Uma crônica pelas capelas da Cantareira

Marcos Inácio Melo (2º ano Teologia)Serra

Sob uma inesperada chuva torrencial, que já se tornou quase habitual nestes últimos meses, dois seminaristas dirigem-se a uma das capelas da Paróquia Nossa Senhora das Graças. O temporal aumenta e além do para brisas, mal podem enxergar a estrada. Atravessam a represa de Mairiporã e adentram na Estrada da Cacéia. Termina o asfalto. Mais à frente, um ônibus que derrapou na pista molhada está preso em um barranco. Vazio, somente o motorista com o celular articula alguma palavras. Nada grave. Após 4 km de barro molhado, os dois seminaristas chegam a uma das Capelas da Paróquia Nossa Senhora das Graças, confiada pelo bispo diocesano aos cuidados da Sociedade de Vida Apostólica Virgo Flos Carmeli.

O edifício, com o seu campanário, tem cerca de cem anos. Os dois saem do carro e dão graças a Deus por usarem botas,[1] pois assim que abandonam o carro logo ficam marcadas pelo barro vermelho: não existe calçamento e a grama que reveste o ‘jardim’ não cobre inteiramente o terreno. Com os hábitos encharcados no curto percurso, abrem a porta.  Entram. A escuridão do templo, agravada pela tarde anoitecida precocemente pela densa tempestade, era compensada pela suave luz emanada da lamparina do Santíssimo. Além do Sacrário, a imagem de uma santa ajoelhada diante da Virgem Maria evoca a cena da gruta de Masabiele. Afinal, a padroeira da Capela é Nossa Senhora de Lourdes.

A chuva diminui, embora continue renitente. Um dos seminaristas exclama:

– Será que alguém virá hoje para o catecismo?

A pergunta fica sem resposta. O outro está ocupado em tocar o sino.  Seu som é belo e ecoa pelo vale. Minutos depois, alguns paroquianos apetrechados de guarda-chuvas coloridos sobem a ladeira que dá acesso à capela. No horário determinado, a capela está abarrotada de adolescentes que vieram participar das aulas de catecismo. Aguardam o dia em que vão receber os sacramentos da Eucaristia e do Crisma.

CapeladeLourdesEntretanto, nem todos são jovens. Uma professora e uma vizinha, sem filhos matriculados, também querem assistir às aulas de catecismo, apesar de já terem recebido os Sacramentos de Iniciação Cristã. “Queremos aprender mais” – dizem elas.

Após as aulas, tocam o sino novamente, desta vez para a missa. Alguns catequizandos conversam, enquanto comendo um lanche modesto. Entretanto, alguns Arautos, que vieram reforçar o contingente de seminaristas, afinam os instrumentos, e, os acólitos arranjam o altar e treinam o cerimonial da Missa. O sacerdote chega, e uma fila para confissão se forma.

 Cessa a chuva, e alguns que estão do lado de fora da Capela, por falta de lugares no seu interior, podem assistir à Missa e cumprir o preceito dominical. Celebrada em nosso vernáculo, decorre com simplicidade, mas, ao mesmo tempo, solenidade e decoro. O povo começou recentemente a acompanhar as músicas gregorianas. Nos domingos anteriores um arauto explicou a letra grega do Kyrie e ensinou a pronuncia latina do Sanctus e do Agnus. No começo, a afinação deixava um pouco a desejar, porém, a cada domingo há um progresso considerável. Após um mês, o povo já cantava as partes fixas da missa em gregoriano além dos cânticos populares em português. A Salve Regina, no final da Missa, é a música cantada com segurança a plenos pulmões.

Assim se passa mais um final de semana cheio de atividades, que os Seminaristas da Sociedade Apostólica Virgo Flos Carmeli levam a cabo, nesta sua peregrinação terrena, preparando-se também para as aulas e os exames que se aproximam com uma doutrina prática e formativa.


[1] As botas fazem parte das características próprias ao hábito de um Arauto do Evangelho, e caracterizam o desejo de levar a mensagem do evangelho aos quatro rincões do planeta, seja qual for a terra, ou as condições adversas que se apresentem.

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