ITTA – IFAT

Instituto Teológico São Tomás de Aquino

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O mistério da Estrela de Belém

O que teria sido a misteriosa estrela que surgiu nos céus, guiando os Reis Magos até Belém?

Emílio Portugal Coutinho – 3º Ano de Teologia, ITTA

Nas Sagradas Escrituras vemos Deus muitas vezes comunicar-se aos homens por meio de sinais na natureza: a brisa da tarde no Paraíso, o arco-íris após o dilúvio, a sarça ardente, a diáfana nuvem de Santo Elias etc. E em seu próprio nascimento, Ele quis usar de um sinal no céu: a Estrela de Belém. Esse fato nos é narrado apenas por um dos evangelistas: São Mateus. blog
Na verdade, naquela época acreditava-se que o nascimento de pessoas importantes estava relacionado com certos movimentos dos astros celestes. Assim, dizia-se que Alexandre o Grande, Júlio César, Augusto e até filósofos como Platão tiveram a sua estrela, aparecida no céu quando eles vieram ao mundo.
Muito se tem comentado a respeito da estrela surgida aos três Reis Magos , guiando-os até o local bendito em que o Salvador haveria de nascer. E não faltaram homens de ciência tentando encontrar uma explicação natural para esse evento sobrenatural, centro da história humana. Não temos a pretensão de fazer um compêndio científico a respeito, mas não deixa de ter certo interesse conhecer, ainda que de modo sumário, as principais tentativas de solucionar esse enigma.
Uma das primeiras teorias levantadas era que esse astro teria sido o planeta Vênus. Pois a cada 19 meses, pouco antes do nascer do Sol, ele aparece dez vezes mais claro que a mais brilhante das estrelas: a Sírius. Mas esse já era, então, um fenômeno assaz conhecido pelos povos do oriente e, portanto, para os Reis Magos nada teria de extraordinário.
Outra hipótese foi levantada por um astrônomo reconhecido nos meios científicos do século XVI: Johannes Kepler. Tentou ele demonstrar com seus longos estudos, que esse astro não era apenas um, mas a conjunção de dois planetas: Júpiter e Saturno. Quando eles se sobrepõem, somam-se os respectivos brilhos. Um fenômeno desses foi por ele observado em 1604 e podia produzir um efeito semelhante ao que nos conta a Bíblia. A partir daí, Kepler defendeu sua teoria.
Mas existem três problemas ao fazer essa afirmação: primeiro, essa conjunção dura apenas algumas horas, e a estrela que apareceu para os Reis Magos foi visível por eles durante semanas; segundo, Júpiter e Saturno nunca se fundem completamente numa única estrela. Mesmo a olho nu, seriam sempre visíveis dois corpos; terceiro, ao menos que a data do nascimento do Menino Jesus esteja muito mal calculada, tal conjunção só poderia ter lugar três anos depois.
Há quem diga que a estrela foi, na verdade, um meteoro especialmente brilhante. Mas um meteoro só pode durar alguns segundos e seria muito forçado crermos que esses poucos segundos de visibilidade bastariam para guiar os reis magos numa viagem através de quilômetros em um deserto inabitável, e que ao chegarem em Belém, apareceu um outro meteoro semelhante, indicando o local exato onde estava o Menino-Deus.
Orígenes, Padre da Igreja nascido em Alexandria, Egito, chegou a acreditar ser a Estrela de Belém um cometa. Pois alguns cometas chegam a ser centenas de vezes maiores que a Terra, e sua luz pode dominar o firmamento durante semanas.
Além disso, alguns sustentam que São Mateus teria ficado tão impressionado com o cometa Halley, visto nos céus em 66 d.C. ou pelo testemunho dos mais antigos cristãos que o tinham visto em 12 a.C., que o incluiu na história. Outros afirmam ter sido o próprio Halley, a Estrela de Belém. Mas devemos reconhecer que as duas datas citadas estão muito afastadas do nascimento de Jesus, para serem unidas a ele. E segundo os dados catalogados, não há menção de nenhum outro cometa que tenha sido visto a olho nu entre os anos 7 a.C e 1 d.C., período no qual se aceita ter nascido o Messias. Além disso, é corrente serem os cometas na Antigüidade anunciadores de desgraças e não de bênçãos.
Uma última hipótese dita científica é a que tenha sido uma “Nova”. Existem certas estrelas que explodem de tal forma que sua luz aumenta centenas de vezes em poucas horas. São as chamadas “Novas”, ou “Supernovas”, dependendo da intensidade da explosão. Calcula-se que a cada mil anos, aproximadamente, uma estrela se transforme em “Supernova”, sendo este fenômeno visível durante vários meses, até mesmo durante o dia.
Mas já não se crê nessa hipótese, pois tais explosões, devido à sua magnitude, mesmo depois de séculos deixam traços inconfundíveis no espaço, como manchas estelares etc. Entretanto, até hoje não se descobriu nenhum indício de tal fenômeno ocorrido nesse período histórico.
Embora várias tentativas de explicação científica não tenham dado respostas plenamente satisfatórias ao mistério da Estrela de Belém, isso em nada diminui o mérito dos esforçados estudiosos que com reta intenção buscam desvendar os enigmas da natureza.
Mas deixando essas hipóteses de lado por um momento, voltemos nossos olhos à outro aspecto da questão: o campo teológico, onde se considera que essa estrela era a realização da profecia do Antigo Testamento: “Uma estrela avança de Jacó, um cetro se levanta de Israel” (Num 24,17).
Alguns teólogos defendem que São Mateus fez uma interpretação das tradições da época, referindo-se ao astro não como uma estrela no sentido literal, mas como símbolo do nascimento de um personagem importante.
Mas São Tomás, o Doutor Angélico, já havia pensado nisso em sua época e resolveu a questão na Suma Teológica (III, q. 36, a.7), usando cinco argumentos tirados de São João Crisóstomo:
1º. Esta estrela seguiu um caminho de norte ao sul, o que não é comum ao geral das estrelas.
2º. Ela aparecia não só de noite, mas também durante o dia.
3º. Algumas vezes ela aparecia e outras vezes se ocultava.
4º. Não tinha um movimento contínuo: andava quando era preciso que os magos caminhassem, e se detinha quando eles deviam se deter, como a coluna de nuvens no deserto.
5º. A estrela mostrou o parto da Virgem não só permanecendo no alto, mas também descendo, pois não podia indicar claramente a casa se não estivesse próxima da terra.
Mas se esse astro não foi propriamente uma estrela do céu, o que era ela?
Segundo o próprio São Tomás, ainda citando o Crisóstomo, poderia ser:
1º. O Espírito Santo, assim como ele apareceu em forma de pomba sobre Nosso Senhor em Seu batismo, também apareceu aos magos em forma de estrela.
2º. Um anjo, o mesmo que apareceu aos pastores, apareceu aos reis magos em forma de estrela.
3º. Uma espécie de estrela criada à parte das outras, não no céu mas na atmosfera próxima à terra, e que se movia segundo a vontade de Deus.
Como solução ao mistério da Estrela de Belém, São Tomás acreditava ser mais provável e correta esta última alternativa.
De qualquer forma, temos a certeza de que essa estrela continua a brilhar não só no alto das árvores de Natal, mas principalmente na alma de cada cristão ao comemorar a Luz nascida em Belém para iluminar os caminhos da humanidade.

ARAUTOS DO EVANGELHO, n.72, dez. 2007.

Presentes ao Menino Deus

Thiago de Oliveira Geraldo – Professor de Introdução às Sagradas Escrituras no ITTA

Magos vindos do Oriente, aos quais apareceu a miraculosa estrela mostrando-lhes o caminho até Jerusalém, personagens míticos que não se sabe bem sua procedência, se vieram da Arábia, da Babilônia ou talvez da Pérsia. A piedade cristã os denominou reis, cujos nomes ficaram conhecidos como Gaspar, Melchior e Baltazar.
A estes magos astrônomos, acostumados pela observação do céu a interpretar os acontecimentos, Deus quis revelar-se primeiro pela natureza através de um astro, mas logo que chegaram a Jerusalém, sua inspiração foi confirmada pelas Sagradas Escrituras, na profecia de Miqueias, como indicaram os príncipes dos sacerdotes e os escribas, grandes conhecedores das Escrituras. A cidade em que deveria nascer o menino era a antiga cidade de David: Belém, na Judeia.Picture
Herodes, que governava toda aquela região, possuía grande poder e prestígio, mas acabou por amedrontar-se pelo nascimento daquela criança, que – segundo ele – poderia vir a fazê-lo perder seu trono. Enviou os magos a Belém na esperança de descobrir o paradeiro deste rei que acabava de nascer, a fim de matá-lo. Não conseguiu levar a cabo seu plano e, por isso, cometeu um grande assassinato de crianças inocentes, com o intuito de atingir também o Menino Deus, mas os desígnios da Providência não foram alterados e a Sagrada Família saiu ilesa deste atentado.
Os magos foram os primeiros representantes do mundo pagão a adorar o Menino Jesus. Por meio deles está simbolizado que o Filho de Deus veio à terra para atrair a Si todo o mundo. Quando entraram na casa onde se encontrava Maria Santíssima com seu Divino Filho, não viram um suntuoso rei ostentando riquezas e um poder inigualável, mas apenas uma criancinha protegida por sua Mãe; e eles o adoraram…

Que presente oferecer ao rei que acabava de nascer?
Os presentes que eles ofertaram eram as riquezas do Oriente naquela época: ouro, incenso e mirra. Há um simbolismo feito pelos Padres da Igreja, e entre eles Santo Agostinho, acerca destes dons regalados ao Menino Jesus. O ouro, símbolo da realeza, foi entregue a fim de lembrar que aquela criança é o Rei dos reis; o incenso, cuja fumaça sobe aos céus durante os sacrifícios, recorda que esta pequena e frágil criatura é o Senhor do Universo, Deus verdadeiro; e a mirra, unguento perfumado, geralmente usado para embalsamar os mortos, prediz que Jesus Cristo veio ao mundo a fim de salvá-lo através de seu oferecimento de morte na cruz.

Outros santos, como São Gregório Magno, interpretaram de outro modo o valor espiritual destes presentes. Viram no ouro o oferecimento da luz da sabedoria a Nosso Senhor; no incenso, é expressa a devoção a Deus por meio da oração; e na mirra, damos a mortificação da própria carne, com a abstinência.
Neste Natal rememoramos o nascimento do Menino Jesus, mas será que já pensamos em algum presente para lhe oferecer?
Talvez não tenhamos estas riquezas do Oriente. No entanto, há uma coisa que se pode regalar ao Divino Infante neste Natal, é a nossa fé. Mais importante que os presentes obsequiados pelos magos quando visitaram a casa onde se encontravam o Menino com sua Mãe, foi a adoração que fizeram, como afirma o Papa Bento XVI: “O ápice do seu itinerário de busca foi quando se encontraram diante ‘do menino com Maria sua mãe’ (Mt 2, 11). Diz o Evangelho que ‘se prostraram e o adoraram’. Teriam podido ficar desiludidos, aliás, escandalizados. Mas não! Como verdadeiros sábios, estão abertos ao mistério que se manifesta de modo surpreendente; e com os seus dons simbólicos demonstram reconhecer em Jesus o Rei e o Filho de Deus. Precisamente com aquele gesto cumprem-se os oráculos messiânicos que anunciam a homenagem das nações ao Deus de Israel”.1
Nós também podemos Lhe prestar esta adoração e reconhecê-lo como Deus que se Encarnou e morreu na cruz para nos salvar.

1-BENTO XVI. Solenidade da Epifania do Senhor. Angelus. Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010.

Uma obra de arte teológica

Três destacadas figuras do mundo acadêmico foram unânimes em atribuir a nota “summa cum laude” à tese de Doutorado de Monsenhor João sobre o tema: “O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira”.

Pe. Rodrigo Alonso Solera Lacayo, EP - Professor de Moral Especial no ITTA

No dia 22 de outubro, Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, defendeu sua tese de Doutorado Canônico em Teologia sobre O dom de sabedoria na vida, mente e obra de Plinio Corrêa de Oliveira, perante a banca examinadora da Escola de Teologia, Filosofia e Humanidades da Universidade Pontifícia Bolivariana de Medellín, Colômbia. Discorreu ele sobre esse dom do Espírito Santo, mantendo-se rigorosamente fiel ao ensino teológico, mas apresentando-o enquanto vivido por um personagem que se sobressaiu na História da Igreja Católica no século XX.fundador_02
A banca examinadora, formada por destacadas figuras do mundo acadêmico latino-americano , atribuiu à tese de Mons. João a nota máxima: summa cum laude.
Objetividade no procedimento seguido
No texto em que avalia a tese e justifica sua nota, frei Marcelo Santos das Neves, OP, expressou-se com o rigor e a clareza do carisma dominicano, voltado para a pesquisa da verdade:
“Nosso julgamento não atinge o âmbito subjetivo, mas permanece no plano objetivo. Assim sendo, constatamos duas coisas em particular: primeiro que, apesar da amizade e da devoção do ‘Autor’ por Plinio Corrêa de Oliveira (elemento e razão subjetiva do ‘Autor’), o seu pensamento e raciocínio não foram em nada prejudicados, visto ter ele apresentado textos que reforçavam suas intuições. Dito de outra forma, não se tratou somente de um testemunho pessoal, mas de um testemunho documentado. Em segundo lugar, dons e carismas são aplicados à pessoa e obra de Plinio Corrêa de Oliveira sempre de forma rigorosa e coerente”.
“Em suma, o ‘Autor’, sistematicamente, oferece ao seu leitor as razões de sua intuição: apresenta a doutrina (1ª premissa); ‘a mente, vida e obra’ de Plinio Corrêa de Oliveira, confrontando-as com a doutrina (2ª premissa); para, enfim concluir positivamente: em Plinio Corrêa de Oliveira estavam presentes o dom de sabedoria, assim como os carismas de profecia e discernimento dos espíritos (3ª premissa ou conclusão). Esta objetividade no procedimento seguido merece ser mencionada e louvada. Trata-se, no nosso modo de entender, de uma teologia da ‘mente, vida e obra’ de Plinio Corrêa de Oliveira”.
Equilíbrio no modo de expor
Pouco adiante, frei Marcelo Neves ressalta outra faceta dessa imparcialidade de julgamento de Mons. João: “O ‘Autor’ não só não perde de vista seus objetivos, mas, ainda, mantém aquele equilíbrio no expor e escrever que preserva todos os que de alguma forma não comungavam com o pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira. Em suma, não se trata de um escrito contra alguém ou coisa (à exceção do vício e do pecado ao qual se opunha e se opõe sempre uma ‘contra-revolução’), mas a favor de alguém considerado virtuoso. O tato e a delicadeza que transpiram do texto são raros. Nenhum caráter polêmico. Acreditamos dever aplicar ao ‘Autor’ em vista desse seu procedimento o quanto ele diz no início do seu texto a respeito do dom de sabedoria; ou seja, ‘julgará e procurará ordenar tudo à luz das perfeições divinas’: e Deus não ofende! O que o ‘Autor’ fez foi seguir, ele mesmo, este impulso; dito de outra forma, submete e faz passar pelo crivo das perfeições divinas a ‘mente, vida e obra’ de alguém que estima e que marcou toda a sua vida. Faz obra de teólogo e não de simples cronista. A sua tese, também sob este aspecto é, e pode denominar-se, teológica. Preciosa”.
Teologia narrativa e teologia argumentativa
De seu lado, o padre Carlos Arboleda Mora destacou principalmente a importância da teologia narrativa na tese apresentada:
“Este trabalho situa-se no que hoje poderíamos denominar teologia narrativa, ao apresentar a vida de uma pessoa como testemunho de uma experiência, unida a uma teologia argumentativa, na medida em que essa experiência está expressa teoricamente em grandes teólogos da Igreja. Geralmente a teologia narrativa critica o modelo neoescolástico pelo caráter demasiadamente argumentativo, uma vez que deduziria das teses dogmáticas certas conclusões já implícitas, esquecendo-se alguns críticos que os mistérios da vida de Cristo ocupam em São Tomás um lugar importante.
[...]
“Este trabalho situa a narração da vida de Dr. Plinio Corrêa de Oliveira acompanhada da correspondente argumentação baseada em muito bons teólogos. Tem o intuito de mostrar que a história da salvação não se dá separada da história humana, que a experiência da Fé não se dá fora de uma existência que a interpreta e atua, porque ‘os crentes admitem, pois, que Deus trouxe a libertação nos seres humanos e através deles; os homens são relatos de Deus’” .
Importância do exemplo vivo
Afirma ainda o padre Arboleda que na tese de Mons. João “o enfoque biográfico chega a ser um instrumento de investigação qualitativo, porque se fundamenta na subjetividade como unicidade e especificidade. O método biográfico chega a ser experiência heurística e hermenêutica, pois permite entender e permite interpretar em outro contexto histórico a mesma experiência. Aqui pode ser então também um método de formação, como pretende o autor da tese.
[...]
“É, ademais, uma obra que permite uma dupla leitura. Sem as citações é uma obra para leitores mesmo não peritos nas complexidades da filosofia. Com as citações é uma obra para autores que queiram aprofundar-se neste tema cumprindo assim o objetivo de refletir teologicamente, mas também de formar para a vida de experiência e testemunho”.
Horizonte teológico do qual se deve considerar a obra de Dr. Plinio
Em suas considerações, outro membro da banca examinadora, o padre Alberto Ramírez Zuluaga, quis evidenciar de modo particular a originalidade do trabalho teológico de Mons. João, que apresentou aspectos inéditos da obra de Plinio Corrêa de Oliveira. Afirmou ele em seu parecer:
“Ter tido a oportunidade de conhecer o processo da elaboração da tese em sua última etapa foi, para nós, una verdadeira graça do Senhor, que me permitiu descobrir a transcendência teológica do objeto dessa investigação. Mons. João soube estabelecer magistralmente o horizonte teológico a partir do qual se deve considerar a obra de Dr. Plinio: a doutrina teológica e espiritual dos dons do Espírito Santo e, em geral, a pneumatologia com tudo quanto ela implica para a fundamentação do dom da sabedoria. Mas Monsenhor não realizou seu trabalho simplesmente como investigador de uma rica literatura, como é certamente aquela que Dr. Plinio nos deixou, mas também, e sobretudo, como testemunha fidedigna da vida desse grande homem, do qual me atreveria dizer, pela impressão que o testemunho de Monsenhor produziu em mim, que foi um dos maiores homens da História da Igreja nos últimos tempos, pelo que o Espírito de Deus tornou possível através de sua pessoa, de sua vida e de sua obra.
“É belíssima a tese teológica elaborada por Mons. João, que se pode resumir em poucas palavras: demonstrar, pela consideração da pessoa de Dr. Plinio, a relação indissolúvel que existe entre a inocência e a sabedoria. Também, naturalmente, assinalar a significação dos passos que se deve dar na vida para que se torne possível esta relação na existência de um homem: o caminho da dor e da entrega. Monsenhor nos mostrou, com efeito, que a sabedoria, como característica que define a existência de Dr. Plinio, só pode ser explicada em relação à inocência que o acompanhou por toda a sua vida. Só pode chegar a ser plenamente sábio quem é plenamente inocente. A explicação teológica utilizada por Monsenhor para definir Dr. Plinio poderia ser considerada como um belo comentário de uma das sentenças do Manifesto do Reino dos Céus, o Sermão da Montanha, de Jesus: quem tem mais capacidade para contemplar a Deus e olhar tudo a partir d’Ele é quem tem o coração transparente” (cf. Mt 5, 8).
“Tudo me é luta” – Tudo lhe foi sabedoria
O padre Alberto Ramírez prossegue, destacando o seguinte comentário de Dr. Plinio a propósito do livro da Condessa de Paris, intitulado Tout m’est bonheur (Tudo me é felicidade): “‘Se me fosse dado escrever minhas memórias, poderia intitulá-las ‘Tudo me é luta!’. Interna ou externamente, tudo me é luta; mas, morrendo, tudo me é glória [...]. Se um homem redigisse com base na verdade o livro Tudo me é luta!, se a sua luta foi travada em favor do bem, ele mereceria o epitáfio tudo lhe foi glória!’. E Mons. João comenta: ‘Ora, conforme cada item, cada capítulo é, sobretudo, o que o conjunto desta tese patenteia, tudo foi luta e glória em Plinio Corrêa de Oliveira. Portanto, tudo lhe foi sabedoria’.
“Esta admirável conclusão é uma formidável tese teológica, uma afirmação fundamentada no testemunho da vida de um grande homem. Monsenhor desenvolveu passo a passo esta tese com uma lógica profunda e conseguiu realizar um belo tecido de ideias e palavras, de símbolos e sentimentos, num discurso teológico que é uma maravilhosa lição sobre a sabedoria e uma obra de arte teológica. A sabedoria é o dom que foi concedido a Dr. Plinio como ‘luz primordial’, não só para contemplar a Deus, mas para adquirir a capacidade de olhar tudo com o olhar de Deus, com os próprios olhos d’Ele. Ninguém, como Mons. João, seu filho, seu discípulo, podia explicar com tanto acerto esse segredo da vida e da obra de Dr. Plinio Corrêa de Oliveira”.


[1] Compunham a banca examinadora: o Pe. Carlos Arboleda Mora, orientador, Doutor em Filosofia pela Universidade Pontifícia Bolivariana, Mestre em História pela Universidade Nacional da Colômbia e em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana, especialista em ecumenismo do CESNUR, de Roma, e professor de pós-graduação da Escola de Teologia, Filosofia e Humanidades da Universidade Pontifícia Bolivariana; o Frei Marcelo Neves, OP, teólogo do Studium Teologicum Bolognese, de Bolonha, Doutor em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Doutor em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade São Tomás (Angelicum), de Roma, e professor da Faculdade de Direito Canônico da mesma Universidade; e o Pe. Alberto Ramírez Zuluaga, Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Louvain, professor de graduação e de pós-graduação na Faculdade de Teologia da Universidade Pontifícia Bolivariana, e no programa de Estudos Bíblicos da Universidade de Antioquia, de Medellín. Presidiu o ato o Pe. Diego Marulanda Díaz, Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, e Decano da Escola de Teologia, Filosofia e Humanidades da Universidade Pontifícia Bolivariana.

[1] SCHILLEBEECKX E. Los hombres relato de Dios. Salamanca: Sígueme, 1995, p.62.

Pe. Jorge Villa, Oficial da Congregação para a Evangelização dos Povos, ministra uma Conferência no Instituto Teológico São Tomás de Aquino (ITTA)

Com seu característico ardor e comunicatividade, o sacerdote colombiano, Pe. Jorge Ignacio Villa, Oficial da Congregação para a Evangelização dos Povos, dirigiu, no dia 1º de dezembro, uma ardorosa exposição, no auditório do Instituto Teológico São Tomás de Aquino.Villa_SD_4830
A conferência foi direcionada aos cerca de 100 seminaristas maiores, estudantes de filosofia no Instituto Filosófico Aristotélico-Tomista (IFAT), e de teologia no Instituto Teológico São Tomás de Aquino (ITTA).
Após tratar da função e do funcionamento interno da Congregação para a Evangelização dos Povos, traçou um preciso, sintético e edificante quadro da situação missionária da Igreja no início deste terceiro milênio.

Villa_SD_4836Tratou especialmente dos desafios da Igreja na América Latina e dos cerca de 2000 Vicariatos Apostólicos espalhados pelo mundo. Sobre a América do Norte e Europa ressaltou que a cultura local destes povos exige evangelizadores autóctones.
Ao final, com seu característico ardor fez uma verdadeira conclamação à missão a fim de conduzir Cristo a países , sobretudo, de minoria católica, como Índia e China, manifestando também profunda esperança no futuro da Igreja em países como Filipinas, Coréia e o continente africano.

Pe. Carlos Arboleda Mora, 36 anos de ministério sacerdotal

Hernán Luis Cosp Bareiro – 3º ano teologia

O Revmo. Pe. Carlos Arboleda Mora, sacerdote da Arquidiocese de Medellín, Colômbia, e Doutor em Filosofia pela Universidade Pontifícia Bolivariana (UPB), celebrou a 30 de novembro uma solene eucaristia, na igreja anexa ao Seminário São Tomás de Aquino, por ocasião do 36º aniversário de sua ordenação sacerdotal.Pe Arboleda
Na missa estiveram presentes alunos e ex-alunos do Pe. Carlos, que através da sua presença manifestavam profunda gratidão a tão dedicado professor e orientador. A cerimônia também contou com a presença de inúmeros estudantes do Instituto Teológico São Tomás de Aquino (ITTA). O Pe. Carlos Arboleda foi, inclusive, orientador da tese de doutorado de Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, fundador do ITTA, intitulada O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira.
Na homilia, recordou que o aniversário de alguém é sempre uma ocasião propícia para alegrar-se com as lembranças da juventude, especialmente das graças do Seminário e do início da vida sacerdotal. Simultaneamente a esses dons divinos, o Pe. Arboleda recordava que naquela época ouviam-se rumores e teologias contrárias à mensagem evangélica, e afirmou que “face às correntes teológicas opostas à doutrina católica, a Igreja deve responder com a ‘Teologia da Experiência de Deus’, não apenas com um compromisso sociopolítico”.
Após elaborar um breve e preciso elenco dos grandes desafios para a evangelização na atualidade, como “a violência urbana, o pluralismo religioso, o indiferentismo religioso, o relativismo moral e a coexistência medíocre dos que cedem à secularização”, recordou que “João Paulo II defendia a resposta da identidade. A Igreja não é uma ONG. Frente ao secularismo, além das obras sociais, a Igreja deve, sobretudo, refletir o amor de Deus. Não devemos distribuir somente vestimentas e alimentação, mas sim Jesus Cristo”.
E continuou: “A Igreja necessita de vocês. Necessita de teólogos que como outrora, no tempo da escolástica, faziam teologia ‘de joelhos’ através da experiência de Deus e da graça mística”.
Ao final da cerimônia, o Revmo. Pe. Carlos Werner Benjumea, EP, agradeceu “em nome de Mons. João Clá, a preciosa orientação para a tese de Teologia, assim como todo o sentimento de amizade”. A fim de tornar sensível este sentimento, foi oferecido ao Pe. Arboleda um pássaro de pedras coloridas, artesanato típico brasileiro.
Como agradecimento, o sacerdote aniversariante recordou que “em meados do Séc. XII, por ocasião da construção das primeiras catedrais góticas, seus idealizadores afirmavam que cada pedra colorida posta no templo recordaria a glória de Deus. Ao contemplar as pedras do Brasil, incrustadas nesta ave, recordarei com alegria a glória do Criador”.

Árvores de Natal, por quê?

Sebástián Correa Veláques – 1º Ano de Teologia

Sapin, tannenbaum, árbol de Navidad, Evergreen…Chamem-na como for, a árvore de natal nunca deixou de ser uma das decorações mais atraentes nas comemorações natalinas. Verdejante, apinhada de simpáticas luzinhas, sua vitalidade e variedade constituem o encanto e alegria dos pequenos, não só de idade, mas também de coração, e onde ela está, impregna o ambiente com o seu característico odor de pequenos ramos queimados pelas velinhas acesas. Em nossos dias, é muito difundida a ideia de que este belo e tradicional costume surgiu no norte da América, devido à sua forte difusão nesse local. Contudo, ao remontarmos a um passado cheio de histórias, deparamo-nos com a sua verdadeira origem, pouco conhecida e mais antiga do que parece…
Os bárbaros invadiram a Europa central no longínquo século sétimo. Mais especificamente, no sul da Saxônia habitavam os frisões (entre a atual Bélgica e Weser, em frente à Inglaterra). Suas crenças, todas pagãs, eram muito arraigadas e, às vezes, anteriores à própria Revelação Cristã. Certo dia, um monge beneditino de origem anglo-saxônica, tocado pela graça, sentiu o desejo de evangelizar essas inóspitas regiões. Seu nome era Wilfrido de York (634-709). No início da sua missão (678-685), instalou-se num lugar onde os habitantes, curiosamente, cultuavam o carvalho, muito frequente por aquelas florestas.
Segundo diziam, este era possuído por espíritos, os quais o conservavam verde durante o inverno. E estas mesmas divindades promoviam o retorno da primavera e do verão. Temerosos, os frisões realizavam diversos rituais durante o mês de Dezembro, em torno das gigantescas árvores, a fi m de que não deixassem de exercer a sua indispensável função. São Wilfrido deparou-se com um difícil obstáculo, ao querer desmentir essa arraigada convicção pagã, mesmo assim, dispôs-se a demonstrar-lhes a falsidade de tal imaginação.
Certo dia, em meio àquelas práticas religiosas, congregou os bárbaros no intuito de cortar um daqueles velhos carvalhos. Golpe vai, golpe vem, irrompeu uma terrível tempestade, deixando-os a todos muito apavorados. O Santo apressou o serviço dos lenhadores e, em meio a cambaleadas, a gigantesca árvore precipitou-se por terra! Um silêncio cortante tomou conta dos presentes e, de súbito, um raio fulminante partiu em pedaços o carvalho, coincidindo com a sua batida no chão. Ao verem o seu mito cair por terra, a desilusão contribuiu para efetuar a conversão daquelas almas. Porém, passou-se algo de muito curioso… Havia, a poucos centímetros da carbonizada árvore, um pinheirinho, o qual de modo inacreditável for a conservado intacto no meio de tamanha destruição. Seria isto um sinal?

Árvore Natal Vaticano II
Era o dia 25 de Dezembro. São Wilfrido percebeu nesse fato um simbolismo muito belo: Deus protege a fragilidade e a inocência! Em seu sermão à noite, relacionou poeticamente a imagem da pequenina árvore com a Natividade do Senhor e, desta maneira, o pinheirinho passou a ser, a partir daquele dia, o símbolo do Menino Jesus, mais utilizado. Um discípulo deste Santo missionário teve de enfrentar, também, dificuldades semelhantes ao evangelizar a futura Alemanha: tratava-se de São Bonifácio (673- 754).
Em Geismar de Hessen, centro muito concorrido de rituais pagãos, cultuava-se um grande carvalho consagrado ao deus Donar. Realizavam-se ao seu redor práticas supersticiosas, principalmente na época hibernal, porque atribuíam a esse deus ser responsável pelos terríveis vendavais e tempestades, muito frequentes durante o solstício. Uma vez convertidos, os germanos foram desassociando o caráter pagão da crença e relacionando a figura da árvore com passagens da Sagrada Escritura, como esta do Profeta Isaías: “A glória do Líbano virá a ti, a faia e o buxo, e juntamente o pinheiro servirão para adornar o lugar do meu santuário” (60, 13). Destarte, começou a se divulgar nas imediações da Germânia, o uso do pinheiro nas comemorações do nascimento do Senhor.
Outras longínquas referências fazem alusão a este costume: No ano de 1539, na igreja e nas moradias de Estrasburgo, França, pela primeira vez, utilizaram-se pinheiros decorados ao celebrar as festividades natalinas; em 1671, a princesa Charlote Elizabeth da Baviera, esposa do duque de Orleans, introduz oficialmente esta tradição em todo o país.
E, finalmente, durante o reinado de Jorge III (1760-1820), o costume chega na Inglaterra, transmitindo-se para a América do Norte e dali, para o mundo inteiro. Contudo, qual é o significado das inúmeras esferas, bastões, cones, etc. que preenchem as suas ramagens? No decorrer dos séculos, foram se acrescentando bonitos enfeites ao pinheiro. Sua simbologia refere-se à imagem do segundo Adão, Cristo nosso Salvador (cf. 1Cor 15, 21-22; 45), o qual nos trouxe de volta os frutos perdidos pelo nosso primeiro pai, ao ter comido da árvore proibida (cf. Gn 2, 9; 3, 6). Por esta razão, esses belos atavios representam os preciosos e superabundantes frutos nascidos da Santa Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeira Árvore da Vida.

Missão no Vicariato apostólico de São Miguel de Sucumbíos confiada a Jesus Sacramentado

Mais um relato de Alessandro Schurig, aluno do ITTA, em missão no Vicariato Apostólico de São Miguel Sucumbíos na Amazônia equatoriana.

sucumbiosNo dia 03 de Dezembro foi realizada a primeira hora santa na Catedral provisória do Vicariato Apostólico de São Miguel de Sucumbíos. Acorreram à exposição do Santíssimo Sacramento mais de 150 pessoas, que puderam rezar um terço meditado com o pároco, o Revmo. Pe. Marlon Jiménez, EP. Durante o terço, o coro dos Arautos do Evangelho, que está auxiliando nesta missão, cantou músicas populares em honra do Santíssimo Sacramento e, no final, à Virgem Santíssima.
Neste ato, o pároco consagrou todos os trabalhos apostólicos da Catedral, bem como todos os seus fiéis, a Jesus Sacramentado, para grande alegria de todos os presentes.

Nossa Senhora do “Grand Retour”

No auge das aflições e angústias provocadas pela Segunda Guerra Mundial, a Virgem Maria transmite à França uma mensagem de amor e confiança que se estende a toda a humanidade.

Felipe Garcia López Ria – 1º Ano de Teologia

Em 1943, padecia o mundo as horríveis consequências da guerra mundial. Na França invadida e humilhada, milhares de famílias sofriam a angústia de ter um parente morto, prisioneiro ou desaparecido. Cabisbaixos, os franceses viam as tropas estrangeiras marcharem ufanas por suas cidades semidestruídas pelos bombardeios inimigos. Aflição e amargura imperavam nos espíritos.

Porém, em meio a tanta desolação, surge inesperadamente no horizonte um rastro luminoso de esperança. Uma após outra, várias cidades começam a engalanar-se como para uma grande festa: nas casas, pendem das janelas tapeçarias e arranjos florais de variadas cores. Graciosas guirlandas sustentadas por postes são erguidas nas ruas, sem falar nas inumeráveis bandeiras de cores branca e azul que tremulam, parecendo obedecer ao ritmo da música executada pela fanfarra local. As costureiras aprontam apressadamente os últimos detalhes das roupas de cerimônia das crianças. Nesses preparativos gerais, nem mesmo os homens ficam à margem: combinam entre si de trazer do bosque pitorescos arbustos para adornar os cantos das ruas.

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Regozijo e expectativa reinam em muitas cidades francesas, pressagiando algo de grandioso… Mas, não nos esqueçamos, isto se passa durante as tragédias da Segunda Guerra Mundial. O que terá feito as pessoas esquecerem por um momento suas dores? Quem será objeto de tanta homenagem?

Uma celestial visitante
“Ela está chegando!”… “Ali está ela!” — são os brados que anunciam o grande acontecimento. Um aparatoso cortejo entra pelas portas da cidade. Fiéis entoam cânticos religiosos a plenos pulmões. Todos os olhares se voltam para um andor que chega… Por seu formato, mais parece um barco. Sim, um pequenino barco sobre uma charrete puxada por cavalos enfeitados com fitas multicolores.
Sobre esta singular embarcação, que parece singrar os pavimentos das ruas, avista-se uma simples, porém tocante imagem da Santíssima Virgem. Após ter percorrido o povoado vizinho, Ela é recebida com grandes comemorações na igreja matriz, onde passará a noite em vigília com os fiéis.
Que Virgem é esta? Qual sua história? Por que tanto atrai as multidões em torno de si?

Presente da Providência

Sua origem remonta ao século VII. Certo dia, os habitantes de Boulogne-sur-Mer, extremo norte da França, avistaram na orla marítima uma embarcação sem velas, sem remos e sem marujos que a pudessem ter trazido. Nela encontraram uma piedosa imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus, da qual se irradiava uma luz extraordinária, transmitindo uma impressão de paz, calma e felicidade.
A devoção surgida em torno dessa imagem transformou aos poucos o local em centro de peregrinações. A ele acorreram personagens como São Luís IX, rei de França, e São Bernardo de Claraval. Por volta de 1100, Santa Ilda, Condessa de Boulogne, deu início à construção de um santuário que foi concluído cerca de 200 anos depois.
Séculos mais tarde, quando os furores antirreligiosos da Revolução de 1789 assolaram a França, não pouparam sequer a venerável imagem, que foi lançada às chamas, dela não restando mais que a mão direita. Parecia terminada, assim, a atuação de Nossa Senhora sob a invocação de Virgem de Boulogne-sur-Mer.

Cinco anos de missão popular

Entretanto, a Providência tinha outros desígnios. Em 1938 celebrou-se nessa cidade um congresso mariano durante o qual a França foi consagrada solenemente ao Coração Imaculado de Maria. E em 1942, o Papa Pio XII consagrou a Ela a humanidade inteira. A seguir, as autoridades eclesiásticas francesas renovaram a consagração da França, anteriormente realizada.
No rastro dessas graças, quatro cópias da imagem de Boulogne-sur-Mer partiram em peregrinação pelo país, em 1943, percorrendo em todas as direções durante cinco anos a terra de São Luís IX e despertando um movimento de orações, de penitência e de reafervoramento que só pode ter sido inspirado pelo Espírito Santo.
Esse movimento foi denominado de Grand Retour, devido aos seus objetivos imediatos: obter da Medianeira de todas as Graças o retorno dos cerca de um milhão de soldados franceses que continuavam como prisioneiros de guerra, o retorno da paz, o retorno da liberdade e, o que mais importava, o retorno da Fé. O sofrimento fazia as almas voltarem-se para Deus, à procura de auxílio e consolo.
O que se fez, na realidade, foi uma fervorosa e comovedora missão popular de cinco anos. As quatro imagens fizeram, no total, um percurso de 120 mil quilômetros, visitando 16 mil paróquias de 88 dioceses francesas. Foram anos de extraordinárias manifestações de entusiasmo e de piedade marial. Em qualquer lugar onde chegava uma imagem, ela era acolhida por uma multidão vibrante de Fé e devoção. E, ao partir, deixava como fruto de sua passagem conversões, milagres e uma alegria desbordante e generalizada.

Curas físicas e espirituais

Inúmeros fatos tocantes marcaram esses cinco anos de peregrinações.
Conta-se, por exemplo, que, ajoelhada e com os braços abertos em cruz, uma menina rezava certo dia durante largo tempo diante da maternal imagem. O que tanto suplicava ela? Desejava com ardor rever seu querido pai, o qual há vários anos havia partido para a guerra e nunca dera notícias. E foi atendida: chegando em casa, lá estava ele a recebê-la carinhosamente.
Narra-se também o caso de um ferreiro que batia vigorosamente sua bigorna durante a procissão com o objetivo de boicotar essa “idiotice”. Bastou o andor da Virgem parar alguns instantes diante da sua casa para ele, arrependido, unir-se à romaria…
Notou-se também uma pessoa que de má vontade acompanhava o cortejo. Emburrado, com os punhos cerrados, parecendo estar sob o efeito de misteriosa ação, dizia para si mesmo: “Esta Virgem é irresistível! Ela é irresistível!”. E quando a procissão chegou à Igreja, dirigiu-se de imediato ao confessionário.
Houve também curas físicas, mas eram sobrepujadas pelas espirituais. Por onde passava uma imagem, as igrejas ficavam lotadas; muitos acorriam ao Sacramento da Penitência e retornavam à prática da Religião, abandonada durante anos. Um pároco relatou que, antes dessa graça, não via um só homem rezando em sua igreja; depois da peregrinação, afluíam eles em grande número.

Nossa Senhora do “Grand Retour”

Em razão dessas graças, Notre-Dame de Boulogne passou a ser conhecida como Nossa Senhora do Grand Retour. E a renovação espiritual que a França experimentou naqueles cinco anos, bem mostrou quanto Maria jamais se esquece de alguém, velando por cada um como se fosse seu filho único. Com o seu Sapiencial e Imaculado Coração palpitando de ansiedade e santa pressa, Ela aguarda o nosso retorno à casa paterna para nos acolher, purificar e cumular de dons.Bottom of page
À Virgem Santíssima bem podem ser aplicadas estas palavras do Livro da Sabedoria: “Resplandecente é a Sabedoria, e sua beleza é inalterável: os que a amam, descobrem-na facilmente. Os que a procuram, encontram-na. Ela antecipa-se aos que a desejam. Quem, para possuí-la, levanta-se de madrugada, não terá trabalho, porque a encontrará sentada à sua porta” (Sb 6, 12-14).

ARAUTOS DO EVANGELHO, n. 91, jul 2009.