Imagens que a História não conseguiu destruir…


Ítalo Santana / 2º ano de Teologia

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Todo católico possui uma imagenzinha em casa, por singela que seja, e para ela acorre quando a vida aperta. Surgiu uma dificuldade, perdeu o emprego, ou apareceu mais uma doença, ele encosta a porta, acende a vela do criado mudo e começa a rezar. Este gesto é de tal modo corriqueiro que ninguém o questiona, e com razão, pois faz parte da lógica das coisas o não pensar muito em assuntos óbvios. Mas, sem dúvida nenhuma, qualquer pessoa por mais fria que fosse, ficaria profundamente escandalizada se, entrando numa igreja para refletir ou fugir um pouco do stress cotidiano, se deparasse com um grupo de homens quebrando com martelos a face de um crucificado, ou arrancando à força os delicados braços de uma imagem de Nossa Senhora. Pois bem, isto que hoje constitui uma verdadeira aberração, deu-se com certa frequência no seio da Igreja numa época histórica bastante convulsionada pelo surgimento de uma heresia assombrosa: o iconoclasmo.

Vândalos de uma perniciosa heresia

O termo “iconoclasmo” deriva da junção de duas palavras gregas: “eikón” (imagem) e “klao” (romper); por isto os hereges iconoclastas foram denominados os “quebradores de imagens”, ou aqueles que se opunham frontalmente ao seu culto. Porém, apesar de ter havido vários choques doutrinários antecedentes sobre a questão, esta palavra só viria a tomar toda a sua força com a perseguição do Imperador Leão III.

Desejoso de uma reforma na ordem civil e militar, decidiu aplicá-la ao campo espiritual, e julgando ser excessivo o culto prestado às imagens resolveu aboli-lo, sob o pretexto de que tal veneração era um empecilho para a conversão dos judeus e sarracenos ao catolicismo, um retrocesso à idolatria de falsos deuses, e o motivo principal da decadência do Império. Entretanto, parece que não foi só um mero anseio renovador que impeliu Leão a proibir os ícones, mas também certa vontade de agradar aos maniqueus e paulicianos, partido numeroso e potente da Ásia Menor, do qual era formado uma grande parcela das tropas imperiais.

São Germano, o Patriarca de Constantinopla, e até mesmo o Papa São Gregório II enviaram-lhe numerosas cartas de advertência, em vão, pois pouco tempo depois publicou um édito (726) que deu total liberdade à heresia.

Estoura a perseguição iconoclasta

Depois de estragos incontáveis como a apropriação dos bens da Igreja na Sicília e Calábria, Leão III morre em 741, deixando como herdeiro do trono e continuador seu filho Constantino V, chamado o Coprônimo. Apesar de manter certa tolerância nos primórdios de governo, o novo Imperador iniciou uma perseguição ainda mais cruel que a realizada por seu pai.

Ele abriu um conciliábulo em Constantinopla, intitulado como sétimo concílio ecumênico, com a presença de 338 Bispos, que se submeteram por covardia à vontade nefanda de Constantino. A heresia iconoclasta recebeu toda a liberdade. O pseudoconcílio proibiu, debaixo de castigos severos, a fabricação, exposição pública e veneração das imagens, e anatematizou São Germano, São João Damasceno e o cenobita Jorge de Chipre. Além disso, qualificou o Imperador e seu filho de luzeiros da ortodoxia, concedendo-lhes como prêmio o patriarcado constantinopolitano. Muitos católicos e religiosos sofreram o martírio por fogo ou mutilação. Os monges eram impedidos, sob pena de tormentos, de vestir o hábito monacal e de se manterem fiéis aos votos; e os leigos tinham que fazer juramento público de não prestar culto às imagens. No entanto, em 775 falece Constantino e sobe ao poder Leão IV. Este possuía certa amizade com os monges, abrandando um tanto a cruel persecução. Apesar de não ser iconoclasta continuou a favorecer a heresia, sendo capaz de exilar sua esposa Irene, quando soube que guardava consigo algumas imagens.  

Uma enérgica Imperatriz na defesa da verdade

Com a morte de Leão IV, as brumas desfazem-se no horizonte. O sucessor ao trono era, nada mais, nada menos, seu filho de seis anos de idade. Irene aproveita-se da oportunidade, assume o governo como tutora do pequeno Constantino VI e envia ao Papa Adriano I uma embaixada pedindo a convocação de um Concílio. O Pontífice aceita e o Concílio é aberto na Igreja dos Santos Apóstolos de Constantinopla. Porém, mal se havia dado início às sessões, um grupo de soldados iconoclastas, inspirados por eclesiásticos do mesmo partido, invadiu a igreja, obrigando os Bispos a se dissolverem e os legados a retomarem o caminho de Roma.

Diante de tal acontecimento, a enérgica Imperatriz não se deu por vencida: desarmou as tropas invasoras e enviou emissários a todos os Bispos e ao Papa para a convocação de um novo Concílio, desta vez em Nicéia. Deste modo, em 24 de setembro de 787, na igreja de Santa Sofia, abria-se definitivamente o VII Concílio Ecumênico, com a presença dos legados pontifícios e de 300 Bispos. Dentre as oito sessões, as mais importantes do ponto de vista dogmático são a quarta, a sexta e a sétima. A quarta sessão tratou de demonstrar, através da Sagrada Escritura e dos escritos dos Padres da Igreja, que a veneração das imagens não só é lícita, como salutar. Na sexta sessão, leram-se as atas do conciliábulo de 754, constatando-se sua invalidez. Não poderia ser considerado ecumênico, uma vez que não estavam presentes nele nem os Patriarcas do Oriente nem mesmo o Pontífice Romano. Na sétima, após se fazer referência ao Símbolo e aos seis Concílios Ecumênicos anteriores, em caráter oficial, declarou-se: “Definimos com todo rigor e cuidado que, à semelhança da figura da cruz preciosa e vivificante, assim os venerandos e santos ícones, quer pintados, quer em mosaico ou em qualquer outro material adequado, devem ser expostos nas santas igrejas de Deus, sobre os sagrados utensílios e paramentos, sobre as paredes e painéis, nas casas e nas ruas; tanto o ícone do Senhor Deus e Salvador nosso Jesus Cristo como da Senhora imaculada nossa, a santa Deípara, dos venerandos anjos e de todos os varões santos e justos.[i]

Bibliografia

ALBERICO, Giuseppe. História dos Concílios Ecumênicos. Tradução de José Maria de Almeida. São Paulo: Paulus, 1995. p. 147.

Enciclopédia Universal Ilustrada Europeo-Americana. Vol. XXVIII. Editores Espasa-Calpe. Madrid: 1925.


[i] Cf. Denzinguer, Heinrich. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral, tradução de José Marino Luz e Johan Konings São Paulo: Paulinas; Loyola, 2007.

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