esplendor que faça desta terra, um reflexo da vida celeste como Ele mesmo nos ensinou a rezar: “Venha a nós o Vosso Reino, seja feita sua vontade assim na Terra como no céu”(Mt 6,10), pois “há nos desígnios da Providência uma relação íntima entre a vida terrena e a vida eterna. A vida terrena é o caminho, a vida eterna é o fim. Assim como a escola militar é o caminho para as armas, ou o noviciado é o caminho para o  ingresso numa ordem religiosa, assim a terra é o caminho para o Céu”.[8]

Venha a nós o Vosso Reino

A consideração dos fatos que preenchem a história atual não pode causar outros sentimentos senão o de aflição e angústia. Por que uma sociedade tão caótica e injusta? Não será pelo fato de que os homens, cada vez mais, fazem menos caso dos ensinamentos deixados por Nosso Senhor Jesus Cristo, e procuram buscar os “valores” sobre os quais querem constituir a sociedade atual fora dos Seus preceitos? Onde encontrar o modelo de todo agir humano senão em Jesus Cristo? Somente Ele “revelou verdadeira grandeza, abaixando-se voluntariamente e colocando a sua glória a serviço de seus súditos. Apenas Ele elevou a dignidade da obediência ao nível da dignidade do comando. Apenas Ele provou aos ricos que o seu interesse verdadeiro deve levá-los a despojarem-se de seus bens em favor dos pobres. Apenas Ele provou aos pobres que podiam encontrar, na sua miséria, o princípio dos bens mais preciosos. Nas virtudes de que deu verdadeiro exemplo, o Homem-Deus apresentou aos povos a única defesa eficaz contra os vícios que os arruínam e corrompem”.[9]

Não é difícil compreender que na, medida em que os homens se afastam de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Santa Igreja, os desastres sejam inevitáveis. Santo Agostinho, em poucas linhas, traça a imagem de uma sociedade verdadeiramente católica: “imaginemos um exército constituído de soldados como os forma a doutrina de Jesus Cristo, governadores, maridos, esposas, pais, filhos, mestres, servos, reis, juízes, contribuintes, cobradores de impostos como os quer a doutrina cristã! E ousem [os pagãos] ainda dizer que essa doutrina é oposta aos interesses do Estado! Pelo contrário, cumpre-lhes reconhecer sem hesitação que ela é uma grande salvaguarda para o Estado, quando fielmente observada”.[10]

Seria impossível conceber uma sociedade mais perfeita. Se hoje em dia, os homens observassem os Mandamentos da Lei de Deus, não cairiam por terra tantos problemas que nos afligem e atormentam? Por outro lado, como conseguir uma solução para os dramas da atualidade, se os homens insistem em desprezar os preceitos Divinos? Entretanto, é justamente pelo fato do mundo de hoje se encontrar tão afastado dos ensinamentos de Cristo, que a intervenção Divina se faz mais necessária, e a confiança de que chegará o momento que Jesus Cristo e sua Igreja triunfarão, deve estar inteiramente posta nas mãos da “Providência Divina que obrigará novamente os mares a se abrirem de par em par, moverá montanhas e fará estremecer a Terra inteira, se tal for necessário para o cumprimento da Divina promessa: as portas do inferno não prevalecerão contra ela”[11] por isso, a oração daqueles que creem em Jesus Cristo e em sua Santa Igreja deve redobrar o fervor e com os joelhos por terra dizerem cheios de confiança: “Venha a nós o Vosso Reino”.

 

 


[1] MARIN, Antonio Royo. Teologia Moral para Seglares. Moral fundamental e especial. Bac. Madrid. 1957. Tradução nossa. p.22.

[2] RAMIÈRE, Henri. O Reino de Jesus Cristo na História. Porto: Civilização, 2001. p.36.

[3] JOLIVET, Régis. Manual de Filosofia, Metafísica. Rio de Janeiro: Agir, 1972. p. 427.

[4] AQUINO, Tomás de. De Malo, I, a. 1, ad. 5.

[5] FAITANIN, Paulo. O mal, perda do Bem. Apresentação do livro ‘Sobre o mal’, de São Tomás. Rio de Janeiro: Sétimo selo. 2005. p.XVI.

[6] FAITANIN, Paulo. Op. cit. p.XVIII.

[7] JOÃO PAULO II. Fides et Ratio: carta encíclica. Disponível em:<www.vatican.va>. Acesso em 18 mar. 2009.(11)

[8] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O Reino de Cristo. Catolicismo, São Paulo, jan. 1951.

[9] RAMIÈRE, Henri. O Reino de Jesus Cristo na História. Porto: Civilização, 2001. p. 190.

[10] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Op. cit.  

[11] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O legionário, São Paulo, 25 de abril de 1943.