Tomás de Aquino: mais sábio ou mais santo?

Diác. Inácio de A. Almeida, EP

Introdução

Desde o alvorecer do Cristianismo, a Bíblia tem sido considerada a principal fonte de inspiração de insignes artistas e literatos. Segundo Donoso Cortés, é por meio dos textos bíblicos que os gênios da arte aprendem “o segredo de elevar os corações e arrebatar as almas”.[1]

Assim, os artistas “maravilhados com o arcano poder dos sons e das palavras, das cores e das formas”,[2] deram origem ao que veio a ser denominado de arte sacra. Muitos séculos se passaram e ainda hoje considera-se a Bíblia uma fonte inesgotável de inspiração artística, pois ela é este “livro prodigioso em que o gênero humano há trinta e três séculos começou a ler, e após lê-lo todos os dias, todas as noites e todas as horas, ainda não acabou sua leitura”.[3]

Numerosas são as representações bíblicas no âmbito da pintura, da escultura e da arquitetura. Na arte musical, por exemplo, percebe-se o poder arrebatador da música quando os textos bíblicos se unem a melodiosas harmonias como na obra O Messias, de Händel, ou no Oratório de Natal, de Schütz.

Entretanto, esta feliz união de “belos acordes” com a “Palavra de Deus revelada” não se encontra somente representada nas grandes composições da música sacra, pois, segundo São Francisco de Sales, “o Evangelho é como uma música escrita, enquanto a vida dos santos é esta música cantada”.[4]

Por tal razão, bem podemos afirmar que a existência de São Tomás de Aquino foi um contínuo cântico de amor e de louvor a Deus. Ao término dos seus 49 anos de vida, deixou-nos como herança a bela sinfonia de seus escritos, embora o mais importante legado do Angélico ao mundo tenha sido, sobretudo, o seu harmonioso exemplo de santidade.

A partir disso, visamos no presente artigo não tratar apenas a respeito da doutrina de São Tomás de Aquino, mas especialmente apresentar algumas características de sua vida e santidade, pois, quando se conhece o autor, melhor se compreende sua obra. “Os exemplos movem mais do que as palavras” — assegurava o Aquinate,[5] e, no intuito de ressaltar essa magnífica tese,  voltar-nos-emos mais ao seu exemplo pessoal que à sua obra escrita.

Descrever os fatos de tão fascinante existência, no entanto, não é tarefa fácil, pois devido à profunda humildade que o animava, São Tomás quase não falou sobre si mesmo. Tampouco hesitou em afirmar que “a humildade é o que mais agrada a Deus”[6] e que “a santidade consiste em duas coisas: viver humildemente e prestar culto a Deus”.[7]

Na Summa contra Gentiles pode-se encontrar um dos raros momentos em que ele manifestou algo da “sonoridade” de sua vida interior. E, mesmo assim, ocultando-se sob as palavras de Santo Hilário: “O mistério de minha vida, ao qual em consciência me sinto obrigado diante de Deus, é que todas as minhas palavras e todos os meus sentimentos falem d’Ele”.[8]

Mesmo não tendo explicitado quase nada a seu respeito, devemos considerar que, de certo modo, em todos os seus escritos reflete-se sua personalidade, pois o que dele saía era o que superabundava no coração (cf. Mt 12, 34). Assim, apresentam-se neste artigo algumas citações de suas obras e, através delas, procura-se traçar um pequeno esboço de seu perfil moral. Recorre-se também aos comentários de seus principais biógrafos, especialmente do dominicano Guilherme de Tocco, que foi encarregado de preparar, a partir do relato de testemunhas oculares, a primeira biografia do Aquinate com vistas à canonização. Essa obra, considerada a mais importante fonte sobre a vida de São Tomás, será a referência principal do presente artigo.

O pequeno monge de Monte Cassino

O mundo viu nascer Tomás por volta do ano de 1225, no castelo de Roccasecca, Itália. Dos sete filhos do conde Landolfo de Aquino, era ele o mais novo. Aos cinco anos fora enviado ao insigne Mosteiro de Monte Cassino, a fim de ser educado pelos monges beneditinos. Naqueles tempos, seu tio Sunibaldo era abade e se encarregou de ministrar-lhe a formação. Tudo indica que a família ansiava que também ele se tornasse um superior da Ordem de São Bento.

Pouco se sabe desse período de sua vida, a não ser que aquele “pequeno monge”, ao percorrer o majestoso claustro da abadia, inquiria os religiosos sobre um tema que não saía da sua mente: “Quem é Deus?” Não passaram para a história as respostas proferidas. Contudo, pode-se afirmar que ninguém lhe respondeu satisfatoriamente, pois desde criança fizera desta primeira indagação a força motriz para produzir a maior obra teológica de todos os tempos.

( Continua no próximo post)


[1] Donoso Cortés, Juan. Discurso acadêmico sobre a Bíblia. Trad. José Manuel Victorino de Andrade. Lumen Veritatis, ano 4, n. 15. abr./jun. 2011, p. 111.

[2] João Paulo II. Carta aos artistas. 04/4/1999, n.1.

[3] Donoso Cortés, Juan. Discurso acadêmico sobre a Bíblia. Op. Cit., p. 113.

[4] Francisco de Sales, Santo, apud Dabin, François. Chrétien, donc heureux? Rivista internazionale di catechesi e pastorale Lumen vitae, v. 57, dic. 2002, n. 4. p. 401-416, trad. pessoal: “Il vangelo è come una musica scritta, mentre la vita dei santi è questa musica cantata” (XII 306).

[5] Summa Theologiae, I-II q. 34 a. 1 co.: “Magis movent exempla quam verba”.

[6] Summa Theologiae, II-II, q. 188, a. 8, ob. 3: “Humilitas est maxime Deo accepta”.

[7] In  Coloss., cap. 2, lect. 4, n. 124: “Sanctitas autem in duobus consistit, scilicet in humili conversatione, et cultura Dei”.

[8] Contra Gentiles, lib. 1, cap. 2, n. 2: “Ego hoc vel praecipuum vitae meae officium debere me Deo conscius sum, ut eum omnis sermo meus et sensus loquatur”.

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