Instituto filosófico e Teológico dos Arautos do Evangelho ITTA – IFAT

Instituto Teológico São Tomás de Aquino

Instituto filosófico e Teológico dos Arautos do Evangelho  ITTA – IFAT - Instituto Teológico São Tomás de Aquino

Somos chamados a viver eternamente felizes com o Pai, o Filho e o Espírito Santo

Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias

Solenidade da Santíssima Trindade

Nós temos neste domingo a festa da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo. Mistério que, infelizmente, a nossa inteligência não alcança. Tanto mais que nossa inteligência é inteiramente limitada e Deus é infinito. Já nos é difícil compreender como é a eternidade que virá pela frente — nós somos imortais no que diz respeito à alma. O corpo morre, mas ressuscita, e a nossa vida deve ser eterna a partir do momento em que nós nascemos. Mas, Deus existiu desde todo o sempre. E não cabe em nossa mente a ideia de um Deus com Três Pessoas. São Três Pessoas, o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus, mas se trata de um só Deus, em Três Pessoas.

Hoje é festa que a Igreja estabelece para glorificar, para louvar e para atribuir ação de graças às Três Pessoas.

O príncipe carvoeiro

Vamos recuar no tempo e vamos imaginar um nascimento extraordinário. Nascimento que tenha se dado nos idos tempos do século XVI, ou talvez ainda antes, século XIII, século XII. Trata-se de um rei que há muito estava desejando ter um sucessor e, por fim, lhe nasce um bebê extraordinariamente belo e que é a alegria da corte, é a alegria da família, é a alegria de todos os que constituem esse reino, sejam eles até camponeses afastados do palácio real. E em certo momento — por razões políticas— em certa noite, madrugada, o palácio é assaltado e no momento em que ninguém esperava, o bebê é roubado.

Grande pranto no reino. Grande pranto da rainha, pranto até mesmo do rei. O bebê desapareceu. Esse menino ia ser utilizado para um objetivo político, mas acontece que as circunstâncias do reino mudaram um tanto e o menino não interessou mais. Então deixaram o bebê abandonado na casa de um carvoeiro. Ele cresce como se fosse o filho de um carvoeiro.

O príncipe cresce em meio aos carvões, cresce em meio à família do carvoeiro. Ele se tisna, daquela fuligem própria do elemento carvão. Ele fica, por assim dizer, com a pele, não carbonizada no sentido de queimada, mas carbonizada no sentido de estar pintada de carbono, de carvão.

Ele sente em si qualquer coisa estranha, porque é próprio da natureza humana estar ligada aos progenitores. E este jovem cresce e sente que há algo que não se coaduna inteiramente, não se harmoniza inteiramente entre ele e aqueles que seriam seus pais. Em determinado dia pergunta então ao pai:

— Meu pai, eu sou de fato filho desta família?

E o pai abaixa a cabeça e diz:

— Não, meu filho, você não é. Porque certo dia nós acordamos de manhã e vimos um bebê colocado à porta de casa, chorando. E adotamos esse bebê. Esse bebê era você.

— Quer dizer que não são meus pais?!

— Não.

Angústia e ao mesmo tempo ansiedade. Ele quer conhecer os pais. Porque faz parte da natureza dele querer encontrar-se com os pais. Em certo momento, por fim, chega um senhor muito bem vestido, numa carruagem. Para a carruagem em frente ao carvoeiro, desce, e diz:

— Eu vim aqui fazer uma revelação. Quero falar com o seu filho.

Reúne a família e diz:

— Eu sou testemunha de que este jovem, quando era criança, foi roubado da corte. Ele é filho do rei!

Dentro dele um sobressalto: “Mas será?” Não porque fosse o rei, mas é porque é o pai. Ele está encontrando o caminho para ver o pai, para ver a mãe! E este nobre diz:

— Eu vim aqui buscá-lo.

O pai carvoeiro, a mãe carvoeira, se olham, e dizem:

— Mas ele não está digno de aparecer diante do rei assim!

— Não se preocupe.

Levam o jovem. Chegando à corte ele encontra seu quarto, encontra seu toillette. Toma banho, recebe uma suntuosa roupa e em certo momento ele entra, com aplausos, com cânticos de alegria e de triunfo, para saudar o pai. O herdeiro abraça o pai, abraça a mãe, sentindo naquilo a felicidade de sua vida.

Somos chamados a participar da vida do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Essa é a liturgia de hoje! Porque muito mais filhos de nossos pais, nós somos filhos de Deus. Ele é quem introduziu a alma em nossos corpos e nos criou. Ele, tendo desejo de que nós participássemos de sua Vida e Natureza, nos fez filhos seus. Filhos adotivos. Não como se adota hoje em dia, em cartório. Ele, pelo contrário modifica física e formalmente a nossa alma. Nós puras criaturas, passamos a ter a alma— como diz São Tomás —, como uma barra de ferro posta numa forja até que brasa e ferro fiquem com a mesma temperatura e talvez até com a mesma labareda. E sem deixar de ser ferro passe a ser fogo.

Assim somos nós quando, penetrados por Deus no Batismo, passamos a ser filhos de Deus. Passamos a ter, no fundo de nossas almas, esta participação da natureza e da vida d’Ele. Nós não conseguimos chegar a compreender com a inteligência, é a fé que nos permite compreender.

Como tudo está dentro de Deus e como Ele está dentro de tudo, somos capazes de, olhando o Universo, olhando as formigas, as borboletas, olhando os colibris, olhando os peixes, os panoramas nesta Serra da Cantareira, chegamos à conclusão de que sem Deus isto seria impossível. Por exemplo: Como pode ser que a terra dê volta em seu próprio eixo vinte e quatro horas ao dia? E nunca sai dos seus trilhos? Quantos trens fazemos nós, quantos aviões e, de vez em quando, que desastres! Com as aparelhagens todas, com os treinamentos todos. Entretanto, nenhum astro se choca com outro. Deus tem que existir.

Ora, acontece que só isto não basta. Isto é uma notícia longínqua a respeito de quem é nosso Pai, por isso queremos conhecer a Deus. E não é por acaso que São Felipe vai perguntar a Nosso Senhor:

— Senhor, mostrai-nos o Pai e está tudo resolvido.

E Nosso Senhor responde:

— Mas, Felipe, com tanto tempo vivendo comigo, não viste ainda o Pai? Pois quem me vê a Mim, vê o Pai.

É Deus, com o desejo de entrar em contato conosco e estabelecer uma relação mais íntima e mais familiar conosco! Nós passamos a fazer parte da família de Deus. Querendo entrar neste contato conosco, Ele mesmo toma a deliberação de Se encarnar no Homem Jesus. Homem que não tem personalidade humana, somente divina, é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. É o mais alto grau de união que pode existir entre qualquer criatura e Deus. Uma união intrínseca, onde a natureza humana se une à divina sem deixar de ser humana, como o ferro no contato com fogo.

Mistério insondável pela nossa inteligência

Ele, encarnando-Se, revela-nos o mistério da Santíssima Trindade. Nossa inteligência, por si, não alcança essa maravilha de Três Pessoas num só Deus. Só conhecemos este mistério através da revelação. Então Ele vem com este intuito também, além de querer redimir-nos, de fazer com que nós conheçamos a realidade da existência d’Ele desde toda a eternidade: Ele Pai, tão rico no seu pensamento, pensamento Infinito. Um pensamento que é a Sabedoria em essência, e que gera uma outra Pessoa, o Verbo. O Pai gera o Filho. O Filho é o pensamento do Pai. É o que nós encontramos na Primeira Leitura. É essa Sabedoria que já existia antes mesmo de existir a obra da Criação.

Entretanto, ao ser o Filho gerado pelo Pai, olhando-O e o Pai olhando para o Filho, nós temos a procedência de uma Terceira Pessoa, é o Espírito Santo. A geração constitui a Sabedoria Eterna. A procedência do Espírito Santo constitui o Amor Eterno. É o Amor do Pai e do Filho.

Nós mesmos, quando amamos alguém, temos o desejo de que esta pessoa seja o mais feliz possível. Agora, devemos imaginar um ser infinito, Deus, gerando um Filho, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, amando-O inteirissimamente. E o Filho retribuindo eternamente ao Pai o amor com amor. Pai e Filho, Filho e Pai, amando-Se, procede uma Terceira Pessoa. Aí está o circuito perfeito e acabado.

Entretanto, Nosso Senhor diz a Felipe: “Quem me vê a mim, vê o Pai”. E é verdade. Porque — nossa inteligência aí falha — se o Pai Se encarnasse, seria Jesus Cristo. Se o Espírito Santo Se encarnasse, seria Jesus Cristo. E se os Três Se encarnassem, seriam idênticos. E quando um levantasse o braço para dizer algo, os outros dois estariam levantando também, porque são inseparáveis. Eles estão sempre juntos e sempre agindo juntos, sempre na mesma ação.

Ora, isso para nós seria inatingível se não fosse o Filho encarnar-Se e revelar. E é esta a afirmação que Nosso Senhor Jesus Cristo faz a Felipe: “Felipe, quem me vê a mim vê o Pai”.

No convívio com a Santíssima Trindade está nossa felicidade.

Essa é a nossa felicidade. A felicidade que teve o jovem príncipe-carvoeiro ao reencontrar seu pai, e rei. Nós nascemos neste mundo. A diferença que vai entre a terra deste mundo e a do Céu é incomparável, muito maior do que entre uma carvoaria e um palácio real, é muitíssimo mais do que isso.

Somos chamados a viver nessa Corte Celeste. Nosso Rei é Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Tudo está n’Ele, e Ele em todas as criaturas.

Mas, observemos: Deus não está igualmente em todos. Deus sustenta todos os seres, inclusive o Inferno e o demônio. Se Deus cochilasse um segundo, ao abrir os olhos de novo, todo o Universo teria desaparecido, porque teria sido deixado de ser sustentado por Ele. Não existiria mais nada…

Quando as águas batismais caem sobre a cabeça da criança ou do adulto, e é pronunciada a fórmula do Batismo, a partir de então, Deus, que já estava presente para sustentar aquele ser, penetra nele. Penetram o Pai, o Filho e Espírito Santo, passando a reinar dentro da alma. As Pessoas divinas se associam àquela alma e vão santificar aquela alma, desde que não haja obstáculo, desde que não haja resistência. Dão àquela alma um caráter de Templo, como diz o Apóstolo: “E não sabeis que sois templos de Deus?”. E realmente somos templos de Deus!

Hoje, nesta festa tão linda da Santa Igreja, nós podemos voltar-nos ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, que estão no fundo de nossas almas. Voltarmo-nos a Eles e oferecer nosso louvor e ao mesmo tempo pedir um maior convívio com a Trindade. Pedir que Eles preparem nossas almas para a eternidade com Eles.

Esse é o nosso objetivo, essa é a nossa finalidade. Não nascemos para viver eternamente neste mundo. Peçamos que Eles derramem sobre nós as graças de perseverança, as graças de fidelidade, para que, chegando à hora do nosso juízo, sejamos convidados a participar da glória celeste.

Eu fico feliz de ter podido estar com todos nesta manhã de hoje, na festa da Santíssima Trindade. Pois todos partilhamos de uma mesma natureza divina. Nós estamos aqui enquanto irmãos, mais do que se fôssemos filhos dos mesmos pais, porque somos filhos do Pai, do Filho e do Espírito Santo. E eu os felicito, nesta manhã, por estarem aqui, e lhes desejo, portanto, toda espécie de graças de santidade, de perseverança na via sobrenatural, como deseja a Igreja neste dia, para todo cristão!

Louvada seja a Santíssima Trindade!

 

Homilia realizada por Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, EP., na Basílica Nossa Senhora do Rosário, 30 de Maio de 2010.

 

Texto  transcrito da gravação de áudio, com as devidas adaptações, sem revisão do autor.

 

Pe. Luíz Fernandes Velasquez, Reitor da Universidade Pontifícia Bolivariana celebra solene Eucaristia no Seminário São Tomás de Aquino

Ferndorodriguez Victor Baltazar Castillo López – 2º Ano Teologia

Domingo, dia 31 de outubro, Mons. Luis Fernando Rodríguez Velásquez, Reitor Geral da Universidade Bolivariana (UPB, Medellín, Colômbia), concelebrou a Eucaristia com Pe. Jorge Iván Ramírez Aguirre, Vice-reitor Acadêmico da UPB, e Pe. Diego Alonso Marulanda Díaz, Decano da Escola de Teologia, Filosofia e Humanidades da UPB. O Evento se deu na Igreja do Seminário São Tomás de Aquino, Brasil.

Além de conhecer pessoalmente os estudantes e as instalações do Seminário, estes três sacerdotes da diocese de Medellín (Colômbia) visitaram o Brasil para participar de um ciclo de Conferências de Mons. Jean-Louis Bruguès, Secretário da Congregação para a Educação Católica, sobre a “A Veritatis Splendor e a Teología Moral hoje”.

No início da Missa, Mons. Luis Fernando Rodríguez Velásquez, explicou que sua visita ao seminário servirá para “estreitar os vínculos de amizade e mútua colaboração entre a Universidade Bolivariana e os Arautos do Evangelho”.

No sermão, Monsenhor sintetizou a liturgia em duas palavras: “Misericórdia e acolhimento”.

“Deus tudo faz com perfeição, como narra o relato da criação; criou por ter previamente amado o mundo e o homem. Ainda que, pelo pecado, o homem volte as costas ao Criador, Deus permanece amando com sua imensa misericórdia. Portanto, cabe ao homem ter a atitude de acolhimento refletida no episódio de Zaqueu diante do mestre”.

O publicano abriu as portas de sua casa, ou seja, abriu o coração ao Senhor que segundo o Apocalipse, “passa e não volta”. Abrir o coração significa que “Jesus pede uma radical mudança de mentalidade e de vida”, assinalava o Reitor.

Concluiu suas substanciosas palavras com uma oração rogando a incondicional disposição de acolhimento à misericórdia de Deus, conforme o exemplo da Bem-aventurada Virgem Maria: “Fiat mihi secundum verbum tuum”.

Mons. Luis Fernando Rodríguez Velásquez fez os estudos primários no colégio da UPB. Ingressando no Seminário Conciliar de Medellín, realizou filosofia e teologia na própria UPB, onde obteve o grau de Teólogo.

Obteve a Licenciatura em Direito Canônico na Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. Atualmente é doutorando pela Pontifícia Universidade Javeriana de Bogotá. É Licenciado em Educação Religiosa, nas faculdades de Teologia e Educação da UPB. Recebeu a ordenação sacerdotal em 1984. Em 1995 foi laureado com o título Pontifício de Capelão de Sua Santidade.

Além de diversas atividades pastorais e administrativas na Arquidiocese de Medellín, trabalhou durante sete anos como oficial e assessor no Pontifício Conselho para a Família. É especialista em temas referentes à família eJorgeivan à vida, tendo escrito várias obras e artigos pastorais.

Pe. Jorge Iván Ramírez Aguirre, Vice-reitor Acadêmico da UPB, é professor titular da faculdade de Filosofia e especialista em estudos clássicos e línguas antigas da Sagrada Escritura. É Mestre em Teologia pela Universidade Pontifícia Bolivariana e Licenciado em Sagrada Escritura pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma.

Além de varias atividades como professor em prestigiosos estabelecimentos Diegomarulandacolombianos, escreveu livros e seções de livros na Colômbia, Chile, México e Itália, somando cerca de 30 artigos em revistas científicas especializadas.

Pe. Diego Alonso Marulanda Díaz é sacerdote da Arquidiocese de Medellín e Decano da Escola de Teologia, Filosofia e Humanidades. Após ser laureado com o título de Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma exerce funções acadêmicas na UPB e pastorais na Arquidiocese de Medellín.

Fidelidade ao carisma em todos os atos

ITA_9598Padre Bruno Esposito, OP

Homilia aos membros do Instituto Teológico São Tomás de Aquino (ITTA) e Instituo Filosófico Aristotélico Tomista (IFAT), no seminário da Sociedade de Vida Apostólica Virgo Flos Carmeli. Brasil, 04 de maio 2010.

Antes de pedir perdão a Deus, peço perdão a vós pelo meu português. Todavia, quis celebrar esta Eucaristia na língua da maior parte de vós, como sinal de meu afeto. Apesar dos erros de gramática, quero mostrar afeição, pois como diz São Tomás ao comentar Aristóteles, na amizade, “o amigo quer fazer o que mais agrada ao outro”. Penso que assim agrado, portanto, celebro esta Eucaristia por cada um de vós, por tudo aquilo de belo, bom e verdadeiro que portais em vosso coração, e, sobretudo, para que o Senhor realize o vosso desejo de santidade.

A palavra de Deus no dia de hoje manifesta uma regra muito simples e elementar da vida cristã – embora tudo que é elementar, é fundamental – e nos recorda que os ramos não podem viver sem a vide, pois têm a sua vida na união íntima com a videira. Traduzo como escutamos do Evangelho. A nós que sem esta união íntima e conatural com Deus, não podemos fazer nada, nulla, absolutamente nada. E nos Atos dos Apóstolos está uma aplicação desta regra fundamentalissima. Paulo e Barnabé procuram resolver uma questão que a nós não é possível imaginar quanto era difícil para eles, propriamente porque estavam unidos intimamente a Deus, não procuravam sua vontade, seu projeto, mas somente estavam em busca do desígnio de Deus. Pensai o que significava para um israelita, nascido, visto e crescido, no culto da lei mosaica, seguir tantas prescrições, ouvir dizer que a circuncisão não era mais um requisito ITA_9613para seguir a Cristo. Uma coisa que não temos dificuldade em compreender em sua integridade, mas Paulo e Barnabé se colocam como anunciadores da Fé Cristã e deste virar da pagina.

São Tomás descreve esta situação entre a antiga e a nova religião de modo admirável. Eles conservaram a lei moral, embora fizesse parte do passado, pois era uma imagem do que se dá no altar.

Podemos então considerar o que tudo isso significa para nós hoje. Temos uma regra, uma indicação que não era só para o passado, mas para nossa conduta, e que nos conclama a viver intensamente nossa Fé em união cotidiana e íntima com o Senhor. Sem esta união, tudo aquilo que fazemos não possui valor, nem fruto, porque o resultado que podemos obter está na medida em que vivemos esta união.

O que significa para nós hoje? Para mim, enquanto sacerdote religioso, primeiramente, a viver o carisma que abracei sabendo que Deus me chamou, isto é, à via de Domingos “comtemplare, et comtemplata aliis tradere”. Se a minha pregação não nasce desta união com Deus, são belas palavras, mas não movem ninguém.

Para vós, que estais em período de formação, deveis viver o estudo não como qualquer coisa que se precisa galgar, mas como uma ocasião de graças, porque lhes é dada uma possibilidade que não será mais dada na vida. O ter um conhecimento que não é nocionismo, mas é caminho rumo ao amor de Deus. Isto é o que significa este período. Se perderdes este ponto de vista, perdereis a linfa do vosso estudo. Estejam convencidos de que é algo importante e útil, que ajuda em todas as atividades mais importantes de nossa vida. No trabalho, no governo, na administração, em tudo que fazeis, lembrai-vos que fazeis por vós, por Deus, e pelo serviço aos irmãos.

ITA_9602A autoridade na Igreja é serviço. Uma coisa que o mundo de hoje não entende, mas que é o contrário do que se pensa correntemente. Cristo ressaltou isso varias vezes, dizendo que não somos nós que comandamos o mundo, mas somos aqueles que servimos os irmãos. Isto é ser servo. O que é um servo? O que faz a vontade de Deus. Quanto mais unidos à vontade de Deus, mais daremos frutos.

E agora, apliquemos à situação hodierna de crise da Igreja e de crise das instituições, e isto não digo para julgar, mas para dizer ao Senhor: Que eu não faça outro tanto… – porque não se necessita julgar, mas pedir que não caiamos em tentação. Vemos assim que quando falta essa união, vemos o resultado em nós mesmos.

Entretanto, peço a Deus que sejais fieis ao carisma que recebestes, com todo o coração, fazendo sempre com alma, tudo aquilo que fazeis, o estudar, o trabalhar, o jogar, o falar, tudo aquilo que quereis, pois ninguém está de fora. Como diz Santa Terezinha Lisieux, o que faz a diferença é o amor com que fazemos cada coisa, ainda que tenhamos de fazer as coisas mais humildes e insignificantes, com amor elas se tornam pedras preciosas aos olhos de Deus. Não há proveito em confrontar o que eu faço e o que outro faz. Apenas peça a Deus e o faça bem. Fazê-lo com amor. Esta é a coisa mais importante. Recuperar esta dimensão é viver em um estado permanente de conversão. A fé, o amor, a conversão, não se dá uma vez na vida. Ou se ama sempre, ou nunca houve amor, ou se tem sempre Fé, ou nunca se teve Fé. E assim por diante. É uma coisa vital.

ITA_9615Celebramos esta Eucaristia por cada um de vós, por aquilo que portais em vosso coração, e vosso desejo de santidade, para que permaneceis fieis não somente ao vosso empenho, mas sim, à pessoa de Jesus Cristo. Não fazer as coisas apenas pelo dever, mas fazer pelo amor, indicando assim ao mundo de hoje, através da vossa alegria.

Que apesar de nosso limites, descubramos a comunidade como lugar de perdão e de festa. Não estamos aqui porque somos perfeitos, mas porque amamos a perfeição em nosso próprio limite. Somente Deus não tem limites. Peçamos esta fidelidade a Jesus Cristo.

Para concluir, São Paulo diz “eu vivo esta vida na Fé de Jesus Cristo que me amou e que deu sua própria vida por mim” (Gl 2, 20). Que este grito de São Paulo seja escutado por todos vós, todos os dias, no vosso coração, para serdes verdadeiramente Arautos do Evangelho.

 

Tradução e Adaptação: Marcos Eduardo Melo dos Santos – 2º ano teologia

Fotos: Ivan Tefel

Sabedoria e beleza como resposta aos que querem ver o Senhor

Mantovani01Homilia do Padre Mauro Mantovani

Igreja do Seminário

08 de abril de 2010

Traduzido e adaptado por Ítalo Santana Nascimento (2º ano Teologia)

Caros amigo, vos ofereço escutar a língua italiana, porque é a única, na qual me posso exprimir bem. Estou muito alegre de celebrar convosco esta ação de graças ao Senhor. Estamos na oitava da Páscoa, período de alegria – assim como todo o tempo pascoal –, no qual tiramos mais conhecimentos para nossa vida, nos frutos da Páscoa do Senhor.

Chamo-me Dom Mauro, sou salesiano, e estou aqui alguns dias para lecionar algumas aulas sobre a filosofia de São Tomás. Permiti-me, antes de tudo, agradecer a Monsenhor João, aos seus colaboradores mais próximos, e a todos vós, não somente pelo convite de presidir a esta celebração, e ministrar aqui estas aulas, mas também pela esplêndida acolhida que me reservaram.

Com muita surpresa e interesse, conheci a vossa realidade como história, como identidade, e também como caminho para o futuro. Há três dias atrás, visitei o São Bento, a origem; encontrei aqui no Tabor, o presente; e ontem à tarde, ao visitar o Lumen, pude ver algum vislumbre do que será o futuro.[1] E assim, tive a possibilidade de acompanhar todos os passos da luta e da sabedoria, que vem do Senhor.

Na Missa matutina, acompanhei a vossa consagração à Sabedoria Encarnada, porque a consagração que fazeis com aquelas palavras, vivemos realmente no ambiente acadêmico, onde auxiliamos na atividade pastoral universitária, em Roma. Trabalho na primeira capela universitária situada na urbe, na qual me encontro com os jovens universitários, e pelos quais, peço a vossa oração.

Mantovani02Uma sabedoria que vi, e que aqui se encarna também na arquitetura e nas construções através da ordem e da estética, no cuidado especial aos particulares, como também, na atenção para com as pessoas que quando são animadas pelo amor recíproco, encontram um testemunho do novo humanismo do qual fala a Igreja.

“E disso nós somos testemunhas”, diz hoje a primeira leitura dos Atos dos Apóstolos. E Jesus no Evangelho, “Vós sereis testemunhas de tudo isso”. Consideremos, por um momento, na pessoa de Pedro, como se leu na primeira leitura a qual narra que logo após a cura do paralítico, Pedro e João disseram: “Nós não possuímos nem ouro nem prata, mas o que temos te damos, em nome de Jesus, o Nazareno, levanta-te e anda”. Encontramos no trecho de hoje a mesma dinâmica, que prossegue com as pessoas que estão em torno do paralítico, e vemos que Pedro auxilia a compreender a Escritura, como outrora havia feito o próprio Jesus, com os discípulos de Emaús. Assim, como diz o Evangelho de hoje, Jesus se faz próximo, mostra uma consonância, e um afeto profundo, e assim também Pedro diz aos que o escutam: “Eu sei que haveis agido por ignorância, assim como os vossos chefes”, contudo, com muita clareza, Pedro diz a verdade dos fatos: “rejeitastes o Santo e Justo e pedistes a liberdade de um assassino”, e por isso, lhes convida à conversão. É o desejo que temos: que se convertam de sua maldade.

Assim, conclama também a nós, antes de tudo, a responder ao convite de Pedro, à conversão de nossa vida. O Senhor nos convida à Parusia, à coragem da Fé e do amor ao próximo – Dom Bosco chamava de “amore volenza” – que é unir-se ao outro sem medo, onde quer que ele se encontre, ainda que esteja longe, e assim, lhe abrir um futuro novo, para a liberdade e a salvação de uma vida distante do pecado, sem medo de dizer a verdade.

No Evangelho encontramos ainda um outro ponto, e que demonstra como a aparição confirma o fato da sua ressurreição, fazendo entender aos Apóstolos – neste trecho que escutamos –, que Ele, na plenitude de sua pessoa glorificada, não é um fantasma, e se faz presente com o dom de sua paz, enquanto os discípulos ainda estavam falando.

É oportuno observar que “estavam ainda falando”. Os discípulos estavam narrando o que havia acontecido durante o caminho de Emaús, e como haviam reconhecido Jesus na fração do pão. Comunicavam entre si a própria experiência de Deus. Narraram como haviam encontrado a Jesus e como o haviam reconhecido, os dons que lhe fizeram, e como Ele entrou cada vez mais em suas vidas.

É um convite concreto para nós, enquanto Igreja, como Associação, e como Comunidade Religiosa, que nos estimula sempre a contar entre nós mesmo os dons da experiência de Deus, e os modos pelos quais encontramos a Deus.

Mantovani03A questão “queremos ver o Senhor”, o mundo de hoje continuamente a põe.  Com o belo se responde com propriedade. Pois, realmente, também a arte possui uma resposta, e a nós o dever de mostrar esta verdade também presente na sua Igreja, especialmente na vida das pessoas que contam entre si o que Jesus fez na sua existência. Assim, lhes respondemos à questão, “queremos ver Jesus”, dizendo: “Sim, nós O vemos, nós fomos cobertos com sua luz, nós o tocamos nesta luz infusa em nós, sentimos sua voz no fundo do coração, e degustamos desta alegria sem qualquer comparação.

E concluo com este pensamento, com um desejo que encontrei em um texto de um bispo alemão, que morreu há poucos anos atrás, chamado Monsenhor Klaus, dirigido à sua diocese, no qual encontramos também uma mensagem para nós:

 Desejo a todos nós,

Uma visão Pascal  

convidando a ver,

Na morte, o mesmo que a vida; 

Na culpa, o mesmo que o perdão;

Na divisão, o mesmo que a unidade;

Nas dores, o mesmo que a glória;

No homem, o mesmo que a Deus;

Em Deus, o mesmo que o homem.

No eu, o mesmo que o tu;

E em nós, toda a força da Páscoa.

 (Sem revisão do autor)

 


[1] Padre Mauro visitou a antiga Casa-Mãe da Sociedade Virgo Flos Carmeli, situada na cidade de São Paulo, jardim São Bento. O Tabor é a atual casa Mãe onde se situa o Seminário. O Lumen é um projeto que abrange os próximos edifícios da associação.

Que reconheçamos o grande amor de Deus por nós

Homilia do Padre Bruno Esposito OPFr Bruno3

Igreja do Seminário da Sociedade Virgo Flos Carmeli

25 de março de 2010, Solenidade da Anunciação do Senhor

É impossível negar um pedido de Monsenhor João Clá, de maneira que me cabe hoje fazer a homilia. A Festa de hoje é o centro da Vida Cristã, o tema dominante da vida de Jesus Cristo e a síntese de nosso caminho de Fé.

            Contemplando nesta Igreja a cópia do afresco da Anunciação, pintada pelo Beato Fra Angélico, lembro-me do comentário feito pelo Papa João Paulo II, diante do afresco original, ao visitar a Basílica de São Marcos, em Veneza. Comentava o Papa que, nesta cena, está contida a síntese da História da Salvação.

De fato, o afresco de Fra Angélico retrata, em primeiro plano, a cena da Anunciação do Anjo a Nossa Senhora, ocasião em que o Verbo Eterno se encarnou. Ao lado, está pintada a cena de nossos primeiros pais sendo expulsos do Paraíso. É a cena que, por excelência, simboliza o pecado original e suas consequências. Realmente, o afresco sintetiza, estupendamente, a História da Salvação.

A festa de hoje nos faz contemplar, admirativos, o amor de Deus por nós. Projeto providencial de Cristo que se fez carne por amor a nós. A encarnação é a sua grande prova de amor. E, em face desta demonstração de amor, não devemos ser ingratos. Pois, o maior pecado que alguém pode fazer ao próximo, é desprezar o amor que recebeu. Ser indiferente a esse amor de Deus é uma grande ofensa, e hoje, não podemos negar e desprezar este amor de Deus, porque esse amor exige de nós uma resposta.

O essencial da Solenidade da Encarnação é a ação de Deus, porém, quis Ele condicionar à resposta de Maria essa encarnação. Por isso, Maria teve especial papel pela sua resposta perfeita, pelo seu incomensurável amor. Somente uma coisa Deus não pôde fazer no mundo: colocar limites ao amor. Nesta vida, o amor sempre pode e deve crescer. Assim, o amor de Maria sempre cresceu.

Fr Bruno4Contemplar este amor de Deus significa guardar em nosso coração e dizer sim a Ele, por isso, Deus nos diz: “Coragem! Não temeis! Avante!”.

Certo é que, o anuncio da encarnação, este anúncio de amor, exige uma resposta humilde, e de certo modo confusa. A resposta de Maria assim o foi, mas além de humilde e confusa foi, sobretudo, generosa.

Deus quer generosidade. Generosidade que não visa auto-realização, mas sim, felicidade, beatitude, salvação e sobrenatural. Generosidade em executar a vontade de Deus.

Deus quer a força da humildade. Como disse o Apóstolo, omnia possum in eo qui me confortat. Deus concede aos humildes uma força irresistível. De fato, Deus quer que reconheçamos nossa miséria, nosso pecado, mas, mormente, quer que reconheçamos seu amor a nós.

Quer humildade, mas quer também honestidade, como encontrou em Suzana. Que preferiu a morte, em lugar de se ver manchada pelo pecado. Esta reflexão sobre a grandeza do amor de Deus por nós exige também uma resposta de nosso amor.

Na Páscoa, Deus quer que não percamos tempo com as ninharias da terra, mas sim, que cumpramos nossa finalidade,Fr Bruno5 que nada mais é que a união com Deus, a comunhão com Ele. Ele quer que aspiremos às coisas mais elevadas. Não quer de nós um coração de pedra, mas sim, de carne, isto é, que transformemos nossa existência pelas coisas mais belas, puras e elevadas.

Entre as coisas mais elevadas, a Cruz é o mais sublime símbolo da Terra, é um sinal irrefutável do amor de Deus. Amor que deve ser correspondido, e que, em consequência, se reflete na vida comunitária seguida com perfeição. Mas, ainda que não sejamos perfeitos, esse amor quer nossa participação e correspondência.

É o que a liturgia de hoje tem a nos dizer. Que reconheçamos o grande amor de Deus por nós.

 

Fotos: Ivan Tefel – 3º Ano de Teologia

Tradução e Adaptação: Marcos Eduardo Melo dos Santos – 2º de Teologia

(Sem revisão do Autor)

Solene abertura do ano letivo de 2010 para os alunos do Colégio Arautos do Evangelho e dos Institutos Filosófico e Teológico São Tomás de Aquino

Mons João Serm2Homilia de Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias

na memória de São Tomás de Aquino

Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Caieiras, São Paulo.

29 de janeiro de 2010.

 

 Hoje, celebramos esta Eucaristia como abertura de todos os cursos do ano letivo de 2010, com a presença de representantes do corpo discente dos Arautos do Evangelho de toda América Latina e Portugal.

As férias passaram e agora se inicia um novo ano no qual, além de todas as atividades pastorais e vida espiritual que devemos manter, também estaremos postos no estudo. E, portanto, na vida daqueles que estudam, se acrescenta mais uma importante ocupação.

Quem são os que estudam? Não somente os matriculados, todos os Arautos estão na contingência de estudar. Até quando? Até meia hora após a morte. Desta forma, esta cerimônia atinge e abrange a todos que aqui estão. Todos devem estar ocupados no estudo, tanto nos tempos de obrigação, quanto nos tempos livres. Cumpridas as orações e as obrigações sobrenaturais: vem o estudo. Porque, quem se desocupa cai nos piores horrores, pois o ócio é o caldo de cultura, o ambiente, a situação idealíssima para as tentações do demônio, como veremos na liturgia de hoje, a qual, por incrível que pareça, coube à abertura do ano letivo.

É o grande Rei Davi, o amado Rei Davi, o antecessor em linhagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, que se desocupa e cai no desastre. Enquanto que nós não. Teremos o ano de 2010 cheios de atividades especialmente de estudos.

E para que todos se compenetrem quanto é vantajosa a vida de estudante, ofereceremos, hoje, esta Santa Missa, tanto mais que já celebramos uma Missa para o corpo docente e agora trata-se de uma Missa para o corpo discente, ou seja, daqueles que irão estudar para aprender, não para ensinar, pelo menos por ora.

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Nesta Santa Missa, na qual se celebra os últimos dias de férias e prenuncia a abertura de um novo ano letivo, cai diante de nossos olhos o sério problema do ócio, o problema de não fazer nada, de estar desocupado. Quem vive desocupado, está à mercê do demônio.

Nesta liturgia, temos presente o risco que se incorre em estar desocupados, e da maravilha que significa ser convocado, à força, a estar ocupado. Digo à força, porque, a não ser que a pessoa seja muito disciplinada ou que possua um dom de Deus de responsabilidade, de humildade, enfim, de ser santo… Se ele ou ela é santo, então terá mais facilidade em ser vigilante e não confiar em si, mas sim na graça. Mas, não significa que não sendo santo não pecará, porque se não for realmente vigilante e humilde, se não tiver uma confiança inteira nas mãos de Deus e, tiver um pingo de confiança em si, cairá. Quem tem confiança em si cai, assinado Davi, o santo rei Davi.

Então, abrimos este ano sendo convocados compulsoriamente ao estudo com provas mensais, com tarefas de casa, com aplicação integral em todas as matérias. Ainda que essas disciplinas tenham a aparência de nunca serem úteis na vida diária, todas têm um papel fundamental: manter ocupado.

O estudo destes temas aparentemente inúteis alarga a inteligência, porque a partir do momento em que somos obrigados a estudar, por exemplo, o movimento de heliotropismo da botânica ou o estudo da constituição das plantas, ainda que não pareça proveitoso de forma imediata à vida concreta e material, aumenta nossa capacidade intelectual.   

Ademais, existe também outra vantagem no estudo, através da botânica, podemos contemplar a maravilha da sabedoria de Deus. Podemos contemplar, por exemplo, como o heliotropismo é o símbolo do teotropismo da alma humana. Destarte, tudo que for ensinado é passível de ser aprendido debaixo de um prisma que enriquece a vida espiritual. Muitos ensinamentos parecem ser úteis apenas para o dia da prova, mas se eu souber aplicar a certos momentos da existência posso ter imensas vantagens.

Santo Inácio de Loiola pede em seus exercícios espirituais graça para que “sinta a desordem de minhas operações”. De fato, o homem, por causa do pecado original é um desordenado… Se não for a graça de Deus através da intercessão de Maria Santíssima e de seus santos, somos complemente incapazes de praticar os mandamentos divinos de forma estável, porque nossa natureza é desordenada. Sentir a desordem de minhas operações é experimentar que sou um falido por essência. O homem necessita ter desconfiança de si mesmo, de maneira que, quando insuflado pelo demônio em sua fantasia e sua concupiscência de que é um colosso, deve dar um gargalha de desprezo, solene e sonora, primeiro, ao demônio que mente, e segundo, para si mesmo, por ter a tendência de aceitar o que o demônio diz.

Na vida social é natural que se faça elogios a fim de que o convívio torne-se ameno e afável. Não me lembro que fora do claustro ou da vida religiosa seja feito um elogio a alguém e encontrar, na face ou no olhar, uma convicção de que aquela qualidade vem de Deus.

A capacidade de que a natureza humana tem de aceitar qualquer elogio é enorme. A apetência de ser adorado é tremenda. Contra isto, é necessário ter uma compenetração de nossa deficiência e a importância de manter uma exímia vida espiritual.

Quem se julga mais forte, gênio e culto do que é, na verdade, não vale “dois caracóis”. Pois, este não tem força alguma, se vende por qualquer elogio, se irrita com qualquer crítica, assim, é mais frágil que qualquer menina. Uma menina é corrigida, fica vermelha e abaixa a cabeça, um gigante a quem se faz uma correção, pede a morte, não dorme a noite. Onde está sua força, sua personalidade e a sua glória? Na verdade, o orgulhoso é mais frágil que uma criança.

É o que Santo Inácio recomenda: “pedir a graça de sentir quanto são desordenadas as minhas operações, para que aborrecendo-me me emende e me ordene”. Assim como Davi arrependeu-se, compôs os salmos, fez penitencia e santificou-se, devemos também nós, quando levados pela fantasia e pela concupiscência, pela instigação do demônio, reconhecermos a queda por falta de vigilância, batermos no peito, e com confiança nos confiarmos às mãos de Deus reconhecendo que não somos fortes.

Esta é a abertura do ano letivo, onde teremos muitas ocasiões para praticar a virtude, de não ser preguiçosos, mas sim, a virtude de estar ocupados, constantemente postos na atenção das coisas mais elevadas, das coisas da cultura e da inteligência. Tudo isso é um benefício extraordinário. Cria um ambiente onde a prática da virtude é mais fácil, um ambiente até mais benfazejo do que as férias. Por esta razão, não há um ditado latino que diga studii miseriae, mas sim, outro feriae miseriae.

Portanto, peçamos nesta Santa Missa que todos recebam graça sobre graça a fim de que possam progredir na vida espiritual aproveitando esta maravilha que é o estudo.

 

Adaptado por: Lucas Antonio Pinatti

 Sem revisão do Autor