São Tomás diante da tentação (Continuação)

É lastimável notar que aqueles que deveriam ser os guardiões de sua inocência e castidade, chegaram ao absurdo de introduzir uma mulher de maus costumes na torre onde o mantinham preso, a fim de demovê-lo de seus planos.

Porém, se situação semelhante ocasionou a fraqueza de Sansão, o mais forte dos homens, a ignorância de Salomão, o mais sábio dos viventes, e a queda de Davi, o rei-profeta, para Tomás, ao contrário, foi a ocasião que o fez elevar-se ainda mais em virtude.

Naquele momento, estava ele sentado junto à mesa, aprofundando-se no conhecimento e no amor das coisas celestiais. Quando percebeu a entrada da intrusa, dirigiu-se à lareira, apanhou uma brasa incandescente e começou a brandi-la contra aquela mulher mal intencionada. Não é necessário dizer que ela fugiu tomada de terror, através da mesma escada pela qual havia subido.[1]

Esse fato oferece a oportunidade de tecermos uma consideração. Muito se tem falado do temperamento plácido e calmo de São Tomás. Todavia, apresentá-lo como um homem impassível ou desprovido de fibra é deturpar a sua verdadeira imagem. Diante desse acontecimento, podemos compará-lo a um grande vulcão adormecido e imóvel, que se deixa envolver pela gélida e alva neve. Mas, quando está em jogo a sua integridade moral, bem como o nome de Cristo e de sua Igreja, a inércia se transforma em ação, a tranquilidade dá lugar ao movimento, fazendo estremecer tudo o que se encontra ao seu redor.

Do interior de sua alma vemos brotar um rio de fogo da mais pura doutrina, que lenta e paulatinamente destrói e sepulta o erro, dando assim origem ao terreno fértil da verdade. É bem certo que poucas foram as ocasiões em que vimos esse “boi mudo” — como era chamado pelos contemporâneos devido ao caráter taciturno — converter-se num leão. Mas, pode-se certificar também que, dentro de sua alma, havia atitudes aparentemente contrastantes, manifestações admiráveis de sua vigorosa personalidade.

São Tomás, entretanto, não brandiu aquela lenha incandescente apenas na luta pela pureza. Além disso, por meio de seus escritos, manifestou portar uma verdadeira brasa ardente intelectual contra aqueles que pretendiam, por meio de falsas doutrinas, semear o joio no meio do trigo. Um dos trechos mais significativos dessas suas reações pode ser encontrado no polêmico opúsculo De unitate intellectus, escrito contra os averroístas parisienses.

 Se alguém, gloriando-se de uma falsa ciência, pretende argumentar contra o que acabo de escrever, que não vá tagarelar pelos cantos ou diante de crianças incapazes de julgar assunto tão árduo, mas que escreva, se ousar, contra esse livro. Terá que enfrentar não só a mim, que sou o menor deles, mas a muitos outros defensores da verdade, que saberão resistir a seu erro e vir em auxílio da ignorância.[2]

Diác. Inácio de A. Almeida


[1] Cf. Chesterton, G.K. Santo Tomás de Aquino: Biografia. Trad. Carlos Ancêde Nougué. São Paulo: LTr, 2003, p. 62.

[2] S. Thomas de Aquino. De unitate intellectus contra averroistas, cap. 5, n. 120: “Si quis autem gloriabundus de falsi nominis scientia, velit contra haec quae scripsimus aliquid dicere, non loquatur in angulis nec coram pueris qui nesciunt de tam arduis iudicare; sed contra hoc scriptum rescribat, si audet; et inveniet non solum me, qui aliorum sum minimus, sed multos alios veritatis zelatores, per quos eius errori resistetur, vel ignorantiae consuletur”.

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