ITTA – IFAT

Instituto Teológico São Tomás de Aquino

ITTA – IFAT - Instituto Teológico São Tomás de Aquino

São Paulo e a Conquista da Acaia

Marcos Eduardo Melo dos Santos – 2º ano de Teologia

São PauloConquista! Esta evocativa palavra faz emergir em nosso espírito a saga de grandes personagens. Autênticos homens de ação, conquistadores de terras e povos que bem merecem um honroso lugar na galeria da História. Contudo, existe uma epopeia mais sublime, a conquista das almas. Somente no Juízo final poder-se-á medir inteiramente os méritos de um missionário. Pois, atrair as almas para o Rei dos Reis e sua esposa Mística, a Santa Igreja Católica é conquistar almas para o Céu. O conquistador Dentre essa inumerável coorte de missionários na História da Igreja, o maior deles, sob vários aspectos, foi São Paulo Apóstolo. Sua gesta apostólica é incrível. Como santo e ministro de Deus, de uma santidade sem mancha, comprovada por milagres. Como escritor, nunca alguém foi tão lido, discutido, elogiado e criticado por causa de apenas 14 cartas. Como teólogo, terá alguém sido mais profundo? Como homem de ação, uma biografia riquíssima. Quantos trabalhos, fadigas, vigílias, prisões, açoites, viagens, e naufrágios? Quantas vezes viu a morte de perto? Exposto a perigos nos rios, mares, cidades e desertos. Ameaçado por assaltantes, pagãos e falsos irmãos. Ele mesmo narra que através de uma janela, por uma cesta, foi descido pelo muro a fim de escapar da prisão. (Cf. 2Cor 11,22-33). Nascido em Tarso por volta do ano 8 d.C., Saulo, o perseguidor dos cristãos, judeu de sangue, romano de cidadania, fariseu de religião, se converte na estrada de Damasco. Diz o escritor apócrifo dos Atos de Paulo (Apud ROPS, 1952, p. 21), que esse jovem de quase 30 anos era “de estatura média, baixo e rechonchudo, com pernas tortas, a cabeça calva, as sobrancelhas espessas e muito juntas, o nariz arqueado”. Mais alma do que corpo, sua fisionomia nunca foi elogiada pela beleza dos traços, mas isso em nada empobrece sua personalidade. O antigo aluno de Gamaliel era de uma inteligência e força de vontade excepcionais. O olhar o revelava. Memória excelente, a serviço de uma cultura judaica e greco-romana incomum. Falava excelentemente o grego, o latim e o hebraico. Perfeita dicção, caráter sólido, determinado nas decisões, quase obstinado; sério, era homem capaz de servir um alto ideal até as ultimas consequências. Este Ministro de Cristo foi preparado no melhor dos seminários. Conviveu durante dois anos com o Salvador em corpo glorioso. Durante suas viagens era constantemente movido por visões e inspirações do Espírito Santo, assim como, por um admirável senso prático. Lógico, audacioso e empreendedor, mereceu o título de “O Apóstolo”, pois fez mais que todos os outros juntos.

Em Atenas Durante a segunda viagem apostólica (50-53 d. C.), impelido pelo Espírito Santo, adentrou-se no continente europeu (At 16,9). Na Macedônia, as cidades de Filipos, Beréia e Tessalônica, não sem dificuldades acolheram-no com fervor. A perseguição o fez dirigir-se para a Acaia e a primeira cidade que desbravou foi Atenas, a capital da filosofia. Cidade de apenas 30.000 almas, mas que gozava de incontestável prestígio na antiguidade. O Apóstolo “estava interiormente indignado por ver a cidade repleta de ídolos”. (At. 17,16). Seguindo o costume, dirigiu-se à Sinagoga. Todos os dias discutia com os judeus e pagãos “que adoravam a Deus”. Certa vez conversou com alguns filósofos epicúreos e estóicos. Alguns, despeitosos ante o singular judeu, julgavam-no “charlatão” (v. 18), mas, outros, vendo seu valor e convicção, levaram-no ao Aerópago e perguntaram-lhe: “Podemos saber que nova doutrina é essa que ensinas? É muito estranho o que nos trazes aos ouvidos. Queremos saber o que pretendes dizer com tais coisas”. (v. 19-20). Paulo pronunciou o discurso que São Lucas relegou à História. Podemos imaginá-lo de pé, no centro do Areópago, com voz forte e clara proclamando: Atenienses, vejo que sois extraordinariamente religiosos em tudo. Ao passar pela cidade e contemplar os objetos de vosso culto, achei até um altar em que está escrito: “Para o deus desconhecido”. Pois bem, aquele que venerais sem conhecer, é esse que vos anuncio. O Deus que fez o mundo e todas as coisas que nele existem. Sendo o Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos de homens, nem por mãos humanas é servido, como se necessitasse de alguma coisa, ele que dá a todos a vida, o alento e todas as coisas. De um só fez nascer todo o gênero humano, para povoar toda a face da terra. Estabeleceu para os povos os tempos e os limites de sua habitação, tudo para que procurem a Deus e se esforcem por encontrá-lo mesmo às apalpadelas. Pois não está longe de nenhum de nós. É nele que vivemos, nos movemos e existimos, como alguns de vossos poetas disseram: ‘Porque somos também de sua raça’. Sendo, pois, da raça de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro ou à prata ou à pedra, obra da arte e do engenho humanos. Não levando em conta os tempos da ignorância, ele convida agora a todos em toda parte a se converterem, porque fixou um dia em que julgará o mundo com justiça, por meio de um homem que ele constituiu, dando a todos por garantia o fato de tê-lo ressuscitado dos mortos”. (Cf. At 17, 21-34). Quando ouviram o Apóstolo tratar da ressurreição dos mortos, alguns zombaram e outros disseram: “A este respeito te ouviremos noutra ocasião”. Todavia, como narra a Legenda, após curar um cego a pedido de um ilustre areopagita como prova da veracidade de sua doutrina, vários se converteram, conquistando algumas almas “do mundo acadêmico ateniense”, as quais dariam frutos extraordinários, como aquele que será São Dionísio, o Areopagita, primeiro bispo de Atenas.

Em Corinto A corrupção epicúrea e o orgulho cético dos estoicos tornavam Atenas terra árida à semente do Evangelho. Por isso, logo partiu São Paulo para a capital econômica e política da Acaia: Corinto, uma das mais importantes cidades do Império Romano. A indústria, o comércio e os dois portos – Lenqueas ao ocidente e Cencreas ao oriente – eram os trunfos econômicos da suntuosa cidade. O que fazia jus ao provérbio da antiguidade, relativo às pessoas com alto poder aquisitivo, “nem todos podem ir a Corinto”. Fundada no século IX a. C., era a cidade mais rica e artística do Helesponto; por sua posição geográfica era a chave e a porta do Acaia. Nas guerras do Peloponeso, Corinto era o pêndulo que marcava a hora da vitória para as cidades-estado. A culta Atenas e a belicosa Esparta dominaram a Grécia quando conquistaram Corinto. (ESPASA CALPE, 1936). Sua laboriosa população de 500.000 almas era constituída, sobretudo, de libertos e patrícios, assim como, de uma relevante colônia judaica. Como narra o Atos dos Apóstolos, em Corinto, São Paulo encontrou um judeu chamado Áquila, originário do Ponto, que acabara de chegar da Itália com Priscila, sua mulher. Paulo uniu-se a eles; e, como era do mesmo ofício, fabricante de tendas, permaneceu em sua casa onde trabalhavam juntos. Aos sábados discutia na sinagoga persuadindo judeus e gregos. Entre trabalhos, pregações e a celebração da Ceia, São Paulo ainda pôde escrever duas cartas aos tessalonicenses. (±51 d.C.). Quando seus auxiliares, Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo se dedicou inteiramente à pregação da palavra, defendendo diante dos judeus que Jesus era o Cristo. Entretanto, a oposição dos judeus fez o Apóstolo sacudir as vestes e dizer-lhes : “Sobre vós pesa a responsabilidade do que acontecer. Eu sou inocente. A partir de agora dirijo-me aos pagãos”. Daí em diante nunca mais voltou às sinagogas. Mudou-se para a casa de um pagão de nome Tício Justo. Entretanto, alguns judeus seguiram o Apóstolo, como Crispo, chefe da sinagoga, o qual acreditou no Senhor com todos os de sua casa. Muitos coríntios que ouviam Paulo também acreditaram e foram batizados (At 18, 2- 8). Assim formou-se a comunidade cristã de Corinto, constituída de ricos convertidos e alguns judeus, contudo a imensa maioria era de origem modesta e pagã. Anos depois, o Apóstolo recorrerá aos ricos coríntios na coleta pela carente comunidade de Jerusalém. Apesar da conquista destas almas, o apostolado em Corinto não era fácil devido à imoralidade típica do clima mediterrâneo corroborada pela riqueza material. São Paulo muito lutou contra a corrupção de costumes como se deduz através das cartas que enviará anos depois aos coríntios. Nem sempre as admoestações do Apóstolo foram acolhidas com fervor, por todos, em Corinto. São Paulo pretendia inclusive sair da cidade, pois pressentia que a borrasca da perseguição se armava no horizonte. Como a bonança que precede a tempestade, certa noite, São Paulo teve uma visão. O Senhor lhe disse: “‘Não tenhas medo, segue falando e não cales, pois eu estou contigo. E ninguém te fará mal, pois tenho um povo numeroso nesta cidade’. O Apóstolo dos Gentios demorou-se lá mais um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus”. (At 18, 8). Finalmente, a tormenta da perseguição desabou sobre o Apóstolo. Alguns judeus acusaram-no a Galião, procônsul da Acaia, dizendo: “Este homem persuade os ouvintes a prestar culto a Deus de modo contrário à Lei”. Mas, Galião, não atendeu as acusações, pois sendo “questões de doutrina”, não quis julgar o caso. Então, os judeus espancaram Sóstenes, chefe da sinagoga sem que o procônsul fizesse caso. Assim, O Apóstolo ficou ileso conforme a promessa do Senhor, permaneceu na Acaia por ainda algum tempo, mas finalmente despediu-se dos irmãos e navegou para a Síria com os santos Priscila e Áquila. Antes, porém, raspou a cabeça em Cencréia, por causa de um voto que tinha feito. (At 18,9-18). Quanto à razão do voto, é mais um mistério da História…

A duradoura e grandiosa conquista São Paulo evangelizou as regiões mais importantes do Império dos Césares: a populosa Ásia, a ardente Ibéria, a culta Grécia e a Itália, centro administrativo e militar. Contudo, sob certo aspecto, a Grécia, pátria dos filósofos, possuía primazia, porque era o polo do requinte e da cultura no Império Romano. Lá se ditava a moda, do pensar ao vestir-se. Até a Roma vencedora adaptava-se à língua e à cultura dos vencidos. Tão grande era a influência grega sobre todo o Império Romano, que quando uma ideia tomava a Acaia, conquistava o mundo. (MEILLET, 1947). Estava São Paulo consciente do papel da Acaia no mundo de então? Pelo seu feitio de espírito, invejável cultura e amplitude de horizontes, certamente, sim. Se hoje o politeísmo está quase extinto não o devemos ao Apóstolo dos Gentios e à inumerável coorte de santos que seguiram seu exemplo e sua doutrina? Sob as ruínas do paganismo, São Paulo edificou o cristianismo grego, que durante quase mil anos legou à Igreja profundas explicitações teológicas, tratados espirituais e uma grandiosa arte. Sobretudo gerou santos, que brilham como estrelas no firmamento da Igreja. A conquista da Acaia era o lance decisivo para a conquista do Império Romano. Sendo uma região admirada pelos latinos, São Paulo revestia o cristianismo do prestígio grego e preparava a entrada do Evangelho na capital do Império. Sem preparar um plano de conquista com mapas, cálculos e logística impecável a la general militar, a conquista paulina foi maior e mais duradoura que muitos conquistadores da antiguidade. Hoje, quase dois mil anos depois, os descendentes dos latinos somam 85% dos fiéis cristãos no mundo. Se uma enorme multidão goza do Reino Celestial e mais de dois bilhões de almas se ufanam de professar o cristianismo, devemo-lo ao Apóstolo dos gentios. Um dos principais propugnadores de uma das maiores e mais duradouras conquistas da História da Igreja: a conversão do Império Romano. Grandiosa epopeia a qual se iniciou com a conquista da Acaia.

BIBLIOGRAFIA BÍBLÍA de Navarra. Pamplona: Ediciones Universidad de Navarra – EUNSA, 2008. CESÁREA, Eusébio de; AZNAR, Luiz. Historia Eclesiástica. Bueno Aires: Editorial Nova, 1950. ESPASA CALPE. Enciclopedia Universal ilustrada: Europeo-Americana – Suplemento Anual, 1935. Madrid; Barcelona: Espasa-Calpe, S.A., 1936. LLORCA, Historia de la Iglesia, Edad Antigua. Madrid: BAC, 2005. MEILLET, A. Esquisse d´une Histoire de la Langue Latine. 5ª [cinquème édition]. Paris: Hachette, 1948. ROPS, Daniel. São Paulo, o conquistador de Cristo. Porto: Tavares Martins, 1952. ______. La Igresia de los Apóstoles y de los Mártires. Trad. Luis Horno Liria. Madrid: Palabra, 1992. VORAGINE, Jacques. La Légende Dorée. Trad. Jean Baptiste Rose. T. I e II, Paris : Garnier-Flammarion, 1967.

A universidade católica tem de ser católica

GrocholewskiEntrevista com Cardeal Zenon Grocholewski: Prefeito da Congregação para a Educação Católica

Cf.  www.acidigital.com/noticia.php?id=19805

Por ocasião do 20º aniversário da Exortação Apostólica Ex Corde Ecclesiae sobre as Universidades Católicas, o Prefeito da Congregação para a Educação Católica, cardeal Zenon Grocholewski, observou que apenas “a universidade Católica que manter a sua identidade terá um futuro e contribuirá para o bem da sociedade”. Ao perder sua união com a Igreja, se tornará uma casa de estudo como outra qualquer. Aplica-se também esta norma aos colégios religiosos.

Em entrevista, o cardeal recordou que um mestre que ensina em uma casa católica de estudos deve “acreditar na Escritura e na Tradição, assim como deve estar unido ao Magistério da Igreja. É arriscado para uma pessoa querer ser mais importante que o Magistério da Igreja”.
Comentando o fato de ter recebido várias reclamações de pessoas que frequentam as universidades católicas e recebem ensinamentos que não estão em conformidade com o Magistério da Igreja, denominou este tipo de centro de estudos como “hipócritas e mentirosos”.
O Cardeal acrescentou que “o que é necessário no contexto moderno de permissividade e de relativismo é que a universidade mantenha a verdade católica, a verdade objetiva”. De fato, o ensino da ciência não exclui a doutrina da Igreja. Todo o conhecimento humano foi criado por Deus e distribuído no universo. Deus é a verdade, e esta mesma verdade é o objeto de toda ciência. O cardeal advertiu que “se uma universidade católica perde a sua identidade, torna-se similar a outras universidades, então é na prática menos significativa”, por perder sua finalidade.
Questionado sobre a opinião de Bento XVI sobre a atualidade da Educação Católica, o Cardeal Grocholewski afirmou que o Papa é “um grande admirador da Universidade Católica. Realmente se alegra quando a Universidade Católica avança e mantém a sua identidade”.
Desde 1990 – ano em que João Paulo II promulgou a Ex Corde Ecclesiae – foram constituídas 250 universidades católicas no mundo. São 1358 Universidades ou institutos católicos de educação superior. No Brasil, quinze instituições de norte a sul do Brasil são reconhecidas pelo Vaticano como católicas, dentre as quais sete são de direito pontifício.

Rumo ao sacerdócio

Victor Castillo – 2º Ano de Teologia

Novos ministros_11Uma cerimônia pervadida de graças deu-se na Igreja do Seminário, quinta-feira, 29 de julho. Trata-se da instituição de 21 novos acólitos da Sociedade Clerical Virgo Flos Carmeli. Todos alunos ou ex-alunos no Instituto Teológico São Tomás de Aquino (ITTA). A cerimônia, animada pelo coro e orquestra do Seminário, foi presidida pelo sacerdote espanhol Pe. José Luis de Zayas y Arancibia, EP.
A liturgia assim reza, “recebe o pão para a celebração da Eucaristia e proceda de tal modo que possa servir dignamente a mesa do Senhor e da Igreja”. Cada candidato apresentava-se ao celebrante e, recebendo a hóstia sobre a patena respondia: “Amém”.
Esta cerimônia precede a ordenação diaconal e presbiteral e constitui aqueles que a recebem como “acólitos”. O acolitado é um ministério concedido pela Igreja constituindo para “servir ao altar e auxiliar o sacerdote e o diácono. Compete-lhe principalmente preparar o altar e os vasos sagrados, bem como distribuir aos fiéis a Eucaristia, da qual é ministro extraordinário” (Instrução Geral sobre o Missal Romano – IGMR, 65).
É denominado ministério, pois de modo diferente à ordenação diaconal e sacerdotal, não imprime caráter sacramental como a ordem, mas confere àquele que a recebe uma função delegada junto ao altar, o que redunda em graças especialíssimas no serviço litúrgico da Igreja.
Antigamente, o acolitado era a mais alta das chamadas “ordens menores”, após o hostiarato, o leitorado e o exorcistado. O subdiaconato, durante muito tempo foi considerado o primeiro grau das “ordens maiores”, seguindo-se-lhe o diaconato, o presbiterato e o episcopado.
Nos primeiros tempos da Igreja, a função do acolitado era distribuir a Eucaristia aos ausentes, por doença, ou aos presos, pela perseguição religiosa dos imperadores. O dever do acólito também era apresentar aos sacerdotes o sancta, ou seja, as oferendas.
Com a Carta Apostólica em forma de Motu Proprio “Ministeria Quaedam”, o Papa Paulo VI, na década de setenta, reformou as “ordens menores” e as “ordens maiores”. Eliminado o subdiaconato, e agrupado o diaconato, o presbiterado e o episcopado numa única categoria de ordens, todas estritamente sacramentais, que passaram a ser chamadas de “Ordens Sagradas”, conservaram-se das “ordens menores”, apenas o leitorado e o acolitado, ressaltando seu carácter de função delegada – não sacramental – ao denominá-las “ministérios instituídos”.
As duas maiores novidades da reforma, entretanto, consistem na instituição do diaconato permanente e da disponibilização dos ministérios (tanto o leitorado quanto o acolitado) para leigos, mesmo os que não aspiram ao sacerdócio ministerial. De todas maneiras, e assim como o esclarece o Código de Direito Canônico, o candidato deve ter idade e qualidade moral conforme as normas estabelecidas pela Conferência Episcopal (Cân. 230, §1).
Juridicamente, compete ao Bispo a celebração desta cerimônia, embora muitas vezes aconteça ser realizada por um delegado seu, tal como na administração do sacramento do Crisma. No caso dos institutos clericais de vida consagrada e das sociedades clericais de vida apostólica, quando são de direito pontifício, esta faculdade compete aos superiores maiores das mesmas. Sendo a Virgo Flos Carmeli uma Sociedade Clerical de Vida Apostólica de Direito Pontifício, cabia ao seu Superior Geral conceder os ministérios. Todavia, não podendo estar Monsenhor João Clá presente naquela cerimônia, delegou esta faculdade ao Pe. José Luis de Zayas, pois alguns ex-alunos do ITTA, mestrandos e doutorandos em Roma, não poderiam receber este ministério em outra data, devido ao iminente retorno às aulas.
Os jovens que o leitor contempla na foto, são oriundos de países como: Japão, Vietnam, Paraguai, El Salvador, Nicarágua, Espanha, diversos estados do Brasil, como São Paulo, Minas, Paraná, Pernambuco e Ceará. Preparam-se agora para receber o diaconato em vistas ao sacerdócio. Rezemos por estas vocações!!! Assim como a juventude é o futuro de uma nação, estarão também eles incluídos naqueles que farão parte do porvir da Santa Igreja no mundo e no Brasil.

Novos Ministerios

Os homens não são movidos a álcool

Marcos Eduardo Melo dos Santos

É comum vermos cambaleando pelas ruas, sem rumo seguro, homens – e às vezes mulheres – que certamente não seriam aprovados pelo bafômetro. O odor de álcool de uma voz pastosa pode ora agredir, ora elogiar, mas nem sempre é entendida ou mesmo bem-vinda. Máxime quando se está em horário comercial…
Para solucionar este problema, o Senado aprovou em decisão terminativa um Projeto de Lei, que cria novos critérios para a demissão de trabalhadores dependentes da bebida alcoólica: este, doravante, terá direito à proteção do Estado, pois o alcoolismo é considerado como uma doença incapacitante pela medicina. Não será tão difícil saber qual é causa desta patologia…
Espera-se que os dispositivos legais estejam muito bem amarrados, pois, facilmente esta lei poderia ser prejudicial aos contribuintes, mas certamente bem acolhida pelos ditos cambaleantes…
As bebidas alcoólicas têm sido o principal motivo de internação psiquiátrica envolvendo o uso de substâncias no Brasil (39.186 internações de um total de 51.787 ocorridas em 367 hospitais psiquiátricos em 2004)1.
Com este projeto do Senado, será incluído nas normas da CLT que o trabalhador diagnosticado como alcoólatra só poderá ser demitido por justa causa, em caso de recusa a se submeter ao tratamento financiado pelo governo, ou melhor, pelos outros que verdadeiramente trabalham, e descontam…
A cura do alcoolismo requer acompanhamento médico e psicológico. O álcool é uma das poucas substancias psicotrópicas que tem seu consumo admitido e incentivado pela sociedade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o alcoolismo produz a maior taxa de mortalidade e limitação da condição funcional no emprego e na família. Calcula-se que, mundialmente, o álcool esteja relacionado a 3,2% de todas as mortes e 4,0% das Disabilities Adjusted Life Year (DALY), e que nos países em desenvolvimento e com baixa mortalidade, dos quais o Brasil faz parte, o álcool é o fator de risco que mais contribui para as doenças, sendo responsável por 6,2% das patologias1.
Qual o melhor meio de evitar o alcoolismo no Brasil? A questão é complexa, mas como a seção se intitula opinião, permita-me o leitor, manifestar a minha que, na verdade, nada mais é que o ensinamento da Santa Igreja.
O homem possui em si um desejo extremo de felicidade. Tem o desejo infinito do que é belo e agradável, pois foi criado por Deus para o bem infinito e eterno, no convívio com Deus no Céu. Apagada da mente dos homens o sentido católico da vida, é natural que o homem procure a felicidade nas criaturas (Rm 1,18ss). Todavia, por causa desta sede infinita de gozo e prazer, o homem se afasta da razão e da inteligência, cometendo atos contra a sua própria natureza. Deste fator procede a gula, o alcoolismo, e tudo aquilo que denominam “falha moral”, ou seja, que a Igreja como mãe amorosa adverte ser pecado contra si mesmo e contra Deus. O incrível é que nenhum animal do Brasil foi internado em tratamento veterinário por gula, alcoolismo ou outra desordem. Entretanto, os humanos, animais supostamente racionais…
Esta contradição se deve a que nada nesta terra pode satisfazer a fome infinita de prazer no homem, senão o sobrenatural. Assim, sem Deus e a Igreja que o regrem e imponham salutares limites, que redundam em verdadeira liberdade, o homem cai de falta em falta, pela repetição de pecados pelos vícios, até o ponto onde a luz da razão se extingue, e se salienta ainda mais o lado animal do homem. Apesar do alcoolismo não ser mais visto pela sociedade, nem pela medicina, como falha moral, é um ato de procura irracional do prazer. Para São Tomás de Aquino, o pecado nada mais é que “o afastar-se da reta razão”, portanto, se consumir bebidas alcoólicas para lá da conta, além de irracional, comete um pecado.
Ora, a verdadeira solução para o alcoolismo e para os desvios morais na sociedade, não está na coerção ou em normas legislativas do estado. Isto pode ajudar, concordo, mas convenhamos, não resolve. Isto não quita a sede de feilicidade do homem, que sem o rumo verdadeiro procurará outras formas de saciar seu estinto de bem. Que o estado, os homens e a Igreja ensinem que a felicidade está em Deus, isto sim resolve o problema do alcoolismo e demais chagas da sociedade, como aliás os especialistas comprovam o papel da religião na recuperação do alcoolismo e casos semelhantes1. Era o que o Divino Mestre ensinava: “Procurai o Reino de Deus e sua justiça e tudo mais vos será dado por acréscimo” (Mt 12,31). O que em outras palavras poderíamos dizer: procurai a Deus e a santidade (sua justiça), e todos os problemas da sociedade se resolverão.

Comentário a Notícia publicado no Correio Braziliense em 05 de agosto de 2010. Disponível em: http://cfm.empauta.com/e/mostra_noticia.php?autolog=eJwzMDAwtTA1MDQxMTI3MjA0MLAwMAUAKYMD9Q–3D–3D&cod_noticia=971703359&d=1&x=1&nojump=true

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1 CARLINI, Elisaldo A. Epidemiologia do Uso de Álcool no Brasil. Universidade Federal de São Paulo. Arq Méd ABC. 2006; Supl.2: 4-7
2 WORLD HEALTH ORGANIZATION. About global alcohol database. Geneva: WHO, 2002.Disponível em: <http://www3.who.int/whosis/alcohol/alcohol_about_us.cfm?path=whosis,alcohol,alcohol_about&language=english>. Acesso em: 16 maio 2004.
3 Cf. ABDALA, Gina Andrade; GIL RODRIGUES, Wellington; TORRES, Amilton; CORREIA RIOS, Mino; SOUZA BRASIL, Magela de. A Religiosidade / Espiritualidade como Influência Positiva na Abstinência, Redução e/ou Abandono do Uso de Alcool. Rever Revista de Estudos da Religião. Mar. 2010, p. 77.

A fecundidade da esperança

Rafael Juneo Pereira Fonseca – 2º ano de Teologia

A Esperança pode ser compreendida na ordem natural e na ordem sobrenatural. Naturalmente ela designa uma paixão, enquanto um movimento da sensibilidade que tende para um bem sensVelasível ausente, mas que pode ser alcançado ainda que com dificuldade, e um sentimento, entre os mais nobres do coração humano, que se dirige a um bem honesto ausente. É um sentimento de grande importância, pois sustenta o homem em seus empreendimentos difíceis. De maneira sobrenatural, a Esperança sustenta o católico em meio às dificuldades relativas à sua santificação e salvação; tem por objeto as verdades reveladas que se referem à vida eterna e aos meios de adquiri-la, e se funda na onipotência e bondade divinas. Deter-nos-emos neste trabalho na análise da esperança sobrenatural e, dentro desta, seu papel em nossa santificação.
A Esperança contribui para a nossa santificação de três maneiras principais: primeiro, une-nos a Deus; segundo, dá eficácia às nossas orações; terceiro, torna-se princípio de atividade fecunda.
Une-nos a Deus desapegando-nos dos bens terrenos. A todo momento somos solicitados pelos prazeres sensíveis, pelo orgulho, pela sensualidade… enfim, pelas alegrias, legítimas e ilegítimas, da esfera natural. No entanto, a esperança quando apoiada numa fé viva e ardente, mostra-nos que a todas as felicidades terrenas faltam dois elementos essenciais: a duração e a perfeição. Nenhum bem terreno é suficiente de si para satisfazer o ser humano uma vez que este foi criado por Deus com sede do infinito. Após o deleite, sempre há o enfado e saciedade. A nossa inteligência jamais se dá por satisfeita sem o conhecimento da causa perfeita, e o nosso coração não se contenta a não ser em Deus. Só Ele é a plenitude do Bonum, Verum e Pulchrum. E bastando a Si mesmo, evidentemente, basta-nos a nós.
A esperança, unida à virtude da humildade, dá eficácia às nossas orações e nos obtém dos céus os favores de que necessitamos. Ensina-nos o Eclesiástico: « scitote quia nullus speravit in Domino et confusus est. Quis enim permansit in mandatis ejus, et derelictus est, aut quis invocavit eum, et despexit illum? Quoniam pius et misericors est Deus, et remittet in die tribulationis peccata (Ecle. 2, 11-12). » Em seus milagres, Cristo nosso Senhor, jamais desprezou quem a Ele recorreu com confiança. Não atendeu Ele o centurião, o paralítico descido pelo telhado, os cegos de Jericó, a Cananéia, a pecadora pega em adultério e o leproso? Ademais, não prometeu ele que “Amen, amen, dico vobis, si quis petieritis Patrem in nomime meo, dabit vobis” (Jo 16, 23)? Afinal, nada honra tanto a Deus como a confiança Nele que não se deixa vencer em generosidade, concedendo superabundantes graças.
Por fim, a esperança é um princípio de atividade fecunda. Primeiro, por que produz santos desejos, em particular o anelo do Céu e de Deus. Ora, esse anseio dá à alma o impulso e o ardor necessários para alcançar o bem suspirado e ampara os esforços empregados para a obtenção do fim desejado. Segundo, aumenta-nos as energias por meio da expectativa de uma recompensa que superará em muito os nossos empreendimentos. Se no mundo se trabalha com tanto afã para adquirir bens perecíveis, que as traças corroem e os ladrões roubam, com quanto mais razão não devemos nós esperar, quando buscamos uma coroa incorruptível! Dá-nos, ainda aquela coragem, certeza e constância que a convicção do triunfo produz. Então, é isto que nos dá a esperança, pois apesar de fracos de nós mesmos, somos fortes pela própria força de Deus.

A Santa Missa, um sacrifício?

missa2Millon Barros – 3º Ano de Teologia

Certo dia, um jovem veio pedir ajuda ao seu pároco. Tratava-se de um caso muito sério, para qual o rapaz não via remédio. Haveria uma reunião no próximo domingo, a respeito da doutrina católica, e esta conferência seria presidida por um orador muito famoso. Todos os seus amigos iriam, e ele não queria perder um evento de tamanha relevância.

Por isso, vinha ao sacerdote pedir que desse outro sacrifício para realizar, pois o do domingo ele não poderia fazer. Ao ouvir este pedido o Padre não entendeu a que se referia o rapaz. Aconselhou então ao rapaz que lhe explicasse melhor. A este pedido o jovem lhe disse: “É que a reunião será bem no horário do Santo Sacrifício da Missa. Deste modo, eu peço-lhe que me dê outro sacrifício no lugar do Santo Sacrifício do Domingo”.

Esse equívoco relatado acima muitas vezes pode ser o de muitas pessoas, e nem sempre tão jovens. A dúvida de nosso rapaz – e que talvez seja de muitas outras pessoas – pode expressar-se da seguinte maneira: Por que a Santa Missa é chamada de Sacrifício?

O grande problema deve-se à imprecisão do conceito de sacrifício. O que é na verdade um sacrifício? Para muitos o sacrifício é uma ação muito dolorosa que se deve realizar, e da qual não há meios de escapar. Este conceito é por demais simples e não mostra o real teor de um sacrifício, chegando assim a confundir as idéias das pessoas.

Segundo a doutrina católica, o sacrifício, em seu sentido mais estrito, é:

A oblação externa de uma coisa sensível, com certa destruição da mesma, realizada pelo sacerdote em honra de Deus para testemunhar seu supremo domínio e nossa completa sujeição a Ele.[1]

Este conceito aplica-se inteiramente à Santa Missa, o que faz deste augusto ato um perfeito e excelente sacrifício, denominado Santo Sacrifício da Missa.

Oblação externa: não é portanto um ato interior, o qual não é conhecido por ninguém. Pelo contrário a Santa Missa é uma oração oficial da Igreja, melhor dizendo, é a oração oficial da Igreja, centro e força vital do Corpo Místico de Cristo[2].

E que oblação… é o próprio Filho de Deus que se oferece nas espécies de pão e de vinho. Haverá oblação mais agradável a Deus do que o Seu próprio Filho bem amado no qual está todo o seu agrado[3]?

De uma coisa sensível: é de primordial importância para o homem que o sacrifício seja de algo sensível, pois sendo o homem composto de corpo e alma, o sacrifício deve atender também ao corpo e não apenas à alma. Na Santa Missa o que atende à sensibilidade do homem é o fato de oferecer-se o próprio Corpo e Sangue de Cristo nas espécies do pão e do vinho transubstanciados.

Com certa destruição da mesma: para ser um sacrifício em estrito senso, é necessário que aquilo que se oferece seja inteiramente destruído. É o que se dá na Santa Missa pela comunhão do sacerdote e dos fiéis do Corpo e Sangue de Jesus Cristo.

Realizada pelo sacerdote: é uma conditio sine qua non para a existência da Santa Missa, um sacerdote devidamente consagrado pela imposição das mãos de um bispo.

Em honra de Deus, para testemunhar sue supremo domínio e nossa completa sujeição a Ele: Não há ato que mais honre a Deus do que a Santa Missa. É a renovação incruenta, isto é, sem derramamento de sangue, do Sacrifício do Calvário, realizada pelo próprio Cristo na pessoa de seu ministro. Ao mesmo tempo, o homem é convidado a confessar sua total dependência ao Senhor, não deixando por isso de pedir-lhe ajuda e forças para vencer as lutas de nosso vale de lágrimas.

A Santa Missa é, pois, a mais bela expressão externa em honra de Deus, uma vez que é por Ele mesmo oferecido enquanto Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, constituindo assim o verdadeiro Sacrifício da Nova Lei seu sentido mais estrito e perfeito.

Saibamos, portanto, aproximarmo-nos deste Sublime Sacrifício, não como um fardo ou uma dificuldade, mas, pelo contrário, como um auxílio nas grandes dificuldades do mundo e de nossa vida particular. Acerquemo-nos da Ceia do Senhor com verdadeira Fé e piedade, sabendo que tudo, absolutamente tudo o que nós pedirmos a Ele, não nos negará, pois estas foram suas palavras: “qualquer coisa que pedirdes em meu Nome, será feito” (Jo 14, 13). Desta maneira não receberemos a recriminação de Nosso Senhor: “Ainda não pediste nada em meu nome…” (Jo 16, 24).


[1] ROYO MARÍN, Antonio. Teologia moral para seglares. Madrid: BAC, v. I, p. 286.

[2] Cfr. Ecclesia de Eucharistia, João Paulo II, 17 de Abril de 2003.

[3] Cf. Mt 3, 17

Os mandamentos impressos no coração do Homem

Ítalo Santana Nascimento – 2º Ano de Teologiapordosol

Todo ser humano, criado à imagem e semelhança de seu Criador, é chamado a participar da bem-aventurança celeste mediante o cumprimento de sua finalidade sobre a terra: com seu intelecto conhecer a Verdade absoluta, e com sua vontade aderir ao Bem supremo, que é o próprio Deus. Por isto, deverá viver uma vida reta, repleta de justiça, contribuindo com seus valores para que também a sociedade, na qual está inserido, atinja o mesmo objetivo. Contudo, após o pecado das origens, o homem é cotidianamente violentado pelas suas más paixões, por ter perdido a integridade e o pleno domínio que possuía sobre seu corpo, outrora em perfeita tranquilidade. Necessita ele agora de uma lei que ordene seus atos, afim de não vir a desviar-se do caminho que o levará à divina beatitude. Esta lei é denominada natural.

A temática do presente trabalho será discorrer sobre a lei natural que rege o agir do homem, auxiliando-o diretamente a salvar-se.

 

                        1. A lei é a expressão da norma moral

            Em qualquer época histórica ou lugar do mundo, sob quaisquer condições, o homem sempre buscou a felicidade. Criatura de Deus, tem as potências de sua alma direcionadas, ainda que não perceba, para a posse do Bem Supremo. Assim, a inteligência deseja sofregamente possuir o conhecimento absoluto, a vontade almeja amá-lo ardentemente, e ambas não serão saciadas enquanto não se encontrarem com o ser pleno e perfeito, ou seja, Deus. A este respeito comenta Gambra (1973, p. 275) que “Deus como criador da natureza humana é o bem supremo para o qual, consciente ou inconscientemente, o homem tende ao desejar as diferentes coisas que pretende, naquilo que possuem de particularmente bom”. Portanto, a felicidade completa, a realização plena de suas potencialidades, só se encontrará na contemplação ou posse de Deus. O ser humano caminha neste mundo qual peregrino em busca do mundo sobrenatural em que espera entrar após a morte (p. 276).

            Tendo uma finalidade, deve cada homem orientar sua atuação moral rumo a ela, diria o conselheiro Acácio, profeta das evidências. Aliás, entende-se a própria finalidade como “aquilo que move alguém a praticar determinado ato; o bem (ou o mal) que a pessoa tem em vista ao agir” (BETTENCOURT, 2003, p. 13).  Esta orientação se faz através da norma de moralidade, “regra ou medida a qual o sujeito pode reconhecer os seus atos como bons ou maus, segundo se conformem ou não com ela” (GAMBRA, 1973, p. 279), podendo ser denominada lei, que é a expressão da norma moral (p. 278).

                                  

            2. Os diferentes tipos de lei divina

            A lei divina – não será tratada aqui a lei humana –, aquela promulgada pelo próprio Deus que, como afirma São Tomás, “é uma determinação da razão em vista do bem comum, promulgada por quem tem o encargo da comunidade (apud BETTENCOURT, 2003, p. 17), pode dividir-se em três tipos: eterna, natural e positiva.

            Como a lei natural tem seu fundamento na lei divina, faz-se necessário abordá-la sinteticamente para tornar o tema mais claro.

 

            2.1 A lei divina eterna

            A lei divina eterna é considerada “o plano da sabedoria divina, concebido desde toda a eternidade, para levar as criaturas ao seu Fim supremo” (2003), ou ainda, como Santo Agostinho e São Tomás definiram, “a razão ou vontade de Deus que manda conservar a ordem natural ou proíbe perturbá-la” (apud FERNÁNDEZ, 2004, p. 164). Para um não cristão pode ser definida como a ordem do cosmos. A Declaração sobre a Liberdade Religiosa, Dignitatis humanæ, do Concílio Vaticano II, assim a ela se refere:

 

… a norma suprema da vida humana é a própria lei divina, eterna, objetiva e universal, pela qual Deus ordena, dirige e governa todo o mundo e os caminhos da comunidade humana, segundo os desígnios da Sua Sabedoria e do Seu Amor (n. 3)

           

            2.2 A lei divina natural

                        A lei divina natural é uma participação na lei eterna pela criatura racional. É a mesma lei divina referente ao universo em geral, que recebe o nome de natural na parte que regula o homem, fisicamente capaz de cumpri-la ou violá-la (GAMBRA, 1973). Continua a este respeito a Declaração Dignitatis humanæ, ao esclarecer o significado da lei eterna: “Deus torna o homem participante de sua lei, de maneira que o homem, por suave disposição da Providência divina, pode conhecer cada vez melhor a verdade imutável” (n. 3).

            Por ser parte da lei divina ela tem também Deus como seu legislador. Contudo não se encontra escrita concretamente, pois tem um conteúdo geral e amplo que não permitiria esta formulação. Ao contrário, encontra-se impressa na consciência de cada indivíduo, de tal forma que por mais rude que seja um homem, este sabe se os atos que pratica são bons ou maus (GAMBRA, 1973). A Constituição pastoral Gaudim et Spes reafirmou esta doutrina:   

Na intimidade da consciência, o homem descobre uma lei. Ele não a dá a si mesmo. Mas a ela deve obedecer. Chamando-o sempre a amar e praticar o bem, evitar o mal, no momento oportuno a voz desta lei lhe faz ressoar nos ouvidos do coração: ‘faze isto, evita aquilo’. De fato, o homem tem uma lei escrita por Deus em seu coração. Obedecer a ela é a própria dignidade do homem, que será julgado de acordo com essa lei. A consciência é o núcleo secretíssimo e o sacrário do homem, onde ele está a sós com Deus e onde ressoa a voz de Deus (n. 16).

            Há certas escolas filosóficas que não a admitem, tais como o positivismo e o empirismo. Explicam que no homem existem apenas certas inclinações mais ou menos persistentes para atuar num certo sentido, porém variáveis em função dos tempos e dos países. Aceitam como efetiva somente a lei positiva humana. No entanto, na prática percebe-se patentemente a existência da lei natural, porque os homens aceitam e deixam certos princípios e normas, apesar de desviados e obscurecidos em certas ocasiões, presidirem suas vidas independentemente do tempo e lugar. De outro lado, alguns que constantemente não respeitam a lei positiva do seu país, acatam em sua conduta pessoal normas de honestidade e lealdade, que consideram invioláveis e válidas para si mesmos (GAMBRA, 1973).

 

         3. A existência da lei natural nas antigas civilizações

         A história confirma que os povos primitivos já percebiam a existência da lei natural e a praticavam. Entre estes povos estavam os greco-romanos. Preceitos tais como não matar, não roubar, cultuar a divindade, eram reconhecidos em sua sociedade. Isto se dava porque a lei natural é inteiramente racional. A razão aponta a sua existência recorrendo a dois argumentos. O primeiro deles refere-se à existência do próprio Deus:

Quem admite a existência de Deus Criador, admitirá que tenha infundido dentro das criaturas livres, feitas à sua imagem, algumas grandes normas que encaminhem o homem à consecução da vida eterna. Essa orientação interior é precisamente o que se chama ‘a lei natural’ (BETTENCOURT, 2003, p. 18).

            Deus não pode criar nada que não seja para si mesmo. Ao designar o homem à bem-aventurança eterna, deu-lhe a lei natural para orientar seus atos.

            O segundo argumento baseia-se numa possível negação desta lei:

A negação da lei natural leva a dizer que os atos mais abjetos podem vir a ser considerados virtudes, e vice-versa. Quem não conhece a lei natural, atribui ao estado civil poder de definir o bem e o mal éticos; à vontade do Estado tornar-se a fonte da moralidade e do Direito; desde princípio segue-se a legitimação do totalitarismo e da tirania,de que testemunha o século XX (BETTENCOURT, 2003, p. 18).

         A lei natural é que determina serem bons ou maus os atos humanos.

         Uma prova concreta de sua existência, ademais, é a Declaração Universal dos Direitos do Homem, em 1948, pelas Nações Unidas, que não é senão sua reafirmação. Enfim, assim como no âmbito físico o homem segue certas leis (não comer pedras, não deixar de dormir) também no plano moral o corpo exige dele certas normas. O desprezo destas normas leva-o à desintegração psíquica, e quiçá física (BETTENCOURT, 2003, p. 18).   

            As normas morais são também necessárias por duas razões, como esclarece João Konzen,           

a) A consciência moral da pessoa não capta de modo intuitivo e direto os valores morais, mas pela mediação da fórmula normativa que os expressa. Isso é uma exigência da psicologia do conhecimento humano. b) A condição social do ser humano exige a expressão normativa dos valores morais subjetivos, para possibilitar o necessário intercâmbio, a aprendizagem, a crítica, a formulação de um ethos comunitário, um consenso mediante a reciprocidade das consciências (2007, p. 154-155)

           

            4. O Decálogo

         De outro lado, Deus, criador de todo o universo, tendo escolhido Israel como seu povo, revelou-lhe sua lei, preparando-os assim para a vinda do Messias. Aos pés da montanha, coberta por uma espessa nuvem, ao som de uma trombeta, Moisés falou com Deus e Ele lhe respondeu através de trovões (Ex 19, 16-25). Por fim Deus “pronunciou” o Decálogo. Santo Agostinho comenta que “Ele escreveu nas tábuas da lei aquilo que os homens não conseguiram ler em seus corações” (apud Catecismo da Igreja Católica, 1962). Estas leis estavam declaradas e autenticadas no interior da aliança da salvação. Deste modo, o decálogo é uma luz para iluminar a consciência dos homens, manifestar-lhes os caminhos de Deus e protegê-los do mal (2070).

            Ora, encontrando-se na Sagrada Escritura, tal lei é parte integrante e essencial da revelação. Delineiam os deveres imprescindíveis e, por isso, os direitos humanos fundamentais, inerentes à natureza da pessoa humana.

 

            5. Harmonia entre lei natural e Decálogo

            Ora, de acordo como o Catecismo da Igreja Católica “o Decálogo contém uma expressão privilegiada da ‘lei natural’ (2070). Isto quer dizer que a substância moral existente em ambos é a mesma, ainda que em um de forma mais completa, como escreveu Santo Irineu, “Deus enraizara no coração dos homens os preceitos da lei natural. Inicialmente Ele se contentou em lhos recordar. Foi o Decálogo (apud 2070).

            Embora acessíveis à razão, os preceitos do da Lei de Deus foram revelados, e para chegar a um conhecimento mais perfeito e correto das exigências da lei natural, a humanidade pecadora tinha necessidade dessa revelação. Conhece-se os Mandamentos divinos pela Revelação, proposta por intermédio da Igreja e por meio da consciência moral (2071). 

            Enfim, este trabalho não abarca todo o conteúdo referente à lei natural: ele é por demais extenso para limitar-se a tão pequeno espaço. Há inúmeros  livros e tratados de moral ricos em comentários e opiniões de diversos autores que aqui, por brevidade e pelo desejo de se apresentar uma síntese acadêmica sobre o referido assunto, não foram expostos. Além disso, para se conhecer mais profundamente a lei natural, a normativa dada por Deus ao ser humano a fim de obter a divina beatitude, é essencial uma densa análise das outras leis.    

            Seja por meio do Decálogo ou da lei natural impressa na alma, todos são convocados ao grau eminente das virtudes, através do qual, realçando seus valores e os do próximo, atingirão a idade perfeita de Cristo em sua plenitude.

 

REFERÊNCIAS

FERNÁNDEZ, Aurelio. Compêndio de Teología Moral. 3. ed. Madrid: Ediciones Palavra, 2002.

FERNÁNDEZ, Aurelio. Moral Fundamental: Iniciação Teológica. Tradução de Marta Mendonça. Lisboa: Diel, 2004.

GAMBRA, Rafael. Noções de Filosofia. Tradução de Levi António Malho. Porto: Livraria Tavares Martins, 1973.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Edição revisada de acordo com o texto oficial em latim. 11. ed. São Paulo: Loyola, 1999.

JOSÉ SALIM, Emílio. Sciencia e Religião. Rio de Janeiro: Escolas Profissionais Salesianas, 1937.

KONZEN, Pe. João. Ética Teológica Fundamental. São Paulo: Paulinas, 2007.

VIDAL, Marciano. Moral de Atitudes: Moral Fundamental. Tradução de Pe. Ivo Montanhese. 5. ed. Aparecida, SP: Editora Santuário, 1978

TAVARES BETTENCOURT, Pe. Estevão. Curso de Teologia Moral. Rio de Janeiro: Escola Mater Eclesiae, 2003.

VIDAL, Marciano. Nova moral fundamental: O lar teológico da Ética. Aparecida, SP: Editora Santuário; São Paulo: Paulinas, 2003.

O terceiro concílio ecumênico em Éfeso e o título: Mãe de Deus

3021_M_fb93b9855[2]Marcos Eduardo Melo dos Santos – 2º Ano de Teologia

 

Como as pedras que formam uma bela Catedral, assim são as verdades da Doutrina Católica. De fato, os mistérios da Fé Cristã se coadunam harmonicamente, como um sistema completo, um edifício sublime. Essa harmonia é tão íntima, que quando se subestima algum ensinamento de Fé, todo o castelo doutrinal da Igreja é impugnado de forma implícita. Dir-se-ia que é impossível subtrair uma pedra deste esplêndido edifício. Entretanto, sempre que o vento do erro tentou minar os fundamentos da Fé, a Igreja soube manter-se firme, ereta e sobranceira. Foi precisamente o que aconteceu  num dos maiores lances da História da Igreja: o Concílio de Éfeso, convocado em face do erro do nestorianismo.

O homem que deu nome a esta heresia chama-se Nestório. Em sua mocidade fora monge nos arredores de Antioquia, sua terra natal. Eleito patriarca desta cidade aplicara a reforma do clero; era tão eloquente e erudito que foi cognominado pelos seus contemporâneos de “o segundo Crisóstomo”. Sua fama valeu-lhe ser chamado pelo Imperador ao Patriarcado de Constantinopla, a capital do Império. Apesar de muito inteligente, o prelado possuía um caráter rude, orgulhoso e autoritário.

Certo dia, Nestório foi interrogado pelos fiéis que ouviram Anastácio, um de seus presbíteros de confiança, dizer que Maria Santíssima não era Mãe de Deus, mas somente Mãe do homem Jesus Cristo. Escandalizado, o povo cristão exigia uma explicação do Patriarca de Constantinopla. Todavia, também o infeliz bispo negou a Maternidade Divina de Maria, atribuindo-lhe somente o título de Mãe de Cristo, pois segundo Nestório, “uma criatura não pode dar à luz o Criador, mas deu à luz um homem, instrumento da Divindade”.(ROPS, 1992).

Tais palavras feriram a devoção pervadida de ternura dos cristãos daquele ano de 428. Desde os primeiríssimos tempos do Cristianismo o título de Mãe de Deus, em grego, Theotókos, fora usado por diversos Padres da Igreja e escritores eclesiásticos, como Santo Hipólito de Roma, Santo Atanásio, Santo Alexandre, São Cirilo de Jerusalém, Eusébio de Cesaréia, Dídimo e Orígenes. Diversos documentos daquela áurea época comprovam o uso corrente da expressão Theotokos como, por exemplo, um pergaminho do segundo século contendo uma oração à Mãe de Deus  atualmente  exposto no Museu Britânico.

Aparentemente, a tese nestoriana parecia ferir somente a devoção  à Mãe de Jesus, porém, os vocábulos theotókos e christotókos, Mãe de Cristo, por mais semelhantes que pareçam entre si, encobriam duas posições cristológicas completamente diversas.

É importante salientar que a doutrina católica sobre a união das naturezas de Cristo ainda não estava inteiramente explícita. Contra a doutrina ariana, a Igreja somente havia declarado que Jesus Cristo era verdadeiro Deus, consubstancial ao Pai, eterno como Ele e sem princípio no tempo. Contra os apolinaristas, havia definido que a natureza humana de Cristo era completa, como a dos demais homens. (AQUINO, 2008, 3 q. 2, a. 9) (LLORCA, 2005).

Nestório acreditava que em Cristo havia duas pessoas: uma divina e outra humana, unidas por uma habitação da divindade na natureza humana, como em um templo, ou de uma túnica que estivesse unida ao corpo. Desta maneira, como o Verbo Eterno passou a habitar na carne humana formada no claustro materno, Maria só poderia ser chamada “Mãe dessa carne humana ou da pessoa humana na qual o Verbo habitava”(BETTENCOURT, 2003). Portanto, não lhe competiria o título de Mãe de Deus, mas sim, Mãe de Cristo homem, distinguindo assim em sua doutrina a pessoa humana da divina. Daí, o termo grego imposto por Nestório, anthropotókos, Mãe do homem.  

Em conseqüência deste erro, na Cruz foi apenas o homem Jesus que morreu; já não se poderia dizer que Deus sofreu e morreu por amor dos homens. O sacrifício cruento do Salvador em resgate do mundo perde todo seu sentido, pois uma pessoa humana jamais possuirá méritos infinitos a fim de redimir o gênero humano do pecado original. O mistério da Redenção, da Santíssima Trindade e da Encarnação são simultaneamente impugnados. (BETTENCOURT, 2003).

Na verdade, esses matizes teológicos não eram perceptíveis ao povo fiel. Mais que a questão cristológica, o ataque de Nestório ao título de Mãe de Deus atingiu a amorosa devoção  a Nossa Senhora daqueles autênticos cristãos. O tema transformou-se em fonte de discussões e protestos mesmo durante atos de culto.

O Patriarca de Constantinopla, Nestório, viu-se na contingência de escrever ao Papa São Celestino I (422-432), enviando-lhe uma coleção de suas homilias. O Sumo Pontífice sabiamente apresentou estes escritos a São João Cassiano, abade do mosteiro de São Vítor de Marselha e ilustre teólogo, pedindo-lhe sua opinião. Enquanto isso, no Egito, São Cirilo (+444), Patriarca de Alexandria, versava tranquilamente em suas homilias sobre temas bíblicos. Informado da nova doutrina de Constantinopla logo interveio procurando esclarecer Nestório do crasso erro que cometia. Os dois patriarcas mantiveram um amável intercâmbio de cartas sobre as maravilhas da Santíssima Virgem. Entretanto, o afeto e a bondade em nada resultaram.

No ano seguinte (430), o Patriarca alexandrino escreve o primeiro tratado antinestoriano denunciando a heresia e por fim apelando ao Papa São Celestino. O Santo Padre convocou um Sínodo em Roma no mesmo ano, a fim de julgar as proposições de Nestório e de São Cirilo. Com o placet de São Cassiano, a tese de Nestório foi condenada pelo Papa que o convidou a uma retratação. Através de uma carta onde confirmava a doutrina de São Cirilo, concedeu o Sumo Pontífice plenos poderes ao Patriarca de Alexandria para resolver a questão.

São Cirilo exerceu suas funções de maneira enérgica e impetuosa – o que lhe valeu o louvor do Papado e da Igreja Universal. Em nome da Tradição apostólica, da Fé popular e agora da Cátedra de Pedro São Cirilo defendia a ortodoxia movido pelo amor que possuía a Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Mãe Santíssima. Dotado de uma inteligência aguda, caráter enérgico e extraordinária diligência, São Cirilo convocou imediatamente um Sínodo em Alexandria onde compôs os doze anatematismos. Todas as vezes que uma heresia ameaçou a frondosa árvore da Igreja, da mesma raiz brotava um ramo capaz de defender a verdade. São Cirilo era assim o novo paladino da verdade frente ao nestorianismo.

Nestório não aceitou as doze proposições de São Cirilo, ainda que pré-determinadas pela autoridade pontifícia, sugerindo a convocação de um Concílio. A proposta foi acatada imediatamente pelo Papa que indicara como doutrina a ser aprovada a própria carta de São Cirilo. Assim, a reunião dos bispos foi marcada por ocasião do Pentecostes de 431 na Igreja de Maria na simbólica Éfeso.

De fato, a próspera capital da Ásia menor, situada ao sudoeste da atual Turquia era um evocativo lugar. Já na época de São Paulo Apóstolo, Éfeso destacou-se entre outras cidades por uma excelente receptividade aos apóstolos e uma fervorosa adesão ao Evangelho. Naquela suntuosa cidade, São Paulo exercera o apostolado durante quase três anos com os santos Áquila e Priscila. Lá deixou primeiro São Timóteo e depois o escravo Santo Onésimo como sucessores no bispado efésio. Ali São Paulo escreveu sua primeira epístola aos Coríntios e São João escreveu seu Evangelho e sua primeira carta. Por lá Santo Inácio de Antioquia foi aclamado a caminho das feras que o levariam à glória do Martírio. Em Éfeso, São Justino lecionou a Doutrina Cristã e escreveu as glórias do Redentor em harmonia com o Antigo Testamento no Diálogo com Trifão. Fato ainda mais sublime, ainda hoje, venera-se ali a Casa de Nossa Senhora, onde viveu com São João cerca de quinze anos até sua Assunção aos Céus. Assim, a cidade escolhida não poderia ser mais esplêndida, admirável e simbólica.

A gloriosa História de Éfeso não havia terminado. Além deste passado glorioso, seu nome ainda marcaria a História da Igreja com um acontecimento pervadido de piedade, esplendor e grandeza. Lá se daria o terceiro Concílio Ecumênico: O Concílio de Éfeso. Chegada a festa de Pentecostes, os 66 bispos favoráveis a Nestório tardavam em chegar ao Concílio, talvez por pressentirem a derrota. Passados quinze dias de espera, por aclamação do povo impaciente e ainda com plenos poderes do Papa sobre a questão, São Cirilo de Alexandria, entrou em combinação com o legado Papal, o Bispo Arcádio. Assim, iniciava-se em um faustoso cerimonial com 200 bispos de todo orbe católico a primeira sessão do Terceiro Concílio Ecumênico na Igreja de Santa Maria.

Os cronistas da Época descrevem com entusiasmo o esplendoroso cortejo que emoldurou as decisões do concílio. O povo acorreu com tochas para iluminar a magnífica procissão. O discurso da primeira sessão revela a devoção entranhada e fervorosa do Santo Bispo Cirilo Àquela que os Padres da Igreja proclamaram Mãe de Deus.

Logo na primeira sessão, o concílio condenou a doutrina de Nestório, depondo-o da Sé de Constantinopla, além de excomungar e exilá-lo,  porque, infelizmente, permanecia obstinado. Proclamado o titulo de Mãe de Deus a assembléia irrompeu em um aplauso de seis horas [?]. Os Padres conciliares de Éfeso lançaram os fundamentos da Doutrina Católica definindo que a natureza humana concebida por Maria Virgem não subsistia por obra de uma pessoa humana, mas sim, por obra da segunda Pessoa da Santíssima Trindade. A união da segunda Pessoa Divina com a natureza humana se deu no seio virginal de Maria, desde o primeiro instante da encarnação do Verbo. Ora, como toda mãe é mãe de uma pessoa e a pessoa que Maria gerou é a segunda pessoa da Trindade unida à natureza humana, Maria pode e deve ser chamada Theotókos, Mãe de Deus. Não porque tenha gerado a Deus na eternidade, mas porque no tempo gerou o Homem-Deus. As naturezas divina e humana ficaram incólumes, unidas hipostaticamente em uma só pessoa divina. Jesus era inteiramente Deus e Homem.

Desta maneira, um só sujeito, a Pessoa divina do Verbo, era o agente de tudo o que Jesus fazia; Ele ressuscitava os mortos, curava os enfermos, governava a natureza mediante a sua natureza divina e sofria fome, sede, fadiga, os efeitos das intempéries, assim como a ignominiosa morte, mediante a sua natureza humana. Ao mesmo sujeito se podia e devia atribuir tudo o que de humano e divino fazia Jesus, pois a pessoa que tudo sustentava, era uma só: a do Verbo de Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Para celebrar a vitória da ortodoxia em honra da Santíssima Virgem proclamada Mãe de Deus no Concílio de Éfeso, o Papa Sisto III dedicou em 431, a Basílica Liberiana de Santa Maria Maior construída sobre o monte Esquilino pelo Papa Libério, após eminentes milagres. A Doutrina do Concílio foi ratificada pelos sucessores de Pedro e por diversos concílios ecumênicos posteriores. Em 433, João de Antioquia e os bispos da Síria assinaram uma profissão de fé onde reconheciam a maternidade divina de Maria.

Depois do Concílio de Éfeso, invocar Nossa Senhora como Mãe de Deus era mais que um louvor. Neste título da Santíssima Virgem está concernido o autêntico significado da Encarnação do Verbo. São Cirilo afirma que para confessar plenamente a Fé católica é preciso reconhecer Maria como Mãe de Deus. A pedra chamada theotokos rejeitada por Nestório tornava-se em Éfeso a pedra angular da Doutrina Católica. Rezar a Santa Maria, Mãe de Deus, implica em reconhecer em três palavras toda a Fé Cristã.

Do título de Mãe de Deus procedem todas as glórias da Santíssima Virgem; é o fundamento da Mariologia. A maternidade de Maria concedida ao discípulo amado aos pés da Cruz e vivida ocultamente [Sugiro: discretamente] na Casa Maria em Éfeso é o esteio da Doutrina Católica, a glória da Igreja e o conforto do cristão que nas agruras da vida, certo do socorro infalível clama àquela que é Mãe de Deus e Nossa. 

 

BIBLIOGRAFIA

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2008.

ARAUTOS DO EVANGELHO. A “Casa de Maria”, em Éfeso, poupada pelas chamas. maio 2009. São Paulo: Assoc. Arautos do Evangelho do Brasil, p. 45.

BETTENCOURT, Estevão. Curso de Patrologia. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2003.

DENZINGER, H. Compêndio dos Símbolos definições e declarações de Fé e Moral. São Paulo: Loyola; Paulinas, 2007.

LLORCA, Bernardino. História de la Iglesia Católica. t. 1. Madrid: BAC, 2005.

ROPS, Daniel. Igreja dos Tempos Bárbaros. São Paulo: Quadrante. 1991.

Você está muito tempo online? Saiba as consequências…

Profeta1Flávio Roberto Lorenzato Fugyama – 3º ano teologia

Quando entramos em mercados e farmácias é comum encontrarmos junto ao caixa carteiras de cigarros à venda. Além das mais variadas cores e marcas, encontramos, em geral, uma imagem chocante com uma mensagem: “o Ministério da Saúde adverte: fumar causa câncer, embolia, etc…” Quando se compram certos produtos ou medicamentos, também a indústria admoesta que não os deixemos “ao alcance de crianças”.

Entretanto, será necessário que o Ministério da Saúde crie um cartaz semelhante para as lojas de aparelhos eletrônicos, especialmente as que vendem computadores?

Alguns fatos que pelo menos os pais e os usuários da rede mundial, entre eles o autor e o leitor deste artigo, deverão ter em mente ao navegar na internet e usar o computador:

Segundo um estudo publicado no Archives of Pediatric and Adolescent Medicine, 1.041 adolescentes chineses preencheram um questionário para identificar se acessavam a Internet e se sofriam de ansiedade ou depressão.  A grande maioria dos adolescentes utilizava a Internet corretamente (940), mas 62 (6,2%) foram classificados como internautas moderadamente viciados, ou seja, patológicos, e 2 (0,2%) como “severamente patológicos”.

Nove meses depois, a condição psicológica dos adolescentes voltou a ser avaliada e os pesquisadores descobriram que os estudantes que usavam a Internet descontrolada ou irracionalmente tinham uma propensão duas vezes e meia maior de desenvolver uma depressão do que aqueles que acessavam a rede de maneira moderada.

Após semelhante pesquisa de campo, o bielorrusso Evgeny Morozov e o colombiano Pablo Alfonso Sanabria Ferrand atestam que o uso da internet e de computadores é prejudicial para as relações sociais de seus usuários, por destruir a privacidade, facilitar a depressão, torná-los indiferentes a seus próprios atos, inseguros e com dificuldades de focar as informações. A internet pode produzir em usuários desavisados, adição, depressão e ansiedade, que se refletem em problemas na família, na escola e no trabalho[1].

Ademais, o Psiquiatra Gary Small, ao realizar experiências em dois conjuntos de pessoas que usavam internet, alguns iniciantes e outros experimentados, constatou que ambos os grupos demonstraram a mesma atividade cerebral ao ler livros impressos, mas ao navegar na internet, o grupo mais experiente demonstrou que a atividade cerebral era maior especialmente no Cortex pré-frontral do cérebro associado com a solução de problemas e tomadas de decisões. Contudo, apesar desta super excitação, que causa cansaço e desgaste físico, a parte do cérebro que corresponde ao raciocínio especulativo permanecia quase inativa. Portanto, o cérebro era usado apenas de modo superficial. Gary Small, concluiu que “a corrente explosão de tecnologia digital não somente muda o modo que vivemos e comunicamo-nos, mas rápida e profundamente altera nossos cérebros”[2]. Após 5 anos de estudo dos hábitos dos internautas, a University College of London comprovou uma forma de leitura cada vez mais superficial “a form of skimming activity”, concluindo que os usuários de internet não estão lendo segundo o “tradicional senso de leitura”[3].

Além dos neurologistas, também é expressiva a opinião da filosofia da linguagem sob a pena de Manuel Maceiras: “Vitoriosos sobre o espírito, a inegável eficácia prática dos meios no domínio psíquico e no âmbito familiar e social, induziu a rápida conclusão de endossar à sua influência os processos de despersonalização, irresponsabilidade e perda de identidade. […] A juízo da neurologia atual, acelera o funcionamento de suas camadas e circuitos superficiais e faz mais lento os mais profundos, fomentando um tipo de pensamento descontínuo, débil, discursivamente desconexo”.[4]

Este é um fator que deve ser considerado a nível mundial. De acordo com o estudo da Internet World Stats, em 2009, 1,73 bilhões de pessoas possuíam acesso à Internet, o que representa 25,6% da população mundial. Segundo a pesquisa, a Europa detinha quase 420 milhões de usuários, mais da metade da população on-line. Como é natural, quanto menos tardia é a industrialização em um país, menor é o uso da rede mundial. Cerca de 60% da população na Oceania, América do Norte e Europa tem o acesso à Internet, enquanto que esse percentual é reduzido para 6,8% na África. Na América Latina e Caribe, de seus 569 milhões de habitantes, 30% (quase 175 milhões de pessoas) possuíam em 2009 o acesso à Internet, sendo que 67,5 milhões eram brasileiros[5].

A nível individual, talvez estes dados contribuam para o leitor refletir um pouco no modo de usar a rede mundial, e regulamentar com disciplina as navegações pela internet.

 

Duc in altum, navegar sim, mar alto, enquanto pescadores de homens. Será que se passássemos tanto tempo em oração e apostolado, quanto passamos em frente ao computador, não seriamos santos e as igrejas não estariam mais cheias? Talvez… Entretanto, uma coisa é certa. Tanto para a oração, quanto para a Evangelização, não existem contra-indicações. Quanto mais, melhor!!!

 


[1] Cf. FERRAND, Pablo Alfonso Sanabria. Características Psicológicas de consumidores de Cibersexo: Uma aproximación. Acta colombiana de Psicologia. n. 12, Nov. 2004. p. 19-38.

[2] “The current explosion of digital technology not only is changing the way we live and communicate, but is rapidly and profoundly altering our brains.”

^ http://www.wired.com/magazine/2010/05/ff_nicholas_carr/all/1

[3] “It is clear that users are not reading online in the traditional sense; indeed there are signs that new forms of “reading” are emerging as users “power browse” horizontally through titles, contents pages and abstracts going for quick wins. It almost seems that they go online to avoid reading in the traditional sense.” (UNIVERSITY COLLEGE LONDON. Information behaviour of the researcher of the future. 11 Jan. 2008. London. Report. p. 7).

[4] (MACEIRAS, Manuel. Metamorfosis del Lenguaje. Madrid: Editorial Síntesis. p. 429)

[5] Cf. WOLRD INTERNET USERS AND POPULATION STATS. Disponível em:   www.internetworldstas.com/stats10.htm Acesso em: 30 Set. 2009. Segundo a pesquisa da Cia publicada em 2009 no World Factbook, quanto mais o pais industrializado, mais seus habitantes consomem internet. Fato que coincide sob os dados dos usuário de internet nos quinze países do mundo com maior população católica. Nos países mais desenvolvidos ou industrializados, EUA (70%, 231 milhões usuários), França (65%, 42 milhões), Espanha (60%, 25 milhões), Polonia (50%, 18 milhões) Itália (45%, 24 milhões); Países em desenvolvimento as porcentagens são menos reduzidas mas em continuo aumento como  Brazil (30%, 67 milhões), México (20%, 23 milhões), Colombia (40%, 17 milhões), Argentina (20%, 11 milhões), Venezuela (35%, 7 milhões) e Peru (25% 7 milhões). Filipinas e África possuem naturalmente menores índices: Filipinas (7%, 5 milhões), Nigéria (4%, 11 milhões) e Congo (290 mil usuários). Os resultados são semelhantes ao anarlisarmos as outras evoluções tecnológicas como celulares, computadores, carros e demais invenções da revolução industrial.

Prof. Guzmán Carriquiry Lecour no Seminário São Tomás de Aquino

Felipe Paschoal Rocha – 3º ano teologiaCariquire_2

O subsecretário do Pontifício Conselho para os Leigos, Prof. Guzmán Carriquiry Lecour, acompanhado de sua distinta esposa, visitou as dependências do Seminário São Tomás de Aquino e participou da Missa celebrada pelo sacerdote francês Pe. Louis Marie Goyard, EP, esta segunda-feira, 2 de agosto.

O Reverendo Diác. Carlos Javier Werner Benjumea, EP, saudou o ilustre visitante agradecendo o contributo na aprovação Pontifícia dos Arautos do Evangelho, em 2001. De fato, após o reconhecimento jurídico da Santa Sé, os Arautos obtiveram um desenvolvimento “milagroso”. “Tudo que vedes aqui”, explicou o diácono, “é fruto da benção e do poder das chaves de São Pedro”,

Na homilia, o Revmo. Pe. Louis Goyard comentou o trecho do Evangelho que narra a multiplicação dos pães. Aplicou ao desejo incondicional de seguir o Divino Mestre manifestado pelo povo, o qual nem mesmo se preocupou em levar comida e bebida para longa jornada no deserto. Quando as necessidades apareceram, Jesus multiplicou os pães e os peixes, para demonstrar que o afeto auxilia os fiéis, sobretudo nos momentos de maior aflição. “Tal como em vida, Nosso Senhor ajudou a Igreja em todas as fases de sua História”, naqueles dramas em que parecia que a Igreja tinha o “último pedaço de pão e o último peixe”. E concluiu o sermão discorrendo sobre a alegria que deve possuir o cristão afligido pelas agruras da vida: “que saibamos cantar no auge das dificuldades o mais alto dos magnificats”.

Prof. Carriquiry, eminente personalidade uruguaia, tem diversas responsabilidades na Santa Sé. Participou como “auditor” em quatro Assembléias do Sínodo mundial dos Bispos e nas delegações oficiais da Santa Sé em conferências das Nações Unidas.

Recebeu títulos honoríficos como “Comendatore” da República Italiana (1992), “Cavaliere di Gran Croce dell´Ordine di San Gregorio Magno (Vaticano, 1994). Além de exercer várias atividades acadêmicas é autor de numerosos livros e publicações.