Somos chamados a viver eternamente felizes com o Pai, o Filho e o Espírito Santo

Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias

Solenidade da Santíssima Trindade

Nós temos neste domingo a festa da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo. Mistério que, infelizmente, a nossa inteligência não alcança. Tanto mais que nossa inteligência é inteiramente limitada e Deus é infinito. Já nos é difícil compreender como é a eternidade que virá pela frente — nós somos imortais no que diz respeito à alma. O corpo morre, mas ressuscita, e a nossa vida deve ser eterna a partir do momento em que nós nascemos. Mas, Deus existiu desde todo o sempre. E não cabe em nossa mente a ideia de um Deus com Três Pessoas. São Três Pessoas, o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus, mas se trata de um só Deus, em Três Pessoas.

Hoje é festa que a Igreja estabelece para glorificar, para louvar e para atribuir ação de graças às Três Pessoas.

O príncipe carvoeiro

Vamos recuar no tempo e vamos imaginar um nascimento extraordinário. Nascimento que tenha se dado nos idos tempos do século XVI, ou talvez ainda antes, século XIII, século XII. Trata-se de um rei que há muito estava desejando ter um sucessor e, por fim, lhe nasce um bebê extraordinariamente belo e que é a alegria da corte, é a alegria da família, é a alegria de todos os que constituem esse reino, sejam eles até camponeses afastados do palácio real. E em certo momento — por razões políticas— em certa noite, madrugada, o palácio é assaltado e no momento em que ninguém esperava, o bebê é roubado.

Grande pranto no reino. Grande pranto da rainha, pranto até mesmo do rei. O bebê desapareceu. Esse menino ia ser utilizado para um objetivo político, mas acontece que as circunstâncias do reino mudaram um tanto e o menino não interessou mais. Então deixaram o bebê abandonado na casa de um carvoeiro. Ele cresce como se fosse o filho de um carvoeiro.

O príncipe cresce em meio aos carvões, cresce em meio à família do carvoeiro. Ele se tisna, daquela fuligem própria do elemento carvão. Ele fica, por assim dizer, com a pele, não carbonizada no sentido de queimada, mas carbonizada no sentido de estar pintada de carbono, de carvão.

Ele sente em si qualquer coisa estranha, porque é próprio da natureza humana estar ligada aos progenitores. E este jovem cresce e sente que há algo que não se coaduna inteiramente, não se harmoniza inteiramente entre ele e aqueles que seriam seus pais. Em determinado dia pergunta então ao pai:

— Meu pai, eu sou de fato filho desta família?

E o pai abaixa a cabeça e diz:

— Não, meu filho, você não é. Porque certo dia nós acordamos de manhã e vimos um bebê colocado à porta de casa, chorando. E adotamos esse bebê. Esse bebê era você.

— Quer dizer que não são meus pais?!

— Não.

Angústia e ao mesmo tempo ansiedade. Ele quer conhecer os pais. Porque faz parte da natureza dele querer encontrar-se com os pais. Em certo momento, por fim, chega um senhor muito bem vestido, numa carruagem. Para a carruagem em frente ao carvoeiro, desce, e diz:

— Eu vim aqui fazer uma revelação. Quero falar com o seu filho.

Reúne a família e diz:

— Eu sou testemunha de que este jovem, quando era criança, foi roubado da corte. Ele é filho do rei!

Dentro dele um sobressalto: “Mas será?” Não porque fosse o rei, mas é porque é o pai. Ele está encontrando o caminho para ver o pai, para ver a mãe! E este nobre diz:

— Eu vim aqui buscá-lo.

O pai carvoeiro, a mãe carvoeira, se olham, e dizem:

— Mas ele não está digno de aparecer diante do rei assim!

— Não se preocupe.

Levam o jovem. Chegando à corte ele encontra seu quarto, encontra seu toillette. Toma banho, recebe uma suntuosa roupa e em certo momento ele entra, com aplausos, com cânticos de alegria e de triunfo, para saudar o pai. O herdeiro abraça o pai, abraça a mãe, sentindo naquilo a felicidade de sua vida.

Somos chamados a participar da vida do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Essa é a liturgia de hoje! Porque muito mais filhos de nossos pais, nós somos filhos de Deus. Ele é quem introduziu a alma em nossos corpos e nos criou. Ele, tendo desejo de que nós participássemos de sua Vida e Natureza, nos fez filhos seus. Filhos adotivos. Não como se adota hoje em dia, em cartório. Ele, pelo contrário modifica física e formalmente a nossa alma. Nós puras criaturas, passamos a ter a alma— como diz São Tomás —, como uma barra de ferro posta numa forja até que brasa e ferro fiquem com a mesma temperatura e talvez até com a mesma labareda. E sem deixar de ser ferro passe a ser fogo.

Assim somos nós quando, penetrados por Deus no Batismo, passamos a ser filhos de Deus. Passamos a ter, no fundo de nossas almas, esta participação da natureza e da vida d’Ele. Nós não conseguimos chegar a compreender com a inteligência, é a fé que nos permite compreender.

Como tudo está dentro de Deus e como Ele está dentro de tudo, somos capazes de, olhando o Universo, olhando as formigas, as borboletas, olhando os colibris, olhando os peixes, os panoramas nesta Serra da Cantareira, chegamos à conclusão de que sem Deus isto seria impossível. Por exemplo: Como pode ser que a terra dê volta em seu próprio eixo vinte e quatro horas ao dia? E nunca sai dos seus trilhos? Quantos trens fazemos nós, quantos aviões e, de vez em quando, que desastres! Com as aparelhagens todas, com os treinamentos todos. Entretanto, nenhum astro se choca com outro. Deus tem que existir.

Ora, acontece que só isto não basta. Isto é uma notícia longínqua a respeito de quem é nosso Pai, por isso queremos conhecer a Deus. E não é por acaso que São Felipe vai perguntar a Nosso Senhor:

— Senhor, mostrai-nos o Pai e está tudo resolvido.

E Nosso Senhor responde:

— Mas, Felipe, com tanto tempo vivendo comigo, não viste ainda o Pai? Pois quem me vê a Mim, vê o Pai.

É Deus, com o desejo de entrar em contato conosco e estabelecer uma relação mais íntima e mais familiar conosco! Nós passamos a fazer parte da família de Deus. Querendo entrar neste contato conosco, Ele mesmo toma a deliberação de Se encarnar no Homem Jesus. Homem que não tem personalidade humana, somente divina, é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. É o mais alto grau de união que pode existir entre qualquer criatura e Deus. Uma união intrínseca, onde a natureza humana se une à divina sem deixar de ser humana, como o ferro no contato com fogo.

Mistério insondável pela nossa inteligência

Ele, encarnando-Se, revela-nos o mistério da Santíssima Trindade. Nossa inteligência, por si, não alcança essa maravilha de Três Pessoas num só Deus. Só conhecemos este mistério através da revelação. Então Ele vem com este intuito também, além de querer redimir-nos, de fazer com que nós conheçamos a realidade da existência d’Ele desde toda a eternidade: Ele Pai, tão rico no seu pensamento, pensamento Infinito. Um pensamento que é a Sabedoria em essência, e que gera uma outra Pessoa, o Verbo. O Pai gera o Filho. O Filho é o pensamento do Pai. É o que nós encontramos na Primeira Leitura. É essa Sabedoria que já existia antes mesmo de existir a obra da Criação.

Entretanto, ao ser o Filho gerado pelo Pai, olhando-O e o Pai olhando para o Filho, nós temos a procedência de uma Terceira Pessoa, é o Espírito Santo. A geração constitui a Sabedoria Eterna. A procedência do Espírito Santo constitui o Amor Eterno. É o Amor do Pai e do Filho.

Nós mesmos, quando amamos alguém, temos o desejo de que esta pessoa seja o mais feliz possível. Agora, devemos imaginar um ser infinito, Deus, gerando um Filho, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, amando-O inteirissimamente. E o Filho retribuindo eternamente ao Pai o amor com amor. Pai e Filho, Filho e Pai, amando-Se, procede uma Terceira Pessoa. Aí está o circuito perfeito e acabado.

Entretanto, Nosso Senhor diz a Felipe: “Quem me vê a mim, vê o Pai”. E é verdade. Porque — nossa inteligência aí falha — se o Pai Se encarnasse, seria Jesus Cristo. Se o Espírito Santo Se encarnasse, seria Jesus Cristo. E se os Três Se encarnassem, seriam idênticos. E quando um levantasse o braço para dizer algo, os outros dois estariam levantando também, porque são inseparáveis. Eles estão sempre juntos e sempre agindo juntos, sempre na mesma ação.

Ora, isso para nós seria inatingível se não fosse o Filho encarnar-Se e revelar. E é esta a afirmação que Nosso Senhor Jesus Cristo faz a Felipe: “Felipe, quem me vê a mim vê o Pai”.

No convívio com a Santíssima Trindade está nossa felicidade.

Essa é a nossa felicidade. A felicidade que teve o jovem príncipe-carvoeiro ao reencontrar seu pai, e rei. Nós nascemos neste mundo. A diferença que vai entre a terra deste mundo e a do Céu é incomparável, muito maior do que entre uma carvoaria e um palácio real, é muitíssimo mais do que isso.

Somos chamados a viver nessa Corte Celeste. Nosso Rei é Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Tudo está n’Ele, e Ele em todas as criaturas.

Mas, observemos: Deus não está igualmente em todos. Deus sustenta todos os seres, inclusive o Inferno e o demônio. Se Deus cochilasse um segundo, ao abrir os olhos de novo, todo o Universo teria desaparecido, porque teria sido deixado de ser sustentado por Ele. Não existiria mais nada…

Quando as águas batismais caem sobre a cabeça da criança ou do adulto, e é pronunciada a fórmula do Batismo, a partir de então, Deus, que já estava presente para sustentar aquele ser, penetra nele. Penetram o Pai, o Filho e Espírito Santo, passando a reinar dentro da alma. As Pessoas divinas se associam àquela alma e vão santificar aquela alma, desde que não haja obstáculo, desde que não haja resistência. Dão àquela alma um caráter de Templo, como diz o Apóstolo: “E não sabeis que sois templos de Deus?”. E realmente somos templos de Deus!

Hoje, nesta festa tão linda da Santa Igreja, nós podemos voltar-nos ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, que estão no fundo de nossas almas. Voltarmo-nos a Eles e oferecer nosso louvor e ao mesmo tempo pedir um maior convívio com a Trindade. Pedir que Eles preparem nossas almas para a eternidade com Eles.

Esse é o nosso objetivo, essa é a nossa finalidade. Não nascemos para viver eternamente neste mundo. Peçamos que Eles derramem sobre nós as graças de perseverança, as graças de fidelidade, para que, chegando à hora do nosso juízo, sejamos convidados a participar da glória celeste.

Eu fico feliz de ter podido estar com todos nesta manhã de hoje, na festa da Santíssima Trindade. Pois todos partilhamos de uma mesma natureza divina. Nós estamos aqui enquanto irmãos, mais do que se fôssemos filhos dos mesmos pais, porque somos filhos do Pai, do Filho e do Espírito Santo. E eu os felicito, nesta manhã, por estarem aqui, e lhes desejo, portanto, toda espécie de graças de santidade, de perseverança na via sobrenatural, como deseja a Igreja neste dia, para todo cristão!

Louvada seja a Santíssima Trindade!

 

Homilia realizada por Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, EP., na Basílica Nossa Senhora do Rosário, 30 de Maio de 2010.

 

Texto  transcrito da gravação de áudio, com as devidas adaptações, sem revisão do autor.

 

Deixe uma resposta