Instituto filosófico e Teológico dos Arautos do Evangelho ITTA – IFAT

Instituto Teológico São Tomás de Aquino

Instituto filosófico e Teológico dos Arautos do Evangelho  ITTA – IFAT - Instituto Teológico São Tomás de Aquino

A Bíblia: Uma Lei de Vida que deve ser amada pelos homens e conduzir o mundo moderno no caminho da salvação

Otávio Mantia

O corpo e a alma da Bíblia

Para definirmos a Bíblia necessitamos ter em consideração dois elementos que a constituem: o texto (sua parte escrita) e seu ensinamento (a parte espiritual), transcendente a meras palavras ou símbolos textuais.

Se tomarmos a parte escrita, a Bíblia é um a coleção de livros inspirados pelo Espírito Santo, de caráter sagrado, origem divina e de conteúdo e eficácia sobrenatural. Mas, ampliando um pouco seu significado, obteremos um horizonte mais largo e formoso do que verdadeiramente pode significar a Bíblia.

Os livrinhos sagrados…

O nome Bíblia vem de grego βιβλος “livro”, que no plural diminutivo fica βιβλια, que significa mais especificamente “livrinhos”. Sendo uma coleção de livros sagrados, devemos nos perguntar, sagrados por quê? Porque o próprio Deus inspirou que fossem escritos e entregou-os aos homens. Assim, estes homens escolhidos, eleitos por Deus a receber a Revelação tornaram-se os portadores de textos sagrados, que constituíam a bíblia.

…que constituíram a Sagrada Bíblia

A primeira versão da bíblia foi conhecida como versão hebréia, que se dividiu em três partes: nas leis ou Pentateuco (תרה), nos profetas (תבים), e nos outros escritos históricos (כתבים). Posteriormente, com a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, efetuou-se a plenitude da Revelação: acrescentou-se aos antigos escritos sagrados as revelações que o próprio Filho de Deus veio trazer aos homens. Assim, os Evangelhos, Cartas Católicas e Apocalipse completaram a Bíblia do Novo Testamento.

O trecho mais antigo do Evangelho de São João

O Cânon bíblico foi se formando por um longo processo em que a Santa Mãe Igreja, com o passar dos séculos, trabalhou em distinguir os diversos textos verdadeiramente inspirados dos apócrifos, e outros escritos sem apostolicidade, até se definir a Bíblia que lemos hoje.

A parte espiritual

Agora tomando em consideração mais os ensinamentos que a Bíblia nos traz, sua parte “espiritual”, podemos reconhecer que ela se trata de uma verdadeira guia até Deus que o homem deve encetar pela obediência a sua Palavra e sua Lei. Obediência a sua Lei e a sua Palavra? Sim, pois a palavra e a Lei de Deus se confundem e se entrelaçam num mesmo conceito.

E a Palavra se fez Lei…

Ao lermos Dt 30, 11-14 nos deparamos com uma singular aproximação da Lei de Deus e de sua Palavra. Os mandamentos e leis de Deus não estão acima de nossas forças, nem fora do nosso alcance. Não estão no céu nem no mar, para que possamos escusar-nos de não poder possuí-los. Mas “esta palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração: e tu a podes cumprir”. Assim, a Bíblia não é um tratado filosófico ou um compêndio de ciências, nem uma enciclopédia ou uma bela obra de literatura. É muito mais: é palavra de Deus. É עהוה דבר (Dabar Yahveh), e neste sentido, a palavra דבר (Dabar) tem a mesma raiz da palavra תרה (Torá), ou seja lei. A Palavra de Deus é a Sua própria Lei dada aos homens. É por meio de sua palavra que Deus ensina os homens, como devem agir para cumprir Sua vontade.

Pode-se concluir daí que a Bíblia, mais que dados históricos da criação do mundo, fatos da vida do povo eleito, elementos dos costumes judaicos e trechos de profecias muito bonitas, nos proporciona uma norma de vida, uma lei para se “meditar dia e noite” (Sl 1, 2).

Lei que se deve amar

Uma lei que Deus coloca em nossos corações como nos dia Jeremias 31, 33: “Incutir-lhe-ei a minha lei; gravá-la-ei em seu coração”. Pois o lugar da lei é o coração (לב), de onde partem todas as intenções e decisões do homem, sejam elas boas ou más. Mas, por que o coração é o lugar da lei de Deus e de sua Palavra? Porque o coração também é o receptáculo dos amores do homem e o homem deve amar a palavra de Deus com todo seu ser, com total desapego e sem exigir recompensa.

Mas… amar como?

A este respeito cumpre lembrar os quatro amores que o vocabulário grego proporciona, a saber: o amor entre varão e mulher no matrimônio (ερον); o amor familiar (ζεργον); o amor de amizade meramente humano (φιλειν); e o amor de holocausto, de entrega total, o amor que se tem apenas a Deus (αγαπε).

Ao lermos Lucas 21, 15-17 vemos claramente esta diferença dos amores no sublime diálogo entre Jesus Nosso Senhor e São Pedro. O que as traduções geralmente deixam passar despercebido, o grego revela com uma peculiar riqueza de termos, preciosa grandeza e pungente profundidade o que houve entre os dois olhares que se cruzavam durante esta conversa. Mas o que conversavam o Filho do Homem e Simão, filho de João?

O exemplo princeps

Nosso Senhor pergunta se São Pedro o amava com amor divino: “Αγαπας με?”. E Simão responde que o amava com amor humano: “Φιλο σε”. E Jesus prossegue com o mandato de apascentar com cuidado os cordeiros frágeis de seu rebanho: “Βοσκε αρνια”. Uma segunda vez pergunta se São Pedro o amava com amor total e desinteressado: “Αγαπας με?”. Mas São Pedro, responde que o amor divino ainda não o abrasa: “Κυριε, Φιλο σε”. E Jesus prossegue, recomendando que Simão apascente as ovelhas mais velhas e fortes: “Ποιμανε προβατα”. A terceira vez, Deus se abaixa até Simão e lhe pergunta: “Simão, filho de João, Φιλεις με?”. E São Pedro, profundamente entristecido, pois percebera que ainda não galgara o perfeito amor de Deus responde: “Senhor tu sabes tudo, tu sabes que “Φιλο σε”. E o Senhor prossegue recomendando: “Βοσκε προβατα”. Ou seja: “Pois bem Simão, tu, que sois velho e forte e prometeste dar a vida por mim, me negaste três vezes. Professa seu amor por mim três vezes em reparação e reconhece que ainda és imperfeito. Saibas que como tu, muitos são frágeis. Assim, apascenta com cuidado (βοσκε) inclusive as ovelhas fortes do rebanho (προβατα), pois estas, como tu, também podem ceder.

Conclusão

Esta é uma lição para nós. Pois o amor que faltou a São Pedro quando Nosso Senhor lhe pergunta três vezes se o amava também falta ao mundo hodierno. Os homens devem amar a Deus e a sua Palavra, a sua Lei, que está na Bíblia com este amor Αγαπε, ou seja, sem querer nada em troca, reciprocidade ou retribuição. O Αγαπε deve reger o mundo de hoje a obedecer a Lei de Deus e a sua Palavra pelos ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo nas sagradas escrituras.

El fundamento de la nueva alianza: la caridad cristiana y la unidad de las Sagradas Escrituras

Daniel Letelier

¿Cómo debemos entender el mensaje del Divino Salvador en los Evangelio, o cuál fue la novedad traída por el Hombre-Dios a la humanidad? Ésta, entre varias otras preguntas muchas veces nos pueden venir al leer las Sagradas Escrituras. Ahora, el fundamento para encontrar la respuesta está en los propios evangelios: la caridad cristiana. Y cómo entender esta nueva alianza basada en la caridad? Para esto, hay que ver los diferentes testimonios del Salvador bajo una misma perspectiva: la unidad que existen entre las Sagradas Escrituras para comprender este nuevo mensaje.

La Biblia y la nueva alianza

Un punto importante de resaltar es la definición de la Biblia, no tanto por su lado etimológico, pero, por sobretodo, en el sentido de una “captación de Dios por experiencia”: así, como San Juan escribe en su Evangelio (Jn 20, 30-31), este fue escrito para “que creáis que Jesús es el Cristo el Hijo de Dios”. Por lo que la Biblia va mucho más allá que una simple compilación de libros como los judíos entienden la Torah. Ya que, como sabemos, los fariseos consideran sus escritos en el sentido de una ley, y como un manual de vida. Así, el mensaje de Salvación que Jesús transmite en las Escrituras llama sobretodo a una imitación por experiencia, imitación que realiza por medio de una nueva alianza con los hombres en un sentido mucho más amplio y universal ¿Y cómo Dios quiere transmitir esta nueva alianza con los hombres? “Esta será la nueva alianza que yo haré […] imprimiré mi Ley en sus entrañas, y la grabaré en sus corazones” (Jr 31,33). Así, de este modo, Dios Padre cambia el modo por el cual se relaciona con el pueblo elegido: ya no es la ley antigua, mas es la ley nueva donde, como escribe el Apóstol “No soy yo el que vivo, sino Cristo que vive en mi” (Gal 2,19-21), por lo tanto, es el propio Jesús que, tanto por medio de la liturgia como de los sacramentos, está presente en la vida de los hombres.

Fundación de la nueva alianza: la caridad cristiana

Ahora, ¿Cómo se funda esta nueva alianza? Esta alianza está fundada en una novedad para la época de Cristo: la caridad cristiana. Caridad que ya no toma como base la ley de la venganza que regía a los pueblos de la época, e inclusive a los propios judíos. Pero, por otro lado, Jesús trae la ley del perdón (Mt 18, 22): ya no son sólo 3 veces, mas 70 veces 7, por lo tanto, no tiene límite. Así, el fundamento de la nueva alianza es el amor.

A Lei da Caridade viva

Así, tenemos que Jesús es la plenitud de la Revelación donde Él no se ocupa solamente en el cumplimiento de una promesa, sino que al desbordamiento de afecto y de amor que no tiene comparación con la promesa que nos hizo.

Ejemplos en los Santos Evangelios

Un ejemplo de este desdoblamiento de amor lo podemos leer en San Lucas, (Cf. Lc 6, 27-29), cuando Él propio nos enseña a amar a nuestros enemigos, de cuando nos hieren una mejilla, de ofrecer la otra por amor, un amor en el sentido efectivo, no necesitando de la afectividad de quien lo recibe. Otro ejemplo nos lo da San Marcos (Cf. Mc 2, 1-12) cuando Jesús cura el paralítico que baja del techo no tanto por su propia Fe, pero, por el contrario, fue por la Fe de aquellos que lo cargaban que Jesús operó el gran milagro de, por una parte, curar su enfermedad, y por otra, de perdonar los pecados de este hombre.

Unidad de las Sagradas Escrituras

De este modo, tenemos ejemplificado por medio de los Evangelios la fundación de esta nueva alianza. Ahora, es necesario que esta nueva relación entre Dios y los hombres se manifieste por medio de los enseñamientos de Cristo, y para esto, es sumamente importante comprender las Escrituras en orden a la Salvación de los hombres, y así, ver la unidad existente en las Sagradas Escrituras.

Como dice DV 11, “las verdades de las sagradas Escrituras son en el orden de la salvación. Como comunión con Dios”. Precisamente, aquí podemos ver cómo la Sagrada Escritura se ordena a la salvación de los hombres, y por lo tanto, en comunión con Dios. Por lo tanto, para leer correctamente la Biblia es necesario que se haga en función de Jesús, y a partir del mensaje dejado por Él, leer el resto. Así, el Antiguo Testamento tiene que ser considerado en relación al Nuevo, o por el contrario, haríamos como cuando un judío lee la Biblia hebrea. Y de esto se desprende que, del mismo modo que debemos leer el Nuevo y Antiguo Testamento, hay que hacer una lectura basada en el contexto histórico en que el Salvador vivió entre los hombres. Y así, estar continuamente considerando los diferentes acontecimientos dentro de un conjunto, para no caer en el error de no entender el mensaje evangélico de Jesús

Nueva alianza y unidad de las Sagradas Escrituras

Así, para entender esta nueva alianza y este nuevo mensaje traído por el Salvador, hay que hacerlo considerando a las Sagradas Escrituras como una unidad en orden a la salvación de los hombres, como escritos inspirados por el divino Espíritu Santo, y de este modo, como el vehículo utilizado por Dios para poder transmitir a los siglos futuros este mensaje de ágape, de caridad cristiana que gobierna y que gobernará hasta el fin de los tiempos el trato entre los hombres. Y no solamente el convivio entre los hombres, pero por sobretodo, el desarrollo de la Santa Iglesia, como institución divina fundada por Él mismo.

Bombonieres para portar homens

O pecado é a conversão às criaturas, diz São Tomás (Cf. ST I-II, q. 72, a. 6, ad 3). Sendo o homem criado para servir, amar e glorificar a Deus, tudo aquilo que o afasta deste fim deve se rejeitado, assim como aceito aquilo que o aproxima.

Ora, o homem não é constituído, como os anjos, apenas de espírito, mas de corpo e alma. Portanto, é mister o emprego de elementos materiais para viver segundo sua natureza própria.

Pareceria haver nisto uma contradição. Se o pecado é a conversão às criaturas, como pode ser que esteja em sua natureza utilizar-se destas sem pecar?

Deus é a Sabedoria em substância e não poderia criar uma aberração, por isso havendo alguma falha, devo procurá-la em meu conceito, não em Deus.

O homem não só pode, mas deve utilizar-se das criaturas materiais que estão ao seu alcance, como determinou o próprio Deus no Gênesis “Frutificai e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra. Eis que eu vos dou toda a erva que dá semente sobre a terra, e todas as árvores frutíferas que contêm em si mesmas a sua semente, para que vos sirvam de alimento. E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus, a tudo o que se arrasta sobre a terra, e em que haja sopro de vida, eu dou toda erva verde por alimento”. (Gn 1, 28-30)

Qual é o erro então? A resposta é simples: Deus é o fim último do homem, e todas as outras criaturas apenas meios que devemos utilizar para mais facilmente atingir o nosso fim. Por isso, se segue, segundo Santo Inácio “que o homem tanto delas deve usar quanto o ajudam para seu fim, e tanto deve delas se afastar, quanto se lho impeçam.” (Exercícios Espirituais, 23)

Por que Deus quer que subamos até Ele deste modo? Sendo Ele a Humildade, prefere agir através de causas segundas, dando ao homem capacidade de tomar as criaturas no seu estado originário e, trabalhando-as, “criar” verdadeiras maravilhas. Estas obras saídas das mãos humanas bem podem ser chamadas, segundo a eloqüente expressão de Dante, as netas de Deus.

Uma das vias para se chegar ao conhecimento de Deus, segundo o Doutor Angélico, é a que nos dá os diferentes graus de perfeição, por exemplo de nobreza, das criaturas (Cf. S.T., I, q.2, a.3, s.). Ora, se a nobreza nos dá provas da existência de Deus, quanto mais ela aproximará d’Ele os que já O conhecem.

A nobreza é um elemento muito eficaz para elevar o homem até seu Criador e deve ter um lugar especial na mente humana para que suas obras mais perfeitamente o levem ao seu fim.

Um eloqüente exemplo disto são as carruagens do Ancien Regime, verdadeiras bombonieres para portar homens. Como é nobre que o homem ao invés de se deslocar daqui para lá caminhando, use meios como esta magnífica carruagem. É verdade que ela não tem nem de longe a capacidade de velocidade que existe nos automóveis de nossos dias, mas talvez isso seja mais uma de suas vantagens.

Bomboniere para portar homens

A velocidade automobilística foi criada para solucionar problemas, por ela criados, e que antes dela não existiam. Enquanto que a carruagem, pelo contrário, é lenta, mas esparge um ar de leveza e de serenidade para quantos a olham. É nobre, distinta e elegante.

Qual era o estado de espírito do homem que andasse nessa carruagem? Placidez, elevação de espírito, delicadeza de alma, fortaleza de pensamento. Provavelmente diferente do homem moderno, não viveria com as preocupações de que nós estamos encharcados, até quase diríamos ser ele feito de porcelana.

Mesmo a posição em que ficava o cocheiro elevava sua pessoa e sua profissão, dando aos transeuntes um belo espetáculo de dignidade e respeitabilidade.

 

O homem que a idealizou tem a alma rica em amor de Deus

E como seria o homem que a idealizou? Alma rica em amor a Deus, cheia de sabedoria no mais alto sentido da palavra, isto é, um conhecimento saboroso das coisas divinas (S. T. I q.43 a.5 ad 2). Não imperava nele o desejo do lucro ou da fama, mas sim a intenção de fazer refletir um aspecto de Deus e elevar as almas de quantos utilizassem ou vissem aquela carruagem.

Talvez isso não fosse explícito em seu espírito, mas de tal maneira a sociedade de então vivia tendo Deus no centro de todas as coisas que tudo quanto se produzia saia quase espontaneamente maravilhoso. Que época diferente da que vivemos…

Qual é a vantagem de fabricar um meio de locomoção lindo, mas de pouca utilidade prática, e que além disso poderia até custar mais caro? Imaginemos que alguma casa de chocolates famosa no mundo tomasse uma dessas carruagens e estilizasse caixas de chocolate com essas formas e colocando nelas os seus bombons mais requintados. Não seria considerada uma idéia originalíssima? Sem dúvida… e teria uma grande saída. Por quê? Porque a alma humana tem sede das coisas belas, pois tem sede de Deus, Beleza absoluta.

Pois bem, muito mais do que extraordinários bombons, digna é a natureza humana na qual Deus concentrou, como num microcosmos (ROYO MARÍN, Teología de la Perfección Cristiana, 82), os diferentes graus da Criação, e que Ele tanto amou que Se dignou encarnar para por ela sofrer e assim resgatá-la de sua terrível queda em nosso pai Adão.

Bem poderíamos nos perguntar qual dos meios de locomoção nos conduz mais ao nosso fim que é Deus. Quem ousaria dizer que é o último modelo de carro moderno? As criaturas devem ajudar o homem a encontrar a felicidade relativa aqui na terra a espera daquela sem fim que o aguarda no Céu. Para isso nada melhor que habituar-se, através de belezas efêmeras, à Beleza eterna que nos espera de braços abertos na eternidade.

A Castidade Consagrada

   A invenção do balão, no ano de 1793, foi um acontecimento mundial. Era quase impossível acreditar que um objeto de tal tamanho pudesse vencer a implacável lei da gravidade, voando sem amarras, peregrinando pelos ares, permitindo contemplar panoramas desde alturas inimagináveis… Sim, até lá conseguiu chegar o engenho humano! Ora, tudo na Criação tem uma finalidade, não somente material, mas também no plano espiritual e simbólico, pois o Universo saiu das mãos de um único Ser, infinitamente inteligente e perfeito. Não era possível existirem essas leis sem que contivessem sábias analogias em relação a criaturas superiores.

   Com efeito, a tendência de os objetos caírem talvez seja uma imagem desejada por Deus, para dar a entender ao homem o quanto a sua natureza, depois do Pecado Original, tornou-se propensa à queda: “à semelhança de nosso corpo, padecem as almas de uma espécie de lei da gravidade espiritual por onde nos sentimos atraídos para o mais baixo, o mais trivial, o que nos exige menos esforço”.[1] Por outro lado, a mencionada lei física capaz de vencer a gravidade, também é imagem de uma realidade superior, a qual foi dada a conhecer aos homens muito antes do descobrimento do balão. Nosso Senhor Jesus Cristo foi o grande “descobridor”, ou melhor, o portador de uma nova lei, capaz de retirar-nos do abismo ao qual o pecado nos atirara: a Lei da Graça.[2] Ela é capaz de elevar as almas a altitudes inatingíveis pelo esforço natural, fazendo-as ganhar a batalha contra as inclinações que continuamente as arrastam para o mal.

   A Graça é o remédio apropriado para corrigir em nós o desregramento das paixões, sobretudo a “concupiscência da carne” (1 Jo 2, 16), a qual leva a humanidade a ofender a Deus com maior frequência. Cristo veio consagrando dois caminhos que regulam a veemência desse instinto: o Sacramento do Matrimônio e a castidade consagrada. Em relação à segunda, o Divino Mestre afirmou ser um estado de vida reservado para poucos e, assim, nem todos conseguem compreendê-lo, “mas somente aqueles a quem é concedido” (Mt 19, 11). Os que o abraçam “por amor do Reino dos Céus” (Mt 19, 12), prenunciam nesta Terra a Bem-aventurança celeste, por isso, esse estado recebe o nome de celibato, termo que visa expressar certa participação na felicidade do Céu, segundo a etimologia dada pelo historiador romano Julius Valerianus: caeli beatus.[3]

   A virtude da castidade visa reprimir “tudo quanto há de desordenado nos prazeres voluptuosos”,[4] os quais são moralmente ilícitos quando buscados por si mesmos,[5] porque eles só existem com vistas a um fim principal: “perpetuar a raça humana, transmitindo a vida pelo uso legítimo do matrimônio. Fora dele, toda luxúria é estritamente proibida”.[6] Ora, a vocação para a castidade consagrada pede uma doação completa, através desse “vínculo sagrado”,[7] o religioso entrega a Deus o corpo com todas as suas faculdades, oferece-se em holocausto,[8] renuncia por amor às leis da carne e vencendo-as com o auxílio da divina Graça.

    Essa sublimação da natureza humana é incomparavelmente superior ao voo de um balão que percorre as alturas do firmamento e derrota a lei da gravidade, pois é “angelizar” o homem (Cf. Mc 12, 25), desafiar as forças do mal, com Cristo, vencer o mundo (Cf. Jo 16, 33)! A castidade perfeita faz voar pelos horizontes da vida sobrenatural, causando incompreensão em muitas pessoas não chamadas a vivê-la, as quais podem se perguntar: “como é possível a uma natureza tão material e débil elevar-se a essas altitudes da espiritualidade, livrar-se das amarras da carne e preocupar-se apenas com a contemplação dos sagrados panoramas da Religião?”. O Divino Mestre é quem lhes dá a resposta: “Quem puder compreender, compreenda” (Mt 19, 12).

   O Apóstolo São Paulo também defendeu claramente o “dom divino”[9] da castidade, pois – conforme disse – “os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências” (Gl 5, 24). Escrevendo aos de Corinto, afirmava: “A respeito das pessoas virgens, não tenho mandamento do Senhor; porém, dou o meu conselho, como homem que recebeu da misericórdia do Senhor a graça de ser digno de confiança. […] Quisera ver-vos livres de toda preocupação. O solteiro cuida das coisas que são do Senhor, de como agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo, procurando agradar à sua esposa. A mesma diferença existe com a mulher solteira ou a virgem. […] Digo isto para vosso proveito, […] para vos ensinar o que melhor convém, o que vos poderá unir ao Senhor sem partilha. […] E creio que também eu tenho o Espírito de Deus” (1 Cor 7, 25. 32-34. 35. 40).

   Como conservar a castidade?

  Conseguir o domínio de si requer uma existência inteira e “nunca poderá considerar-se total e definitivamente adquirido. Implica um esforço constantemente retomado, em todas as idades da vida (Cf. Tt 2, 1-6). O esforço requerido pode ser mais intenso em certas épocas, como quando se forma a personalidade, durante a infância e a adolescência”,[10] sendo que a vitória se encontra na conquista do coração, pois é nele onde pode nascer a impureza (Cf. Mt 5, 28; 15, 19). Em realidade, a luta para conservar a castidade é travada principalmente no interior. O Evangelho proclama bem-aventurados “os puros de coração” (Mt 5, 8), ou seja, aqueles que transformaram a sua mentalidade e o seu querer, a fim de se adaptarem às exigências da própria vocação,[11] abandonando os hábitos censuráveis daquele que “têm o entendimento obscurecido, e cuja ignorância e endurecimento de coração mantêm-nos afastados da vida de Deus; indolentes, entregam-se à devassidão, à prática apaixonada de toda espécie de impureza” (Ef 4, 18-19).

   A pureza é como um valioso objeto de cristal, muito delicado, o qual deve ser carregado com extremo cuidado, para poder conservá-lo intacto. Inúmeros recursos naturais e sobrenaturais existem ao nosso alcance, com vistas a resguardar a virtude angélica.


[1] Clá Dias, João Scognamiglio. “Voar sem amarras!”. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Abril, n. 105, set. 2010, p. 10.

[2] Cf. São Tomás de Aquino. Suma Teológica. I-II, q. 106, a. 1 e 2.

[3] Cf. Bautista Torelló, Joan. Scripta Theologica 27. Navarra: Universidade de Navarra, 1995, p. 282.

[4] Tanquerey, Adolphe. Compendio de Teología Ascética y Mística. Tradução de Daniel García Huches. Bélgica: Desclée, 1960, p. 707.

[5] Cf. Catecismo da Igreja Católica. n. 2351.

[6] Tanquerey. Op. Cit., p. 707.

[7] João Paulo ii. Vita consecrata. n. 14.

[8] Cf. São Tomás de Aquino. Suma Teológica. II-II, q. 186, a. 1.

[9] Catecismo da Igreja Católica. n. 2260.

[10] Catecismo da Igreja Católica. n. 2342.

[11] Cf. Catecismo da Igreja Católica. n. 2517.

 

Sebastián Correa Velásquez/ 3º Teologia

O Carisma dos Fundadores (Continuação)

   O Papa Bento XVI segue, desde há muitos anos, com paixão de teólogo e de pastor, o fenómeno dos movimentos e das novas comunidades que nasceram na Igreja depois do Concílio Vaticano II. Os seus primeiríssimos contatos com estas realidades eclesiais remontam a meados dos anos 60, quando ainda era professor em Tubinga. Depois, com o passar do tempo, essas relações intensificaram-se e aprofundaram-se, transformando-se numa verdadeira amizade (2007, pp. 25-26).

   Porém não foi apenas por uma experiência pessoal que Bento XVI se converteu em um ponto de referência para os novos movimentos. Dado o importante papel que exerceu ao lado de João Paulo II como prefeito da Congregação para a a Doutrina da Fé, podemos considerá-lo um fiel intérprete do magistério dos movimentos eclesiais.

   Passemos então a abordar a inspiração dos Fundadores. Na abertura do Congresso Mundial dos Movimentos Eclesiais em 1998 (quando ainda era o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé), ao comparar o nascimento da ordem franciscana com o nascer de um novo “movimento” o Cardeal Ratzinger assinalou a presença de uma inspiração personalizada na base dos movimentos religiosos:

   Talvez possamos identificar com a máxima clareza um movimento no sentido próprio no desabrochar franciscano do século XIII. Na sua maioria, os movimentos nascem de uma carismática personalidade-guia, configurando-se em comunidades concretas que, em virtude da sua origem, revivem o Evangelho na sua inteireza e, sem hesitações, reconhecem na Igreja a sua razão de vida, sem a qual não poderiam subsistir (ibid, pp. 55-56).

   Vejamos os desdobramentos da realidade teológica chamada pelo Papa de “carismática personalidade-guia”, que está na origem dos movimentos religiosos. Inicialmente devemos considerar o carisma dos Fundadores como algo que a Igreja assume como próprio quando aprova uma nova forma de vida religiosa. De acordo com Romano, o carisma dos fundadores tem uma dupla dimensão. Por um lado o Fundador, consciente de sua dependência total à Igreja, espera que ela reconheça e acolha seu carisma. Por outro lado, a Igreja vê um novo fruto do Espírito Santo, e o quer preservar de qualquer modo. Essa identidade com a Igreja é fundamental para o Fundador, pois dá a ele a certeza de que o espírito o qual o move, que o impulsiona no sentido de criar novos estilos de vida, e que o inflama com um “fogo profético”, é o mesmo Espírito Santo da Igreja. Ademais, por outro lado, isso fortalece as relações com seus discípulos, pois com frequência na vida dos Fundadores “não há ninguém capaz de compreender totalmente a novidade e a profundidade do que ele é e do que ele contém em si” (Cf. ROMANO, 1991, pp. 72-73).

   Este assunto é tão fundamental que uma das preocupações de Bento XVI sempre foi acolher e preservar com carinho as novas famílias religiosas, deixando claro que, junto com as igrejas locais, elas fazem parte da própria estrutura viva da Igreja. E, portanto, é necessário preservar esses novos dons para edificação de toda a mesma Igreja.

   Depois de ter sido eleito Papa, Bento XVI não cessou de manifestar o seu afeto e a sua atenção pastoral a estas novas realidades. Bastará recordar as suas palavras dirigidas aos jovens reunidos em Colónia em Agosto de 2005 para celebrar o vigésimo Dia Mundial da Juventude:

  “Formais comunidades na base da fé! Nos últimos decénios, nasceram movimentos e comunidades em que a força do Evangelho se faz sentir com vivacidade”. E as que sempre disse aos bispos alemães sobre o tema dos movimentos – “A Igreja deve valorizar estas realidades e, oportunamente, guiá-las com sabedoria e prudência pastorais, para que, com os seus diversos dons, contribuam da melhor maneira para a edificação da comunidade” –, acrescentando um pormenor importante: “As igrejas locais e os movimentos não se opõem mutuamente, mas constituem a estrutura viva da Igreja” (BENTO XVI, 2007, p. 29).

   O tema da inserção eclesial dos novos carismas é muito complexo e não se relaciona diretamente com nosso assunto. Contudo desperta a atenção o aviso que o Papa faz aos bispos sobre a necessidade de valorizar tais realidades e saber guiá-las com sabedoria. De fato, com frequência nos deparamos na História com fatos em sentido contrário que tantas incompreensões e mal-entendidos produziram. É o que nos explica ROMANO:

   A fim de que a inserção de uma comunidade religiosa no tecido da Igreja local seja autêntica e conforme a inspiração do Espírito, existe o direito, por parte da autoridade eclesiástica, de discernir os carismas e, portanto, aprová-los. (…) Esta é uma enorme responsabilidade, que leva Girardi a afirmar que as pessoas aptas para verificar a iniciativa do Espírito deveriam tomar maior consciência disso para pôr mais atenção e munir-se de uma doutrina apropriada que permita interpretar verdadeiramente o impulso do Espírito. Se, por exemplo, um bispo nada soubesse a respeito da teologia dos carismas, como seria capaz de interpretar esses dons do Espírito? Essa é a razão da existência de tantos entraves na Igreja. Contudo, isso também forma parte do desígnio de Deus, desígnio misterioso… que permite que seus dons passem sempre através de um caminho Pascal de sofrimento e purificação. Assim como outros autores, Girardi situa a autenticidade de um carisma dentro da constante histórica da Cruz como verdadeiro critério e garantia de fecundidade (op. cit. pp. 27-28, 132, tradução minha).

   Essa inserção não deve ser entendida como uma perda da própria identidade, mas, pelo contrário, a Igreja sempre insistiu na necessidade de salvaguardar cada carisma. Isto é feito com normas concretas dadas tanto às autoridades eclesiásticas como aos membros de cada família religiosa.

   Igualmente, “corresponde à dita autoridade a obrigação de respeitá-los [os novos carismas], e, conseqüentemente, acolhê-los e conservá-los tal como foram dados pelo Espírito Santo. Cada um dos institutos tem direito à sua própria autonomia a fim de manter íntegro seu patrimônio espiritual e institucional; mais ainda, há o dever fundamental – tanto dos institutos em si como de cada um de seus membros – de conservar o carisma original, mesmo que seja preciso adaptá-los às mutantes exigências históricas da Igreja e do mundo.” (cc. 574, § 2; 576; 578; 586; 677 § 1)

   Mantendo-se um instituto fiel a seu carisma e sendo respeitado por todos – inclusive pela autoridade hierárquica – por essa fidelidade, mais autêntica e eficaz será sua inserção na vida da Igreja, pois esta se realizará conforme a inspiração do Espírito”. Ghirlanda G., La vita consagrata nella vita della Chiesa, en Informationes SCRIS (2/1984)88.4 Podemos então chegar a uma conclusão: o Fundador pede o reconhecimento eclesial de seu carisma porque é consciente de ser o portador de um novo dom dentro do Corpo Místico. E a Igreja, ao concedê-lo, confirma a existência de um novo carisma, de uma nova inspiração do Espírito Santo, a ser desenvolvida para o bem do Povo de Deus.

 

   BIBLIOGRAFIA

   BENTO XVI. Os Movimentos na Igreja – presença do Espírito e esperança para os homens. S. João de Estoril: Lucerna, 2007.

   ROMANO, Antonio. Los fundadores profetas de la Historia – la figura y el carisma de los fundadores dentro de la reflexión teológica actual. Madrid: Claretianas, 1991.

   CIARDI OMI, Fabio. Los fundadores, hombres del espíritu. Para una teología del carisma del fundador. Madrid: Ediciones Paulinas, 1983.

   _____. Experiencia comunitaria de los fundadores. Vida Religiosa. Madrid, vol. 74, n. 1, enero, 1993.

   _____. Riscoperta dei carismi dei fondatori. Vita Consacrata. Milano, n. 29, junio, 1993.

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Pe. Santiago Canals, E.P., Doutor. em Teologia

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O Carisma dos Fundadores

   Houve um Fundador que, pertencente à melhor estirpe real, veio a este mundo na mais humilde das condições. Passou a maior parte da existência terrena na obscuridade, preparando Sua curta vida pública. Ao empreender a atividade apostólica, abalou Ele com a doutrina que ensinava inúmeros conceitos de Sua época, sem temer a reis, a imperadores ou a pontífices. Defendeu Sua religião e filosofia em praças públicas, diante de multidões, conferindo, por meio de milagres inimagináveis, aval às Suas palavras. Por onde passou deixou as indeléveis marcas de Sua bondade, reconciliando com Deus cada um dos que lhe pediam a mediação. Por Sua ilimitada misericórdia pertransivit benefaciendo (At 10, 38): passou por este mundo fazendo o bem, mas apesar disso foi condenado ao mais infamante tipo de morte daquele tempo, ao ser levado ao patíbulo. Do alto da cruz, atraiu o mundo inteiro a Si (Jo 12,32).

   Os Fundadores de famílias religiosas são reflexos dos múltiplos aspectos de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Sua missão. Porém estudá-los não é fácil e simples. Vários autores que tratam do assunto deixam claro que esse tema não foi satisfatoriamente estudado ao longo da História face à sua enorme complexidade, pois estudar os Fundadores pode ser comparado a adentrar os mistérios do próprio Deus (Cf. ROMANO, 1991, pp. 63-64).

   É muito significativa a dificuldade encontrada pelo Pe. Antonio Romano. Na elaboração de seu aprofundado estudo sobre o tema afirma ele não ter achado em nenhum dicionário anterior à primeira metade do século XX – eclesiástico ou não – referências ao termo “fundador”. De modo análogo, quase não encontrou ele documentos da Igreja com informações claras para a compreensão jurídica desse vocábulo (Cf. ROMANO, 1991, pp. 34-35). Outra evidência de ser o tema “fundadores” de estudo recente na Igreja é a constatação de que apenas em 1947 foram estabelecidos os requisitos necessários para que alguém possa ser considerado Fundador de uma família religiosa. Assim, conforme documento emanado da Sagrada Congregação dos Ritos.

   Para se designar alguém Fundador ou Fundadora de uma família religiosa exige-se, antes de tudo, que tal pessoa tenha reunido em torno de si um núcleo, ainda que pequeno, de seguidores, de lhes ter fixado uma meta específica; em segundo lugar, ter deixado leis ou regras – por escrito ou oralmente – especificando a meta e os meios para a alcançar. Há ainda outra observação que se pode fazer: quando um fundador toma como base uma regra anterior já aprovada, então o autor desta se torna o Patriarca ou pater desse instituto religioso. Assim, por exemplo, São Bento é o Patriarca de todas as famílias monásticas que têm como fundamento a regra beneditina; São Francisco de Sales é o Pai dos salesianos, porque São João Bosco se inspirou na legislação e nos escritos do Santo Doutor. Outros exemplos poderiam amplamente se multiplicar. SCR.SH.66, Nova Inquisitio, XVII .

   É certo, porém, que sob o ponto de vista carismático-teológico os Papas sempre consideravam os Fundadores como homens inspirados pelo Espírito Santo, apesar de tal tema não ter sido estudado em profundidade sob o aspecto jurídico (Cf. ROMANO, 1991, p. 65-67, 71). Foi Paulo VI quem pela primeira vez, em um documento do Magistério oficial (Evangelica Testificatio), confirmou essa doutrina ao utilizar a expressão carisma dos fundadores: “Só assim podereis despertar de novo os corações para a Verdade e para o Amor divino, segundo o carisma dos vossos Fundadores, suscitados por Deus na sua Igreja” (PAULO VI, 1971, n.p.). Do mesmo modo, o Papa João Paulo II lançou mão dessa expressão em diversos documentos, como, por exemplo, na Mensagem à XIV Assembleia Geral da Conferência dos Religiosos do Brasil: “Anima-vos aquilo que é o sentido ínsito à vida consagrada: crescer no conhecimento e no amor, para serdes testemunhas e profetas de Cristo no mundo de hoje, em fidelidade dinâmica à vocação religiosa e ao carisma dos vossos Fundadores” (JOAO PAULO II, 1986).

   Entre os papas, um se destaca por ser conhecedor das profundas realidades eclesiais produzidas pelo Espírito Santo: Bento XVI. Desde muito antes de sua ascensão ao trono pontifício o Cardeal Ratzinger já observava e acompanhava o surgimento de novos movimentos no seio da Igreja. É esse o testemunho do Presidente do Pontifício Conselho para os Leigos, Cardeal Stanislaw Rylko, dado na introdução de uma obra de Bento XVI:

(Se almeja conhecer a continuação do artigo, não perca a próxima publicação)

Pe. Santiago Canals, E.P., Doutor em Teologia

A Bíblia, muito conhecida, pouco lida…

            A Bíblia é o livro mais famoso entre as sucessivas épocas da História pós-apostólica. Ela foi um dos primeiros livros a ser impresso, um dos mais traduzidos e certamente o mais divulgado. Entretanto, esta colecção de pequenos livros, tão mencionada entre os homens, talvez seja das menos lidas na sua totalidade. Tal realidade pode derivar do facto de que o Senhor tenha preferido escrever nos corações do que em papiros, pela constante leitura de trechos seleccionados nas liturgias cristãs, ou ainda pelo seu volume, o qual pode desanimar alguns, menos assíduos à leitura, a percorrê-la por completo.

            A verdade é que todas estas situações somadas envolvem muitas vezes o trabalho da teologia bíblica em brumas e temores. Entender o significado mais profundo das palavras, encontrar paralelos dos trechos em folhas vetero ou neo-testamentárias, ou até descobrir que passagens podem ajudar a compressão de outras, nem sempre é fácil. Assim ficamos admirados quando ouvimos contar que certos Padres ou Doutores da Igreja, como São Tomás de Aquino, sabiam as Sagradas Escrituras de cor, citando-as sem necessidade de consulta.

            Contudo, acreditando firmemente que tais homens podiam exercer qualquer uma das atividades da teologia bíblica acima descritas com desembaraço, a verdade é que, às vezes, é um pouco difícil imaginar como isso poderia de facto acontecer. Com o curso  de Introdução à Teologia Bíblica ministrado pelo Pe. Hernán Cardona no Instituto Teológico Aristotélico Tomista, de 13 a 17 de maio, tal objecção começou a mudar de semblante. Não só ele soube expor-nos com clareza, simplicidade e profundidade, os temas propostos, como também elucidou-nos acerca de dúvidas bíblicas surgidas ao longo de nossas vidas, citando trechos da Bíblia, de seus variados livros, sem qualquer necessidade de pesquisa. Os temas ensinados pelo professor em sala de aula, fizeram não só os ouvintes entender melhor a palavra de Deus, mas sobretudo, tomar contacto, sentir e crescer em amor em relação à própria pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Sérgio António Freitas Nunes; 1º Teologia

Entrevista com Prof. Anthony J. Cernera, Presidente da Federação Internacional das Universidades Católicas (FIUC)

Anthony CerneraO Prof. Dr. Anthony J. Cernera é Presidente da FIUC, doutor em teologia e foi presidente da Universidade Sagrado Coração (Sacred Heart University), em Fairfield, Connecticut, EUA, de 1998 a 2010, sendo atualmente professor de Estudos Religiosos nesta instituição. Sob sua liderança, a universidade conseguiu dobrar o número de estudantes de graduação, criar mais de uma dezena de programas, incluindo doutorado em Fisioterapia, além de estabelecer novos campi em Luxemburgo e Irlanda.

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Durante três anos, Anthony J. Cernera foi eleito presidente da Conferência de Faculdades Independentes de Connecticut, sendo ainda diretor da Associação Nacional de Faculdades e Universidades Independentes e da Associação de Faculdades e Universidades Católicas.

Anthony J. Cernera é diretor fundador e membro do comitê executivo do Global Virus Network, rede internacional formada pelos 27 principais centros de pesquisa em vírus na internet. É diretor da Fundação Stem for Life, que financia pesquisas em desenvolvimento de terapias com células-tronco adultas. Participa ainda da diretoria de outras fundações e ministra palestras sobre identidade católica e diálogo inter-religioso. Leigo, nascido em 1950 é descendente de emigrantes italianos de Nápoles e da Calábria.

1- Que pontos de aprofundamento nas relações entre Fé e razão o Prof. Anthony Cernera, Presidente da Federação Internacional das Universidades Católicas, recomenda para os pesquisadores nesse início do segundo decênio do século XXI?

Prof. Anthony Cernera: O maravilho caminho que nos pode guiar nesse ponto, é a missão de congregar os educadores em todo o mundo. Nós necessitamos aprender uns dos outros sobre as diferentes culturas que os estudantes vivem, e mais especialmente nas relações entre fé e cultura. O diálogo entre a fé e a cultura, da fé e da ciência, deve ser sustentado onde está a universidade católica. Assim os pesquisadores de mais de 200 universidades católicas dedicam-se a isto nessa semana esperando assim, em fraterna união, aprimorar o diálogo entre as culturas e a fé.

2. Qual o principal obstáculo para reunir todas as universidades católicas sob o ideal defendido pela FIUC, visto que ela congrega cerca de 20% das universidades católicas do mundo?

Prof. Cernera: Algumas universidades não apreciam o valor e a importância de estar conectadas com organizações globais. Algumas universidades não são capazes de compreender a dimensão internacional própria à nossa identidade católica. Há de se ajudar as pessoas a entender que ser católico, além de significar estar unidos entre si num país particular, significa sobretudo estar inserido no grandioso contexto da Igreja Universal. Alguns não apreciam isso. No entanto, embora haja algumas universidades que não sejam membros formais da federação, estamos em contato direto e indireto com todas as universidades católicas do mundo.

3- No mundo moderno há um dilema entre a ética pós-moderna e a ética cristã. O que a Federação orienta aos seus membros sobre essa perspectiva?

Prof. Cernera: A imagem que poderíamos usar para esse problema, é que as Universidades Católicas devem construir pontes. Não devemos procurar as diferenças, mas os lugares nos quais podemos começar um diálogo. Onde não há diálogo, não há possibilidade para as pessoas de nossos dias participarem na vida da Igreja. Assim, nossa responsabilidade de evangelizar consiste sobretudo na missão de construir pontes de diálogo, de comunicação, e mais especialmente nos pontos que temos em comum, e a eles devemos nos dedicar. Assim penso que as universidades católicas devem sempre encontrar pontos de diálogo a fim de dizer uns aos outros o que se pode ensinar e o que se pode aprender.

4- O que a Federação propõe de programas para os membros das instituições federadas na FIUC?

Prof. Cernera: A Federação Internacional de Universidades Católicas está mais especialmente voltada para os reitores das universidades, mas há também grupos setoriais que congregam professores de psicologia, educação, teologia e filosofia. Eles se reúnem para aprimorar as relações entre os professores e os alunos. Assim há um trabalho voltado aos professores, enquanto que com os estudantes o trabalho é bem reduzido. O foco principal da federação são de fato os reitores das universidades.

Junto aos diretores visamos aprimorar sua formação espiritual no seio da faculdade em vista dos estudantes. Procuramos desenvolver programas com os diretores para o aprimoramento de seus campus. Por exemplo, nos Estados Unidos, temos cerca de 220 universidades católicas, nas quais há a possibilidade de que os estudantes cursem teologia, mas em outras partes do mundo, os cursos de teologia não estão presentes na grade curricular. Nós tentamos encorajar as instituições filiadas a implantar os cursos de teologia ao lado de seus excelentes programas de Engenharia, Educação e Direito. Dessa forma pode-se engajar os estudantes nas tradições teológicas e espirituais para que as universidades católicas possam ser completamente católicas em vista de formar profissionais melhores, e sobretudo, pessoas melhores. Nossa missão também é encorajar os reitores a refletir sobre esse ponto.

Autor: Marcos Melo

Revisão: Guy de Ridder

Entrevista com Cardeal Odilo Pedro Scherer e líderes da FEI por ocasião da 24ª Assembleia Geral da Federação Internacional das Universidades Católicas (FIUC)

Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo e membro de várias Congregações Romanas, após concelebrar a Solene Eucaristia de abertura da 24ª Assembleia Geral da FIUC, no dia 23 de julho, fala sobre a missão das Universidades Católicas na arquidiocese de São Paulo.