Colégios mistos, um problema ou uma solução? Uma ponderação para se refletir

Institut_Catholique_de_Paris_logoSegundo o estudo Gérer intelligemment la mixité, publicado recentemente por Jean-Louis Auduc, do Instituto Católico de Paris há uma desigualdade significante do desenvolvimento intelectual em nível primário entre meninos e meninas franceses. O aproveitamento escolar dos meninos é significativamente inferior ao das meninas. Não sem razão, o autor publicou em 2009 com Cécile Riviere o livro intitulado Sauvons les garçons! (Salvemos os meninos!).

Para Auduc, que foi Diretor do Instituto Universitário de Formação de Professores da Universidade Paris Oriental Créteil, “o insucesso masculino precoce é hoje uma realidade que ninguém pode ignorar, mesmo se não é considerada de ‘bom tom’ ao ser evocada”.

No estudo, Jean-Louis apresenta algumas recentes pesquisas realizadas nos colégios franceses. Uma nota oficial do Ministério de Educação Nacional da França (Direction de l’Evaluation, Prospective et de la Performance, DEPP) de novembro 2011 consagrada à análise da compreensão da escrita no final dos anos equivalentes ao ensino médio no Brasil, referente a dados colhidos entre 2003 e 2009, concluiu que “as meninas obtêm resultados superiores aos meninos, tanto em 2003 quanto em 2009. As diferenças são significativas e evidentes, segundo numerosos estudos com foco na proficiência da língua francesa”.[1]

Do ponto de vista disciplinar, também os meninos franceses perdem para as meninas. Uma pesquisa sobre as sanções dadas nos colégios, levada a cabo por Sylvie Ayralna na obra La Fabrique des Garçons[2] (Fábrica de meninos) demonstra que mais de 80% das sanções na escola são feitas aos meninos. Na pesquisa realizada em treze colégios enquadrados em características sócio-escolares distintas, os meninos representaram de 74% a 89% dos alunos punidos e de 85,2% a 100% dos alunos sancionados por violência física. O que leva a estudiosa a concluir que “para os garotos a sanção é um verdadeiro rito de passagem que permite a construção da identidade, afirmar com força sua varonilidade, e fixar os estereótipos da masculinidade, de demonstrar que eles ousam desafiar a autoridade”.

Segundo Jean-Louis, o “universo escolar se apresenta como um lugar de confrontação entre os sexos e de ativação dos estereótipos do gênero (representação de si mesmo como homem ou como mulher) mais do que de co-educação dos sexos segundo a tese defendida pelos colégios mistos. Meninos e meninas partilham na classe dois espaços distintos, não comem juntos, não frequentam os mesmos lugares na quadra, mesmo que isso não impeça as amizades, nem os debiques, nem os namoros que se desenrolam sob o fundo de uma ‘guerra dos sexos’[…] Destinando aos meninos as infrações e punições, a instituição escolar estigmatiza esses últimos e os consagra coletivamente em sua ‘ varonilidade’. Ela reforça a desigualdade entre os sexos naqueles que se inscrevem no vácuo da ‘invisibilidade das meninas’”.[3] Assim, segundo os estudiosos, os meninos são sete vezes mais punidos que as meninas.

Uma estatística realizada no ano letivo 2011-2012 no colégio rural Marcel Doret du Vernet (Haute-Garonne) realizada com 733 alunos,dos quais 54% eram meninos e 46% meninas, prova que apesar da desvantagem numérica, elas são majoritárias no desejo de continuar os estudos e obter bacharelado científico. 75% das meninas passam para o 2º ciclo Geral e Tecnológico (2GT) contra somente 54% dos meninos. 30% dos meninos optam por um bacharelado profissional industrial contra 2,6% das meninas. Assim, conclui Jean-Louis, “os meninos permanecem obstinadamente na ação, na demonstração de força, e as meninas se voltam umas às outras, altruístas ou artistas”. No tocante à frequência às bibliotecas (CDI) pesquisas mostram que as meninas leem e emprestam mais romances que os meninos…

Na opinião de Jean-Louis, no atual sistema educacional misto aplicado na França e em muitos países do mundo, tanto as meninas quanto os meninos saem prejudicados. As meninas estão sujeitas a retardar seu desenvolvimento em relação aos meninos, não aproveitam toda a capacidade de que dispõe na primeira juventude e ao chegar à idade madura, ficam no dilema entre prosseguir a realização profissional, o que poderiam ter realizado antes, ou serem mães. Postas entre essas duas opções, as mulheres ficam colocadas diante de duas atitudes irreconciliáveis: a maternidade e a carreira.

Na prática, a Inglaterra, onde a lei sobre colégios mistos e separados é mais tolerante, as meninas que frequentam colégios exclusivamente femininos concentram-se mais nos estudos e tiram melhores notas do que as alunas de colégios mistos. Esta é a conclusão de um estudo que analisou mais de 700 mil alunas britânicas do ensino médio, segundo notícia divulgada pelo jornal espanhol El País.[4]

Concretamente, mais de 71 mil alunas que fizeram o ensino médio em colégios femininos obtiveram resultados melhores do que no ensino fundamental, feito em colégios mistos. Aconteceu o contrário com as cerca de 130 mil que passaram de colégios femininos para mistos. “É muito interessante ver como as meninas progridem mais neste tipo de escolas. É inegável a evidência de que o fato de estarem sem a companhia dos meninos faz com que elas se concentrem mais em seus estudos” — declarou Alice Sullivan, do Instituto de Educação da Universidade de Londres.

Para os meninos, explica Jean-Louis Auduc, o sistema misto de ensino acarreta desânimo no aprendizado porque para as crianças, a estudiosidade, a aplicação nas tarefas de casa, são características femininas. Isso redunda na consequente e significante redução de aproveitamento e desejo de cursar etapas mais altas do mundo acadêmico; além disso, entre os garotos, ocorre falta de disciplina, porque por instinto natural querem demonstrar sua masculinidade numa sociedade extremamente feminina. Para provar sua tese, Jean-Louis apresenta os seguintes dados relativos à sociedade francesa: “nossa sociedade deve se interrogar sobre o fato de que hoje, entre 2 e 18 anos, os jovens não encontram senão mulheres trabalhando com eles: professores (80,3% são mulheres no ensino fundamental; 57,2% são mulheres no médio, assim como nos cursos técnico e cursos preparatórios ao vestibular), diretores de estabelecimento, assistentes sociais, enfermeiras, advogados, juízes, clínicos gerais, empregados de prefeitura; faça-se justiça, todos esses trabalhos são exercidos esmagadoramente por mulheres”. Para Auduc, “nas profissões que interferem junto à infância e à adolescência, como mais comuns no cotidiano da população [francesa], os meninos passam uma vintena de anos massivamente afeminados”. Assim, os meninos não encontram modelos que possa lhes inspirar um desenvolvimento ordenado de sua personalidade masculina e de seu aprimoramento intelectual, redundando em violência ou mediocridade.

Diante dessa desigualdade entre os gêneros e o baixo aproveitamento dos meninos no atual padrão educacional misto, Jean-Louis conclui: “As desigualdades no ambiente escolar aparecem em a boa parte ligadas a uma pedagogia inadaptada, que desfavorece massivamente os meninos e particularmente aqueles dos meios desfavorecidos, onde as famílias não podem compensar as lacunas da escola. O padrão francês de ensino destinado paralelamente aos dois gêneros não toma em consideração suas peculiaridades, seus ritmos, aparecendo como responsável da falência escolar precoce [entre os meninos] e do desejo da maternidade [entre as meninas]”.

“A criação de espaços não-mistos no seio das escolas e das classes mistas parece se impor como uma solução de futuro. Isso significa que ao longo de todo o curso escolar, dever-se-ia prever grupos de aprendizagem não-mistos, que deveriam ser bem identificados. […] Eles devem permitir uma melhor adaptação do ensino e da metodologia de diversas disciplinas, às necessidades dos alunos. […]

“Isso evitaria uma escola dominada pelas meninas e um mundo de trabalho dominado por homens e seus códigos, com mulheres divididas entre seu desejo de maternidade e realização social”.

Embora os estudos sejam convincentes, o autor lamenta a falta de resoluções concretas do Ministério da Educação francês, e protesta contra essa incoerência: “Sabemos claramente a situação e a importância da diferença entre os gêneros, mas o ‘politicamente correto’ nos impede de tomar decisões que se impõe nesse domínio”. Em razão dessa relevante diferença entre os gêneros, Jean-Louis se pergunta: “Por que essa super – predominância das sanções masculinas não chama a atenção das equipes educativas, apesar do Ministério da Educação Nacional reafirmar a cada ano letivo o princípio da igualdade entre os sexos, e que os efeitos negativos das punições dadas de maneira excessiva sejam patentes depois de tanto tempo?”

Quanto a nós, cabe-nos perguntar: Até que ponto a realidade brasileira é semelhante à francesa? O sistema misto de ensino não acabaria provocando um mal maior para as crianças brasileiras, e mais especialmente, para os meninos? Por que o princípio de igualdade entre os gêneros não se aplica aos meninos prejudicados pelo sistema misto educacional vigente em muitos países, entre os quais o nosso querido Brasil?

Essas são perguntas de índole técnica, para as quais ainda não tivemos convincente explicação.

Autor: Marcos Eduardo Melo dos Santos

Redação: I. Almeida/G. de Ridder


[1] Note d’information 11-16 « la compréhension de l’écrit en fin d’école. Evolution de

2003 à 2009 » Note de la DEPP. Ministère de l’Education Nationale. Novembre 2011.

[2] Sylvie AYRAL La fabrique des garçons. PUF 2011

[3]Sylvie AYRAL « Sanctions et genre au collège » Socio-logos, Revue de

l’Association française de Sociologie, 5/2010. http://socio-logos.revues.org/2486 .

[4]www.elpais.com em 18/3/2009

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