Os homens não são movidos a álcool

Marcos Eduardo Melo dos Santos

É comum vermos cambaleando pelas ruas, sem rumo seguro, homens – e às vezes mulheres – que certamente não seriam aprovados pelo bafômetro. O odor de álcool de uma voz pastosa pode ora agredir, ora elogiar, mas nem sempre é entendida ou mesmo bem-vinda. Máxime quando se está em horário comercial…
Para solucionar este problema, o Senado aprovou em decisão terminativa um Projeto de Lei, que cria novos critérios para a demissão de trabalhadores dependentes da bebida alcoólica: este, doravante, terá direito à proteção do Estado, pois o alcoolismo é considerado como uma doença incapacitante pela medicina. Não será tão difícil saber qual é causa desta patologia…
Espera-se que os dispositivos legais estejam muito bem amarrados, pois, facilmente esta lei poderia ser prejudicial aos contribuintes, mas certamente bem acolhida pelos ditos cambaleantes…
As bebidas alcoólicas têm sido o principal motivo de internação psiquiátrica envolvendo o uso de substâncias no Brasil (39.186 internações de um total de 51.787 ocorridas em 367 hospitais psiquiátricos em 2004)1.
Com este projeto do Senado, será incluído nas normas da CLT que o trabalhador diagnosticado como alcoólatra só poderá ser demitido por justa causa, em caso de recusa a se submeter ao tratamento financiado pelo governo, ou melhor, pelos outros que verdadeiramente trabalham, e descontam…
A cura do alcoolismo requer acompanhamento médico e psicológico. O álcool é uma das poucas substancias psicotrópicas que tem seu consumo admitido e incentivado pela sociedade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o alcoolismo produz a maior taxa de mortalidade e limitação da condição funcional no emprego e na família. Calcula-se que, mundialmente, o álcool esteja relacionado a 3,2% de todas as mortes e 4,0% das Disabilities Adjusted Life Year (DALY), e que nos países em desenvolvimento e com baixa mortalidade, dos quais o Brasil faz parte, o álcool é o fator de risco que mais contribui para as doenças, sendo responsável por 6,2% das patologias1.
Qual o melhor meio de evitar o alcoolismo no Brasil? A questão é complexa, mas como a seção se intitula opinião, permita-me o leitor, manifestar a minha que, na verdade, nada mais é que o ensinamento da Santa Igreja.
O homem possui em si um desejo extremo de felicidade. Tem o desejo infinito do que é belo e agradável, pois foi criado por Deus para o bem infinito e eterno, no convívio com Deus no Céu. Apagada da mente dos homens o sentido católico da vida, é natural que o homem procure a felicidade nas criaturas (Rm 1,18ss). Todavia, por causa desta sede infinita de gozo e prazer, o homem se afasta da razão e da inteligência, cometendo atos contra a sua própria natureza. Deste fator procede a gula, o alcoolismo, e tudo aquilo que denominam “falha moral”, ou seja, que a Igreja como mãe amorosa adverte ser pecado contra si mesmo e contra Deus. O incrível é que nenhum animal do Brasil foi internado em tratamento veterinário por gula, alcoolismo ou outra desordem. Entretanto, os humanos, animais supostamente racionais…
Esta contradição se deve a que nada nesta terra pode satisfazer a fome infinita de prazer no homem, senão o sobrenatural. Assim, sem Deus e a Igreja que o regrem e imponham salutares limites, que redundam em verdadeira liberdade, o homem cai de falta em falta, pela repetição de pecados pelos vícios, até o ponto onde a luz da razão se extingue, e se salienta ainda mais o lado animal do homem. Apesar do alcoolismo não ser mais visto pela sociedade, nem pela medicina, como falha moral, é um ato de procura irracional do prazer. Para São Tomás de Aquino, o pecado nada mais é que “o afastar-se da reta razão”, portanto, se consumir bebidas alcoólicas para lá da conta, além de irracional, comete um pecado.
Ora, a verdadeira solução para o alcoolismo e para os desvios morais na sociedade, não está na coerção ou em normas legislativas do estado. Isto pode ajudar, concordo, mas convenhamos, não resolve. Isto não quita a sede de feilicidade do homem, que sem o rumo verdadeiro procurará outras formas de saciar seu estinto de bem. Que o estado, os homens e a Igreja ensinem que a felicidade está em Deus, isto sim resolve o problema do alcoolismo e demais chagas da sociedade, como aliás os especialistas comprovam o papel da religião na recuperação do alcoolismo e casos semelhantes1. Era o que o Divino Mestre ensinava: “Procurai o Reino de Deus e sua justiça e tudo mais vos será dado por acréscimo” (Mt 12,31). O que em outras palavras poderíamos dizer: procurai a Deus e a santidade (sua justiça), e todos os problemas da sociedade se resolverão.

Comentário a Notícia publicado no Correio Braziliense em 05 de agosto de 2010. Disponível em: http://cfm.empauta.com/e/mostra_noticia.php?autolog=eJwzMDAwtTA1MDQxMTI3MjA0MLAwMAUAKYMD9Q–3D–3D&cod_noticia=971703359&d=1&x=1&nojump=true

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1 CARLINI, Elisaldo A. Epidemiologia do Uso de Álcool no Brasil. Universidade Federal de São Paulo. Arq Méd ABC. 2006; Supl.2: 4-7
2 WORLD HEALTH ORGANIZATION. About global alcohol database. Geneva: WHO, 2002.Disponível em: <http://www3.who.int/whosis/alcohol/alcohol_about_us.cfm?path=whosis,alcohol,alcohol_about&language=english>. Acesso em: 16 maio 2004.
3 Cf. ABDALA, Gina Andrade; GIL RODRIGUES, Wellington; TORRES, Amilton; CORREIA RIOS, Mino; SOUZA BRASIL, Magela de. A Religiosidade / Espiritualidade como Influência Positiva na Abstinência, Redução e/ou Abandono do Uso de Alcool. Rever Revista de Estudos da Religião. Mar. 2010, p. 77.

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