ITTA – IFAT

Instituto Teológico São Tomás de Aquino

ITTA – IFAT - Instituto Teológico São Tomás de Aquino

Qual é a vontade de Deus a respeito do cristão?

(3ª parte)

O catecismo ensina que a vontade de Deus para com o cristão possui dois prismas. Um na terra e outro no Céu. Nesta vida esta vontade se realiza no mandato de Cristo de “que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou”[1]. Desta caridade mútua procede todo o bem da sociedade. Queremos o bem natural e material do próximo, mas sobretudo, queremos a sua salvação eterna, pois o bem sobrenatural do irmão vale mais do que todo o Universo. Em relação a Deus, a vontade do Pai na terra é “elevar os homens à participação da vida divina” [2], porque Deus quer conviver com o homem.

Esta vontade de Deus em relação ao cristão se realiza através da Igreja que reúne todos homens em torno do seu Filho, Jesus Cristo. Por esta razão a Igreja é na terra “o germe e o princípio do Reino de Deus”[3]. O Catecismo ensina que a vontade do nosso Pai é “que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2, 3-4), e “não quer que ninguém se perca” (2Pe 3, 9)[4].

Deus quer comunicar sua própria bondade, fazendo-nos filhos adotivos por Jesus Cristo. Por esta razão, afirma Santo Irineu de Lyon: “Se a revelação de Deus pela criação já proporcionou a vida a todos os seres que vivem na terra, quanto mais a manifestação do Pai pelo Verbo proporciona a vida aos que veem a Deus!”[5]. Esta é a glória máxima da qual o homem é capaz na terra, conviver, amar e sentir-se amado por Deus.

Esta é a vontade de Deus que começa na terra e se consome no Paraíso: cumprir esta vontade de Deus é possuir a felicidade na terra, a qual se tornará plena no Céu. Desta forma o cristão faz a vontade de Deus, na terra assim como no Céu.


[1] Catecismo da Igreja Católica, n. 2822. Cf. Jo 13, 34; 1 Jo 3; 4; Lc 10, 25-37.

[2] II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 2: AAS 58 (1966) 818.

[3] II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 5: AAS 57 (1965) 8.

[4] Cf. Mt 18, 14.

[5] Santo Irineu de Lião, Adversus haereses 4, 20, 7: SC 100, 648 (PG 7, 1037).

A vontade de Deus é sempre eficaz?

(2ª parte)

Marcos Eduardo Melo dos Santos

O homem pode ter uma vontade muito firme de obter algo, mas sem consegui-lo. Isso não acontece com Deus; sua vontade é sempre eficaz. Entretanto, algum espírito crítico poderia levantar uma objeção:

Afirma São Paulo: “Deus quer que todos se salvem e alcancem a vida eterna” (1 Tim 2, 4). Ora, muitas pessoas foram condenadas ao inferno, o qual também é eterno.  Se a vontade do Altíssimo é que todos se salvem, por que os réprobos estão naquele lugar de tormentos? A vontade salvífica de Deus neste ponto não é eficaz?

São Tomás responde essa objeção de modo brilhante. Assim como queremos que todos os homens vivam bem e livremente, mas que os criminosos, por justiça, paguem os delitos cometidos, para o benefício de suas almas e pela saúde da sociedade, do mesmo modo o deseja o Criador.

Deus possui vontades antecedentes, que se aplicam a generalidade dos homens. Uma delas provém da misericórdia de Deus que, ao criar a humanidade, deseja a salvação de todos os homens.  Entretanto, a justiça de Deus quer que o pecado cometido seja punido; é uma vontade consequente do mal praticado. A pena é uma consequência do pecado, pois Deus não quereria punir se não houvesse o mal moral.

O Altíssimo quer de fato que o pecador se salve, e por isso proporciona todos os meios para salvá-lo – ainda que seja um pagão que jamais teve contato com a verdade do Evangelho. Deus deseja de tal maneira a salvação de cada homem que para isso encarnou-Se, morreu na Cruz, fundou a Igreja e deu-nos Sua própria Mãe como amorosa medianeira.

No entanto, aplicando de forma errada sua liberdade, o homem, em vez de praticar o bem, às vezes prefere seguir as sendas do mal. E, se não se arrepender de seus pecados, será precipitado no inferno. Dessa forma, se a vontade antecedente de Deus de que essa alma se salvasse não foi cumprida, Sua vontade consequente, no sentido de que todo pecado seja punido, é realizada. Portanto, a vontade divina é sempre eficaz: ou a antecedente, da misericórdia, ou a consequente, da justiça que é cumprida[1].


[1] S. Th. I-I, q. 19, a. 6.

Como é a vontade de Deus? (1ª parte)


Marcos Eduardo Melo dos Santos

O cristão sabe, pela inteligência e especialmente pela Revelação, que o universo, sendo ordenado, não pode ter sido criado pelo acaso ou por um destino cego (CEC 295), como se alguém lançasse letras do alto de um prédio e no solo se formassem frases ordenadas, constituindo um livro. A criação é muito mais que uma obra escrita. É ordenada com leis perfeitíssimas.

Deus ordenou a existência de todas as leis da natureza, bem como de todos os passos da História e todos os dramas da vida de cada homem. Por esta razão o livro da Sabedoria pergunta: “como poderia algo subsistir, se Ele não o tivesse querido?” (Sb 11,25), e o salmista responde: “Tudo que Deus quis, Ele o fez” (Sl 113, 11).

A vontade de Deus pode mudar?

Constam no antigo Testamento, algumas ações de Deus descritas de forma humana e que poderiam dar a entender que Deus mudou de vontade. Assim, no Dilúvio Deus haveria se “arrependido de criar o homem” (Gn 6, 7) ou ainda “se irado” contra Israel que a pouco libertara da escravidão (Dt 9, 20).

Neste sentido, inúmeras são as intervenções de Deus na História. Um Deus que permite o sofrimento de Jó, mas que depois o cumula de bens ainda maiores. Para libertar o Povo Eleito da escravidão faz portentos admiráveis no Mar Vermelho, mas não hesita em castigar o pecado de idolatria dos filhos de Israel. Esta e diversas outras passagens da Bíblia podem dar a parecer ao leitor que Deus mudou, mas é necessário fazer uma distinção, que procede e assemelha-se ao modo humano de querer.

A mudança de vontade no homem deriva do fato de perceber algum aspecto mais aproveitável em uma atitude ou objeto, de que antes não havia se dado conta. Neste sentido, a vontade de Deus é imutável, pois o Ser Onisciente conhece todas as coisas e não se engana em suas previsões, como nós humanos. Muito diferentemente de nós, Ele não quer algo contrário do que havia antes desejado. Desta forma, em razão de sua onisciência a vontade de Deus é absolutamente imutável, por isso ensina a Escritura: “Deus não é filho de homem para mudar” (Nm 23, 19).

Por outro lado, as circunstâncias podem fazer com que nós mudemos de vontade. De forma semelhante, Deus pode querer que algo mude. Assim como queremos o bem do próximo, ou a melhoria das condições de vida na sociedade, Deus quer que o pecador se converta e que os bons sejam ainda melhores. Neste sentido, a vontade de Deus não é contrária ao que era, portanto, não mudou, mas sim, quer a alteração de certas coisas, como por exemplo, que o mal seja tolhido e o bem aperfeiçoado.

Diácono Arauto junto ao Papa

De passagem por Roma, o diácono Felipe Paschoal Rocha, do Seminário São Tomás de Aquino, diaconou no último sábado, 5 de fevereiro, às 10 horas da manhã, uma Missa com o Papa Bento XVI.

Diaconos_Arautos_Papa

Participou, deste modo, do Rito de Ordenação Episcopal, durante a qual foram ordenados bispos os excelentíssimos Mons. Savio Hon Tai-Fai, Mons. Marcello Bartolucci, Mons. Celso Morga Iruzubieta, Mons. Antonio Guido Filipazzi e Mons. Edgar Peña Parra.

Brasileiro, natural do estado de Pernambuco e membro dos Arautos do Evangelho há 8 anos, permaneceu junto ao Papa em diversos momentos da celebração.

As fotos e o vídeo da celebração estão disponíveis do site do vaticano, pelo link:

http://www.vatican.va/news_services/liturgy/photogallery/2011/20110205/index.html

D. Beni preside a aula inaugural no IFAT-ITTA

Após a solene celebração Eucarística por ocasião da memória de São Tomás de Aquino, e inauguração do ano letivo, Dom Benedito Beni dos Santos ministrou a aula inaugural de 2011, no auditório do Instituto Teológico São Tomás de Aquino. Cerca de 100, entre alunos e professores, deixaram repleto o auditório. O tema da exposição foi a Exortação Apostólica Pós-sinodal Verbum Domini, promulgada pelo Santo Padre para toda a Igreja a 30 de setembro de 2010, sobre “A Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja”.
Apresentando sua consideração como “simples guia de leitura”, Dom Beni expôs de modo magnífico o objetivo e o conteúdo deste documento, no qual Sua Santidade, o Papa Bento XVI, trabalhou com as próprias mãos.
Dom Beni concluiu a conferência com um alto pensamento teológico baseado no número 10 da Constituição Conciliar Sacrossanctum Concilium. Como da Eucaristia procede a força, e para a Ela se dirigem como fim todas as obras da Igreja, inclusive a pregação, a Liturgia é o modo mais profícuo e sublime para o anúncio da Palavra de Deus. Se o Evangelho deve ser acolhido no coração dos fiéis com espírito de oração, o que é a Liturgia senão o diálogo de Deus com o homem?

Deus é eterno


Anderson Fernandes Pereira

Há certos mistérios que envolvem os povos de todas as épocas da história da humanidade. Perguntas tais como: de onde vim? Para onde vou? Quem é Deus?, inquietam os homens de todos os tempos. Os povos da antiguidade, procurando atender em certa medida essas indagações, colocavam suas esperanças em deuses que nasciam e morriam conforme suas necessidades terrenas.

Entretanto, o povo eleito sempre confessou numa linguagem clara e direta a eternidade de seu Deus[1]: “Antes que se formassem as montanhas, a terra e o universo, desde toda a eternidade vós sois Deus” (Sl 89, 2).

Inspirados pelo Espírito Santo, os escritores sagrados não se preocupam em demonstrar a eternidade de Deus; afirmam com simplicidade que Ele existe antes da criação do mundo e jamais deixará de existir: “Tudo se acaba pelo uso como um traje (…). Mas Vós permaneceis o mesmo e vossos anos não têm fim” (Sl 101, 27-28).

O que vêm a ser a eternidade de Deus? Em que consiste ela? Para termos noções precisas sobre essa propriedade do Criador, convém compreendermos primeiramente o que é o tempo.

O tempo

Talvez não haja coisa mais comum no cotidiano dos homens do que a noção de tempo, porém, certamente nos sentiríamos um tanto embaraçados se tentássemos resolver alguns problemas relativos a ele. De onde vem o tempo? Ele sempre existiu? Existirá para sempre? Se em algum momento ele não existiu, o que então acontecia antes do tempo? E se em algum momento ele deixar de existir, o que haverá depois dele? Quantos problemas complicados acerca de uma coisa aparentemente tão simples…

Ensina-nos o livro do Eclesiastes que para tudo há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer, tempo para plantar, e tempo para colher, tempo para chorar e tempo para rir, tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se, tempo para calar e tempo para falar… (cf. Eclesiastes 3,1-8). Quanta instabilidade em tudo que o homem realiza nesta terra. Em um curto espaço de tempo, desejamos algo que há pouco desprezávamos; certas coisas que queríamos ontem, já não mais nos interessam hoje.

Afirma Santo Agostinho: “Aquilo que cada homem é hoje, mal o sabe ele próprio. No entanto, é alguma coisa hoje. O que será amanhã, nem ele o sabe”[2]. Aristóteles define o tempo como sendo o número de movimento segundo o antes e o depois[3].

Eis que com o auxílio destes pensadores descobrimos os pontos característicos e próprios ao tempo: o movimento, a mudança e a corrupção de todas as coisas; em tudo há um começo e fim.

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O Evo

Consta que as distâncias cósmicas seriam limitadas para que pudéssemos ter noção do abismo que separa o tempo da eternidade. Sendo assim, os teólogos denominam com o nome de evo a medida das substâncias espirituais, que são os anjos e as almas racionais. Desta forma, concluímos que a eternidade não tem princípio nem fim, que o tempo tem princípio e fim, mas o evo, como um “meio caminho” entre tempo e eternidade, tem princípio, mas não tem fim.

O evo não se limita como nosso tempo, pelo ritmado movimento do ponteiro do relógio, ou ainda pela horário solar. O evo se mede pelo tempo necessário em que um Anjo exerce um ato. Seja esta ação um pensamento ou uma obra, o Anjo demora o espaço de um evo para realizá-lo.

Quanto tempo o Anjo necessita para cumprir uma ação intelectual ou material? Esta pergunta é demasiado complicada para a inteligência humana. A ação angélica pode ser tão rápida como o relâmpago, mas também tão lenta e duradoura como os milênios. Portanto, o evo está tão acima de nosso tempo terreno, que mal pode ser comparado com ele.

A eternidade de Deus

Se a respeito do tempo em que vivemos já existe tanto mistério, o que dizer da eternidade? A palavra eternidade traz imediatamente consigo a ideia do Divino e a ausência de princípio e fim. Santo Agostinho escreve: “A eternidade é a mesma substância de Deus, na qual não há nada que seja mutável; ali não há nada passado, nada que já não exista; nada que seja futuro como se ainda não existisse. Ali não há nada que não seja presente.”[4]

Entretanto, o termo eternidade não se refere apenas a uma simples duração ilimitada, à ausência de começo e de fim, mas exprime principalmente a imutabilidade de Deus. No Altíssimo não existe as mudanças presentes no mundo: nascimento e morte; início e término; transformação de uma coisa em outra etc. Como vivemos no tempo, é-nos difícil compreender o que é a eternidade de Deus, e poderíamos ser levados a imaginar a Eternidade Divina apenas como uma “existência larguíssima que não tem começo nem fim, como algo interminável, mas a eternidade de Deus é muito mais do que isso. A ideia do que não acaba nunca, é precisamente uma consequência da plenitude de vida própria de Deus.”[5]

Os teólogos utilizam a definição clássica, cunhada por Boécio: “a eternidade é a possessão total, simultânea e completa de uma vida interminável.”[6] Portanto, como dissemos, da mesma maneira que o conceito de tempo deriva do movimento, o de eternidade procede da imutabilidade.[7]

Verdadeira e propriamente falando, somente em Deus há eternidade, pois apenas Ele é absolutamente Imutável. O Altíssimo não só é eterno, mas a sua própria eternidade.[8] Entretanto, em sua infinita misericórdia, Deus colocou na alma de cada homem uma “semente de eternidade”[9], que o leva a aspirar e desejar algo que ultrapassa aquilo que o mundo lhe pode oferecer. Desta forma, “o mundo e o homem atestam que não têm em si mesmo, nem seu princípio primeiro, nem seu fim último, mas que participam do Ser em si, que é sem origem e sem fim”.[10]

A eternidade participada

A fim de estimular no homem à consciência de sua grandeza, São Leão Magno nos deixou uma célebre recomendação: “Reconhece ó Cristão, a tua dignidade”.[11] Como isso se torna realidade quando consideramos que é desta Vida interminável e imutável de Deus, que todos os homens são chamados a participar, na medida em que Lhe sejam fiéis, pois, Deus prometera ser Ele mesmo sua recompensa demasiadamente grande (Cf. Gn 15, 1).

A consideração da eternidade divina, nos convida a não nos deixarmos iludir pelas coisas do mundo, pois “céus e terras passarão, porém minhas palavras não passarão” (cf. Lc 21,33). Ao contrário, com os olhos fixos na eternidade, somos chamados a “enquanto temos tempo, a fazer o bem” (Gal 6,10), pois é no tempo que se prepara a eternidade, nos sofrimentos bem aceitos desta vida passageira que receberemos a alegria de uma vida interminável, possuindo com todo o rigor da palavra, a vida eterna. Participaremos assim da própria eternidade de Deus.


[1] Cf. MENDEZ, Gonzalo Lobo. Dios Uno y Trino. 4ª edição. Edicione Rialp. Madrid. 2005. Tradução nossa. p.53.

[2] Santo Agostinho. Sermo 46, 24-25.27: CCL 41,551-553

[3] Cf. Aristóteles,Phys. 4, c. 11 n. 12 (BK 220a25).

[4] Santo Agostinho. Enarrationes in Psalmos 101 [102]. PL 37, 1311.

[5] MENDEZ, Gonzalo Lobo. Dios Uno y Trino. 4ª edição. Ediciones Rialp. Madrid. 2005. Tradução nossa. p. 54.

[6] Boécio. De consolatione. L. 5, prosa 6: ML 63,858; cf. 1.3, prosa 2: ML 63,724.

[7] Cf. AQUINO, Tomás de. S. T. q. 10, a. 1 e 2.

[8] AQUINO, Tomás de. S. T. q. 10, a. 2.

[9] Catecismo da Igreja Católica, n. 33.

[10] CIC 34.

[11] S. Leão Magno, Sermo XXI, 3: S. Ch. 22 bis, 72.

Solene inauguração do ano letivo de 2011 no Seminário São Tomás de Aquino

ano letivo de 2011

Na tarde do dia 28 de janeiro, memória de São Tomás de Aquino, deu-se a solene inauguração do ano letivo de 2011, na Casa de Formação Sacerdotal São Tomás de Aquino. A fim de atrair as celestiais bênçãos para os trabalhos de mais um ano acadêmico, o programa se iniciou com a celebração de uma Eucaristia na igreja anexa ao Seminário, presidida por D. Benedito Beni dos Santos, Bispo Diocesano de Lorena e Supervisor Geral de Formação dos Arautos do Evangelho.

Concelebraram a Missa em memória “do mais santo dos sábios e mais sábio dos santos” – São Tomás de Aquino –, o Côn. Edson José Oriolo dos Santos, Cura da Catedral Metropolitana de Pouso Alegre e Vigário Geral da mesma Arquidiocese, o Pe. Rivelino Nogueira, Pároco da Catedral Nossa Senhora da Piedade (Lorena-SP) e o Pe. Antônio Guerra, EP.
Estiveram presentes na cerimônia o Diretor do ITTA, o Revmo. Pe. Caio Newton de Assis Fonseca, EP, e todo o corpo docente a tempo pleno, tanto do IFAT, quanto do ITTA. Somaram-se ao corpo discente de ambos os institutos, cerca de 900 Arautos do Evangelho, provenientes de diversas cidades do Brasil e do mundo, deixando repleta a igreja Nossa Senhora do Rosário.
A Liturgia foi animada pelo Coro e Orquestra Internacional dos Arautos do Evangelho, sob a regência do maestro Alejandro Javier de Saint’Amant, que executou obras de Georg Friedrich Händel (1685-1759) e Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594), assim como cânticos gregorianos.
Em brilhante homilia, Dom Beni correlacionou as leituras do dia com a memória de São Tomás. Também discorreu sobre os três principais sentidos do termo “Reino de Deus”, presente nos santos Evangelhos:
“O primeiro sentido consiste em que Cristo, enquanto manifestação encarnada do plano salvífico do Pai, é o próprio Reino de Deus entre os homens; o segundo sentido é místico, trata-se do Reino de Deus que não está circunscrito a um espaço geográfico, mas que reside no interior de cada homem em estado de graça, de cada santo. O pecado é o anti-reino de Cristo, e quem vive no pecado está fora deste Reino; por fim, em seu terceiro sentido, o Reino de Deus é a Igreja Católica, sacramento ou sinal de salvação, para todos os homens”.
Em seguida, aplicou estas verdades teológicas, relacionando-as com alguns desafios dos tempos atuais para a difusão deste Reino:
“Assim como o inimigo semeava o joio a fim de perder o trabalho do Divino semeador, de modo análogo, também no mundo atual, a cizânia do ódio; da perseguição religiosa em certos países do mundo; da exclusão do crucificado nos lugares públicos; e da influência dos meios de comunicação ao afirmarem o bem como o mal e o mal como o bem, são verdadeiros inimigos do Reino De Deus”.
Afirmava Dom Beni que “a Fé é a arma pela qual o cristão pode hoje combater o ódio dos inimigos do Reino. A mesma Fé amada e explicitada pelo grande Doutor da Igreja, São Tomás de Aquino”.
Ao final, após considerar com clareza alguns pontos da Suma Teológica sobre a essência divina, ressaltava que “um teólogo só pode transmitir verdadeira teologia, quando vive a santidade. Sem a prática da virtude, um professor de teologia não consegue comunicar o conhecimento de Deus. São Tomás foi esta estrela de primeira grandeza nos céus da teologia, precisamente porque foi santo. Seu brilho não provém apenas da sabedoria, mas da santidade, e por isso, foi honrado pela Igreja como ‘Doutor da Vida Cristã’”.

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Após a homilia, o Pe. Alex Brito, EP, introduziu o significado da cerimônia de Profissão de Fé e Juramento de Fidelidade que fariam ou renovariam os professores dos Institutos de Teologia e Filosofia (IFAT e ITTA). Explicava que sempre foi uma recomendação de diversos Papas da História da Igreja, reafirmada pelo Vaticano II, especialmente através do código de Direito Canônico de 1983, que cada encargo importante na Igreja fosse recebido após o solene juramento (c. 833 § 6). Como o ensino da Fé Cristã ocupa um lugar preeminente na vida eclesial, os professores do IFAT e do ITTA prestaram sobre as Sagradas Escrituras o solene juramento.
Recitado o Credo Niceno-Constantinopolitano, os professores proclamaram a crença “em tudo o que está contido na palavra de Deus, escrita ou transmitida pela tradição, e é proposto pela Igreja, de forma solene ou pelo Magistério ordinário e universal, para ser acreditado como divinamente revelado”. A fórmula termina com a aceitação do “religioso obséquio da vontade e da inteligência, aos ensinamentos que o Romano Pontífice ou o Colégio Episcopal propõem quando exercem o Magistério autêntico”.

Magistério pontifício e universidades católicas


Entrevista com o secretário da congregação para a Educação católica


O que distingue uma universidade católica das demais instituições de ensino? Qual o papel do Magistério pontifício, na Igreja e na sociedade civil? A moral cristã está em crise? O Arcebispo Jean-Louis Bruguès esclarece para nossos leitores estas e outras questões da atualidade.

Pe. Louis Goyard, EP

O Cardeal Zenon Grocholewski recordou recentemente a necessidade das universidades católicas conservarem sua própria identidade. Poderia expor-nos as dificuldades que elas enfrentam para manter suas características num mundo secularizado?

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Com frequência, pergunto-me qual é atualmente o primeiro desafio, ou o desafio mais importante, lançado ao ensino católico, tanto superior, nas universidades, quanto nas demais escolas. E respondo: vivemos em sociedades pluralistas. Pluralistas do ponto de vista cultural e religioso, e quanto mais se manifesta esse pluralismo, mais cada um de nós se volta para sua identidade: “Quem sou eu no meio de todos os outros?”. A questão da identidade é pois, mais premente, mais relevante hoje do que há vinte ou mesmo quarenta anos.

Portanto, nossas instituições têm diante de si uma escolha. Antes de tudo é necessário dizer que a maior parte delas goza de boa reputação, por sua excelência em matéria de formação, do acompanhamento pessoal, do nível científico atingido. As escolas e universidades católicas são apreciadas, um pouco por toda parte, no mundo inteiro, e isso é um motivo de ufania para nossa Congregação. Se elas, entretanto não visam senão a excelência, surge logo a pergunta: “O que diferencia uma escola ou universidade católica de outras escolas?”.

Não se trata, portanto, de conservar a identidade, mas de reencontrá-la nesse novo contexto. No fundo, a identidade católica é essa mescla — magnífica, mas também difícil — entre a abertura para o universal e a confissão de uma Fé particular, que é a Fé Católica. FrLG w: Cardinal

Segundo a Constituição apostólica “Ex Corde Ecclesiæ”, as atitudes e os princípios católicos devem impregnar toda a vida das universidades católicas…

Isso varia muito de acordo com os países. Diria eu que há dois pontos nos quais a identidade católica se manifesta com predileção.

O primeiro é o do ensino. Desejamos que todas as universidades católicas — nas quais ninguém é obrigado a matricular-se — deem de forma obrigatória a todos os seus alunos uma formação em antropologia cristã, em ética cristã e uma pequena iniciação à teologia. Não para forçá-los a se tornarem católicos — eles não se deixariam forçar —, mas para dizer-lhes: “Temos uma tradição, uma visão do mundo, da sociedade, da História, e a comunicamos a vocês. São livres de a aproveitarem como lhes parecer melhor”. Respeitamos, portanto, a liberdade de consciência.

Há um segundo ponto, o qual eu denominaria de “pastoral”: uma universidade católica é um local onde se deve poder rezar, deve-se poder celebrar o mistério cristão. Portanto, é preciso haver nela uma capela de acesso fácil e constante ao público que assinale o centro vital e

simbólico ao mesmo tempo.

Eu acrescentaria que em toda universidade católica é necessário encontrar uma faculdade de teologia. A iniciação à cultura cristã e à visão cristã do mundo e da sociedade compete de modo privilegiado à faculdade de teologia, que deveria proporcionar ensinamentos a todas as outras faculdades da universidade.

A “Ex Corde Ecclesiæ” estimula uma íntima relação entre as atividades de uma universidade católica e a missão evangelizadora da Igreja. Não lhe parece haver ainda, sob este aspecto, um longo caminho a percorrer?

Mais uma vez, isso depende dos lugares. Não sei se devo mencionar nações, mas, afinal, há um ano e meio viajei ao Chile, visitei cinco universidades católicas e fiquei fascinado pela qualidade daquilo que eu via.  Ou seja, instituições que, do ponto de vista da competência profissional, figuravam entre as melhores do país, a tal ponto que, quando se preparava uma reforma educacional, de bom grado os ministros se dirigiam a elas para solicitar sua opinião.

Eram também instituições nas quais a identidade cristã estava marcada de modo imediato e simples. Chegando de improviso a uma delas, num dia de semana, quis presidir a celebração da Missa, sem que os alunos tivessem sido avisados. Havia 800 deles na capela… Portanto, há lugares onde nossas universidades católicas atingiram efetivamente uma qualidade que eu chamaria de exemplar.

Nem todas chegaram a esse grau, mas, nos meus quase três anos de trabalho na Congregação, constato que há um movimento geral — mais ou menos rápido, mais ou menos profundo, conforme o lugar — rumo à reafirmação da identidade cristã nas sociedades tais como hoje elas evoluem.

Quais são, em sua opinião, as principais qualidades que deveriam ornar o professor universitário em nossos dias?

Veja, os docentes de uma universidade católica não são todos católicos. Então, devemos pedir-lhes que, no mínimo, tenham boa vontade em face da tradição católica e, por exemplo, não a critiquem. Mas, com relação aos professores que se apresentam como católicos, somos sensíveis não somente ao que dizem, mas também ao que fazem. O professor católico precisa, pois, aliar a qualidade do ensinamento transmitido à qualidade de vida, ao testemunho de vida e à confissão de sua Fé pessoal.

O “Processo de Bolonha” tem exigido bastante atenção da Congregação para a Educação Católica nestes últimos anos. Em que consiste esse Processo?

O Processo de Bolonha começou há quase dez anos e chegamos ao fim da primeira etapa, da primeira década. Em sua origem se restringia aos países da Europa, em número de 27, mas ao longo dos anos outras nações se interessaram por ele, de modo que hoje são 47 os países envolvidos.

Seus objetivos são simples de enunciar (quanto a realizá-los, já é outro problema!): a padronização dos diplomas, de tal forma que em todos os países participantes do Processo de Bolonha — sobretudo os que assinaram a Convenção de Lisboa — os mesmos diplomas correspondam ao mesmo nível de estudo, e os estudantes possam, caso desejem, passar de um estabelecimento para outro, de uma universidade para outra ou de um país para outro. A primeira preocupação é portanto, a padronização dos diplomas, para chegar à segunda preocupação: a fluidez ou mobilidade, tanto dos estudantes quanto dos professores.

Pode-se dizer que, ao fim de dez anos, é notória a mobilidade dos estudantes, embora ela pudesse ser maior. A dos professores é mais problemática.

O que está em jogo aí para a Igreja? Quais as esperanças da Congregação a esse respeito?

A Igreja entrou nesse Processo não como Igreja, pois ele envolve apenas países, mas como Estado  Pois bem, o Estado da Santa Sé ingressou nele desde o início. Evidentemente, o proveito que esperamos tirar daí é, em primeiro lugar, que uma cultura da qualidade caracterize nossas universidades, como deve caracterizar as universidades dos países abrangidos. Só isso já representa uma vantagem e um estímulo para nós.

Esperamos também, evidentemente, que os estudantes formados em nossas universidades possam ter seus diplomas reconhecidos em outros países. Isto implica que o Processo de Bolonha seja concretizado por acordos de país a país. Por exemplo, a Santa Sé e a República Francesa assinaram em dezembro de 2008 um acordo de reconhecimento dos diplomas e dos títulos.

Há desafios especialmente notórios a destacar, para tornar efetivo esse plano?

Estamos criando uma consciência em nível europeu, antes de chegar a uma consciência universal. Os estudantes entram de bom grado nesse Processo, mas os Estados são mais reticentes. Por quê? Porque possuíam mais ou menos, até agora, um verdadeiro monopólio dos diplomas. Ora, entrar nesse Processo é alienar uma parte de sua soberania em matéria educativa, e isso, evidentemente, não é fácil em países que têm — digamos assim — tradições jacobinas.

E os dirigentes de universidades, como correspondem às oportunidades oferecidas pelo “Processo de Bolonha”? Como acolhem as novas perspectivas?

Nossas universidades caracterizam-se pela liberdade de pensamento e de expressão. Assim, perante o Processo de Bolonha encontramos nelas um leque extremamente amplo de reações, desde o entusiasmo até a reserva.

Julgo que hoje a situação está mudando. Com efeito, nossos estabelecimentos começam a perceber o interesse dessa padronização, dessa fluidez, pois, por exemplo, a teologia — que aparecia anteriormente, digamos, como uma ciência de sacristia — tornou-se hoje uma ciência de interesse geral, como a medicina ou a engenharia. Percebe-se, pois, o mérito desse Processo. Mas, podem-se medir também as dificuldades de aplicação. É preciso, por exemplo, que os créditos sejam os mesmos por toda parte, com o mesmo número de horas, e isso implica revisões talvez difíceis de fazer.

Considerando encíclicas como a “Humanae vitae”, de Paulo VI, e a “Veritatis splendor”, de João Paulo II, como V. Excia. descreveria o papel do Magistério na ética das últimas décadas?

Precisamos distinguir entre o papel do Magistério na Igreja e nas sociedades civis. O que se denomina doutrina social da Igreja é, na realidade, uma doutrina moral sobre a família, a vida econômica, política, social, e também a cultura. A Veritatis Splendor traz uma novidade considerável, pois é uma encíclica na qual, pela primeira vez na história da Igreja, são tratados os fundamentos da moral.

O papel do Magistério no interior da Igreja — apoiando-se evidentemente na palavra de Deus, mas também na lei natural — é de propor ao Povo de Deus, bem como a todos os homens de boa vontade, princípios gerais de conduta de vida, além de normas concretas e particulares. Este segundo aspecto é que havia dado matéria ao “dissentimento”, ao “dissensões dos teólogos”, nos anos 70–80, e a Encíclica procura precisamente dar resposta a esse dissensus. Nas sociedades civis — amplamente secularizadas e amiúde multiculturais, pluralistas, do ponto de vista religioso —, eu diria que o Magistério é quase sistematicamente criticado e questionado. Uma sociedade secularizada é aquela que não consegue admitir Magistério algum, sobretudo se ele é de natureza religiosa, pretendendo exprimir princípios e normas em nome de uma referência superior ao século, fazendo — digamos — apelo a uma transcendência, quer seja religiosa, quer seja metafísica. Portanto, ela não criticará o Magistério apenas por afirmar tal ou qual proposição que não lhe agrada, mas por se pronunciar como Magistério. Isto é o aspecto crítico e inevitável. Evidentemente, os órgãos da mídia, muitos dos quais se consideram o novo magistério das sociedades secularizadas, serão os mais críticos em face de qualquer magistério, em especial o religioso.

Ao mesmo tempo, porém, constato ser a Igreja hoje muito mais interrogada do que no passado, como se ela permanecesse uma referência nas gerações que se questionam sobre o sentido da vida; talvez mesmo a referência, que se pronuncia a respeito das questões fundamentais do sentido da vida.

Que relações podemos encontrar entre o “Catecismo da Igreja Católica” e a “Veritatis splendor”, na via teológica e pastoral da Igreja?

Cardinal 3rd picUma encíclica procura dar resposta a problemáticas limitadas. Limitadas no tempo e por vezes no espaço. É este o caso da Veritatis splendor, dirigida, sobretudo às opiniões correntes no meio católico anglo-saxônico. Portanto, uma encíclica — exceto se tiver uma importância de primeiro plano — não durará por vários séculos. Seu objetivo é de fato a atualidade.

O catecismo é totalmente diferente: ele visa pôr à disposição do povo de Deus, e de todos os homens interessados na cultura cristã, o patrimônio moral acumulado ao longo dos séculos, e mesmo dos milênios, e que engloba também o patrimônio de sabedoria da humanidade. No fundo, o catecismo é um compendium — é este o termo que tinha sido escolhido —, um compendium de sabedoria, não somente para os cristãos, mas também para os não cristãos. Um catecismo deve durar muito tempo, como foi o caso do catecismo anterior. Logo, se nele forem introduzidas noções muito atuais, em pouco tempo ele estará ultrapassado.

Como deveria ser abordado hoje o ensino da Teologia Moral, nos seminários e em nível pastoral?

Penso que estamos passando de um modelo para outro. Diz-se por vezes que a moral cristã está em crise. Não creio tratar-se de uma crise, pois a crise assinala um paroxismo após o qual as coisas se restabelecem. Ora, o que aqui se denomina “crise” é na realidade um fenômeno já muito longo, de vários decênios… Prefiro falar de ruptura.

No fim do século XVI e início do século XVII instalou-se — primeiro na Igreja, depois nas outras confissões cristãs, mas também mais tarde, com Kant, nas sociedades — um modelo, denominado o modelo das morais de obrigação: “Por que proceder de tal ou tal maneira?”. “Porque isso é necessário em nome do Bem”. Parece-me que esse modelo — o qual, repito, reinou tanto na Igreja quanto nas sociedades modernas — está desaparecendo, e andamos à procura de um novo. Se eu retomasse expressões de Michel Foucault, diria que estamos passando de uma ética do código para uma ética da construção de si. No fundo, a moral é aquilo que permite ao homem aceitar-se a si mesmo, construir-se, depois dar-se, numa sociedade mais justa e fraterna. E creio que vivemos um período difícil e apaixonante ao mesmo tempo, pois mudamos de modelo e, evidentemente, é preciso tempo e tato para apreender esse novo modelo.

Portanto, eu desejaria que nos seminários se apresentasse a moral não apenas sob o ângulo das obrigações, mas também sob o da arte de viver, de uma estética da existência, digamos, de uma sabedoria.

Publicado na Revista Arautos do Evangelho. Janeiro 2011. n. 109. p. 30-33.