ITTA – IFAT

Instituto Teológico São Tomás de Aquino

ITTA – IFAT - Instituto Teológico São Tomás de Aquino

Não sabeis que sois espetáculo para os anjos e para os homens? (Cf. 1 Cor 4, 9)

Lucas Antonio Pinatti – 2º Ano de Teologia

Alardo1O som do sino ecoa pelos vales da serra anunciando o começo do desfile. No Seminário São Tomás de Aquino, da sociedade clerical Virgo Flos Carmeli, os jovens do ITTA e do IFAT, junto com os alunos do ensino médio que frequentam as aulas Colégio Arautos do Evangelho – Thabor, entoam o Credo renovando sua plena adesão à Igreja e pedindo a Deus sabedoria neste novo dia de estudos que se inicia.

Após a bênção do Superior Geral, quando presente, os trompetes tocam anunciando o início do cortejo para as aulas. O estandarte de Maria Santíssima vai à frente abrindo o caminho para seus filhos que desfilam ao som e cadência da banda. Com o olhar no horizonte e passo enérgico, avançam todos unidos pelo mesmo ideal, refletindo com vontade firme os desafios do aprendizado e da vida.

Todavia, uma pergunta poderia surgir no espírito dito ‘moderno’:

“Mas, para quê tanto cerimonial? Afinal, o homem não deve viver em meio à pompa… A organização é benéfica por ter uma finalidade prática. Os únicos meios que devem ser utilizados na educação é a própria inteligência. O amor e o esforço ajudarão se for preciso, mas o livro técnico resolve todos os problemas da aprendizagem. Afinal, não se deve perder tempo com cerimoniais”.

Infelizmente, no mundo de hoje, diversas pessoas raciocinam desta maneira, pensando que viver é considerar apenas o aspecto natural da vida, esquecendo-se que o homem, além de corpo, possui algo superior à sua natureza animal que é a alma. Além de que, sem propriamente negar a existência da vida sobrenatural, muitos vivem como se ela não existisse, tendo o dia de amanhã, ou mesmo o momento presente, como único cerne de suas apreensões. Preocupadas apenas com os afazeres, voltam-se para esta terra. Seguem os “prazeres” lícitos do mundo, mas muitas vezes deixam-se conduzir pelos gozos ilícitos os quais, como se sabe e muitas vezes se esquece, só resultam em frustrações, desastres, discussões, e tantas outras coisas que enchem as páginas de nossos jornais, todos os dias…

Isso será viver? A vida resumir-se-á ao prazer e ao terreno? A resposta, obviamente, tende pela negativa. Quando apreciamos apenas as criaturas, esquecendo-nos que são vestígios do Criador, anda-se por um rumo que, à primeira vista, parecer ser inundado de delícias e alegrias, entretanto, saturado de tristezas e dissabores. Caminho fácil à primeira vista, mas muitas vezes oposto àquele recomendado por Nosso Senhor Jesus Cristo. Estando sob a guarda do redentor, nós poderemos dizer como o salmista: “mesmo que eu caminhe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei” (Sl 22,4).

O caos do mundo moderno só ocorre na vida dos homens porque se esquecem que, nesta vida, aquilo que o homem não vê, vale mais do que aquilo que ele vê. Muito mais valioso que o corpo que possuímos, é a nossa alma. Quem mantém seu espírito inocente, puro e virtuoso como recomenda os mandamentos de Deus, terá seu corpo luzidio, sagaz e robusto, pronto para superar as dificuldades da vida, pois o corpo é o reflexo da alma, pois, a alma confere a forma do corpo (S.th. I, a.3, q.2).

As disposições internas do homem se refletem no corpo. A alegria da face é um espelho do coração. Suas açõesAlardo3 refletem as disposições do espírito. Desta forma, existem sentimentos no coração humano que só chegam à sua plenitude quando exteriorizados. Assim é, por exemplo, a amizade que se demonstra num abraço. Também o gesto de presentear um amigo por ocasião de seu aniversário, com o intuito de agradá-lo, reflete esta procura de exteriorização, atitudes típicas aos sentimentos humanos. Da mesma forma devemos manifestar por atos externos nossa amizade para com o Criador, através de atitudes que sejam agradáveis a Deus, “pois o homem não é puro espírito, mas possui um corpo, que faz parte essencial de sua natureza e que deve, portanto, associá-lo ao culto da divindade. Faltaria algo para oferecer a Deus se Ele fosse homenageado somente em espírito”.[1] Assim como um amigo se satisfaz com uma demonstração concreta de afeto, Deus também se agrada com “presentes”, a bem dizer, estas atitudes exteriores para com Ele, pois, aliás, como ensina São Tiago “a Fé sem obras é morta” (Tg 2, 26). Mostramos nossa Fé por nossas ações. E a cerimônia é um excelente meio de demonstrar nosso afeto a Deus.

Comenta o escritor alemão Fabian Fischer, que “as cerimônias não são somente exterioridades, não são apenas símbolos, elas formam o homem, semelhante à etiqueta, do exterior ao interior, constituindo tradições”.[2] A cerimônia forma o interior do homem, eleva seu espírito, aperfeiçoando-o em seus hábitos de fora para dentro, em sua totalidade. Quando a cerimônia é religiosa, além do progresso natural a ele inerente, a pessoa exerce o ato da virtude da religião. O culto é um verdadeiro ato de amor ao Criador, onde se rende homenagem a Deus ao reconhecer Sua grandeza.

Alardo2Churchil dizia que um dos fatores que contribuíram para a formação de seu caráter foi o cântico do Credo e do Hino Nacional em sua escola. Aliás, pesquisas norte-americanas chegaram à conclusão que jovens e adolescentes, participando comunitariamente de cerimônias estudantis, adquirem um espírito mais elevado, e preparação intelectual mais adequada para o desempenho de sua missão estudantil, melhorando consideravelmente suas vidas e incidindo menos em sérios problemas que pululam estas gerações um pouco por todo o orbe.

Tal é a excelência das cerimônias que, quanto mais a vida cotidiana é penetrada por ela, mais se parece com o Céu. Na terra o culto exterior não é apenas um reflexo, mas sim, uma continuidade cerimoniosa do céu. Transformar a terra no Céu é a intenção destes seminaristas, que unidos em espírito e devoção a Maria Santíssima, aos Anjos e Santos fazem deste desfile na terra, um preâmbulo das cerimônias que aguardam os justos na eternidade Viver em cerimônia é viver um pouquinho do Céu.


[1] Parce que l’homme n’est pas un pur esprit, mais, comme il à un corps qui fait partie essentielle de sa nature, aussi doit-il le faire collaborer au culte de la divinité. Ce ne serait pas tout rendre a Dieu, que de ne lui rien rendre qu’en esprit. (A.VV. Eucharistia – Encyclopédie populaire sur l’Eucharistie. Paris: Librairie Bloud et Gay, 1947, p. 153-158).

[2] Zeremonien sind nichts Äusserliches, sind nicht nur blosse Form, sie wirken, genauso wie die Etikette, von aussen nach innen, sie schaffen Traditionem”.. (S. FISCHER-FABIAN. Die Deutschen Cäsaren. Triumph um Tragödie der Kaiser des Mittelalters. Wien: Droemer, 1977. p. 30-31)

Sabedoria e discernimento no Santo Cura de Ars

Michel Six – 3º Ano TeologiaCura d'Ars

Dentre seus diversos dons, São João Maria Vianney era também diretor espiritual. Dotado de um profundo discernimento dos espíritos sabia ele como “dar a volta” nas consciências mais endurecidas. Deste aspecto de direção espiritual, diz-nos o Catecismo da Igreja Católica (n. 2690): “O Espírito Santo dá a certos fiéis dons de sabedoria, de fé e de discernimento em vista do bem comum que é a oração (direção espiritual). Aqueles e aquelas que têm esses dons são verdadeiros servidores da tradição viva da oração”. Bem nos ilustra este caso de um pobre penitente impregnado pelo espírito de sua época:

Certo dia, o Cura de Ars vê entrar em sua sacristia um personagem elegante que, aproximando-se dele, se apressa em dizer:

“Senhor padre, não venho de modo algum me confessar. Vim para argumentar convosco.

- Ah! meu caro amigo, vós vos expressais bem mal, responde o Senhor Vianney, eu não sei argumentar… Mas se vós precisais de alguma consolação, coloque-se ali…”

E o Cura de Ars designa o lugar onde habitualmente se ajoelham seus penitentes, acrescentando: “Credes que muitos outros se ajoelharam antes de vós e não se arrependeram…

-Mas, senhor padre, já tive a honra de vos dizer que não vim para me confessar, e isto por uma razão que me parece simples e decisiva. E é que eu não tenho fé. Assim como não acredito na confissão, não acredito em tudo o resto.

- Meu amigo, vós não tendes fé? Ah! como eu vos lastimo! Uma criancinha de oito anos sabe, com seu catecismo, mais do que vós. Eu me julgava bem ignorante, mas vós sois ainda mais do que eu, pois que vós ignorais as primeiras coisas que é preciso saber…”

O padre Vianney continua a falar – e volta à sua ordem inflexível e doce:

“Coloque-se ali, e eu vou ouvir a vossa confissão.

- Senhor padre, responde o outro que começa a perder sua convicção, é uma comédia que vós me aconselhais a representar convosco! Peço-vos que considere que eu não vejo nenhuma graça. Não sou comediante…

- Coloque-se ali, estou dizendo!”

E o interlocutor se encontra de joelhos “sem desconfiar e quase apesar de si – mesmo”. Ele se levantará alguns instantes mais tarde, não somente consolado, mas “perfeitamente crente” – tendo tomado, para ir à fé, um caminho curto e fulminante.[1]

Como o definiu o próprio santo de Ars: “Os que são conduzidos pelo Espírito Santo têm idéias certas. Eis porque há tantos ignorantes que sabem mais do que os sábios”.

Enfim, eis alguns traços de uma inteligência brilhante, pois posta em Deus, de um que se deixou levar pelo Espírito Santo, sem opor resistência. Mesmo se sua natureza não lhe ajudou, soube este santo, sendo fiel às graças, abeberar-se no manancial da Sabedoria Eterna. Muito nos ensina, sobre a sabedoria, o grande Cornélio a Lápide, retomando São Paulo:

Escutai são Paulo escrevendo aos Coríntios: “Para mim, meus irmãos, quando vim vos anunciar o testemunho do Cristo, não vim na sublimidade dos discursos da sabedoria; pois não quis saber de outra coisa entre vós do que de Jesus Cristo, e de Jesus Cristo crucificado” […]. Aquele que o mundo cristão chama de grande Apóstolo merece certamente ser ouvido quando nos ensina em que consiste a verdadeira sabedoria; ora, ele a emprega toda inteira em conhecer a Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado… A ciência de Jesus Cristo e de sua cruz, eis a verdadeira sabedoria, e toda a sabedoria […].

Aprender a sabedoria, é aprender a conhecer, a amar, a servir a Deus, a tender ao fim para o qual o homem foi criado e resgatado…

A verdadeira sabedoria consiste em conhecer a Jesus Cristo, e o que ele faz por nós… Ela consiste em conhecer a lei de Deus, a religião, a praticá-la; a praticar a virtude, a fugir do vício. Aí está toda a sabedoria…; fora disto está a loucura… (tradução minha) [2].

Enfim, podemos concluir, com o catecismo que, belamente, nos ensina:

A Sabedoria é um eflúvio do poder de Deus, emanação puríssima da glória do Todo-Poderoso; por isso nada de impuro pode nela insinuar-se. É reflexo da luz eterna, espelho nítido da atividade de Deus e imagem de sua bondade (Sb 7,25-26). A sabedoria é mais bela que o sol, supera todas as constelações. Comparada à luz do dia, sai ganhando, pois a luz cede lugar à noite, ao passo que, sobre a Sabedoria o mal não prevalece (Sb 7,29-30). Enamorei-me de sua formosura (Sb 8,2). (2500).


[1]Cf. SAINT PIERRE, 1963, p. 254-256.

[2] Écoutez saint Paul écrivant aux Corinthiens : “Pour moi, mes frères, lorsque je suis venu vous annoncer le témoignage du Christ, je ne suis point venu dans la sublimité des discours de la sagesse ; car je n’ai voulu savoir parmi vous autre chose que J.C., et J.C. crucifié” […]. Celui que le monde chrétien appelle le grand Apôtre mérite assurément d’être écouté lorsqu’il nous enseigne en quoi consiste la vraie sagesse ; or, il la place tout entière à connaître J.C., et J.C. crucifié… La science de J.C. et de sa croix, voilà donc la vraie sagesse et toute la sagesse […]. Apprendre la sagesse, c’est apprendre à connaître, à aimer, à servir Dieu, à tendre à la fin pour laquelle l’homme est créé et racheté… La vraie sagesse consiste à connaître J.C., et ce qu’il fait pour nous… Elle consiste à connaître la loi de Dieu, la religion, à la pratiquer ; à pratiquer la vertu, à fuir le vice. Là est toute la sagesse…; hors de là est folie… BARBIER, 1885, p.329 e 331.

BIBLIOGRAFIA

- CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 11ª ed. São Paulo: Loyola, 2001.

- BARBIER. Les Trésors de Cornelius a Lapide. 5ª ed. Paris : Librairie Poussielgue Frères, 1885.

-SAINT PIERRE, Michel de. La vie prodigieuse du Curé d’Ars. Paris : Éditions Bonne Presse, 1963.

Professores da Universidade Pontifícia Bolivariana no Instituto Teológico São Tomás de Aquino.

Víctor Baltazar Castillo López – 2º Ano de TeologiaPadres UPB1

Recebemos recentemente a visita do Revmo. Pe. Edward Andrés Posada Gómez, que ministrou o curso de Espiritualidade como ponte entre a Filosofia e a Teologia, e do Pe. Néstor David Restrepo Bonnett que tratou acerca dos Fundamentos Filosóficos da Doutrina Social da Igreja.

Padres UPB2Ambos os sacerdotes são da Arquidiocese de Medellín e lecionam na Universidade Pontifícia Bolivariana (UPB). As aulas foram eximiamente ministradas na sala “Quis ut Virgo”, no Instituto Teológico São Tomás de Aquino (ITTA), e destinavam-se a alguns do curso em Teologia.

SANTO IRENEU, o Leão de Lyon

Lucas Antonio Pinatti – 2º Ano de Teologia

IrineuA Santa Igreja, já no seu nascedouro, passou por numerosas provações. Dentre elas podemos enumerar as perseguições do Império Romano, que derramou uma quantidade enorme de sangue inocente, fazendo com que numerosos cristãos pagassem com a própria vida o fato de abraçarem a Fé Católica. Mas havia um outro inimigo muito mais sutil e ladino que já não visava tirar a vida do corpo, como o fizeram os ímpios imperadores romanos, mas sim arrancar e destruir nas almas a Fé. A este propósito bem afirmou o Divino Salvador: Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena (Mt 10, 18).

 Este pérfido inimigo chama-se heresia, e se vestiu de diversas roupagens ao longo dos séculos, ora negando diretamente as verdades da Fé, outras vezes procurando reinterpretá-la de acordo com falsos critérios.

            Mas apesar disso, podemos afirmar com São Paulo: É necessário que entre vós haja partidos para que possam manifestar-se os que são realmente virtuosos (ICor, 11,19); pois assim como um músculo que passa muito tempo na ociosidade corre o risco de atrofiar-se, algo análogo se passaria caso a Santa Igreja não tivesse heresias e inimigos  a combater. As heresias contribuem em larga medida para o desenvolvimento da Doutrina Católica, pois uma vez sendo necessário refutar aos falsos ensinamentos, acaba Ela desenvolvendo a doutrina e fortalecendo suas sagradas “muralhas” contra os ataques de seus adversários internos e externos.

            Um dos grandes baluartes dessa “muralha” foi, e continua sendo, Santo Ireneu de Lião. Este trabalho visa dar um breve apanhado de sua vida, e de sua obra mestra o Adversus Haereses .

 

1.      Vida de Santo Ireneu 

Do período subapostólico, (do final do primeiro século à metade do segundo), até o século sexto, a Santa Igreja teve a seu serviço uma plêiade de homens insignes em santidade, sabedoria e ardor apostólico; entre eles está Ireneu.

Paira um mistério sobre sua vida; o pouco que se sabe a seu respeito é que nasceu por volta do ano de 150, que sua cidade natal é provavelmente Esmirna, situada na Ásia menor. Tudo indica que sua família era cristã, pois como ele mesmo descreve em uma de suas cartas, ainda quando criança frequentou as pregações do bispo São Policarpo de Esmirna, que por sua vez fora discípulo do apóstolo São João Evangelista, por isso foi-lhe conferido o título de vir apostólicus. Eis o trecho da carta que Santo Ireneu (1995, p.15) escreveu a Florino, ex condiscípulo de São Policarpo, que apostatara e tornara-se valentiniano, lembrando a ocasião em que ambos se encontraram na casa deste santo:

com efeito, te conheci (a Florino), sendo eu criança ainda, na Ásia menor, na casa de Policarpo. Tu eras então personagem de categoria na corte imperial, e procuravas estar em boas relações com ele. Dos acontecimentos daqueles dias me recordo com maior clareza que os recentes, porque o que aprendemos em crianças cresce com a alma e se faz uma mesma coisa com ela, de maneira que até posso dizer o lugar onde o bem aventurado Policarpo costumava sentar-se, como entrava e como saia, o caráter de sua vida, o aspecto do seu corpo, os discursos que fazia ao povo, como contava suas relações com João e com os outros que haviam visto ao Senhor…

            Os historiadores, com base neste texto, afirmam que Santo Ireneu foi um dos últimos homens apostólicos de sua era.  Ele próprio ao comentar os padres apostólicos dizia que eles ainda tinham a voz dos Apóstolos nos ouvidos e os seus exemplos diante dos olhos (apud GLAVAM, 2002).

            Por razões desconhecidas, deixou a Ásia menor e se dirigiu à Galia, por volta do ano de 177. Estabeleceu-se na cidade de Lyon, onde foi ordenado presbítero.

 A cristandade enfrentava nesse período um grande inimigo: a heresia do montanismo. A cidade de Lion, situada na antiga Gália,  atual França, passava por numerosas dificuldades e perseguições por parte desses herejes. Santo Ireneu foi enviado a Roma para encontrar-se com o Papa Santo Eleutério, com o fito de servir de mediador na questão da heresia e para pedir ao Santo Padre uma condenação categórica do montanismo. A carta, que nessa ocasião entregou ao Papa, trazia muitos elogios à sua pessoa e dava dele uma excelente recomendação. Eusébio de Cesaréia (apud QUASTEN, 2008) cita este trecho em sua história eclesiástica: “esperamos que pedindo a nosso irmão e companheiro que te leve esta carta, tenhas para com ele o apreço devido a seu zelo pelo testamento de Cristo”.

            Regressando de Roma, foi eleito, por aclamação popular, bispo de Lyon, sucedendo na cátedra episcopal a São Potino, que morreu devido aos maus tratos recebidos na prisão por parte dos montanistas, com noventa anos de idade.

 

1.1.   Querela da Páscoa

            Com base nos poucos traços biográficos relegados à posteridade e fundamentados em suas obras percebemos o caráter combativo de Santo Ireneu e o seu gosto pela polêmica. Um exemplo palpável foi a controvérsia com relação à data da Páscoa, na qual o santo entrou e acabou apaziguando a questão. Helcion Ribeiro (1995, p.15) na introdução de uma das obras de Santo Ireneu transmite os dados históricos dessa celeuma:

diziam os bispos da Ásia – sob a liderança de Policrates de Éfeso – conservar a data hebraica da festa da Páscoa, adotada por João; para as Igrejas ocidentais e algumas do Oriente era outra a data celebrada. Em determinado momento o Papa avocou a si a decisão, ameaçando com a excomunhão os que não o seguissem: prenunciava-se assim calorosa cisão na Igreja. [...] Ireneu convidava-o a não romper a unidade cristã por esta questão disciplinar e secundária, afinal eram ambas tradições vindas dos apóstolos em contextos diversos.

            Pacificados os ânimos, Santo Ireneu − segundo o dizer de Eusébio de Cesaréia – fez jus ao significado etimológico de seu nome, cujo radical Irene significa paz.

 

1.2.   Sabedoria e ciência unidas à santidade

Constitui um fato inegável, a erudição de Santo Ireneu. Ao longo de suas obras denota um profundo conhecimento bíblico; nelas encontramos a citação de quase todos os livros bíblicos. Além disso, nutriu contatos com grandes sábios e santos de sua época, como São Clemente Romano, Teófilo de Antioquia, Clemente de Alexandria e o já acima citado, São Policarpo de Esmirna. O conhecimento que possuía dos autores clássicos demonstra rica cultura e uma arte de “filtrar” os dados necessários para o enriquecimento literário de seus escritos. Neles encontramos citações de Homero, Hesíodo, as doutrinas de Platão e Aristóteles, entre outros.

            Um dos traços preponderantes de sua vida, foi o fato dele ter unido essa erudição e sabedoria a um profundo amor a Deus, pois suas obras, além de terem como base um profundo alicerce cultural e filosófico, exalam o suave perfume da santidade e levam aqueles que as lêem a crescer no amor a Deus.

            Muito pouco se sabe a respeito de sua morte. Uma tradição antiga, que remonta a São Jerônimo a ao Pseudo-Justino, afirma que foi martirizado por heréticos, por volta do ano de 202, juntamente com outros cristãos, em um massacre que houve na cidade de Lião, sob o reinado do imperador Sétimo Severo.(IRENEU DE LIÃO, 1995). A Santa Igreja o venera como mártir, celebrando-o a 28 de junho.

            Apenas pelos dados acima enunciados chegaríamos à conclusão de que toda a obra empreendida por Santo Ireneu foi magnífica, entretanto, seu maior mérito foi o de ter identificado, reconhecido e refutado radicalmente o gnosticismo. De seu trabalho estabeleceram-se bases e princípios gerais para combater todas as heresias que ameaçavam a Esposa Mística de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mais uma lição dos bebês

Lucas Alves Gramiscelli – 2º Ano de Teologia

Há pouco tempo atrás, foi publicado, no ITTA Notícias, um artigo intitulado: “ComoBatismo Sta Inês um bebê venceu Freud”. O seu autor comentava uma série de experiências realizada nos Estados Unidos, pelo investigador Paul Bloom, que provava cientificamente que as crianças de apenas seis meses já são capazes de fazer juízos morais. Esses estudos foram contra a doutrina de Freud, pois, esse afirmava que as crianças não sabem distinguir entre o que é certo e errado.

A essa notícia podemos acrescentar outra similar, publicada pela BBC Brasil. Se trata de um estudo feito no Canadá que se empenhou em avaliar a capacidade que crianças têm de mentir. Um dos resultados obtidos comprovava que 20% das crianças de dois anos, analisadas, foram capazes de faltar com a verdade.

Qual é, então, a lição que os “pequenos” dessas duas pesquisas teriam para nos oferecer? É simples, mas de extrema preponderância e atualidade: eles podem esclarecer a importância do pedobatismo. O recado, porém, desta vez não é só para Sigmund Freud.

Que relação tem tudo isso com o Batismo? “Este Sacramento é, por assim dizer, a porta pela qual entramos na comunhão da vida cristã, e, desde esse momento, começamos a obedecer aos Preceitos Divinos”.[1] Portanto, o que há de melhor do que, a partir da mais tenra infância, já crescer no reto caminho da Vontade Divina? Não é verdade que o juízo moral fica ainda mais iluminado e que a distinção entre o bem e o mal passa a ser mais aguçada, robustecendo, assim, a Sindérese?      

A praxe de batizar crianças foi desde sempre um ensinamento da Igreja “por tradição apostólica, conforme no-lo garantem a doutrina e a autoridade comum dos Santos Padres”.[2]

Mas, há um motivo superior pelo qual esse mandato deve ser exercido. Vejamos: Sabemos que “a justificação é concedida pelo Batismo, sacramento da fé”.[3] E por isso declarou o Divino Mestre: “Se alguém não renascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3, 5). E em outro lugar: “Deixai vir a Mim os pequeninos, e não os impeçais, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 19,14). Assim, não parece que Nosso Senhor quisesse negar esse Sacramento às crianças. Ademais, certas narrações da Sagrada Escritura parecem mostrar que esse costume é de tradição Apostólica (ver: At 16, 15; At 16, 33; At 18, 8).  

Entretanto, mesmo assim, há pessoas que dizem que o batismo só deve ser ministrado quando as crianças tiverem atingido o uso da razão e souberem o que recebem, pois, caso contrário, estaria cometendo-se um atentado à liberdade humana. A esses devemos perguntar: “se as crianças contraem as consequências do pecado original no momento da concepção, antes de qualquer ato humano consciente e responsável, porque não hão de ser capazes de receber igualmente, pelo batismo, os efeitos salvíficos da paixão e morte de Cristo, no mesmo estado de inconsciência?” [4]

A esse propósito, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé pronunciou: “na realidade, a criança é uma pessoa muito antes de ser capaz de o manifestar mediante atos de consciência e de liberdade; e, como tal, pode já tornar-se, pelo sacramento do Batismo, filha de Deus e co-herdeira com Cristo. A sua consciência e a sua liberdade poderão em seguida, a partir do despertar de tais faculdades, dispor das energias infundidas na sua alma pela graça batismal”.[5] Mais adiante continua: “quando se pretende dizer que o sacramento do Batismo compromete a liberdade da criança esquece-se sobretudo que todo o homem, mesmo o não batizado, enquanto criatura, tem para com Deus deveres imprescritíveis [...] Além disto, esquece-se que o Novo Testamento nos apresenta a entrada na vida cristã, não como uma servidão ou uma coação, mas como a acesso à verdadeira liberdade”. [6] 

O Concílio de Trento anatematiza aqueles que afirmam que, pelo fato de não serem capazes de expressar um ato de fé, é melhor omitir o batismo de crianças. (Dz. 869).

Para deixar ainda mais saliente a razão pela qual as crianças devem ser batizadas, é só considerar os inúmeros benefícios que esse Sacramento traz consigo. Ao receber a graça Divina, que fica inerente na alma, uma espécie de luz destrói todas as manchas de nossas almas, e ademais, ela vem acompanhada pelo sublime cortejo de todas as virtudes. [7]

 “Pelo Batismo, o cristão tem parte na graça de Cristo, cabeça da Igreja. Como ‘filho adotivo’, pode doravante chamar a Deus de ‘Pai’, em união com o Filho único”.[8] Portanto, ele se torna membro do Corpo Místico de Cristo, e é devido a essa íntima união, que podemos ressaltar o caráter da inerrância de juízo que possui o batizado inocente, pois ele estará radicalmente ligado Àquele que é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6).

Desse modo, “o batismo marca a entrada na Igreja, tornando-nos ao mesmo tempo aptos a participar, para além dos méritos de Cristo, cabeça desse corpo, no dogma da comunhão dos santos. Por que privar as crianças desse privilégio?” [9]

 


[1] CATECISMO ROMANO. Capítulo II: Do Sacramento do Batismo. Compilado por: PIRES MARTINS, Frei Leopoldo. Petrópolis: 1951. p. 224. n.4. 

[2] Idem. p. 237. n. 31.

[3] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. n. 1992.

[4] Revista “Magnificat” – Portugal / Março de 2000 – pgs. 5-8.

[5] Instrução PASTORALIS ACTIO. 20 out. 1980. n. 20. O Sumo Pontífice João Paulo II, aprovou essa Instrução e ordenou que a mesma fosse publicada.

[6] Idem. n. 22.

[7]Cf. CATECISMO ROMANO. Capítulo II: Do Sacramento do Batismo. Compilado por: PIRES MARTINS, Frei Leopoldo. Petrópolis: 1951.  p. 247.n. 49-50.

[8] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Idem. n. 1997.

[9] Revista “Magnificat” – Portugal / Março de 2000 – pgs. 5-8.

Paganismo e Cristianismo: Duas mentalidades opostas

Anderson Fernandes Pereira – 2º Ano de Teologia

Domitila            A Roma Imperial, com os seus 800 anos de existência, vinha se arrastando em meio a práticas supersticiosas, imorais e sanguinolentas. O Império Romano se encontrava como a um doente agonizante a quem não se pode dizer que seus dias estão contados. Daí , então, festejarem com “pão e circo”, sem querer verem de frente a realidade que tinham diante de si: a podridão de todo o império. Num mundo cruel e violento, cheio de egoísmo, eram inacreditáveis as práticas adotadas pela nova Religião que surgia. O querer bem ao próximo, a honestidade em seus trabalhos, a pureza de seus costumes, faziam dos cristãos um alvo da curiosidade de todos quantos os cercavam. Entretanto, “o último requinte das sociedades pervertidas é não ter forças para o remorso; por isso não toleram no próximo atos que a condenem.” [1] Assim, em pouco tempo de existência, a Igreja tornou-se  alvo da maior perseguição jamais vista por toda a história, desencadeada primeiramente por Nero, mas que ainda haveria de durar quase três séculos.

Vejamos um pouco um dos principais motivos desta perseguição, que consistia na profunda diferença de mentalidades entre o paganismo, com seus costumes depravados, e o cristianismo que nascia cheio da seiva brotada pelo lado transpassado de Cristo.

PAGANISMO

Não são poucos os livros de história que elogiam certas qualidades dos povos da antiguidade, e que de fato as possuíam. Assim, temos os egípcios que figuram como uma das mais gloriosas nações da antiguidade, de onde os gregos tiraram boa parte de sua cultura e os romanos por sua vez buscaram na Grécia muito de sua civilização.[2] Entretanto, ao observarmos a história, vemos páginas negras de barbarismos praticados pelos povos da Antiguidade, inclusive o povo romano. O célebre dito de Lucano – “homo homini lúpus” – reflete bem a terrível realidade das leis e costumes vigentes na Antiguidade pagã, antes de a Igreja Católica difundir por toda parte o mandamento de seu Divino Fundador: Amai-vos uns aos outros como Eu vos tenho amado.

BABILÔNICOS, ASSÍRIOS E PERSAS

            Tanto o povo babilônico quanto o assírio, tiveram dias de grande glória, entretanto, a história nos conta que após terminarem suas guerras, eles realizavam aparatosos desfiles, em que os reis e generais carregavam com grande ostentação os objetos saqueados aos inimigos. Não contentando-se com uma simples vitória, furavam os olhos dos prisioneiros, cortavam-lhes as orelhas, arrancavam o nariz, e os faziam entrar na cidade acorrentados, como se fossem animais, sob as imprecações e a zombaria do povo vencedor. Os próprios Persas, povo que ficou conhecido por sua grande benignidade, cometeram graves erros, por exemplo, quando o Imperador Persa de nome Cambises, mandou matar duas mil pessoas no Egito, em vingança a um desacato sofrido por parte de um egípcio.[3]

 SOCIEDADE GRECO-ROMANA

O Direito Romano compendia leis baseadas no direito natural, tão bem redigidas que foi herdado em boa medida pelos códigos civis modernos. Contudo, mesmo esse direito, antes de ser suavizado pelo cristianismo, continha determinações desumanas. Basta lembrar que dava ao pai direito de vida e morte sobre o filho. Figuravam como uma das principais atrações do império os gladiadores que com uma vil despedida, se entregavam à morte com o orgulho de estarem servindo à divindade do Imperador: “Ave, Cesar, morituri te salutant!”.

Se tal era a situação dos gladiadores, pior era a dos escravos. Em geral, estes eram prisioneiros de guerra, ou descendiam de prisioneiros de guerra. Para eles não havia direitos. O escravo era considerado como um objeto de propriedade do seu senhor, que este podia destruir a qualquer momento, por um simples ato de vontade. Houve época em Roma que eram tão numerosos os escravos que estes custavam menos que um rouxinol.[4]

     Como acontece naturalmente hoje em dia, procura-se ocultar o pior dessas coisas, para apresentar o mundo antigo quase exclusivamente por seu aspecto favorável, contudo, por mais que se escrevesse, poucas seriam as palavras para relatar os terríveis costumes pagãos antes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

O CRISTIANISMO EM CONFRONTO COM O PAGANISMO

            Analisando a história de cada povo que precedeu a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo à Terra, vemos com clareza um ponto em comum a todos eles: o egoísmo. E é em uma sociedade penetrada de alto a baixo por este vício, que aparece uma nova Religião que tem como uma de suas principais bases o amor ao próximo; e de tal maneira isto era diferente de tudo quanto se conhecia até então,  que passou para história a exclamação dos gentios diante dos cristãos  relatada por São Lucas: “Vede como eles se amam!”

            Não houve na história tamanho contraste de mentalidades como o que ocorreu entre o paganismo e o cristianismo. O paganismo com sua desenfreada busca de prazeres, a corrupção dos costumes, a vingança e a ambição da glória, era impugnado pela moral dos cristãos que proibia até um olhar desonesto e que possuía por norma o amor aos próprios inimigos. Enquanto ali se entregavam a festas cheias de pompa, aqui se tinha por supremo bem, uma consciência pura e o desprezo do mundo. Eis, em poucas linhas, o paralelo estabelecido entre o mundo antigo e a doutrina da Igreja:

O mundo antigo parecia vacilar entre excessos igualmente reprováveis. De um lado, o despotismo excessivo, de outro a anarquia demolidora. De um lado, a exagerada concentração de riquezas, e de outro a sua consequência indireta, uma plebe paupérrima e revoltada. Finalmente, de um lado, impérios poderosíssimos que viviam na opulência a mais completa, e de outro lado povos que gemiam na miséria, sob o jugo de sua opressão. A todos estes excessos, a pregação da Igreja Católica veio trazer uma solução que representou o equilíbrio. No terreno político, o Cristianismo afirmou a autoridade, mas condenou o despotismo. No terreno econômico, afirmou a propriedade, mas condenou a excessiva concentração de haveres nas mãos de poucos proprietários. No terreno familiar, afirmou a monogamia contra a poligamia e, sujeitando embora a mulher e os filhos ao marido, proclamou a sua dignidade eminente, proibindo o chefe da família que os tratasse como escravos ou criados.[5]

            A boca fala aquilo de que o coração está cheio, e por isso, cada cristão se transformava rapidamente em zeloso missionário. O espírito de caridade  impelia-os a comunicar aos outros a verdade, que reconheciam ser o bem supremo e por isso exclama São João Crisóstomo: “A maior prova do poder de Jesus se mostra em que sua doutrina, em 20 ou 30 anos, penetrou todo o mundo.” [6]

            Vendo assim a rápida expansão do cristianismo, não faltaram aqueles que quisessem destruir aquela religião que tanto contrastava com a vida laxa que levavam, e para fazer desaparecer aqueles que lhes causavam peso na consciência, não tiveram escrúpulos em acusar os cristãos dos piores horrores.

 “Homens que praticavam a virtude em grau além do humano eram acusados de vícios que horrorizam a natureza. Eram acusados de incesto, aqueles que encontravam suas delícias na castidade. Eram acusados de devorar seus próprios filhos, os benfeitores de seus perseguidores.” [7]

            Não tendo outro meio, senão a mentira e a calúnia, homens, mulheres e crianças são entregues à morte por cometerem o único “crime” de serem cristãos.

CONCLUSÃO

            É por algumas simples calúnias infundadas, que começava na história da humanidade, a maior e mais cruel perseguição de todos os tempos, que haveria de perdurar durante 300 anos. Qual o motivo legal desta perseguição? Um motivo religioso? Um motivo político? Não poderia ser nenhum dos dois, pois no campo religioso, o império Romano com sua superstição por vezes infantil, aceitava e dava liberdade completa a todas as formas de crenças. No campo político, nunca se encontrou um só cristão em algum levante contra o imperador. A verdade é que o cristianismo já nasceu odiado e assim o será até o fim do mundo. Essa perseguição e esta luta cessarão somente no momento em que o mundo assistir o glorioso cortejo dos anjos e dos santos precedendo a triunfal vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo que julgará a todos os viventes e dará a cada um a definitiva sentença que fixará os justos na glória do Reino dos céus e os réprobos na sua justa e eterna condenação.


[1] Martins, Oliveira. Dom Nuno Álvares Pereira.

[2] Revista Dr. Plinio nº 38 p. 15 a 19.

[3] Idem.

[4] Apostila do aspirantado.  p. 326

[5] Revista Dr. Plinio. Nº 41, p.17.

[6] Apud WEISS, J.B. História Universal.  p. 781.

[7]  OLIVEIRA, Plinio Corrêa de.  Apostila de Teologia da História. Iª série, aula 6.

Revelando a História

Enquanto as pinturas realçam o que a realidade mostra,
e manifestam seu simbolismo,
as fotografias registram um momento da vida,  
fixando-a tal qual ela é.
 
Thiago de Oliveira Geraldo
Professor de Introdução à Sagrada Escritura (ITTA)
   
In: wikipedia

In: wikipedia

É interessante observar como as crianças, no início de sua educação escolar, procuram representar a realidade que vêem. Nas aulas artísticas, por exemplo, elas desenham e pintam cenas corriqueiras: como de sua família, de fatos que viram, ou até de histórias que ouviram, e que para elas ganham vida.

Isto ocorre porque o espírito humano parece ter a necessidade de registrar certos momentos ou situações da vida, quase com a intenção de “eternizá-los”. A arte vem a ser um excelente meio para isso, sobretudo, a da imagem. Uma obra de pintura se caracteriza pela mensagem que quer transmitir através de seu tema, a técnica que utiliza, o domínio sobre o espaço e a luz, o estilo próprio de cada época, e as qualidades pessoais.

A técnica é o primeiro passo que se espera de um artista, a tal ponto, que a obra interpretada por ele, aparenta ser simples quando terminada, mas exigiu muita maestria na composição. A arte não pode ser vista apenas sob o aspecto técnico; ela também contém um grande valor simbólico. A visão artística transcende a própria técnica e, muitas vezes, inova a forma de ver a realidade. A excelência da obra de arte é, portanto, aquela que oferece um significado que atravessa os séculos: “mas só aqueles [artistas] dotados de uma visão profunda e que usam a arte não como um fim em si mas como um meio para dizer verdades maiores são os que conseguem criar as obras-primas que resistem ao julgamento do crítico mais severo de todos: o tempo”[1].

Antes do século XIX, o artista tinha necessidade de patrocinadores a fim de manter sua subsistência. Estes eram, em grande parte, a Igreja e as cortes européias. Somente com o advento do Romantismo o artista passou a ser mais autônomo. Pelo fato de ser mantido por outros, nem sempre podia dar largas à sua inspiração, trabalhando por encomenda. Quando, porém, podia se unir o pedido de uma obra, com a aspiração do artista, tinha-se como resultado uma obra-prima.

Juntamente com uma maior liberdade artística surgida no século XIX, nasce na França, a invenção que iria representar, da forma mais real possível, a “eternidade” dos fatos: a fotografia. Inventada no verão de 1826, pelo francês Joseph Nicéphore Niépce, mais tarde aprimorada por seu sócio Louis Daguerre, popularizou-se com a descoberta do negativo, pelo inglês William Henry Fox Talbot, apresentada à Royal Society em 1838.Sudario2

A fotografia passou a ser uma forma de arte. Enquanto os pintores procuravam representar a realidade através de suas obras, a fotografia era a própria realidade fixada. Apesar disso, a supremacia da pintura está em transcender a realidade material, elevando-se a considerações mais espirituais.

Por outro lado, a técnica fotográfica trouxe um elemento novo para a fé cristã. Quando o advogado Secondo Pia conseguiu autorização para fotografar o Santo Sudário de Turim em 1898, não esperava o resultado que obteve. No momento de revelar a fotografia em sua câmara escura, percebeu afigurar-se a Sagrada Face do Redentor no negativo, cuja fisionomia era mais nítida do que no próprio linho.

Quem diria que uma invenção do século XIX mostraria ao mundo a adorável Face de nosso Senhor? Quando até então, não se tinha – sequer – uma pintura fidedigna do Salvador confeccionada em Sua época.

Se pararmos para pensar, a fotografia do Sudário apresenta apenas uma fisionomia d’Aquele que é o Homem-Deus, e ainda fixada sobre um linho. Se pudéssemos atravessar a barreira do tempo e levar Secondo Pia com sua máquina fotográfica à época de Jesus, quantas fisionomias não seriam possíveis fotografar?

SudarioPoder revelar ao mundo a fisionomia do Menino-Deus, logo após o seu nascimento[2]; ou contemplar Seus divinos olhos – ainda jovens –, discutindo com os doutores da Lei, no Templo[3]; talvez registrar cenas do convívio da Sagrada Família, durante aqueles anos de silêncio e oração; ou ainda ter em mãos uma fotografia de nosso Senhor pregando as bem-aventuranças[4]; uma das mais emocionantes fotografias, bem poderia ser a de Jesus Crucificado…

Difícil seria escolher somente uma!  No entanto, Deus não quis nos deixar todas estas fisionomias, mas apenas a do Sudário, a qual nos ajuda a ter fé em Sua Ressurreição.

 Foi Deus que primeiro fez o papel de artista: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”[5]. Deus “pintou” Sua fisionomia no ser humano, mas ela é vista mais em sua alma do que no corpo, assim como a figura do Sudário é mais bem observada no negativo fotográfico do que no positivo. Portanto, é possível ver Deus em cada cristão e em cada sacerdote que vive como Jesus viveu. Toda pessoa pode vir a ser outro Cristo, imagem de Deus e exemplo de vida cristã.


[1] CUMMING, Robert. Para entender a arte. Trad. Isa Mara Lando. São Paulo: Editora Ática, 1996. p. 9.

[2] Lc 2,1-20.

[3] Lc 2,41-52.

[4] Mt 5,1-11.

[5] Gn 1,26.

Qual deles é o bípede?

Marcos Eduardo Melo dos Santos – 2º Ano de Teologia

 À prática de esportes ajuda um ambiente agradável, arejado e de preferência com belos panoramas. Todavia, alguns jovens alemães escolheram um ambiente inusual. Não é nem aNa lama terra, nem o ar, nem a água, nem a grama. Resolveram adentrar-se… na lama. Olhos, bocas e corpos em contanto com lodo artificial era o cenário, por certo nada atraente, da Wattoluempiade, ocorrida na cidade alemã de Brunsbüttel, na Província de Schleswig-Holstein, próxima à Dinamarca. 500 participantes estiveram presentes no evento. O objetivo era arrecadar fundos em benefício da Sociedade de Luta contra o Câncer[1].

O objetivo da Wattoluempiade é louvável pelo aspecto caritativo, realmente um gesto solidário e admirável, talvez consolador para as famílias e para os enfermos… entretanto, não haveria outros modos mais eficazes? Estes jovens estariam dispostos a servir os doentes no hospital por pura caridade cristã? Seriam capazes de seguir o exemplo de um São Damião de Veuster, São Luís de Gonzaga e tantos outros religiosos que dedicaram sua vida a serviço dos doentes? É possível que a Olimpíada de Lama tenha sido realmente eficaz para arrecadar fundos. Lembra um pouco a frase de Maquiavel: Os fins justificam os meios… Hegel achava que os purificava, Nietzsche que os justificava, para o utilitarismo e o consequencialismo, que permanecem na mentalidade quotidiana, o que importa é o homem ser feliz, porém, no imediato. O fim último perde sua razão de ser. Parece que a dignidade humana também, e se bem que os supostos bípedes da foto pareçam contentes chafurdando, perguntamo-nos se não haveria outros meios mais eficazes, ou certamente mais limpos…

 

arminho InvernoOutra imagem que partilho é a de um animalzinho encantador. Trata-se de um Arminho. Sua pele, de uma alvura excepcional, é símbolo da virtude da pureza. Pois, de fato, em tempos antigos quando o caçavam, cercavam sua habitação com lama, mas o cândido animal, como se tivesse inteligência, preferia ser capturado pelos caçadores a deixar-se manchar pelo lodo. Por esta razão, era representado pelos artistas medievais e renascentistas como símbolo da virtude angélica da pureza.

O Arminho, com o nome latino de mustela erminea, mede apenas cerca de 33cm de cumprimento e pesa 120 gramas. Alvo, limpo e belo, em síntese, encantador, é um carnívoro que se alimenta de animais menores, desconhecido no Brasil, talvez por não estar ameaçado de extinção, pois é possível criá-lo em cativeiro.

Foi usado por Leonardo da Vinci em uma de suas obras, e a Rainha “Virgem” da Inglaterra, Elisabete I, foi representada com o amável animal. Na arte, o arminho é frequentemente “emoldurado” pelo adágio latino: Malo Mori Quam Foedari, ou seja, “Antes morrer que a desonra”. O que faz lembrar a frase de um discípulo de São João Bosco, padroeiro da juventude, São Domingos Sávio: “Antes morrer que pecar”.[2] Aliás, o Pe. Manuel Bernardes, no início do livro Nova Floresta, ao referir-se a São Roberto Belarmino (“belo arminho”) menciona a antiga técnica de caça de arminhos e aplica-a à pureza, integridade moral e nobreza deste dominicano, Doutor da Igreja.[3]

* * *

Contraste chocante entre estas duas espécies de animal apresentados em cada clichê. Um irracional e limpo, o outro, racional e…

Para quem considera a dignidade do homem, inteligente e capaz de relacionar-se com o Deus, imagem e semelhança, se resvalando na lama e degradado de tal maneira, é impossível não ser tomado de espanto.

Se o arminho é símbolo da pureza, a lama não será um símbolo contrário? O Divino Mestre, na parábola do Filho Pródigo, mostra como ele esbanjou seus bens e terminou disputando as bolotas dos porcos, na lama do chiqueiro, atingindo assim o termo da decadência moral e social.

Rezemos para que a graça de Deus toque os corações e a humanidade volte à casa paterna, a fim de erguer-se do lodaçal e seguir o lema admirável e puro de um arminho: “Antes a morte que a desonra”.


[1] Informações e foto do Site noticiário da UOL, Universo On-line.

[2] BERNARDES, Artur. Nova Floresta. São Paulo: Editora das Américas, 1959.

[3] LAPIN, Peter. São Domingos Sávio. 4 ed. São Paulo: Salesianas. 1999.

Nossa Senhora morreu ou não?

Nossa Senhora Estando a questão em aberto, pois o dogma ainda está nos possíveis de Deus, escolha o leitor o que a piedade mais lhe fala ao coração…
   

Anderson Carlos de Oliveira,

3º Ano Teologia

 

Amor de mãe

Nada na ordem da criação reflete mais o amor de Nossa Senhora por cada um de nós, quanto o amor de uma mãe por um filho.

Para esta, não existe barreiras que a impeça de estar junto a seu filho, para cumulá-lo de carinho, desvelo, e impedir que lhe aconteça algum mal. Nem mesmo a doença os pode separar. Há casos de mães que chegam a ficar trinta e seis horas ao lado seus filhos, sem sequer sair para comer ou dormir, abandonando apenas o leito quando cessa o perigo da doença. Isso sem falar de terapias, que usam sua voz para trazer alguém em estado de coma à lucidez dos sentidos… tal é o poder terapêutico do amor de uma mãe por um filho.

Amor de Nossa Senhora por Nosso Senhor

Ora, se isso acontece com o comum das mães, como não será com Nossa Senhora em relação a seu Divino Filho? O que não terá sentido a Mãe das mães, ao gestar o “bendito fruto de seu ventre” (Lc 1, 18)? As diversas manifestações de Nosso Senhor durante a mesma gestação, a infância de Jesus, os trinta anos de convívio com Ele, o que não terá produzido em seu coração e em sua alma? Ela, que foi predestinada desde toda a eternidade para ser a Mãe de Deus[1]? Esses mistérios insondáveis, nós só os vislumbraremos – totus sed non totaliter – na Visão Beatífica.

Ausência de Nosso Senhor na terra

Certo é que, no momento em que todos abandonaram o Divino Redentor, Nossa Senhora não abandonou, e até no momento trágico e lancinante da Crucifixão e morte, Ela esteve junto a seu Filho.

Após a Ressurreição e a Ascensão, enquanto Nossa Senhora, custodiada por São João Evangelista, iluminava os homens com sua augusta presença, é de se pensar quanto não terá Ela sofrido com a ausência física de Nosso Senhor Jesus Cristo na terra…

Nossa Senhora morreu ou não?

Nessa perspectiva, podemos conjecturar se não seria lógico que, após dolorosa separação entre Mãe e Filho, Ela quisesse se unir a Ele na eternidade, passando desta vida à outra, pelo mesmo caminho por Ele traçado: a morte.

Entretanto, não há nos Evangelhos relatos a este respeito, seja do lugar, das circunstâncias, etc. O que se supõe, vem-nos através da Tradição. Inclusive, a crença antiga atribui dois locais distintos para designar o lugar em que se deu tal morte. Não se pode ter uma certeza sobre esta questão, pois a Igreja ainda não se pronunciou sobre ela, de maneira que a dúvida continua assaltando o espírito dos fiéis: afinal, Nossa Senhora morreu ou não?

Argumentos a favor e contra

Muitos são os que discutem sobre a questão, alguns a favor da morte de Maria, outros contra. Não faltam argumentos, na sua maioria de peso de ambas as partes. Eis uma visão, à la vole d’oiseau, do problema, e de alguns argumentos sustentados pelos teólogos:

Os teólogos que sustentam a tese a favor da morte de Maria têm, em seu arsenal de argumentos, o apoio da maioria dos relatos da Tradição, da festa litúrgica do Trânsito de Maria, dos Santos Padres, e também de teólogos luminares na Igreja, como por exemplo, São Tomás de Aquino, que afirmava ser a carne da Virgem concebida em pecado original e, por isto, contraiu tais deficiências (S. Th. III, q. 14,a. 3 ad 1)[2], entre elas, a morte.

O testemunho de Santo Efrém († 373), o primeiro a falar desta questão, é também relevante: “Virgem, ela o deu à luz, e fica incólume em sua virgindade; (…) Ela é virgem, e assim morre, sem que sejam violados os selos de sua virgindade”.[3]  

Outro argumento usado na contenda é o de Santo Agostinho (†430) comentando a passagem do Evangelho de São João (19, 27)[4]: “Confia ele sua Mãe ao discípulo, pois havia de morrer antes de sua Mãe Aquele que havia de ressuscitar antes que sua Mãe morresse”.[5]

            Acrescentando “mais lenha à fogueira”, os teólogos apelam à razão teológica em relação à morte de Maria: “morreu por exigências de sua maternidade divino-co-redentora; para exemplo e consolo nosso; [e também] Maria superior a Cristo no que diz respeito à morte corporal?” [6]   

Não faltariam testemunhos a favor da morte de Maria, como o da Liturgia – cuja origem remete ao séc. VII –, da Teologia Medieval, etc. Mas, basta este elenco – que de si, já é bastante forte – para se ter uma noção de qual a sua postura.

A outra corrente teológica baseia-se, entre outros, nos argumentos de conveniência, por exemplo, este: como em conseqüência da Maternidade Divina está a exemplaridade de Maria, ou seja, como “Maria é, em todos os domínios, a realização primeira e exemplar dos dons que são espalhados na Igreja, o tipo da Igreja” [7], todos os privilégios que os Anjos e santos tiveram ou terão, e que convêm a Nossa Senhora, Ela os teve, em grau insondavelmente maior que todos eles. Ora, consta que os últimos fiéis no fim dos tempos não experimentarão a morte[8], e passarão desta vida à outra sem morrer, devido às grandes tribulações por eles sofridas, portanto, é arquitetônico que Nossa Senhora também tenha esse privilégio, pois nenhum sofrimento se compara ao d’Ela aos pés da Cruz.[9]

Outro ponto: se a mortalidade é uma carência de um dom concedido anteriormente a Adão, carência esta que é efeito de um castigo pelo pecado cometido, como pode Nossa Senhora estar desprovida deste dom?[10]

Outro argumento teológico utilizado na discussão diz: Maria tinha o direito de não morrer em virtude de sua Imaculada Conceição, que a preservou da culpa e da pena anexa a esta, que é a morte.[11]

Explicando melhor, com a sentença dada por Deus, “morrerás” (Gn 2, 17), o homem foi despojado do dom gratuito da imortalidade, ficando reduzido ao estado de pura natureza.  Neste, o processo normal tende inevitavelmente à morte e nela se desfecha; entretanto, o que seria natural em outra ocasião, agora é penal, por causa do pecado. A questão está em provar o porquê se encontrava Maria na condição de mortalidade quando esta condição é exclusivamente um castigo para os homens devido ao pecado.

Os próximos argumentos do teólogo Pe. Jugie são deduções da Tradição: “Até fins do século VI se desconhecia em Jerusalém a existência de um sepulcro da Virgem, ainda que a partir de fins do século V se mostrou em Getsêmani uma casa de Maria, de onde se diz que Ela foi levada ao Céu”.[12] 

“No princípio, em um círculo mais restrito de fiéis, houve uma verdadeira tradição oral [que se remonta a São João] sobre o modo com que Maria passou desta terra ao céu. Mas é necessário notar que essa tradição, conhecida por muito poucos, se obscureceu muito rápido, ainda mesmo na Palestina, a tal ponto que o palestino São Epifânio não tem dela a menor lembrança”.[13]

A Igreja não definiu a questão

                 Para ver o quanto a questão é complicada, basta dizer que até os escritores mais antigos abordavam o assunto com delicadeza, não ousando se pronunciar sobre o tema, por risco de serem alvo de censura. É o que expressa Santo Epifânio (315-403): “A Sagrada Escritura não diz se Maria morreu, se foi sepultada ou se não foi sepultada… Conservou absoluto silêncio por causa da grandeza do prodígio, a fim de não deixar assombrados os espíritos dos homens. Quanto a mim, não ouso falar disso. Conservo a questão em minha mente e me calo”. [14]  E acrescenta mais adiante: “(…) Com efeito, a Sagrada Escritura se colocou acima dos espíritos dos homens e deixou este ponto, na incerteza por reverência a essa Virgem incomparável, a fim de evitar conjetura baixa e carnal a respeito de Maria. Morreu? Não o sabemos”.[15]

Subiu aos Céus em corpo e alma

Poder-se-ia trazer a lume inúmeros argumentos de as ambas correntes, e mostrar como o assunto é por demais polêmico e difícil de ser resolvido. Todos, entretanto, são unânimes em afirmar que Maria Santíssima foi Assunta aos Céus em corpo e alma, que se deu de fato a glorificação de ambos. Porém, a Santa Madre Igreja, não querendo entrar em pormenores anteriores à inegável Assunção da Santíssima Virgem, ou seja, de como este fato se deu, se através da morte e ressurreição, ou se foi transladado imediatamente desta vida à celeste, por um leve sono, assumindo ainda em vida um corpo glorioso, se expressou da seguinte maneira por Pio XII na Bula Muficentissimus Deus, n°18: “(…) para credenciar a glória dessa mesma augusta Mãe e para o gáudio e a alegria de toda a Igreja (…) pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma revelado por Deus que a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre foi Assunta em corpo e alma à Glória Celestial.” [16]

Assim, prescindindo intencionalmente, quer do fato da “morte”, quer da “não morte”, e apenas se limitando ao fato da Assunção da Santíssima Virgem à glória celeste, a Igreja, acolhendo todos os anseios de séculos de piedade cristã, se mantém numa posição equilibrada, neutra e prudente, dando a verdadeira impostação de espírito para a questão de uma forma sábia encantadora: Dormitio Beatae Mariae Virginis – o sono da Santíssima Virgem. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica.  vol. 8. Loyola: São Paulo, 2002.

BERRIZBEITIA, Francisco. Aula de Mariologia ministrada para a turma Santo Alberto Magno, no Instituto Teológico Tomás de Aquino, em 06/05/2010.

BETTENCOURT, Estevão Tavares de, O. S. B. Curso de Mariologia. Escola “Mater Ecclesiae”. Rio de Janeiro, 1997.

BOVER, José M., S.J; ALDAMA, José Antonio de, S.J; SOLA, Francisco de P., S.J. LA ASUNCION DE MARIA: Estudio teológico histórico sobre la Asunción corporal de la Virgen a los cielos. 2 ed. B.A.C.: Madrid, 1961.

CLÁ DIAS, Mons. João S. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. Artpress: São Paulo, 1997.

JUGIE, P. Martín. La mort et l’Assomption de La Sainte Vierge: Étude historicodoctrinale. Città del Vaticano, 1944.

LAURENTIN, René. A Questão Marial. Traduzido por P. Manuel Alves da Silva, S. J. Edições Paulistas: Lisboa, 1967.

NICOLAS, Auguste. La Virgen Maria y el plan Divino. t. II.

ROYO MARIN, Fr. Antonio, O. P. La Virgen Maria: teología y espiritualidad marianas. B.A.C: Madrid, 1961.

 


[1] (Cf. NICOLAS, p. 65; apud CLÁ DIAS, 1997, p. 323)

[2](Cf. AQUINO, 2002, p. 256) “Caro Virginis concepta fuit in originali peccato; et ideo hos defectus contraxit.”– Cabe ponderar que São Tomás não podia saber da promulgação do dogma da Imaculada Conceição (8/12/1856), do contrário, se retrataria. Ademais, não tinha noção do argumento da “Redenção Preventiva”, elaborada posteriormente por Duns Scoto (†1308). A perplexidade do Aquinate dizia respeito à impossibilidade de concordância entre esse singular privilégio de Maria e o dogma da Redenção universal de Cristo.

[3] (Cf. Hino 15,2. apud BETTENCOURT, 1997, p. 79)

[4] (Cf. Vulg. “deinde dicit discipulo ecce mater tua et ex illa hora accepit eam discipulus in sua”.)

[5] (Cf. In Iohannem tr. 8, 9; apud BETTENCOURT, 1997, p. 80) 

[6] (Cf. CLÁ DIAS, 1997, p. 422)

[7] (LAURENTIN, 1967, p. 85)

[8] (Cf. BOVER; ALDAMA; SOLA, 1961 p. 75) ”No morirán los fieles que fueren hallados vivos en el segundo advenimiento de Cristo”. (Tradução nossa)

[9] (Cf. BERRIZBEITIA, Francisco; Aula de Mariologia ministrada para a turma Santo Alberto Magno, no Instituto Teológico Tomás de Aquino, em 06/05/2010)

[10] (Cf. BOVER; ALDAMA; SOLA, 1961 p. 76)

[11] (Cf. ROYO MARIN, 1968, p. 207; apud CLÁ DIAS, 1997, p. 422)

[12] (JUGIE, 1944, p. 508; apud BOVER; ALDAMA; SOLA, 1961 p. 17) “Hasta fines del siglo VI se desconoce en Jerusalén la existencia de un sepulcro de la Virgen, aunque a partir de fines del siglo V se muestra en Getsemaní una casa de María, desde donde se dice Ella fué llevada al cielo”.(Tradução nossa)

[13] (IBIDEM, p. 587; apud op. cit.) “Al principio, en un círculo más restringido de fieles, hubo una verdadera tradición oral [que se remonta a San Juan] sobre el modo con que María pasó de la tierra al cielo. Pero hay que hacer constar que esta tradición, conocida de muy pocos, se oscureció muy pronto, aun em Palestina, hasta el punto de que el palestinense San Epifanio no tiene de ella el menor recuerdo”. (Tradução nossa)

[14] (Cf. Panario, Haer. 78, nm. 10s. apud BETTENCOURT, 1997, p. 79)

[15] (Cf. IDEM)

[16] (Cf. apud CLÁ DIAS, 1997, p. 425, negrito nosso)