ITTA – IFAT

Instituto Teológico São Tomás de Aquino

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A cruz: desastrosa derrota ou glorioso triunfo?

Alessandro Schurig -  3º ano de Teologia

A piedade católica, movida pelo Espírito Santo, modelou ao longo dos séculos variadas formas de devoção àquilo que representa, de maneira tocante, a Redenção do gênero humano: a santa cruz de Jesus Cristo.

crucificado Proponho vê-la por dois prismas distintos:

1. No quadro pintado por Velásquez, deparamo-nos com Nosso Senhor cravado em uma cruz lisa, sem adornos, posta sobre um fundo negro, simbolizando a profunda e lúgubre humilhação na qual esteve posto o Redentor. Ele mesmo está com a cabeça visivelmente caída, e parte dos cabelos sobre o lado direito da face, indicando o quanto Ele está exangue, sem auxílio ou proteção alguma, entregue somente às mãos de Deus. A cena nos sugere o abandono: apenas dois ladrões crucificados a seu lado, sua Mãe e um único discípulo, presenciam sua aviltante morte. Em suma, ao ver essa figura nos vem à mente quanto tudo esteve esmagado, calcado e silenciado perante sua morte.

           Mas, será que na cruz aquele que proclamou: “Eu venci o mundo!” (Jo 16, 33) está um irrevogável derrotado?

Cruz Sant2. Analisemos, em seguida, uma cruz processional levada nas Eucaristias mais solenes da igreja Nossa Senhora do Rosário, dos Arautos do Evangelho, e feita de acordo com as indicações de Mons. João Clá Dias. Nela, vemos Nosso Senhor morto e crucificado, como alguém que, como vimos acima, passou por terríveis humilhações. Porém, as nossas vistas não se detêm, e fixamos o olhar nas vivas e elegantes cores vermelha, branca e dourada que compõem esta cruz… Parecem nos convidar a contemplar Aquele que está nela cravado, mas por isso mesmo cumpriu o que Ele próprio profetizara: “quando for elevado da terra atrairei a mim todo ser” ( Jo 12, 32).  Sem dúvida, está despojado de suas vestes e coroado de espinhos, mas é “Rei dos reis e Senhor dos senhores” (Ap 19, 16), o que bem nos recorda os áureos esplendores que circundam esta cruz.

Foi deste seu oferecimento que floresceu tudo o que existiu e existirá de bom, de belo e verdadeiro na História da humanidade. Foi no momento da crucifixão que o Salvador frustrou os planos de Satanás, comprou para todo o gênero humano a Redenção e, com graças super abundantíssimas, abriu ao homem as portas do Céu.

Tudo isto que Ele concedeu como herança para a humanidade, como fruto de seu Preciosíssimo Sangue, valem imensamente mais do que qualquer pedra preciosa. Mas, as que figuram em Jesus, representando suas chagas, não simbolizarão esta maravilha, que Ele aceitou por nós e para nossa Salvação?

         R ememorando o que a liturgia da Igreja reza na missa da Exaltação da Santa Cruz, “O que vencera na árvore do paraíso, na árvore da cruz foi vencido”, não parece que esta cruz quer nos fazer recordar esta gloriosa vitória de Cristo?

            Por ter Ele quisto utilizar da cruz como instrumento para a redenção, tornou-se ela, de símbolo de ignomínia que era em símbolo de tudo o que há de mais elevado, de mais sagrado: nas catedrais, nas coroas, nas obras mais importantes concebidas pelo homem, aí está a cruz resplandecendo como o estandarte de triunfo do homem-Deus, que atingiu os mais altos píncaros de vitória contra o demônio, o mundo e a carne com sua ignominiosa morte no madeiro. E isto bem pode simbolizar os adornos desta cruz. (Cfr. Oliveira, Plinio Corrêa de. Revista Dr. Plinio, nº 138, setenbro de 2009, p. 4)

            Ao vê-la, temos vontade de rezar à semelhança do autor supracitado: “Na vossa cruz, humilhado, começastes a reinar sobre a terra. Na cruz começou a vossa glória, e não na ressurreição. Vossa nudez é um manto real. Vossa coroa de espinhos é um diadema sem preço. Vossas chagas são vossa púrpura. Oh! Cristo-Rei, como é verdadeiro considerar-Vos na cruz como um rei” (Via Sacra. Legionário Nº 558, 18 de abril de 1943 ).

Uma graça sempre ao nosso alcance

ConfissaoLucas Garcia – 3º Ano de Filosofia (IFAT)

Em sua infinita misericórdia, Deus põe à disposição de Seus filhos, para sua santificação, uma incomensurável quantidade de dons e graças. Alguns destes favores divinos, Ele os dispensa a todo e qualquer fiel. Outros, porém, em sua sabedoria, o Criador os reserva para algumas almas eleitas.

É o caso do dom da profecia, do de fazer milagres e de tantos outros, concedidos apenas em determinadas circunstâncias, de acordo com as necessidades da Santa Igreja.

Alguns pensam que a esta categoria especial de dons pertence a graça da contrição perfeita. Isto não é real. Muito ao contrário, esta graça está sempre ao alcance de todos os ­fiéis, sem qualquer exceção. Mais ainda, ela é de fundamental importância na vida espiritual de todo batizado.

Entre os livros que tratam do tema, destaca-se o do Padre Johann von den Driesch, intitulado A Contrição Perfeita – uma chave de ouro para o céu. Nele, esse fervoroso sacerdote da arquidiocese de Colônia expõe a doutrina católica a respeito, com a clareza do bom pedagogo e o ardor do apóstolo empenhado na salvação das almas.1

Elementos da contrição autêntica

A contrição — ou arrependimento — é a dor de alma que a pessoa sente por haver pecado; essa dor só é verdadeira quando o pecador detesta a má ação praticada e tem o propósito de não mais pecar. Por exemplo, se um ladrão se diz arrependido de um roubo cometido, mas não tem horror ao crime em si, nem faz o propósito de se corrigir, não se pode afirmar que esteja contrito.

Para ser autêntica, a contrição precisa ser interna, ou seja, provir de fato da alma, não pode reduzir-se a meras palavras pronunciadas sem reflexão. Deve também ser geral, isto é, abranger todos os pecados, ao menos todos os pecados mortais. É necessário, por fim, que ela seja sobrenatural, quer dizer, que tenha por base alguma verdade da Fé: o temor de Deus que tem o direito de ser obedecido, o amor de Deus que nos ama, o desejo do Céu, o medo do inferno, etc.

Se alguém assalta um banco e depois se arrepende porque está em risco de ser preso, isso não é autêntica contrição, pois se baseia em motivos meramente naturais.

Sua essência: a vontade de afastar-se do pecado

Como acima dissemos, a graça do arrependimento está ao alcance de todos. Para obtê-la, basta manifestar a Deus com sinceridade de alma o seu pesar por tê-Lo ofendido e o firme propósito de não tornar a pecar.

“A essência da contrição está na alma, na vontade de afastar-se deveras do pecado e converter-se a Deus”, afirma o Padre Johann von den Driesch.

Contrição perfeita e imperfeita

A contrição de um pecador pode ser perfeita ou imperfeita, dependendo dos motivos que o levem a tê-la.

A contrição perfeita procede do amor: o pecador se arrepende pelo fato de ter ofendido a Deus, infinitamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas.

Imperfeita é a contrição que decorre do temor: a pessoa aborrece o pecado pelo medo de perder o Céu e ser lançada no inferno. Por que é chamada de imperfeita? Porque nela o pecador toma em consideração principalmente a si mesmo, e não a Deus.

Exemplos de verdadeira contrição

Vejamos um belíssimo exemplo de contrição perfeita, tirado do Evangelho.

No pátio da casa do sumo sacerdote Caifás, São Pedro negou três vezes a Jesus. Em seguida, saiu e “chorou amargamente” (Mt 26, 75).

Por que chorou São Pedro? Se fosse pelo fato de passar vergonha diante dos outros Apóstolos, seria uma dor meramente natural, não existiria verdadeira contrição. Se fosse por medo de ser excluído do Reino de Cristo, ele teria uma contrição autêntica, mas imperfeita.

Ele chorou, porém, por um motivo muito elevado, como diz o Padre von den Driesch: “Pedro arrepende-se e chora, antes de tudo, porque ofendeu a seu amado Mestre, tão bom, tão santo, tão digno de ser amado [...]. Tem, pois, verdadeira e perfeita contrição”.

Os Evangelhos nos narram mais um magnífico exemplo de contrição perfeita: o da pecadora que se prostra aos pés de Jesus, banha-os com suas lágrimas, enxuga-os com seus cabelos, beija-os e, por fim, os unge com perfumes. E o Divino Mestre declara que “seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela muito amou” (Lc 7, 47).

Contrição perfeita e confissão

Que pela contrição perfeita o pecador obtém o perdão dos seus pecados antes mesmo de confessar-se, é doutrina afirmada no Concílio de Trento (14ª sessão, cap. 4).

Entretanto, adverte o mesmo Concílio, ela não dispensa o pecador da necessidade de acusar-se de todos os seus pecados mortais no Sacramento da Confissão e de receber a absolvição do ministro de Deus. De modo que no próprio ato de contrição perfeita deve estar incluído o propósito de confessar-se.2

Quanto tempo depois? É pelo menos muitíssimo aconselhável confessar-se logo que possível.

“Mas é tão difícil ter contrição perfeita!” — poderá alguém pensar.

Puro engano! Para dar-nos essa graça, Deus exige de nós uma atitude bem ao nosso alcance: desejá-la realmente e pedi-la com insistência. O Padre Johann von den Driesch  sugere, entre outras, esta curta oração: “Senhor, dai-me a graça do perfeito arrependimento, da perfeita contrição dos meus pecados”. A quem assim pede, com boa vontade e de coração sincero, Deus não deixará de atender.

Efeitos da contrição perfeita

São maravilhosos os efeitos e benefícios que a contrição perfeita nos obtém.

A quem é pecador, ela perdoa imediatamente os pecados cometidos, devolvendo-lhe a graça santificante pela qual ele volta a ser filho de Deus, livrando-o das penas do inferno e restituindo-lhe os méritos perdidos.

Dir-se-á, então, que a contrição perfeita beneficia apenas a quem cometeu pecado mortal. Não é verdade, pois ela robustece o estado de graça naqueles que não o perderam. Cada ato de contrição perfeita aumenta o grau da graça santificante em nossa alma, tornando-a mais formosa aos olhos de Deus!

*     *     *

Eis aí, leitor, um imenso dom que Deus deixou ao nosso alcance. Saibamos bem aproveitar esta dádiva celeste, procurando fazer diariamente muitos atos de contrição perfeita. Pois, além dos benefícios enumerados acima, quem se habitua a fazê-los com freqüência os repetirá, por assim dizer, instintivamente na hora da morte. Portanto, uma prática benéfica também nos casos de pecados veniais, ou até mesmo quanto às imperfeições.

Saibamos aproveitar a imensa bondade do Criador que nos dá essa misericordiosa oportunidade de nos apresentarmos diante dEle inteiramente limpos de pecado! ²

1 Driesch, Johann von den. A Contrição Perfeita – uma chave de ouro para o céu, Tip. São Francisco, Bahia, 1913.

2 Cf. DENZINGER – HÜNERMANN, n. 1677.

ARAUTOS DO EVANGELHO, N. 84, DEZ 2008.

Instituto São Tomás de Aquino (ITTA) promove curso de iniciação Teológica

con1Sábado, dia 27 março, houve a aula inaugural do Curso de iniciação teológica do Instituto Lumen Sapientae.

 O Diácono Carlos Werner Benjumea EP, Prefeito dos Estudos do ITTA, ministrou a aula Inaugural com o tema: “Introdução à Teologia”.

O curso de Iniciação Teológica é promovido pelo ITTA aos Membros do Apostolado do Oratório, “Maria, Rainha dos Corações”, e simpatizantes dos Arautos do Evangelho. Também alguns paroquianos e catequistas da Paróquia Nossa Senhora das Graças participaram do evento.

conf2O Curso tem como finalidade proporcionar aos alunos a oportunidade de aprofundar sua fé pelo estudo da Ciência Sagrada e a meditação da Verdade Revelada, dando-lhes os meios necessários para desenvolver com maior segurança e propriedade, o apostolado no tempo. 

Ao fim da Aula Inaugural, foi celebrada a Missa de Ramos, pelo Revmo Pe. Hamilton José Naville, EP, Diretor do Instituto Filosófico Aristotélico Tomista (IFAT). Após a Eucaristia, os alunos participaram de um jantar, no qual foi servido uma saborosa pizza. 75 pessoas estão inscritas no curso.conf3

O Curso está organizado em 24 módulos, ministrados em encontros mensais, aos terceiros sábados de cada mês, das 15:00 às 18:15, na sede do Apostolado do Oratório.  Terá a duração de 25 meses.

 Sede do Apostolado do Oratório
Rua Francisca Júlia, 182 – Bairro Santana
São Paulo/SP – Brasil
CEP 02403-010
Tel: (11) 2973 9477
e-mail: [email protected]

Padre Bruno Esposito visita o Seminário

Marcos Eduardo Melo dos Santos – 2º ano de Teologia

Fr Bruno1Padre Bruno Esposito, OP visita o Seminário de Virgo Flos Carmeli. Vestido com seu belo hábito dominicano, Padre Bruno chegou ao Seminário no dia 25 de março, Solenidade da Anunciação. O religioso dominicano foi  Decano da Faculdade de Direito Canônico e Vice-reitor do Angelicum em Roma, e é atualmente consultor da Congregação para a Doutrina da Fé.

No mesmo dia, o ilustre canonista concelebrou junto com oito sacerdotes da Sociedade Virgo Flos Carmeli, a Eucaristia presidida por Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, EP.

Na saudação inicial da Missa, Monsenhor João Clá ressaltou que, na Solenidade da Anunciação do Senhor “celebra-se a festa da sagrada escravidão, entendida como nos escritos de São Luís Maria Grignion de Montfort”. Neste dia, rememora-se o misterioso e sublime acontecimento, em que “Nosso Senhor Jesus Cristo, que o Universo não podia conter, encarnou-se milagrosamente no seio puríssimo de Maria”.

Monsenhor João Clá também saudou o visitante: “Neste dia, Nossa Senhora nos dá um presente: a presença do queridíssimo ‘dominicano-arauto’ e ‘arauto-dominicano’, Padre Bruno Esposito”.

A Homilia foi proferida em italiano, pelo sacerdote dominicano, na qual ressaltou que a encarnação é a festa do amor de Deus. Amor sublime, que se demonstrou em plenitude no sacrifício da Cruz. Amor que exige dos homens gratidão, humildade e reciprocidade. A correspondência a este amor se dá na união com Deus, que é a finalidade do homem nesta terra. Esse amor deve se refletir na vida comunitária e no reconhecimento explícito e repleto de ternura do amor de Deus por nós.

A Igreja estava repleta de Arautos do Evangelho, de seminaristas de Virgo Flos Carmeli,Fr Bruno2 além das irmãs da Sociedade Regina Virginum.

Além de trabalhos referentes ao cargo de consultor canônico para assuntos da Sociedade Clerical Virgo Flos Carmeli, o célebre canonista acompanhará durante um mês a formação dos seminaristas dos Institutos Filósofico Aristotélico Tomista (IFAT) e Instituto Teológico São Tomás de Aquino (ITTA).

Que reconheçamos o grande amor de Deus por nós

Homilia do Padre Bruno Esposito OPFr Bruno3

Igreja do Seminário da Sociedade Virgo Flos Carmeli

25 de março de 2010, Solenidade da Anunciação do Senhor

É impossível negar um pedido de Monsenhor João Clá, de maneira que me cabe hoje fazer a homilia. A Festa de hoje é o centro da Vida Cristã, o tema dominante da vida de Jesus Cristo e a síntese de nosso caminho de Fé.

            Contemplando nesta Igreja a cópia do afresco da Anunciação, pintada pelo Beato Fra Angélico, lembro-me do comentário feito pelo Papa João Paulo II, diante do afresco original, ao visitar a Basílica de São Marcos, em Veneza. Comentava o Papa que, nesta cena, está contida a síntese da História da Salvação.

De fato, o afresco de Fra Angélico retrata, em primeiro plano, a cena da Anunciação do Anjo a Nossa Senhora, ocasião em que o Verbo Eterno se encarnou. Ao lado, está pintada a cena de nossos primeiros pais sendo expulsos do Paraíso. É a cena que, por excelência, simboliza o pecado original e suas consequências. Realmente, o afresco sintetiza, estupendamente, a História da Salvação.

A festa de hoje nos faz contemplar, admirativos, o amor de Deus por nós. Projeto providencial de Cristo que se fez carne por amor a nós. A encarnação é a sua grande prova de amor. E, em face desta demonstração de amor, não devemos ser ingratos. Pois, o maior pecado que alguém pode fazer ao próximo, é desprezar o amor que recebeu. Ser indiferente a esse amor de Deus é uma grande ofensa, e hoje, não podemos negar e desprezar este amor de Deus, porque esse amor exige de nós uma resposta.

O essencial da Solenidade da Encarnação é a ação de Deus, porém, quis Ele condicionar à resposta de Maria essa encarnação. Por isso, Maria teve especial papel pela sua resposta perfeita, pelo seu incomensurável amor. Somente uma coisa Deus não pôde fazer no mundo: colocar limites ao amor. Nesta vida, o amor sempre pode e deve crescer. Assim, o amor de Maria sempre cresceu.

Fr Bruno4Contemplar este amor de Deus significa guardar em nosso coração e dizer sim a Ele, por isso, Deus nos diz: “Coragem! Não temeis! Avante!”.

Certo é que, o anuncio da encarnação, este anúncio de amor, exige uma resposta humilde, e de certo modo confusa. A resposta de Maria assim o foi, mas além de humilde e confusa foi, sobretudo, generosa.

Deus quer generosidade. Generosidade que não visa auto-realização, mas sim, felicidade, beatitude, salvação e sobrenatural. Generosidade em executar a vontade de Deus.

Deus quer a força da humildade. Como disse o Apóstolo, omnia possum in eo qui me confortat. Deus concede aos humildes uma força irresistível. De fato, Deus quer que reconheçamos nossa miséria, nosso pecado, mas, mormente, quer que reconheçamos seu amor a nós.

Quer humildade, mas quer também honestidade, como encontrou em Suzana. Que preferiu a morte, em lugar de se ver manchada pelo pecado. Esta reflexão sobre a grandeza do amor de Deus por nós exige também uma resposta de nosso amor.

Na Páscoa, Deus quer que não percamos tempo com as ninharias da terra, mas sim, que cumpramos nossa finalidade,Fr Bruno5 que nada mais é que a união com Deus, a comunhão com Ele. Ele quer que aspiremos às coisas mais elevadas. Não quer de nós um coração de pedra, mas sim, de carne, isto é, que transformemos nossa existência pelas coisas mais belas, puras e elevadas.

Entre as coisas mais elevadas, a Cruz é o mais sublime símbolo da Terra, é um sinal irrefutável do amor de Deus. Amor que deve ser correspondido, e que, em consequência, se reflete na vida comunitária seguida com perfeição. Mas, ainda que não sejamos perfeitos, esse amor quer nossa participação e correspondência.

É o que a liturgia de hoje tem a nos dizer. Que reconheçamos o grande amor de Deus por nós.

 

Fotos: Ivan Tefel – 3º Ano de Teologia

Tradução e Adaptação: Marcos Eduardo Melo dos Santos – 2º de Teologia

(Sem revisão do Autor)

Palestras de membros do ITTA na Paróquia Nossa Senhora das Graças

Davi Werner Ventura – 2º ano de  Teologia

santo-sudario1 O professor Tiago de Oliveira Geraldo, mestrando em Teologia Bíblica pela Bolivariana (UPB), realizou no dia 10 de março uma palestra com o tema: “O Santo Sudário”. Fundamentado na Teologia Bíblica e nos recentes estudos científicos sobre o sudário de Turim, o expositor tratou de diversos aspectos do tema ressaltando as conseqüências espirituais que devem mover os cristãos durante o Tríduo Pascal.

No dia 17 de março, Thiago Neuburger – aluno do 3º ano de Teologia – fez uma palestra sobre “A origem e sublimidade da Via Sacra”. Os dois eventos foram realizados na Capela Nossa Senhora do Monte Calvário e concluídos com a recitação da Via Sacra composta por Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias. A capela estava repleta nas duas ocasiões.

Nossa Senhora da Glória do Outeiro

Outeiro02Marcos Eduardo Melo dos Santos – 2º Ano de Teologia

 Alvejando à luz do sol tropical durante o dia ou refulgindo com suas paredes iluminadas em meio à quente noite carioca, o pequeno templo bem parece uma jóia, ou um inocente brinquedo esquecido sobre um dos morros da Baía de Guanabara.

Existem alguns panoramas privilegiados, de beleza tão extraordinária e atraente que, ao contemplá-los, não poucas pessoas, tomadas de arrebatamento, pensam: “Ah! Pudesse eu viver aqui para sempre, inebriando-me todas as manhãs com este maravilhoso cenário!”.

Entre essas excepcionais paisagens encontra-se, sem dúvida, a magnífica Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.

A beleza do local deslumbrou os portugueses desde quando chegaram a estas terras e, em especial, certo homem chamado Antônio de Caminha, natural de Aveiro. O grandioso panorama certamente lhe evocava o Deus Criador, artífice de tal maravilha. Buscando viver incógnito e solitário como um ermitão, Antônio, em 1670, refugiou-se numa gruta do chamado “Morro do Leripe”, para lá viver em oração e contemplação.

Dotado de talentos artísticos, esculpiu ele mesmo uma imagem da Virgem Maria, a qual, sob a invocação de Nossa Senhora da Assunção, ou da Glória, venerava em sua ermida. Com o passar dos anos, o local começou a atrair a devoção de outros fiéis, que acabaram por constituir uma fervorosa irmandade em torno da veneranda imagem. Posteriormente, edificaram nesse mesmo local uma pequena capela de taipa.

Décadas depois, tendo essa devoção crescido entre os habitantes do Rio, nasceu o desejo de erigir uma igreja, emOuteiro01 substituição à capelinha original, que já se encontrava deteriorada pelo tempo. Sob a direção do arquiteto Tenente-Coronel José Cardoso Ramalho, a construção foi concluída em 1739. Neste mesmo ano, Dom Frei Antônio de Guadalupe, Bispo diocesano do Rio de Janeiro, instituiu canonicamente a Irmandade de Nossa Senhora da Glória.

*     *     *

Um grandioso panorama natural, como o da Baía de Guanabara, mereceria ser complementado por uma obra arquitetônica de vastas dimensões. Entretanto, mesmo um edifício singelo e, por assim dizer, virginal — como a Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro — pôde aprimorar, com seu discreto encanto, a fabulosa beleza posta ali pelo Criador.

Alvejando à luz do sol tropical durante o dia ou refulgindo com suas paredes iluminadas em meio à quente noite carioca, o pequeno templo bem parece uma jóia, ou um inocente brinquedo esquecido sobre um dos morros da Baía de Guanabara.

A bucólica igrejinha faz parte dos tesouros da arquitetura barroca no Brasil. Suas características paredes brancas, emolduradas por pedras de granito, podem ser vistas de toda a planície do Aterro do Flamengo. Dois octógonos irregulares, alongados e interligados, compõem a nave central e a sacristia. Sobre eles paira a torre, de quatro faces, encimada por uma cúpula em forma de bulbo.

Transpondo as austeras portas de jacarandá, chamam a atenção do visitante as colunas de cantaria, primorosamente talhadas, e os azulejos portugueses ilustrados com temas bíblicos. Os três altares, em estilo rococó, são obra de Inácio Ferreira Pinto, e sobre o arco da capela-mor encontra-se o escudo da Família Imperial Brasileira.

Em 1937, a Igreja de Nossa Senhora da Glória foi declarada Monumento Nacional, e em 1950 o Papa Pio XII conferiu-lhe o honroso título de Basílica Nacional da Assunção. ²

 (Revista Arautos do Evangelho, dezembro de 2008, nº 84)

Novas sementes no jardim da Igreja

recep habitosEggon Kisser (2º ano de teologia)

 Certa vez, contou-me um amigo agrônomo catarinense que, ao norte da China, próximo da Sibéria, encontraram uma semente de sequóia congelada há milhares de anos.

Plantaram-na, e, mirabilia dicta, a planta germinou; o ‘caulinho’ verde cresceu viçoso, formou folhas verdes e saudáveis. Hoje, atinge quase 30 metros de altura. É o único exemplar desta sequóia, no mundo inteiro, e os cientistas procuram reproduzi-la.

A história desta semente de sequóia evoca outras sementes, mais numerosas, porém, igualmente pouco comuns no mundo atual. Sementes que poucos na ordem temporal, por ora, se solidarizaram em defender. Trata-se de novas vocações religiosas, que vão germinando em todos os recantos do mundo…

Jovens que tomaram uma madura e desafiante decisão, em meio a uma alegria própria à idade, de entregar-se inteiramente pelo Reino de Deus, até a mais avançada ancianidade. Adolescentes que desejam abraçar uma vida de celibato, pobreza e obediência por amor a Deus e a Nossa Senhora.

            Por mais que as condições fossem adversas, e fizessem a germinação parecer impossível, as sementes destas vocações conseguiram irromper o secularizado mundo contemporâneo.

Foi o que se deu, nesta sexta-fera, 19 de março, solenidade de São José, com os 22 adolescentes do Seminário menor de Virgo Flos Carmeli, que receberem o hábito de juniores das mãos do Fundador e Superior geral, Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, EP. A Igreja estava repleta de amigos e familiares, emocionados e tocados com a cerimônia.

Rezemos, pois, pelo crescimento destas sementes oriundas de diversas regiões do Brasil, Japão, Canadá e Índia. E, por todas as vocações religiosas de todas as dioceses e institutos da Igreja Católica.

Os Anjos falam?

Felipe Rodrigues de Souza (3º Ano Teologia)Anjo Fra Angélico

“As únicas jóias que embelezam a esposa de um Rei Crucificado são os espinhos e a Cruz”, disse a Santa Gema Galgani o seu Anjo da guarda. Desde muito jovem Gema via o seu Anjo, conversava com ele e até mesmo rezavam juntos. Eram companheiros inseparáveis.

A jovem possuía uma beleza privilegiada, sua mãe havia falecido, seu pai entrara em falência, a melhor solução para todos estes problemas seria encontrar um esposo rico para a moça. O que não seria difícil. Para isso, deram-lhe de presente duas belas jóias: um relógio de pulso e um crucifixo para portar ao pescoço. O presente agradou muito a pequena Gema, que foi logo ver no espelho como lhe caiam e que efeito produziria nos outros.

Apenas tendo consentido nesta pequena vaidade, viu atrás de si um jovem de rara beleza, radiante de luz, mas entristecido e quase zangado que lhe fitava com olhar severo. “As únicas jóias que embelezam a esposa de um Rei Crucificado são os espinhos e a Cruz”. A partir desse dia, nunca mais Santa Gema se adornaria com outras jóias que não fossem essas apresentadas por seu Anjo.[1]

Conversar com o próprio Anjo da Guarda, como quem fala com um amigo íntimo ou um irmão é um fato extraordinário, que raras vezes acontece. Mas, os Anjos comunicam-se conosco, por meio de uma linguagem que não é de palavras, e  mais frequentemente do que se pensa. Basta ter espírito de fé e ter a atenção voltada para as realidades sobrenaturais.

A doutrina católica ensina que Deus designa um Anjo para guardar cada homem desde o instante de seu nascimento. Esse Anjo não terá outro a quem proteger durante toda a história da humanidade, mas somente aquele. São estes celestes guardiões que nos amparam permanentemente em nossa peregrinação terrena. [2] [3] [4] [5] [6] [7] [8] [9]

Acontece que nem todas as pessoas têm esse relacionamento tão direto com o seu próprio Anjo da guarda, como o tinha Sta. Gema. Entretanto, de alguma maneira, sempre estamos nos relacionando com o nosso Anjo, e, sobretudo, ele conosco. Mas como se dá essa comunicação se não possui corpo material, e, portanto, não tem boca nem língua? Como conversam os Anjos?

O doutor angélico nos explica que os Anjos podem se comunicar de duas maneiras distintas, tanto com os homens quanto entre si: pela iluminação e pela simples locução.

A iluminação é o ato pelo qual se manifesta uma verdade. [10]  Assim se diz que um Anjo ilumina outro quando lhe manifesta uma verdade que conhece e que lhe foi revelada por Deus e que o outro desconhece ou conhece em grau inferior. Esta iluminação é concedida por Deus a todos os Anjos, mas nem todos a recebem – ou aproveitam – de igual modo.[11] Isto, entretanto, não se deve a uma deficiência do modo pelo qual Deus os ilumina, mas porque a capacidade de apreender é maior para uns e menor para outros.

Para exemplificar a tese, o Pseudo-Dionísio nos oferece a imagem da difusão do raio de sol, que “atravessa sem dificuldade a primeira matéria, a mais translúcida de todas, e, através dela, faz brilhar mais luminosamente os próprios reluzimentos”, mas que, assim que ela choca com matérias mais opacas, “mais reduzida é sua manifestação difusiva, em razão da inaptidão das matérias iluminadas em possuir um hábitus transmissor do dom da luz”, que decresce pouco a pouco até que por fim a transmissão se torne mais ou menos impossível[12]. Portanto, a razão desta insuficiência no aproveitamento da iluminação por parte dos Anjos inferiores deve-se apenas à sua maneira menos perfeita de compreender as verdades que lhes são propostas. Por isso os Anjos superiores transmitem aos inferiores o que viram de Deus.

Segundo São Tomás a iluminação é feita da seguinte maneira: um fortalecimento, por parte do Anjo superior, da capacidade que o Anjo inferior tem de conhecer, o que se pode dar simplesmente com a sua presença ou pela solicitude deste para com o Anjo inferior, como se lhe estimulasse a fim de que pudesse conhecer verdades de ordem mais elevada.[13]

Como já vimos, o Anjo superior tem uma capacidade maior de apreender essas verdades sobrenaturais que o Anjo inferior, então para que este possa entender aquilo que o Anjo superior quer lhe transmitir é necessário da que o Anjo superior fragmenta seu conhecimento para que o Anjo inferior consiga entender. O exemplo que o próprio São Tomás dá para esta teoria é de um professor que tem um conhecimento muito amplo da matéria que leciona e que ao apresentá-la aos alunos divide-a em partes coerentes e ordenadas, de modo que os alunos possam entendê-la. Evidentemente, os alunos terão um conhecimento da matéria muito inferior e mais fracionado em relação ao do professor, portanto menos rico. Assim se passa com os Anjos.[14]

Esta forma de comunicação só se dá da parte dos Anjos superiores para com os Anjos inferiores, mas existe uma outra forma de comunicação, que é a simples locução, na qual também os Anjos inferiores “falam” aos superiores. São Tomás explica que a locução tem por finalidade manifestar algo desconhecido àquele com quem se fala ou pedir-lhe alguma coisa.[15]

A locução se distingue da iluminação, porque a iluminação se refere às verdades que procedem de Deus como verdade primeira. A locução tem por objeto a revelação daqueles conhecimentos que dependem da vontade do comunicante e que São Tomás denomina “segredos do coração”. Não são verdades essenciais; são dados da própria consciência pessoal, cuja manifestação está debaixo do selo da própria vontade. Daí a liberdade característica de tal comunicação da intimidade[16].

Evidentemente, a comunicação dos Anjos uns com os outros não se expressa com sons, palavras ou outro elemento material, pois sua natureza é puramente espiritual. A sua comunicação corresponde a um ato de vontade de que outros Anjos conheçam ou compreendam conceitos que possuem e que conservam ocultos, e podem inclusive dar a conhecer a uns e não a outros, conforme sua vontade.[17] Assim, os Anjos falam também a Deus, perguntando-Lhe coisas, pedindo esclarecimentos, louvando-O e glorificando-O.[18]

Isso que no Anjo é co-natural, no homem pode se dar pela graça. Um Anjo superior pelo simples fato de voltar-se para o inferior já lhe amplia a capacidade cognoscitiva.[19] Nós poderíamos sentar ao lado de São Tomás de Aquino durante uma semana que provavelmente não ficaríamos mais inteligentes, mas por uma graça de Deus poderíamos ficar. O exemplo prototípico disso é o cumprimento de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel. Maria provavelmente não deu uma aula filosófica à sua prima, mas o simples fato de Ela ser quem é e estar ali próxima e de fazer ouvir sua voz, foi o suficiente para que Santa Isabel percebesse estar ali a Mãe do Messias e para santificar São João batista no claustro materno.

É sem dúvida essa “iluminação” que nos move a querermos estar próximos das pessoas de quem gostamos, pois sentimos que alguma coisa nos eleva e nos atrai.

E sobre o que conversam os anjos? Evidentemente, o principal objeto da conversa angélica é Deus, pois toda criatura tende naturalmente a voltar-se para o Criador, sobretudo em se tratando de criaturas tão perfeitas como são os Anjos, a além do mais estando eles na Visão Beatífica, sempre vendo aspectos novos de Deus durante toda a eternidade, pois sendo Deus infinito, por mais que eles vejam a Deus no seu todo, não O vêem totalmente, posto que isso é impossível a qualquer criatura.

Mas, podemos concluir disso que um dos temas sobre os quais os Anjos conversam é a intervenção de Deus na Obra da Criação, ora o elemento mais importante da criação é o homem. Em última análise os anjos conversam sobre a ação de Deus na história da humanidade.[20] A respeito da criação os Anjos superiores comunicam aos inferiores tudo o que vêem em Deus, pois como vimos, os superiores vêem de maneira mais rica todas as coisas e iluminam os inferiores sobre aquilo que viram.

Poderíamos imaginar inclusive uma conversa angélica na qual os nossos Anjos da Guarda perguntam a algum Anjo mais elevado como compreender melhor aquele do qual é guardião e querendo saber por que fez aquilo, por que deixou de fazer isto, etc., e o Anjo superior explica que isso aconteceu por que sua natureza é constituída de tal maneira e que seria conveniente agir com ele de tal ou qual modo, que Deus tem este ou aquele plano para ele, etc. Enfim, cada um pode imaginar – ou dar-se conta de que já aconteceu – mil circunstâncias em que nossos Anjos da Guarda recorreram a Deus, através dos Anjos superiores, para nos auxiliar.

Portanto, nossos Anjos da Guarda estão muitas vezes conversando sobre nós com os Anjos que lhes são superiores, de maneira que nós fazemos parte de uma “cascata” de Anjos que estão preocupados com cada um de nós para nos proteger, auxiliar e interceder por nós junto a Deus.

Mas eles não conversam apenas entre si ou com Deus. Também com os homens eles se comunicam. Por uma sublime disposição da Providência Divina, os seres superiores se tornam intermediários entre Deus e os que lhes são inferiores. Assim os Anjos são intermediários entre o Criador e os homens.[21]

Como diz São Tomás, citando São Dionízio, o homem não é capaz de captar um conceito puramente abstrato se não houver em sua mente algo à maneira de um invólucro que sirva de imagem para poder entender. Por isso os Anjos apresentam as verdades que querem transmitir aos homens sob uma aparência sensível a seus sentidos.[22]

Os Anjos, tanto os bons quanto os maus, têm poder sobre a imaginação humana[23], podendo nos inclinar à prática da virtude, dando-nos boas inspirações, sugerindo-nos bons propósitos, podem nos ajudar em nossas tarefas proporcionando-nos boas idéias, enfim, em toda sorte de ações podemos ser profundamente influenciado pelos espíritos angélicos. Os demônios, pelo contrário, estão sempre à espreita de uma oportunidade para nos fazer ofender a Deus, prejudicarmos  nosso próximo, consentirmos em algum movimento de inveja, de raiva, sobretudo de desespero ou desânimo.

Para sabermos quem é que está agindo em nós existe um termômetro  muito eficaz. Onde entra agitação ou perturbação, sempre a causa são os demônios. Quando sentimos alegria, paz de consciência e boas disposições de alma para ajudarmos os outros, nos sacrificarmos por alguém, podemos estar certos de ser isso fruto da ação dos espíritos angélicos.

Além desse tipo de auxílio que recebemos sempre de nosso Anjo da Guarda, a algumas almas Deus concede auxílios especiais. Por exemplo, Santa Faustina foi designada em determinado momento para ser porteira de seu convento. Entretanto, temia ela profundamente que o convento fosse algum dia invadido por bandidos. Pediu a Deus que a amparasse nessa difícil tarefa. Assim narra a santa o que aconteceu: “‘Minha filha, assim que fostes designada para este serviço, pus um querubim para te guardar. Portanto, não te inquietes.’ Depois de minha conversa com o Senhor, vi uma leve nuvem branca e, dentro na nuvem, um querubim, de mãos postas, cujo olhar era semelhante ao relâmpago.” [24]

Isso pode não nos acontecer todos os dias, ou talvez nunca na vida. Tanto melhor, pois Deus está querendo nos cumular de méritos pedindo que acreditemos sem ver. O que é absolutamente certo é que, vendo ou não, temos constantemente ao menos um Anjo que está ao nosso lado para toda e qualquer necessidade. Muitas vezes ele mesmo toma a iniciativa de nos ajudar, mas deixá-lo-iamos muito contente se nós também pedíssemos sua intercessão.

Ter um Anjo da Guarda é um dom do qual Deus é tão cioso que inclusive os não batizados o possuem. Antes do batismo não se pode receber a Eucaristia, não se tem a inabitação da Santíssima Trindade, não se tem a Deus como Pai e Amigo dentro da própria alma, entretanto Deus quer dar a todos um protetor e um amigo de todos os momentos a todos os homens.[25]

Se nós sentimos tantas vezes as insídias diabólicas a combater contra nós, com quanto mais razão não estará nosso Anjo da Guarda a combater por nós? Se ele nos permite alguma tribulação, provação ou sofrimento, é apenas para nosso bem, embora possamos não entender naquele momento.[26] Mas quanto mais nos sentimos abandonado, mais estamos sendo aparados insensivelmente por nosso Santo Anjo.

Quantas vezes a mãe não dá à criança um brinquedo, e, notando nesta um certo desprezo pelo brinquedo finge que vai tirá-lo de suas mãos? Então a criança se reanima na consideração do brinquedo. Assim também faz conosco o nosso Anjo da Guarda. Quando ele percebe que estamos entorpecidos na vida espiritual ele parece se afastar de nós, mas na realidade ele nos está aproximando dele. A melhor maneira de encaminhar alguém para o bom caminho é atraí-lo para esse caminho e não obrigá-lo a entrar por ele.

Peçamos, pois,  a Deus e a sua Mãe Santíssima uma devoção entranhada aos Anjos, esses gloriosos intercessores celestes, de que muitas vezes esquecemos.


[1] Basilio, p. 25 e 26.

[2] Cf. Catéchisme du Concile de Trente, Parte 4, Cap. 39, n. 1.

[3] Cf. JOÃO XXIII, Discurso do 2 de outubro de 1960.

[4] Cf. VALBUENA, Jesús, Introdução à questão 113, p. 932. Suma Teológica, BAC, Madrid, 1950

[5] Cf. BASÍLIO, São, Contra Eunômio, Livro 3, n. 1.

[6] Cf. ORÍGENES, Comentários ao Evangelho de São Mateus, 5.

[7] Cf. JERÔNIMO, São, Commentaire sur Saint Matthieu, Tomo 2, Livro 3, Cap. 18.

[8] Cf. JOÃO XXIII, Discurso na Basílica de Santa Maria dos Anjos de 9 de setembro de 1962.

[9] Cf. AQUINO, São Tomás de, Suma de Teología, I pars, quest. I, q. 113.

[10] Cf. AQUINO, São Tomás de, Suma de Teología, I pars, quest. I, q. 106, a. 1, resp.

[11] Cf. AQUINO, São Tomás de, Suma de Teología, I pars, quest. I, q. 106, a. 4, resp.

[12] La diffusion du rayon solaire traverse sans difficulté la première matière, la plus translucide de toutes, et, à travers elle, fait briller plus lumineusement ses propres resplendissements, mais que, dès qu’elle se heurte aux matières plus opaques, plus réduite est sa manifestation diffusive, en raison de l’inaptitude des matières éclairées à posséder un habitus transmetteur du don de lumière, et elle décroît peu à peu de ce niveau jusqu’à ce que finalement la transmission devienne à peu près impossible (DIONÍSIO, La Hiérarchie Céleste, Chap. XIII, 3).

[13] Cf. AQUINO, São Tomás de, Suma de Teología, I pars, quest. I, q. 106, a. 1, resp.

[14] Cf. AQUINO, São Tomás de, Suma de Teología, I pars, quest. I, q. 106, a. 1, resp.

[15] Cf. AQUINO, São Tomás de, Suma de Teología, I pars, quest. I, q. 107, a. 2, resp.

[16] La locución se distingue de la iluminación, porque la iluminación se refiere a las verdades que proceden de Dios como primera verdad. La locución tiene por objeto la revelación de aquellos conocimientos que dependen de la voluntad del comunicante y que Sto. Tomás denomina “secretos del corazón”. No son verdades esenciales; son datos de la propia conciencia personal, cuya manifestación está bajo el sello de la propia voluntad. De ahí la libertad característica de tal comunicación de la intimidad (BARRENECHEA, José Maria, Introdução às questões 103 a 119, p. 878) Suma Teológica, 4ª ed., BAC Maior, Madrid, 2001.

[17] Cf. AQUINO, São Tomás de, Suma de Teología, I pars, quest. I, q. 107, a. 2, resp.

[18] Cf. AQUINO, São Tomás de, Suma de Teología, I pars, quest. I, q. 107, a. 3, resp.

[19] Cf. AQUINO, São Tomás de, Suma de Teología, I pars, quest. I, q. 106, a. 1, resp.

[20] Cf. AQUINO, São Tomás de, Suma de Teología, I pars, quest. I, q. 113, a. 8, sed contra e resp.

[21] Cf. AQUINO, São Tomás de, Suma de Teología, I pars, quest. I, q. 111, a. 1

[22] Cf. AQUINO, São Tomás de, Suma de Teología, I pars, quest. I, q. 111, a. 1

[23] Cf. AQUINO, São Tomás de, Suma de Teología, I pars, quest. I, q. 111, a. 3

[24] Faustina, p. 330.

[25] Cf. AQUINO, São Tomás de, Suma de Teología, I pars, quest. I, q. 113, a. 5

[26] Cf. AQUINO, São Tomás de, Suma de Teología, I pars, quest. I, q. 113, a. 6

O pincel da sublimidade e da temperança

Iván Daniel Tefel Amador (3º Ano de Teologia)

Catedral FriburgoGótico, vitrais, escolástica… A sonoridade deste conjunto de palavras harmônicas ilustra-nos na mente uma era histórica, que sem ser a ideal, foi em muitas coisas exemplar. Entretanto, esta não surgiu por geração espontânea, pelo contrário, frutificou de um processo soprado pelo Espírito Santo.

De fato, estudando a História da Igreja, comprovamos a importância e providencialidade do Império Romano, pois estendendo-se e dominando uma grande parte do mundo civilizado, favoreceu grandemente a expansão do Cristianismo nascente. Com a decadência deste “Colosso” e a invasão dos bárbaros, as expectativas humanas a respeito da continuidade da civilização, da cultura e do próprio Corpo Místico de Cristo, foram abaladas. Porém, os planos insondáveis de Deus fizeram surgir dentro deste caos – como um lírio puríssimo que nasce do lodo, na noite e sob a tempestade – uma civilização, fruto do preciosíssimo sangue derramado no Calvário.

Desabrocha então, no seio da Igreja, uma noção muito ampla do amor a Deus, fonte de toda beleza e um modo de ver a santidade, donde se entende que a prática dos Mandamentos, sobretudo do primeiro, leva o homem a querer implantar o verum, bonum e pulchrum neste vale de lágrimas, para que tudo se torne semelhante ao Céu. Daí as ordens religiosas, constituídas para praticar a perfeição espiritual e o desapego dos bens materiais, estarem na origem de inúmeras maravilhas que ornaram aquele lírio imaculado de que falávamos.

Angelico

Na Ordem fundada por São Domingos – no decorrer de sua existência quase milenar – surgiram muitíssimos luminares como São Tomás de Aquino, São Pio V, Santa Catarina de Sena, etc. Dentro dessa constelação, sobressai pelo seu brilho intenso e atraente o bem-aventurado Fra Angélico, citado por Pio XII como “o santo religioso e sumo artista”, e que com toda justiça é considerado o pintor católico por excelência.

Tendo nascido no fim do século XIV, e vivido a maior parte da sua vida no período da Renascença, o Beato Angélico – cujo nome era Guido de Fiésole, e mais tarde, João de Fiésole ao entrar na ordem dominicana – foi um artista caracteristicamente medieval.

Iniciou seu caminho na ordem dos pregadores por volta de 1420 e, pouco tempo depois, recebeu a Ordenação sacerdotal. “Entre 1439 e 1445 fez parte da comunidade dominicana de S. Marcos, em Florença, sendo prior Santo Antonino”.[1] Aí, encheria de seus afrescos todos os ambientes que o circundavam: o claustro, a sala capitular, os corredores e até as celas do convento, pois ele era trocado periodicamente, e assim, todas elas ficaram “angélicas”.

Mais tarde foi chamado a Roma, pelo Papa Eugênio IV, a fim de pintar uma capela em S. Pedro e outra no Palácio Vaticano. Posteriormente, foi proposto como Arcebispo de Florença, mas ele recusou e sugeriu seu queridíssimo prior Antonino, o qual se tornou de fato prelado dessa importante cidade da Itália. Anos depois, o religioso-artista, tornou-se prior em Fiésole. Posteriormente, voltou à Cidade Eterna, para morar no convento de Santa Maria Sopra Minerva, onde, depois de uma vida de perfeição, completou seus dias.

Em 3 de Outubro de 1982, foi beatificado pelo Servo de Deus João Paulo II.

Passados dois anos de sua beatificação, numa reunião do Ano Santo para os artistas, o Santo Padre comentou a respeito dele: “Com toda a sua vida cantou a glória de Deus, que trazia como tesouro na profundidade do seu coração e exprimia nas obras de arte. Fra Angélico permaneceu na memória da Igreja e na história da cultura, como extraordinário religioso- artista”.[2]

Apesar de sua intensa vida de ação, Fra Angélico possuía uma alma contemplativa muito privilegiada. A tradição conta-nos que a Rainha dos Anjos lhe aparecia no momento em que era retratada, fato que explica o inefável sobrenatural de suas numerosas pinturas sobre a Virgem Maria.

Além destes fenômenos místicos extraordinários, o Beato pintor possuía uma vida interior riquíssima. Sobressaiam entre as suas virtudes, a temperança e a admiração pelo sobrenatural, o que se projeta nos celestiais personagens por ele pintados. Seria sensato imaginar nosso bem-aventurado monge meditando horas prolongadas e até dias dentro do mosteiro – estando na capela ou andando no jardim, ou ainda recolhido na sua cela austera – os mistérios da Nossa Fé e as cenas que iria retratar, esquadrinhando não só os detalhes minuciosos que se notam nas suas pinturas, mas, sobretudo o imponderável metafísico e mais alto do episódio.

“Olhar para o Beato Angélico é olhar para um modelo de vida em que a arte se revela como caminho que pode levar à perfeição cristã: ele foi religioso exemplar e grande artista” (Idem). Portanto, um homem muito virtuoso que sempre procurou – através da arte pictórica – píncaros, ideais, pulcritudes, inclusive nas menores coisas.

Rei da pintura, ele é também mestre do feérico, atribuindo esplendor insuperável aos mínimos detalhes de seus quadros, a ponto de deixar o espectador encantado e preste à contemplação de suas pinturas, que por sua vez o levam à contemplação das sublimidades celestes.

Cheio de dons sobrenaturais, as habilidades naturais não lhe eram alheias. Explicam-nos os estudiosos que ele mesmoCoroaçao Fra Angelico fabricava as tintas que usava. Triturando pedras semipreciosas e misturando-as com outras substâncias, obtinha as melhores cores de sua extraordinária palheta. No entanto, ciente de ser este mundo um vale de lágrimas, cheio de pormenores desinteressantes, banais, ou mesmo esteticamente desagradáveis, o Beato Angélico soube criar um modo de atenuá-los e de torná-los pitorescos. De onde seus personagens, de certo modo, transcendem às fraquezas de nossa natureza decaída e se nos figuram quase sem marca do pecado original.

As suas pinturas são um fiel reflexo das almas arquetípicas que fizeram da Idade Média uma época impar na Cristandade. São retratados homens para os quais esta vida é antecâmara da celestial; pessoas repletas de luz, de inocência e de leveza, que provavelmente se viam na sua época…

As representações da “Madonna” são reluzentes, dotadas de um fulgor vindo do interior e que ilumina todo o seu ser e dos que a rodeiam, assim como dos que a Ela se dirigem com fervor. Nos anjos estão presentes os contrastes da fortaleza com a suavidade de espírito, harmonizando-se dentro de uma temperança perfeita. Reflete-se neles um movimento de alma para o alto, prontos para elevar-se em suas “cogitações” a Deus. Enfim, os anjos, os santos, as virgens e tudo que Fra Angélico pintou, transbordam do aspecto sacral e místico, caracterizados – dentro da santidade – pela temperança, pela inocência e pela fortaleza.

Ora, só alguém que possuísse as mesmas virtudes, fruto da meditação e da contemplação, ou seja, da oração permanente, poderia representar de maneira tão perfeita tais seres. “Nele, a arte torna-se oração”.[3] Daí, podemos concluir que toda a arte que saía do impecável pincel do Beato Angélico, não era senão um espelho cristalino das maravilhas que possuía dentro da sua alma. E assim: “Cognominado Angélico pela bondade de sua alma e pela beleza de suas pinturas ‘Fra Giovanni da Fiésole’ foi sacerdote-artista, que soube traduzir em cores a eloquência da palavra de Deus”.[4]

 


[1] SANTOS DE CADA DIA. 2 ed. Braga. Vol. I, p. 205.

[2] in: www.vatican.va

[3] Idem, p.207.

[4] Idem.