ITTA – IFAT

Instituto Teológico São Tomás de Aquino

ITTA – IFAT - Instituto Teológico São Tomás de Aquino

Um grande amigo orionita

RomuloEggon Kisser – 2º Ano de Teologia

Fotos: Ivan Tefel e Otávio de Melo

 

O Padre Romulo Mariani, atualmente missionário no continente africano, visitou o Seminário, nesta terça-feira, 27 de abril.

Quando residia em Roma, foi conselheiro espiritual dos Arautos do Evangelho, sendo na ocasião, um eficaz mediador na formação do setor clerical dos Arautos do Evangelho.  Ao fazer uma visita ao Brasil, país onde já esteve em Missão há vários anos – na região do Araguaia – não deixou de visitar o Seminário de Virgo Flos Carmeli onde conheceu suas dependências e celebrou a Eucaristia.

Perante um público que preenchia a igreja, ressaltou no sermão a importância de nosso carisma na Nova Evangelização, especialmente na África. Discorreu sobre o valor da Beleza e da Fé, e que a vocação sacerdotal enquanto chamado e uma vocação dada por Deus. Ao final da homilia manifestou o desejo de oferecer a Santa Missa em gratidão por todos os benefícios e desenvolvimentos da obra de Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias: “A Domino factum est istud”, dizia o dedicado Missionário Orionita.

Sua homilia foi, como habitual, clara, ardente e bela. É edificante ver que, em homilias ou conversas, o Pe. Romulo sempre recorda, saudoso e devoto, seu fundador: São Luís Orione.

Monsenhor João Clá regeu o Coro e Orquestra Internacional durante a Eucaristia, e, ao final da cerimônia agradeceu toda a assistência do Pe. Romulo na formação do setor clerical, ressaltando a disponibilidade incondicional e o espírito paternal e despretensioso, com o qual impulsionou a formação da Sociedade Clerical Virgo Flos Carmeli.

Logo após a Missa, foi-lhe oferecido um jantar no qual também participaram Monsenhor João Clá, Pe. Bruno Esposito OP., da Congregação para a Doutrina da Fé, e, Pe. Pedro Morazzani Arraiz EP.,Romulo 2 Reitor do Seminário, assim como, todos os seminaristas maiores e menores no refeitório comum do Tabor.

O clima era de muita alegria, pelo feliz reencontro de um grande amigo missionário e orionita.

Conferência do Pe. Bruno Esposito, OP: “Metodologia Científica de trabalhos acadêmicos”

Lucas Alves Gramiscelli – 2º Ano de TeologiaFrei Bruno1

A excelente pedagogia dominicana, se fez notar através da pessoa de Fr. Bruno Esposito, na manhã do dia 20 de abril. O conferencista deixou os cem alunos, do Instituto Filosófico Aristotélico-Tomista (IFAT) e do Instituto Teológico São Tomás de Aquino (ITTA), impressionados pela didática, clareza e capacidade de síntese.

Ele foi  Decano da Faculdade de Direito Canônico e Vice-reitor do Angelicum em Roma, e é atualmente consultor da Congregação para a Doutrina da Fé. Todavia, seus conhecimentos estendem-se a várias outras áreas relacionadas com o mundo acadêmico. Foi o que ficou claro para os estudantes dos Institutos, quando o orador italiano começou a discursar sobre a matéria de sua conferência: metodologia científica de trabalhos acadêmicos.Frei Bruno

Essa exposição, realizada no Seminário da Sociedade Virgo Flos Carmeli, foi sugerida por Monsenhor João Clá, com o objetivo de aperfeiçoar e ampliar as noções metodológicas dos assistentes. Assim, inicialmente, ele insistiu sobre a necessidade da procura e transmissão do saber, lembrando que, para trabalhar cientificamente, é preciso ir às fontes, recorrendo aos originais ainda que em outras línguas, e nunca afirmar nada sem fundamento, provando-se o que se afirmou, mantendo sempre a regra de unidade e, sobretudo, de fidelidade ao longo do texto.

Além disso, deu um apanhado geral a respeito da escolha do tema dos diversos trabalhos, desde os mais simples às teses de doutorado. Em seguida, ensinou também a maneira pela qual devem ser elaborados. E deu um conselho de ouro: “Non scoraggiarsi davanti alle prime difficoltà!”.

A tormenta solar e os Anjos de Deus

pôr do solMarcos Inácio Melo – 2º ano Teologia

Imagine caro leitor, que sentado em seu escritório de trabalho, manuseando seu computador, você termina um trabalho importante. De repente, todas as luzes da firma se apagam, inclusive a do monitor que você usa. Situação corriqueira em dias de chuva. Porém, não chove lá fora, e um raio de luz ilumina precariamente o ambiente. Para continuar o serviço, você tenta ligar o computador, mas não obtém sucesso. O computador não responde nem com as baterias. Terá queimado o disco rígido? Fato, estranho, pois não se ouviu nenhum trovão.          

            Você se levanta da mesa, e averigua que, realmente, todo o prédio, ou melhor, o bairro inteiro está em blackout. Tudo, comum até então. Quando você sai da sala, seus companheiros de serviço conversam contentes, devido ao intervalo forçado pelo apagão. O tempo corre e averiguam que nenhum carro funciona. A cidade inteira está parada. Alguém, logo percebe que todos os circuitos eletrônicos não funcionam, nem mesmo os celulares. O gerente dispensa do serviço, mas, os elevadores do prédio também não funcionam. Você desce os dez andares do edifício pelas escadas até ao estacionamento, na esperança de que pelo menos o seu carro funcione. Nada. Nem mesmo você consegue entrar nele, pois, as travas elétricas, estão impassíveis ao insistente e repetido apertar nos botões do controle remoto.

            Você sai até a rua e percebe o desalento de todos, pois a cidade está em um verdadeiro caos. Uns já se dirigem às suas residências, a pé, pois, como alguém disse, o metrô está parado. O único motor que funciona é de um carro velho, um fusquinha de 85, que não possui nada de eletrônico, porém, o motorista do está desalentado, pois seu carro está preso no congestionamento e nada pode fazer.

            Ao seu lado alguém olha para o céu, e quando você contempla a abóbada celeste, vê luzes como das auroras boreais. Lilases, verdes e azuis lindíssimos.

- O que está acontecendo? Será o fim do mundo?

- Não! – responde um conhecido seu que acrescenta – É uma tormenta solar…

- “Mas, o que é uma tormenta solar?”

Seu amigo logo lhe explica: – Antigamente, os cientistas julgavam que as tormentas solares eram uma espécie de tempestade de calor na coroa solar, que forma um vento com ondas magnéticas que chegam à terra desorganizando o seu campo magnético. Entretanto, a última tempestade solar de 2006 deixou os cientistas atônitos, pois provinha de uma explosão interna do sol, quebrando todos os paradigmas de estudo neste campo. A história relata tempestades solares em nosso planeta, das quais as de 1859, 1989, 2005 e 2006 têm uma especial relevância.

Em 1859, registraram auroras boreais em diversos pontos do planeta, especialmente na Europa, Austrália, Japão, EUA e México. O sistema de telégrafo entrou em pane. Fato curioso é que dois operadores constataram que podiam manter a conversação telegráfica, apesar de os aparelhos estarem desligados da bateria. A linha estava eletrificada. Não se sabia a causa do acontecimento, mas os astrônomos logo responderam que era uma tormenta solar, a mais forte registrada na História.

Em 1989, uma tormenta solar chegou à terra incidindo mais fortemente no Canadá, onde os computadores da Bolsa de Valores de Toronto pararam, interrompendo o pregão. Houve um blackout de 9 horas na província do Quebec, por uma sobrecarga na rede elétrica e mais de 6 mil satélites saíram de suas órbitas, pois a tormenta solar aqueceu a atmosfera, dilatando-a e absorvendo alguns satélites de baixa altitude.

Este vento que viaja a milhares de km por segundo chega à terra em cerca de 2 horas, porém, a tempestade de 2005 chegou ao nosso planeta em 15 minutos. Ora, esta nuvem, carregada de prótons e elétrons, altera o campo magnético da terra

A próxima tempestade foi prevista para 2012-2013, segundo Mausumi Dikpati, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica (NCAR) e coincide com o auge do ciclo solar (que dura 11 anos), sendo, portanto, uma tormenta solar mais forte que a última de 1989 e 2006 (que estava no vórtice do ciclo solar), embora não tão abrangente quanto a de 1859. Entretanto, apesar de menos forte que a de 1859, a tempestade solar de 2012-2013, terá efeitos maiores em nossa sociedade, extremamente dependente da informática.

A tormenta solar afetará os chips de computadores, a internet, o sistema GPS, a navegação e funcionamento de aviões e navios, sistemas eletrônicos de carros, elevadores e alarmes. A rede elétrica poderá ser cortada por causa da sobrecarga, pois estas ondas induzem corrente elétrica nas linhas de abastecimento de energia. O problema é que os cientistas não podem prever quanto tempo permanecerá os efeitos desta explosão solar. Se durar uma dezena de horas causará poucos danos, porém se durar dias, o mundo atual, hiper-informatizado pode entrar em um verdadeiro caos…

O indício inegável da tempestade é que as manchas solares desapareceram. Foi o que aconteceu em 2006 e o que está acontecendo em 2010.

Em janeiro de 2005, uma surpreendente tempestade solar alcançou a Terra com sua máxima radiação 15 minutos após as explosões. Normalmente elas demorariam 2 horas para chegar. Segundo Richard Mewaldt, do Califórnia Institute of Technology, foi a mais violenta e mais misteriosa tempestade dos últimos 50 anos. Os astrônomos ficaram perplexos. O professor Lin – principal pesquisador do satélite Reuven Ramaty High Energy Solar Spectroscopic Imager (RHESSI) – assim resumiu as conclusões dos estudos que fez nesta ocasião: “Isso significa que realmente não sabemos como o Sol funciona”. Quebraram-se todos os paradigmas de estudo no campo, porém, este enorme vento não atingiu a terra de forma tão direta como em 1989 e 1959. Acontecerá o mesmo em 2012-2013? É uma pergunta que os cientistas ainda não podem responder.

Uma vez que a ciência hesita, recorramos por ora à Teologia.  Ensina a Doutrina Sagrada que todos os astros do universo, inclusive o sol, são governados por um Anjo. Portanto, o astro-rei, que governa todo o sistema solar, e tem efeitos tão benéficos sobre nosso planeta, é regido por um Anjo de Deus.[1] Os anjos exercem poder sobre as coisas materiais. Um único Anjo pode agir sucessivamente em um rio da África ou em iceberg da Antártida. Essas ações ou essas influências são sucessivas e não simultâneas.

Baseado em Santo Agostinho e Orígenes, São Tomás de Aquino ensina que os Anjos não somente governam (como rectores) sobre os astros celestes, mas também sobre as feras, fontes, rios, mares, montanhas, etc. Os Anjos são governadores por essência, e dominam toda a ordem do universo. Toda a fascinante natureza que nos cerca é regida pelos espíritos Angélicos. Doutor Plinio Corrêa de Oliveira observa que esta é uma das razões pelas quais os pagãos acreditavam que havia deuses nas rochas, árvores e fontes, pois, herdaram esta tradição de seus pais, sendo uma crença que se remonta aos primórdios da humanidade.

AnjoOs espíritos podem fazer prodígios, servindo‑se das forças da natureza, mas não podem fazer milagres, pois, como ensina São Tomás e outros autores, o milagre supera a ordem natural.[2] Pois, de fato, os cientistas estão encontrando verdadeiras maravilhas no estudo das tormentas solares no astro-rei. Não poderão ser causadas pelos Anjos?

Este fenômeno, do qual os cientistas registram com belíssimas fotografias, revelam maravilhas do Sol até então desconhecidas para o homem. Não somente demonstram a beleza do universo, e a grandeza da natureza criada por Deus, mas também a contingência do homem. O ser humano apesar de “dominar”e “reinar” sobre a natureza, seguindo o mandato do Gênesis (Cf. Gn 1, 26), está sujeito às Leis do Universo, que é regido pelos Anjos de Deus.

Sabemos que os Anjos são ordenados, e velam pela glória de Deus e pelo bem do Homem. Se o Sol vem demonstrando esses fenômenos, a hora é oportuna para reconhecer essa grande superioridade e rezar aos Anjos que protejam nosso planeta. Ainda mais, nesta sociedade atual erigida em um sistema tão passível às mudanças do campo magnético.

Por mim, opto por colocar mais esperanças nos anjos, do que no estupendo maquinário eletrônico que nos rodeia. Os primeiros, simplesmente, não estão sujeitos a blackout…

 


[1] S. Th. 1, q. 110, resp. “Et ideo sicut inferiores angeli, qui habent formas minus universales, reguntur per superiores; ita omnia corporalia reguntur per angelos et hoc non solum a sanctis doctoribus ponitur, sed etiam ab omnibus philosophis qui incorporeas substantias posuerunt”.

S. Th. 1, q. 110, ad. 3: “Dicit enim Augustinus, in libro octoginta trium quaest., unaquaeque res visibilis in hoc mundo habet angelicam potestatem sibi praepositam. Et Damascenus dicit, diabolus erat ex iis angelicis virtutibus quae praeerant terrestri ordini. Et Origenes dicit, super illud Num. XXII, cum vidisset asina angelum, quod opus est mundo angelis, qui praesunt super bestias, et praesunt animalium nativitati, et virgultorum et plantationum et ceterarum rerum incrementis. Sed hoc non est ponendum propter hoc, quod secundum suam naturam unus angelus magis se habeat ad praesidendum animalibus quam plantis, quia quilibet angelus, etiam minimus, habet altiorem virtutem et universaliorem quam aliquod genus corporalium. Sed est ex ordine divinae Sapientiae, quae diversis rebus diversos rectores praeposuit. Nec tamen propter hoc sequitur quod sint plures ordines angelorum quam novem, quia, sicut supra dictum est, ordines distinguuntur secundum generalia officia. Unde sicut, secundum Gregorium, ad ordinem potestatum pertinent omnes angeli qui habent proprie praesidentiam super daemones; ita ad ordinem virtutum pertinere videntur omnes angeli qui habent praesidentiam super res pure corporeas; horum enim ministerio interdum etiam miracula fiunt”.

[2] VONIER, Anscar. Les Anges. Paris: Spes, 1950

Cristo está realmente presente na Eucaristia?

EucaristiaJosé Luís de Melo Aquino – 3º ano Teologia

Como falar de um mistério, daquilo que a nossa razão não consegue penetrar? Somente fazendo curvar a razão e dando vazão à Fé. Assim, podemos destilar da doutrina Católica o princípio de que, para estudar teologia, devemos sempre partir da Fé, para depois aplicar o nosso intelecto e concluir sempre com um novo ato de Fé, pois, melhor parece ser amar aquilo que nos excede e compreender o que nos é inferior.

Sendo o mistério algo insondável para o nosso intelecto devemos crer, celebrá-lo, e dele viver considerando-o com os olhos da fé; fazendo dela e da razão, uma unidade. Ao longo do estudo, a Fé auxiliar-nos-á naquilo que a razão não alcança, no entanto, sem excluí-la.

Entre os mistérios que a Igreja Católica prega, um dos mais augustos e admiráveis é o da Transubstanciação, pois nele “está contido o Cristo inteiro sob cada espécie e sob cada parte de cada espécie”.[1] Mas como? Somente é explicável por um milagre: toda a substância do pão se converte na substância do Corpo de Nosso Senhor e toda a substância do vinho na substância do Seu Preciosíssimo Sangue.

Pronunciadas as palavras da consagração – Isto é o meu Corpo; Este é o cálice do meu sangue – Nosso Senhor Jesus Cristo passa a estar presente instantaneamente[2] em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, sob as espécies do pão e do vinho. O que quer dizer “sob as espécies”? Nada mais, nada menos, opera-se o milagre da transubstanciação, a substância do pão e do vinho deixam de estar presentes dando lugar à substância do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, mas mantendo os acidentes do pão e do vinho, o que naturalmente é impossível, pois o que sustenta os acidentes é a substância. Uma vez que a substância do pão ou do vinho deixam de estar presentes os acidentes também deveriam desaparecer, mas na Eucaristia não se dá isso; os acidentes permanecem (cor, odor, etc.) e a substância muda,[3] “porque a Deus tudo é possível” (Mt 19,26).

Na Eucaristia, essa presença se dá de duas formas. Em primeiro lugar por força do sacramento, por outras palavras, na consagração da espécie do pão é dito: “Isto é o meu Corpo;” por virtude do sacramento ali está exclusivamente presente a substância do Corpo de Cristo. Da mesma forma em relação à espécie do vinho, é dito: “Este é o cálice do meu sangue…” sob essa espécie está presente exclusivamente a substância do Sangue de Cristo. Por outro lado, por razão de concomitância, ou seja, onde está presente um, está presente o outro, sob a espécie do pão está presente a substância do Corpo, como foi mostrado, mas também o Sangue a Alma e a Divindade, uma vez que não é possível separá-los.[4]

Portanto, quando recebemos a Eucaristia, é a Ele próprio que recebemos. Aquele mesmo que nas ruas da Galiléia curava os doentes, os coxos, os paralíticos… Aquele mesmo que Se deixou crucificar, “o Justo pelos injustos” (1Pedro 3, 18) a fim de salvar-nos; “Só” isso? Não! O próprio Deus Uno e Trino vem habitar-nos, mas este, será tema para um nova artigo.[5]

Tão grandioso mistério, não podemos compreender, mas nossa Fé nos assegura. “Quod non cápis, quod non vídes, animósa fírmat fídes, praetes rérum órdinem”.[6]

 


[1] DS 1653.

[2] Cf. S.Th. III q.75,  a.7.

[3] Cf. S. Th. III q.77, a.1.

[4] Cf. Contra Gentiles, 4, 64; III, q. 76, a. 1.

[5] Cf. VVAA. Lexicon dicionário teológico enciclopédico. Trad. João Paixão Netto; Alda da Anunciação Machado. São Paulo: Edições Loyola, 2003. Pág. 108-110.

[6] Cf. Missal Romano: I lecionário dominical. São Paulo: Edições Loyola, 2003. Pág. 985.

A boa vida e a vida boa

Ítalo Santana – 2º ano de Teologia

TibidaboÉ comum o jovem, especialmente o brasileiro, sonhar em ter uma vida boa. Não precisa ser deliciosa ao pé da letra, com rede, sombra e limonada; basta ser feita de numerosos momentos agradáveis para, por exemplo, ler um bom livro, ver o mar, uma bonita paisagem, ou conversar com os amigos.

Porém, alguns anos bem vividos lhe ensinarão que a existência nesta terra, em contrapartida, é composta de várias situações desagradáveis, de infortúnios e insucessos; e por mais que ela seja repleta de prazeres e emoções, nunca será a vida tranquila com a qual sonhava, se não travar uma declarada guerra contra suas más inclinações; a vida boa é, antes de tudo, a paz de consciência, a certeza de estar cumprindo com sua finalidade, e esta só se adquire através de uma boa vida, isto é, da constante luta contra o pecado.

Sobre esta difícil situação em que se encontra a juventude, à qual se somam os incontáveis problemas do mundo moderno, tratou com solicitude de pastor em sua encíclica “Octogesima Adveniens” o Papa Paulo VI:

Qual será, neste mundo em gestação, o lugar dos jovens? Por toda parte o diálogo se apresenta difícil entre uma juventude portadora de aspirações de renovação e, também, de insegurança quanto ao futuro, e as gerações adultas. Quem não vê que nesse fato se encerra uma fonte de graves conflitos, de rupturas, de ruptura e de abdicações, mesmo no seio da família, e uma questão em aberto, pelo que se refere às raízes da autoridade, da educação, da liberdade e da transmissão de valores e de convicções?[i]

Foi pensando nesta dificuldade com largueza de visão, a perseverança particular de cada jovem e o futuro da Igreja, que o Concílio Vaticano II na Constituição “Sacrossanctum Concilium” sobre a liturgia, fez uma reforma no sacramento da confirmação:

Para fazer ressaltar a íntima união do sacramento da Confirmação com toda a iniciação cristã, reveja-se o rito deste sacramento; pela mesma razão, é muito conveniente, antes de recebê-lo, fazer a renovação das promessas do Baptismo.[ii]

Com efeito, ao instituir a renovação das promessas batismais antes do rito da confirmação, a Igreja parece visar que o cristão iniciado não só se una intimamente a Cristo e receba os dons do Espírito Santo, assim como todos os demais efeitos deste sacramento, mas que esteja disposto a defender com toda alma as verdades da fé que professa, e que deseja levar com garbo até o fim de seus dias. Deseja, além disso, que o futuro soldado de Cristo reavive em si mesmo, e na sociedade em que vai atuar, a distinção entre o bem e o mal, a verdade e o erro, tão apagada e esquecida em nossos dias.

Este apostolado, por certo inspirado por Deus, de acordo com o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, “tem como uma de suas missões mais salientes, a de restabelecer ou reavivar a distinção entre o bem e o mal, a noção do pecado em tese, do pecado original, e do pecado atual”.[iii] Por isto, conclui-se que reacender nas pessoas esta noção é empenhar-se numa ardorosa ação evangelizadora e via de santificação.

A reforma aplicada supre também os modos pelos quais este reavivamento pode ser feito, pois a profissão da fé nada mais é que acentuar, diante dos homens, a existência de uma lei dada por Deus, intrinsecamente boa e conforme à ordem do universo, que deve ser obedecida; salientar que o mal não deve somente ser evitado mas odiado, visto que após a morte está reservado um prêmio ou um castigo para o ser humano, dependendo da livre escolha que efetuar; e ainda proclamar a Igreja como “mestra da virtude, fonte da graça e inimiga irreconciliável do erro e do pecado[iv] tal como afirmou Paulo VI no discurso de abertura da segunda sessão do mesmo Concílio:

Todos nós recordamos as magníficas imagens com que a Sagrada Escritura nos faz pensar na natureza da Igreja, chamada freqüentemente o edifício construído por Cristo, a casa de Deus, o templo e tabernáculo de Deus, seu povo, seu rebanho, sua vinha, seu campo, sua cidade, a coluna da verdade, e, por fim, a Esposa de Cristo, seu Corpo místico. A mesma riqueza destas imagens luminosas tem feito desembocar a meditação da Igreja em um reconhecimento de si mesma como sociedade histórica, visível e hierarquicamente organizada, mas vivificada misticamente”.[v]

Enfim, eis a poderosa arma da qual podem servir-se os jovens ante as solicitações do demônio, do mundo e da carne, a fim de galgarem com firmeza rumo à felicidade eterna no Céu.


[i] Paulo VI. Documentos da Igreja: Documentos de Paulo VI. Tradução de Lourenço Costa. São Paulo:      Paulus, 1997.

[ii] www. vatican. va. Encíclica Sacrossanctum Concilium. 1963. n. 71.

[iii] Corrêa de Oliveira, Plínio. Revolução e contra-Revolução. 3.ed. São Paulo: 1993. pag 134.

[iv] Cf. Corrêa de Oliveira, Plínio. Revolução e contra-Revolução. 3.ed. São Paulo: 1993. pag 134-136.

[v] Concílio Vaticano II: Constituições, decretos, declarações e documentos pontifícios complementares. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1965. pag 762. (Tradução minha).

A primeira Missa no Brasil

Marcos Eduardo Melo dos Santos – 2º Ano de Teologia

Missa Brasil            Quis a Divina Providência que uma Missa marcasse o início da História da maior nação católica do mundo. Pois, de fato, dos méritos infinitos do sacrifício incruento que se renova sobre o altar, ou seja, da Eucaristia, procedem e se ordenam, como a seu fim, todas as grandes obras da História da Igreja. (Cf. Sacrosanctum Concilium, n. 10).

A primeira Missa no Brasil foi no iluminado dia 26 de abril de 1500, domingo da oitava de páscoa, quando os portugueses encontraram um ilhéu seguro – o da Coroa Vermelha – onde poderiam celebrar a primeira Missa no Brasil. Hoje,  a ilhota não existe mais. Devido ao movimento das marés o ilhéu da primeira Missa se uniu a terra formando uma ampla e alva praia.

Em uma carta dirigida ao Rei de Portugal, D. Manuel, o venturo, Pero Vaz de Caminha, escrivão mor da esquadra, narra todos os detalhes do episódio que marca o início da História do Brasil. Ao ler estas linhas, observa-se um profundo espírito evangelizador, como Margarida Barradas de Carvalho observa, “o tema da obrigação de levar a palavra de Cristo a seres humanos, vivendo na ignorância, se coloca em toda a sua pureza realmente cristã”.[1]

Após 47 dias de viagem pelo Atlântico, todos os preparativos para Missa estavam terminados. Frei Henrique com os demais clérigos a celebrou em “voz entoada”. Eram oito missionários franciscanos e alguns sacerdotes seculares entre os quais um vigário destinado a Índia[2]. Sob um belo docel, ergueram “um altar mui bem corregido[3]. O capitão Pedro Álvares Cabral com “a bandeira de Cristo”, convocou todos os seus 1000 subalternos, oficiais e marinheiros “muito bem escolhidos e armados[4], enquanto que na praia do continente, cerca de duzentos índios acompanhavam atentos tudo o que se passava na ilhota. Relata Caminha que a missa “foi ouvida por todos com muito prazer e devoção[5].

Terminada a cerimônia, desparamentou-se o sacerdote e subindo em uma cadeira alta fez “uma solene e proveitosa pregação[6] à assembléia a sentada sobre fina e branca areia do aconchegante litoral baiano. Descreve Pero Vaz de Caminha que “tratou da nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da Cruz, sob cuja a obediência viemos, o que foi muito a propósito e fez muita devoção”[7].

Nos dias subseqüentes, 27 de abril a 1º de maio, os portugueses desbravaram a nova terra e estabeleceram afetuosas relações com os indígenas. Trabalhavam em escupir uma grande cruz de madeira. Os indígenas, impressionados com os instrumentos de metal, contemplavam o trabalho. O capitão, membro da ordem de Cristo, recomendava que os portugueses se pusessem de joelhos diante da Cruz e a beijassem[8] para que os indígenas entendessem a veneração que os homens do mar tinham pelo símbolo Cristão. Um após o outro, todos os lusos oscularam-na. Ao convite dos portugueses os dez ou doze nativos que aí estavam fizeram o mesmo, com tal inocência e candura que os portugueses ficaram muito tocados, como descreve o relato de Caminha, ao Rei de Portugal, “Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logos cristãos. E, portanto, se os degredados, que aqui hão de ficar, aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa intenção de vossa alteza, se hão de fazer-se cristãos e crer em nossa santa fé, à qual praza a Deus Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa e de boa simplicidade. E imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer cunho que lhes quiserem dar. E pois Nosso Senhor, que lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens, por aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa. Portanto Vossa Alteza, que tanto deseja acrescentar a santa Fé católica, deve cuidar de sua salvação. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim.”[9]

CruzeiroNo segundo domingo pascal, dia 1° de maio, estavam concluídos os preparativos para a cerimônia de tomada de posse da nova terra pelas armas portuguesas. Encabeçado pelo capitão que portava a bandeira de Cristo, a Cruz foi conduzida, ao som de cânticos religiosos, até a foz do rio Mutari “para melhor ser vista”. Cerca de setenta indígenas assistiam o cerimonial. Ao verem os portugueses carregar a Cruz meteram-se embaixo dela para também ajudar. A sombra da Cruz, Frei Henrique celebrou a segunda Missa, desta vez no continente, na presença de todos os religiosos, oficiais, soldados e cerca de 150 índios. Conforme as partes da Missa, os indígenas acompanhavam todos os movimentos dos portugueses. Ajoelhavam-se e levantavam-se “em tal maneira sossegados, que certifico a Vossa Alteza nos fez muita devoção” relata Caminha. Permaneceram até a comunhão, quando o capitão e os seus receberam o corpo de Cristo. Um dos nativos com cerca de cinqüenta anos acenava aos outros índios apontando para o altar e para o Céu[10]. Após a pregação foram distribuídas cruzes de estanho para que os tupis pendurassem ao pescoço após oscularem-na e levantarem as mãos ao céu.

Pero Vaz de Caminha encantado com a receptividade e inocência dos índios escrevia ao Rei de Portugal: “segundo que a mim e a todos pareceu, esta gente não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, senão entender-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer. Por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar porque assim já terão mais conhecimentos de nossa fé”.[11] Após a cerimônia, dois degredados os quais a justiça do Rei punira permaneceram entre a população enquanto as naus portuguesas partem. Uma vai a Portugal com a carta de Caminha e informações de navegação, aos outras continuam a missão para Índia a fim de restabelecerem as delicadas relações com os reis hindus.

 

A principal riqueza da terra

Em 1501, após ter viajado por toda a América, o florentino Américo Vespúcio comentava do litoral brasileiro que “se algures na terra existe o paraíso terrestre, não pode ele estar longe daqui”[12]. Pero Vaz de Caminha também relata as riquezas do Brasil. A vastidão, o clima e a fertilidade faz o escrivão mor exclamar: “dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”. A região é formosa e agradável, com palmitos saborosos, belas aves, enormes camarões e madeira em quantidade, todavia, “sem ouro nem prata, nem nenhuma coisa de metal[13]. Talvez, por esta última razão, a terra de Santa Cruz ficou relegada ao segundo plano no interesse luso, pois as especiarias da Índia e as riquezas da África rendiam muito mais que o pau-brasil. Contudo, o inteligente Pero Vaz de Caminha ressalta ao rei de Portugal, “o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar”[14].

Quanto as maravilhas do litoral, a fecundidade da terra e as possibilidades de evangelização, Caminha vaticinou com precisão. Em um lento povoamento, portugueses, africanos[15] e o elemento nativo, miscigenaram-se formando um povo homogêneo. Acontecimento explicável por causa do fator que realmente une culturas tão diversas sob a bandeira de um único ideal: a religião católica. Ademais, contribuíram para esse resultado uma inumerável avalanche de padres seculares e religiosos de todas as ordens, que “vieram com a sua fé, a sua doçura e a sua perseverança, vencer a bravesa do íncola”.[16]

Em função da devoção Eucarística, clero e laicato realizaram este grande escopo. Atestam isto tantas Igrejas,Capela histórica suntuosas ou singelas, esparsas pelo Brasil, onde reflete-se a piedade eucarística dos primeiros brasileiros. Hoje, a Igreja colhe os frutos deste imenso esforço, deste “grande passado[17], na expressão de Bento XVI. Observa o Pontífice que, “o Brasil ocupa um lugar muito especial no coração do Papa, não somente porque nasceu cristão e possui hoje o mais alto número de católicos, mas, sobretudo, porque é uma nação rica em potencialidades, com uma presença eclesial que é motivo de alegria e esperança para toda a Igreja.”

Realmente, o Brasil nasceu cristão. Como os relatos de Caminha deixam entrever, nas atitudes de indígenas e portugueses, a bondade, hospitalidade e generosidade características do espírito brasileiro é patente. Essa bondade provem do amor à Cruz. De fato, o mais alto símbolo da Fé Cristã não apenas pendia apenas ao pescoço de índios e europeus, mas também, protegia as velas das naus, abençoava o estandarte da ordem de Cristo e as armas de Portugal. Ela estava plantada na nova terra e reluzente no céu do cruzeiro do sul. Dir-se-ia que vendo tanta piedade, o Crucificado quis também estar presente nos dez primeiros dias do Brasil. Realmente, o Divino Mestre esteve presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade sob as espécies Eucarísticas. Foi com a Santa Missa que começou repleta de empreendimento e alegria; bondade e Fé, a História de um país que “nasceu cristão[18] ajoelhado à sombra da Cruz, adorando a Jesus Sacramentado. Fato que cumpre aquilo do Papa João Paulo II (Ecclesiae de Eucharistia, n. 22), “Por tanto, la Iglesia recibe la fuerza espiritual necesaria para cumplir su misión perpetuando en la Eucaristía el sacrificio de la Cruz y comulgando el cuerpo y la sangre de Cristo. Así, la Eucaristía es la fuente y, al mismo tiempo, la cumbre de toda la evangelización, puesto que su objetivo es la comunión de los hombres con Cristo y, en Él, con el Padre y con el Espíritu Santo.(Cf. Homilias sobre la 1 Carta a los Corintios, 24,2: PG 61,200; cf. Didaché, IX,5: F.X. Funk, I,22; San Cipriano, Ep. LXIII,13: PL 4,384.)”

             

Referências Bibliográficas

ALTAVILA, Jayme. História da Civilização das Alagoas. Maceió: Biblioteca Publica Estadual, 1967.

BENTO XVI. Entrevista no Aeroporto de Guarulhos.

CALMON, Pedro. História do Brasil. t. 1, São Paulo: José Olympio, 1961.

DE CARVALHO, Margarida Barradas. L’idéologie relligieuse dans la “carta” de Pêro Vaz de Caminha. Em VAZ DE CAMINHA, Pero. Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil. São Paulo: Europa-América, 1987.

COMPÊNDIO DO VATICANO II. 29 ed. Petrópolis: Vozes, 2000.

FERREIRA, Tito Lívio. História do Brasil. 3 ed. São Paulo: Nacional, 1946.

FONSECA, João Severiano da. Viagem ao redor do Brasil. v. 2. Rio de Janeiro: Bibliex, 1986.

JOÃO PAULO II. Ecclesia de Eucharistia.

ROCHA POMBO. História do Brasil. t. 1, 13 ed. São Paulo: Melhoramentos, 1966.

SANCEAU, Elaine. Capitães do Brasil. Porto: Civilização, 1956.

VAZ DE CAMINHA, Pero. Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil. São Paulo: Europa-América, 1987.

VILHENA, Luís dos Santos. A Bahia no Século XVIII, v. 1. Salvador: Itapuã, 1969.

ZWEIG, Stefan. Brasil, País do futuro. São Paulo: Delta, 1953.


[1] DE CARVALHO, Margarida Barradas. L’idéologie religieuse dans la “carta de Pêro Vaz de Caminha”. p.6.

[2] ROCHA POMBO, p. 17.

[3] VAZ DE CAMINHA, p. 73 e SANCEAU, p 15.

[4] ROCHA POMBO, p. 17.

[5] VAZ DE CAMINHA, p. 73.

[6] VAZ DE CAMINHA, p. 74.

[7] VAZ DE CAMINHA, p. 74.

[8] VAZ DE CAMINHA, p. 90.

[9] VAZ DE CAMINHA, p. 91.

[10] VAZ DE CAMINHA, p. 94.

[11] VAZ DE CAMINHA, p. 96.

[12] ZWEIG, p. 19.

[13] ZWEIG, p. 20.

[14] VAZ DE CAMINHA, p. 97. Ver também ZWEIG, p. 34.

[15] VILHENA, p. 51.

[16] ALTAVILA, p. 15.

[17] BENTO XVI, Entrevista concedida pelo Santo Padre aos Jornalistas durante o vôo para o Brasil. Qua 9 mai. 2007. Disponível em: www.vatican.va.

[18] BENTO XVI, idem.

Segredos da natureza…

Ítalo Santana – 2º ano de Teologia

PavãoQuem nunca se deteve diante de um bonito animal e desejou quase instantaneamente prolongar os deleites daquela visão prazerosa tirando uma fotografia? Poucos, por certo, se é que houve alguém. Contudo, apesar de ser grande o contingente dos observadores, não muitos dentre eles estão dispostos a fazer a respeito disso uma análise profunda, buscando saber de onde se desprende este encanto que tanto os atrai. 

Há no universo um número incontável de seres. Cada qual possui características que o distinguem dos demais, é fácil notar. Para observantes inexperientes, estas características poderiam parecer um erro considerável dentro da natureza, pois provocam a superioridade de uns em relação a outros. Assim, um pássaro repleto de cores, que à luz do sol expõe seu penacho e reluz ora mais intensamente ora menos, prendendo a si os olhares até mesmo dos mais desatentos, é objeto de preferência em relação a outro, belo por seu porte e elegância, mas singelo na coloração.

CisneDe fato, fica patente a existência de certa superioridade, porém isto não constitui erro algum. A desigualdade na criação, ao contrário de trazer um mal, acentua o que em cada ser é reflexo de Deus, e, além disso, proporciona ao homem a possibilidade de galgar do “menos bom” ao melhor, sucessivamente, e desta forma atingir o Bem absoluto. Dá também vivacidade à vida nesta terra que tão monótona seria se composta de seres idênticos, sem qualquer diferenciação. É ainda um dos fatores essenciais para se obter o pulchrum, visto que algo pode ser belo de diversas formas: do pavão, ave tão rica em esplendores e exuberâncias poder-se-ia perfeitamente dizer que representa a beleza na variedade, enquanto do cisne, alvo de um branco sintético, nobre e distinto, a beleza na unidade. Enfim, a natureza cheia de atrativos para quem a contempla não esconde os segredos de sua formosura. Generosa, não teme repartir os tesouros com os quais seduz e envolve as almas admirativas. Eis aí, retirado do escrínio de suas jóias, precioso princípio que sempre a adorna: a desigualdade.

A catedral de Chartres

ChartresRaphaël Six – 3º Ano de Teologia

As maravilhosas catedrais góticas são, sem dúvida, alguns dos mais belos frutos oferecidos pelo Cristianismo à civilização. Nascida num período turbulento, mas também extremamente fecundo, a arte dos godos difundiu-se da Europa para o mundo inteiro. Seus idealizadores tinham como objetivo levar os homens até o seu Criador, proporcionando-lhes, por meio do esplendor, da beleza e mesmo da magnificência, a possibilidade de experimentar uma forma de contato com Ele.

Temos de concordar que aqueles antigos artistas foram sumamente felizes em seu intento.

Podemos encontrar em quase toda a Europa bons exemplares dessas obras-primas de engenharia e arte. Na França, por exemplo, há algumas de rara beleza. Partindo de Paris rumo a sudoeste, antes de percorrer noventa quilômetros já contemplaremos à distância as duas torres altaneiras da catedral de Chartres, distintas e belas, elevando-se graciosamente em meio aos ondulantes campos de trigo.

Esse monumental edifício gótico, construído no século XIII, guarda uma inestimável relíquia, a qual atrai constantemente peregrinos do mundo inteiro: a chamada Sancta Camisia, uma túnica que pertenceu à Santíssima Virgem Maria e que, segundo a tradição, foi oferecida à cidade pelo imperador Carlos Magno.

Chartres2O seu imponente pórtico, como também os dois transeptos, são ornados por numerosas imagens de santos, esculpidas com extrema delicadeza, numa infinidade de detalhes impossíveis de serem absorvidos numa única visita. No interior do exuberante templo, causam profunda impressão as enormes colunas que se erguem do chão e terminam num delicado encontro, formando ogivas.

Porém, o que talvez mais tenha empolgado as sucessivas gerações de visitantes que através dos séculos buscaram Chartes são os seus incomparáveis vitrais.

A luz do astro-rei atravessa suavemente os vidros desse recinto sagrado, fazendo em seu seio brilharem as mais formosas figuras. Vivas cores e encantadoras formas refletem-se nas austeras paredes, numa magnífica multiplicidade de tonalidades que parecem continuamente pintar o ambiente.

Esses vitrais são um catecismo vivo: ora expõem uma passagem da vida dos santos, ora de algum personagem bíblico. Mostram assim uma continuidade entre os profetas que anunciavam a vinda do Messias e os santos que proclamaram sua glória com os exemplos de suas vidas.

E não apenas um catecismo. Os admiráveis vitrais de Chartres são também um afetuoso apelo espiritual: assim como essas cristalinas obras de arte se deixam transpor pelos raios do sol, recebendo cada qual um aspecto ímpar, também nós devemos permitir que a luz de Deus possa penetrar e refletir-se em nossas almas, fazendo nelas frutificar com abundância o preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

ARAUTOS DO EVANGELHO. Set. 2007. n. 69.

Para Papa, universidade católica tem “labor insubstituível” de formar com base no Magistério Eclesiástico

Bento2Cidade do Vaticano (Segunda-feira, 19-04-2010, Gaudium Press) A Universidade do Sagrado Coração (Università del Sacro Cuore), em Roma, teve comemorado ontem seu 86º dia nacional. Por meio do secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, o Papa enviou uma mensagem especial ao cardeal Dionigi Tettamanzi, presidente do Instituto G. Toniolo de Estudos Superiores e demais dirigentes.

Os jovens cristãos “conseguem dar contribuições decisivas a uma elaboração cultural capaz de delinear novos modelos de desenvolvimento”, escreveu Bento XVI. Para o Santo Padre, o Magistério da Igreja é “guardião fiel e intérprete seguro” que deve também ter voz nas questões econômicas e políticas mundiais.

O Papa vê como “um empenho insubstituível” para os sacerdotes e os leigos, mas também para as universidades católicas, guiar-se com base no magistério da Igreja. Um empenho que está “a serviço da pessoa na reconstrução de uma qualificada competência científica”. A inteligência é chamada à disponibilidade ao confronto e ao diálogo com “rica fecundidade do patrimônio da fé e com caridade na verdade”.

A Universidade Católica do Sagrado Coração é a maior universidade católica da Europa, com cinco sedes: em Milão, Piacenza e Cremona, Brescia, Campobasso e Roma. Foi fundada pelo Padre Agostino Gemelli, o mesmo que dá nome a uma das maiores policlínicas de Roma, onde frequentemente são tratados os pontífices.

(Adaptado)

O capítulo VI do Evangelho de São João

Michel Six (3º ano Teologia)

JesusSão João foi, segundo consta na Tradição, o último a escrever seu Evangelho. De fato, fora somente pelo ano 90 que ele relatou os feitos da vida do Senhor. Dentre os diversos motivos que o levaram a escrevê-los foi que, já naquela época, começaram ímpias fomentações. Deste modo, em seu sexto capítulo, trata ele especificamente sobre a Santíssima Eucaristia, precavendo contra os futuros desvios por parte de hereges. É de se notar que São João é o único dos Evangelistas a não relatar a instituição da Santíssima Eucaristia, vemos, entretanto, em sua narração um profundo zelo em explicar a doutrina acerca transubstanciação. Com efeito, nos explica GRAIL e ROGUET: “É um fato: João não narrou a instituição da eucaristia [...]. Mais afastado das necessidades da catequese, o IVº evangelho está mais preocupado com síntese doutrinal.[1]

É de fé que Eucaristia foi verdadeiramente instituída por Nosso Senhor. No capítulo VI de São João vemos o Salvador nos prometendo seu próprio Corpo e Sangue, como alimento e bebida espiritual. No Sacramento da Eucaristia há um autêntico sacrifício, que anuncia a morte de Cristo e renova, incruentamente, a imolação do Calvário, cujo valor expiatório apaga os crimes dos homens; trata-se de um Sacramento que contém realmente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo.

É curioso o fato de que muitos que tomam tantas passagens das Escrituras no sentido literal, ao “pé da letra”, não vêem nas próprias palavras de Nosso Senhor, neste capítulo, o sentido literal e óbvio, por Ele proferido. Ao contrário, relégam-nas a um estilo figurativo, simbólico ou até alegórico.

Contudo basta analisar um pouco mais a fundo este capítulo que percebemos claramente as intenções do Mestre, sua referência clara e direta a seu próprio Corpo e Sangue. Vejamos, no próprio texto, o sentido evidente das palavras:

Jesus Eucaristia“Eu sou o pão da vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que aquele que dele comer não morra Eu sou o pão vivo, que desceu do céu. Quem comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que eu darei é a minha carne para a salvação do mundo. Disputavam, pois, entre si os judeus, dizendo: Como pode este dar-nos a comer a sua carne? Jesus disse-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. O que come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida. O que come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele. Assim como me enviou o Pai que vive, assim e eu vivo pelo Pai, assim o que me comer a mim, esse mesmo também viverá por mim.” (Jo 6, 48-58).

É impressionante verificar como, por assim dizer, Ele reitera várias vezes a afirmação de que é realmente a carne e o sangue Dele. Não é possível discernir mera metáfora nestas asseverações.

            Metáfora, de fato, não pode ser, pois Nosso Senhor não procura atenuar suas declarações, mesmo sabendo que está “escandalizando” os outros. No versículo 52 os judeus confirmam que entenderam literalmente os sentidos das palavras: “Disputavam, pois, entre si os judeus, dizendo: Como pode este dar-nos a comer a sua carne?” Contudo, o divino Mestre não os corrige pelo que entenderam, mas ainda afirma algo mais ousado: “Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (53). E ainda, as outras metáforas que encontramos nas Escrituras sobre carne e sangue não se prestam a comprar com esta passagem, não há outra interpretação a ser dada, senão a que ensinou Jesus Cristo.

            Outro ponto a se considerar é o “escândalo” causado nos circunstantes. Mesmo diante da apostasia destes, Nosso Senhor não se retrai, é mais ousado, e ainda prova a fé dos que permanecem, mostrando que este é realmente um ponto crucial, quando se trata sobre a Eucaristia: “Desde então muitos dos seus discípulos tornaram atrás, e já não andavam com ele. Por isso Jesus disse aos doze: Quereis vós também retirar-vos?” (6, 67-68). Ele não procura se desculpar nem atenua suas afirmações. É patente que se não fossem afirmações literais Ele teria persuadido os discípulos a ficarem, entretanto isto não se deu, o Divino Mestre vira muitos dos que o seguiam nesta ocasião apostatarem e nem assim Ele se retratou. Aos que permanecem é exigido uma fé profunda, como nos explica HUGON:

“A última parte do capítulo acaba por confirmar a interpretação literal. A multidão murmura, numerosos discípulos se retiram, pois eles acharam muito dura esta linguagem. O Mestre, cuja bondade, entretanto, é inesgotável, não tenta segurá-los, explicando-lhes que suas parábolas têm somente um sentido metafórico e não possuem nada que os possa espantar; ao contrário, ele insiste e conclui que a fé é necessária a qualquer um que queira compreendê-lo.”[2]

            Desta maneira vimos, sucintamente, como realmente, em seu sexto capítulo, São João quis mostrar como a Eucaristia é realmente o Corpo e o Sangue do Divino Salvador, e que não é possível dar outra interpretação às palavras de Cristo. Isto é o mistério de nossa fé, por mais que não compreendamos, nas palavras do Divino Mestre, devemos depositar pela confiança e certeza.

Bibliografia

-Bíblia Sagrada. 43ª ed. São Paulo : Edições Paulinas, 1987.

-HUGON, Édouard. La Sainte Eucharistie. 4ªed. Paris : Pierre Téqui, 1922.

-VV. AA., Initiation Théologique. Vol. IV.  Paris: Éditions du Cerf, 1956.


[1] Il est un fait :  Jean n’a pas rapporté l’intitution de l’eucharistie […]. Plus éloigné des nécessités de la catéchèse, le Ivème évangile est plus préocupé de synthèse doctrinale. (Cf. GRAIL, A.; ROGUET; A.-M., O.P., In Initiation Théologique. Vol. IV. Paris : Éditions du Cerf, 1956. P. 506-507).

[2]  La dernière partie du chapitre achève de confirmer l’interpretation littérale. La foule murmure, de nombreux disciples se retirent, parce qu’ils ont trouvé trop dur ce langage. La Maître, dont la bonté cependant est inépuisable, n’essaie pas de les retenir en leur expliquant que ses paroles n’ont qu’une portée métaphorique et n’offrent rien qui doive les étonner ; au contraire, il insiste et il conclut que la foi est nécessaire à quiconque veut le comprendre. (Cf. HUGON, 1922, p. 54-55).