A vontade de Deus é sempre eficaz?

(2ª parte)

Marcos Eduardo Melo dos Santos

O homem pode ter uma vontade muito firme de obter algo, mas sem consegui-lo. Isso não acontece com Deus; sua vontade é sempre eficaz. Entretanto, algum espírito crítico poderia levantar uma objeção:

Afirma São Paulo: “Deus quer que todos se salvem e alcancem a vida eterna” (1 Tim 2, 4). Ora, muitas pessoas foram condenadas ao inferno, o qual também é eterno.  Se a vontade do Altíssimo é que todos se salvem, por que os réprobos estão naquele lugar de tormentos? A vontade salvífica de Deus neste ponto não é eficaz?

São Tomás responde essa objeção de modo brilhante. Assim como queremos que todos os homens vivam bem e livremente, mas que os criminosos, por justiça, paguem os delitos cometidos, para o benefício de suas almas e pela saúde da sociedade, do mesmo modo o deseja o Criador.

Deus possui vontades antecedentes, que se aplicam a generalidade dos homens. Uma delas provém da misericórdia de Deus que, ao criar a humanidade, deseja a salvação de todos os homens.  Entretanto, a justiça de Deus quer que o pecado cometido seja punido; é uma vontade consequente do mal praticado. A pena é uma consequência do pecado, pois Deus não quereria punir se não houvesse o mal moral.

O Altíssimo quer de fato que o pecador se salve, e por isso proporciona todos os meios para salvá-lo – ainda que seja um pagão que jamais teve contato com a verdade do Evangelho. Deus deseja de tal maneira a salvação de cada homem que para isso encarnou-Se, morreu na Cruz, fundou a Igreja e deu-nos Sua própria Mãe como amorosa medianeira.

No entanto, aplicando de forma errada sua liberdade, o homem, em vez de praticar o bem, às vezes prefere seguir as sendas do mal. E, se não se arrepender de seus pecados, será precipitado no inferno. Dessa forma, se a vontade antecedente de Deus de que essa alma se salvasse não foi cumprida, Sua vontade consequente, no sentido de que todo pecado seja punido, é realizada. Portanto, a vontade divina é sempre eficaz: ou a antecedente, da misericórdia, ou a consequente, da justiça que é cumprida[1].


[1] S. Th. I-I, q. 19, a. 6.

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