A boa vida e a vida boa

Ítalo Santana – 2º ano de Teologia

TibidaboÉ comum o jovem, especialmente o brasileiro, sonhar em ter uma vida boa. Não precisa ser deliciosa ao pé da letra, com rede, sombra e limonada; basta ser feita de numerosos momentos agradáveis para, por exemplo, ler um bom livro, ver o mar, uma bonita paisagem, ou conversar com os amigos.

Porém, alguns anos bem vividos lhe ensinarão que a existência nesta terra, em contrapartida, é composta de várias situações desagradáveis, de infortúnios e insucessos; e por mais que ela seja repleta de prazeres e emoções, nunca será a vida tranquila com a qual sonhava, se não travar uma declarada guerra contra suas más inclinações; a vida boa é, antes de tudo, a paz de consciência, a certeza de estar cumprindo com sua finalidade, e esta só se adquire através de uma boa vida, isto é, da constante luta contra o pecado.

Sobre esta difícil situação em que se encontra a juventude, à qual se somam os incontáveis problemas do mundo moderno, tratou com solicitude de pastor em sua encíclica “Octogesima Adveniens” o Papa Paulo VI:

Qual será, neste mundo em gestação, o lugar dos jovens? Por toda parte o diálogo se apresenta difícil entre uma juventude portadora de aspirações de renovação e, também, de insegurança quanto ao futuro, e as gerações adultas. Quem não vê que nesse fato se encerra uma fonte de graves conflitos, de rupturas, de ruptura e de abdicações, mesmo no seio da família, e uma questão em aberto, pelo que se refere às raízes da autoridade, da educação, da liberdade e da transmissão de valores e de convicções?[i]

Foi pensando nesta dificuldade com largueza de visão, a perseverança particular de cada jovem e o futuro da Igreja, que o Concílio Vaticano II na Constituição “Sacrossanctum Concilium” sobre a liturgia, fez uma reforma no sacramento da confirmação:

Para fazer ressaltar a íntima união do sacramento da Confirmação com toda a iniciação cristã, reveja-se o rito deste sacramento; pela mesma razão, é muito conveniente, antes de recebê-lo, fazer a renovação das promessas do Baptismo.[ii]

Com efeito, ao instituir a renovação das promessas batismais antes do rito da confirmação, a Igreja parece visar que o cristão iniciado não só se una intimamente a Cristo e receba os dons do Espírito Santo, assim como todos os demais efeitos deste sacramento, mas que esteja disposto a defender com toda alma as verdades da fé que professa, e que deseja levar com garbo até o fim de seus dias. Deseja, além disso, que o futuro soldado de Cristo reavive em si mesmo, e na sociedade em que vai atuar, a distinção entre o bem e o mal, a verdade e o erro, tão apagada e esquecida em nossos dias.

Este apostolado, por certo inspirado por Deus, de acordo com o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, “tem como uma de suas missões mais salientes, a de restabelecer ou reavivar a distinção entre o bem e o mal, a noção do pecado em tese, do pecado original, e do pecado atual”.[iii] Por isto, conclui-se que reacender nas pessoas esta noção é empenhar-se numa ardorosa ação evangelizadora e via de santificação.

A reforma aplicada supre também os modos pelos quais este reavivamento pode ser feito, pois a profissão da fé nada mais é que acentuar, diante dos homens, a existência de uma lei dada por Deus, intrinsecamente boa e conforme à ordem do universo, que deve ser obedecida; salientar que o mal não deve somente ser evitado mas odiado, visto que após a morte está reservado um prêmio ou um castigo para o ser humano, dependendo da livre escolha que efetuar; e ainda proclamar a Igreja como “mestra da virtude, fonte da graça e inimiga irreconciliável do erro e do pecado[iv] tal como afirmou Paulo VI no discurso de abertura da segunda sessão do mesmo Concílio:

Todos nós recordamos as magníficas imagens com que a Sagrada Escritura nos faz pensar na natureza da Igreja, chamada freqüentemente o edifício construído por Cristo, a casa de Deus, o templo e tabernáculo de Deus, seu povo, seu rebanho, sua vinha, seu campo, sua cidade, a coluna da verdade, e, por fim, a Esposa de Cristo, seu Corpo místico. A mesma riqueza destas imagens luminosas tem feito desembocar a meditação da Igreja em um reconhecimento de si mesma como sociedade histórica, visível e hierarquicamente organizada, mas vivificada misticamente”.[v]

Enfim, eis a poderosa arma da qual podem servir-se os jovens ante as solicitações do demônio, do mundo e da carne, a fim de galgarem com firmeza rumo à felicidade eterna no Céu.


[i] Paulo VI. Documentos da Igreja: Documentos de Paulo VI. Tradução de Lourenço Costa. São Paulo:      Paulus, 1997.

[ii] www. vatican. va. Encíclica Sacrossanctum Concilium. 1963. n. 71.

[iii] Corrêa de Oliveira, Plínio. Revolução e contra-Revolução. 3.ed. São Paulo: 1993. pag 134.

[iv] Cf. Corrêa de Oliveira, Plínio. Revolução e contra-Revolução. 3.ed. São Paulo: 1993. pag 134-136.

[v] Concílio Vaticano II: Constituições, decretos, declarações e documentos pontifícios complementares. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1965. pag 762. (Tradução minha).

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