ITTA – IFAT

Instituto Teológico São Tomás de Aquino

ITTA – IFAT - Instituto Teológico São Tomás de Aquino

Deus existe?


Pe. Mauro Sérgio da Silva Isabel, EP

Há cerca de dois séculos, a Igreja Católica foi vítima de uma das maiores perseguições de sua história. A assim chamada humanista, gloriosa e libertadora Revolução Francesa custou para a Esposa de Cristo mais de dois mil sacerdotes assassinados, religiosas profanadas e torturadas até a morte, igrejas saqueadas, povoados inteiros destruídos por fidelidade ao cristianismo[1].

A França passou assim a viver num ambiente todo feito de aversão à Religião e, portanto, a Deus. Meninos e meninas começaram a ser educados na total independência do Criador. E num pequeno povoado desse país, cujo nome a história esqueceu, deu-se um impressionante episódio.French Revolution

Um menino contempla o pôr do sol

Uma família inteiramente entregue aos novos costumes pagãos dispôs que seu único filho fosse cobaia para uma comprovação diabólica: as pessoas, diziam, se tornavam crentes devido à educação que recebiam; mas se um menino fosse criado na total ignorância de Deus e de tudo o que Lhe dissesse respeito, jamais possuiria a fé.

Assim, os três membros da família isolaram-se do mundo em uma ilha deserta, com a severa proibição de jamais falarem ao menino sobre Deus.

Os anos se passaram calmamente naquele lugar improvisado sem que jamais ninguém rompesse a regra imposta para a educação do menino. Este, por sua vez, vivia na “alegria” de sua infância, sem se dar conta da malévola intenção de tantos incrédulos.

Quando atingiu a idade de 12 anos acostumou aventurar-se pelas perigosas e selvagens montanhas daquela ilha. Em sua inocência contemplava das alturas as vastidões do mar que iluminava com seus generosos raios o oceano, a ilha e o menino.

Certo dia, ele causou preocupação especial a seus pais por haver desaparecido por longo tempo, sem deixar qualquer rastro de seu paradeiro. Ao cair da tarde, a aflita mãe, chorando de desespero, rogou ao esposo que fosse à procura do filho antes que a escuridão viesse a cobrir toda a ilha, e o menino não encontrasse mais o caminho de volta.

Repetidas vezes o pai retornava ao lar à busca de algum sinal, mas nenhuma notícia havia chegado. Resolveu, por fim, fazer a última tentativa do dia. Dirigiu-se então apressadamente ao pico mais alto da ilha, onde nunca havia ido por causa do afastamento do lugar.

Após laboriosa procura, o pai exausto depara-se com uma cena verdadeiramente comovedora: o menino estava sentado sobre uma alta pedra e contemplava o pôr do sol. Aproximando-se lentamente, nota que o filho estava chorando. E de seus lábios inocentes ouve brotar esta oração: “Ó sol, mande um beijo Àquele que criou a ti e a mim!”.

Comovido, o pai abraçou seu filho e o levou de volta, não mais ao obscuro esconderijo da ilha, mas à verdadeira casa paterna.  Deus de fato existe; e Ele se revelou ao menino!

Como se passou isso: que um jovem abandonado, sem nenhuma instrução religiosa, chegasse a conhecer a Deus?

O coração humano e o esplendor do universo

Certamente em momentos de solidão o menino indagara, como qualquer outro ser humano o faz, em determinado momento de sua existência, sobre o sentido da vida: Por que e para que fui criado? Onde se encontra a verdadeira felicidade? Por que há sofrimentos nesta Terra? O que acontece após a morte? Quem fez o sol, a lua e as estrelas?

Estas questões revelam como a alma aspira chegar à Causa primeira de tudo, a partir das causas segundas. O menino chagara ao conhecimento da existência de Deus através do livro da criação (Cf. Rm 1,19). Como aquele adolescente da ilha deserta, levamos dentro de nós um instinto que nos impele a algo de superior. O desejo de felicidade e de eternidade que carregamos não é senão o instinto que busca a Deus, da mesma maneira que um vegetal vive à procura do sol. Esse é um dom implantado no coração humano[2].

“O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar”.[3]

Entretanto, não é somente dentro do coração humano que podemos encontrar a Deus. Também no esplendor da criação Ele se revela: “Os céus narram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos”.[4]

Quem nunca parou para contemplar a magnificência de um pôr do sol, a grandeza dos mares, o esplendor das estrelas? Quem não reconhece nisto a mão de um ser infinitamente superior a nós?

É poética e muito conhecida a expressão bíblica, pela qual Deus compara a descendência de Abraão com as estrelas do céu e com as areias do mar. Sempre se acreditou que o número de grãos de areia superasse de longe o das estrelas; entretanto, com o avanço científico da astronomia, atualmente afirma-se o contrário.

A magnitude quase infinita do espaço sideral, com estrelas de um tamanho descomunal movendo-se em velocidades espantosas e com uma precisão matemática, tem levado os cientistas, mesmo ateus, a reconhecerem a mão de uma sabedoria que tudo governa. O fato de comprovarmos que, em meio a tanta grandeza, não se acha sinal de vida a não ser no planeta em que vivemos, é de deixar-nos ainda mais admirados na busca de uma causa suprema.

Nesse sentido nos ensina São Tomás de Aquino: “permanece no homem, ao conhecer o efeito, o desejo de saber que este efeito tem uma causa e de saber o que é a causa”.[5]

Todo efeito provém de uma causa anterior. De fato, se uma pessoa, caminhando por uma praia deserta, encontrasse um belo castelo de areia, jamais julgaria ter sido ele formado pelo vento aliado ao impulso das águas. E logo concluiria não estar aquela praia tão deserta como pensava e que algum ser humano, com dons artísticos, também passou por ali.

E como teríamos coragem de afirmar que o esplendor e a ordenação de todo esse universo que contemplamos, não foi criado e não é governado por uma inteligência superior?

Por isso São Paulo censura aos romanos não terem, através das coisas visíveis, conhecido o Criador que se deixa revelar em suas obras[6].

Deus dirige os passos do homem

Deus sempre se deixou revelar aos que buscaram com retidão qualquer forma de bem. A humanidade registra em sua história, até os dias de hoje, as expressões mais variadas de sua crença em algo divino que criou e governa todas as coisas. De fato, sempre houve em todos os povos de todas as épocas manifestações de um comportamento religioso (orações, sacrifícios, cultos, meditações etc.) que comprovam o quanto o homem pode ser chamado um ser religioso[7].

Entretanto, muitas coisas concorrem para que as pessoas percam a fé em Deus. A primeira delas é a revolta contra os males existentes no mundo[8]. Vemos em nossos dias uma proliferação cada vez mais intensa de crimes, violências, injustiças, corrupções etc., aliados muitas vezes ao mau exemplo dos crentes. Se Deus existe, por que permite isso? Já que é Ele o criador de todas as coisas, então é também o autor de todo mal que se estadeia aos nossos olhos.

A resposta é simples. Assim como a escuridão é a ausência de luz, e o frio, a falta de calor, o mal é a ausência do amor de Deus nos corações humanos. Ademais, Deus, sendo a própria Bondade, jamais permitiria algo de mal em suas obras, sem que pudesse deste mal tirar o bem[9].

É tão óbvia a existência de Deus que somente os “insensatos” a impugnam[10]. Entretanto, há outro tipo de ateísmo reinante em nossos dias, que afirma a existência de Deus, mas vive como se Ele não existisse. É o chamado ateísmo prático: Deus criou o mundo e o homem, mas depois abandonou o ser humano para que se governe a si mesmo, conforme seu livre arbítrio.

Ora, isso não pode ser verdade. Deus é Rei e Senhor da história e participa ativamente da luta de cada homem, está presente nos acontecimentos e orienta-nos constantemente: “O Senhor é quem dirige os passos do homem”.[11]

Até os cabelos de nossa cabeça estão todos contados. Se o homem se afasta de Deus é porque, devido às preocupações com as coisas do mundo e as riquezas[12], quer fugir do chamado divino e das obrigações inerentes à sua crença.

Se Deus não tiver parte em nossa vida, passaremos nossa existência sem saber o que procuramos, decepcionados com o que encontramos e frustrados com o que realizamos. Só Deus pode preencher o vazio que sentimos e dar-nos uma vida eterna e feliz: “Criaste-nos, Senhor, para Ti, e nosso coração está inquieto até que descanse em Ti”[13].


[1] Cf. TEULÓN, Jorge Lopez. El santo cura de Ars. Madrid: EBIDESA. 2009.

[2] Cf.  Rm 1,19

[3] CIC, 27

[4] Sl 18,2

[5] Suma Teológica, I-II, q.3, a.8.

[6] Rm 1,20

[7] Cf. CIC, 28

[8] Cf. Gaudium et spes, 19-21

[9] Cf. Suma Teológica, I-I, q.2, a.3.

[10] “Diz o insensato: Deus não existe! (Sl 14,1).

[11] Prov 20,24

[12] Cf. Mt 13,22

[13]AGOSTINHO, Santo. Confissões, livro I, cap. 1

Congresso “Giuseppe Siri, Chiesa, cultura, politica da Genova al mondo”.

home   Cardinal Giuseppe Siri

O Istituto Luigi Sturzo promoveu no Palazzo Baldassini (Roma), entre os dias 12 e 15 de abril, o congresso Giuseppe Siri, Chiesa, cultura, politica da Genova al mondo.

Grandes nomes do mundo acadêmico eclesiástico conferenciaram sobre a vida e obra do Cardeal Siri. Suas Eminências, Card. Tarcisio Bertone, Secretário de Estado, Card. Angelo Bagnasco, Arcebispo de Gênova e Presidente da Conferência Episcopal Italiana, Card. Velasio De Paolis, Presidente da Prefeitura dos Negócios Econômicos da Santa Sé, Card. Raymond Leo Burke, Prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica e Card. Raffaele Farina, Bibliotecário e Arquivista da S.R.C., presidiram os quatros dias de estudos sobre a vida e obra de uma das maiores personalidades eclesiásticas do século XX.
Mons. Antonio Guido Filipazzi , da Secretaria de Estado da Santa Sé, ministrou a primeira conferência com o tema “Gli anni della formazione romana: la Gregoriana e il Lombardo”. Seguiram-se cerca de 30 conferências pronunciadas por doutores de diversas Universidades italianas sobre Cardeal Siri. O congresso foi organizado por Francesco Malgeri, do Istituto Luigi Sturzo, Andrea Graziosi, Presidente della Società Italiana per lo Studio della Storia Contemporanea, Fulvio Cammarano, Dipartimento di Politica, Istituzioni, Storia dell’Università degli Studi di Bologna e Paolo Gheda, Associazione culturale Cardinal Siri.

A ressurreição: artigo de fé

Emílio Portugal Coutinho

Muito raras são as pessoas que não tenham passado pela dolorosa experiência de perder um ente querido. Os cerimoniais fúnebres, marcados pela cor roxa ou negra, embora voltados ao respeito e à memória daquele que se foi, inevitavelmente tornam ainda mais pungentes os momentos da suprema despedida.

O drama de um falecimento e a incerteza que ele traz, fazem surgir a inquietante pergunta: “O que há depois da morte?”

Com efeito, todos os povos, desde os primórdios da Humanidade, alimentaram a crença de que haveria algo no além-túmulo. As dolorosas separações seriam momentâneas, e num futuro misterioso, em certo lugar desconhecido, os homens haveriam de se reencontrar.

Soluções falsas ou equivocadas dos antigos e pagãos

Ao longo da História, as mais diversas civilizações e culturas buscaram solução para esse enigma. Os antigos egípcios acreditavam que a alma ficaria peregrinando por um tempo indefinido, após o qual retornaria ao corpo, e este, portanto, deveria ser conservado. Com esse fim, eles aperfeiçoaram a técnica do embalsamamento, e até hoje suas múmias, em perfeito estado de conservação, podem ser vistas em museus.

A rica imaginação grega criou o orfismo. Segundo este, como punição de um crime primordial, a alma era encerrada no corpo tal qual numa prisão, e a morte podia ser o começo de uma verdadeira vida. Após o falecimento, as almas se dirigiam ao Hades, onde bebiam das águas do rio Lete, a fim de esquecer suas existências terrenas. A alma que não estivesse quite com suas culpas regressava ao mundo para reencarnar-se. O orfismo chegou, ainda com muita vitalidade, até os primeiros séculos da Era Cristã. Em seguida, foi-se apagando lentamente.

Além dessas, surgiram muitas outras explicações, como o panteísmo e o espiritismo. Por fim, o materialismo, negando pura e simplesmente a vida sobrenatural, deixa um vácuo de resposta a uma das mais antigas questões humanas.

A resposta cristã nos é bem conhecida, com os destinos eternos da alma bem definidos, quer seja no Céu, contemplando o Criador, quer seja no inferno, sofrendo os castigos inerentes à condição de inimigo de Deus.

Mas com relação ao corpo, companheiro da alma em sua jornada terrestre, que será feito dele?

A ressurreição e a doutrina cristã

Santo Agostinho defende que “não há doutrina da fé cristã combatida com tanta veemência como a da ressurreição da carne”. Entretanto, poucas verdades da nossa fé são tão claramente afirmadas tanto nas Sagradas Escrituras quanto pelos autores dos primeiros séculos. O ensinamento sobre a ressurreição dos corpos tem a condição de dogma, ou seja, artigo de fé a respeito do qual não pode caber qualquer dúvida.EASTER SUNDAY Fra_Angelico_019

Contudo, não faltou quem se tenha atrevido a negá-la. Os gentios a rechaçavam como uma fábula nova e inacreditável. Contestaram-na também os saduceus e, entre os primeiros cristãos, Himeneo e Fileto, os quais São Paulo refuta em sua primeira Epístola a Timóteo (cap. II). A estes podem somar-se os gnósticos, maniquieus e priscilianistas, que tiveram por sequazes, na Idade Média, os albigenses e valdenses. Em nossos dias os protestantes liberais e os racionalistas se empenham em negar este dogma católico, por considerá-lo incompatível com certas razões filosóficas. Contra toda esta torrente de heresias, a Igreja apresenta o depósito precioso da Revelação e a segura voz de seus concílios.

Podemos nos apoiar em declarações históricas, como por exemplo, o Credo dos Apóstolos, também chamado de Nicéia; o Credo do XI Concílio de Toledo; o Credo de Leão IX, ainda usado nas consagrações dos bispos; a profissão de fé do II Concílio de Lyon; o Decreto do IV Concílio de Latrão, contra os albigenses. Ademais, este artigo de fé toma por base a crença já existente no Antigo Testamento e os ensinamentos do Novo Testamento, além da Tradição Cristã.

A ressurreição nas Escrituras

As Sagradas Escrituras trazem abundantes e claras referências à ressurreição final dos corpos. O profeta Daniel afirma: “Muitos daqueles que dormem no pó da terra despertarão, uns para uma vida eterna, outros para a ignomínia, a infâmia eterna” (Dn 12, 2). A palavra “muitos”, aqui, não significa que alguns não ressuscitarão. Ela deve ser entendida à luz do seu sentido em outras passagens (como em Is 53, 11-12; Mt 26, 28; Rm 5, 18-19).

A visão de Ezequiel sobre a planície coberta de ossos secos que foram reordena

“O ensinamento sobre a ressurreição dos corpos tem a condição de dogma, ou seja,

artigo de fé a respeito do qual não pode caber qualquer dúvida”

“Resurreição de Cristo”, detalhe do pórtico da Basílica de São Marcos, Veneza

dos e revivificados (Ez 37) refere-se diretamente à restauração de Israel, mas mostra como tal figura só poderia ser inteligível para ouvintes familiarizados com a crença na ressurreição. O profeta Isaías triunfante proclama: “Que os vossos mortos revivam! Que seus cadáveres ressuscitem! Que despertem e cantem aqueles que jazem sepultos, porque vosso orvalho é um orvalho de luz e a terra restituirá o dia às sombras” (Is 26, 19).

Finalmente, Jó, reduzido à extrema desolação, sente-se fortalecido pela sua fé na ressurreição: “Eu o sei: meu vingador está vivo, e aparecerá, finalmente, sobre a terra. Por detrás de minha pele, que envolverá isso, na minha própria carne, verei Deus. Eu mesmo O contemplarei, meus olhos O verão, e não os olhos de outro” (Jó 19, 25-27).

Já no Novo Testamento, após a morte de Lázaro, Marta manifesta sua crença: “Sei que [ele] há de ressurgir na ressurreição no último dia” (Jo 11, 24). Contundente, São Paulo não hesita em pôr a ressurreição final no mesmo nível de certeza da ressurreição de Cristo: “Ora, se se prega que Jesus ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns de vós que não há ressurreição de mortos? Se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1Cor 15, 12-14).

E por fim, supremo testemunho, o próprio Cristo Nosso Senhor não só supõe a ressurreição da carne como coisa bem sabida, mas também a defende contra os ataques dos saduceus: “Na ressurreição dos mortos, nem os homens tomarão mulheres, nem as mulheres, maridos, mas serão como os anjos de Deus no Céu. Mas, quanto à ressurreição dos mortos, não lestes no livro de Moisés como Deus lhe falou da sarça, dizendo: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó?’ Ele não é Deus de mortos, senão de vivos” (Mc 12, 25-27; Mt 22, 30-32). O Messias ainda iria declarar essa verdade em outras passagens (Jo 5, 28-29; 6,39-40; 11, 25; Lc 14,14).

A doutrina da ressurreição na Tradição cristã

Os Padres, Doutores e insignes teólogos seguiram com firmeza o reto caminho traçado pelo Divino Mestre. No século II, São Policarpo deu o apelido de primogênito de Satanás, ao que negue a ressurreição e o juízo1. Aristides afirma que os cristãos guardam os mandamentos porque esperam a ressurreição dos mortos2. Atenágoras escreveu um tratado inteiro sobre a ressurreição dos mortos, no qual demonstra primeiro a possibilidade da ressurreição, sua conveniência e necessidade; depois prova que o homem é imortal, já que é racional; e como, por outra parte, está composto de alma e corpo, ele não pode conseguir com perfeição seu fim e sua bem-aventurança se o corpo não voltar a se unir com a alma.

Santo Irineu ensina que nossos corpos, nutridos com o manjar eucarístico, recebem a semente da ressurreição3. No século III quem com mais brilho defendeu a ressurreição futura foi Tertuliano. Esta carne que Deus formou com suas mãos e segundo sua própria imagem, que animou com seu sopro à semelhança de sua vida (…) esta carne não ressuscitará? Esta carne que é de Deus a tantos títulos?4.

Um testemunho de Santo Agostinho: Ressuscitará esta carne, a mesma que é sepultada, a mesma que morre, esta mesma que vemos, que apalpamos, que tem necessidade de comer e de beber para conservar a vida; esta carne que sofre enfermidades e dores, esta mesma tem que ressuscitar, os maus para sempre penar, e os bons para que sejam transformados5.

* * *

Muito embora respaldada por tantos e tão sérios testemunhos, não deixa de ser uma maravilha imaginar que, num dia conhecido só pelo Altíssimo, ao toque das trombetas angélicas, milhões de corpos irão emergir das profundezas dos oceanos, surgir das entranhas da terra, e juntos, erguer os olhos ao Criador, que então irá separar os seus (cf. Mt 25, 31-33). ²

1) Ep. Ad Philip., VII, 1.

2) Migne, P. G., t. 96, col. 1121.

3) Id. ib., col. 1124.

4) Id., e. 2, col. 885.

5) Id., t. 38, col. 1231.

(ARAUTOS DO EVANGELHO, N. 75, Março 2008.)

A vigília pascal do Sábado de Aleluia ou Sábado Santo


Ítalo Santana Nascimento – 2º Ano de Teologia

No sábado santo honra-se a sepultura de Jesus Cristo e a sua descida à “mansão dos mortos”, e, depois do sinal do Glória, a sua gloriosa ressurreição.

A noite do sábado santo é especial e solene, é denominada também como Vigília Pascal. Antigamente era celebrada à meia-noite, no entanto, a Santa Sé autorizou que começasse após o anoitecer. Deve terminar antes da aurora do domingo.tLuk2334Dore_TheCrucifixion

É considerada “a mãe de todas as santas Vigílias”,[1] pois, a Igreja mantém-se de vigia à espera da Ressurreição do Senhor, e celebra-a com os sacramentos da iniciação cristã.

Esta noite é “uma vigília em honra do Senhor” (Ex 12, 42). Assim, ouvindo a advertência de Nosso Senhor no Evangelho (cf. Lc 12, 35), aguardamos o retorno, tendo nas mãos lâmpadas acesas, para que ao voltar nos encontre vigilantes e nos faça sentar à sua mesa.

O rito da vigília está dividido do seguinte modo:

1º – A celebração da luz;

2º – A meditação sobre as maravilhas que Deus realizou, desde o início, pelo seu povo;

3º – O nascimento espiritual de novos filhos de Deus através do sacramento do batismo;

4º – E por fim, a tão esperada comunhão pascal, na qual rendemos ação de graças a Nosso Senhor por sua gloriosa ressurreição, na esperança de que possamos, também nós, ressurgir para a vida eterna.


[1] Cf. S. Agostinho, Sermão 219: PL 38, 1088.

Onde está, ó morte, a tua vitória

Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?. Fazendo eco a essas palavras de São Paulo na primeira Epístola aos coríntios, a liturgia da Semana Santa se refere à Paixão do Senhor, proclamando que os tormentos por Ele sofridos transformaram-se em glória e esplendor. Ao triunfar sobre a morte e o pecado, Cristo Jesus comprou nossa salvação, abrindo-nos de par em par as portas do Céu. Foi esse, entretanto, o único objetivo do Salvador com seu supremo martírio? Não. Além de reparar as ofensas feitas ao Pai pelos pecados cometidos por suas criaturas humanas, e de redimi-las, quis Jesus nos ensinar um novo caminho de amor a Deus: o oferecimento irrestrito das próprias dores, chegando até ao sacrifício da própria vida.718px-Fra_Angelico_073

Após o pecado original, afirma São Tomás, estabeleceu-se na alma humana a necessidade do sofrimento para facilitar-lhe a aceitação de seu estado de contingência e, assim, ser levada a recorrer ao auxílio sobrenatural. Esta é a razão pela qual muitos autores católicos têm comparado a dor a uma espécie de oitavo sacramento. Sem esse poderoso meio, acentuar-se-ia no homem a tendência de fechar-se sobre si mesmo e constituir-se em centro do universo. A dor o obriga a juntar as mãos em atitude de oração e a implorar a proteção de Deus e dos santos. Jesus, ao submeter-se a dores atrozes, físicas e morais, deu-nos o exemplo e a lição de quanto a dor é eficaz para conquistarmos a vida eterna. Visto na perspectiva da Cruz de Cristo, o sofrimento é suportado com paz e serenidade e se torna insubstituível instrumento de conversão e progresso espiritual.

A Semana Santa nos traz excelente ocasião para reflectirmos a respeito dos benefícios da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aproveitemos para pedir a nosso Redentor, por intercessão de Nossa Senhora das Dores, que os méritos do seu preciosíssimo sangue derramado desçam sobre nós, de modo que, ao enfrentarmos nossas dores quotidianas, tenhamos as mesmas forças com que Ele enfrentou as dores da Paixão.

Memórias de um missionário na Serra da Cantareira

Marcos Eduardo Melo dos Santos

Acabada a missa dominical, uma senhora aproximou-se de mim. Ela tinha cerca de quarenta anos e não frequentava habitualmente a capela. Talvez a tivesse visto em alguma solenidade, ou mesmo na rua. No total, sua fisionomia parecia-me familiar. Parece-me que trabalhava como empregada doméstica em alguma casa da região, ou mesmo em algum estabelecimento comercial da cidade. Estava grávida e sua fisionomia revelava traços de sofrimento, mas uma serena alegria.800px-Santuario_nacional

Cumprimentei-a amavelmente, demonstrando contentamento por vê-la na missa dominical e convidei-a a voltar mais vezes. Ela reconheceu que, de fato, não costumava frequentar a capela, estando ali para agradecer uma graça alcançada.

Ao demonstrar interesse pelo ocorrido, ela, com um sorriso constante nos lábios, narrou-me um fato surpreendente, que tento reproduzir com suas palavras:

“Ao participar de uma peregrinação oficial da paróquia à Aparecida, um arauto ofereceu-me uma medalha milagrosa. Agradeci o presente e ele perguntou-me o que iria pedir à Padroeira do Brasil. Respondi que queria um bebê, pois após 14 anos de matrimônio, não tinha podido ainda gerar um filho. O arauto apenas me respondeu: ‘Confiança! Nossa Senhora vai dar-lhe um bebê, e será uma menina’”.

Ao observar novamente que a senhora dava sinais evidentes de gravidez, foi-me impossível conter uma exclamação de admiração. Perguntei se ela se recordava deste arauto, mas confesso que sua descrição não era suficiente para reconhecer este irmão de hábito.NS_Aparecida

Ela contou-me que já estava com cinco meses de gestação. Pelo ultra-som sabia-se que era uma menina. Com inegável contentamento disse-me que a bebê seria batizada com o nome de Vitória Aparecida.

Nos registros civis, mais uma menina terá em sua certidão a agradecida recordação de uma graça alcançada pela Padroeira do Brasil…

História de uma conversão pela beleza e sua importância na Nova Evangelização

Gaudium Press – 8/4/2011

Para George Harne, philosophy doctor em musicologia pela Universidade de Princeton, até há pouco decano acadêmico da Faculdade de Santa Maria Madalena, em Warner, Estados Unidos, e agora presidente desta instituição, sua conversão ao cristianismo está inteiramente impulsionada pela atração da beleza.

view

“Se cremos na unidade fundamental da Verdade, do Bem e da Beleza, então devemos reconhecer como a Beleza pode nos levar mais profundamente à Verdade e à Bondade”, afirmou Harne, em declarações publicadas pelo National Catholic Register (NCR) nesta sexta. “A Beleza pode e deve ser uma parte integral da Nova Evangelização. Há quem se oponha a determinados ensinamentos teológicos e morais da Igreja, mas se aproxima muito mais da verdade através da beleza da liturgia ou de outras formas de beleza”, afirmou.

As palavras anteriores do presidente do campus americano não se referem somente a ele, mas também à sua esposa, e dizem respeito não só às suas reflexões, com também à sua vivência pessoal.

“Minha esposa e eu entramos em plena comunhão com a Igreja faz pouco mais de 5 anos e um dos pontos de inflexão chegou quando assistimos a uma tradicional procissão do Corpus Christi. Foi ali que comecei a crer na presença real [do Santíssimo Sacramento na hóstia]. A beleza da procissão – musical e visual – superou minhas reservas intelectuais. A partir de então minha compreensão da Igreja e do sacramento da Ordem começou a mudar. A beleza pode tornar mais fácil para uma pessoa aceitar as solicitudes da Igreja e seus ensinamentos morais. Esta é uma forma pela qual a beleza pode ser uma parte essencial da reevangelização do Ocidente”, expressou Harne.

Entretanto, para o novo presidente, não se trata somente daquela beleza diretamente ligada à liturgia, mas de todo tipo de beleza que leva à Bondade e à Verdade, e com isso à verdadeira humanidade.

“Os efeitos da beleza também podem ser mais simples, no entanto igualmente importantes. Eu estudei clarinete, minha esposa é cantora, e nossos filhos estudaram música também. Temos visto como a beleza musical dentro de nossa família nos pôde fazer mais plenamente humanos e abrir novas perspectivas que antes não estavam disponíveis”.

E este encontro com a beleza Harne quer compartilhado com toda a comunidade universitária, começando pela liturgia ali celebrada, para que renda frutos além das fronteiras do corpo docente.

“Nosso objetivo é celebrar a liturgia da forma mais bela e reverente possível. Nossa esperança é que nossos estudantes levarão suas experiências litúrgicas vividas na Faculdade às suas paróquias e ajudem ali a renovar a liturgia. Quando nosso diretor de coro ensina a nossos estudantes canto e polifonia, gosta de dizer que elas não somente capacitam aos membros do coral, mas também aos futuros diretores do mesmo”.

Este “descobrimento” da via da beleza deve vir acompanhado de uma sólida formação intelectual. Pelo menos, esta é a intenção manifesta de Harne para a Faculdade de Santa Maria Madalena, sobre o que disse expressamente que sua gestão será incansável nos esforços para renovar a faculdade e convertê-la em modelo de vida católica colegiada que seja fiel ao Magistério e profundamente arraigada na tradição intelectual católica.

“Começamos por assegurar que a fé de nossos alunos será reforçada ao invés de socavada enquanto estiverem na faculdade. Todos os nossos professores são católicos e fazem o Juramento de Fidelidade à Igreja Católica no início de cada ano. Todos os nossos estudantes cursam quatro anos de catequese, enquanto se aprofundam e fortalecem sua fé em uma comunidade que se esforça por pensar com a mente da Igreja e viver de acordo com o ritmo do ano litúrgico”, declarou Harne.

“Em nosso programa acadêmico, nos esforçamos para integrar plenamente as fortalezas da tradição dos Grandes Livros (…) com a riqueza e a disciplina intelectual da tradição católica, tanto a monástica, quanto das universidades medievais. Na base de nossa educação estão as tradicionais sete artes liberais ordenadas às mais altas considerações da verdade filosófica e teológica”, concluiu.

A música na Educação e o seu papel na formação intelectual no Seminário São Tomás de Aquino

just the noteFlávio Roberto Lorenzato Fugyama

Quase tão antiga como o mundo, a arte musical sempre coloriu com sua harmonia a vida cotidiana dos homens. Ciente do poder da música, também a liturgia católica sorveu e inspirou tocantes harmonias, as quais cumulam de consolação e fervor as almas dos fiéis como as elegantes notas musicais preenchem os pentagramas.

Já o Doutor da Graça, o grande Santo Agostinho, testemunhou o relevante papel que teve a música sacra em sua vida espiritual – sobretudo por ocasião das cerimônias litúrgicas presididas por Santo Ambrósio –, as quais o ajudaram a encontrar o caminho da Verdade: “Quanto chorei ouvindo vossos hinos, vossos cânticos, os acentos suaves que ecoavam em vossa Igreja! Que emoção me causavam! Fluíam em meu ouvido, destilando a verdade em meu coração. Um grande elã de piedade me elevava, as lágrimas corriam-me pela face, e me sentia plenamente feliz”.[1]

Esta poética recordação narrada nas Confissões tem seu fundamento teológico, pois, se as perfeições das criaturas captadas pelos nossos sentidos evocam em no espírito a absoluta perfeição de Deus, também a boa música, ao penetrar em nossos ouvidos, desperta as tendências naturais pelas quais  somos atraídos às sendas dAquele que é, em essência, “o Caminho, a Verdade e a vida” (cf. Jo 14, 6). Como afirmou Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, inspirador e mestre do Fundador dos Arautos, “a música é uma arte mais espiritual que material, melhor do que a simples matéria, para ilustrar a representação de Deus na Terra e no Céu Empíreo”.[2]Blog notes

Por esta razão, o Seminário São Tomás de Aquino procura “cultivar com sumo cuidado o tesouro da música” sacra na formação cultural de seus membros, tal como incentivara o Concílio Vaticano II, a respeito da Schola cantorum “nos Seminários, Noviciados e casas de estudo de religiosos de ambos os sexos, bem como noutros institutos e escolas católicas”.[3]

O canto gregoriano, modelo supremo de melodia.

Como recomenda o concílio, e como oportunamente recordava João Paulo II, “no tocante às composições musicais litúrgicas, faço minha a ‘regra geral’ formulada por São Pio X nestes termos: ‘Uma composição religiosa é tanto mais sagrada e litúrgica quanto mais se aproxima — no andamento, na inspiração e no sabor — da melodia gregoriana; e é tanto menos digna do templo quanto mais se distancia desse modelo supremo”[4].

Neste canto magnífico, o literato converso ao catolicismo Joris-Karl Huysmans via um símile de mil maravilhas na ordem do universo – como aquelas expressas na arquitetura, na escultura, na pintura e mesmo na literatura –, das quais deixou-nos um encantador e inesquecível elogio, em linhas que transluzem sua capacidade descritiva: “O canto gregoriano parece tomar emprestado do gótico suas nervuras floridas, suas flechas recortadas, suas rodas de gaze, seus triângulos de rendas leves e finas como vozes infantis. Ele passa, então, dum extremo ao outro, da amplidão das aflições ao infinito das alegrias.

“Outras vezes, ele, como a escultura, dobra-se para o júbilo do povo, associando-se às alegrias inocentes, aos risos esculpidos nos velhos frontispícios. Ele toma — tanto no cântico natalino Adeste Fideles quanto no hino pascoal O Filii et Filiae— o ritmo popular das multidões.

“Tal como os Evangelhos, ele se torna pequeno e familiar, submete-se aos humildes desejos dos pobres e lhes proporciona uma melodia de festa, fácil de reter na memória, que os eleva às puras regiões onde suas almas cândidas se prostram aos pés indulgentes de Cristo.

“Criado pela Igreja, aprimorado por ela nos corais da Idade Média, o canto gregoriano é a paráfrase flutuante e movente da imóvel estrutura das catedrais. Ele é a interpretação imaterial e fluida das telas dos pintores primitivos. Ele é a tradução alada das prosas latinas compostas outrora pelos monges elevados, em seus claustros, fora do tempo”.[5]

Polifonia e instrumentos ecoando a insondável grandeza dos mistérios divinos.

Os membros do Seminário servem-se também, e muito, da polifonia sacra. Ora com os vivos ritmos de Francisco Guerrero, ou com os piedosos acordes de Tomás Luis de Victoria, mas sobretudo pelas composições do mestre Giovanni Perluigi da Palestrina, buscam a harmonia apropriada ao “espírito da ação litúrgica”.[6]

Ademais, posto que a Constituição Conciliar Sacrossanctum Concilium permite a utilização no culto divino de instrumentos musicais, “contanto que esses instrumentos estejam adaptados ou sejam adaptáveis ao uso sacro, não desdigam da dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis” (n. 120), o coro e orquestra do Seminário não se abstêm de cultivar sua variegada participação, pois como notava a santa musicista Hildegarda de Bingen, “também os instrumentos musicais, pela emissão de múltiplos sons, podem instruir espiritualmente os homens”[7].

Deste modo, com a execução de composições de Johann Sebastian Bach, Wolfgang Amadeus Mozart, e de Georg Friedrich Händel – estas últimas com especial destaque –, querem eles, de alguma forma, ecoar a insondável grandeza dos mistérios celebrados na Sagrada Liturgia, elevando assim os corações e instruindo os espíritos.

A música pode aumentar a inteligência e acalmar os ânimos?

Apenas os argumentos da teologia bastariam para que o Seminário São Tomás de Aquino fosse tão musical. No entanto, há mais. Assim como a música pode ser um poderoso meio de instrução espiritual, pode colaborar frutuosamente no mero plano natural, para a própria formação e desenvolvimento das faculdades cognitivas e intelectuais dos seminaristas.

Para tomarmos o resultado de apenas algumas de inúmeras pesquisas realizadas neste sentido, a Universidade de Toronto, Canadá, concluiu que crianças que recebem aulas de música têm um coeficiente intelectual superior às demais. Os jovens aprendizes de instrumentos ou canto demonstraram possuir coeficientes mais desenvolvidos do que os das aulas de teatro. Estes últimos revelavam uma melhor capacidade de adaptação em sua conduta social, mas os que recebiam aulas de música alcançavam notas mais altas nos exames escolares[8].

De modo semelhante, estudiosos da Universidade de Hong Kong, após examinarem 90 crianças e adolescentes de 6 a 15 anos, das quais metade estava integrada numa orquestra escolar a cerca de cinco anos, concluíram que as aulas de música melhoram a memória das crianças e podem ser benéficas para seus estudos. A pesquisa demonstrou, inclusive, que o fato de os adolescentes executarem escalas no piano desenvolve a parte esquerda do cérebro, onde estão concentradas a memória verbal e as atitudes musicais. Ao cabo de um ano, as crianças que deixavam a atividade musical pioravam sua memória verbal em relação aos que nela se mantinham, mas continuavam ainda superiores aos que nunca tinham estudado música[9].

No tocante à formação temperamental, um grupo de pesquisadores da universidade de Derby, na Inglaterra, chegou a um resultado curioso numa de suas pesquisas. Segundo esses estudiosos, “a música de Mozart tem o curioso poder de apaziguar a agressividade das crianças e melhorar o seu rendimento escolar. Sobretudo nas aulas de matemática os efeitos foram considerados “surpreendentes”[10].

Neste sentido a respeito da música sacra, antes mesmo dos pesquisadores, o pensador católico brasileiro, Prof. Plinio Corrêa de Oliveira recomendava: “para quem sofre de problemas psicológicos, nervosos, parece propriamente, a meu ver, a cura. Uma pessoa que por muito tempo ouvisse este estilo de música, deixando-se influenciar por esta harmonia, seria introduzida no estado de equilíbrio perfeito. Além desta música ser orto-psíquica, com a propriedade de colocar habitualmente o temperamento interior neste estado de espírito, produz na alma um estado adequado ao caminho da santificação”[11]. É o que, em outras palavras, disse o Papa Bento XVI: “a música harmoniza o nosso interior[12].

Assim, através do canto gregoriano, da polifonia sacra e da harmonização instrumental, os estudantes do ITTA e do IFAT buscam aprimorar o quanto possível sua formação intelectual, e, sobretudo, aprofundar cada vez mais uma real e verdadeira forma de oração enquanto elevação da mente a Deus. Como, aliás, recordava Bento XVI, “quando o homem chega a estabelecer uma relação íntima com Deus, não basta a linguagem falada”[13]. O canto nos une, nos arrasta, nos envolve, nos transforma e nos eleva ao Criador através da virtude da caridade. Por isso, bem disse Santo Agostinho que “cantar é próprio de quem ama”[14].

Por intermédio de Maria Santíssima, que, por certo, cantou melodias inefáveis na Gruta de Belém e no lar de Nazaré, para o encanto sobrenatural de seu castíssimo esposo e seu Divino Filho, peçamos a graça de saber utilizar a arte musical para atingir a plenitude da santidade à qual fomos chamados, e, assim, sermos na Igreja, afinados, sonoros e perfeitos “‘instrumentos’ do grande ‘Compositor’, cuja obra é a harmonia do universo”.[15]


[1] Santo Agostinho. Confissões, IX, 6, 14.

[2] Plinio Corrêa de Oliveira. Conferência. 8 set. 1979. Arquivo do ITTA.

[3] Cf. Sacrosanctum Concilium, 114-115.

[4] In Revista Arautos do Evangelho, n. 25, p. 18

[5] HUYSMANS, Georges Charles in RIDDER, Guy, apud Revista Arautos do Evangelho, n. 28, p. 51.

[6] Sacrosanctum Concilium, 116.

[7] inFERREIRA, Carmela Werner. inRevista Arautos do Evangelho, n. 69, p. 36.

[8] Cf. Revista Arautos do Evangelho, n. 34, p. 47.

[9] Cf. El Mundo in Revista Arautos do Evangelho, n. 21, p. 44.

[10]in Revista Arautos do Evangelho, n. 59, p. 43.

[11] Plinio Correa de Oliveira. Conferência. 2 mar. 1984. Arquivo ITTA.

[12]Revista Arautos do Evangelho, n. 61, p. 40.

[13] Introducción al espíritu de la liturgia, Joseph Ratzinger, p. 113.

[14] Cf. Cantare amantibus est, Sermo 336, 1.

[15] Palavras de Bento XVI após o concerto do Philharmonia Quartett Berlin, na Sala Clementina, oferecido ao Santo Padre pelo Presidente da Alemanha, Horst Koehler, in Revista Arautos do Evangelho, n. 61, p. 40

A maior riqueza do Brasil

Marcos Inacio Melo

Brasil

O Brasil abriu o ano de 2011 como sétima maior economia do mundo em paridade de poder e compra. Sendo o quinto maior país do mundo, em território e população, possui uma das maiores reservas minerais do planeta e ocupa o posto de segundo maior exportador de alimentos. Consta que, em poucos anos, será o quinto país mais poderoso da Terra, atrás apenas de nações como os EUA, China, Índia e Japão.

O Brasil consolida certa hegemonia em diversos assuntos internacionais, especialmente na América Latina, e sua imagem tende a projetar-se no mundo inteiro, enquanto expressão de uma cultura capaz de influenciar os demais povos.

Entretanto, a riqueza do Brasil não é meramente econômica. Sua unidade linguística e estabilidade política – sem vãs divisões regionalistas – caracteriza uma população homogênea, inteligente e pacífica. Esta cordialidade e hospitalidade foram reconhecidas em diversas ocasiões. Cabe aqui recordar que tais predicados de nosso povo derivam de sua formação católica. O Brasil soma a maior população católica do mundo. A cada 11 católicos do orbe, um é brasileiro.

Porém, não é preciso muito esforço para constatar incríveis contrastes em nosso país. Apesar de rico, o Brasil ainda é o 73º país em desenvolvimento humano. E dos 75% católicos brasileiros, somente 2% frequentam as Missas dominicais. Isto comprova não só quanto nosso país tem ainda a progredir a nível social, mas sobretudo espiritual. Estes dados trazem ao nosso espírito algumas questões:

O Brasil será uma grande nação pela força das armas, pela ganância dos lucros, ou pela imagem cristã que legará ao mundo? Nosso país abandonará os princípios morais que foram o gérmen de seu progresso? Ele se esquecerá da Fé de seus pais? Ele abandonará a Igreja, mãe que o criou, alimentou e ajudou a dar os primeiros passos?

Rezemos para que o Brasil não esteja entre as nações que triunfaram ao longo dos séculos com vitórias edificadas sobre areia movediça, mas entre os povos que, contruindo seus fundamentos sobre a rocha imperecível, inscreverão na História do mundo douradas letras de Fé, caridade e esperança.Brazil

Que o Brasil testemunhe ao mundo e às futuras gerações que seu dinamismo empreendedor e seu patrimônio cultural não se baseiam na ganância, mas sim na Fé e no espírito cristão. Que o povo brasileiro continue a reconhecer o valor da prosperidade, mas não esqueça que a riqueza não é o maior valor na vida de um homem.

A História Universal é testemunha da gesta de povos que nascem, crescem, e triunfam, mas com o decorrer dos anos, desfazem-se sob os ventos da História, à semelhança de um castelo de cartas. Ao contrário quando, na epopeia dos povos, verificam-se ardentes atos de adesão à verdade de Cristo, as nações resplandecem por sua magnanimidade.

Cabe, portanto, a todos nós, católicos, sermos células sãs, partícipes deste grande organismo chamado Brasil. Se vivermos a Fé Católica na integridade de sua ortodoxia, coerência e esplendor, nosso país passará para a História como um país que soube dar valor ao principal condimento de sua personalidade: a fé em Jesus Cristo.

São Tomás de Aquino: a catedral do pensamento

Inácio de Araújo Almeida

saint-thomas-aquinas-10Corria o ano de 1248. A cidade de Colônia estava em festa. As autoridades religiosas e civis, bem como o piedoso povo, reuniram-se para pôr a pedra fundamental daquela que viria a ser a maior catedral gótica do mundo. E, no meio do numeroso clero, viam-se também dois frades de túnica branca e manto negro que há pouco haviam chegado da França. O mais velho se chamava Alberto, cognominado “Magno”. Era o mais sábio homem de seu tempo e a maior autoridade teológica do século. O simples fato de se enunciar nos meios acadêmicos a frase: “Albertus dixit[1], em muitos casos já era suficiente para encerrar uma discussão doutrinária.

Sobre o frade mais novo, pouco se sabia, a não ser que era discípulo de Alberto. Se não fosse sua elevada estatura e avantajado corpo que o destacavam dos demais, passaria quase despercebido no meio daquela multidão. Todavia, sob aquele hábito da mendicante ordem de São Domingos, ocultava-se um membro da mais alta nobreza italiana. Tinha ele por parentes próximos dois imperadores do Sacro Império Romano Alemão, Frederico II e Conrado VI. Contudo, o que lhe fez sair daquele aparente anonimato não foi o seu porte altaneiro e nem mesmo a sua elevada nobreza, mas sim a sua virtude e inteligência. Este jovem frade tornou-se um grande santo e um dos maiores gênios que o mundo viu nascer. Seu nome era Tomás de Aquino…

Com efeito, era do conhecimento de muitos o motivo que o trouxera a Colônia. Estava ali para auxiliar o seu mestre na fundação de um Studium Generale, que viria a ser o centro de estudos teológicos de sua ordem em terras alemãs. Porém, o que ninguém sabia, talvez nem ele mesmo, é que, nos vinte cinco anos seguintes, Tomás  construiria também um magnífico templo, tão sólido e duradouro como os alicerces da igreja de Colônia, que via nascer. Tomás edificaria um monumento de doutrina, fundamentado na fé e na razão. Tal monumento bem poderia ser chamado de “a catedral do pensamento cristão”…

O pequeno monge De Monte Cassino

O mundo o viu nascer no ano de 1225, no castelo de Roccasecca, próximo a Nápoles, na Itália. Dos sete filhos do conde Landolfo d’Aquino, Tomás era o mais novo. Aos cinco anos, foi enviado ao famoso Convento de Monte Cassino, para lá ser educado. Seu tio, Sunibaldo, era abade e encarregou-se de sua formação. Tudo indica que sua família também ansiava que ele viesse a ser o superior daquele prestigioso mosteiro.

Pouco se sabe deste período de sua vida, a não ser que o “pequeno monge”, ao percorrer o majestoso claustro daquela abadia, inquiria os religiosos sobre um tema que não saía da sua mente: “Que é Deus?”. Não passaram para a história as respostas proferidas. Contudo, parece certo dizer que ninguém lhe respondeu satisfatoriamente, pois, desde criança, ele fez dessa primeira indagação a força motriz que o impulsionaria a produzir a maior obra teológica de todos os tempos.

Ao ingressar na vida acadêmica, rapidamente destacou-se pela prodigiosa fecundidade de  pensamento. Esse doutor que mereceu ser chamado “Angélico”, foi um grande luzeiro posto por Deus no meio de sua Igreja, a fim de esclarecer, confortar e animar as almas pelos séculos futuros. Viveu apenas 49 anos, dedicando a metade de sua vida à nobre e árdua tarefa de ensinar nos mais importantes centros universitários da França, Itália e Alemanha.

Guilherme de Tocco, seu primeiro e principal biógrafo, afirmou que “nas aulas o seu gênio começou a brilhar de tal forma e a sua inteligência a revelar-se tão perspicaz, que repetia aos outros estudantes as lições dos mestres de maneira mais elevada, mais clara e mais profunda do que as tinha ouvido” [1].

São Tomás soube unir harmoniosamente a santidade com a genialidade, e a erudição com a virtude, a fim de produzir a maior obra teológica de todos os tempos. Durante os quase oito séculos que separam sua existência da nossa, foi ele sempre exaltado com eloquentes louvores pelos Papas, em termos não comuns em documentos pontifícios.

O Papa João XXII, em 1318, afirmou: “Ele sozinho iluminava a Igreja mais que os outros doutores. Lendo  seus livros um  homem aproveita mais em um ano do que durante toda a sua vida”[2]. São Pio V, em 1567, não foi menos categórico: “A Igreja fez dela a sua doutrina teológica, por ser a mais certa e a mais segura de todas”. E o Papa Leão XIII, em 1892, disse que “se se encontram doutores em desacordo com São Tomás, qualquer que seja o seu mérito, a hesitação não é permitida; sejam os primeiros sacrificados ao segundo”. Por sua vez, o Concílio Vaticano II aconselha que São Tomás seja seguido nos Seminários e nas Universidades católicas. O Papa Paulo VI, comentando esse fato, disse: “é a primeira vez que um Concílio Ecumênico recomenda um teólogo, e este é precisamente São Tomás de Aquino”.

As três catequeses de Bento XVI sobre São Tomás de Aquino

Seguindo os passos de seus predecessores, o Papa Bento XVI voltou a ressaltar a importância do pensamento de São Tomás de Aquino para o mundo contemporâneo. O Sumo Pontífice dedicou três de suas audiências semanais para abordar a vida, a obra e o pensamento do Doutor Angélico[3]. Em sua Catequese de 02 de junho de 2010, o Papa recordou as palavras de João Paulo II na Encíclica Fides et Ratio, onde ele afirma que o Angélico: “foi sempre proposto pela Igreja como mestre de pensamento e modelo quanto ao reto modo de fazer teologia”[4]. O atual Pontífice argumenta que não devemos nos surpreender que, depois de Santo Agostinho, entre os escritores eclesiásticos mencionados no Catecismo da Igreja Católica, São Tomás seja citado mais do que todos os outros. Em seguida, ele apresenta alguns traços da vida do Aquinate, ressaltando o providencial encontro do Angélico com o pensamento de Aristóteles.

Com efeito, no século XIII foram traduzidas para o latim diversas obras do Estagirita que até então eram completamente desconhecidas no ocidente cristão. Isto despertou nos meios acadêmicos não só admiração, mas também temor. A razão disto é que muitos dos ensinamentos de Aristóteles pareciam estar em desacordo com a doutrina revelada. São Tomás, então, se dedicou a comentar as principais obras de Aristóteles, procurando distinguir em seus escritos aquilo que era válido, daquilo que era duvidoso. Havia uma pergunta que intrigava muitos teólogos do seu tempo: poderia o pensamento cristão receber algum contributo da filosofia pagã? São Tomás respondeu: “Toda verdade, dita por quem quer que seja, vem do Espírito Santo” [5]·. Para São Tomás, o encontro com uma filosofia que era anterior ao próprio cristianismo não era propriamente um obstáculo à revelação, mas sim, abria uma nova perspectiva ao horizonte da fé. Vejamos as palavras do Pontífice: “A filosofia aristotélica era, obviamente, uma filosofia elaborada sem conhecimento do Antigo e do Novo Testamento, uma explicação do mundo sem revelação, unicamente pela razão. E esta racionalidade consequente era convincente (…). Existia uma ‘filosofia’ completa e convincente em si mesma, uma racionalidade precedente à fé, e depois a ‘teologia’, um pensar com a fé e na fé. A questão urgente era esta: o mundo da racionalidade, a filosofia pensada sem Cristo e o mundo da fé são compatíveis? Ou então se excluem? Não faltavam elementos que afirmavam a incompatibilidade entre os dois mundos, mas São Tomás estava firmemente convencido da sua compatibilidade; aliás, a filosofia elaborada sem o conhecimento de Cristo praticamente esperava a luz de Jesus para ser completada. Esta foi a grande ‘surpresa’ de São Tomás, que determinou o seu caminho de pensador. Mostrar esta independência de filosofia e teologia, e, ao mesmo tempo, a sua relacionalidade recíproca, foi a missão histórica do grande mestre”[6].

Em síntese, o Papa explica que naquele momento de desencontro entre duas culturas, parecia que “a fé devia render-se perante a razão”. Entretanto, São Tomás demonstrou que fé e razão caminham lado a lado, e que não existe contradição entre os dados da revelação com aqueles adquiridos pelo conhecimento racional. Desta forma, fé e razão: “constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade” [7]·. Foi assim que, segundo o Pontífice, o Aquinate acabou por criar “uma nova síntese, que veio a formar a cultura dos séculos seguintes”.[8]

saint-thomas-aquinas-16

O poder de atração de São Tomás

Outro ponto ressaltado por Bento XVI foi a grande capacidade de atração que São Tomás exercia sobre aqueles que o conheciam: “Um dos seus ex-alunos declarou que uma enorme multidão de estudantes seguia os cursos de Tomás, a tal ponto que as salas tinham dificuldades em contê-los e, com um apontamento pessoal, acrescentava que ‘ouvi-lo era para ele uma profunda felicidade’”.

São Tomás “viveu a vida de um mestre e com toda a entrega de que era capaz”[9]. Na Suma Contra os Gentios se encontra uma discreta indicação do que ele considerava como a principal tarefa de sua vida, fazendo suas as palavras de Santo Hilário: “Sou consciente de que o principal dever de minha vida para com Deus é esforçar-me para que minhas palavras e todos os meus sentidos falem dele”[10]. Aquela perfeita união que havia no Angélico entre a vida de oração e a vida do estudo era o segredo de sua santidade.

Além de ter sido um grande professor e escritor, São Tomás também se dedicou à pregação pública. Algumas destas homilias passaram para a história e chegaram até nós. Em suas pregações, ele soube explicar os mais intricados problemas teológicos, numa linguagem acessível às pessoas de pouca erudição. O Papa considera verdadeiramente ser uma grande graça: “quando os teólogos sabem falar com simplicidade e fervor aos fiéis. Por outro lado, o ministério da pregação ajuda os próprios estudiosos de teologia a ter um sadio realismo pastoral, e enriquece a sua investigação com estímulos intensos”.[11]

A sua devoção eucarística

Porém, como foi possível em apenas 25 anos de ensino, numa época em que não havia imprensa, em que as bibliotecas eram pequenas e de difícil acesso, uma tão grandiosa produção bibliográfica? Quem nos dá a resposta é o próprio São Tomás. Ele mesmo confidenciou a Frei Reginaldo, seu confessor, que aprendeu mais em suas meditações na Igreja diante do Santíssimo Sacramento, ou na cela aos pés do Crucifixo, do que em todos os livros que havia lido. Guilherme de Tocco insiste em dizer que

‘todas as vezes que ele queria estudar, iniciar uma disputa, ensinar, escrever ou ditar, retirava-se primeiramente no segredo da oração e rezava vertendo lágrimas, a fim de obter a compreensão dos mistérios divinos’. São Tomás: ‘entregou-se totalmente às coisas do alto, e foi contemplativo de um modo inteiramente admirável’[12].

Durante a noite, Tomás, após um breve sono, ia prosternar-se diante do Santíssimo Sacramento, onde permanecia longo tempo em oração. Quando tocavam as Matinas, antes que os religiosos formassem fila para ir ao coro, ele retornava sigilosamente à sua cela para que ninguém o notasse. Desta forma, era na vida de piedade que São Tomás adquiria os mais altos conhecimentos, compreendia os textos sagrados e encontrava a solução para os mais complicados problemas teológicos. O Pontífice também argumenta que na vida de São Tomás encontramos aquela que é uma das principais características das almas eleitas, ou seja, a devoção a Nossa Senhora

Ele definiu-a com um apelativo maravilhoso: Triclinium totius Trinitatis, triclínio, ou seja, lugar onde a Trindade encontra o seu descanso porque, em virtude da Encarnação, em nenhuma criatura, como nela, as três Pessoas divinas habitam e sentem a delícia e a alegria por viver na sua alma cheia de Graça. Pela sua intercessão, nós podemos obter todo o auxílio[13].

A celebração da Santa Eucaristia era a devoção preferida de São Tomás. Celebrava todos os dias, à primeira hora da manhã e, antes mesmo de tirar os paramentos sacerdotais, assistia a uma ou duas missas. Quanto aos deveres religiosos, seguia escrupulosamente as orações da comunidade, sem usar das legítimas dispensas a que tinha direito por exercer a função de Mestre. Ao avançar em idade, aumentou ainda o número de suas orações e meditações. Desta forma é que se entende melhor toda a eficácia do ensino de São Tomás, pois, de acordo com Grabmann: “a figura científica de São Tomás não se pode separar da grandeza ético-religiosa de sua alma; em Tomás, não se pode compreender o investigador da verdade sem o santo” [14].

“Mestre Tomás, que lição nos pode dar?”.

Bento XVI também recorda que, certa manhã, enquanto São Tomás rezava na capela de São Nicolau, em Nápoles, um sacristão chamado Domingos de Caserta, ouviu um diálogo. O Angélico perguntava, preocupado, se aquilo que tinha escrito sobre os mistérios da fé era correto. É então que ouve uma voz que provém do crucifixo:

“-Falaste bem de mim, Tomás, qual será tua recompensa?

“- Nada mais do que Tu, Senhor”.

E quando se aproximava o término de sua peregrinação nesta terra, o Angélico pediu os Sacramentos e os recebeu com grande fervor. Neste momento, afirmou ainda a sua fé absoluta na presença de Deus na Eucaristia

Recebo-te, preço da redenção de minha alma, recebo-te, viático de minha peregrinação, por cujo amor estudei, realizei vigílias, sofri; preguei-te, ensinei; jamais disse algo contra ti, e se o fiz foi por ignorância, e não insisto em meu erro; se ensinei mal a respeito deste sacramento ou de outros, submeto-o ao julgamento da santa Igreja Romana, em obediência à qual deixo agora esta vida[15].

Três dias depois, a 07 de março de 1274, de madrugada, é ungido. Responde a cada uma das santas unções. Instantes depois expira: “A sua alma vai tão pura como veio. Tomás não parte, regressa. Espera-o Aquele de quem nunca, afinal, se separou…” [16].

Por ocasião do sétimo centenário da morte de Angélico, o Papa PauloVI dirige-se a Fossanova e ali afirma que, mesmo no atual tempo em que vivemos, temos ainda muito a aprender com São Tomás. Este Pontífice interrogava: “Mestre Tomás, que lição nos pode dar?”. Em seguida, respondia com estas palavras: “A confiança na verdade do pensamento religioso católico, como foi por ele defendido, exposto e aberto à capacidade cognoscitiva da mente humana”[17]. E neste mesmo dia,  na cidade de Aquino, referindo-se ainda a São Tomás, concluía dizendo: “Todos nós que somos filhos da Igreja, podemos e devemos, pelo menos em certa medida, ser seus discípulos!”[18].


[1]Guillelmus de Tocco: Storia Sancti Thome de Aquino, ed. C. Le Brun Gouanvic, Pontifical Institute of Medieval Studies, Toronto, 1996.

[2] As citações mencionadas neste parágrafo encontram-se na obra: Odilão, Moura. Prefácio a Exposição Sobre o Credo. In: Tomás De Aquino. Exposição Sobre o Credo. 4ª ed. São Paulo: Loyola, 1981. pp. 11-16.

[3] As três catequeses de Bento XVI sobre São Tomás foram proferidas na Praça de São Pedro nos dias 02, 16 e 23 de Junho de 2010.

[4]João Paulo II. Carta encíclica Fides et Ratio: sobre as relações entre fé e razão, Paulus, São Paulo, 1998, n. 43.

[5]Aquino, São Tomás de. Summa Theologica: I-II, q. 109, a. 1, ad 1.: “Omne verum, a quocumque dicatur, a Spiritu Santo est”.

[6] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 16 Jun. 2010.

[7] João Paulo II. Carta encíclica Fides et Ratio: sobre as relações entre fé e razão, Paulus, São Paulo, 1998.

[8] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 02 Jun. 2010.

[9] Pieper, Josef. Introducción a Tomás de Aquino. Doce Lecciones. Rialp, Madrid, 2005.

[10] Aquino, São Tomás de. Suma contra los Gentiles, BAC, Madrid, 2007. p. 40.

[11] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 02 Jun. 2010.

[12]G uillelmus de Tocco: Storia Sancti Thome de Aquino, ed. C. Le Brun Gouanvic, Pontifical Institute of Medieval Studies, Toronto, 1996.

[13] Bento XVI, Audiência Geral, Praça de São Pedro. Quarta-feira, 23 Jun. 2010.

[14]In Ameal, João. São Tomás de Aquino. Iniciação ao estudo da sua figura e da sua obra. 3a ed. Tavares Martins: Porto, 1947, p. 130.

[15] Idem, p. 154.

[16] Ibidem.

[17] Insegnamenti di Paolo VI, XII [1974], pp. 833-834.

[18] Ibidem, p. 836.